Piloto de Guerra

Antoine de Saint-Exupéry · Capítulo 2 de 4 · parte 6/6

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Piloto de Guerra

Piloto de guerra

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Nenhum a dúvida sobre a salvação m e é possível. Com preendo m elhor a m inha im agem do fogo para o cego. Se o cego vai em direção ao fogo, é porque surgiu nele a necessidade do fogo. O fogo j á o governa. Se o cego busca o fogo, é que j á o encontrou. Assim o escultor j á tem sua criação quando m olda a argila. Nós tam bém . Nós sentim os o calor de nossos laços: eis por que som os j á vencedores.

Já som os sensíveis à nossa com unidade. Será preciso, decerto, exprim i-la, para se ligar a ela. Isto é esforço de consciência e linguagem . Mas será preciso tam bém , para nada perder de sua substância, fazer-nos surdos às arm adilhas das lógicas provisórias, das chantagens e das polêm icas. Nós devem os, antes de tudo, nada renegar do que som os.

E é por isso, que no silêncio da m inha noite de vila, apoiado num a parede, com eço, no retorno de m inha m issão sobre Arras — e esclarecido, parece-m e, por m inha m issão — a m e im por regras sim ples que não trairei j am ais.

 

Com o sou um deles, não renegarei j am ais os m eus, o que quer que eles façam . Não pregarei j am ais contra eles diante de outrem . Se for possível tom ar sua defesa, eu os defenderei. Se m e cobrirem de vergonha, encerrarei tal vergonha no m eu coração e m e calarei. O que quer que eu pense então sobre eles, j am ais servirei de testem unha de acusação. Um m arido não vai de casa em casa instruir, ele m esm o, seus vizinhos de que sua m ulher é um a desavergonhada. Ele não salvará assim sua honra. Pois sua m ulher é de sua casa. Ele não pode enobrecer-se ficando contra ela. É dentro de casa que terá o direito de exprim ir sua cólera. Assim , eu não m e desaliarei de um a derrota que, m uitas vezes, m e hum ilhará. Sou da França. A França form ava os Renoir, os Pascal, os Pasteur, os Guillaum et, os Hochedé. Ela form ava tam bém incapazes, políticos e trapaceiros. Mas m e parece fácil dem ais evocar uns e negar qualquer parentesco com os outros.

A derrota divide. A derrota desfaz o que estava feito. Há, aí, am eaça de m orte: eu não contribuirei com essas divisões, atribuindo a responsabilidade do desastre àqueles entre os m eus que pensam diferente de m im . Não há nada a tirar desse processo sem j uiz. Nós fom os todos vencidos. Eu fui vencido. Hochedé foi vencido. Hochedé não atribui a derrota a outros além dele. Ele pensa: “Eu, Hochedé, eu, da França, fui fraco. A França de Hochedé foi fraca. Eu fui fraco nela e ela fraca em m im ”. Hochedé sabe m uito bem que, se ele se apartar dos seus, só glorificará a si m esm o. E, desde então, não será m ais o Hochedé de um a casa, de um a fam ília, de um Grupo, de um a pátria. Ele não passará do Hochedé de um deserto.

Se eu aceitar ser hum ilhado pela m inha casa, posso agir sobre m inha casa. Ela m e pertence, com o lhe pertenço. Mas, se recusar a hum ilhação, a casa se desm antelará com o quiser, e irei sozinho, todo glorioso, porém m ais vazio do que um m orto.

 

Para ser, im porta prim eiro responsabilizar-se. No entanto, há poucas horas, eu estava cego. Eu estava am argo. Mas estou j ulgando m ais claram ente. Do m esm o m odo que recuso queixar-m e dos outros franceses, desde que m e sinto da França, não concebo m ais que a França se queixe do m undo. A França era responsável pelo m undo. A França poderia ter oferecido ao m undo o denom inador com um que o teria unido. A França poderia ter servido de referência ao m undo. Se a França tivesse tido sabor de França, brilho de França, o m undo inteiro far-se-ia resistência por m eio da França. Renego doravante m inhas recrim inações ao m undo. A França devia servir-lhe de alm a, caso lhe faltasse um a.

A França poderia ter reunido a seu redor. Meu Grupo 2/33 ofereceu-se sucessivam ente com o voluntário para a guerra da Noruega, depois da Finlândia. O que representavam a Noruega e a Finlândia para os soldados e os oficiais do m eu país? Pareceu-m e sem pre que eles aceitavam , confusam ente, m orrer por um certo gosto das festas de Natal. A salvaguarda desse sabor, no m undo, parecia-lhes j ustificar o sacrifício de suas vidas. Se fôssem os o Natal do m undo, o m undo se salvaria através de nós.

A com unidade espiritual dos hom ens no m undo não j ogou a nosso favor.

Mas, fundando essa com unidade de hom ens no m undo, teríam os salvo o m undo e nós m esm os. Nós falham os nessa tarefa. Cada um é responsável por todos. Cada um é o único responsável. Cada um é o único responsável por todos. Eu entendo pela prim eira vez um dos m istérios da religião originária da civilização que reivindico com o m inha: “Carregar os pecados dos hom ens…”. E cada um carrega todos os pecados de todos os hom ens.

