Pêro da Covilhã: Episódio Romântico do Século XV
Capítulo X
TENTANDO AS AZAS...
Recebeu D. João II as cartas, que lhe escrevera Pero da Covilhan. Occultava-se na singella narrativa do explorador um enthusiasmo, que sómente podia ser egualado ao jubilo immenso por ella produzido na alma anciosa do monarcha.
Ao terminar a leitura, exclamou D. João II a meia voz:
—Não ter Bartholomeu Dias, podido avançar!...
Reservando para si as informações ácerca da India, mandou logo espalhar a nova da existencia do Préste. E, como ás novas alegres ordinariamente se dá credito antes de sujeitas a exame, esta correu logo de bôca em bôca, e foi tão bem recebida e festejada, que não só no reino, mas na Europa, acclamaram por Préste João da India o imperador da Ethiopia.
Estava assim satisfeita uma das maiores aspirações{158} d'esse tempo—o apparecimento d'aquelle personagem legendario; e ninguem pensava em ir á India pelo mar, excepto D. João II e Colombo; este, porém, navegando pelo Occidente.
Quem entre todos teve puras e santas alegrias, foi Maria Thereza. A esperança de ver chegar Pero da Covilhan coberto de gloria, sorria-lhe agora mais viva, amaciando-lhe simultaneamente os rigores da saudade.
Approximava-se o casamento do principe D. Affonso com a filha dos reis catholicos. D. João II, extraordinario em tudo, preparava para a celebração d'aquella solemnidade as mais apparatosas festas, servindo-lhe de modelo as de seu tio o duque de Borgonha, em Lille.
A côrte estava então em Evora, porque de Lisboa a trazia afastada a peste.
No paço da velha cidade transtagana, faltava uma casa apropriada para banquetes e consoadas. Não era uma difficuldade. O já mutilado convento de S. Francisco dava para tudo.
Antes de D. Affonso V ir a Castella, pediu aos frades as casas de seus estudos para sair d'ellas ao campo; e, como gostou do sitio, tornou a pedir grande parte do convento e da horta, para no espaço occupado por essa parcella da residencia fradesca, mandar construir os paços reaes.
Continuando esta obra, D. João II ainda obteve mais, e cortou tão largamente, que ficaram os frades postos no maior apêrto.{159}
Esta amplificação dos paços, acanhando o convento, foi necessaria para se fabricar a sala dos banquetes—aquella sala de madeira,
«que ficara por memoria.
Real em tanta maneira,
de perfeição tão inteira,
de tanta mundana gloria».[8]
Um dos franciscanos, exprimindo os sentimentos da communidade, maguada do seu captiveiro e da liberdade alheia em cortar pelo convento, exclamou um dia em tom prophetico: «Quem viver verá, que os mortos, que isto deram a S. Francisco, hão de clamar e pedir justiça a Deus. Agora vão fazer-se festas, que se hão de tornar em pranto!...»
E, como se fôra acho de si mesmo, repetiu o franciscano: —«Quem viver verá!...»
A verdade é, que se não enganou.
Nem fr. João da Povoa, confessor do rei, e Vigario Provincial, poude pôr côbro ás regias extorsões, contra que se levantavam as jeremiadas do espoliado cenóbio eborense. D. João II nunca fôra attreito a sensibilisar-se com lamentações de frades.
A construcção da sala de madeira foi dirigida por Andrea Contucci, a quem o rei tinha confiado reedificar e decorar os paços. {160}
Contucci, mais conhecido pelo nome de Sansovino, o do lugar do seu nascimento, fôra enviado a Portugal por Lourenço de Medicis, a quem D. João II pedira um dos mais notaveis artistas da republica florentina.
Andrea Sansovino era môço ainda, quando veiu a Portugal. Havia já revelado o seu talento; mas unicamente com a sua segunda maneira, iniciada depois de ter chegado a Roma, em 1509, conquistou o lugar, que tão merecida e distinctamente occupa na historia da Arte.
Em architectura fôra discipulo de Cronaca; mas o bom exito de alguns trabalhos seus, como o vestibulo da egreja de San-Spirito em Florença, não o impediu de cultivar de preferencia a esculptura, para a qual tinha a mais pronunciada vocação.
O seu primeiro mestre havia sido Antonio Pollaiolo, o assassino de Domenico Veneziano, que lhe tinha ensinado o processo da pintura a oleo, ainda ignorado na Toscana, ou ao menos assim o presumira Pollaiolo. Vê-se bem, qual foi, pois o móvel do crime.
