Piloto de Guerra
Piloto de guerra
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
VII
Decerto, às vezes, com o hoj e, a m issão não consegue satisfazer. É tão evidente que estam os j ogando um j ogo que im ita a guerra. Brincam os de m ocinho e bandido. Observam os corretam ente a m oral de nossos livros de história e as regras de nossos m anuais. Assim , andei esta noite de carro, pelo terreno. E a sentinela, segundo a ordem , cruzou a baioneta diante desse carro que poderia m uito bem ser um tanque. Nós brincam os de cruzar a baioneta diante dos tanques.
Com o nos exaltaríam os com essas charadas um pouco cruéis, nas quais tem os claram ente um papel de figurantes, quando nos pedem para aguentar até a m orte? É sério dem ais, a m orte, para um a charada.
Quem se equiparia com exaltação? Ninguém . Nem Hochedé, que é um a espécie de santo, tendo atingido esse dom m aior perm anente que é sem dúvida o acabam ento do hom em , o próprio Hochedé refugiou-se no silêncio. Os cam aradas que se equipam se calam , então, de cara fechada, e não é por pudor de herói. Essa cara fechada não m ascara nenhum a exaltação. Diz o que diz. E eu a reconheço. É a cara fechada do gerente que não entende nada das ordens que lhe ditou um patrão ausente. E que, no entanto, perm anece fiel: todos os cam aradas sonham com seu quarto calm o, m as não há, entre nós, um só que escolhesse verdadeiram ente ir dorm ir.
Porque o im portante não é exaltar-se. Não há, na derrota, nenhum a esperança de exaltação. O im portante é equipar-se, subir a bordo, decolar. O que pensam os de nós m esm os não tem nenhum a im portância. E a criança que se exaltasse à ideia das aulas de gram ática pareceria pretenciosa e suspeita. O im portante é gerir um obj etivo que não se m ostra na hora. Esse obj etivo não é para a inteligência, m as para o Espírito. O Espírito sabe am ar, m as está dorm indo. Sei no que consiste a tentação tanto quanto um padre da Igrej a. Ser tentado, é ser tentado quando o Espírito dorm e, a ceder às razões da inteligência.
De que serve engaj ar m inha vida nesse desm oronam ento de m ontanha? Ignoro-o. Repetiram -m e cem vezes: “Deixe-se ser nom eado aqui ou ali. Ali é seu lugar. Você será m ais útil do que num a esquadrilha. Pilotos a gente pode
form ar aos m ilhares”.* A dem onstração era perem ptória. Todas as dem onstrações são perem ptórias. Minha inteligência aprovava, m as m eu instinto prevalecia sobre m inha inteligência.
Por que esse raciocínio m e parecia ilusório enquanto eu nada tinha a obj etar? Eu pensava: “Os intelectuais se m antêm na reserva, com o vidros de conserva nas prateleiras da Propaganda para serem com idos depois da guerra…”. Não era um a resposta!
Hoj e, ainda, com o os cam aradas, decolei contra todos os argum entos, todas as evidências, todas as reações do m om ento. Chegará a hora em que saberei que tinha razão contra m inha razão. Eu m e prom eti, se eu viver, fazer esse passeio noturno através da m inha vila. Então, talvez, eu m esm o m e habitue, enfim . E verei.
Talvez nada tenha a dizer sobre o que eu vir. Quando um a m ulher m e parece bonita, eu não tenho nada a dizer a respeito. Eu a olho sorrir, sim plesm ente. Os intelectuais desm ontam o rosto para explicar os pedaços, m as não veem m ais o sorriso.
Conhecer não é desm ontar nem explicar. É chegar à visão. Mas para ver, convém prim eiro participar. É um a dura aprendizagem …
Durante todo o dia, m inha vila esteve invisível para m im . Tratava-se, antes da m issão, de paredes de estuque e de cam poneses m ais ou m enos suj os. Trata-se agora de um pouco de cascalho a dez quilôm etros abaixo de m im . Eis a m inha vila.
Mas, essa noite, talvez, um cão de guarda desperte e ladre. Eu sem pre experim entei a m agia de um a cidadezinha que sonha alto, pela voz de um único cão de guarda na noite clara.
Não tenho nenhum a esperança de m e fazer com preender, o que m e é absolutam ente indiferente. Que se m ostre, sim plesm ente, a m im , atrás das portas fechadas sobre provisões de grãos, sobre o gado, os costum es, m inha vila bem acom odada para dorm ir!
Os cam poneses, no retorno dos cam pos, tendo servido a refeição, posto as crianças para dorm ir e assoprado o lam pião, se fundirão em seu silêncio. E nada m ais haverá senão, sob os belos lençóis engom ados do cam po, os lentos m ovim entos de respiração, com o de um resto de m arulho, depois do tem poral, sobre o m ar.
Deus suspende o uso das riquezas durante o balanço noturno. A herança reservada m e aparecerá, assim , m ais claram ente, quando os hom ens repousarem , com as m ãos abertas pelo j ogo do sono inflexível que relaxa os dedos até o am anhecer.
Então, talvez eu contem ple o que não tem nom e. Terei andado com o um cego cuj o tato conduziu ao fogo. Ele não saberia descrevê-lo e, no entanto, o terá encontrado. Assim , talvez, m ostre-se o que convém proteger, o que não se vê, m as dura, à m aneira de um a brasa, sob a cinza das noites de vila.
Eu nada tinha a esperar de um a m issão fracassada. Para com preender um a sim ples vila, é preciso prim eiro…
— Capitão!
— Sim ?
— Seis caças, seis, na frente, à esquerda!
