Pêro da Covilhã: Episódio Romântico do Século XV
Constancia
Nunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os primeiros nove annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço eram exhibição permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de motejos deliciosos.
Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando apparecia, era unicamente por obediencia.
Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade fidalga nas salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em geral a contemplar na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos e attestada de egoismo, a tudo estão attentos, reparavam, que a Maria{144} Thereza faltava a sua natural animação, aquelle seu ar de interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como ella nem sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.
Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás suas meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de transigir um tanto ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não tornar intratavel.
Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que terá Maria Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com riso franco e jovial nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em animar-se?!...
—E o mais estranho—observou Pedro de Barcellos—é, que não occulta o seu mau humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...
—Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se insiste...—accrescentou Jorge da Silveira.
—De experimentados fallais ambos!...—atalhou D. João de Menezes
—Quem não hade gostar de Thereza!...—tornou Pedro de Barcellos.
—Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza diariamente, horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa menina!...—exclamou Gonçalo da Fonseca.{145}
Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a convivencia dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura, chamavam-lhe Gonçalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser affectuoso, mas porque lhe recordava uma amabilidade de D. João II, tão propria do caracter d'esse soberano, como o leitor vae vêr.
Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na presença do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança, senão por gracejo deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro da Silva: «se vós vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».
Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos duques de Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.
Voltemos, porém, ao ponto.
A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes, ácerca dos mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que, apparecendo Garcia de Rezende, se deu principio ao jogo dos naipes.
Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a alma, os vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam mais desagradaveis ainda, havia chegado a{146} uma janella aberta sobre um jardim. Fôra alli respirar o perfume das flôres, e esse prazer parecia infundir algum alento em seu coração entristecido. Estava fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que lhe agradeciam a confiança, embalsamando cada vez com mais delicia o ar que ella respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar sempre de alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre ella exercia a mais particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada pela rainha.
Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento passou rapidamente a seguinte exclamação:—infeliz lembrança!... E tenho de attender com fingido agrado este importuno!...
Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de duvidas, de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se debatia em ancias de tranzido amor.
O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder dizer-lhe:—como sois bella!... que expressão de pensamento profundo!... que physionomia angelica!...—e tantas outras phrases de admiração e amor, que lhe estavam a saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.
Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não logrando evitar,{147} que fosse trahido pelo olhar ardente, com que a fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu aos reciprocos cumprimentos, com esta interrogação banal:
—Não vos interessa o jogo dos naipes?
—É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz tomar hoje parte n'essa diversão—respondeu Maria Thereza.
—Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á que mereceis...
—Lisongeiro!... E porque não ides tambem tirar uma carta?...
—Porque da minha sorte sómente vós podeis decidir...—retorquiu com certa intimativa Pedro de Barcellos.
—Eu!?... Grande poder me confiais!...
—E não o quereis?...
—Para quê?...
—Para me libertardes da sujeição em que me trazeis...
—Pois crêde, que não tinha a consciencia da minha tyrannia...
—É que não quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...
—Devaneais, primo!
—Acaso tão pouco vos mereço, que mal pareça ser vosso servidor?—instou Pedro de Barcellos com forçado sorriso.
—Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas,{148} e leva a palma aos mais vaidosos em prendas de cortezão, seguro deve estar de seus merecimentos... O ar, com que fizestes essa pergunta, manifesta bem que tendes a consciencia d'elles...—redarguiu com reflexiva gravidade Maria Thereza.
—Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa; prefiro, porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso coração. Se me não julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor que vos offereço?...
—Porque nunca poderia corresponder-lhe.
—Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...
—Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.
Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João II, os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos replicou a Maria Thereza:
—Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa, de que sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:
«Por mais mal que me façais
nunca mudar me fareis
até que não me acabeis.
Minha fé, minha firmeza
Em vosso poder está;
soffrerei minha tristeza,
pois vossa mercê m'a dá.{149}
E meu bem nunca fará
mudança, nem a vereis,
até que não me acabeis.»[7]
—Bello villancete, primo!...
—Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me lembrei de recita-lo...
—E não tendes prezente composição alguma vossa?...
—Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...
—Não vos disse já, que vos estimo?...
Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos, depois de grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel a Maria Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal por causa d'ella. Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro desejo mais ardente, senão o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse anjo de graça e de bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe fazia d'ella; e terminou, perguntando-lhe com a maior formalidade:
—Porque me não concedeis a vossa mão?...
—Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...— respondeu Maria Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz o maximo respeito a Pedro de Barcellos.
Este, reconhecendo que seria importuna e pouco{150} delicada qualquer instancia, disse a Maria Thereza:
—Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem mais saberá, senão vós.
E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte villancete:
Aqui, onde vou deixar-vos,
esse vosso doce olhar
nunca me verá tornar.
Para o mar vou sem ventura,
sendo mais vosso cativo!
