Política e identidade cultural na América Latina
Apresentação
A formação de redes interuniversitárias tem sido uma meta perseguida tanto pelas instituições de Ensino Superior quanto pelos agentes diretamente envolvidos, isto é, os próprios professores. Nos últimos anos, as experiências com as universidades latino-americanas têm sido especialmente fecundas, estimuladas tanto pela proximidade geográfica quanto pela identificação de problemas e necessidades comuns.
Este livro constitui um dos resultados dessa agenda de interesses comuns, concretizada mediante um programa de cooperação entre a Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" e a Universidade Nacional de General Sarmiento, da Argentina. Gestado a partir de intercâmbios acadêmicos entre historiadores de quatro universidades latino-americanas, a iniciativa tem buscado desenvolver a internacionalização da pós-graduação mediante a promoção de diversas ações, tais como intercâmbio de professores e estudantes, realização de pesquisas, promoção de eventos e edição de publicações científicas. Em termos gerais, a preocupação reside em consolidar uma série de redes já existentes, formadas por historiadores do Brasil da Argentina, do Chile e do México, e que têm em comum a preocupação com problemas políticos e culturais contemporâneos. Busca-se, dessa forma, consolidar redes que se convertam em uma plataforma que respalde novos projetos de formação e de investigação de âmbito latino-americano.
No livro reunimos uma seleção dos trabalhos apresentados no primeiro seminário do programa, realizado em 2008. Eles estão centrados em dois grandes eixos temáticos: as identidades culturais e a política latino-americana durante o século XX. A identidade é um conceito que foi objeto de inúmeras reflexões por parte das ciências humanas com o objetivo de definir seu significado e sua funcionalidade, assim como de apontar suas limitações. Do ponto de vista da disciplina histórica, importa assinalar que as identidades não são aqui entendidas como essências ou entidades imutáveis, mas como processos incessantes de construção/reconstrução dos imaginários sociais. Multidimensionais, as identidades coletivas possuem não apenas componentes sociais e culturais, mas também políticos, uma vez que refletem, induzem e justificam as ações humanas sobre as relações de poder.
A identidade constitui uma projeção, quer do sujeito individual em relação ao mundo exterior, quer de um sujeito coletivo em relação a um contexto social mais amplo. Do ponto de vista individual, a identidade é o resultado da articulação entre o sujeito e a estrutura da sociedade mediante um processo em que a projeção do "eu" sobre as identidades coletivas conduz à internalização de valores e comportamentos que se tornam parte da subjetividade de cada um.
Por sua vez, as identidades coletivas também são objeto de construção e reformulação ao longo do tempo. Como demonstrado pelos estudiosos, o nacionalismo foi um importante vetor da construção das identidades coletivas no mundo contemporâneo. Para isso, os governos pressionaram os indivíduos a abandonar as lealdades locais e regionais em favor da lealdade à nação por meio da educação, dos rituais cívicos e da política de massas. Evidentemente, a homogeneização do processo de nacionalização da coletividade não foi total e conviveu com questionamentos até o momento vigentes em diversas partes do mundo, incluindo a América Latina. Além disso, no interior de cada sociedade existe uma sobreposição de identidades, e nesse sentido podemos encontrar diversas identidades políticas, étnicas e culturais convivendo simultaneamente de forma mais ou menos contraditória e, frequentemente, competindo entre si pela conquista da hegemonia.
Como o leitor poderá apreciar, o problema da identidade cultural é abordado por diversos ângulos, notadamente no exame das representações da nação e da América Latina, da produção artística e dos meios de comunicação de massa. Inclusive o espaço internacional mostra-se como um lugar de construção das identidades culturais, uma vez que elas também se forjam em função das relações entre as nações, isto é, no contato com o "outro". É na relação com o outro que são estabelecidas as especificidades políticas e culturais, a diplomacia e, inclusive, os interesses econômicos, em suma, os elementos de diferenciação dos países em relação aos demais atores da vida internacional que permitem construir a representação da identidade coletiva de um país.
No entanto a questão da identidade cultural não se encontra isolada de outros domínios da realidade, ao contrário, está vinculada à vida política. Nos artigos aqui presentes, a política é concebida não apenas em sua dimensão institucional, mas em um sentido amplo, como assinalado por René Rémond, enquanto esfera que se comunica com diversos âmbitos da realidade, da cultura à sociedade, da economia às relações internacionais. Nesse sentido, o tratamento conferido à política nos artigos remete tanto ao processo político quanto às culturas políticas e às identidades culturais. Por exemplo, o nacionalismo, o latino-americanismo e o hispanismo são componentes da identidade cultural que não podem ser compreendidos desligados da vida política. Além disso, a cultura política, entendida como sistema de representações portadoras de normas e valores políticos, encontra-se intimamente interligada a fenômenos tais como o autoritarismo, a democracia, o populismo e, mais uma vez, o nacionalismo.