Isso soou com o um trovão. É preciso… Precisa… Eu gostaria: entretanto, de ser pago a tem po. Gostaria de ter direito ao am or. Gostaria de saber por quem vou m orrer…
* O autor se refere às várias tentativas que fizeram para dissuadi-lo de participar em esquadrilhas, j ustam ente por j á estar com m ais de quarenta anos e ter m uitas sequelas de seus acidentes anteriores. (N. T.)
VIII
— Artilheiro!
— Capitão?
— Você ouviu? Seis caças, seis, na frente, à esquerda!
— Ouvi, Capitão!
— Dutertre, eles nos viram ?
— Viram . Viraram para nós. Nós estam os quinhentos m etros acim a.
— Artilheiro, ouviu? Acim a quinhentos m etros.
— Dutertre! Longe ainda?
— … alguns segundos.
— Artilheiro, ouviu? Estarão na cauda em alguns segundos.
— Agora estou vendo! Um enxam e de vespas envenenadas.
— Artilheiro! Passaram no través. Você vai ver num segundo. Ali!
— Eu… Não estou vendo nada. Ah! Vi!
— Eu não os vej o m ais!
— Estão no nosso encalço?
— Estão no nosso encalço!
— Subindo rápido?
— Não sei… Não creio…
— Não!
— O que o senhor decide, Capitão?
Foi Dutertre quem falou.
— O que você quer que eu decida! E nos calam os.
Não há nada a decidir. Isso pertence exclusivam ente a Deus. Se eu virasse, encurtaria o intervalo que nos separava. Com o continuam os em frente, na direção do sol, e em grande altitude não se sobe quinhentos m etros sem perder o alvo por alguns quilôm etros, pode ser que antes de atingirem nossa altura, quando retom arão sua velocidade, j á nos tenham perdido ao sol.
— Artilheiro, ainda?
— Ainda.
— Passam os deles?
— Hã… Não… Sim !
Pertence a Deus e ao sol.
Prevendo o eventual com bate (em bora um Grupo de Caça m ais assassine do que com bata), eu m e esforço, lutando contra ele com todos os m eus m úsculos, para desbloquear m eus pedais gelados. Tenho um a estranha sensação, m as ainda tenho os caças nos olhos. E ponho todo o m eu peso nos com andos rígidos.
Um a vez m ais observo que estou, de fato, m enos com ovido nesta ação, a qual, entretanto, reduz-m e a um a espera absurda, do que eu estava ao m e equipar. Sinto tam bém um a espécie de raiva. Um a cólera benfazej a.
Mas nenhum a em briaguez do sacrifício. Tenho vontade de m order.
— Artilheiro, nós os alcançam os?
— Alcançam os, Capitão.
Vai dar.
— Dutertre… Dutertre…
— Capitão?
— Não… Nada.
— Que foi, Capitão?
— Nada… Achei que… Nada…
Eu não lhes direi nada. Não é coisa que se apronte. Se ensaiar um a espiral, eles verão. Verão que estou esboçando um a espiral…
Não é norm al que eu estej a ensopado de suor com cinquenta graus de frio. Não é norm al. Oh! Já entendi o que está acontecendo: desm aio devagarinho. Bem devagar…
Vej o o painel de bordo. Não vej o o painel de bordo. Minhas m ãos am olecem no m anche. Não tenho nem força para falar. Abandono-m e. Abandonar-se…
Apertei o tubo de borracha. Recebi no nariz um a golfada que traz a vida. Então não é um a pane de oxigênio. É… Sim , claro, com o fui estúpido. É o pedal. Exerci contra m eus pedais esforços de estivador, de cam inhoneiro. A dez m il m etros de altitude, parecia um lutador de circo. Porém , m eu oxigênio é lim itado. Tinha de consum ir com m oderação. Pago pela orgia…
Respiro com sofreguidão. Meu coração bate rápido, m uito rápido. É com o um guizo fraco. Nada direi à m inha tripulação. Se eu tentar um a espiral, eles saberão logo! Vej o o painel de bordo… Não vej o o painel de bordo… Sinto-m e triste no m eu suor.
A vida m e voltou lentam ente.
— Dutertre!
— Capitão?
Gostaria de lhe contar o que aconteceu.
— Eu achei que…
Mas renuncio a m e exprim ir. As palavras consom em oxigênio dem ais, e m eus três vocábulos j á m e tiraram o fôlego. Sou um fraco, fraco convalescente…
— Que foi, Capitão?
— Não… Nada.
— Capitão, o senhor está realm ente enigm ático!
Estou enigm ático. Mas estou vivo.
— Não… não nos atingiram …
— Ah! Capitão, é provisório! É provisório: tem Arras.
Assim , durante alguns m inutos, eu acreditei poder voltar e, no entanto, não observei em m im essa angústia brilhante que, dizem , em branquece os cabelos. E m e lem bro de Sagon. Do depoim ento de Sagon, a quem visitam os alguns dias depois do com bate que o abateu, há dois m eses, em zona francesa: o que sentira, Sagon, quando os caças o enquadraram , pregaram , de algum m odo, em seu poste de execução, considerou-se m orto naqueles dez segundos?