Serei morto, sendo vivo,
sem ver vossa formosura,
pois que a minha sorte dura
de vós me quér apartar
para nunca mais tornar.
E se bem, que me confórte,
esperar me não é dado,
melhor é ditosa morte,
que viver desesperado.
Acabe assim o cuidado
de sómente em vós cuidar,
e no vosso doce olhar!...
—É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não o divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado espirito... Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á ilha?... Crede, que fico sendo-vos muito affeiçoada...
Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já demasiado longo.{151}
Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela extrema bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como precoce. Da sua belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e isto melhor a explica, do que a mais completa das descripções. A sua orphandade contribuia tambem para ella merecer as geraes sympathias, de que gozava; mas quem verdadeiramente a extremecia era a rainha, a qual muitas vezes pensava com certa tristeza na possibilidade de perder um dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no coração diamantino da sua filha adoptiva.
D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa primazia.
Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com a sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se irresistivelmente ao respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a mulher se defende contra os perigos sociaes, e, quando sabe servir-se d'ella, triumpha e domina.
Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio aventureiro da sua época. Era dominado por um pensamento constante, que se reflectia do seu amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia passado á ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos primeiros povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago açoriano.{152}
Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario d'essa ilha, tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro muito nóbre da cidade de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se fez, das terras da Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem entre Porto Martim e os Paues das Vaccas. Tomou Gonçalo Annes posse da sua data, que era um grande condado, e voltou a Lisboa, d'onde regressou á ilha já casado com D. Mecia Annes de Andrade, filha do doutor João Machado, descendente legitimo da casa dos Ricos-homens de Entre Homem e Cavado, e por consequencia tambem rico-homem.—No principio da monarchia era essa a maior dignidade depois da Real, e aos que a possuiam, não só o rei lhes chamava primos, senão tambem estavam cobertos e assentados na sua presença; e não tomava o soberano deliberação alguma assim nas cousas da paz, como nas da guerra, sem o conselho d'elles.
Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes da Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o primeiro varão, que nasceu na Terceira.
Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado de sua mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D. Manoel, ou, com mais rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por sobrenome o nome proprio de seu páe: assim João, filho de Fernando, chamava-se{153} João Fernandes; Fernando, filho de João era Fernando Annes ou Joannes.
Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado, primeira filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente pretexto de visitar seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus parentes, que eram as principaes familias do Minho; mas em verdade com o proposito firme de apresentar a D. João II um plano, cuja realisação era o seu sonho aureo.
Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João II, a quem propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o intuito de descobrir novas terras.
Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo vehementissimo de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços de madeira lavrada, as canôas e até os cadaveres de homens de physionomia estranha, arrojados a miude aos mares do archipelago açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então pittoresco Minho, para ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não era proprio do seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel ás provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito sobre o seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do sólo.{154}
Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II, animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.
Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela sua formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento, que já lhe havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto que momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A nobre attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no coração os seus brios de homem digno.
Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo recebido com particular carinho no solar de Entre Homem e Cavado, e tornou logo para a Terceira.
Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher, largou da bahia de Angra em fins de 1491, e
sómente concluiu a sua viagem em 1495, depois de ter descoberto
a costa do Labrador.
Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em 3 de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do que elle a uma região do Novo Mundo. E assim succedeu, com effeito. O facto, porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria perduravel do insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em nada o torna superior{155}
ao nosso Pedr'Alvares Cabral, a quem a patria não fez ainda a
devida justiça.
Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos longos e penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar seus serviços tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do fallecido navegador, concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta passada em Evora, a 7 de junho de 1509. Por cartas dadas igualmente em Evora, a 20 de novembro de 1533, e por outra em Almeirim, a 22 de fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de armas a tres descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras e privilegios de nobres e fidalgos,
por procederem da geração e linhagem dos Machados, por parte de sua mãe e avós.
Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de Colombo, D. João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no desempenho da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia continuar nos preparativos de passar de novo á Africa, e chegar-lhe-iam entretanto novas da India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.
Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de suas culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização das suas maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar á India as caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria de resolver esses dois problemas.{156}
Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos; Bartholomeu Dias transpozéra o Equador, dobrára o cabo da Bôa Esperança, e chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do Oriente, foi obrigado a recuar, impellido pela mão mysteriosa do destino. É que muito embóra dois navegadores portuguezes houvessem podido sondar mares desconhecidos, era-lhes vedado frustrar os designios insondaveis da Providencia. A condemnação, a que D. João II estava sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.
Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da Covilhan, em Santarem?
Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do Estado?
Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o successor de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao visionario, quando na familia real existia um herdeiro necessario, e ainda outros com mais direito do que D. Manoel? E com que reservado intento concedeu D. João II a D. Manoel uma esphera por empreza, cuja alma era: Spera in Deo? Não parece ser um presentimento muito singular?...{157}