XXV

 

Quem vê nisso um a doutrina de fraco? O chefe é responsável por tudo. Ele diz: Fui vencido. Ele não diz: “Meus soldados foram vencidos”. O verdadeiro hom em fala assim . Hochedé diria: Eu sou responsável.

Com preendo o sentido da hum ildade. Ela não é um aviltam ento de si. É o próprio princípio da ação. Se, com o intuito de absolver-m e, j ustifico m eus infortúnios pela fatalidade, subm eto-m e à fatalidade. Se os j ustifico pela traição, subm eto-m e à traição. Mas se assum o o erro, reivindico m eu poder de hom em . Posso agir sobre aquilo que sou. Sou parte constituinte da com unidade dos hom ens.

Há, então, alguém em m im que com bato para crescer. Foi necessária essa viagem difícil para que distinguisse em m im , de um j eito ou de outro, o indivíduo que eu com bato do hom em que am adurece. Não sei o que vale a im agem que m e vem , m as penso: o indivíduo é apenas um a via. Só im porta o Hom em que a em prega.

Já não posso m e satisfazer com verdades de polêm ica. De nada serve acusar os indivíduos. Eles são apenas vias e passagens. Não posso m ais j ustificar o enregelam ento de m inhas m etralhadoras por negligências de funcionários, nem a ausência de povos am igos por seu egoísm o. A derrota, decerto, se exprim e por falhas individuais. Mas um a civilização m olda os hom ens. Se aquela a que j ulgo pertencer está am eaçada pela derrota dos indivíduos, tenho o direito de perguntar-m e por que ela não os forj ou diferentem ente.

Um a civilização, assim com o um a religião, acusa a si m esm a se deplora a m oleza dos fiéis. Cabe-lhe exaltá-los. O m esm o vale se deplora o ódio dos infiéis. Cabe-lhe convertê-los. Entretanto, a m inha, que outrora passou suas provações, inflam ou seus apóstolos, arrebentou os violentos, libertou povos escravos, não soube, hoj e, nem exaltar nem converter. Se desej o arrancar a raiz das diversas causas de m inha derrota, se tenho am bição de reviver, devo reencontrar prim eiro o ferm ento que perdi.

Pois acontece num a civilização com o para o trigo. O trigo nutre o hom em , m as o hom em , por sua vez, salva o trigo, cuj a sem ente ele arm azena. A reserva de grãos é respeitada, de geração de trigo para geração de trigo, com o um a herança.

Não m e basta saber qual trigo desej o para que ele germ ine. Se quero salvar um tipo de hom em — e seu poder — devo salvar tam bém os princípios que o fundam .

Todavia, se conservei a im agem da civilização que reivindico com o m inha, perdi as regras que a transportavam . Descubro esta noite que as palavras que usava não tocavam m ais o essencial. Eu pregava assim a Dem ocracia, sem suspeitar que enunciava, com isso, sobre as qualidades e a sorte do hom em , não m ais o conj unto de regras, m as um conj unto de aspirações. Desej ava que os hom ens fossem fraternos, livres e felizes. Claro. Quem não concorda? Sabia expor “com o” deve ser o hom em . E não “quem ” ele deve ser.

Falava, sem precisar as palavras, da com unidade dos hom ens. Com o se o clim a ao qual fazia alusão não fosse fruto de um a arquitetura particular. Parecia-m e evocar um a evidência natural. Não há evidência natural. Um a tropa fascista, um m ercado de escravos são, tam bém , com unidades de hom ens.

Eu não habitava m ais essa com unidade dos hom ens com o arquiteto. Beneficiava-m e de sua paz, sua tolerância, seu bem -estar. Não sabia nada a seu respeito, senão que estava instalado nela. Estava nela com o sacristão ou com o um papa-hóstias. Ou sej a, parasita. Ou sej a, vencido.

Assim são os passageiros de um navio. Usam o navio sem nada lhe dar. Ao abrigo dos salões, que eles tom am por cenário absoluto, prosseguem com seus j ogos. Ignoram o trabalho das m eias-naus sob o peso eterno do m ar. Que direito reclam arão se a tem pestade desm antelar seu navio?

Se os indivíduos se abastardaram , se fui vencido, do que vou reclam ar?

Há um denom inador com um com as qualidades que desej o aos hom ens de m inha civilização. Há um a pedra angular na com unidade particular que eles devem fundar. Há um princípio de onde tudo saiu outrora, raízes, tronco, galhos e frutos. Qual é ele? Ele era grão potente no adubo dos hom ens. Só este m e pode fazer vencedor.

 

Parece-m e que com preendo m uitas coisas na m inha estranha noite de vila. O silêncio é de um a qualidade extraordinária. O m ínim o ruído preenche o espaço inteiro, com o um sino. Nada m e é desconhecido. Nem esse lam ento de gado, nem esse apelo longínquo, nem esse barulho de um a porta que se fecha. Tudo acontece com o em m im m esm o. Não é preciso apressar-m e em captar o sentido de um sentim ento que pode esm aecer…

Eu penso: “É o tiro de Arras…”. O tiro rachou um a casca. Neste dia inteiro, eu certam ente preparei em m im a m orada. Eu era apenas um gerente resm ungão. O indivíduo é isso. Mas o Hom em surgiu. Ele se instalou em m eu lugar, sim plesm ente. Olhou a m ultidão am ontoada, e viu um povo. Seu povo. O Hom em , denom inador com um entre m im e esse povo. É por isso que, correndo para o Grupo, parecia-m e correr a um grande fogo. O Hom em olhava através dos m eus olhos o hom em denom inador com um dos cam aradas.

