Piloto de Guerra
Piloto de guerra
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Todavia, essas incursões de tanques que circulam à vontade, por falta de carros que se oponham , acarretam consequências irreparáveis, ainda que só operem destruições aparentem ente superficiais (tais com o capturas de Estados-Maiores locais, rupturas de linhas telefônicas, incêndios de vilas). Eles fazem o papel de agentes quím icos que destruiriam não o organism o, m as os nervos e os gânglios. No território que varreram com o um raio, todo o exército, m esm o que pareça quase intacto, perdeu o caráter de exército. Transform ou-se em grum os independentes. Onde existia um organism o, resta apenas um a som a de órgãos cuj as ligações estão rom pidas. Depois, entre os grum os — tão com bativos quanto o forem os hom ens —, o inim igo avança com o quer. Um exército deixa de ser eficaz quando não passa de um a som a de soldados.
Não se fabrica um m aterial em quinze dias. Nem m esm o… A corrida aos arm am entos só podia sair perdedora. Nós éram os quarenta m ilhões de agricultores diante de oitenta m ilhões de industriais.
Nós opom os ao inim igo um hom em contra três. Um avião contra dez ou vinte e, a partir de Dunquerque, um tanque contra cem . Não nos dam os ao luxo de m editar sobre o passado. Assistim os ao presente. O presente é este. Nenhum sacrifício, j am ais, em nenhum lugar, é suscetível de retardar o avanço alem ão.
Assim reina, da cúpula à base das hierarquias civis e m ilitares, do encanador ao m inistro, do soldado ao general, um a espécie de m á consciência que não sabe nem ousa form ular-se. O sacrifício perde toda a grandeza se for tão som ente um a paródia ou um suicídio. É bonito sacrificar-se: alguns m orrem para que outros sej am salvos. Fazem os a parte do fogo no incêndio. Lutam os até a m orte nas trincheiras, para dar tem po aos salvadores. Sim , m as o fogo, o que quer que se faça, tom ará tudo. Mas não há cam po onde se entrincheirar. Mas não há o que esperar de salvadores. E aqueles pelos quais com batem os, pelos quais pretendem os com bater, parece que, sim plesm ente, provocam os seu assassinato, pois o avião, que esm aga as cidades atrás das tropas, m udou a guerra.
Ouvirei m ais tarde estrangeiros recrim inarem a França pelas pontes que não destruiu, as vilas que não queim ou e os hom ens que não foram m ortos. Mas é o contrário, é exatam ente o contrário que m e choca tanto. É nossa im ensa boa vontade em nos tapar olhos e ouvidos. É nossa luta desesperada contra a evidência. Em bora nada adiante de nada, explodim os as pontes ainda assim , para j ogar o j ogo. Queim am os verdadeiras vilas para j ogar o j ogo. É para j ogar o j ogo que nossos hom ens m orrem .
Claro que os esquecem os! Esquecem os pontes, vilas, deixam os viver hom ens. Mas o dram a dessa derrota é tirar todo o significado dos atos. Sej a quem for que faça explodir um a ponte, não o fará sem desgosto. Esse soldado não atrasa o inim igo: ele fabrica um a ponte em ruína. Estraga seu país para daí tirar um a bela caricatura de guerra!
Para que os atos sej am ardentes, é preciso que seu significado apareça. É bonito queim ar as colheitas que enterrarão o inim igo sob suas cinzas. Mas o inim igo, apoiado em suas cento e sessenta divisões, zom ba de nossos incêndios e de nossos m ortos.
É preciso que o significado do incêndio da vila equilibre o significado da vila. Entretanto, o papel da vila queim ada não passa de um papel caricatural.
É preciso que o significado da m orte equilibre a m orte. Os hom ens batalham bem ou m al? É a própria questão que não tem sentido! Sabem os que a defesa teórica de um vilarej o aguentará três horas! Os hom ens, todavia, têm ordem de resistir. Sem m eios para com bater, solicitam eles m esm os ao inim igo que destrua essa vila, a fim de que sej am respeitadas as regras do j ogo da guerra. Com o o am ável adversário de xadrez: “Você esqueceu-se de pegar o peão…”.
Desafiarem os então o inim igo:
— Som os os defensores desta vila. Vocês são os assaltantes. Ataquem !
A questão foi com preendida. Um a esquadrilha, num a pisada, esm aga a vila.
— Pois bem !
Há, decerto, hom ens inertes, m as a inércia é um a form a frusta do desespero. Há, decerto, tam bém , hom ens que fogem . O com andante Alias m esm o, duas ou três vezes, am eaçou com seu revólver esfarrapados m órbidos, reencontrados nas estradas, que respondiam de través a suas perguntas. A gente tem tanta vontade de ter nas m ãos o responsável por um desastre e, suprim indo-o, salvar tudo! Os hom ens em fuga são responsáveis pela fuga, pois não haveria fuga sem hom ens em fuga. Se brandirm os o revólver, tudo dará certo… Mas seria enterrar doentes para suprim ir a doença. O com andante Alias, no fim das contas, recolhia o revólver, revólver esse que, a seus próprios olhos, tom ara um aspecto pom poso dem ais, com o um sabre de ópera côm ica. Alias sentia que os soldados m órbidos eram efeitos do desastre e não suas causas.
Alias bem sabe que aqueles hom ens são os m esm os, exatam ente os m esm os que, alhures, hoj e ainda, aceitam m orrer. Cento e cinquenta m il, há quinze dias, aceitaram . Mas há cabeças-duras que exigem que lhes forneçam um bom pretexto.
