Política e identidade cultural na América Latina

José Luís Bendicho Beired · Capítulo 2 de 12

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Política e identidade cultural na América Latina

Parte I - Intelectuais e identidade cultural

Parte I - Intelectuais e identidade

cultural

 

1 Iberismo, hispanismo e latino-

americanismo no pensamento de

Gilberto Freyre: ensaios e impressões

de viagens

 

Kátia Gerab Baggio1

Ainda que constituam uma parte minoritária da obra do escritor, sociólogo, antropólogo e historiador pernambucano Gilberto Freyre (Recife, 1900-1987), suas reflexões sobre temas como iberismo, hispanismo, latino-americanismo, relações entre as Américas e diversidade cultural do continente estão fortemente relacionadas e imbricadas às suas interpretações sobre a formação social e cultural do Brasil. Além disso, as concepções freyrianas sobre o que ele mesmo denominou, a partir dos anos 1950, como lusotropicologia e hispanotropicologia estão diretamente ligadas às referências ibéricas de seu pensamento. O próprio Freyre designou-se como um intelectual iberista, tanto herdeiro como defensor das tradições

culturais e intelectuais ibéricas. 2

Antes de entrar propriamente nas reflexões freyrianas sobre temas relacionados ao iberismo e ao latino-americanismo, considero importante fazer algumas breves considerações sobre as referências teórico-metodológicas de Freyre e acerca da recepção de sua obra, a fim de situar melhor esses textos em seu conjunto. Autor de clássicos como Casa-grande & senzala (1933), Sobrados e mucambos (1936), Nordeste (1937), entre outros, Freyre inspirou, desde suas primeiras obras, intensas e agudas polêmicas. Foi duramente criticado pelos mais conservadores, nos anos 1930 e 1940, devido ao protagonismo dos anônimos em sua obra, ao elogio do popular, à celebração da mestiçagem étnica e cultural, à lingua-gem coloquial e explícita − "chula" e "obscena", para muitos − e à abordagem sobre os hábitos sexuais e a vida íntima no Brasil no período colonial e no século XIX. Ao mesmo tempo, celebrizou-se, em geral, pela mesma razão que levou parte dos críticos a rejeitá-lo: a interpretação da formação sociocultural brasileira fundada nas relações, um tanto ambíguas, entre senhores e escravos, entre brancos, negros, indígenas, mulatos e caboclos, dentro de uma

sociedade mestiça de profundos traços patriarcais e autoritários. 3

A partir dos anos 1950, a recepção à obra de Freyre começou a alterar-se. Nas duas décadas anteriores, como já mencionado, a autor pernambucano foi rejeitado pelos conservadores e valorizado pelos intelectuais críticos das concepções deterministas, racialistas e racistas, herdadas do século XIX. Inclusive, foi louvado por muitos intelectuais de esquerda, como Astrojildo Pereira, Jorge Amado, entre outros. Na década de 1950, entretanto, Freyre começou a receber críticas agudas da intelectualidade de esquerda e centro-esquerda. Suas aproximações, cada vez mais explícitas, das concepções políticas de direita, além de formulações discutíveis e problemáticas − como o lusotropicalismo, o hispanotropicalismo e a tropicologia −, explicam, em grande medida, a recusa à obra de Freyre por parte da maioria dos jovens intelectuais que iniciavam suas carreiras e sua produção nos agitados anos 1960.

De agosto de 1951 a fevereiro de 1952, Freyre fez uma longa viagem por Portugal e colônias portuguesas na África e Ásia (Goa). Em sua viagem, o intelectual brasileiro manifestou apoio ao regime ditatorial português, comandado por António de Oliveira Salazar, e à

política colonialista portuguesa.4 Na década seguinte, alinhou-se

com aqueles que apoiaram a ditadura militar no Brasil.5 O iberismo de Freyre, sua defesa das tradições culturais e intelectuais herdadas de Portugal e Espanha, além de sua inegável nostalgia em relação ao passado patriarcal, o transformaram na imagem mais evidente de intelectual representante dos valores de um Brasil rural, oligárquico e patrimonialista que se queria superar. Ademais, as frequentes manifestações de celebração de si próprio e de sua obra, os autoelogios reiterados, evidências de sua imensa vaidade, reforçaram a crescente rejeição à figura e à obra de Freyre nos anos 1960 e 1970, décadas − a partir do golpe militar de 1964 que derrubou o presidente João Goulart − de governos ditatoriais e

repressivos, apoiados por Freyre. 6

A partir da década de 1980, sob os efeitos do fortalecimento da história cultural e sociocultural e do desgaste das concepções marxistas, a obra de Gilberto Freyre começou a ser fortemente revalorizada. Suas análises sobre a diversidade cultural brasileira, a vida cotidiana, a intimidade, os hábitos alimentares, as expressões culturais populares (danças, músicas, festas), além do elogio à miscigenação étnica e cultural, ao viés antropológico e ao uso da história oral, levou a obra de Freyre − principalmente seus livros e textos publicados nos anos 1930 − a uma nova recepção, nas últimas décadas, particularmente pelos pesquisadores vinculados à perspectiva da História Social da Cultura. Del Priore (2002, p.19) assim se refere à obra de Freyre:

A presença de tais temas [a casa, o corpo] na obra freyriana

dão a medida de sua incrível atualidade, de sua capacidade de

anteciparse ao próprio tempo e avançar novas abordagens e

novos objetos.