IX
Eu o revej o com precisão, deitado no leito do hospital. Seu j oelho ficou preso e foi quebrado pela em penagem do avião durante o salto de paraquedas, m as Sagon não sentiu o choque. Seu rosto e suas m ãos estão gravem ente queim ados, m as, ao final das contas, ele não sofreu nada de preocupante. Ele nos conta lentam ente sua história, com um a voz qualquer, com o o relatório de um a tarefa…
— Percebi que ele estava atirando quando m e vi envolvido em balas traçantes. Meu painel de bordo estourou. Depois, vi um pouco de fum aça, m as não m uita, que parecia vir da frente. Pensei que era, você sabe, ali tem um tubo de j unção. Ah! Não estava cham ej ando m uito…
Sagon faz bico. Pesa a questão. Julga im portante dizer-nos se cham ej ava m uito ou não m uito. Hesita:
— Mesm o assim era fogo… Então, eu m andei que saltassem .
Pois o fogo, em dez segundos, transform a o avião em tocha!
— Abri, então, o canopi. Fiz m al. Entrou ar… O fogo… Fiquei incom odado.
Um forno de locom otiva cospe-lhe no ventre um a torrente de cham as, a sete m il m etros de altitude e você ficou incom odado! Não trairei Sagon exaltando seu heroísm o ou seu pudor. Ele não reconheceria nem esse heroísm o nem esse pudor. Ele diria: “Sim , sim , fiquei incom odado…”. Ele faz, aliás, visíveis esforços para ser exato.
E bem sei que o cam po da consciência é m inúsculo. Ela só aceita um problem a de cada vez. Se você brigar de soco e a estratégia da luta o preocupar, não sofrerá pelos socos. Quando quase m e afoguei, num acidente de hidroavião, a água, que estava gelada, pareceu-m e m orna. Ou, m ais precisam ente: m inha consciência não considerou a tem peratura da água. Ela estava absorvida por outras preocupações. A tem peratura da água não deixou nenhum traço em m inha lem brança. Assim , a consciência de Sagon foi absorvida pela técnica da partida. O universo de Sagon se lim itava à m anivela que desliza o canopi para trás, à certa alça do paraquedas cuj a localização o preocupou, e o destino técnico de sua tripulação. “Você saltou?” Nada de resposta. “Ninguém a bordo?” Nada de resposta.
— Pensei que estava sozinho. Achei que podia partir… (Ele j á estava com o rosto e as m ãos tostados). Levantei, pulei a carlinga e m e m antive prim eiro sobre a asa. Ali, debrucei à frente: não tinha visto o observador…
O observador, m orto com um tiro só dos caças, j azia no fundo da carlinga.
— Recuei então e, atrás, não vi o artilheiro…
O artilheiro, tam bém , havia desm oronado.
— Pensei que estava sozinho…
Ele refletiu:
— Se eu soubesse… Podia ter voltado a bordo… Não estava queim ando tanto… Eu fiquei assim , m uito tem po, na asa… Antes de sair da carlinga, eu tinha com pensado o avião para cabrar. O voo estava estabilizado, a respiração suportável e eu m e sentia bem . Ah! Fiquei tem po dem ais na asa… Não sabia o que fazer…
Não que se apresentassem a Sagon problem as inextricáveis: ele pensava estar sozinho a bordo, o avião em cham as e os caças repetiam suas passagens cuspindo proj éteis. O que queria nos dizer Sagon é que ele não tinha nenhum desej o. Ele não sentia nada. Dispunha de todo o seu tem po. Im ergia num a espécie de ócio infinito. E, ponto por ponto, eu reconhecia essa extraordinária sensação que acom panha às vezes a im inência da m orte: um ócio inesperado… Com o ela é desm entida pelo real! A im aginária da ofegante precipitação! Sagon perm anecia ali, sobre a asa, com o ej etado para fora do tem po!
— E depois eu saltei — disse ele —, saltei m al. Eu m e vi turbilhonar. Tive m edo de abrir cedo dem ais e m e enrolar no paraquedas. Esperei ficar estabilizado. Ah, esperei m uito tem po.
Sagon, assim , conserva a lem brança de ter, do início ao fim de sua aventura, esperado. Esperou cham ej ar m ais forte. Depois, esperou na asa, não se sabe o quê. E, em queda livre, na vertical para o solo, ainda esperou.
E se tratava de Sagon m esm o, e ainda que se tratasse de um Sagon rudim entar, m ais do que de costum e, de um Sagon um pouco perplexo que, à beira de um abism o, esperneava entediado.
X
Já faz duas horas que estam os m ergulhados num a pressão externa reduzida a um terço da pressão norm al. A equipe se desgasta lentam ente. Nós m al nos falam os. Ainda tentei, um a ou duas vezes, com prudência, agir sobre m eus pedais. Não insisti. Fui duas vezes penetrado pela m esm a sensação de esgotante calm aria.
Dutertre, em função das viragens que a foto exige, avisa-m e m uito tem po antes. Eu faço o que posso com o que m e resta de com ando. Inclino o avião e puxo para m im . E consigo, para Dutertre, viragens em vinte tom adas.
— Qual a altitude?
— Dez m il e duzentos…
Ainda penso em Sagon… O hom em é sem pre o hom em . Som os hom ens. E, em m im , só encontrei a m im m esm o. Sagon não conheceu senão Sagon. Aquele que m orre, m orre com o sem pre foi. Na m orte de um sim ples m ineiro, é um sim ples m ineiro que m orre. Onde acham os essa dem ência desvairada que, para nos deslum brar, inventam os literatos?
Vi tirarem um hom em , na Espanha, depois de alguns dias de trabalho, do porão de um a casa desm oronada por um torpedo. A m ultidão cercava em silêncio e, parece-m e, com um a súbita tim idez, aquele que voltava quase do além , coberto ainda pelos destroços, um tanto em brutecido pela asfixia e pelo j ej um , parecendo um a espécie de m onstro extinto. Quando alguns se atreveram a interrogá-lo e ele prestou às questões um a atenção glauca, a tim idez da m ultidão tornou-se m al-estar.