 

Seria um sinal? Estou a ponto de crer nos sinais… Tudo é, esta noite, entendim ento tácito. Qualquer barulho m e atinge com o um a m ensagem lím pida e ao m esm o tem po obscura. Ouço um passo tranquilo preencher a noite:

— Ei, boa noite, Capitão…

— Boa noite!

Não o conheço. Foi entre nós com o um “oi” de bateleiros, de um a barca a outra.

Ainda um a vez tive o sentim ento de um m iraculoso parentesco. O Hom em que m e habita esta noite não cessa de enum erar os seus. O Hom em denom inador com um dos povos e das raças…

Ele voltava, aquele ali, com sua provisão de preocupações, de pensam entos e de im agens. Com sua carga própria, encerrada dentro de si. Poderia tê-lo abordado e falado com ele. Na pureza de um a senda de vila, teríam os trocado algum as de nossas lem branças. Assim , os com erciantes trocam tesouros, caso se cruzem , retornando das ilhas.

Em m inha civilização, aquele que difere de m im , longe de m e lesar, enriquece-m e. Nossa unidade, acim a de nós, funda-se no Hom em . Assim , nossas conversas à noite, no Grupo 2/33, longe de prej udicar nossa fraternidade, a apoiam , pois ninguém desej a ouvir seu próprio eco, nem olhar-se num espelho.

No Hom em se encontram , tam bém , os Franceses da França e os Noruegueses da Noruega. O Hom em os liga em sua unidade, ao m esm o tem po que exalta, sem contradizer-se, seus costum es particulares. A árvore tam bém se exprim e, por galhos que não se parecem com as raízes. Se, então, lá, escrevem -se contos sobre a neve, se tulipas são cultivadas na Holanda, se flam encos se im provisam na Espanha, estam os todos enriquecidos no Hom em . É talvez por isso que desej em os, nós do Grupo, com bater pela Noruega…

 

E eis que m e parece chegar ao term o de um a longa peregrinação. Não descubro nada, m as, com o o despertar de um sono, revej o sim plesm ente o que eu não olhava m ais.

Minha civilização repousa sobre o culto do Hom em através dos indivíduos. Ela tentou, por séculos, m ostrar o Hom em , com o se tivesse ensinado a distinguir um a catedral através das pedras. Ela pregou esse Hom em que dom inava o indivíduo…

Pois o Hom em de m inha civilização não se define a partir dos hom ens. São os hom ens que se definem por ele. Há nele, com o em todo Ser, algum a coisa que a m atéria que o com põe não explica. Um a catedral é bem diferente de um a som a de pedras. É geom etria e arquitetura. Não são as pedras que a definem , é ela que enriquece as pedras com seu próprio significado. Essas pedras são enobrecidas por serem pedras de um a catedral. As pedras m ais diversas contribuem para sua unidade. A catedral absorve até as carrancas m ais careteiras em seu cântico.

Mas, pouco a pouco, esqueci a m inha verdade. Eu acreditei que o Hom em resum ia os hom ens, com o a Pedra resum e as pedras. Confundi a catedral e a som a de pedras e, pouco a pouco, a herança desvaneceu. É preciso restaurar o Hom em . É ele a essência de m inha cultura. É ele a chave de m inha Com unidade. É ele o princípio da m inha vitória.

XXVI

 

É fácil fundar a ordem de um a sociedade sobre a subm issão de cada um a regras fixas. É fácil m oldar um hom em cego que aceite, sem protestar, um m estre ou um Alcorão. Mas o sucesso que consiste em , para libertar o hom em , fazê-lo reinar sobre si m esm o, é m aior.

Mas o que é libertar? Se eu liberto, no deserto, um hom em que não sente nada, o que significa a sua liberdade? Só há liberdade de “alguém ” que vai a algum lugar. Libertar para esse hom em seria ensinar-lhe a sede e traçar-lhe um a rota até um poço. Som ente assim se proporiam a ele passos aos quais não faltaria significado. Libertar um a pedra não significa nada se não houver peso. Pois a pedra, um a vez livre, não irá a lugar algum .

No entanto, m inha civilização tentou fundar as relações hum anas sobre o culto do Hom em além do indivíduo, a fim de que o com portam ento de cada um frente a si m esm o ou a outrem não fosse m ais conform ism o cego aos costum es do cupinzeiro, m as livre exercício do am or.

A tendência invisível do peso libera a pedra. As inclinações invisíveis do am or liberam o hom em . Minha civilização tentou fazer de cada hom em o Em baixador de um m esm o príncipe… Ela considerou o indivíduo com o cam inho ou m ensagem de algo m aior do que ele m esm o, ofereceu à liberdade de sua ascensão direções im antadas…

Conheço bem a origem desse cam po de forças. Durante séculos, m inha civilização contem plou Deus através dos hom ens. O hom em era criado à im agem de Deus. Respeitava-se Deus no hom em . Os hom ens eram irm ãos em Deus. Esse reflexo de Deus conferia um a dignidade inalienável ao hom em . As relações do hom em com Deus fundavam com evidência os deveres de cada um frente a si m esm o ou a outrem .