E mais adiante, no mesmo texto:

Crítico das interpretações rasteiras que identificavam as

tensões culturais às "lutas de classes", Freyre é observador

arguto dessa que Roger Chartier denominou, bem mais tarde,

luta de representações. (idem, p.22)

Ou seja, a recepção da obra de Freyre foi pautada por leituras díspares, mais ou menos marcadas pelas imbricações entre a obra e as concepções e filiações políticas do autor pernambucano. Depois de sofrer forte rejeição, Freyre passou a ser revisitado com frequência. Entre os trabalhos que reavaliaram sua obra, um dos mais significativos é o de Ricardo Benzaquen de Araújo, publicado em 1994. O autor mostra, entre outras questões, que em Casa-grande & senzala a defesa da ideia da convivência, adaptação e tolerância entre senhores e escravos, própria, segundo Freyre, das formas adquiridas pela colonização portuguesa nos trópicos − que ensejaram algumas das críticas mais agudas à obra freyriana, relacionadas à defesa, por parte do autor pernambucano, de uma suposta "brandura" e "harmonia" nas relações sociais e raciais no Brasil −, cede espaço também, no mesmo livro, a numerosas referências à violência que permeava as relações escravistas no país. Ainda que a tese da miscigenação como promotora da "democratização social no Brasil" seja defendida ao longo da obra, Freyre abre e fecha Casa-grande & senzala com referências à violência e ao sadismo dos senhores em suas relações com os escravos:

Sem deixarem de ser relações − as dos brancos com as

mulheres de cor − de "superiores" com "inferiores" e, no maior

número de casos, de senhores desabusados e sádicos com

escravas passivas, adoçaram-se, entretanto, com a

necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem

família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base.

(Freyre, 2000, p.46)

Mais adiante, no mesmo prefácio, Freyre, a partir de documentos relacionados à visitação do Santo Ofício ao Brasil, faz menção a "senhores mandando queimar vivas, em fornalhas de engenho, escravas prenhes, as crianças estourando ao calor das chamas" (idem, p.57).

Além de outras passagens impactantes como a anterior, Freyre termina seu livro, no último parágrafo − depois de dissertar sobre os cânticos e as festas dos negros −, com as seguintes considerações:

Mas não foi toda de alegria a vida dos negros, escravos dos

ioiôs e das iaiás brancas. Houve os que se suicidaram comendo

terra, enforcando-se, envenenando-se com ervas e potagens

dos mandingueiros. O banzo deu cabo de muitos. O banzo − a

saudade da África. (idem, p.514)

Ainda assim, apesar de iniciar e encerrar Casa-grande & senzala mencionando as torturas, a violência e a tristeza dos negros escravizados, prevalece a ideia, na obra, de que as relações raciais no Brasil teriam sido mais brandas do que em outros países, particularmente nos Estados Unidos, em conformidade com a concepção de Freyre sobre os "antagonismos em equilíbrio". A expressão de Freyre diz tudo: os antagonismos da sociedade patriarcal e escravista estavam, segundo o autor pernambucano, em equilíbrio. Portanto, não seriam plenamente adequadas as interpretações que priorizassem os conflitos sociais, raciais, culturais, econômicos, políticos etc.

As concepções freyrianas, inclusive a ideia dos "antagonismos em equilíbrio", tiveram inspiração múltipla. Em sua trajetória, Freyre recebeu e incorporou, de maneira seletiva, uma série de referências teórico-metodológicas, diversas e, em muitos casos, conflitantes. O autor pernambucano apropriou-se, de maneira mais ou menos explícita, de várias dessas referências e reflexões, adequando-as aos seus propósitos interpretativos acerca das "especificidades" da formação sociocultural brasileira.

Ainda muito jovem, com 18 anos incompletos, no início de 1918, partiu para os Estados Unidos e matriculou-se na Baylor University, em Waco, Texas. A guerra na Europa impediu Freyre, nesse momento, de seguir seus estudos em instituições europeias, como pretendia. Nessa época, aprofundou-se em leituras de ensaístas, filósofos, historiadores, cientistas sociais, viajantes, naturalistas, romancistas e poetas norte-americanos, ingleses, franceses, espanhóis, alemães etc., além de ler e reler autores brasileiros. Após concluir o bacharelado em Artes, em Baylor, seguiu para Nova Iorque e ingressou na Columbia University, onde aprofundou sua formação intelectual. Em Columbia, foi aluno de professores que marcariam sua obra, como o antropólogo Franz Boas, sobre o qual declarou, no prefácio à Casa-grande & senzala: "é a figura de mestre de que me ficou até hoje maior impressão". E, acerca do impacto das ideias de Boas em sua própria obra, confessou:

Foi o estudo de Antropologia sob a orientação do Professor

Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo

valor – separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou

da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a

diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de

relações puramente genéticas e os de influências sociais, de

herança cultural e de meio. (idem, p.45, destaques no original)

Após concluir os estudos em Nova Iorque, em 1922, seguiu para a Europa, um velho sonho. Visitou a França, a Alemanha, a Bélgica, a Espanha e Portugal. Esteve na Inglaterra, demorando-se em Oxford.

Ao esquadrinhar os referenciais anglo-americanos, particularmente os britânicos, da obra e das ideias de Freyre − a partir de seu período como estudante nos Estados Unidos e na Inglaterra −, Pallares-Burke (2005) enfatiza que, ao lado de autores consagrados em seu tempo, como Herbert Spencer e Franz Boas, Freyre buscou inspiração em autores considerados "menores" e em "obras obscuras", como as dos irmãos Goncourt, franceses, ou os ensaios e narrativas de viagens de Lafcadio Hearn, de ascendência irlandesa e grega. Pallares-Burke (idem, p.12) pretende evidenciar "a importância dos autores britânicos, especialmente do período vitoriano, para o desenvolvimento intelectual de Gilberto Freyre", ainda que admita, também, a grande relevância de autores franceses, alemães, espanhóis, portugueses, norte-americanos e, também, brasileiros.