É difícil form ular.
O corredor vai correr a corrida de sua vida contra corredores de sua classe. Mas ele vê, desde a partida, que arrasta no pé um ferro de condenado. Os concorrentes estão leves com o asas. A luta não significa m ais nada. O hom em se abandona:
— Isso não vale!
— Vale sim ! Vale sim !
O que inventar para convencer o hom em a engaj ar tudo de si m esm o num a corrida que j á não é um a corrida?
Alias bem sabe o que pensam os soldados. Eles pensam assim :
— Isso não conta…
Alias guarda seu revólver e procura um a boa resposta.
Só há um a boa resposta. Um a única. Desafio qualquer um a encontrar outra:
— Sua m orte não m udará nada. A derrota está consum ada. Mas convém que um a derrota se m anifeste por m ortos. Tem de ser um luto. Vocês estão a serviço para desem penhar o papel.
— Positivo, Com andante.
Alias não despreza os fugitivos. Ele sabe m uito bem que sua resposta certa sem pre bastou. Ele m esm o aceita a m orte. Todas as suas tripulações aceitam a m orte. Bastou, para nós tam bém , essa boa resposta, m al disfarçada:
— É m uito chato… Mas eles fazem questão, no Estado-Maior. Querem m esm o… É assim …
— Positivo, Com andante.
Eu creio m uito sim plesm ente que aqueles que estão m ortos servem de caução aos outros.
XIV
Envelheci tanto, que deixei tudo para trás. Olho a grande lâm ina espelhada da m inha vitrine. Ali em baixo, estão hom ens. Infusórios num a lâm ina de m icroscópio. Podem os nos interessar pelos dram as de fam ília de infusórios?
Não fosse por essa dor no coração que m e parece viva, afundaria nos m eus vagos devaneios, com o um tirano envelhecido. Há dez m inutos, eu estava inventando essa história de figurante. Era falso de vom itar. Quando vi os caças, pensei em ternos suspiros? Pensei em vespas pontudas. Isso sim . Minúsculas, essas porcarias.
Pude inventar sem desgosto essa im agem de vestido de cauda! Não pensei num vestido de cauda, pela sim ples razão de que j am ais vi m inha própria trilha! Desta carlinga onde estou encaixotado com o um cachim bo no estoj o, m e é im possível observar qualquer coisa atrás de m im . Eu olho para trás pelos olhos de m eu artilheiro. E ainda assim ! Se os laringofones não estiverem quebrados! E m eu artilheiro nunca m e disse: “Aí estão nossos pretendentes apaixonados, que seguem a cauda de nosso vestido…”.
Não há aí m ais do que ceticism o e m alabarism o. Decerto, eu gostaria de crer, gostaria de lutar, gostaria de vencer. Porém , por m ais que se finj a crer, lutar e vencer incendiando suas próprias cidades, é m uito difícil tirar algum a exaltação disso.
É difícil existir. O hom em é apenas um nó de relações e eis que m eus laços não valem m ais grande coisa.
O que há em m im que não funciona? Qual é o segredo das trocas? Com o, noutras circunstâncias, o que m e é agora abstrato e longínquo, consegue m e transtornar? Com o, de um a palavra, um gesto, conseguem fazer infinitas voltas num destino? Com o, se eu fosse Pasteur, o j ogo dos próprios infusórios poderia m e tornar patético a ponto de um a lâm ina de m icroscópio m e parecer um território tão vasto quanto a floresta virgem e m e perm itir viver, debruçado sobre ela, a m ais alta form a de aventura?
Com o esse ponto negro que é um a casa de hom ens, lá em baixo…
E m e vem um a recordação.
Quando eu era m enino… Rem onto longe na m inha infância. A infância, esse grande território de onde cada um veio! De onde sou? Sou da m inha infância. Sou
da m inha infância com o de um território…* Então, quando eu era m enino, vivi um a noite um a experiência divertida.
Eu tinha cinco ou seis anos. Eram oito horas. Oito horas, a hora em que as crianças devem dorm ir. Sobretudo no inverno, pois j á é noite. No entanto, tinham m e esquecido.
E havia no térreo dessa grande casa de cam po um vestíbulo que m e parecia im enso e para o qual dava o côm odo quente onde nós, as crianças, j antávam os. Eu sem pre tivera receio daquele vestíbulo por causa, talvez, do abaj ur fraco que, perto do centro, m al o tirava de sua escuridão, parecia m ais um sinal do que um abaj ur por causa dos lam bris, que estalavam no silêncio, e tam bém do frio. Pois ali se desem bocava de côm odos lum inosos e quentes, com o se fosse num a caverna.
Mas naquela noite, vendo-m e esquecido, cedi ao dem ônio do m al, ergui-m e sobre a ponta dos pés até a m açaneta da porta, em purrei-a devagarinho no vestíbulo e fui, fraudulento, explorar o m undo.
Os estalos dos lam bris, entretanto, pareceram -m e um aviso da cólera celeste. Via vagam ente, na penum bra, os grandes painéis reprovadores. Não ousando prosseguir, subi com o deu num aparador e, com as costas apoiadas na parede, fiquei ali, com as pernas pendentes, o coração batendo, com o fazem todos os náufragos em seu recife em pleno m ar.
Foi então que se abriu a porta de um a sala e, dois tios, os quais m e inspiravam um terror danado, fechando aquela porta atrás de si, no burburinho e sob as luzes, com eçaram a peram bular no vestíbulo.
