Política e identidade cultural na América Latina
Parte II - Cultura visual e produção de imaginários
Parte II - Cultura visual e produção de
imaginários
3 Imaginários políticos no Brasil e no
México
Carlos Alberto Sampaio Barbosa 1
O objetivo deste texto é refletir com relação à circulação de ideias culturais e políticas entre o México e o Brasil na primeira metade do século XX. Busco examinar, em especial, como se constituíram repertórios visuais comuns entre os dois países, tanto na produção de imagens carregadas com uma retórica do engajamento político como de algumas imagens que, em um primeiro olhar, poderiam passar por descompromissadas, mas que contribuíram para a construção do imaginário político latino-americano. Embora minha intenção não seja a de uma análise exaustiva, procuro averiguar diferentes suportes imagéticos, como as fotografias estampadas na imprensa diária, assim como nas revistas ilustradas, em cartazes, em gravuras e demais expressões artísticas que subsidiaram essa circulação de ideias estéticas e políticas entre ambos os países. Parto da hipótese de que, embora as dificuldades de contatos existentes, tais como a língua, a distância e a falta de maiores trocas entre seus intelectuais, ocorreram intercâmbios de propostas políticas e culturais principalmente entre redes de sociabilidade intelectuais marcadamente no âmbito da esquerda entre esses dois países.
Em primeiro lugar cabe uma rápida discussão sobre as balizas temporais. A pesquisa detém-se de maneira flexível no período entreguerras (1914-1945). Esse momento foi marcado por importantes acontecimentos tanto na esfera política como na cultural. No âmbito mundial, essa fase é delimitada pela Primeira Grande Guerra, conflito que mostrou os limites do projeto moderno da razão positiva e os sonhos de um progresso indefinido das sociedades ocidentais. Antes do final da guerra, e como um de seus desdobramentos, ocorreu a Revolução Russa de outubro de 1917. No espaço das Américas assistimos à eclosão da primeira revolução de cunho social do século, a Revolução Mexicana, entre 1910 e 1920, que representou um marco para todo o continente, gerando um intenso debate nos meios políticos latino-americanos. Não podemos esquecer-nos da rebelião dos estudantes a partir de Córdoba, na Argentina, em 1918, que se espalhou por todo o continente subsequentemente. Vimos também o surgimento dos partidos comunistas em vários países latino-americanos, além de um avanço geral das organizações dos trabalhadores, seguidas por uma onda de repressão.
No âmbito cultural, esse período também foi marcado pelas vanguardas artísticas. Embora seja difícil estabelecer marcos precisos de seu início, já em 1914 surge o primeiro manifesto modernista, Non Servian, de Vicente Huidobro. Entretanto, será na década de 1920, com a Semana de Arte Moderna de São Paulo, no Brasil, o início do trabalho dos muralistas no México e a publicação de Trilce, de César Vallejo, no Peru, que pode ser estabelecida como o grande momento de eclosão das vanguardas. Ademais, temos a fundação de diversas revistas culturais, tais como Amauta, no Peru, e Avance, em Cuba. Na Argentina, além da Martin Fierro tivemos o periódico de esquerda Nueva Revista, que contou com a participação de escritores e artistas em seu corpo de colaboradores e reproduziu imagens de David Alfaro Siqueiros, G. Grosz e Pablo
Picasso, só para citar alguns.2
As revistas culturais, a propósito, foram os grandes veículos das vanguardas e ocuparam um espaço importante na difusão de repertórios visuais. Elas foram o suporte de novas experiências imagéticas, sempre com forte conteúdo político, e tiveram um papel decisivo para a fotografia e as imagens de uma forma geral. No caso da fotografia, cabe lembrar que é nesse período que surge o fotojornalismo moderno com o advento das grandes revistas ilustradas, como a Vu francesa e a Life norte-americana. Veremos também o surgimento de revistas populares e engajadas politicamente, tais como a Arbeiter Illustrierte Zeitung – AIZ, na Alemanha, em 1921. Esse magazine de sensibilidade comunista estampava em suas páginas fotomontagens antifascistas, como, por exemplo, os trabalhos do alemão John Heartfield, enquanto que na França teremos o surgimento da revista Regards, em 1932 (Heartfield, 1976).
Como marcos finais dessa fase podemos citar a eclosão da Guerra Civil Espanhola, que foi o campo de provas da Segunda Guerra Mundial. Esses dois acontecimentos marcaram a vida política e cultural não só mundial como latino-americana. Nos anos 1930, com o conflito espanhol como pano de fundo, veremos o surgimento da Associação de Escritores e Artistas Revolucionários, a qual, além de contar com a presença de vários escritores, teve a participação decisiva de fotógrafos como Robert Capa e Gerda Taro, que propunham uma visão militante consubstanciada na necessidade de transmitir a emoção por meio da proximidade do testemunho fotográfico.