A concepção freyriana de "equilíbrio de antagonismos", fundamental em sua obra, teria sido inspirada, de acordo com Pallares-Burke (idem, p.41), pela leitura de intelectuais britânicos, como o escocês Thomas Carlyle e os ingleses Herbert Spencer e Alfred Zimmern, além do norte-americano Franklin H. Giddings. Além desses autores, a autora menciona, entre as referências importantes para Freyre, G. K. Chesterton, Arnold Bennett, Walter Pater, Gissing, George Moore, Havelock Ellis, entre outros. Chester-ton e Hearn rejeitaram a ideia de uma Inglaterra formada por uma "raça pura". Lafcadio Hearn viveu no Japão, nos Estados Unidos − radicando-se em New Orleans − e nas Antilhas Francesas, de onde fez elogios intensos à mestiçagem, exaltando a beleza, a força, a alegria, a música, a dança, a linguagem e a culinária de negros e mulatos antilhanos. O impacto da obra de Spencer − autor consagrado em fins do século XIX e no início do século XX − sobre o escritor pernambucano teria sido, segundo a autora, "decisivo". Em Spencer, Freyre admirava sobretudo a moderação e o "equilíbrio intelectual", avesso a posições extremadas. Segundo Pallares-Burke (idem), a expressão "antagonismos em equilíbrio", tão frequente na obra de Freyre, foi por ele encontrada em um texto de Thomas Carlyle e reencontrada em Herbert Spencer. A busca pela harmonização de concepções antagônicas e a ideia da "relatividade de todo conhecimento", presentes em Spencer, teriam inspirado Freyre a ver, no Brasil, a mesma tendência conciliadora que o filósofo inglês enxergava em seu país. Em conferência ministrada em Belo Horizonte, em 1946 − ou seja, logo após o fim do Estado Novo varguista –, Freyre (1965, p.111-2) identificou Minas Gerais como a "nossa Grã-Bretanha" e considerou mineiros e baianos "conciliadores por excelência", cientes das contradições inerentes à natureza humana. Segundo a perspectiva de Freyre (1989, p.112),

[...] nem a monocultura, nem o latifúndio, nem a escravidão, que

condicionaram de modo tão decisivo o desenvolvimento social

do Brasil [...] merecem condenação formal de quem se

aproxime do assunto sob o critério do relativo. E não do

absoluto, tão perigoso nas avaliações sociais. Tão perturbador

da perspectiva histórica.

Há, nessa passagem, ao celebrar o relativismo, uma evidente despolitização dos problemas socioeconômicos do Brasil, aliada à concepção freyriana de exaltação da conciliação. Algumas interpretações recentes sobre a obra de Freyre, de viés culturalista, se, por um lado, buscam revalorizar suas evidentes contribuições para a história sociocultural do Brasil, por outro, reforçam essa visão despolitizada da vida colonial e imperial brasileira, diluindo os conflitos e disputas − em nome das convergências e "antagonismos em equilíbrio" − e ignorando as críticas anteriormente recebidas por Freyre em razão de sua visão enaltecedora dos trópicos como espaço, por excelência, da conciliação.

Em relação às dívidas intelectuais de Freyre para com o pensamento anglo-saxônico, e britânico em particular, ainda que estas sejam inegáveis − como Pallares-Burke (2005) demonstra com erudição e competência −, não podem minimizar a relevância de outras referências intelectuais presentes na obra do sociólogo pernambucano.

Bastos (2003) analisou as contribuições de importantes autores espanhóis para a formação intelectual e o pensamento de Freyre. A autora mostrou, com clareza, que muitas das ideias freyrianas sobre a formação social e cultural brasileira tiveram inspiração em fontes espanholas. Durante os anos em que viveu e estudou nos Estados Unidos e na Europa, entre 1918 e 1923, o autor brasileiro teve contato com a obra de importantes intelectuais espanhóis, tanto da chamada geração de 1898 como da posterior, de 1914. As referências espanholas mais constantes de Freyre foram Ángel

Ganivet,7Joaquín Costa, Miguel de Unamuno, Pío Baroja, José Ortega y Gasset, Américo Castro e Julián Marías. Vale destacar também que, em Nova Iorque, Freyre manteve frequentes conversas com o espanhol Federico de Onís, professor de literatura

espanhola e hispano-americana na Columbia University. 8

Como assinalou Bastos (idem, p.7-12), Freyre endossou, nesses autores, algumas concepções que permeiam grande parte de sua obra. Entre elas, a defesa do retorno às tradições e a valorização do regional e do popular, além da "afirmação do encontro de elementos orientais e ocidentais" na formação ibérica, e, por extensão, ibero-americana e brasileira.

Referindo-se ao granadino Ángel Ganivet, Freyre (1975, p.168) chegou a afirmar: "ele me ajuda a ver o Brasil como ninguém". Bastos (2003) chama a atenção para o grifo, feito por Freyre, em trecho do prólogo a Idearium español, livro de Ganivet de 1897, assinado pelo escritor Cristóbal de Castro (1987, p.8-9) − andaluz como Ganivet, mas nascido no sul da província de Córdoba:

[Ganivet] não percebe o povo como político, mas como artista.

Por exemplo, o sufrágio universal o indigna, como a um duque

inglês ou a um bispo espanhol. Em contrapartida, os cantos

populares o embriagam, como a um cigano ou a um "flamenco".

E assinalando palavras de Ganivet:

Meu instinto me arrasta ao comum, ou melhor, ao popular, ao

que agrada e interessa ao povo [...].(ibidem)

Não há dúvida de que essa percepção do "povo" e do "popular" encontra-se constantemente presente na obra de Freyre, desde suas reflexões iniciais. Em texto de 1923, ao comentar palavras do escritor brasileiro Agripino Grieco, afirmou:

[...] Do ideal de alfabetismo escrevi que o resultado era a

mediania de cultura. [...] Da instrução universal resultam as

Suíças, as Finlândias e o muito que têm de "bon enfant" os

Estados Unidos. Democracias de cidadãos lavados, barbeados

e bem penteados, irritantemente parecidos uns aos outros,

medianos em tudo. [...] No artigo do Sr. Agripino Grieco [...] vêm

ideias parecidas a estas. [...] Muito justo me parece o íntimo

parentesco que entre os daninhos ideais de "sufrágio universal"

e "instrução universal" estabelece o Sr. Grieco. (Freyre, 1979,

p.305-6)

Fica claro nessa passagem que, para Freyre, a escolarização − vinculada, no texto, ao ideal de sufrágio universal − levaria a uma vulgarização e homogeneização da cultura popular, eliminando, aos poucos, expressões culturais populares regionais e "autênticas". A modernização viria, inevitavelmente, em contraposição à manutenção das tradições. Nesse sentido, Freyre expressa, como em muitas outras ocasiões, seu antiliberalismo. Para ele, o "atraso" tinha inúmeras vantagens, já que a modernização a tudo uniformizava. Segundo Freyre, o ideário liberal aplicado ao Brasil era "falso", "artificial", desconectado das "autênticas" raízes culturais brasileiras: ibéricas, africanas e ameríndias.

