Pêro da Covilhã: Episódio Romântico do Século XV
Capítulo IV
O atribiliario prelado toledano comprazia-se em forjar caballas e commetter torpezas.{49}
IV
JORNADA INFELIZ
Resolveu D. Affonso V entrar em Castella pela villa de Arronches, onde mandou reunir o exercito. Antes da marcha, e conforme prescrevia o Regimento de Guerra, não só o rei, mas todos os fidalgos, que tinham de acompanha-lo, receberam a Sagrada Eucharistia, indo depois toda a hoste assistir a uma missa solemne, e sendo pelo celebrante benzida a bandeira real mettida na funda.
Terminados estes actos, ao alvorecer de um formoso dia de maio de 1475, D. Affonso V
...................«tocado de ambição
E gloria de mandar amara e bella,
Sai cometter Fernando de Aragão,
Sobre o potente reino de Castella.»[4]
{50}
Lá foram ajuntar-se com elle o duque de Guimarães, o conde de Marialva, Ruy Pereira e outros fidalgos, os quaes, atalhando pela Beira, chegaram a Piedra Buena, onde acampou todo o exercito, composto de cinco mil e seiscentos cavallos, e quatorze mil infantes. Alli mandou D. Affonso V, que tomou então o supremo commando, chamar á sua tenda o condestavel, o marechal, o ouvidor da hoste e o meirinho, bem como todos os fidalgos, cavalleiros e capitães, a quem recommendou obediencia em tudo aos quatro primeiros; verificou o numero da gente que havia, e deu as necessarias providencias no tocante á ordenança, que as tropas deviam conservar durante a marcha.
Na frente saíu o adail-mór com um troço de ginetes, formando a guarda avançada; após elle o marechal, que era o aposentador e assentador do arraial; immediatamente o capitão de ginetes, seguido pelo capitão da vanguarda real, e logo a carriagem; na rectaguarda o rei, e, cobrindo-a, o condestavel, cujo cargo exercia em parte o duque de Guimarães. Formava as alas a fina flor da cavallaria portugueza, e entre a vanguarda e a rectaguarda não mediava mais de um tiro de bésta, a fim de poderem mutuamente soccorrer-se.
Ao condestavel, que era o general da milicia, pertencia marchar na vanguarda. Na presente formatura as attribuições e preeminencias d'essa dignidade estavam repartidas por D. João, marquez{51} de Montemór, filho do duque de Bragança D. Fernando I, e por seu irmão o duque de Guimarães.
A cavallaria compunha-se de cavalleiros e escudeiros de geração nobre; de lanças, que os senhores de terras tinham obrigação de dar, acompanhando cada uma dois arqueiros, um pagem e um escudeiro; e de cavalleiros da ordenança dos povos do reino, sendo apurados conforme a contia, que devia possuir cada morador para ter cavallo e armas. Estes sómente eram reputados tropa regular e effectiva, e entravam na conta ou rezenha das praças, que constituiam os corpos chamados bésteria, denominando-se bésteiros do conto tanto os de cavallo, como os de pé.
Dividia-se a cavallaria em pesada e ligeira ou á gineta. Na primeira, o homem era arnezado, e o cavallo bardado e encapacetado. Na segunda, os cavalleiros pelejavam armados de lança e adarga, usando de estribos curtos no apparelho do cavallo.
A infanteria constava de bésteiros, espingardeiros e piqueiros de pé.
Na bésteria differençavam-se os chamados de polé, por trazerem bésta, que se armava com uma roldana d'aquelle nome; os bésteiros da camara, que eram acontiados e fornecidos pelas camaras do reino; bésteiros de garrucha, mais abastados e considerados, que os de polé, armados com bacinete de camal ou de baveira, e tendo bésta com garrucha e solhas para arremessar virotões; bésteiros{52} de fraldilha, por levarem uma fralda de couro, que lhes servia como de escudo contra as settas do inimigo; e bésteiros do monte ou caçadores.