Tentavam com ele chavões desaj eitados, pois a verdadeira interrogação ninguém sabia form ular. Diziam -lhe: “O que o senhor está sentindo?… O que pensava?… O que ficou fazendo?”. Lançavam assim , ao acaso, passarelas sobre um abism o com o se tivessem usado um a prim eira convenção para atingir, em sua escuridão, o cego surdo-m udo que tentavam socorrer.
Mas quando o hom em conseguiu responder, disse:
— Ah, sim , ouvia longos desm oronam entos…
Ou ainda…
— Eu fiquei bem preocupado. Dem orou…
— Ah, dem orou m uito…
Ou ainda…
— Eu tinha dor nas costas, m uita dor…
E aquele valente hom em falava-nos tão som ente do valente hom em . Ele nos falou principalm ente de seu relógio de pulso, que perdera…
— Eu procurei… Gostava m uito dele, m as no escuro…
E, decerto, a vida lhe ensinara a sensação do tem po que transcorre ou do am or pelos obj etos fam iliares. E ele se servia do hom em que era para sentir o seu universo, m esm o que fosse o universo de um a avalanche na noite. E, à questão fundam ental, que ninguém soube fazer, m as que governava todas as tentativas: “Quem era o senhor? Quem surgiu no senhor?”, ele nada poderia ter respondido, senão: “Eu m esm o…”.
Nenhum a circunstância desperta em nós um estranho de que não suspeitássem os. Viver é nascer lentam ente. Seria m uito fácil tom ar alm as j á prontas!
Um a ilum inação repentina parece às vezes fazer bifurcar um destino. Mas a ilum inação é som ente a visão repentina, pelo Espírito, de um a estrada lentam ente preparada. Eu aprendi lentam ente a gram ática. Exercitaram -m e na sintaxe. Despertaram m eus sentim entos. E eis que bruscam ente um poem a m e bate ao coração.
Decerto, não sinto neste instante nenhum am or, m as se, esta noite, algum a coisa m e for tirada, é que terei levado pesadam ente m inhas pedras à construção invisível. Eu preparo um a festa. Eu não terei o direito de falar de aparição súbita, em m im , de outro diferente de m im , pois sou eu quem constrói esse outro.
Nada tenho a esperar da aventura de guerra, senão essa lenta preparação. Ela pagará, m ais tarde, com o a gram ática…
Toda a vida se arrefeceu em nós por causa desse lento desgaste. Nós envelhecem os. A m issão envelhece. Quanto custa a altitude? Um a hora vivida a dez m il m etros equivale a um a sem ana, três sem anas, um m ês de vida orgânica, de exercício do coração, dos pulm ões, das artérias? Pouco im porta, aliás. Meus quase desvanecim entos m e acrescentaram séculos: estou im erso na serenidade dos velhos. As em oções da preparação m e parecem infinitam ente longínquas, perdidas no passado. Arras infinitam ente longínqua no futuro.
A aventura de guerra? Onde há aventura de guerra?
Quase m orri há dez m inutos e nada tenho a contar, senão a passagem das vespas m inúsculas entrevistas durante três segundos. A verdadeira aventura teria durado um décim o de segundo. E em nosso grupo não voltam os j am ais para contá-la.
— Um pezinho à esquerda, Capitão.
Dutertre esqueceu que m eu pedal está congelado. Eu penso num a gravura que m e deslum brou na infância. Via-se, no fundo de um a aurora boreal, um extraordinário cem itério de navios perdidos, im obilizados nos m ares austrais. Eles erguiam , na luz acinzentada de um a espécie de noite eterna, braços cristalizados. Num a atm osfera m orta, ainda estendiam velas que conservaram a m arca do vento, com o um leito guarda a sutil m arca de um om bro. Mas nos pareciam duras e quebradiças.
Aqui, tudo está congelado. Meus com andos estão congelados. Minhas m etralhadoras estão congeladas. E quando perguntei ao artilheiro sobre as dele:
— Suas m etralhadoras?
— Mais nada.
— Ah! Bom .
No tubo de expiração da m inha m áscara, cuspo agulhas de gelo. De tem pos em tem pos, preciso esm agar, através da borracha flexível, a rolha de gelo que m e sufoca. Quando aperto, sinto-a estilhaçar-se na m inha palm a.
— Artilheiro, o oxigênio está o.k.?
— Tudo bem !
— Qual a pressão dos seus tubos?
— Hã… Setenta.
— Ah! Bom .
O tem po para nós está congelado tam bém . Som os três velhos de barba branca. Nada é m óvel. Nada é urgente. Nada é cruel.
A aventura de guerra? O com andante Alias achou um dia de m e dizer:
— Tente tom ar cuidado!
Cuidado com o quê, com andante Alias? O caça nos atinge com o um raio. O Grupo de Caça, que sobrevoa m il e quinhentos m etros de altitude acim a de nós, quando nos descobre abaixo dele, fica à vontade. Ele serpenteia, orienta-se, posiciona-se. A gente ainda ignora tudo. Som os o rato fechado na som bra da ave de rapina. O rato pensa que vive. Ele ainda vagueia nos trigais. Mas j á é prisioneiro da retina desse gavião, colado nela m ais do que em gom a, pois o gavião não o largará m ais.
A gente continua, ainda assim a pilotar, a sonhar, a observar o solo, quando j á está condenado pelo im perceptível ponto negro que se form ou num a retina hum ana.