Em Ortega y Gasset aparece, também, desde seu primeiro livro − Meditaciones del Quijote (1914) −, a concepção de que, na Espanha, o racionalismo burguês não havia fincado raízes. E as ideias de Freyre, relacionadas à bicontinentalidade do mundo ibérico − ao mesmo tempo europeu e africano, europeu e árabe − e a um suposto sensualismo no caráter peninsular, resultado do encontro entre tradições culturais ocidentais e orientais, têm, claramente,

inspiração em concepções de Ortega y Gasset.9 Para Freyre, a modernização operada a partir do século XIX, no Brasil, teria levado a uma crise dos valores da sociedade patriarcal e de seu significado como mantenedora dos "antagonismos em equilíbrio". Também em Ortega y Gasset aparece a ideia de "tempo tríbio", de forte e

constante presença na obra de Gilberto Freyre.10 Mas, diversamente de Ortega, Freyre não aceitava a abertura para o processo de modernização, tal qual ele se manifestava no Brasil. Nesse sentido, o sociólogo brasileiro aproximava-se de Unamuno, para quem a Espanha deveria, para superar a crise, alimentar-se da cultura popular e de suas próprias tradições. Assim também pensava Freyre: o Brasil deveria manter as tradições culturais herdadas do período colonial para seguir adiante. Sua perda levaria

à decadência, tal qual acontecia na Espanha. 11

Sobre o iberismo, o hispanismo e o latino-americanismo na obra de Freyre, cabe mencionar os artigos em jornais brasileiros e argentinos publicados pelo sociólogo pernambucano por ocasião de sua viagem aos países platinos, no início dos anos 1940. Suas breves impressões da viagem pelo Uruguai, pela Argentina e pelo Paraguai são textos bem menos conhecidos e visitados de sua vasta obra, mas nem por isso desinteressantes. Esses textos foram escritos em Montevidéu, em Buenos Aires e em Assunção, entre dezembro de 1941 e fevereiro de 1942, em razão da viagem de lua de mel de Gilberto Freyre e de sua esposa, Maria Magdalena, pela região, estada que coincidiu com a publicação de Casa-grande & senzala na Argentina, a primeira edição estrangeira do clássico

freyriano.12

Os artigos escritos por ocasião da viagem foram publicados nos jornais La Nación, de Buenos Aires; Correio da Manhã, A Manhã e Diário de Notícias, do Rio de Janeiro; Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco, do Recife. Alguns textos são posteriores à volta de

Freyre ao Brasil. 13 E como um dos resultados dessa visita à Argentina, Freyre tornou-se colaborador do La Nación, um dos mais

importantes diários de Buenos Aires.14 A viagem foi financiada parcialmente pelo Governo Federal brasileiro, a partir de um pedido de realização de conferências sobre política cultural, encaminhado por Lourival Fontes, então diretor do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda da ditadura estado-novista de Getúlio

Vargas.15

Em conferência intitulada "A propósito da política cultural do Brasil na América", ministrada em Montevidéu, em dezembro de 1941, Freyre proclamou, como era de se esperar, a rejeição à perspectiva que desvalorizava os trópicos e suas populações mestiçadas. E sustentou a ideia de que "dentro dessa comunidade americana há uma Indo-América ainda mais caracteristicamente americana [...] do que as zonas do continente quase exclusivamente europeias ou totalmente africanas na sua composição". Mas renegou a validade da formação de uma unidade, ou de um bloco, que dissolvesse as particularidades, a diversidade e as expressões culturais locais e regionais. Defendeu a "pluralidade de cultura sobre a base comum, ameríndia e hispânica". Para Freyre, a América Ibérica − que ele designa no texto como os "povos americanos de formação indo-hispânica" − deveria unir forças para resistir ao avanço do "industrialismo carbonífero e petrolífero, ansioso de mercados passivamente coloniais", que tenderia a uma "rígida uniformidade cultural de continentes inteiros sob o domínio da política ou da economia do povo triunfador". E sustentou: "a essa tendência para a uniformidade cultural, nós, da América indo-hispânica, poderemos opor alguma resistência, unidos e conscientes da necessidade de defender valores comuns", adiantando posições que iriam

reaparecer em seus textos posteriores. 16

No mesmo texto, Freyre sintetizou e enfatizou suas ideias da seguinte maneira:

A contemporização do português com os valores indígenas e

com os dos africanos já familiarizados com os trópicos é que

tornou possível o fato de levantar-se hoje no Brasil a maior

civilização moderna e, socialmente, a mais democrática nos

trópicos. Civilização que é um dos exemplos mais fortes que a

América pode apresentar de uma cultura em que valores de

várias procedências se combinam e se afirmam numa nova

expressão caracteristicamente americana e socialmente

democrática e num vasto esforço, a princípio empírico, hoje

científico, de harmonização do europeu com a natureza tropical

e semitropical e com o ameríndio e o africano, e da assimilação,

pelo americano do Brasil, mesmo quando puramente nórdica

sua procedência, de valores e processos desenvolvidos pelos

nativos dos trópicos. (Freyre, 1941a, p.40)

Freyre entende a "democracia" vinculada à convivência "harmônica" dos membros de uma sociedade marcada pela diversidade étnica e cultural, desconsiderando, e mesmo descartando como desimportante, o significado propriamente político da democracia. A democracia liberal, para Freyre, não tinha lugar na América Ibérica e passava por uma fase de crise e descrédito.