Notaremos que o numero das armas de arremesso se reduzia cada vez mais, á medida que as de fogo triumphavam da repugnancia, com que foi acolhida, durante muito tempo, a sua invenção, mórmente pela cavallaria, que considerava cobardes similhantes armas, com especialidade as portateis. No reinado de D. João II apparece já o cargo de anadél-mór dos espingardeiros, concedido a Payo de Freitas, cavalleiro da casa real, cabendo mais tarde ao rei D. Manoel a sua vez de extinguir em 1498 os acontiados e bésteiros, tanto de conto, como da camara, todos os cargos de officiaes móres e pequenos da bésteria, deixando unicamente os bésteiros do monte em alguns lugares da Beira Alta, Alemtejo e Algarve, com um anadél-mór, que era Pedr'alves, cavalleiro da sua casa, como consta da carta de 29 de maio de 1499.
A segunda dignidade do exercito de D. Affonso V era a de marechal, a quem pertencia, além de outras obrigações e prerogativas: repartir os alojamentos; executar e fazer cumprir as ordens, que recebia do condestavel; e julgar as causas civeis e crimes das gentes de guerra, levando um ouvidor comsigo para esse fim.
O alféres-mór levava a signa ou bandeira, a qual não estendia ou desenrolava sem especial{53} determinação do rei, quando estivessem á vista do inimigo, e costumava ter um alferes pequeno, que o substituia. As bandeiras dos fidalgos não podiam tirar-se das fundas e estender-se, sem que o fosse a bandeira real; podiam, porém, ir sempre estendidos os balsões ou insignias. No guião do rei via-se a divisa que Affonso V tomára por sua mulher D. Isabel, e consistia em um rodizio de moinho com gottas de agua esparzida ao redor, e na legenda Jámais. Com oito ou dez pendões pequenos era balizado e divisado o lugar escolhido para acampar.
Havia um aposentador-mór, que de ante-mão preparava os quarteis das tropas, quando estas se mobilisavam. O capitão de ginetes era o general de cavallaria; o adail-mór, o capitão dos bésteiros; e o coudel-mór commandava escudeiros e homens de armas, que não pertenciam a capitania alguma, e eram repartidos em tróços de vinte por coudeis.
Desempenhavam o serviço e a guarda do rei vinte cavalleiros ou escudeiros, commandados por um guarda-mór. Eram escolhidos, e andavam armados de cotas, barretas, braçaes, lanças e espadas; e no tempo de paz assistiam no paço junto da real camara. Algumas vezes o soberano encarregava tambem da sua guarda o capitão de ginetes, sendo então de duzentos o numero de cavalleiros, que ficavam em tudo considerados como os da camara real.{54}
Segundo prescrevia o Regimento, os soldados ou gente de guerra deviam trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga, e tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As trombetas eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou chamadas; mas affirma Ruy de Pina, que n'esta marcha a Castella já o nosso exercito usou tambem dos atabales.
O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morósamente conduzido. Estava a cargo de um védor-mór, aprompta-lo e pô-lo em marcha.
Para este fim tinha atribuições amplas, estabelecidas em um regimento proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450. Requisitava ás auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que julgassse indispensaveis á conducção do trem, sendo depois pago o aluguer; bem como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que houvesse necessidade o serviço de artilheria, e aos quaes pagava conforme os seus merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de gastadores, para abrir caminho.
O principe D. João acompanhou seu páe até Piedra Buena, e d'aqui regressou a Portugal na mesma occasião, em que o exercito marchou para o norte, indo fazer alto em Plasencia.
D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de D. Alvaro de Ataide e do licenciado João d'Elvas, a fim de negociar o{55} seu reconhecimento como rei de Castella, e, conforme os desejos do rei de França, renovar os antigos tractados, que existiam entre as duas monarchias. Ao mesmo tempo escreveu á cidade de Salamanca uma carta sobre os direitos de sua sobrinha aos reinos de Castella e Leão, e mandou publicar um manifesto, no qual se demonstrava a justiça bem fundada, com que eram combatidas as pretensões de Isabel e Fernando de Aragão.
Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que já o esperava acompanhada dos duques de Arévalo, marquez de Vilhena e outros magnates, e foi publica e solemnemente proclamado rei, pelo que logo começou de intitular-se rei de Castella, Leão e Portugal.
Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis de Portugal; de modo que não parecia luctarem uns pela união iberica e outros contra, senão méramente para dar a presidencia d'essa união áquelle que mais afortunado fosse.
D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas se formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das diligencias de D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o favor de muitas povoações, visto serem mui versateis e caros os magnates. Em quanto o seu antagonista se divertia, conquistava ella as sympathias da classe burgueza. Percorria os seus estados. Procurava e enviava soccorros{56} ao exercito, que seu marido commandava, para conter o progresso da invasão. Assegurava a fidelidade vacillante de Leão. Entabolava as intelligencias, que lhe fizeram recobrar a importante cidade da Zamora. Reduzia o numero de inimigos, que tinha na depravada e cupida aristocracia. Lançava finalmente mão do thezouro de Castella, confiado á guarda do célebre Andrés de Contrera, a quem mais tarde brindou com o Marquezado de Moya.
Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplação com o duque de Arévalo, senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro estrategico; pois, segundo Zurita, «foi de grande remedio para a conservação do estado do rei da Secilia, e seria de grande prejuizo, se a entrada se effectuasse pela Andaluzia, direito a Sevilha». Seguindo este caminho, penetrava logo no interior do reino, e fazia-se fórte em Madrid, como lhe aconselhou o marquez de Vilhena, que se mostrou descontente por não ser attendido, e tomou este pretexto para se retirar do serviço do rei. Era de esperar, todavia, que esse magnate assim procedesse mais cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se declarado a maior parte de seus vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que os corrompeu a peso de ouro, intimidou-o essa arteira tactica, e determinou-o a propalar, que já estava de accordo com D. Fernando e sua mulher.
Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se{57} a miude as incursões de nossos visinhos. Até o primogenito do duque de Medina Sidonia, o duque D. Henrique, môço mais audacioso do que prudente, fez uma entrada em Portugal, como se fosse em terras de mouros.
Este rebentão dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco depois da jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se ás astucias de D. Isabel, que lhe prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com o marquez de Cadiz.
E sabe o leitor, quem levou á rainha da Secilia a noticia d'aquella jornada de D. Juan de Guzman?
—O velho mendigo, que nós vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um espião.
Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o principe D. João descobrir a campanha por homens praticos no paiz, escoltados de alguma cavallaria; collocar sentinellas occultas nos lugares suspeitos, para avisarem das partidas do inimigo; cortar as estradas das serras com patrulhas, a fim de embaraçarem os castelhanos, que de ordinario se emboscavam por entre os arvoredos e quebradas do terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos males, cuidando ao mesmo tempo da conservação e defesa do reino.
Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para premio de seus serviços, foi agraciado com o titulo de conde de Penamacor,{58} saiu emfim D. Affonso V d'aquella cidade com a rainha, a quem o nosso exercito agora principalmente resguardava. Marchou por Arévalo em direcção a Toro, não sem o inimigo estar bem informado ácerca do movimento do exercito; o que certamente não convinha, a quem era chamado e levado para soccorrer.
O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia, n'esta empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque não podemos denominar campanha, ao que não passou de correrias mais ou menos afortunadas, de uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha campal, digna d'esse nome, e em que ficasse lavrada a sentença do pleito.
Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o só no perigo, em que o metteram. Quando elle, porém, foi estabelecer os seus quarteis de inverno em Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o arcebispo de Toledo, o qual sempre inconsequente e inconstante, sendo convidado por Isabel a auxilia-la com os seus homens de armas, respondeu com a soberba peculiar do seu estado e do seu paiz: que a tinha livrado de fiar, mas havia de manda-la outra vez pegar na roca.
De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse vê-lo, pois muito carecia de conferenciar com elle. Já o principe se tinha posto a caminho, quando o monarcha soube, que os alcaides das duas torres, que defendiam a ponte{59} sobre o Douro, á entrada de Zamora, se tinham vendido ao inimigo, concertando-se em prender ou matar D. João na sua passagem por ella. Immediatamente communicou D. Affonso V a seu filho, então já em Miranda do Douro, o traiçoeiro plano, em virtude do qual não devia avançar. Foi portador do recado o capitão de ginetes da guarda real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio a nado, para se furtar á vigilancia do inimigo.
Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte á viva força, mas não o poude conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se permanecesse com a rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais temor, que confiança, os habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro, onde tanto elle como a rainha foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.
Fernando de Aragão, que não tinha ousado mostrar-se ao seu adversario, em quanto elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu empenho principal era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro, tendo tomado á força uma torre nas cercanias, e feito enforcar trinta dos defensores d'ella, para dominar pelo terror a seus inimigos. De cima dos muros de Toro riram-se d'essa façanha, e cobriram de motejos o auctor, o qual aceso em ira, mandou por um rei de armas desafiar D. Affonso V, que não tornou á requesta. Então Fernando foi sitiar o{60} castello de Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia, onde não havia esperança de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu de Toro em som de guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor. Fez alto em frente da fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas horas, retirava já para Toro, por lhe parecer que Fernando saía a pelejar com elle; mal, porém o viu fóra da cidade, aguardou-o no campo outra vez em vão. Fernando escreveu em seguida varias cartas, em que blasonava de não ter querido D. Affonso espera-lo e até fugira. Tendo o nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma carta de Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na fórma costumada, sem lograr que lhe dessem resposta.
Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso V e D. Fernando. Para segurança do feito, D. Affonso poria em refens a rainha Joanna, e D. Fernando a rainha Isabel. Fernando não concordou, allegando haver grande desigualdade no penhor.
D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que já tinha, a contenda não se acabaria, pois de futuro novamente se levantava; sendo certo que, escusar-se o seu adversario a convir em taes condições, fazendo questão de igualdade das pessoas, era confessar que não queria{61} o combate, como á honra de ambos convinha. Interpôz a sua mediação o cardeal de Castella, D. Pedro de Mendoza; mas não poude conseguir-se o accôrdo sobre as condições da paz.
Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o principe D. João a Toro, trazendo a seu páe dois mil cavallos, oito mil infantes e dinheiro. Não era demasiado soccorro, para quem tanto carecia de engrossar o seu exercito, pois D. Affonso V fôra abandonado pelos magnates, á medida que a sua causa se tornara cada vez mais duvidosa, permanecendo-lhe fiel apenas o arcebispo de Toledo.
Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio portuguez, como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no coração do seu orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.
A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista, depois da traição da ponte, sómente poderia realizar-se, tomando as torres e conseguindo o descêrco do castello. Mas de que forças numerosas não seria necessario dispôr, para effectuar duas operações, iguaes ambas na difficuldade!
D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte.
—Para que?
Tomando essa posição de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde tremulava ainda a bandeira{62} portugueza, pois tinha de permeio o rio, invadiavel para a cavallaria. Se tentava provocar o inimigo a uma batalha, devia suppôr, que este o não buscaria senão com uma superioridade conhecida, estando, como estava, bem entrincheirado, e tendo cobertas todas as communicações importantes.
Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte de Toro; e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimarães e o conde de Villa Real ao serviço da rainha, com a guarnição militar, que pareceu bastante, approximou-se da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto e assentou o arraial.
Ficar pérto do lugar cercado, era não só condição imposta pelo pequeno alcance das bôcas de fogo, mas preceito do Regimento de guerra, para fazer maior coração aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte estava enfiada pela nossa artilheria.
Cruzáram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o damno, que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena trégoa para concertos de paz; inutilmente, porém, visto não se suggerir meio conciliador, de que não desdenhassem as prosapias dos negociadores d'ella. A sêde de sangue causada pela febre guerreira, em que uns e outros ardiam, tornava-se cada vez mais insaciavel. E comtudo nenhum dos exercitos podia invejar ao outro a sua situação. O{63} nosso, além de luctar com as dificuldades inherentes a uma guerra feita em paiz extranho, tinha mais um inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao passo que as chuvas e neves o iam já desimando, começava a falta de viveres a fazer-se sentir. Consumia-se emfim inutilmente.
Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de que Fernando de Aragão fizera uma sortida sobre Toro na margem direita do Douro. D. Affonso V levantou apressádamente o cêrco, para atalhar o passo ao inimigo, e foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade, onde mandou recolher o parque e a peonagem. Soube o principe durante a marcha, que Fernando não havia saido de Zamora, mas tinha para o bater, em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de seiscentas lanças, commandadas pelo duque de Villa Formosa, irmão bastardo de Fernando. D. João obliquou á direita, desviando-se assim da direcção, que tomára seu páe, e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanças.
Havia o nosso exercito acabado de transpôr um monte, e o inimigo, que começava então a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos nossos, a ordem com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a nossa rectaguarda com algumas cargas ligeiras de cavallaria.
Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este á rectaguarda; mas D. João, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde{64} lhe deram a nova, pois tão apertado era, marchou para a planicie, e ficou esperando, que o inimigo ali descesse mais despejadamente.
D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, não teve tempo de formar as suas reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuição d'ellas fosse, quanto possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as em duas grandes fracções. Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao principe o da outra, em que ficou a flor da cavallaria portugueza.
Os castelhanos avançaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, vindo na reserva Fernando de Aragão; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda o cardeal Mendoza.
Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanças, pois que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de dispôrem finalmente de infanteria mais numerosa.
Note-se, que na edade média não se conhecia toda a importancia da arma de infanteria, nem a grande força, que lhe provém da ordem e uniformidade de seus movimentos. Dava-se quasi exclusivo apreço á cavallaria, olvidando-se a maxima dos antigos, prudentemente restaurada pela illustração militar dos nossos tempos, de que a infanteria é o agente principal do combate, ou, como{65} poeticamente dizem alguns, a rainha das batalhas. A própria qualidade dos exercitos, compostos de nobreza valente e déstra, mas pouco subordinada, bem como dos contingentes tumultuarios das cidades, era incompativel com a disciplina e outros requisitos essenciaes da sua organisação. N'este encontro de Toro, comtudo, os castelhanos empregaram com proveito a sua infanteria ao encetar do prelio; mas o seu exercito, embora aguerrido, não soube mostrar-se disciplinado.
Amanhecera triste e sombrio o dia dois de março de 1476. Quando os dois exercitos occupavam as suas posições para travar a lucta, devia o sol têr-se posto, e a claridade crepuscular era embaciada por uma chuva miuda e persistente.
Duas vezes as hostes affonsinas fizeram rosto ao inimigo, como quem o convidava a pelejar, até que, vendo D. Affonso V a perplexibilidade do adversario, mandou dizer ao principe, que ao signal do combate, dado pelas trombetas, fosse o primeiro a romper.
Fez-se o toque. Aos gritos de guerra, por S. Jorge e S. Christovão, invéste D. João com a sua hoste. Oppõe-se-lhe D. Alvaro de Mendoza, clamando com os seus por S. Thiago e S. Lazaro.
Os castelhanos avançaram com denodo sobre a hoste do principe, mas obrigou-os a recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo d'Evora D. Garcia de Menezes. Aproveitando a hesitação, em que ficou o inimigo, a nossa cavallaria,{66} como se fôra uma forte muralha de lanças, animada de extrema velocidade, carregou impetuosa, irresistivel, sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando quantos tentaram quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de bravos, com o principe real á sua frente, paralysou, desorganisou, pôz na mais completa debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior á carnificina, que em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o effeito moral d'esse choque violentissimo, que percutiu até a reserva do inimigo. E por isso Fernando de Aragão—um moço de vinte e seis annos!—que, para não expor a vida á contingencia de um golpe do seu adversario, se collocára a respeitosa distancia, mal viu approximar-se a hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas de cavallo para Zamora, sem tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a pista, e salvando-o a sua boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos cavalleiros, que correram sobre elle.
Na ala direita D. Affonso V não póde cruzar tambem a sua espada com a do rei da Secilia, porque a não vê na sua frente; mas não lhe soffre o animo tê-la embainhada, e lança-se no combate.
Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da cavallaria; rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanças arremessadas com furia; retingem-se de sangue as{67} espadas nos crébros golpes; relincham os ginetes, discorrendo pela campanha, alliviados do peso dos cavalleiros, que cairam ou mortos ou agonisantes; resoam, similhando rugidos de feras, as vozes dos combatentes; soltam gritos de dôr cruciantissima os feridos, sem que possa acudir-lhes a caridade, e servindo antes de estimulos para a vingança; é emfim renhida, desesperada, horrivel a refréga. Não cessa do ardor, com que começou de accender-se, e a victoria duvida, se ha de inclinar-se á parte da multidão, ou á do esforço.
Corre o Cardeal Mendoza a reforçar o duque de Alva, e o arcebispo de Toledo em auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a cavallo—o que para a nossa hoste era uma novidade—dão uma descarga, que fez hesitar um momento a cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o adversario empregado aquelle ultimo recurso, sem duvida reservado para o momento decisivo, logo recrudesceu mais viva e encarniçada a peleja.
Partem-se as lanças, e as espadas são agora as armas dos combatentes no ultimo choque.
D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado expôr ás contingencias d'este dia a decisão da causa, que se impugnava. Era pois a morte ou a gloria o escopo unico d'aquelle
«Que a suberba do barbaro fronteiro
Tornou em baixa, e humillima miseria.»
Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias,{68} mas os cavalleiros portuguezes e castelhanos, que junto d'elle estavam, percebendo-lhe a intenção ao vê-lo preparar o corcel, detiveram-n'o; e, fazendo-lhe vêr a superioridade numerica do inimigo a par do denodo, com que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na bainha.
Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos nossos, não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se a Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante: acertada resolução esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não era provavel o inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto planear com Pedro de Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do ultimo conflicto.
Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa quantia, para que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua visinhança tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis relações com elle. Por isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em que se encontrava, praticou um acto de boa politica, indo ter com um homem de tanto valor, e que lhe era dedicado. É claro, que nem pela cabeça lhe passou a idéa, de que o principe real fosse derrotado, tal era a confiança{69} que depositava no valor de seu filho e no dos companheiros, que lhe deu.
Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um porque fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega. Ficou victorioso d'elle o principe D. João, que mandou recolher os feridos e os prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste, tio de Fernando de Aragão.
Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque estava fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para entrar o principe, vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua temeridade, pois que elle ia de monte a monte. Os golpes do ferro inimigo não victimáram tantos, como a corrente impetuosa do Douro. Foram outros, mais prudentes, unir-se ao
principe, e entre esses o escudeiro Gonçalo Pires, levando a
bandeira real, que por instantes tremulára na mão de um
castelhano.
Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade, que tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe arrebataram depois de uma lucta titanica.
Singulares contrastes!
Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria, onde dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o appellido de Bandeira; a{70} outra, o cognome de Decepado a Duarte de Almeida.
«Cercado por toda a parte
Sua espada se partiu.
Por guardar seu estandarte,
D'arma o estandarte serviu:
A dextra mão jaz por terra,
O seu guante a não guardou;
O pendão na sextra aferra,
E a mão perdida vingou:
Outro golpe lhe sepára
A sextra mão que segura
A bandeira, que jurára
Conservar intacta e pura:
Nem assim perde a bandeira,
N'hastea dura os dentes crava,
Quando lança traiçoeira
Seu ginete lhe prostava:
Cahe no chão o cavalleiro
Sem vida, quasi expirando,
E ficou prisioneiro
D'illustre rey Dom Fernando.
Mas a bandeira regada
Pelo sangue portuguez,
Por Goncal'Pires livrada
Breve foi, logo outra vez.»
Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de Almeida é sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma era larga porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o honrado cavalleiro resiste sempre! Cáe emfim; mas não quer a Providencia, que por aquellas feridas se esgote sangue tão generoso, e sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço tão desusado.{71}
A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois per força e como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a levava (a bandeira), e o prendeo sobre sua
menagem [5] , abrindo a golpes de espada caminho por entre os cavalleiros, que já iam correndo na companhia d'aquelle em direcção a Zamora.
Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres dias, ou aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso mandou accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.
O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma deliberação.
Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem mercenaria do exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre umas pedras, descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.
—Cães de portuguezes!—grunhia um.—Por causa d'elles fizeram de nós morcêgos!...
—Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de Malaga!—tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava, levando o cavallo á mão.
—Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar— observou o outro, sem nenhuma{72} curiosidade de saber, quem era o seu interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.
—Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles malditos!—exclamou o cavalleiro.—Mas, Virgem Santissima! o que estaremos nós aqui a fazer?—perguntou o primeiro, como se uma idéa fixa estivesse a verrumar-lhe o entendimento.
—Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...
—Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça.
—Fugiu, não direi... Retirou...
—Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do campo sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da Beltraneja, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na direcção, que levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.
—Sim, é o mais certo;—replicou em tom indifferente o cavalleiro.
Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a cavallo, e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.
Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se concentravam no acampamento{73} sem apparencia de receosos, valeu-se do silencio e sombras da noite, e retirou com o exercito para Zamora.
D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo de Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a bandeira de D. Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem mostrar préssa na marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.
Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do que pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de Pelayo Gonçalo. E tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio de melindrar o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de Guimarães, com a sua liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.
—Não merece—exclamou alto e bom som—o nome de cavalleiro, quem abandona o seu rei, e o não segue na vida ou na morte!
E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:
—O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e páe?
Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. João, appareceu Pero da Covilhan, e disse ao principe:{74}
—El-rei, vosso Páe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e são está, por isso sejais tranquillo.
—E onde está el-rei, nosso senhor?!...—perguntou com alvoroço o principe real.
—Em Castro Nunho.
—Quem nos trouxe tão bom recado?
—El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.
A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de trombetas e atabales, repiques de sinos, e outras demonstrações de alegria, feitas pela classe popular. E sem demóra igualmente mandou o principe sair para Castro Nunho uma guarda de honra composta de numerosos cavalleiros, a fim de acompanharem D. Affonso V a Toro.
Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presença junto do rei, pois, desde o cêrco da ponte de Zamora, militava na hoste do principe, havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa refrega, em que conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.
Preveniu o principe a explicação, perguntando ao moço escudeiro:
—Como soubéstes, que el-rei, meu páe, estava em Castro Nunho?
—Facilmente, meu senhor—respondeu Pero da Covilhan com a maior naturalidade.—Quando caíu a noite, comecei de inquietar-me, por vêr, que em nosso campo não havia de el-rei novas, nem{75} mandados. Ancioso de buscar sua alteza, era dominado por um triste presentimento. As trévas da noite, e a confusão que reinava no campo contrario, poderiam talvez favorecer quaesquer pesquizas, que eu tentasse. Lembrei-me, de que me auxiliaria a facilidade, com que fallo os dialectos de Hespanha, e fui á ventura.
—Esquecestes, porém, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a vida—atalhou o principe.
—Não me occorreu, com effeito, a idéa d'esse perigo, pois a que imperava unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a voss'alteza.—A poucos passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando caminhava na direcção da margem do rio, ouvi fallar uns biscainhos. Abeirei-me d'elles. Eram bésteiros do inimigo, que estavam em descanço. Quasi não repararam em mim. Tomaram-me naturalmente por seu convisinho, e, trocando comigo algumas palavras, um d'elles affirmou ter el-rei retirado do campo para os lados de Castro Nunho. Corri logo a verificar isto, e lá entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe já voss'alteza. Agora, meu Senhor, peço-vos perdão de me ter afastado do acampamento sem licença de voss'alteza.
—Perdoado estais, que digno de louvor é o acto por vós praticado; e, se alguma culpa houvesseis, resgatada fôra já pelo valor e brio, com que pelejastes a meu lado.{76}
—Beijo as mãos de voss'alteza por mais esta mercê...
Não olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicação de Pero da Covilhan, como veremos.
O principe, depois de conferenciar com seu páe em Toro ácerca da desgraçada guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho, regressou a Portugal; e o rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem pensar que o revéz de Toro fôra o occaso de sua gloria guerreira. Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no caminho de Medina, ter-lhe-iam caido nas mãos, se a fortuna, para elles tão prodiga, não fosse para o seu competidor tão adversa.
Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertões da Africa nunca temera a morte.
Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para ser instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da expiação. Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar vingança eterna do sangue derramado em Alfarrobeira.
Justiça da Providencia!{77}