Mas a fotografia não estava desvinculada do mundo cultural mais amplo. Muito pelo contrário. Durante o período entreguerras a imagem fotográfica tornou-se um meio privilegiado de expressão artística. Tanto que os movimentos de vanguarda, como o futurismo, o dadaísmo, o construtivismo e o surrealismo utilizaram-na como meio de expressão para romper com a representação pictórica do "antigo regime". Para esses artistas a fotografia era vista como uma linguagem nova, rápida, precisa, mecânica e reprodutível, em sintonia com seus objetivos. Eliminava-se assim a distância que existia entre fotografia e arte.
Durante o período entreguerras, não só a fotografia estava presente no cerne dos variados movimentos de vanguardas. Nesse sentido não podemos esquecer-nos do cinema. O cinema, assim como a fotografia são dois representantes da reprodução mecânica ou da "reprodutibilidade técnica da obra de arte", como afirmou Walter Benjamin em texto que começou a escrever em 1936 e só foi publicado pela primeira vez em 1955 (Benjamin, 1985, p.16596). As duas linguagens serão amplamente utilizadas pelos artistas interessados em uma nova sensibilidade, e nessa época surgiu o
movimento conhecido como Nova Objetividade. 3 Alguns casos dignos de nota são as experiências na União Soviética em torno da revista Lef (1923-1925) e depois com a Noviy Lef (1927-1929), em que participaram Rodchenko, El Lissitzky, Dziga Vertov e Maiakovsky. Estes buscavam uma nova visão coletiva ao serviço de um ideal revolucionário.
Do outro lado do Atlântico está toda uma geração de norteamericanos, que participam do projeto da Farm Security Administration (FSA) desde 1935 e posteriormente, com a criação da New York Photo League, buscam uma nova expressão fotográfica como documento social e que possibilite uma atuação social e política por meio de sua expressão artística.
O esgotamento das vanguardas deu-se ao longo da década de 1930 com o fechamento da maioria das revistas e prolongou-se durante os anos 1940 com o advento da Segunda Guerra Mundial. No tocante à situação política e social, tivemos a surgimento do fascismo e do nazismo na Europa, e na América Latina houve os vários golpes militares, como no Brasil, na Argentina e no Peru, subsequentemente com a ascensão de movimentos autoritários. É o período do surgimento de uma política de massas, e podemos dizer que os artistas dentro do espírito dessa época também se radicalizaram em termos políticos entre direita (fascismo, que se apropriou do futurismo) e esquerda (comunismo, socialismo, anarquismo). No âmbito da União Soviética e dos artistas ligados aos partidos comunistas vai predominar o realismo socialista, além do que outros vão assumir tendências nacionalistas. José Carlos Mariátegui, um dos principais intelectuais latino-americanos do século XX, ao falar do esgotamento das vanguardas, diz: "os termos que falam do novo envelheceram" (Schwartz, 1995).
Cultura visual na América Latina: Brasil e México
em perspectiva comparada
Não cabe aqui, nem é meu intento, realizar um panorama desse período. A proposta desta pesquisa é tratar de uma história política das imagens, ou melhor, uma história política apoiada nas imagens. A intenção é dar uma contribuição à história social e política recorrendo a uma história cultural ou a uma história visual. Outra intenção é investigar como um regime de visualidade se estabelece nas sociedades latino-americanas no período entreguerras partindo da dimensão visual como um vetor ou uma plataforma para se compreender os processos históricos de Brasil e México nesse período.
A fotografia e as imagens, assim como o rádio, a eletricidade e o cinema, estavam inseridos na transformação do espaço urbano e na transformação de uma sensibilidade visual da sociedade ocidental. Foram nas décadas de 1920 e 1930 – o período entreguerras – os anos do nascimento e desenvolvimento de uma cultura visual que vai predominar ao longo do século XX. Consubstanciada por meio das imagens fotográficas, dos anúncios publicitários, de livros, de cartazes, do cinema e das revistas culturais é que se estabeleceu uma nova cultura visual gestora de um novo imaginário político.