Freyre também não deixou de, nessa conferência, pronunciada no Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileiro, mencionar o presidente brasileiro:

O Brasil de hoje − com um presidente, o Sr. Getúlio Vargas, em

quem a consciência sociológica dos problemas brasileiros e

americanos completa às vezes a política e, principalmente, com

uma elite de pensadores e pesquisadores que já venceram, no

trato de problemas antropológicos, o complexo de inferioridade

do mestiço e do clima tropical − bem pode tornar-se o animador

de uma política de cultura interamericana que seja ao mesmo

tempo um movimento unionista e pluralista, ecologista e

universalista, continentalista e regionalista; uma combinação,

em suma, das vantagens da unidade e da integração do

homem no meio com as vantagens da diversidade e da

variedade. (idem, 1941b, p. 44-5, destaque no original)

Não há dúvidas de que Freyre, em seus textos sobre a Hispano e a Latino-América, mostrou-se sumamente preocupado com a defesa das tradições e expressões populares e regionais. Em mais de um artigo, rejeitou a incorporação avassaladora e sem critérios, pelos latino-americanos, dos valores da "Europa carbonífera e burguesa", da "Europa capitalista sobre a base do liberalismo econômico" ou "do imperialismo dos Estados Unidos". Para Freyre, esse modelo econômico-cultural estaria "em crise; talvez em franca dissolução", e a América tropical seria o lugar onde uma alternativa civilizatória poderia vicejar, com "variações de expressão, criação e tradição regional" (idem, p.45). Evidentemente, não se pode esquecer que esses textos foram escritos em meio à Segunda Guerra Mundial, com tudo o que esse gigantesco conflito significou em termos de "dessacralização" da "civilização europeia".

Freyre, em artigo intitulado Interamericanismo, publicado em La Nación, em fevereiro de 1942, defendeu o que seria, para ele, a combinação de "unidade com variedade, continentalismo com regionalismo, universalismo com localismo, história com geografia". Considerava o interamericanismo a possibilidade de aliar integração à diversidade cultural, em oposição a uma "Pan-América indistinta, pomposamente maciça", una. O interamericanismo poderia ser uma combinação de "energias regionais e qualidades provinciais" (idem, p.47-51).

A defesa do retorno às tradições; a valorização da diversidade e mescla de tradições culturais distintas (ocidentais e orientais); a interpenetração dos métodos da sociologia e da história; a concepção de intra-história (presente em Unamuno), ou seja, "a vida subconsciente do povo", "as correntes profundas de seu ser" − elementos analisados por Elide Rugai Bastos como centrais no pensamento de Freyre e relacionados à recepção e incorporação, em sua obra, de ideias e formulações do pensamento espanhol − estão fortemente presentes nos textos de Freyre sobre a América Latina, escritos entre os anos 1940 e 1970. Freyre manteve, desde os anos 1930 − década em que publicou seus trabalhos mais relevantes –, esses elementos em suas análises, não tendo havido, em meu entender, alterações substanciais em suas concepções sobre a formação sociocultural do Brasil ou do mundo ibérico, em um sentido mais amplo e genérico.

Os artigos que Freyre escreveu sobre o Paraguai evidenciam as articulações, em seu pensamento entre as concepções inspiradas pelo pensamento espanhol e suas interpretações sobre a América Latina. Ao contrário do que estamos mais acostumados a ler no Brasil − visões extremamente pejorativas em relação ao país

hispano-guarani −,17 os artigos de Freyre sobre o Paraguai são, de maneira muito impressionante, favoráveis. É claro que Freyre, ao longo da viagem, ao tratar de maneira positiva os países visitados, também estava agindo diplomaticamente diante de seus anfitriões. Mas não é só isso. Há uma clara disposição de Freyre em defender, idilicamente, a América Ibérica e mestiça diante de um mundo de intolerância e guerra.

Freyre publicou breves artigos sobre o Paraguai em jornais do Recife e do Rio de Janeiro, em março e abril de 1942. O Paraguai, símbolo dessa América Hispano-Índia, celebrada pelo autor pernambucano, teria preservado, segundo ele, suas tradições mais profundas, os valores tropicais e a cultura popular. Freyre considerava Assunção uma "cidade aristocrática", como os "burgos sossegados do extremo norte brasileiro, mais presos ao passado e ao sangue luso-ameríndio". E contrapôs a Assunção "aristocrática" a Buenos Aires e a São Paulo, metrópoles progressistas, mas cosmopolitas e descaracterizadas. Além disso, comparou Assunção a Charleston, capital da Carolina do Sul, que, embora "quase estagnada", era, segundo o sociólogo, "a cidade de modos e gostos mais aristocráticos dos Estados Unidos. Cidade animada ainda, hoje, de um desdém soberano pelos yankees que venceram a Guerra Civil e tornaram-se donos das indústrias, do comércio e das companhias de navegação do sul patriarcal" (Freyre, 1942, p.63-5).

É difícil não ver na defesa que Freyre faz de Assunção, de Charleston ou das províncias argentinas − no papel de cidades e regiões mantenedoras da tradição frente ao progresso e ao cosmopolitismo avassalador − uma nostalgia da sociedade patriarcal nordestina. O elogio ao "aristocratismo essencial" de Assunção e à quase ausência de burgueses − apenas "um ou outro arredondado pela influência excessiva do bife portenho e de ideias liberais europeias e norteamericanas" (idem, p.65) − evidencia, inequivocamente, o lugar de onde fala Gilberto Freyre. Nas leituras freyrianas sobre a América Hispânica, a herança colonial e aristocrática das casas-grandes destaca-se na paisagem.

Em ensaio publicado 21 anos depois, Americanidade e latinidade da América Latina, de 1963, Freyre reafirmou a defesa das tradições, mas também das culturas ameríndias. Ao longo do texto, comparou e estabeleceu paralelismos entre expressões culturais mestiçadas em diferentes países latino-americanos: na literatura, na pintura, na arquitetura, na música, na dança, na culinária etc. A certa altura do ensaio, ao contrapor o "tempo-lazer" dos latinoamericanos ao "tempo-trabalho" dos anglo-saxões, Freyre afirmou que os latino-americanos teriam a ensinar aos americanos do norte as "artes de encher festiva, folclórica e esteticamente o tempo livre", como um "tempo litúrgico, festivo, lúdico". E concluiu:

Estamos, neste particular, diante de um paradoxo que é o da

América Latina tornar-se de repente, sob certos aspectos,

pósmoderna e a América de língua inglesa, arcaica em suas

atitudes e em seus hábitos, criados por três séculos de

progresso à base de um sentimento apenas econômico de

tempo: o de tempo-dinheiro. (idem, 1963, p.28)

O "pós-modernismo" da América Latina estaria também em sua capacidade de valorizar tradições tanto eruditas como populares e de combiná-las com o moderno, além de sua habilidade para mesclar elementos da arte popular com "arrojos experimentais".