Os nove aviões do Grupo de Caça vão m ergulhar para o ataque quando lhes aprouver. Eles têm todo o tem po. Eles darão a novecentos quilôm etros por hora esse prodigioso tiro de arpão que não erra j am ais sua presa. Um a esquadrilha de bom bardeio constitui um a potência de tiro que oferece chances à defesa, m as a tripulação de Reconhecim ento, isolada em pleno céu, nunca triunfa sobre setenta e duas m etralhadoras que só se revelarão, aliás, pelo feixe lum inoso de suas balas.
No exato instante em que se souber que há com bate, o caça, depois de lançar seu veneno de um a só vez, feito um a cobra, j á neutro e inacessível, nos dom inará. As cobras oscilam assim , lançam a sua faísca e retom am o seu balanço.
Assim , quando o Grupo de Caça tiver desvanecido, nada ainda terá m udado. Nem m esm o os rostos m udam . Eles m udam quando o céu está vazio e a paz está feita. O caça, agora, é apenas um testem unho im parcial quando, da carótida seccionada do observador, escapa o prim eiro dos j atos de sangue, quando, do capô do m otor direito, filtra, hesitante, a prim eira cham a do fogo de forj a. Assim , a cobra j á se enrolou quando o veneno penetra no coração e quando o prim eiro m úsculo do rosto se contrai. O Grupo de Caça não m ata. Ele sem eia a m orte. Esta germ ina depois que ele passou.
Cuidado com o quê, com andante Alias? Quando nós cruzam os os caças, eu nada tive a decidir. Eu poderia não tê-los conhecido. Se m e tivessem dom inado, eu não os teria j am ais conhecido!
Cuidado com o quê? O céu está vazio.
A terra está vazia.
Não há m ais hom ens quando se observa a dez quilôm etros de distância. Os m ovim entos do hom em não m ais se leem a essa escala. Nossas câm eras fotográficas de longo alcance servem aqui de m icroscópios, é preciso m icroscópio para apreender, não o hom em — ele escapa ainda desse instrum ento — m as os sinais de sua presença, as estradas, os canais, os cortej os, as lanchas. O hom em fecunda um a lâm ina de m icroscópio. Sou um sábio glacial e a guerra deles, para m im , não passa de um estudo de laboratório.
— Eles estão atirando, Dutertre?
— Acho que estão atirando.
Dutertre não sabe nada. As explosões são m uito longínquas, e as m anchas de fum aça se confundem com o solo. Eles não podem querer nos abater com um tiro tão im preciso. Estam os a dez m il m etros, praticam ente invulneráveis. Eles atiram para nos situar e guiar o caça, quem sabe, sobre nós. Um caça perdido no céu com o um a poeira invisível.
Do solo nos distinguem por causa da echarpe de nácar branco que um avião, voando em grande altitude, arrasta com o um véu de noiva. O abalo devido à passagem da bólide cristaliza o vapor de água da atm osfera. E nós desenrolam os, atrás de nós, um cirro de agulhas de gelo. Se as condições externas são propícias à form ação de nuvens, essa trilha aum entará lentam ente e se tornará nuvem à noite no cam po. Os caças são guiados em nossa direção pelo rádio de bordo, pelos conj untos de explosões, depois pelo luxo ostentatório de nossa echarpe branca. No entanto, estam os m ergulhados num vazio quase sideral.
Navegam os, eu bem sei, a quinhentos e trinta quilôm etros por hora… Porém , tudo ficou im óvel. A velocidade se m ostra sobre um hipódrom o. Mas aqui tudo está im erso no espaço. Assim a terra, apesar de seus quarenta e dois quilôm etros por segundo, perfaz lentam ente a volta em torno do sol. Ela gasta um ano. Nós tam bém , som os lentam ente alcançados, talvez, nesse exercício de gravitação. A densidade da guerra aérea? Grãos de poeira num a catedral. Com o grãos de poeira, atraím os para nós algum as dezenas ou centenas de poeiras. E toda essa cinza, com o de um tapete sacudido, sobe lentam ente ao sol.
Cuidado com o quê, com andante Alias? Vej o, na vertical, som ente bibelôs de um a outra época, sob um cristal puro que não trem e. Eu m e debruço sobre vitrines de m useu. Mas elas j á se apresentam na contraluz. Muito longe, lá na frente, estão provavelm ente Dunquerque e o m ar. Mas, na oblíqua, não distingo grande coisa. O sol está agora baixo dem ais e eu dom ino um a grande placa espelhada.
— Você está vendo algum a coisa, Dutertre, através dessa porcaria?
— Na vertical, sim , Capitão…
— Ei, Artilheiro, nada de novidades dos caças?
— Nada de novidades…
Na realidade, ignoro totalm ente se som os ou não perseguidos, e se nos veem ou não, do solo, arrastar atrás de nós toda um a coleção de véus brancos.
“Véu branco” m e faz sonhar. Prim eiro m e vem um a im agem deslum brante de que gosto: “Inacessíveis com o um a m ulher bonita dem ais, nós prosseguim os nosso destino, arrastando lentam ente nosso vestido com cauda de estrelas de gelo…”.
— Dê um pezinho à esquerda!
Isso é a realidade. Mas volto à m inha poesia de pacotilha: “Essa viragem provocará a viragem de um céu inteiro de suspirantes”.
— Pé à esquerda… pé à esquerda… Não dá!
A m ulher bonita dem ais erra sua viragem .
— Se o senhor cantar, vai desm aiar, Capitão.
Então eu cantei?
Dutertre, aliás, m e tira qualquer desej o de m úsica calm a:
— Quase term inei as fotos. O senhor logo poderá descer na direção de Arras.
Eu poderei… Eu poderei… Claro! É preciso aproveitar as boas oportunidades.