Cabe aqui falar, mesmo que brevemente, do conceito de "cultura visual". Nicholas Mirzoeff, um dos principais estudiosos do tema, destaca a distância entre a riqueza visual da sociedade moderna em contraste com a pouca capacidade e/ou habilidade para analisar essa visualidade. Ele defende a necessidade de desenvolver-se um campo de estudos em que se investiguem os diferentes meios visuais e de comunicação não de forma independente, mas de forma integrada. Embora não partilhe completamente de suas propostas, a ideia de uma necessidade de estudar-se a cultura visual de forma mais integrada e ampla, independente dos seus
suportes, parece-me extremamente instigante. 4
Se quisermos perscrutar os intercâmbios culturais e políticos entre México e Brasil nesse período, o ponto inicial deve ser a participação mexicana na Exposição Internacional do Centenário da Independência, realizada na cidade do Rio de Janeiro em 1922. Independentemente da crise em torno da eleição presidencial e o levante militar em plena capital federal, Artur Bernardes tomou posse em novembro daquele ano, em substituição de Epitácio Pessoa. Esse foi o ano da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, um marco na vida cultural brasileira, enquanto que no México o grupo dos estridentisdas e, em seguida, dos contemporâneos também se lançavam em uma discussão sobre como definir a cultura e a literatura nacional.
As exposições internacionais são, por excelência, polos de elementos visuais. Para essa exposição, o presidente Álvaro Obregón enviou uma delegação especial comandada pelo secretário da Educação José Vasconcelos e pelo general Manuel Pérez Treviño. A delegação, além de diplomatas de carreira, contava com pintores, poetas e escritores como Carlos Pellicer, Julio Torri e Pedro Henríquez Ureña. Foi construído um pavilhão em estilo colonial barroco desenhado pelos jovens arquitetos Carlos Obregón Santacilia e Carlos Tarditti (Anda Alanis, 2008). Os pintores, como Roberto Montenegro e Gabriel Fernández Ledesma, desenharam pinturas murais para decorar as paredes interiores do edifício. O pavilhão mexicano contava ainda com uma replica reduzida de Teotihuacán, móveis e um livro com inúmeras imagens, entre elas pinturas de Velasco e fotografias, realizadas pelo famoso fotógrafo
Guillermo Kahlo, 5 das estradas de ferro e de obras arquitetônicas. Outro elemento visual foi a exibição de uma película realizada durante a estada de Vasconcelos no Brasil e uma exposição de arte popular. Foi ademais inaugurada na confluência da Avenida Beira Mar com Oswaldo Cruz e Rui Barbosa uma escultura de Cuauhtémoc, o herói da resistência indígena asteca. Cabe mencionar que Vasconcelos viajou pelo país e realizou diversas conferências. Dessa sua estada em terras brasileiras resultou posteriormente seu livro Lar raza cósmica. No fundo, o livro são as memórias de suas viagens pelo Brasil, pela Argentina, pelo Uruguai e pelo Chile (Tenório Trillo, 1995, p.1-32).
Como já afirmei antes, as revistas e periódicos em geral são o lócus principal para a divulgação da dimensão visual. No caso mexicano, é digno de nota o jornal El Machete, do Partido Comunista Mexicano dos anos 1920, em que teremos a publicação de fotografias de Tina Modotti e gravuras de David Alfaro Siqueiros, além de Luis Arenal. Este último foi, por muitos anos, diretor do periódico.
Chama a atenção a experiência alternativa da revista Frente a Frente (1934-1938), publicada pela Liga de Artistas y Escritores Revolucionários, que teve em sua direção novamente Alfaro Siqueiros e na qual Dolores Álvarez Bravo conseguiu publicar uma fotomontagem na capa. Em um número posterior dessa revista foram publicadas fotomontagens de John Heartfield.
Por seu turno, no Brasil surge, em 1933, o jornal O Homem Livre, tendo a participação de Oswald de Andrade, Mário Pedrosa, Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão, a Pagu. Era um semanário de política e cultura vinculado à Frente antifascista, reunindo várias correntes, principalmente trostskistas, anarquistas e socialistas. Livio Abramo publicará várias de suas gravuras nesse periódico, em que retratou o cotidiano do operariado paulista e de crítica à Guerra Civil Espanhola, sempre em uma linha expressionista. Livio Abramo foi um dos mais marcantes artistas engajados do período. Militante comunista e ilustrador do jornal do PCB, foi expulso ao se recusar a fazer uma caricatura de Trotsky. Trabalhou no jornal Luta de Classes, da oposição de esquerda, no Petracchone, também socialista, e posteriormente no jornal O Homem Livre.
Capas dos jornais El Machete (México) e O Homem Livre (Brasil).