O scelerado artista era correcto no desenho, e sobretudo esmerava-se na pintura do nú, lisonjeando d'este modo o gosto de Lourenço de Medicis, seu patrono, cuja protecção mais se accentuou depois que Pollaiolo fundiu a bella medalha commemorativa da conspiração dos Pazzi, da qual Lourenço o Magnifico se salvou milagrosamente.
O Mecenas de Pollaiolo favorecia com a sua{161} poderosa influencia o triumpho simultaneo do Paganismo, do Naturalismo, e até do Sensualismo, na maioria dos productos da intelligencia humana; e, sem embargo de have-lo proclamado grande protector das lettras a universidade de Pisa, por elle fundada, o seu consulado fórma um periodo tristemente memoravel para a historia dos costumes, das artes e das proprias lettras.
É provavel, pois, que este aprendizado de Sansovino na officina de Pollaiolo determinasse a escolha de Lourenço de Medicis, para satisfazer o empenho de D. João II.
Na esculptura decorativa dos paços d'Evora, imprimiu Sansovino o cunho do seu privilegiado talento; e, na ornamentação das salas e aposentos da familia real, tocou o requinte do seu peregrino gosto artistico.
D. João II avivou com a magnificencia, e o deslumbramento das festas de Evora, as recordações do periodo medieval.
Não satisfeito por expedir por mar e por terra, agentes seus ao extrangeiro, para comprarem os brocados, as sedas, as tapeçarias, as pedras preciosas, um sem numero emfim de objectos necessarios e de luxo, mandou publicar, que tinham entrada livre de direitos em Portugal até ao termo dos festejos, todas as mercadorias de importação. Os fidalgos da côrte foram vestidos á custa do real thezouro; recebendo além d'isso, os que tomavam parte nas justas, armas e cavallo; e os que{162} entravam nos mômos e entremezes, cem a duzentos cruzados. Egualmente foi dado vestido e dinheiro aos mouros e mouras do reino, bem como ás mais galantes raparigas e foliantes mocetões do Alemtejo, que vieram com suas danças, toques e descantes concorrer todos para o luzimento e alegria das festas.
O proprio rei, franqueando ao povo a entrada na sala de madeira, appareceu-lhe invencionado no phantastico cavalleiro do cysne, o poetico aventureiro das margens do Rheno; e por outro cavalleiro mandou ler, e depois entregar á princeza, sua nora, um bréve, em que propunha a tenção de a querer servir nas festas do seu casamento, e sobre certas conclusões de amores, que defendia, desafiava em honra d'ella, para justar com seus oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.
Singular caracter o d'este monarcha!
Á carinhosa rainha D. Leonor não eram, nem podiam ser indifferentes os preparativos para a solemnidade imponentissima do casamento de seu unico filho; comtudo não a distrahiam do pensamento, que enchia de gôzo intimo a sua alma enlevada e contemplativa—a fundação da misericordia de Lisboa.
Tão piedosa e santa idéa fôra-lhe suggerida pelo seu confessor frei Miguel de Contreiras, ornamento da ordem religiosa da SS. Trindade.
De visita ao seu mosteiro de Santarem havia{163} chegado a Evora o douto e humilde trino, e veiu encontrar a sua augusta penitente, lendo o Evangelho de S. Matheus, cuja doutrina era um orvalho celeste, que penetrava no coração da devota rainha, para o purificar e tornar fecundo.
—Embóra vindes, fr. Miguel!...—disse a rainha ao receber o trinitario, que com profunda reverencia lhe beijou a mão.—Sentae-vos que muito desejo ouvir-vos ácerca da vossa Misericordia...
—Da de voss'alteza: quereis dizer...—ponderou Contreiras.
—Pois seja de ambos nós—tornou D. Leonor,—ou melhor: de Deus será esse arbusto, que vamos plantar, e que se fará—assim o espero da protecção divina—arvore frondosa, cuja sombra abrigará muitas miserias...
—Tenho fé, em que succederá, como voss'alteza espera... O terreno, em que váe fazer-se o plantio, é feracissimo, e a cultura não podia o Senhor confia-la de melhores mãos...
—Mãos de peccadora...
—Purificadas nas boas obras...—atalhou Contreiras.
—Se o Redemptor nos ensinou a enchugar as lagrimas, a dar allivio ás miserias, remedio ás necessidades, amparo e consôlo ás fraquezas, porque não hade aproveitar-nos essa lição?... Porque não seguir o exemplo do Divino Mestre?...
—Até, porque Elle nos promette a recompensa, permittindo-nos um santo interesse nas acções{164} boas que praticamos. «Bemaventurados os misericordiosos, porque elles alcançarão misericordia».