Olha! Os m anetes de gás tam bém estão congelados…
E penso:
De cada três, um a m issão voltou esta sem ana. Há então um a alta densidade do perigo de guerra. No entanto, se estiverm os entre os que voltam , nada terem os a contar. Vivi outrora aventuras: a criação das linhas postais, a dissidência saariana, a Am érica do Sul… Mas a guerra não é um a verdadeira aventura, é só um a im itação de aventura. A aventura se baseia na riqueza das ligações que estabelece, dos problem as que coloca, das criações que suscita. Não basta, para transform ar em aventura, o sim ples j ogo de cara ou coroa para apostar-se a vida ou a m orte. A guerra não é um a aventura. A guerra é um a doença. Com o o tifo.
Talvez eu com preenda m ais tarde que m inha única verdadeira aventura de guerra foi a do m eu quarto de Orconte.
XI
Eu m orava em Orconte, vila nas proxim idades de Saint-Dizier — onde m eu Grupo ficou acantonado durante o inverno de 1939, que foi m uito rude —, um a fazenda construída com paredes de estuque. A tem peratura noturna caía ali a ponto de transform ar em gelo a água da m inha m oringa rústica, e m eu prim eiro ato, antes de m e vestir, era, logicam ente, acender o fogo. Mas esse gesto exigia que eu saísse da cam a onde estava aquecido e onde m e em bolava deliciosam ente.
Nada m e parecia m ais m aravilhoso do que aquela sim ples cam a de m onastério, num quarto vazio e enregelado. Ali eu saboreava a beatitude do repouso depois de duras j ornadas. Saboreava tam bém a segurança. Nada m e am eaçava. Meu corpo era ofertado, durante o dia, aos rigores da grande altitude e aos proj éteis cortantes. Meu corpo podia ser transform ado, durante o dia, em ninho de sofrim entos e ser inj ustam ente dilacerado. Meu corpo, durante o dia, não m e pertencia. Não m e pertencia m ais. Podiam arrancar-lhe m em bros, tirar-lhe sangue. Pois tam bém é um fato de guerra que esse corpo se torne loj a de acessórios que não são m ais sua propriedade. O oficial vem e lhe reclam a os olhos. E você lhe cede seu dom de ver. O oficial vem e lhe reclam a as pernas. E você lhe cede seu dom de andar. O oficial vem , com sua tocha, e lhe reclam a toda a carne do rosto. E você não passa de um m onstro, tendo-lhe cedido, com o resgate, seu dom de sorrir e de m ostrar am izade aos hom ens. Assim , esse corpo que podia revelar-se, durante o dia, m eu inim igo, e doer, esse corpo podia se transform ar em usina de lam entações, eis que era ainda m eu am igo, obediente e fraterno, bem enrolado nos lençóis em seu m eio adorm ecim ento, nada confiando à m inha consciência além de seu prazer de viver, seu ronronar felizardo. Mas era preciso tirá-lo da cam a e lavá-lo na água gelada, barbeá-lo, vesti-lo para ofertá-lo, correto, à forj a. E aquela saída da cam a parecia o arrebatam ento dos braços m aternos, do seio m aterno, de tudo o que, durante a infância, cultiva, acaricia, protege um corpo de criança.
Então, depois de ter pesado bem , am adurecido e atrasado m inha decisão, eu dava um só pulo, com os dentes cerrados, até a lareira, onde em purrava um a pilha de lenha que aspergia com gasolina. Um a vez que se inflam asse, eu conseguia atravessar de novo o m eu quarto, enfiando-m e de volta na cam a, onde reencontrava m eu calor e de onde, enfiado nas cobertas e no edredom até o olho esquerdo, eu vigiava a m inha lareira. Prim eiro, ela quase não pegava, depois havia curtos clarões que ilum inavam o teto. Depois, com eçava a instalar-se ali, com o um a festa que se organiza. Com eçava a crepitar, roncar, cantar. Era alegre com o um banquete de casam ento cam ponês, quando a m ultidão com eça a beber, a esquentar e acotovelar-se.
Ou então, parecia-m e que era guardado por m eu fogo benfazej o com o por um cão pastor ativo, fiel e diligente, que desem penhava bem sua tarefa. Eu experim entava, considerando-o, um j úbilo surdo. E, quando a festa chegava no auge, com aquela dança das som bras no teto e aquela m úsica quente dourada, e j á perto de m im aquelas construções de brasa, quando m eu quarto ficava bem cheio daquele cheiro m ágico de fum aça e de resina, eu deixava, num pulo, um am igo pelo outro, corria da m inha cam a ao m eu fogo, ia ao m ais generoso, e não sei m uito bem se assava a barriga ou esquentava o coração. Entre duas tentações, covardem ente, eu havia cedido à m ais forte, à m ais rutilante, à que, com sua fanfarra e seus clarões, fazia a m elhor publicidade.
Assim , por três vezes — prim eiro, para acender o fogo, depois m e deitar de novo e voltar para fazer a colheita das cham as —, eu, por três vezes, batendo os dentes, havia atravessado as estepes vazias e geladas do m eu quarto e conhecido um pouco das expedições polares. Eu havia andado através do deserto em direção a um a escala bem -aventurada, e fora recom pensado por aquele fogaréu, que dançava à m inha frente, para m im , sua dança de cão pastor.