Algumas outras experiências merecem ser destacadas, como a revista Rotofoto, dirigida por José Pagés Llergo e Regino Hernández
Llergo6, que utilizaram a fotografia como elemento principal em seu projeto gráfico. Essa revista contou em seus quadros com fotógrafos como Antonio Carrilo Jr., Ismael Casasola, Agustín Casasola, Enrique Díaz e outros, que publicaram imagens com enorme sentido de ironia, grandes doses de humor e sacarmos que atingiam principalmente os políticos. As fotografias com grande carga estética chegavam aos limites da ridicularização dos persona-gens retratados. Acusados de ataques a personalidades políticas da época, os diretores foram perseguidos e forçados a não mais publicar a revista. Embora não possamos afirmar que sejam engajadas, estamparam em suas imagens cenas de forte conteúdo
político e ajudaram a construir uma cultura visual política.7
Cabe destacar a chegada ao México, no final da década de 1930, de cinco fotógrafos espanhóis conhecidos por Hermanos Mayo, nome em alusão ao Primeiro de Maio e à sua atuação política engajada, que buscavam exílio após a derrota da República na Guerra Civil Espanhola (Monroy Nasr, p.183-4).Nesse mesmo período surge o periódico El Combate, que também publica fotografias e gravuras com forte teor político.
Em terras brasileiras podemos citar como termo comparativo a revista S. Paulo, que, publicada durante o ano de 1936, alcançou apenas dez números e era comandada por Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e Leven Vampré. As fotografias ficaram a cargo de Theodor Preising e Benedito Junqueira Duarte. Com um projeto gráfico ousado, em que a imagem ocupava um lugar privilegiado, expressava uma propaganda político ideológica de valorização do "espírito bandeirante" e exaltava o desenvolvimento da cidade de São Paulo. O magazine estava vinculado ao grupo político do governador Armando de Salles Oliveira, que pretendia lançar-se candidato à presidência da República, e apesar de seu projeto gráfico moderno, sua mensagem deve ser interpretada com cuidado. A publicação, assim como sua congênere mexicana Rotofoto, investiu fortemente nos recursos visuais e na fotografia. Sua programação visual moderna era marcada pela construção arrojada de suas páginas e pelo projeto gráfico vanguardista na utilização de fotomontagens.
Capa da revista Rotofoto (México), 1938, e fotomontagem de
Priesing e Vamp na revista S. Paulo (Brasil), 1936.
No México merece destaque a pintura mural. Já existe uma ampla bibliografia sobre o tema. Vou aqui me deter mais a trabalhos mais recentes que vêm procurando estabelecer um novo diálogo com essa produção.
A pintura mural possui uma história oficial que foi denominada como "história do bronze". Segundo Gonzalez Mello (2004, p.276), a pintura mural da Revolução foi um dos intentos mais acabados, por elaborar uma história visual sem dissidência, sem correntes e contracorrentes. Procurou construir uma só história do México pós-revolucionário, harmoniosa e em que as contradições foram omitidas. Esse mesmo autor afirma também que ao longo do século XX a construção da legitimidade se deu como uma disputa ideológica contra o catolicismo e que, nesse sentido, os murais patrocinados pelo Estado não foram por acaso pintados em igrejas, capelas e conventos expropriados pelo governo. Ocuparam esses espaços no intento de neutralizar sua força simbólica. Era uma forma de o Estado cooptar uma ala mais radical de esquerda de artistas e intelectuais e neutralizar seu discurso. O muralismo estabeleceu, assim, uma retórica visual buscando convencer a sociedade mexicana da legitimidade das classes sociais vencedoras do processo revolucionário.
Segundo o autor, serão temas constantes no muralismo imagens como as do presbítero e a mesa (símbolo da autoridade), a pátria e a professora e, é claro, o índio. Este último foi um dos principais atores simbólicos da revolução segundo a ótica dos muralistas. Ele foi representado como explorado e reivindicador, foi também o herói anônimo e triunfador. Representou a luta dos pobres contra os ricos, dos despossuídos contra os possuidores e de vítimas contra os verdugos. Mas os indígenas foram construídos sobre um imaginário livre de contradições no qual se elaborou o México moderno mestiço, índio e camponês. Nada mais fantasioso, tendo em vista o México pós-revolucionário e suas elites que não eram nem um pouco indigenistas, muito pelo contrário, eram racistas (idem, 2004, p.285).
Os murais também foram individualistas na representação da história mexicana na medida em que foram eleitas esfinges convencionais dos heróis históricos que lutaram pela independência, contra os conservadores e a Igreja. Foram eleitas figuras emblemáticas, tais como Miguel Hidalgo, José Maria Morelos, Benito Juarez, Francisco "Pancho" Villa e Emiliano Zapata. A grande quantidade de personagens levou, em muitos casos, à construção de galerias abarrotadas de heróis. Cabe lembrar que as imagens fotográficas produzidas e publicadas pela família Casasola ao longo desse período estabeleceram o mesmo dispositivo ao elaborar figuras emblemáticas da fundação do México Moderno (Barbosa, 2006).