Não é difícil vizualizar, nessas proposições de Freyre, elementos que já estavam em autores do final do século XIX, como o nicaraguense Rubén Darío e o uruguaio José Enrique Rodó, ou posteriores a Freyre, como o norte-americano Richard Morse.

Questões antigas, atualizadas.18

Em seu livro Como e por que sou e não sou sociólogo, publicado em 1968, Freyre definiu-se como um escritor pertencente à tradição ibérica, mais espanhola do que portuguesa. Nesse texto, escrito na maturidade, Freyre (1968) cita Ganivet e Unamuno, entre tantas outras referências. Apesar das divergências conhecidas entre os intelectuais espanhóis mencionados por Freyre − envolvidos em intensos debates sobre a "regeneração" da Espanha, após as perdas das colônias na primeira metade do século XIX e, principalmente, o impacto da flagrante derrota na Guerra Hispano-Americana de 1898 −, o sociólogo brasileiro buscou em cada um deles ideias e perspectivas que pudessem alimentar sua visão sobre o universo cultural ibérico, ibero-americano e, mais particularmente,

brasileiro.19

Sete anos depois de publicar Como e por que sou e não sou sociólogo, Freyre lançou o livro intitulado O brasileiro entre os outros hispanos: afinidades, contrastes e possíveis futuros nas suas interrelações (1975), no qual reiterou sua filiação iberista. A obra reúne um conjunto de ensaios e conferências sobre hispanismo, iberismo, os trópicos e o "conceito ibérico do tempo". Como o próprio Freyre admitiu no prefácio, há evidentes repetições. Os vários ensaios do livro, reunidos sem um esforço de condensação, apresentam, de um modo geral, ideias repetidas, e, em alguns casos, frases e parágrafos idênticos, de maneira um tanto prolixa. Nessa obra, Freyre (1975, p.32) defendeu a ideia de que "ser português é ser hispânico, sem ser, é claro, espanhol ou castelhano; e sem que a condição hispânica implique subordinação cultural à condição espanhola ou castelhana". Como já observou Crespo (2003, p.188), o título é provocador, pois o brasileiro é apresentado como um entre outros hispânicos. Freyre dedicou-se, no livro, a esmiuçar sua defesa das tradições culturais ibéricas. Entre elas, a "noção hispânica de tempo", que dignifica o ócio criativo, o tempo do lazer, das festas, da conversa sem prazo para terminar − temática já explorada pelo autor em textos anteriores, como já salientado. Para o escritor pernambucano, a automação permitiria a liberação do homem para esse novo tempo, o "tempo-lazer", ao invés do "tempodinheiro", abrindo espaço para a superação "do modernismo, do europeísmo, do biologismo, do economismo nas Ciências do Homem e no começo de outra era, pós-moderna, mas ainda por classificar [...]". Segundo Freyre, o Brasil estaria inserido em uma "cultura transnacionalmente pan-hispânica", "herdeira direta tanto de valores espanhóis como de valores portugueses" (Freyre, 1975, p.41-5).

Freyre entendia o "pós-moderno" como superação de uma modernidade que via como esgotada. Sua concepção de "pós-modernidade" é devedora, provavelmente, de uma releitura das ideias do ensaísta e crítico literário espanhol, radicado nos Estados Unidos, Federico de Onís, que, como já mencionado, era professor da Columbia University no período em que Freyre estudou nessa

universidade.20

Discípulo de Unamuno, Onís concebeu a expressão "pós-modernismo" com um sentido literário para referir-se a uma "reação conservadora", contrária ao experimentalismo do modernismo literário em língua espanhola de fins do século XIX e do início do século XX, no sentido de recuperar elementos negligenciados por esse movimento: lirismo despretencioso, tradição clássica,

bucolismo etc.21 A ideia da "pós-modernidade" como retorno da tradição está afinada, como já evidenciado, com as concepções freyrianas.

Em O brasileiro entre os outros hispanos, Freyre defendeu, também, um incremento do intercâmbio entre o Brasil e a América Hispânica, "sem sacrifício de sua saudável diversidade", tanto do ponto de vista político e econômico como cultural, intelectual, científico, tecnológico etc., "incluindo o combate à poluição de águas (algumas internacionais), de ares, de solos, defesa de reservas florestais" (idem, p.55-6). Chama a atenção o fato de que, em meados dos anos 1970, quando as preocupações ecológicas não estavam na pauta de debates no Brasil, em plena ditadura desenvolvimentista, Freyre tenha se preocupado com as questões ambientais, assim como com a crítica da modernidade e com o elogio de uma suposta "era pós-moderna".

Freyre supôs, como já mencionado, a existência de uma "cultura transnacionalmente pan-hispânica a que o Brasil pertence". E contrapôs essa "cultura pan-hispânica" aos europeus do norte, sendo que a primeira seria portadora dos valores mais caros e adequados, segundo ele, para enfrentar os desafios que se apresentavam às sociedades da segunda metade do século XX: a recusa do tempo cronométrico e da noção de time is money; a adoção do tempo "lento, vago, impreciso", de ócio, lazer e criação; a interpenetração de culturas nos contatos de europeus com não europeus; a mestiçagem; a tendência à "conciliação dos contrários"; o "tratamento fraterno" de portugueses e espanhóis em relação a

populações não europeias, colonizadas; a transculturação;22 a mistura de valores eruditos e populares; a mescla de concepções cristãs, judaicas e islâmicas; a crítica aguda aos valores burgueses e calvinistas; a defesa dos trópicos como espaço da diversidade; a proposta de constituição de uma nova "ciência", a tropicologia, que também aparece, no livro, desdobrada em uma hispanotropicologia e uma lusotropicologia, dedicadas a estudar as sociedades ibéricas e mestiças dos trópicos.