Essa história parece um a ninharia. No entanto, era um a grande aventura. Meu quarto m e m ostrava, com transparência, o que eu nunca saberia descobrir se, um dia, com o turista, eu visitasse aquela fazenda. Ela teria m e dado tão som ente seu vazio banal, m al m obiliado com um a cam a, um a m oringa de água e um a lareira ruim . Eu teria bocej ado alguns m inutos. Com o poderia distinguir suas três províncias, suas três civilizações, a do sono, a do fogo e a do deserto? Com o teria pressentido a aventura do corpo, que é prim eiro um corpo de criança pendurado no seio m aterno, acolhido e protegido, depois um corpo de soldado, construído para sofrer, depois um corpo de hom em , enriquecido de alegria pela civilização do fogo, que é o polo da tribo. O fogo honra o hóspede e honra seus cam aradas. Se eles visitam seu am igo, tom am parte em seu festim , puxam as cadeiras em volta da sua e, falando-lhe dos problem as do dia, das preocupações e fardos, dizem , esfregando as m ãos e enchendo seus cachim bos: “Nada m al um a fogueirinha; é gostoso”.
Mas j á não há fogo para m e fazer crer na ternura. Não há m ais quarto enregelado para m e fazer crer na aventura. Eu acordo do sonho. Não há nada além de um absoluto vazio. Não há m ais que um a extrem a velhice. Tão som ente um a voz, a de Dutertre, dizendo-m e, obstinada, em seu propósito quim érico:
— Um pezinho à esquerda, Capitão…
XII
Exerço corretam ente m eu ofício. Não im pede que eu sej a um tripulante em derrota. Estou em bebido na derrota. Transpira-se a derrota por todo lado, haj a vista m inhas m ãos.
Os m anetes de potência estão congelados. Estou condenado a m anobrar em potência m áxim a. E eis que essas duas sucatas m e trazem problem as inextricáveis.
No avião que estou pilotando, o aum ento do passo de hélice é lim itado, baixo dem ais. Eu não posso pretender, picando em regim e pleno, evitar um a velocidade de aproxim adam ente oitocentos quilôm etros por hora e o aum ento de rotação de m eus m otores. Todavia, o aum ento de rotação de um m otor traz riscos de falha.
A rigor, m e seria possível cortar os contatos. Mas eu m e infligiria assim um a pane definitiva. Essa pane levaria ao fracasso da m issão e à eventual perda do avião. Nem todos os terrenos favorecem a aterrissagem de um aparelho que toca o solo a cento e oitenta quilôm etros por hora.
É então essencial que eu destrave os m anetes. Em consequência de um prim eiro esforço, vou ao lim ite do m anete esquerdo. Mas o da direita continua resistindo.
Seria possível agora efetuar m inha descida num a velocidade de voo tolerável, se eu reduzisse ao m ínim o o m otor sobre o qual j á pude agir, o esquerdo. Mas se eu reduzir o m otor esquerdo, precisarei com pensar a potência assim étrica do m otor direito — a qual tenderá, obviam ente, a fazer girar o avião para a esquerda. Terei de resistir a essa tendência. No entanto, os pedais, dos quais dependem essas m anobras, tam bém estão com pletam ente congelados. Fico im possibilitado, assim , de com pensar. Se eu reduzir o m otor esquerdo, caio em espiral.
O único recurso será arriscar ultrapassar, durante a descida, o lim ite de regim e teórico de ruptura. Três m il e quinhentos giros: risco de falha catastrófica.
Tudo isso é absurdo. Nada está aj ustado. Nosso m undo é feito de engrenagens que não se aj ustam um as às outras. Não são os m ateriais que estão em questão, m as o Reloj oeiro. Falta o Reloj oeiro.
Depois de nove m eses de guerra, ainda não conseguim os fazer com que as indústrias adaptassem m etralhadoras e com andos ao clim a em grande altitude. E não é com a incúria dos hom ens que nos deparam os. Os hom ens, na m aioria, são honestos e conscienciosos. Sua inércia, quase sem pre, é um efeito, e não um a causa, de sua ineficácia.
A ineficácia pesa sobre nós todos com o um a fatalidade. Pesa sobre soldados da infantaria arm ados de baionetas diante de tanques. Pesa sobre os tripulantes que lutam , um contra dez. Pesa até m esm o sobre aqueles que deveriam ter por m issão m odificar as m etralhadoras e os com andos.
Vivem os no ventre cego de um a adm inistração. Um a adm inistração é um a m áquina. Quanto m ais um a adm inistração é aperfeiçoada, m ais elim ina a arbitrariedade hum ana. Num a adm inistração perfeita, onde o hom em desem penha seu papel de engrenagem , a preguiça, a desonestidade, a inj ustiça não têm m ais oportunidade de alastrar-se.
Mas, assim com o a m áquina é construída para adm inistrar um a sucessão de m ovim entos previstos de um a só vez, a adm inistração tam bém não cria m ais. Ela gere. Aplica tal sanção para tal falta, tal solução a tal problem a. Um a adm inistração não é concebida para resolver problem as novos. Se, num a m áquina de chapear, introduzirem -se peças de m adeira, não vão sair m óveis. Seria preciso, a fim de adaptar a m áquina, que um hom em dispusesse do direito de m exer nela. Mas num a adm inistração, concebida para prevenir os inconvenientes da arbitrariedade hum ana, as engrenagens recusam a intervenção do hom em . Recusam o Reloj oeiro.
Faço parte do Grupo 2/33 desde novem bro. Meus cam aradas, assim que cheguei, avisaram :
— Você vai passear na Alem anha sem m etralhadoras nem com andos.
Depois, para m e consolar:
— Fique tranquilo. Você não perde nada. Os caças abatem sem pre antes de serem vistos.
Em m aio, seis m eses m ais tarde, as m etralhadoras e os com andos ainda congelam .