Para nossa hipótese de intercâmbios dos imaginários culturais por meio das múltiplas redes dos movimentos modernos e do intenso processo de internacionalização do movimento antifascista, convém nos determos um pouco mais na figura de David Alfaro Siqueiros, um dos mais conhecidos artistas do muralismo. Em seu caso, acredito, temos dois momentos de contato mais intenso. Um primeiro que denomino Fase das Palestras, durante a década de 1930, e uma segunda fase, a das Bienais, entre 1950 e 1960.
Talvez um dos primeiros contatos de Siqueiros com o Brasil e os brasileiros tenha sido durante sua estada na Europa (França, Itália e Espanha), mais precisamente em Paris, como adido militar e bolsista do governo mexicano entre 1919 e 1921. Foi por meio de um brasileiro, provavelmente Correia de Araújo, pintor carioca, que Siqueiros foi apresentado à Picasso.
Desde esse momento Siqueiros entendia que arte e política caminhavam juntas. Essa vinculação ficou explicitada desde cedo pelo manifesto redigido por Siqueiros "Tres llamamientos de orientación actual a los pintores y escultores de la nueva generación de América", datado de 1921 e publicado em Barcelona. Dois anos depois, ele ingressava no Partido Comunista mexicano, tornando-se rapidamente uma de suas principais lideranças. Em 1929, por conta dessa vinculação, participou como secretário geral da Confederación Sindical Unitaria do Congresso Sindical Latinoamericano, realizado em Montevidéu. Na sua volta ao México, ficou preso na cidade de Taxco. Voltou à América do Sul passando por Buenos Aires e Montevidéu em 1933. Nesse mesmo ano, proferiu algumas conferências em Buenos Aires a convite de Victoria Ocampo e, a seguir, passou rapidamente pelo Brasil. Visitou São Paulo, onde proferiu uma conferência no Clube de Arte Moderna (CAM) e onde estabeleceu contato com vários intelectuais brasileiros, entre os quais Oswald de Andrade.
Reproduzo aqui as recordações de Flávio de Carvalho (1939), um personagem dos mais atuantes no meio cultural paulista daquele momento, sobre a palestra de Siqueiros no CAM. Embora um pouco longa, é muito loquaz e uma excelente descrição do impacto das ideias do pintor mexicano em terras paulistas.
Entre os acontecimentos mais interessantes do Clube se
destaca a palestra do pintor mexicano David Alfaro Siqueiros.
Siqueiros fez parte do grupo de renovação mexicana, o grupo
de Rivera (antes de brigar com Rivera)... aquele grupo que
pintava afrescos nas paredes externas da cidade do México.
Tipicamente artista, alto, mestiço, cabeleira negra, era – coisa
pouco comum entre os artistas – grande orador, falava horas
inteiras com um improviso vigoroso e imaginativo e sem cansar
o público... Siqueiros empolgava a assistência, formava um
verdadeiro campo magnético no auditório e conservava esse
campo magnético com o mesmo potencial durante as horas que
duravam as suas orações, nunca em nenhum momento
esmorecia, como costuma acontecer com os altos e baixos do
orador normal.
Ele era mais exuberante como orador que como pintor, tinha-se
a impressão que a sua oratória emanava da sua pintura, era
uma consequência e uma continuação da pintura, vinha como o
sublime acabamento da pintura. Ele não falava para explicar
mas sim para acabar uma coisa que ele havia começado
plasticamente. A oratória era em Siqueiros o fim de uma luta, o
último ato de um espetáculo, mas evidentemente uma "finale"
que não podia ser expressa plasticamente, que só era visível
em palavras.
Siqueiros era político e o seu vigor em oratória provinha das
suas condições políticas; o ambiente irreverente, irresponsável
e livre do Clube o inspirava. Ele sentia-se bem entre nós.
As suas ideias políticas só uma ou outra vez afetaram a cor e a
forma dos seus argumentos – coisa rara entre elementos
radicais.
A forma da sua oratória se parecia com a forma da sua pintura:
grande imaginação, grande exuberância, dantesca em
tonalidade, forte e definida em emoção.
A assistência imóvel hipnotizada, sem o menor sinal de
cansaço, escutou Siqueiros durante quatro horas.
Depois de São Paulo, Siqueiros seguiu para o Rio de Janeiro, onde passou rapidamente para proferir outra conferência. Teve a oportunidade de passear pela cidade: caminhou pela Avenida Copacabana, foi ao bairro do Mangue, comprou um exemplar de Cacau, de Jorge Amado, e bebeu em um botequim.