Minha civilização é herdeira dos valores cristãos. Eu refletirei sobre a construção da catedral, a fim de com preender m elhor a sua arquitetura.

A contem plação de Deus fundava os hom ens iguais, porque iguais em Deus. E essa igualdade tinha um significado claro. Pois só se pode ser igual em algum a coisa. O soldado e o capitão são iguais na nação. A igualdade não passa de um a palavra vazia de sentido se não houver nada a que ligar essa igualdade.

Entendo claram ente por que essa igualdade, que era a igualdade dos direitos de Deus através dos indivíduos, proibia lim itar a ascensão de um indivíduo: Deus podia decidir tom á-lo por cam inho. Mas com o se tratava tam bém da igualdade dos direitos de Deus “sobre” os indivíduos, entendo por que os indivíduos, fossem quem fossem , eram subm etidos aos m esm os deveres e ao m esm o respeito às leis. Exprim indo Deus, eles eram iguais em seus direitos. Servindo Deus, eram iguais em seus deveres.

Entendo por que um a igualdade estabelecida em Deus não acarretava nem contradição nem desordem . A dem agogia introm ete-se quando, por falta de denom inador com um , o princípio de igualdade se abastarda em princípio de identidade. Então o soldado recusa a saudação do capitão, pois o soldado, saudando o capitão, honraria um indivíduo, e não a Nação.

 

Minha civilização, herdando de Deus, fez os hom ens iguais no Hom em .

 

Entendo a origem do respeito dos hom ens, de uns para com os outros. O sábio devia respeito ao próprio taifeiro, pois, através do taifeiro, ele respeitava Deus, de quem o taifeiro tam bém era Em baixador. Quaisquer que fossem o valor de um e a m ediocridade do outro, nenhum hom em podia pretender reduzir outro à escravidão. Não se hum ilha um Em baixador. Mas esse respeito pelo hom em não levava à prosternação degradante diante da m ediocridade do indivíduo, diante da estupidez ou da ignorância, j á que prim eiro honrava-se essa qualidade de Em baixador de Deus. Assim , o am or de Deus fundava, entre os hom ens, as relações nobres, tratando os negócios de Em baixador para Em baixador, acim a da qualidade dos indivíduos.

 

Minha civilização, herdeira de Deus, fundou o respeito ao hom em através dos indivíduos.

 

Entendo a origem da fraternidade dos hom ens. Os hom ens eram irm ãos em Deus. Só se pode ser irm ão em algum a coisa. Se não há nó que os una, os hom ens ficam j ustapostos e não ligados. Não se pode ser irm ão sim plesm ente. Meus cam aradas e eu som os irm ãos “no” Grupo 2/33. Os franceses “na” França.

 

Minha civilização, herdeira de Deus, fez os hom ens irm ãos no Hom em .

 

Entendo o significado dos deveres de caridade que m e eram pregados. A caridade servia a Deus através do indivíduo. Era devida a Deus, qualquer que fosse a m ediocridade do indivíduo. Essa caridade não hum ilhava o beneficiário, nem o atava pelas am arras da gratidão, pois não é a ele, m as a Deus, que a doação era feita. O exercício dessa caridade, entretanto, j am ais foi hom enagem à m ediocridade, à estupidez ou à ignorância. O m édico devia engaj ar sua vida nos cuidados com o m ais vulgar dos pestilentos. Ele servia a Deus. Não era dim inuído pela noite em claro, passada à cabeceira do ladrão.

 

Minha civilização, herdeira de Deus, fez assim , da caridade, dom ao Hom em através do indivíduo.

 

Entendo a significação profunda da Hum ildade exigida do indivíduo. Ela não se rebaixava. Ela se elevava. Ela o esclarecia sobre seu papel de Em baixador. Assim com o o obrigava a respeitar Deus através de outrem , ela o obrigava a respeitar-se a si m esm o, a fazer-se m ensageiro de Deus, no cam inho para Deus. Ela lhe im punha esquecer-se para crescer, pois se o indivíduo se exalta sobre sua própria im portância, o cam inho logo se transform a em m uralha.

 

Minha civilização, herdeira de Deus, pregou tam bém o respeito de si m esm o, isto é, o respeito do Hom em através de si m esm o.

 

Com preendo, enfim , por que o am or de Deus estabeleceu os hom ens responsáveis uns pelos outros e lhes im pôs a Esperança com o um a virtude. Pois, de cada um , ela fazia o Em baixador do m esm o Deus, nas m ãos de cada um repousava a salvação de todos. Ninguém tinha o direito de se desesperar, pois era m ensageiro de alguém superior. O desespero era a renegação do próprio Deus. O dever da Esperança poderia ter-se traduzido por: “Tu te j ulgas tão im portante? Que fatuidade há em teu desespero!”.