Ao longo do livro, Freyre cita vários intelectuais espanhóis, principalmente os já mencionados, mas, apesar de pregar o incremento do intercâmbio cultural entre o Brasil e a América Hispânica, menciona poucos hispano-americanos − principalmente se comparado à abundância de autores europeus citados e, no caso de hispanos, a frequência com que aparecem referências a Ganivet, Unamuno, Ortega y Gasset e Julián Marías. Entre os hispano-americanos citados em O brasileiro entre os outros hispanos estão o nicaraguense Rubén Darío; os argentinos Jorge Luis Borges e Juan

José Sebreli; 23 os mexicanos Carlos Pereyra, Amado Nervo e

Alfonso Reyes; 24 25 o peruano José Carlos Mariátegui, entre outros. No entanto, conforme observou Crespo (2003, p.193), não há registros de "contatos sistemáticos de Freyre com o universo acadêmico hispano-americano", assim como não se estabeleceram diálogos frequentes com seus intelectuais e não houve a "incorporação, por parte de Freyre, de referências e contribuições especificamente relacionadas a autores hispano-americanos", com a exceção, já conhecida, do conceito de transculturação, do cubano Fernando Ortiz. De fato, apesar de suas concepções iberistas e hispanistas, Freyre não estabeleceu, de um modo geral, intercâmbios frequentes com intelectuais hispanoamericanos e não incorporou às suas reflexões, a despeito de temas e preocupações comuns, de forma consistente e sistemática, contribuições de escritores e pensadores dos países vizinhos, a não ser em casos excepcionais. Entretanto, vale notar que em Freyre, a despeito do reconhecimento de suas dívidas intelectuais com pensadores europeus e norte-americanos, no caso de brasileiros e hispano-americanos esse reconhecimento não esteve, muitas vezes, tão evidenciado. De um modo geral, as referências a autores latino-americanos aparecem, na obra de Freyre, de maneira secundária, em notas de rodapé, como é o caso de Fernando Ortiz. Pode-se supor que Freyre admitisse mais facilmente reconhecer suas dívidas intelectuais com autores dos países centrais, mas que pretendia destacar-se entre os seus pares do Brasil e da América Hispânica como criador de um pensamento próprio e sem "precursores" ou "concorrentes" na América Latina. Sabemos que muitas das concepções de Freyre − como, por exemplo, o elogio aos trópicos e à mestiçagem − já haviam sido desenvolvidas de diferentes maneiras por autores brasileiros e hispano-americanos que escreveram e publicaram antes de Freyre, particularmente na

década de 1920.26

A análise de Maria Lúcia Pallares-Burke, nesse sentido, reforça a perspectiva de que a recepção das ideias sempre ocorre no sentido do "centro" rumo à "periferia". Ainda que a recepção, por parte de Freyre, de inúmeras ideias e concepções de pensadores europeus e norte-americanos seja inegável, a análise da autora − ao destacar, de maneira tão flagrante, as referências britânicas na obra de Freyre, a ponto de intitular seu livro Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos − pode ofuscar, como parece que o próprio Freyre pretendeu fazer, suas dívidas intelectuais com autores brasileiros e hispano-americanos. Freyre, ao longo de sua trajetória, pretendeu realçar a importância e o ineditismo de suas ideias e de sua própria obra não só no Brasil e na América Hispânica como nos grandes centros intelectuais e universitários europeus e norte-americanos, e, para isso, buscou construir uma imagem de sua própria produção intelectual como original e divisora de águas, o que, de fato, em muitos aspectos, foi. Mas, com esse objetivo, reservou a muitos de seus pares brasileiros e hispano-americanos um lugar, de certa

forma, secundário em sua obra.27 Vale registrar também que, além das referências intelectuais, muitas das ideias freyrianas, como ele próprio admitia, tiveram inspiração em sua experiência pessoal, em

suas viagens e em seus trabalhos de campo.28

Sobre o iberismo, é possível constatar, também, que Freyre foi alargando determinadas concepções elaboradas em Casa-grande & senzala para espaços cada vez mais amplos. Certas características por ele atribuídas à colonização portuguesa do Brasil − a adaptabilidade dos portugueses aos trópicos, a "plasticidade" dos colonizadores lusos, a tendência à harmonização das diferenças, o "tratamento fraterno" em relação às populações não europeias etc. − foram posteriormente vinculadas a todo o Império Português e, mais tarde, à colonização espanhola na América e na Ásia. As generalizações e mistificações − já fartamente apontadas por muitos críticos nas análises de Freyre sobre a formação sociocultural da América Portuguesa − foram, em escritos posteriores, ampliadas. Nos livros O mundo que o português criou, Aventura e rotina, Um brasileiro em terras portuguesas e O luso e o trópico, Freyre reiterou ideias elaboradas desde Casa-grande & senzala sobre a maleabilidade portuguesa e sua tendência à mestiçagem e à transculturação, e ampliou essas concepções para a colonização portuguesa na África e na Ásia. Em uma análise crítica de Aventura e rotina, Mailhe (p.341, tradução nossa) sintetiza:

[…] Freyre não abandona a atitude de um turista ávido de

exotismos, sobretudo porque percebe do "outro" o que espera

encontrar para confirmar a sua tese: as marcas que "provam" a

unidade cultural lusotropical por cima de qualquer

especificidade e diferença.

A ideia freyriana de um mundo lusotropical favorável à mestiçagem e à "harmonização dos antagonismos" foi ampliada, em O brasileiro entre outros hispanos, para todas as regiões e países que anteriormente compunham os impérios Português e Espanhol na América, na África e na Ásia. Vale mencionar que o livro foi publicado em outubro de 1975, apenas um ano e meio depois do movimento que ficou conhecido como Revolução dos Cravos, que pôs fim ao regime salazarista/marcelista em Portugal e foi fundamental no processo de descolonização da África portuguesa.