Na conferência foi apresentado por Di Cavalcanti e falou por duas horas. Segundo o editor da revista Rumo, "Começou a falar e virou mil [...] No fim as ideias dele estavam rodando dentro da cabeça de cada um, feito transfusão de sangue".
A revista publica neste mesmo número um artigo síntese de sua conferência denominada "Revolução Técnica da Pintura". Curioso que entre os redatores dessa revista temos Carlos Lacerda – então comunista – em conjunto com Evandro Lins e Silva e Moacyr Werneck de Castro. Como mais um exemplo da circulação de artistas e ideias políticas nesse período, no ano seguinte a Nueva Revista (já referida), em Buenos Aires, publica um artigo de Antonio Berri denominado "Siqueiros y el arte de masas" (Berri, 2006, p.25), que discute a relação Arte e Política presente em especial nos trabalhos de Siqueiros.
Talvez uma das marcas mais indeléveis da passagem de Siqueiros em terras brasileiras tenha sido deixada em Oswald de Andrade. Na década de 1930 temos um engajamento político de Oswald. Essa postura militante vai se refletir em sua proposta de uma "prosa de tese", consubstanciada em seu romance experimental Marco zero. Obra de caráter monumental realizada na forma de colagem ou de montagem cubo-futurista, foi produzida entre 1933 e 1945 e permaneceu inconclusa. Entre os volumes projetados estavam Revolução melancólica e Chão. A proposta dessa experiência era denominada de "romance mural" e nela já podemos vislumbrar as influências de Siqueiros e Diego Rivera. Essa obra seria uma crítica à burguesia paulista, a essa aristocracia em decadência devido à especulação financeira pós-crack da Bolsa de Nova Iorque e Revolução Constitucionalista.
O que mais nos chama a atenção no romance é o debate sobre a teoria da arte, quando procura estabelecer uma discussão teórica e estética entre dois personagens que seriam Jack de São Cristovão, um arquiteto (muito provavelmente Flávio de Carvalho) e Carlos de Jaert, um pintor (possivelmente Lasar Segal) a propósito de uma conferência proferida no CAM.
Em outro trecho do romance mural Chão, Oswald reconhece: "Hoje, dez anos depois dessa cena ficcional que expressava o que sucedia aqui em São Paulo em 1934, as sugestões de David Alfaro Siqueiros tomam corpo". Diz que "o mestre mexicano acaba de criar um movimento contrário ao modernismo estético e polêmico, indicando a necessidade cada vez maior de dar-lhe um sentido social e político à arte contemporânea". Para Oswald, a solução técnica dos murais resolve o dilema de encontrar uma representação artística coletiva e socializante, tanto plástica como escrita, sem a qual não teria criado o romance mural.
Essas teorias já haviam sido colocadas em prática por Siqueiros nos trabalhos realizados em Buenos Aires, de onde acabava de vir. Lá, procurou pela primeira vez aliar pintura e arquitetura no que ficou conhecido como Ejercicio plástico organizado por ele e uma equipe que incluía o argentino Antonio Berni. Ambos vão trabalhar na abóboda de um café na periferia de Buenos Aires. Tal "ejercicio" estava presente também no romance experimental de Oswald, em que aparecia tanto a retórica social, e diríamos socialista, como certo teor futurista, devido a suas técnicas de expressão, como a "descontinuidade cênica", ou sua prosa cinematográfica com tons da pintura, do cinema e das discussões da época, como bem assinalou Antônio Cândido (1945). Sem dúvidas que nesse tom futurista de "arte ação" Siqueiros também compartia do uso de planos fílmicos e da fotografia.
Com toda certeza as propostas estéticas e políticas de Siqueiros calaram fundo no modernista. No Brasil, quem vai seguir esse caminho da chamada segunda dentição da antropofagia serão Tarsila do Amaral, com seus quadros A negra e Abaporú, e, depois, a pintura de Candido Portinari, de Di Cavalcanti e, é claro, de Lasar Segal.
Enquanto isso, Siqueiros, nos anos finais da década de 1930, participa da Guerra Civil Espanhola e, em seu retorno ao México, continua com seus experimentos plásticos. Preso novamente, exila-se no Chile, com a ajuda de Pablo Neruda, onde permaneceu até 1943. Durante esse período, viajou para o Peru, o Equador, a Colômbia, o Panamá e Cuba. Posteriormente retornou ao seu país, onde executou importantes murais.
Na fase seguinte, a partir do final da década de 1940 e início da de 1950, continua com seus experimentos e inicia seu mural mais conhecido, denominado Do porfirismo à Revolução, no Castillo de Chapultepec, transformado posteriormente em Museu Nacional de História. Essa obra foi interrompida por diversas vezes, inclusive por
suas prisões.8 Desse período localizei uma série de correspondências recebidas e enviadas por Siqueiros para várias personalidades do meio cultural e político brasileiro e para instituições de nosso país ao longo dessa década e da seguinte, quando participa com grande sucesso na III Bienal de São Paulo, em 1955, comprovando a manutenção de uma rede intelectual entre Brasil e México (Barbosa, 2008).