Eu trem ia de ser descoberto. Um deles, Hubert, era para m im a im agem da severidade. Um delegado da j ustiça divina. Aquele hom em , que nunca dera um peteleco num a criança, m e repetia, franzindo as sobrancelhas terríveis, por ocasião de cada um de m eus crim es: “Da próxim a vez que eu for à Am érica, vou trazer um a m áquina de chicotear. Aperfeiçoaram tudo na Am érica. É por isso que as crianças, lá, são tão com portadas. E é um grande sossego para os pais…”.
Eu não gosto da Am érica.
Eles peram bulavam , sem m e ver, de um lado para outro, naquele vestíbulo glacial e interm inável. Eu os seguia com os olhos e os ouvidos, prendendo a respiração, tonto. “Na presente época”, diziam eles… E se afastavam com seu segredo de gente grande e eu pensava com igo: “A presente época”. Depois, eles voltavam com o um a m aré que tivesse, de novo, arrastado para a m inha direção os seus tesouros indecifráveis. “É insensato, dizia um ao outro, é efetivam ente insensato.” Eu recolhia a frase com o um obj eto extraordinário. E repetia lentam ente para testar o poder daquelas palavras na m inha consciência de cinco anos: “É insensato, efetivam ente insensato…”.
Então, a m aré afastava os tios. A m aré os trazia de novo. Aquele fenôm eno, que m e abria perspectivas ainda m al esclarecidas sobre a vida, reproduzia-se com um a regularidade estelar, com o um fenôm eno de gravitação. Eu estava bloqueado no m eu aparador, para a eternidade, ouvinte clandestino de um concílio solene, durante o qual m eus dois tios, que sabiam tudo, colaboravam para a criação do m undo. A casa podia durar ainda m il anos, os dois tios, durante m il anos, oscilando ao longo do vestíbulo com a lentidão de um pêndulo de relógio, continuariam a dar-lhe o gosto de eternidade.
Este ponto que estou olhando é sem dúvida um a casa de hom ens, a dez quilôm etros abaixo de m im . E eu nada recebo dela. No entanto, trata-se, talvez, de um a grande casa de cam po, onde dois tios dão cem passos e constroem , lentam ente, num a consciência de criança, algum a coisa tão fabulosa quanto a im ensidão dos m ares.
Descubro, dos m eus dez m il m etros, um território da envergadura de um a província; todavia, tudo encolheu até sufocar-m e. Disponho aqui de m enos espaço do que disporia nesse grão escuro.
Perdi o senso de vastidão. Estou cego à vastidão. Mas é com o se tivesse sede dela. E m e parece tocar aqui um denom inador com um a todas as aspirações de todos os hom ens.
Quando um acaso desperta o am or, tudo se ordena no hom em segundo esse am or, e o am or lhe traz o senso de vastidão. Quando eu m orava no Saara, se árabes, surgindo à noite em volta de nossas fogueiras, advertiam -nos sobre am eaças longínquas, o deserto se enlaçava e ganhava um sentido. Aqueles m ensageiros tinham construído sua vastidão. Assim é para o sim ples cheiro de arm ário antigo, quando desperta e encadeia lem branças. Patético é o senso de vastidão.
Mas eu com preendo tam bém que nada do que diz respeito ao hom em se conta, nem se m ede. A verdadeira vastidão não é para o olhar, só é concedida ao espírito. Valha o que vale a linguagem , pois é a linguagem que enlaça as coisas.
E m e parece doravante entrever m elhor o que é um a civilização. Um a civilização é um a herança de crenças, de costum es e de conhecim entos lentam ente adquiridos durante séculos, difíceis às vezes de j ustificar pela lógica, m as que se j ustificam por si m esm os, com o os cam inhos, se conduzirem a algum lugar, pois abrem ao hom em sua vastidão interior.
Um a m á literatura nos falou da necessidade de evasão. Claro, nós fugim os em viagem em busca da vastidão. Mas a vastidão não se encontra. Ela se funda. E a evasão nunca levou a lugar algum .
Quando o hom em precisa, para sentir-se hom em , correr em com petições, cantar em coro ou fazer guerra, são j á os laços que ele se im põe a fim de ligar-se a outrem e ao m undo. Mas, coitados! Se um a civilização é forte, ela com pleta o hom em , m esm o que ele estej a ali im óvel.
Num a certa cidadezinha silenciosa, sob a m elancolia de um dia de chuva, vej o um a enferm a enclausurada que m edita j unto à sua j anela. Quem é ela? Que foi feito dela? Julgarei a civilização da pequena cidade pela densidade dessa presença. Que valem os, um a vez im óveis?
No dom inicano que reza há um a presença densa. Esse hom em nunca é tão hom em com o quando está prosternado e im óvel. Pasteur retendo a respiração sobre seu m icroscópio é um a presença densa. Pasteur nunca é tão hom em com o quando observa. Então, ele progride. Então, ele se apressa. Então avança com passo de gigante, ainda que im óvel, e descobre a vastidão. Assim Cézanne, im óvel e m udo, diante de seu esboço, é de um a presença inestim ável. Ele nunca é tão hom em com o quando se cala, experim enta e avalia. Então, sua tela se torna m ais vasta do que o m ar.
Vastidão concedida pela casa da infância, vastidão concedida por m eu quarto em Orconte, vastidão concedida a Pasteur pelo cam po de seu m icroscópio, vastidão aberta pelo poem a, tantos bens frágeis e m aravilhosos que som ente um a civilização distribui, pois a vastidão é para o espírito não para os olhos, e não há vastidão sem linguagem .