Os textos deste volume encontram-se organizados em três partes: "Intelectuais e identidade cultural"; "Cultura visual e produção de imaginários"; "Processo político e relações internacionais no Cone Sul". Na primeira parte, Kátia Baggio e José Luis Beired debruçam-se sobre como o problema da identidade cultural das nações latino-americanas foi enfrentado por um conjunto de intelectuais. Kátia Baggio analisa como o problema da tradição ibérica desempenha um papel central na obra de Gilberto Freyre e como suas reflexões foram pautadas pelo diálogo com os intelectuais espanhóis. Em contraponto à modernidade ocidental e, em especial, ao padrão cultural da sociedade norte-americana, Freyre defendia uma tese polêmica do ponto de vista brasileiro, qual seja, a existência de uma singular "cultura transnacional pan-hispânica", que incluía tanto o Brasil quanto a Península Ibérica. O problema das raízes ibéricas é retomado no ensaio de José Luis Beired, ao examinar a revalorização da herança espanhola pelos intelectuais argentinos do início do século XX. O autor discute como uma nova atitude política e cultural diante da Espanha repercutiu na reelaboração da identidade nacional argentina e acabou por fortalecer a corrente criollista: do predomínio do anti-hispanismo no século XIX passou-se à exaltação da Espanha, à revisão da memória e à busca da aproximação entre os dois lados do Atlântico.
O bloco "Cultura visual e produção de imaginários" reúne reflexões que possuem como denominador comum a relação entre a cultura visual e a construção de identidades e imaginários sociais e políticos na América Latina do século XX. O trabalho de Carlos Alberto S. Barbosa mapeia a circulação de projetos políticos, estéticos e a constituição de repertórios de imagens de cunho político presentes nas sociedades brasileiras e mexicanas na primeira metade do século XX. Já a pesquisadora argentina Valéria Galván busca averiguar os imaginários sociais e a elaboração de identidades presentes no movimento Tacuara entre os anos 1960 e 1970. Procura interpretar, em especial, as imagens e os símbolos estampados nas diversas publicações desses grupos nacionalistas argentinos. No terceiro texto, o mexicano Álvaro Mantecón reflete sobre a noção de contracultura nas sociedades subalternas e a construção de um novo imaginário presente nas narrativas fílmicas da juventude mexicana após 1968, expressa na produção de filmes em Super 8. Por fim, Áureo Busetto faz uma instigante reflexão sobre os estudos históricos relacionados à televisão, em especial a televisão brasileira. Ele realiza um minucioso panorama da historiografia referente às investigações sobre a utilização da televisão como fonte e objeto da História e propõe possibilidades de pesquisas sobre essa mídia, hoje tão onipresente na vida cotidiana e ao mesmo tempo tão carente de estudos sistemáticos.
Na terceira seção são tratados temas que envolvem o processo político e as relações internacionais no Cone Sul. O historiador Daniel Lvovich pergunta-se sobre os fundamentos do consenso político do regime militar argentino iniciado em 1976. Tomando como referência as discussões da historiografia sobre a construção do consenso nos fascismos europeus e nos regimes militares chileno e uruguaio, procura analisar como as diversas esferas da sociedade argentina reagiram ao chamado Processo de Reorganização Nacional. Além de examinar as reações das grandes organizações, tais como os partidos e os sindicatos, oferece elementos para refletir sobre o grau de cumplicidade e de apoio da parte não organizada da sociedade, isto é, da maior parte da população argentina àquele regime: até que ponto isso não teria ficado encoberto pelos artifícios da memória social?
No capítulo seguinte o problema da oposição aos populismos é discutido por Ernesto Bohoslavsky mediante o estudo comparativo de processos situados em três países: Argentina, Brasil e Chile. O autor considera insuficientes os aportes da historiografia aos movimentos de oposição ao populismo e entende que dois movimentos analíticos devem ser desenvolvidos para o estudo dos partidos antipopulistas em perspectiva latino-americana: a análise de suas representações ideológicas e das relações com as forças armadas.
Os dois próximos artigos debruçam-se sobre duas questões muito atuais: a superação da Crise de 1929 e a integração entre o Brasil e a Argentina. Francisco Corsi compara as diferentes respostas dessas nações à depressão dos anos 1930 por meio de uma minuciosa análise da realidade econômica dos dois países e de sua inserção no sistema econômico internacional. O autor examina a hipótese de que as diferentes estratégias elaboradas por cada país para a superação da crise foram a tal ponto decisivas que acabaram por condicionar o desenvolvimento econômico das décadas seguintes. Até que ponto as diferentes respostas da atual depressão não guardam relação com as experiências anteriores?
A possibilidade de integração dos dois países nos anos 1950 e 1960 é o objeto do artigo de Iuri Cavlak. Por um lado, o autor centra o foco sobre os movimentos de aproximação ensaiados pelos governos de ambos os países, e por outro, apresenta os obstáculos que se interpuseram: a resistência dos Estados Unidos e os próprios problemas políticos internos do Brasil e da Argentina, que acabaram por levar à derrocada dos presidentes empenhados na aproximação, Arturo Frondizi e João Goulart.
Por fim, agradecemos o apoio da pró-reitoria de Pós-Graduação da Unesp, que colaborou com o financiamento do seminário em que os trabalhos deste livro foram apresentados e com a tradução dos textos em espanhol.