No Brasil, talvez as primeiras manifestações da emergência de uma consciência política na cultura visual tenham sido as pinturas Operários e segunda classe, de Tarsila do Amaral, expostas no Palace Hotel do Rio de Janeiro em 1933. Di Cavalcanti escreve, no jornal Diário Carioca, uma crítica elogiosa dessas obras de Tarsila e publica o álbum A realidade brasileira, em 1930, em que por meio de 12 desenhos faz uma crítica à situação política do país. Vemos nesses desenhos ecos de George Grosz e que também podemos encontrar em Diego Rivera.
Detalhe do mural Visão política do povo mexicano, de Diego Rivera, na Secretaria de Educação Pública (México), 1923-1928. Página do
álbum A realidade brasileira, de Emilio Di Cavalcanti (Brasil), 1930.
Para citar mais alguns artistas brasileiros, vale lembrar de Quirino Camporiorito com seu retrato Operário (coleção Museu Nacional de Belas Artes, RJ) e sua natureza morta intitulada Vinte anos de início da Primeira Guerra Mundial, obra de cunho eminentemente pacifista. Posteriormente realizará obras como Hora do almoço e Aquecendo a comida aos camaradas, esta última de 1939. Não podemos esquecer também a atuação de outro artista importante: Eugênio Sigaud.
Outro movimento importante foi a fundação da revista Claridade, no Rio de Janeiro, e a criação do Grupo Zumbi, em São Paulo, ambos inspirados no grupo e revista francês Clarté, de Henri Barbusse, que terá uma congênere na Argentina, Claridad. Ainda em São Paulo, após a Semana de Arte Moderna, eminentemente de elite, surge o Grupo Santa Helena, formado por operários, ex-jogadores de futebol, pintores de parede e desempregados e que contava entre seus membros com Alfredo Volpi e Francisco Rebolo. Reuniam-se no edifício Santa Helena e discutiam, além de arte, sobre a situação política, o socialismo, o fascismo e o comunismo. Também frequentavam o grupo artistas como Manuel Martins, Clóvis Graciano, Mario Zanini, Humberto Rosa, Figuera, Penacchi e o escritor Roque De Chiaro.
Cabe um destaque à capital paulista como um centro de resistência ao integralismo, que tinha, também na cidade, seu líder Plínio Salgado. São Paulo era só agitação e ponto nevrálgico dos acontecimentos políticos. A cidade era dividida entre a elitista Higienópolis e os proletários do Brás e do Cambuci, sofreu uma intervenção com o governo de Getúlio Vargas e foi palco da Revolução Constitucionalista, em 1932. É na capital paulista que teremos um dos centros dos embates políticos e culturais do país. Foi palco dos choques entre comunistas e socialistas na Praça da Sé, assim como a Cidade do México foi cenário de conflitos semelhantes registrados em fotografias, como os ocorridos em 1935 entre os Camisas Douradas, grupo fascista mexicano, e militantes comunistas vinculados ao Sindicato dos Taxistas comandados por David Alfaro Siqueiros. A pauliceia, assim como a grande Tenochititlán, por serem grandes centros industriais e do operariado, foram lócus privilegiados da iconografia política da época.
No plano cultural, o Clube de artistas modernos, já citado anteriormente e tendo à frente Flávio de Carvalho e seu Teatro experiência, foi o núcleo mais atuante, com exposições da obra de Kaethe Kollwitz (que tanto marcou essa geração), de Tarsila do Amaral e outras, além das diversas conferências: Tarsila falando sobre Arte Proletária na União Soviética; Mário Pedrosa, sobre Kollwitz; a conferência de Caio Prado Jr. sobre a União Soviética, na qual, tamanho era o público, que ficou gente de fora até a distância de 150 metros; de Jorge Amado; além da já citada conferência de Siqueiros.
No Rio de Janeiro surge outra revista, Movimento – Revista do Club de Cultura Moderna, contando entre seus membros com Jorge Amado, Santa Rosa e outros. A propósito, outra figura de suma importância era Mário Pedrosa. Militante político extremamente atuante, foi crítico de arte e organizador de exposições, um verdadeiro mediador cultural. Escreveu, ainda na década de 1930, artigos sobre a arte latino-americana e os muralistas. Posteriormente foi um dos idealizadores do Museu da Solidariedade.