Mas com o reanim ar o sentido da m inha linguagem na hora em que tudo se confunde? Quando as árvores do parque são ao m esm o tem po navio para as gerações de um a fam ília, e sim ples entrave que incom oda o atirador. Quando o com pressor dos bom bardeiros, que desaba pesadam ente sobre as cidades, fez soçobrar um povo inteiro ao longo das estradas, com o um suco escuro. Quando a França m ostra a desordem sórdida de um form igueiro estripado. Quando se luta, não contra um adversário palpável, m as contra os pedais que congelam , m anetes que em perram , parafusos que saltam …
— O senhor pode descer?
Eu posso descer. Descerei. Irei a Arras a baixa altitude. Tenho m il anos de civilização atrás de m im para m e aj udar. Mas eles não m e aj udam . Não é hora, sem dúvida, de recom pensas.
* * *
A oitocentos quilôm etros por hora e a três m il quinhentas e trinta rotações por m inuto, eu perco a altitude.
Deixei, ao virar, um sol polar exageradam ente verm elho. À m inha frente, a cinco ou seis quilôm etros abaixo de m im , vej o um a banquisa de nuvens de fronte retilínea. Toda um a parte da França está enterrada sob sua som bra. Arras está sob sua som bra. Im agino que abaixo de m inha banquisa tudo estej a enegrecido. Trata-se do boj o de um a grande sopeira onde borbulha a guerra. Engarrafam ento de estradas, incêndios, m ateriais dispersos, vilas esm agadas, bagunça, im ensa bagunça… Eles se agitam no absurdo, sob sua nuvem , com o lesm as sob pedras.
Essa derrocada parece um a ruína. Precisarem os patinar na lam a. Voltam os a um a espécie de barbárie degradante. Tudo se decom põe lá em baixo! Som os sem elhantes a ricos viaj antes que, tendo vivido m uito tem po em países de coral e palm eiras, voltam , um a vez arruinados, a com partilhar, na m ediocridade natal, pratos gordurosos de um a fam ília avarenta, a acidez das querelas intestinas, os inspetores, a m á consciência das preocupações financeiras, as falsas esperanças, os despej os hum ilhantes, as arrogâncias do pensioneiro, a m iséria e a m orte fétida no hospital. A m orte aqui, ao m enos, é lim pa! Um a m orte de gelo e de fogo. De sol, de céu, de gelo e de fogo. Mas, lá em baixo, essa digestão do barro!
* “Je suis de mon enfance comme d’un pays” é um a das frases m ais célebres de Saint-Exupéry, sobretudo porque tem um a am pla relação com O pequeno príncipe. De fato, Saint-Ex faz da infância um a espécie de “território”, um a região que, j ustam ente nesta obra, ele visita ou na qual se refugia. A palavra “país” estabeleceria, em português, um a “fronteira” específica a tal dom ínio. Até poderíam os dizer “Sou da m inha infância com o de um dom ínio”, m as entendo que se afaste excessivam ente do original. Fiz a m esm a escolha no Pequeno quando ele diz “pays des larmes”. Mas não é um a tradução única neste caso, poderia haver outras. (N. T.)
XV
— Para o sul, Capitão. Melhor liquidar nossa altitude em zona francesa!
Olhando essas estradas escuras, que j á consigo observar, entendo a paz. Na paz, tudo é bem encerrado em si m esm o. À noite, os cam poneses voltam à vila. Nos sótãos, guardam os grãos. E organizam a roupa passada nos arm ários. Nas horas de paz, sabe-se encontrar cada obj eto. Sabe-se encontrar cada am igo. Sabem os onde irem os dorm ir à noite. Ah! A paz m orre quando os planos se deterioram , quando não se tem m ais lugar no m undo, quando não se sabe m ais encontrar quem se am a, quando o m arido que foi ao m ar não retornou.
A paz é leitura de um rosto que se m ostra através das coisas, quando estas receberam seu sentido e seu lugar. Quando fazem parte de algo m aior do que elas, com o os m inerais aleatórios na terra que se am algam aram na árvore.
Mas aí está a guerra.
Sobrevoo então estradas enegrecidas pelo interm inável xarope que nunca acaba de escorrer. Dizem que estão evacuando as populações. Já não é m ais verdade. Elas é que evacuam por si m esm as. Há um contágio dem ente nesse êxodo. Pois, aonde vão esses errantes? Eles se põem em m archa para o sul, com o se lá houvesse aloj am entos e alim entos, com o se lá houvesse ternuras para acolhê-los. Mas não há, no sul, senão cidades abarrotadas a ponto de estourar, onde se dorm e em galpões e cuj as provisões se esgotam . Onde os m ais generosos se tornam pouco a pouco agressivos por causa do absurdo dessa invasão que, pouco a pouco, com a lentidão de um rio de lam a, os engole. Um a única província não basta para aloj ar nem nutrir a França!
Aonde eles vão? Não sabem ! Andam em direção a escalas fantasm as, pois m al essa caravana aborda um oásis, não há m ais oásis. Cada oásis desm orona, por sua vez, e por sua vez dispersa-se na caravana. E se a caravana aborda um a verdadeira vila que finge ainda viver, esgota, j á na prim eira noite, toda a sua substância. A caravana a lim pa com o verm es lim pam um osso.
O inim igo avança m ais rápido do que o êxodo. Blindados, em alguns pontos, atravessam um rio que, então, em pasta-se e reflui. Há divisões alem ãs que patinam nesse lam açal, e vem os o surpreendente paradoxo que em alguns pontos os m esm os, que m atavam alhures, dão de beber.