 

Minha civilização, herdeira de Deus, fez cada um responsável por todos os hom ens e todos os hom ens responsáveis por cada um . Um indivíduo deve se sacrificar pela salvação de um a coletividade, m as não se trata aqui de um a aritm ética im becil. Trata-se do respeito do Hom em através do indivíduo. A grandeza, com efeito, de m inha civilização, é que cem m ineiros devem arriscar suas vidas pelo salvam ento de um só m ineiro soterrado. Eles salvam o Hom em .

 

Entendo claram ente, sob essa luz, o significado da liberdade. Ela é liberdade do crescim ento de árvore no cam po de força de seu grão. Ela é clim a de ascensão do hom em . É sem elhante a um vento favorável. Pela sim ples graça do vento, os veleiros estão livres, no m ar.

 

Um hom em assim construído disporia do poder da árvore. Quanto espaço não cobriria com suas raízes! Que m assa hum ana ela não absorveria para desabrochar ao sol!

XXVII

 

Mas estraguei tudo. Dilapidei a herança. Deixei apodrecer a noção de Hom em .

Para salvar esse culto de um Príncipe contem plado através dos indivíduos, e a alta qualidade das relações hum anas que esse culto fundava, m inha civilização, no entanto, dispendeu um a energia e um talento consideráveis. Todos os esforços do “Hum anism o” só tenderam a esse fim . O Hum anism o se deu por m issão exclusiva esclarecer e perpetuar a prim azia do Hom em sobre o indivíduo. O Hum anism o pregou o Hom em .

Mas quando se trata de falar sobre o Hom em , a linguagem se torna incôm oda. O Hom em se distingue dos hom ens. Nada se diz de essencial sobre a catedral, se não se falar das pedras. Não se diz nada de essencial sobre o Hom em , ao se tentar defini-lo por qualidades de hom em . O Hum anism o trabalhou assim num a direção j á obstruída. Tentou captar a noção de Hom em por um a argum entação lógica e m oral, e a transportá-lo assim nas consciências.

Nenhum a explicação verbal j am ais substitui a contem plação. A unidade do Ser não é transponível em palavras. Se eu desej asse ensinar aos hom ens, cuj a civilização ignorasse, o am or por um a pátria ou por um a propriedade, não disporia de nenhum argum ento para com ovê-los. São os cam pos, os pastos e o gado que com põem um a propriedade. Cada um e, todos j untos, têm por papel enriquecer. Há, não obstante, na propriedade, algum a coisa que escapa à análise dos elem entos, pois há proprietários que, por am or ao que é seu, arruinar-se-iam para salvá-lo. É, bem ao contrário, essa “algum a coisa” que enobrece os elem entos com um a qualidade particular. Eles se tornam o gado de um a propriedade, as pradarias de um a propriedade, os cam pos de um a propriedade…

Assim nos tornam os hom em de um a pátria, de um a profissão, de um a civilização, de um a religião. Mas para se proclam ar de tais Seres, convém , prim eiro, fundá-los em si. E, onde não existe o sentim ento da pátria, nenhum a linguagem o transportará. Som ente por atos é possível fundar-se o Ser a que se pretende pertencer. Um Ser não é o im pério da linguagem , m as o dos atos. Nosso Hum anism o negligenciou os atos. Fracassou em sua tentativa.

O ato essencial aqui recebeu um nom e. É o sacrifício.

Sacrifício não significa nem am putação nem penitência. É essencialm ente um ato. É um dom de si m esm o ao Ser a que se alm ej a pertencer. Apenas este com preenderá o que é um a propriedade, pois terá sacrificado um a parte de si, lutado para salvá-la e sofrido para em belezá-la. Então lhe virá o am or pela propriedade. Um a propriedade não é a som a dos interesses, eis o erro. É a som a dos dons.

Enquanto m inha civilização se apoiou em Deus, salvou essa noção do sacrifício que fundava Deus no coração do hom em . O Hum anism o negligenciou o papel essencial do sacrifício. Pretendeu transportar o Hom em pelas palavras e não pelos atos.

Só dispunha, para salvar a visão do Hom em através dos hom ens, dessa m esm a palavra enfeitada por um a m aiúscula. Nós nos arriscávam os a derrapar num a ladeira perigosa e confundir, um dia, o Hom em com o sím bolo da m édia ou do conj unto dos hom ens. Nós arriscávam os confundir nossa catedral com a som a das pedras.

E, pouco a pouco, perdem os a herança.

Em vez de afirm ar os direitos do Hom em através dos indivíduos, com eçam os a falar dos direitos da Coletividade. Pudem os ver introduzir-se insensivelm ente um a m oral do Coletivo que negligencia o Hom em . Essa m oral explicará claram ente por que cabe ao indivíduo sacrificar-se pela Com unidade. Ela não explicará m ais, sem artifícios de linguagem , por que um a Com unidade deve se sacrificar por um só hom em . Porque é íntegro que m il m orram para libertar um único da prisão da inj ustiça. Nós nos lem bram os disso ainda, m as estam os pouco a pouco esquecendo. E, no entanto, é nesse princípio, que nos distingue tão claram ente do cupinzeiro, que reside, antes de tudo, nossa grandeza.

Por falta de um m étodo eficaz, inserim os Hum anidade — que se encontra no Hom em — nesse cupinzeiro, que é a som a dos indivíduos.