Não podemos esquecer a contribuição de Lasar Segal (18911956), principalmente de suas gravuras, como a série sobre as prostitutas do bairro do Mangue, no Rio de Janeiro. Na segunda metade dos anos 1930 desponta a produção de Candido Portinari. Após uma primeira fase, o artista de Brodósqui passa a utilizar a pintura mural. Se em um primeiro momento ele não tinha conhecimento da experiência mexicana, logo em seguida interessa-se muito pelos muralistas, assim como Di Cavalcanti.
Considerações finais
Em que pese as dificuldades de comunicação, ocorreu uma circulação de projetos e ideias políticas e culturais entre Brasil e México por meio de redes de sociabilidade estabelecidas entre artistas e intelectuais. Tanto a crítica à burguesia e à igreja – e aos seus símbolos – quanto a utilização dos operários e dos símbolos de seus respectivos movimentos políticos, no Brasil e no México, foram recorrentes. No país asteca destacam-se as figuras do índio, do mestiço e do camponês, todos muito mais presentes que no Brasil. A crítica ao fascismo e ao nazismo também era muito forte em ambos os países, assim como a abordagem do tema da Guerra Civil Espanhola.
Exposições individuais ou coletivas de artistas mexicanos, brasileiros, latino-americanos e europeus participaram de um processo de circulação e internacionalização da cultura moderna que se intensificou nas décadas de 1920 e 1930. Viagens e exílios desejados ou forçosos constituíram um espaço de intercâmbios, contaminações, apropriações e conexões e ajudaram a elaborar a cultura visual da época. Como afirmou Diana Wechler (p.29), "pôr em evidência o alto grau de circulação da informação sobre este e outros processos da arte moderna em diferentes latitudes" refuta, em parte, as afirmações clássicas não só da historiografia artística como da histórica e coloca em suspensão as afirmações de desinformação e isolamento em que viviam os artistas e intelectuais latino-americanos.
A intensidade desses intercâmbios de ideias políticas e estéticas entre um espaço e outro que esboçamos acima não confirma essas afirmações. Nesse sentido, as revistas culturais, com seus avanços técnicos e de reprodução visual, foram elementos de aproximação e de construção dos imaginários políticos. Nos anos 1920 e 1930 existia uma forte consciência internacional tanto dos movimentos artísticos modernos como dos processos políticos. Nesses anos o debate sobre a relação entre arte e política e a autonomia artística colocava a cultura visual em um terreno de disputa e de embates políticos.
Pretendemos continuar investigando esses repertórios visuais para perceber como ocorreram recepções, apropriações e ressignificações levadas a cabo por um grupo de artistas que possibilitou a construção de uma cultura visual e de um imaginário político na América Latina, em especial no Brasil e no México.
Referências bibliográficas
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1 Doutor em História e professor da Unesp – Assis é autor de A fotografia a serviço de Clio. Uma interpretação da história visual da Revolução Mexicana (1900-1940). São Paulo: Editora Unesp, 2006.
2 Além dos citados acima, poderíamos lembrar de uma vasta gama de escritores e artistas que publicaram nesse periódico, tais como: A. Ponce, C. Córdova, Iturburu, Á. Yunque, M. Gorki, John dos Passos, L. Aragon, A. Malraux, I. Ehrenbourg, R. Alberti, M. T. León, Antonio Machado, R. González Tuñon, H. Barbusse. A revista notabilizou-se pela impressão de imagens de M. Carmen, J. C. Castagnino e L. E. Spilimbergo. Devo essa informação ao texto de Wechsler (2006).
3 Talvez o principal exemplo de artista e evento que podem ser citados é a exposição Film und Foto – Fifo, em Stuttgart, em 1929, organizada por Lászlo Moholy-Nagy. Este havia escrito Malerei, Fotografie, Film em 1925. Veja mais informações em Bajac (2005, p.67).
4 Mirzoeff (2003, p.19). Nesse sentido, identifico-me muito mais com a proposta de uma história visual, do professor Meneses (2003, p.11-36) .
5 Guillermo Kahlo, de origem alemã e pai de Frida Kahlo, fixou-se no México e rapidamente tornou-se fotógrafo oficial das obras arquitetônicas do porfiriato.
6 Ambos foram editores da revista Hoy, criada em 1937, inspirada na revista norte-americana Life, em que prevaleciam os elementos visuais em seu projeto gráfico. Podemos afirmar que essa revista é similar às nossas Cruzeiro e Manchete. Para o caso mexicano, ver Monroy Nasr (2004, p.182).
7 Em relação à revista Rotofoto, veja texto de Barbosa Sánchez (2007, p.177-98).
8 Para mais informações, veja o trabalho de Vasconcellos (2007).