—Antes de vós chegardes, estava eu meditando essas e outras palavras do Evangelho de S. Matheus, cuja leitura me aconselhastes...
—E viu decerto voss'alteza, em todo esse quadro tão singelamente traçado pelo apostolo, quanto Jesus Christo aprecia e recommenda a misericordia...
—Vi. Nem careço de outro estimulo, para prestar todo o meu auxilio á santa instituição, que projectamos...
—Bemdito seja o Senhor, que vos inspira!...
—Sem duvida pensástes já na ordenança, que devem seguir os fieis, que em nome da caridade christã vamos congregar...
—Uni-los-ha um compromisso a que dei principio, e submetterei, depois de concluido, á censura e approvação de voss'alteza...
—Trazei-mo, sim. Muito folgarei de lê-lo, que, para o approvar, bastava ser traça vossa...
—Beijo as mãos de voss'alteza, minha Senhora e rainha, que tão grande mercê me fazeis...
A uma das portas da sala, onde D. Leonor conversava com fr. Miguel de Contreiras, appareceu Maria Thereza, a qual ia para retirar-se, mas a rainha, dando por ella, mandou-a entrar e despediu o seu confessor.
Com o donaire e o miudo pisar das andorinhas{165} correu Maria Thereza para sua ama, foi ajoelhar junto d'ella, e disse-lhe no tom mais doce e affectuoso:
—Venho pedir a voss'alteza uma grande mercê...
—Muito grande, muito grande?... Então dize lá!...—volveu carinhosamente a rainha.
—Voss'alteza sabe quanto desejo estudar e comprehender as sciencias, e o cuidado que ponho em instruir-me... Ora, se eu fosse ouvir, durante algum tempo, as lições de meu tio, lente de Canones na Universidade... Mas... agradará porventura a voss'alteza, que me auzente do paço, ainda mesmo para tal fim?...
A rainha ficou surprehendida. Fitou Maria Thereza um momento, e disse-lhe para lhe fazer gosto, e vêr o fructo de tão singular lembrança:
—Tens a minha approvação. Eu mesma te levarei a Lisboa, depois das festas do casamento.
Maria Thereza beijou com o mais vivo reconhecimento as mãos da rainha; mas, não a satisfazendo inteiramente a resposta, insistiu:
—E se eu fosse já?...
—Que trigança é essa?...
—Perdôe-me voss'alteza!... Preferia não assistir ás festas...
—Creança!... Como alcançaste a minha licença, já está a pular-te o pé!... Olha, que não é bom, ser-se impaciente...
—Se eu não agastasse a vossa'alteza!...{166}
—O que me dirás tu, que possa enfadar-me?!...
—Não sei, como confessar a voss'alteza... tudo quanto penso e sinto... e, todavia, não devo occultar, a quem para mim é mais do que mãe, qualquer segredo da minha alma... Eu, minha Senhora...
Maria Thereza não poude concluir. Tapou com as mãos os olhos, e ainda mais os escondeu, inclinando a cabeça no regaço da rainha.
D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:
—Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...
Maria Thereza ergueu a cabeça, retirou as mãos dos olhos, e baixando-os, respondeu:
—Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...
—Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...— perguntou a rainha, accentuando com grande admiração as suas palavras.
—Sim, minha Senhora—replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do coração um enorme pêso.
—Antes, porém, de o admittires... como teu servidor... não reparáste na differença de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu casamento, com quem não possa fazer a tua felicidade?...
—O que trago sempre em lembrança, minha Senhora, é o dever, de não dar um passo, que não{167} seja do real agrado de voss'alteza. O amor, que Pero da Covilhan me inspirou, não apaga do meu coração o que consagro a voss'alteza, como do coração da esposa nunca se apaga—creio—o amor da filha. Até este mais santifica e robustece o outro...
—Assim é; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas tu as tuas esperanças, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu prásme?...
—Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se elle não fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito tantas honras e mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do Oriente, por onde anda, houve já tão boas novas, que sua alteza a miude os gaba, e não esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando elle voltar, tendo cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor, não lhe faltará o cuidado, que sua alteza sóe haver com aquelles que bem o servem...
—Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores— affirmou gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as palavras, que docemente proferia, continuou: —pois bem... mandarei dizer a teu tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que desejas fugir ás festas... e faço-te a vontade...
Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente{168} Maria Thereza, que, não podendo logo articular uma palavra, cobriu de beijos e lagrimas as mãos da rainha. Momentos depois, á luz do seu espirito scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava deliberada a fazer, o de se apartar embóra temporariamente d'aquella, a quem tanto amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenções puras:
—Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por algum tempo a companhia de voss'alteza!...