O que tínham os a opor às religiões do Estado ou da Massa? O que se tinha tornado nossa grande im agem do Hom em nascido de Deus? Ela m al se reconhecia através de um vocabulário que estava vazio de sua substância.

 

Pouco a pouco, esquecendo o Hom em , nós lim itam os nossa m oral aos problem as do indivíduo. Exigim os de cada um que não lesasse outro indivíduo. De cada pedra, que não lesasse outra pedra. E decerto elas não se lesam um a à outra, quando estão em pilhadas num cam po. Mas elas lesam a catedral que porventura tenham fundado, a qual, por sua vez, lhes teria fundado a própria significação.

Nós continuam os a pregar a igualdade dos hom ens. Mas, tendo esquecido o Hom em , não entendem os m ais nada do que falávam os. Por não saberm os sobre o que fundar a Igualdade, fizem os dela um a afirm ação vaga, da qual não m ais soubem os nos servir. Com o definir a Igualdade, no plano dos indivíduos, entre o sábio e o bruto, o im becil e o talentoso? A igualdade, no plano m aterial, exige, se pretenderm os definir e realizar, que ocupem todos um lugar idêntico e exerçam o m esm o papel. O que é absurdo. O princípio da Igualdade se abastarda, então, em princípio de identidade.

Continuam os a pregar a Liberdade do hom em . Mas, tendo esquecido o Hom em , definim os nossa Liberdade com o um a licença vaga, exclusivam ente lim itada ao erro com etido contra outrem . O que é vazio de significado, pois não há ato que não engaj e outrem . Se m e m utilar, sendo soldado, sou fuzilado. Não há indivíduo sozinho. Quem se esquiva, lesa um a com unidade. Quem é triste, entristece os outros.

De nosso direito a um a liberdade assim entendida, não soubem os m ais nos servir sem contradições intransponíveis. Sem saber definir em que caso nosso direito era válido, e em que caso não era m ais, fecham os hipocritam ente os olhos, a fim de salvar um princípio obscuro sobre os inum eráveis entraves que toda sociedade, necessariam ente, trazia a nossas liberdades.

Quanto à Caridade, nem m esm o ousam os m ais pregá-la. Com efeito, outrora o sacrifício que funda os Seres tom ava o nom e de Caridade quando honrava a Deus através de sua im agem hum ana. Através do indivíduo, doávam os a Deus ou ao Hom em . Mas, tendo esquecido Deus ou o Hom em , só doávam os ao indivíduo. Desde então, a Caridade tom ava frequentem ente a figura de ação inaceitável. É à Sociedade, e não ao tem peram ento individual, que cabe assegurar a equidade no com partilham ento das provisões. A dignidade do indivíduo exige que ele não sej a reduzido à vassalagem pelas larguezas de outrem . Seria paradoxal ver os possuidores reivindicar, além da posse de seus bens, a gratidão daqueles que nada possuem .

Mas, acim a de tudo, nossa caridade m al com preendida se voltava contra a sua finalidade. Exclusivam ente fundada sobre os m ovim entos de piedade para com os indivíduos, ter-nos-ia proibido qualquer corretivo. Enquanto a Caridade verdadeira, sendo exercício de um culto ao Hom em , para além do indivíduo, im punha com bater o indivíduo para nele fazer crescer o Hom em .

 

Assim , perdem os o Hom em . E, perdendo o Hom em , esvaziam os de calor essa fraternidade, logo a que nossa civilização nos pregava, pois que som os irm ãos em algum a coisa e não sim plesm ente irm ãos. O com partilham ento não garante a fraternidade. Esta se liga unicam ente ao sacrifício. Liga-se ao dom com um ao que é m ais vasto que nós m esm os. Mas, confundindo com um m inguam ento estéril essa raiz de toda existência verdadeira, nós reduzim os nossa fraternidade à m era tolerância m útua.

Cessam os de doar. Contudo, se pretendo não doar senão a m im m esm o, nada recebo, pois não construo nada do que m e constitui e por isso não sou nada. Se vierem agora exigir que m orra por interesses, eu m e recusarei a m orrer. O interesse m anda prim eiro viver. Qual é o im pulso de am or que pagaria m inha m orte? Morre-se por um a casa. Não por obj etos ou por paredes. Morre-se por um a catedral. Não por pedras. Morre-se por um povo. Não por um a m ultidão. Morre-se pelo am or do Hom em , se ele for o ponto de sustentação do conj unto de um a Com unidade. Morre-se unicam ente por aquilo por que se pode viver.

Nosso vocabulário parecia quase intacto, m as nossas palavras, esvaziadas de substância real, nos levariam , se pretendêssem os usá-las, a contradições sem saída. Éram os obrigados a fechar os olhos a esses litígios. Nós éram os obrigados, por não saberm os construir, a deixar as pedras am ontoadas no cam po, e a falar da Coletividade, com prudência, sem ousar precisar m uito bem sobre o que falávam os, pois, de fato, não falávam os de nada. Coletividade é palavra vazia de significado, enquanto Coletividade não se ligar a algum a coisa. Um a som a não é um Ser.