Nós nos acantonam os, durante a retirada, num a dezena de vilas contíguas. Nós subm ergim os na turba lenta que lentam ente atravessava essas vilas:
— Aonde vocês vão?
— A gente não sabe.
Eles nunca sabiam de nada. Ninguém sabia de nada. Mais nenhum refúgio estava disponível. Mais nenhum a estrada era praticável. Eles evacuavam ainda assim . No norte haviam dado um grande pontapé no form igueiro e as form igas estavam indo em bora. Laboriosam ente. Sem pânico. Sem esperança. Sem desespero. Com o por dever.
— Quem lhes deu ordem de evacuar?
Era sem pre o prefeito, o professor prim ário ou o adj unto do prefeito. A palavra de ordem , num a m anhã, perto das três horas, havia de repente sacudido a vila:
— Evacuem .
Eles esperavam por isso. Há quinze dias, viam passar refugiados, renunciavam a crer na eternidade de suas casas. O hom em , entretanto, há m uito tem po, havia deixado de ser nôm ade. Ele construía vilas, que duravam séculos. Encerava m óveis que serviam aos bisnetos. A casa fam iliar o recebia em seu nascim ento e o transportava até sua m orte, pois, com o um bom navio, de um a m argem à outra, ela fazia, por sua vez, passar seus filhos. Mas chega de m orar! Iam em bora sem nem m esm o saber por quê!
XVI
É pesada a nossa experiência de estrada! Às vezes, tem os por m issão dar um a olhada, num a m esm a m anhã, sobre a Alsácia, a Bélgica, a Holanda, o norte da França e o m ar. Mas a m aior parte dos nossos problem as é terrestre e nosso horizonte, m ais frequentem ente, encolhe até se lim itar ao engarrafam ento de um cruzam ento! Assim , faz três dias som ente que vim os ruir, Dutertre e eu, a vila em que m orávam os.
Eu nunca m e livrarei, provavelm ente, dessa lem brança viscosa. Dutertre e eu, por volta das seis horas da m anhã, deparam os, saindo de nossa casa, com um a desordem inexprim ível. Todas as garagens, todos os galpões, todos os celeiros vom itaram nas ruas estreitas as engenhocas m ais disparatadas, os carros novos e as velhas carroças que havia cinquenta anos dorm iam , obsoletas, na poeira, as charretes de feno e os cam inhões, os ônibus e os basculantes. Daria para encontrar, nessa feira, procurando-se bem , até diligências! Tudo quanto era caçam ba sobre rodas foi exum ada. Dentro delas despej am os tesouros das casas. Esses são carregados para os carros em trouxas perfuradas de hérnias, am ontoados de qualquer j eito. E j á não se parecem com m ais nada.
Eles com punham o perfil da casa. Eram os obj etos de um culto de religiões particulares. Cada um no seu lugar, tornados necessários pelos hábitos, em belezados pelas lem branças, valiam pela pátria íntim a para cuj a fundação contribuíam . Mas os j ulgaram preciosos por si m esm os, os arrancaram de sua lareira, de sua m esa, de sua parede, os em pilharam confusam ente, e j á não passam de obj etos de bazar que dem onstram seu desgaste. As relíquias piedosas, se as em pilharm os, enoj am !
Algum a coisa j á se decom põe diante de nós.
— Vocês estão loucos, aqui! O que está acontecendo?
A dona do café aonde nós vam os dá de om bros: evacuam os.
— Por quê? Meu Deus!
— A gente não sabe. O prefeito disse.
Ela está m uito ocupada. Precipita-se pela escadaria. Nós contem plam os a rua, Dutertre e eu. A bordo dos cam inhões, dos carros, carroças, charretes de banco, é um a m istura de crianças, colchões e utensílios de cozinha.
Os carros velhos, principalm ente, estão lastim áveis.
Um cavalo em bom estado entre as padiolas de um a charrete dá um a sensação de saúde. Um cavalo não exige peças de reposição. Um a charrete se conserta com três pregos. Mas todos esses vestígios de um a era m ecânica! Esses conj untos de pistões, válvulas, bobinas e engrenagens, até quando vão funcionar?
— Capitão, o senhor poderia m e aj udar?
— Claro. Com o quê?
— A tirar m eu carro da garagem …
Eu a olho, estupefato:
— A senhora não sabe dirigir?
— Oh! Na estrada, vai dar. É m ais fácil…
Estão ela, a cunhada e as sete crianças…
Na estrada! Na estrada ela avançará vinte quilôm etros por dia em etapas de duzentos m etros! A cada duzentos m etros, terá de frear, parar, desengatar, engatar, m udar de m archa na confusão de um engarrafam ento inextricável. Ela vai quebrar tudo! E a gasolina, que vai faltar! E o óleo! E a água que ela vai esquecer:
— Cuidado com a água. Seu radiador está vazando feito um a peneira!
— Ah! O carro não é novo…
— A senhora precisaria andar oito dias… Com o vai conseguir?