Penso num a fórm ula tão velha quanto m eu país: “Na França, quando tudo parece perdido, um m ilagre salva o país”. Entendi por quê. Aconteceu às vezes de um desastre, tendo destram belhado a bela m áquina adm inistrativa, e tendo esta se m ostrando irreparável, substituírem -na, por falta de m elhor, por sim ples hom ens. E os hom ens salvaram tudo.
Quando um torpedo tiver reduzido a cinzas o Ministério da Aeronáutica, convocarão, com urgência, um cabo qualquer, e lhe dirão:
— Você está encarregado de descongelar os com andos. Você tem carta branca. Vire-se. Mas se em quinze dias eles ainda gelarem , você será preso.
Os com andos, talvez, então, descongelem .
Conheço uns cem exem plos desse vício. As com issões de requisição de um departam ento do norte, por exem plo, requisitaram novilhas prenhes e transform aram assim os abatedouros em cem itério de fetos. Nenhum a engrenagem da m áquina, nenhum coronel do serviço de recrutam ento estava qualificado para agir de outro m odo senão com o engrenagem . Eles obedeciam todos a um a outra engrenagem , com o num relógio. Qualquer revolta era inútil. É por isso que essa m áquina, um a vez que tenha com eçado a destram belhar, foi alegrem ente em pregada em abater novilhas prenhes. Talvez tenha sido um m al m enor. Ela poderia, se m ais gravem ente destram belhada, com eçar a abater coronéis.
Eu m e sinto desencoraj ado até o pescoço por essa degradação universal. Mas com o m e parece inútil dar um tranco num dos m eus m otores, exerço contra o m anete esquerdo um novo peso. Em m eu desgosto, exagero o esforço. Depois, abandono. Esse esforço m e custou um a nova pontada no coração. Decididam ente, o hom em não foi feito para o culto físico a dez m il m etros de altitude. Essa pontada é um a dor em surdina, um a espécie de consciência local estranham ente despertada na escuridão dos órgãos.
Os m otores vão estourar se quiserem .
Pouco m e im porta. Esforço-m e para respirar. Parece-m e que não respiraria m ais se m e distraísse. Eu m e lem bro dos foles de outrora, com a aj uda dos quais a gente reanim ava o fogo. Reanim o m eu fogo. Eu queria m uito convencê-lo a “pegar”.
O que estraguei de irreparável? A dez m il m etros, um esforço físico um pouco brusco pode acarretar um a ruptura dos m úsculos do coração. É m uito frágil um coração. Precisa servir m uito tem po. É absurdo com prom etê-lo com trabalhos tão grosseiros. É com o se queim ássem os diam antes para cozinhar um a m açã.
XIII
É com o se queim assem todas as vilas do norte, sem atrasar, nem m esm o por m eio dia, com tal destruição, o avanço alem ão. E, no entanto, essa provisão de vilas, essas velhas igrej as, essas velhas casas, e toda a sua carga de lem branças, e seus belos pisos de nogueira encerada, e os belos enxovais em seus arm ários, e as rendas de suas j anelas, que duraram até hoj e, sem estragar — eis que, de Dunquerque até a Alsácia, eu as vej o queim ar.
Queim ar é um a expressão exagerada quando se observa a dez m il m etros, pois, nas cidades, com o nas florestas, há apenas um a fum aça im óvel, um a espécie de geleia esbranquiçada. O fogo não passa de um a digestão secreta. Na escala dos dez m il m etros, o tem po é com o que refreado, j á que não há m ais m ovim ento. Não há m ais cham as crepitantes, vigas que estralam , turbilhões de fum aça preta. Som ente esse leite acinzentado fixado no âm bar.
Essa floresta será curada? Essa cidade será curada? Observado de onde estou, o fogo rói com a lentidão de um a doença.
Aqui ainda há m uito a dizer. “Não vam os poupar vilas.” Ouvi a palavra. E a palavra era necessária. Um a vila, durante um a guerra, não é um nó de tradições. Nas m ãos do inim igo, há só um ninho de ratos. Tudo m uda de sentido. Assim , certas árvores, com trezentos anos de idade, abrigavam a tua antiga casa fam iliar. Mas atrapalham o cam po de tiro de um tenente de vinte e dois anos. Ele expede então um a quinzena de hom ens para aniquilar, em tua m orada, a obra do tem po. Ele consom e, num a ação de dez m inutos, trezentos anos de paciência e de sol, trezentos anos de religião da casa, e de noivados ao som breiro do parque. Tu lhe dizes:
— Minhas árvores!
Ele não te escuta. Ele faz a guerra. Ele tem razão.
Mas eis que queim am as vilas para j ogar o j ogo da guerra, assim com o desm antelam os parques e sacrificam as tripulações, assim com o engaj am a infantaria contra os tanques. E reina um inexprim ível m al-estar. Pois nada m ais adianta.
O inim igo reconheceu um a evidência e a explora. Os hom ens ocupam pouco lugar na im ensidão das terras. Seriam necessários cem m ilhões de soldados para erguer um a m uralha contínua. Então, entre as tropas há brechas. Tais buracos são anulados, em princípio, pela m obilidade das tropas, m as, do ponto de vista da m áquina blindada, um exército oponente pouco m otorizado fica com o im óvel. As brechas constituem , então, verdadeiros buracos. Daí essa regra sim ples de em prego tático: “A divisão blindada deve agir com o água. Ela deve pressionar levem ente o bloqueio do adversário e avançar som ente onde não encontrar resistência”. Os tanques pressionam , então, o bloqueio. Sem pre há brechas. Eles sem pre passam .