Se a nossa Sociedade ainda parecia desej ável, se nela o Hom em ainda conservava algum prestígio, era na m edida em que a civilização verdadeira, a qual traíam os por nossa ignorância, prolongava sobre nós seu brilho condenado e nos salvava, apesar de nós. Com o nossos adversários com preenderiam o que não com preendíam os m ais? Tudo o que viram de nós foram essas pedras am ontoadas. Tentaram dar um sentido a um a Coletividade que nós não sabíam os m ais definir, por não nos lem brarm os do Hom em .

Alguns chegaram , de súbito, alegrem ente, às conclusões m ais extrem as da lógica. Dessa coleção, fizeram um a coleção absoluta. As pedras devem ser idênticas às pedras. E cada pedra reina soberana sobre si m esm a. A anarquia se lem bra do culto ao Hom em , m as o aplica, com rigor, ao indivíduo. E as contradições que surgem desse rigor são piores do que as nossas.

Outros j untaram as pedras espalhadas em pilhas no cam po. Pregaram os direitos da Massa. A fórm ula tam pouco satisfaz. Pois se é intolerável que um único hom em tiranize um a Massa, é igualm ente intolerável que um a Massa esm ague um único hom em .

Outros se apoderaram dessas pedras sem poder e, dessa som a, fizeram um Estado. Tal Estado tam pouco transcende os hom ens. Tam bém ele é expressão de um a som a. Ele é poder da Coletividade delegado às m ãos de um indivíduo. Ele é reino de um a pedra, a qual pretende identificar-se às outras, no conj unto de pedras. Esse Estado prega claram ente um a m oral do Coletivo que recusam os ainda, m as para a qual cam inham os, nós m esm os, lentam ente, por não nos lem brarm os do Hom em , o único que j ustificaria nossa recusa.

Esses fiéis da nova religião opor-se-ão a que vários m ineiros arrisquem sua vida para o salvam ento de um único m ineiro soterrado. Pois o m onte de pedras, então, está lesado. Eles darão cabo do gravem ente ferido, se ele atrapalhar o avanço de um exército. O bem da Com unidade, eles estudarão na aritm ética — e a aritm ética os governará. Nisso perderão de transcender a m aiores do que si m esm os. Odiarão, por conseguinte, o que difere deles, pois não disporão de nada, acim a de si m esm os, em que fundir-se. Qualquer costum e, qualquer raça, qualquer pensam ento diferente se tornará para eles um a afronta. Eles não disporão do poder de absorver, pois para converter o Hom em em si, convém não am putá-lo, m as exprim i-lo a si m esm o, oferecer um obj etivo a suas aspirações e um território a suas energias. Converter, sem pre é libertar. A catedral pode absorver as pedras, que nela tom am um sentido. Mas o m onte de pedras não absorve nada e, sem condições de absorver, esm aga. Assim é, m as de quem é a culpa?

Não m ais m e surpreende que o m onte de pedras, que é pesado, tenha se sobreposto às pedras desordenadas.

Entretanto, sou eu o m ais forte.

 

Sou o m ais forte se m e reencontro. Se nosso Hum anism o restaurar o Hom em . Se souberm os fundar nossa Com unidade e se, para fundá-la, usarm os de um só instrum ento eficaz: o sacrifício. Nossa Com unidade, tal com o nossa civilização a construiu, tam bém não era a som a de nossos interesses — ela era a som a de nossos dons.

Eu sou o m ais forte, porque a árvore é m ais forte do que as m atérias do solo. Ela as drena para si. Ela os transform a em árvore. A catedral é m ais brilhante do que os am ontoados de pedras. Eu sou o m ais forte porque só m inha civilização tem poder de am algam ar em sua unidade, sem am putar, as diversidades particulares. Ela vivifica a fonte de sua força, ao m esm o tem po que nela se sacia.

 

Eu quis, na hora da partida, receber antes de doar. Minha pretensão era vã. Foi com o a triste aula de gram ática. É preciso dar antes de receber… E construir antes de habitar.

Fundei m eu am or pelos m eus nesse longo dom do sangue, com o a m ãe funda o seu pelo dom do leite. Aí está o m istério. É preciso com eçar pelo sacrifício para fundar o am or. O am or, depois, pode solicitar outros sacrifícios e em pregá-los em todas as vitórias. O hom em deve sem pre dar os prim eiros passos. Deve nascer antes de existir.

Voltei da m issão tendo fundado m eu parentesco com a pequena fazendeira. Seu sorriso m e foi transparente e, através dele, vi m inha vila. Através da m inha vila, m eu país. Pois sou de um a civilização que escolheu o Hom em com o pilar. Sou do Grupo 2/33, que desej ava com bater pela Noruega.

Pode ser que Alias, am anhã, m e designe para outra m issão. Eu m e vesti, hoj e, para o serviço de um deus ao qual eu estava cego. O tiro de Arras trincou o casco e eu enxerguei. Todos os nossos enxergaram tam bém . Se então eu decolar no am anhecer, saberei pelo que ainda estou com batendo.

Mas desej o m e lem brar do que vi. Preciso de um Credo sim ples para m e lem brar.

 

Eu com baterei pela prim azia do Hom em sobre o indivíduo — com o do Universal sobre o particular.