— Não sei…
A m enos de dez quilôm etros daqui, ela terá j á abalroado três carros, arranhado a em breagem , furado os pneus. Então ela, a cunhada e as sete crianças com eçarão a chorar. Então ela, a cunhada e as sete crianças, subm etidas a problem as acim a de suas forças, renunciarão a decidir sobre o que quer que sej a e vão sentar-se à m argem da estrada para esperar um pastor. Mas os pastores… Faltam pastores, barbaram ente! Nós assistim os, Dutertre e eu, a iniciativas de carneiros. E esses carneiros se vão num a balbúrdia form idável de m aterial m ecânico. Três m il pistões. Seis m il válvulas. Todo esse m aterial range, raspa e bate. A água ferve em alguns radiadores. É assim que com eça a andar, laboriosam ente, essa caravana condenada! Essa caravana sem peças de reposição, sem pneus e sem gasolina, sem m ecânicos. Que dem ência!
— A senhora não poderia ficar em casa?
— Ah! Bem que a gente preferia ficar em casa!
— Então por que partir?
— Disseram …
— Quem disse?
— O prefeito.
Sem pre o prefeito.
— Claro. Todo m undo preferia ficar em casa.
Exato. Nós não respiram os aqui um a atm osfera de pânico, m as um a atm osfera de fardo cego. Dutertre e eu aproveitam os para sacudir uns e outros:
— É m elhor o senhor desem barcar tudo isso. O senhor ao m enos beberá a água das fontes.
— Certeza que faríam os m elhor.
— Mas vocês são livres.
Ganham os a partida. Um grupo se form ou. Escutam -nos. Balançam a cabeça em aprovação.
— Tem razão, o Capitão!
Discípulos repercutem o que digo. Converti um acantonado que se m ostra m ais ardente do que eu:
— Eu sem pre falei! Chegando na estrada, vam os com er pedra.
Eles conversam . Estão de acordo. Ficarão. Alguns se afastam para pregar aos outros. Mas voltam desencoraj ados:
— Não adianta. Som os obrigados a partir tam bém .
— Por quê?
— O padeiro foi em bora. Quem vai fazer o pão?
A cidade j á debandou. Furou aqui e acolá. Tudo vai correr pelo m esm o buraco. Sem esperanças.
Dutertre tem sua ideia:
— O dram a é que fizeram os hom ens acreditar que a guerra era anorm al. Antigam ente, ficavam em casa. A guerra e a vida se m isturavam …
A dona do café reaparece. Ela arrasta um saco.
— Vam os decolar em um a hora. A senhora tem um pouco de café?
— Ah! Pobres m oços…
Ela enxuga os olhos. Ah! Ela não chora por nós. Nem por si m esm a. Ela j á chora de esgotam ento. Ela j á se sente tragada pela penúria de um a caravana que, a cada quilôm etro, desm oronará um pouco m ais.
Mais longe, no acaso dos cam pos, de tem pos em tem pos, caças inim igos voando baixo lançarão um a raj ada de m etralhadoras sobre esse lam entável rebanho. O m ais surpreendente, porém , é que, norm alm ente, eles não insistem . Alguns carros ardem , m as pouco. E poucos m ortos. É um a espécie de luxo, algum a coisa com o um conselho. Ou o gesto de um cão que m orde a canela para acelerar o rebanho. Aqui, é para sem ear a desordem . Mas então, por que essas ações locais, esporádicas, de pouco efeito? O inim igo faz pouco esforço para dispersar a caravana. É verdade que esta não precisa dele para desm oronar. A m áquina desregula-se espontaneam ente. A m áquina é concebida para um a sociedade tranquila, calm a, que dispõe de todo o seu tem po. A m áquina, quando o hom em não está m ais ali para rem endar, regular, lubrificar, envelhece num ritm o vertiginoso. Esses carros, esta noite, parecerão ter m il anos.
Parece-m e assistir à agonia da m áquina.
Aquele ali toca seu cavalo com a m aj estade de um rei. Entroniza-se, deslum brado, em seu banco. Suponho, aliás, que ele tenha tom ado um trago:
— O senhor parece contente!
— É o fim do m undo!
Sinto um surdo m al-estar ao pensar que todos esses trabalhadores, todas essas pessoas hum ildes, de funções tão bem definidas, qualidades tão diversas e tão preciosas, não passarão, esta noite, de parasitas e verm es.
Vão espalhar-se nos cam pos e devorá-los.
— Quem vai alim entá-los?
— A gente não sabe…
Com o abastecer os m ilhões de em igrantes perdidos ao longo das estradas, onde se anda de cinco a vinte quilôm etros por dia? Se houvesse abastecim ento, seria im possível encam inhá-lo!
Essa m istura de hum anidade e sucata m e faz lem brar o deserto da Líbia. Morávam os, Prévot e eu, num a paisagem inabitável, vestida de pedras escuras que brilhavam ao sol, um a paisagem recoberta por um a casca de ferro.
E considero esse espetáculo com um a espécie de desespero: um a nuvem de gafanhotos que cai no m acadam e vive m uito tem po?
— E vocês vão esperar que chova para beber?
— A gente não sabe…
Sua cidadezinha, havia dez dias, era incansavelm ente atravessada por refugiados do norte. Eles assistiram , durante dez dias, àquele inesgotável êxodo. Chegou a vez deles. Tom am seus lugares na procissão. Oh! Sem confiança:
— Eu preferia m orrer em casa.
— Todos preferíam os m orrer em casa.
E é exato. A vila inteira desm orona com o um castelo de areia, quando ninguém desej ava partir.
Se a França possuísse reservas, o encam inham ento dessas reservas seria radicalm ente im pedido pelo engarrafam ento das estradas. É possível, a rigor, apesar dos carros quebrados, carros im bricados uns nos outros, nos inextricáveis cruzam entos, descer com o fluxo, m as com o trazê-lo de volta?
— Não há reservas — diz-m e Dutertre —, o que resolve tudo…
Corre o boato de que, desde ontem , o governo proibiu as evacuações de vilas. Mas sabe Deus com o as ordens se propagam , pois não há m ais circulação possível na estrada. Quanto às linhas telefônicas, estão congestionadas, cortadas ou sob suspeita. E não se trata de dar ordens. Trata-se de reinventar um a m oral. Ensina-se aos hom ens, há m il anos, que m ulheres e crianças devem ser poupadas da guerra. A guerra diz respeito aos hom ens. Os prefeitos conhecem bem essa lei, e seus adj untos, e os professores. Bruscam ente, eles recebem ordem de proibir as evacuações, isto é, de obrigar m ulheres e crianças a perm anecerem sob os bom bardeios. Precisariam de um m ês para reaj ustar a consciência a esses novos tem pos. Não se derruba de um a só vez todo um sistem a de pensam ento. Todavia, o inim igo avança. Assim , os prefeitos, seus adj untos, os professores soltam seu povo na grande estrada. O que é preciso fazer? Onde está a verdade? E lá se vão esses carneiros sem pastor.
— Não tem um m édico aqui?
— O senhor não é da vila?
— Não. A gente vem m ais do norte.
— Para que um m édico?
— É que a m inha m ulher vai parir na carroça…
Entre os utensílios de cozinha, no deserto daquela sucata universal, com o sobre um espinheiro.
— O senhor não tinha com o prever isto!
— Faz quatro dias que estam os na estrada.
Pois a estrada é um rio im perioso. Onde parar? As vilas que ele varre, um as após as outras, esvaziam -se de si m esm as, com o se desem bocassem , por sua vez, no esgoto com um .
— Não, não tem m édico. O do Grupo está a vinte quilôm etros.
— Ah! Bom !
O hom em enxuga o rosto. Tudo se deteriora. Sua m ulher dá à luz no m eio da rua, entre utensílios de cozinha. Nada disso é cruel. É, prim eiro, antes de tudo, m onstruosam ente fora do hum ano. Ninguém se lam enta, as lam entações não têm m ais significado. A m ulher dele vai m orrer, ele não lam enta. É assim . Trata-se de um sonho ruim .
— Se, ao m enos, a gente pudesse parar em algum lugar…
Achar em algum lugar um a verdadeira vila, um a verdadeira pousada, um verdadeiro hospital… Mas evacuam tam bém os hospitais, sabe Deus por quê! É um a regra do j ogo. Não se tem tem po de reinventar as regras. Achar em algum lugar um a m orte verdadeira! Mas não há m ais m orte verdadeira. Há corpos que se deterioram , com o os autom óveis.
E sinto em todo lugar um a urgência decrépita, um a urgência que renunciou à urgência. Foge-se à razão de cinco quilôm etros por dia, de tanques que avançam , através dos cam pos, m ais de cem quilôm etros, e de aviões que se deslocam a seiscentos quilôm etros por hora. Assim se derram a o xarope quando se derruba a garrafa. A m ulher desse aí vai parir, m as ele dispõe de um tem po desm esurado. É urgente. E não é m ais. Está suspenso em equilíbrio instável entre a urgência e a eternidade.
Tudo se fez lento com o os reflexos de um agonizante. Trata-se de um im enso rebanho que patina, exausto, diante do abatedouro. São eles cinco, dez m ilhões abandonados na rua? É um povo que patina de cansaço, de tédio, na soleira da eternidade.
E, verdadeiram ente, não consigo conceber com o eles vão se arranj ar para sobreviver. O hom em não se nutre de galhos de árvore. Eles m esm os se perguntam vagam ente, m as pouco se assustam . Arrancados de seu contexto, de seu trabalho, de seus deveres, perderam todo o significado. Sua própria identidade desgastou-se. São m uito pouco eles m esm os. Existem m uito pouco. Inventar-se-ão m ais tarde seus sofrim entos, m as sofrem principalm ente com as costas m ortificadas pelo excesso de pacotes a carregar, pelo excesso de nós que se rom peram deixando que as trouxas esvaziem suas tripas, pelo excesso de carros a em purrar e fazer pegar. Nenhum a palavra sobre a derrota. Isso é evidente. Você não sente necessidade de com entar o que constitui sua própria substância. Eles “são” a derrota.
Tenho a súbita visão, aguda, de um a França que perde as entranhas. Seria preciso suturar rápido. Não há um segundo a perder: eles estão condenados…
Com eça. Ei-los asfixiados j á, com o peixes fora d’água.
— Não tem leite aqui?
É um a pergunta de m orrer de rir!
— Meu bebê não tom ou nada desde ontem …
Trata-se de um lactente de seis m eses que ainda faz m uito barulho. Mas esse barulho não vai durar: os peixes, fora d’água… Aqui não tem leite. Aqui, só tem sucata. Aqui, apenas um a enorm e sucata inútil que, deteriorando-se a cada quilôm etro, perdendo porcas, parafusos, latarias, carrega esse povo, num êxodo prodigiosam ente inútil, para o nada.
Espalha-se o boato de que os aviões estão m etralhando a estrada a alguns quilôm etros ao sul. Fala-se até de bom bas. Ouvim os, de fato, explosões surdas. O boato é, sem dúvida, verdadeiro.
Mas a horda não freia. Ela m e parece até vivificada. Esse risco total lhe parece m ais benfazej o do que o afundam ento na sucata.