Eu creio que o culto do Universal exalte e una as riquezas particulares e funde a única ordem verdadeira, que é a da vida. Um a árvore é um a ordem , apesar de suas raízes diferirem dos galhos.

Eu creio que o culto do particular acarrete som ente a m orte, pois funda a ordem na sem elhança. E confunde a unidade do Ser com a identidade de suas partes. E devasta a catedral para alinhar as pedras. Eu com baterei então todo aquele que pretender im por um costum e particular aos outros costum es, um povo particular aos outros povos, um a raça particular às outras raças, um pensam ento particular aos outros pensam entos.

Eu creio que a prim azia do Hom em funde a única Igualdade e a única Liberdade que tenham significado. Eu creio na igualdade dos direitos do Hom em através de cada indivíduo. E creio que a Liberdade é a da ascensão do Hom em . Igualdade não é Identidade. A Liberdade não é a exaltação do indivíduo contra o Hom em . Eu com baterei todo aquele que pretenda subj ugar a um indivíduo — com o a um a m assa de indivíduos — a liberdade do Hom em .

 

Eu creio que m inha civilização denom ine Caridade o sacrifício consentido ao Hom em , a fim de estabelecer seu reino. A caridade é o dom do Hom em , através da m ediocridade do indivíduo. Ela funda o Hom em . Eu com baterei todo aquele que, pretendendo que m inha caridade honre a m ediocridade, renegue o Hom em e, assim , aprisione o indivíduo num a m ediocridade definitiva. Eu com baterei pelo Hom em . Contra seus inim igos. Mas tam bém contra m im m esm o.

XXVIII

 

Reencontrei os cam aradas. Devíam os nos encontrar todos por volta de m eia-noite para receber as ordens. O Grupo 2/33 está com sono. A cham a do grande fogo transform ou-se em brasa. O Grupo parece aguentar ainda, m as é só um a ilusão. Hochedé interroga tristem ente seu fam oso cronôm etro. Pénicot, num canto, com a nuca contra a parede, fecha os olhos, Gavoille, sentado num a m esa, com o olhar vago e as pernas pendentes, faz bico com o um a criança prestes a chorar. Azam bre vacila sobre um livro. O com andante é o único alerta, m as pálido de dar m edo, com os papéis na m ão sob um abaj ur, conversa em voz baixa com Geley. “Conversa”, aliás, não é um a im agem . O com andante fala. Geley aquiesce com a cabeça e diz: “Sim , claro”. Geley se agarra a seu “Sim , claro”. Ele adere cada vez m ais estreitam ente aos enunciados do com andante, com o um hom em se afogando ao pescoço do salva-vidas. Se eu fosse Alias, eu diria, sem m udar de tom : “Capitão Geley … O senhor será fuzilado ao am anhecer…”. E esperaria a resposta.

O Grupo não dorm e há três dias e está de pé com o um castelo de cartas.

O com andante se levanta, vai até Lacordaire e o tira de um sonho, no qual Lacordaire, talvez, ganhasse de m im no xadrez:

— Lacordaire… Você partirá de m anhãzinha. Missão rasante.

— Certo, Com andante.

— Você deveria dorm ir…

— Sim , Com andante.

Lacordaire se senta novam ente. O com andante, saindo, leva Geley em seu rastro, com o puxaria um peixe m orto na ponta de um a linha. Eis, sem dúvida, não três dias, m as um a sem ana que Geley não se deita. Assim com o Alias, ele não só pilotou suas m issões de guerra, m as carregou nos om bros a responsabilidade do Grupo. A resistência hum ana tem lim ites. A de Geley foi atingida. Ei-los aí, no entanto, partindo am bos, o nadador e seu afogado, à procura de ordens fantasm as.

Vezin, desconfiado, chegou para m im , Vezin que tam bém está dorm indo em pé, com o um sonâm bulo:

— Você está dorm indo?

— Eu…

Apoiei a nuca contra o encosto de um a poltrona, pois achei um a poltrona. Eu tam bém cochilava, m as a voz de Vezin m e atorm enta:

— Isso vai acabar m al!

Acabará m al… Interdição a priori… Acabará m al…

— Você está dorm indo?

— Eu… Não… O que vai acabar m al?

— A guerra.

Essa é nova. Eu afundo de novo no sono. Respondo vagam ente.

— Qual guerra?

— Com o “qual guerra?”

Essa conversa não irá longe. Ah! Paula, se houvesse nos Grupos aéreos governantas tirolesas, o Grupo 2/33 inteiro estaria na cam a há m uito tem po! O Com andante em purra a porta com o um pé de vento:

Está decidido. A gente vai se m udar.

Atrás dele, Geley, bem acordado. Ele deixará para am anhã seus “sim , claro”. Ele usará, para tarefas extenuantes, esta noite ainda, reservas que ele m esm o ignorava.

A gente se levanta. Dizem os: “Ah…é?”. O que diríam os?

 

Não direm os nada. Garantirem os a m udança. Só Lacordaire esperará a aurora para decolar, a fim de cum prir sua m issão. Se ele voltar, irá diretam ente à nova base.

Am anhã, nós tam bém não direm os nada. Am anhã, para as testem unhas, serem os os vencidos. Vencidos devem se calar. Com o os grãos.