Ah! O esquem a que construirão m ais tarde os historiadores! Os gráficos que inventarão para dar um significado a esse m ingau! Tom arão a palavra de um m inistro, a decisão de um general, a discussão de um a com issão, e farão, desse desfile de fantasm as, conversas históricas com responsabilidades e visões longínquas. Eles inventarão aceitações, resistências, pleitos cornelianos, covardias. Eu bem sei o que é um m inistério evacuado. O acaso m e perm itiu visitar um ou dois. Logo entendi que um governo, um a vez que tenha m udado de lugar, não constitui m ais um governo. É com o um corpo. Se você com eçar a m udar tam bém o estôm ago aqui, o fígado ali, as tripas acolá — essa coleção não constitui m ais um organism o. Vivi vinte m inutos no Ministério da Aeronáutica. Pois bem , um m inistro exerce um a ação sobre um oficial. Um a ação m iraculosa. Porque um fio de cam painha liga ainda o m inistro ao oficial. Um fio de cam painha intacto. O m inistro aperta o botão e o oficial vem .
Isso é um êxito.
— Meu carro, pede o m inistro.
Sua autoridade para aí. Ele m anda o oficial fazer o exercício. Mas o oficial ignora se existe na terra um autom óvel de m inistro. Nenhum fio elétrico liga o oficial a nenhum chofer de autom óvel. O chofer está perdido em algum lugar do universo. O que podem saber da guerra aqueles que governam ? Para nós seriam necessários oito dias, de tão im possíveis que são as ligações, para desencadear um bom bardeio sobre um a divisão blindada que encontrássem os. Que boato um governo pode receber desse país que se estripa? As notícias avançam num ritm o de vinte quilôm etros por dia. Os telefones estão sobrecarregados ou quebrados, e não têm o poder de transm itir, com a real densidade, o Ser que por enquanto se decom põe. O governo está im erso no vazio: um vazio polar. De tem pos em tem pos lhe chegam cham ados de desesperada urgência, m as abstratos, reduzidos a três linhas. Com o os responsáveis saberiam se dez m ilhões de franceses j á não m orreram de fom e? E esse apelo de dez m ilhões de hom ens cabe num a frase. É preciso um a frase para dizer:
— Reunião às quatro horas na casa de X.
Ou:
— Dizem que dez m ilhões de hom ens m orreram .
Ou:
— Blois está em cham as.
Ou:
— Encontram os seu chofer.
Tudo isso no m esm o plano. Na hora. Dez m ilhões de hom ens. O carro. O exército do Leste. A civilização ocidental. Encontram os o chofer. A Inglaterra. O pão. Que horas são?
Eu lhe dou sete letras. São sete letras da Bíblia. Reconstitua-m e a Bíblia com isso!
Os historiadores esquecerão o real. Eles inventarão seres pensantes, ligados por fibras m isteriosas a um universo exprim ível, dispondo de sólidas visões de conj unto, e pensando decisões graves segundo as quatro regras da lógica cartesiana. Eles distinguirão as potências do bem das potências do m al. Os heróis dos traidores. Mas eu farei um a sim ples pergunta:
— É preciso, para trair, ser responsável por algum a coisa, gerir algum a coisa, agir sobre algum a coisa, conhecer algum a coisa. É dar hoj e prova de talento. Por que não se condecoram os traidores?
Já a paz se m ostra um pouco em toda parte. Não é um a dessas pazes bem delineadas, que sucedem , com o etapas novas da História, as guerras claram ente concluídas por tratado. Trata-se de um período sem nom e, que é o fim de todas as coisas. Um fim que não acabará de findar. Trata-se de um pântano onde chafurda pouco a pouco todo im pulso. Não se sente a aproxim ação de um a conclusão boa ou m á. Muito ao contrário. Entra-se pouco a pouco no apodrecim ento de um provisório que parece a eternidade. Nada se concluirá, pois não há m ais por onde se segurar este país, com o se seguraria um a afogada pelo cabelo. Tudo está desfeito. E o esforço m ais patético só traz um a m echa de cabelo. A paz que vem não é fruto de um a decisão tom ada pelo hom em . Ela espalha-se com o lepra.
Aí, abaixo de m im , nessas estradas em que a caravana se deteriora, onde os blindados alem ães m atam ou dão de beber, é com o naqueles territórios lodosos onde terra e água se confundem . A paz, que j á se m istura à guerra, apodrece a guerra. Um de m eus am igos, Léon Werth, ouviu na estrada um a enorm e revelação, que narrará num grande livro. À esquerda da estrada estão os alem ães, à direita, os franceses. Entre am bos, o turbilhão lento do êxodo. Centenas de m ulheres e crianças que se livram , com o podem , de seus carros em cham as. E, com o um tenente de artilharia que se encontra, sem querer, preso no engarrafam ento, tenta colocar na bateria um a peça de setenta e cinco, contra a qual o inim igo atira — e com o o inim igo erra a peça, m as arrebenta a estrada, m ães vão a esse tenente que, m olhado de suor, obstinado por seu incom preensível dever, tenta salvar um a posição que não aguentará vinte m inutos (eles são aqui doze hom ens!).
— Vão em bora! Vão em bora! Vocês são covardes!
O tenente e os hom ens se vão. Em todo lugar deparam com esses problem as de paz. É preciso, com certeza, que os pequenos não sej am m assacrados na estrada. Entretanto, cada soldado que atira deve atirar nas costas de um a criança. Cada cam inhão que avança, ou tenta avançar, arrisca condenar um povo. Pois, avançando contra a corrente, congestiona inexoravelm ente um a estrada inteira.