Gilberto Freyre foi autor de uma vasta obra, construída, em geral, em torno dos mesmos temas e com as mesmas preocupações e questões centrais. Mas, apesar de reiteradamente insistir nas mesmas ideias, Freyre, como constata Skidmore (2003) − e muitos outros ensaístas e críticos –, fez afirmações discutíveis sem o devido cuidado com a argumentação comprobatória. Segundo Skidmore (idem, p.55-7):

Ao ignorar as regras do debate acadêmico normal, ele permitiu-

se escolher entre argumentos sem precisar defender suas

escolhas. [...] Além de seu uso inconsequente de evidências

científicas, Freyre tem o hábito de afirmar como dados

argumentos para os quais as provas citadas são fracas ou

inexistentes. [...] Casa-grande foi escrito − e recebido − mais

como manifesto do que como um trabalho acadêmico bem

argumentado. [...] Freyre projetou uma exuberância e um

otimismo que cativavam o leitor. Ele também era capaz de

desafiar o leitor com generalizações chocantes [...]. Não

obstante a prodigiosa pesquisa feita para a obra, Casa-grande

parecia um livro de recortes, não um livro culto. A recusa de

Freyre em seguir o formato acadêmico normal, na realidade,

aumentou a sua acessibilidade ao leitor. Este resultado não foi

por acidente. Foi o resultado direto da determinação ferrenha

de Freyre de ser (e ser tratado como) um escritor, não um

catedrático.

A afirmação de Skidmore de que "Casa-grande foi escrito mais como manifesto do que como um trabalho acadêmico bem argumentado" pode ser aplicada a muitos textos posteriores de Freyre, sendo que, em grande parte dos casos, ainda com mais propriedade. Sua obra está permeada por generalizações, essencialismos, culturalismos, impressionismos etc., ou seja, por afirmações, considerações e análises construídas quase que tão somente por "intuição" do autor, algo que Freyre não escondia, pelo contrário, valorizava em sua própria obra. Souza (2003, p.67), por sua vez, ao tratar da obra de Freyre, afirma que a "polissemia serve pouco à ciência e muito à ideologia".

Freyre construiu sua obra a partir de referências múltiplas, eruditas e diversificadas, como já salientado. Para ele, as ideias estavam nos autores para serem apropriadas, modificadas ou ignoradas, de acordo com as conveniências e interesses de sua própria análise. Freyre não estava preocupado com o fato de utilizar ideias originadas da leitura de autores de filiações teóricas e metodológicas as mais díspares. O que interessava a ele era se essas ideias poderiam auxiliá-lo na narrativa, na exposição e na argumentação de seu próprio pensamento. Usou e abusou das leituras que fez. Como ele mesmo afirmou, em sua obra "entrara ‘leite de muitas vacas’; mas [...] o queijo era de seu fabrico: criação sua" (Freyre, 2005, p.39).

A preocupação freyriana em relação às "ideias fora do lugar" estava relacionada à sua recusa das concepções liberais, democrático-

liberais e marxistas.29 Seu anti-individualismo, sua rejeição à conveniência da adoção de concepções liberais ou marxistas no Brasil − assim como na América Ibérica −, sua negação dos princípios da democracia política − soberania popular, sufrágio universal, cidadania −, fizeram com que sua obra e sua trajetória se encaminhassem decididamente para o conservadorismo e para concepções políticas de direita. Ele próprio reconhecia ser um "conservador", embora não admitisse ser chamado de

"reacionário".30

Para Freyre, estavam "no lugar", na América Latina, concepções como: tropicalismo; iberismo; hispanismo; lusotropicalismo; hispanotropicalismo; transculturação; raízes culturais, mescladas, ibéricas, africanas, islâmicas e indoamericanas; tradições; mestiçagem etc. E "fora do lugar": liberalismo; individualismo; puritanismo; calvinismo; capitalismo acelerado; modernidade industrial; marxismo, entre outras.

Souza (2003), em texto já citado, chama a atenção para uma questão fundamental no pensamento de Freyre: a percepção de que aquele Brasil de Casa-grande & senzala tinha sido "ferido de morte" com a modernização que teve início no século XIX, vinculada à implementação do Estado racional e do mercado capitalista. Esse processo de modernização tinha abalado radical e paulatinamente as estruturas e relações sociais tradicionais, tão estimadas por Freyre. E o ensaísta pernambucano percebeu claramente essas mudanças na sociedade brasileira e dedicou-se a tentar barrar ou, ao menos, retardar o processo de modernização. Como afirma Souza (idem), a implantação do Estado racional e do mercado capitalista não era artificial, para inglês ver, não estava "fora do lugar", era algo concreto. Esse processo não implicava, entretanto, apenas transformações nas esferas política e econômica, mas alterações nas percepções e valores culturais. Segundo Souza (idem, p.75):

Aqui não se trata da inautenticidade da nossa modernidade

lembrada por vários críticos, mas precisamente o fenômeno

contrário. [...] A ansiedade de ser moderno, a grande vontade

galvanizadora nacional desde o começo da reeuropeização até

hoje, nos impede que sejamos modernos ao nosso modo e até,

no limite, que nos reconheçamos enquanto tais.

Esse processo de modernização possibilitou, também, a ascensão de grupos intermediários, estimulados por perspectivas individualistas e valorativas do trabalho e do engenho pessoal. Ou seja, Freyre percebeu as mudanças fundamentais que alteravam, aos poucos, os valores dominantes na sociedade brasileira e que significavam, a médio e longo prazo, o desprestígio das oligarquias latifundistas, que passavam a ser consideradas como "classes ociosas" e usurpadoras da riqueza nacional. Sendo assim, Freyre assumiu a difícil tarefa de preservar as tradições e valores dessa sociedade patriarcal em crise.

Vale registrar, finalmente, que as referências britânicas de Freyre estavam, igualmente, eivadas pela tradição, que ele tanto cultivou em sua experiência em Oxford. Registre-se que, em 1971, a Rainha Elizabeth II conferiu a Gilberto Freyre o título de Sir, "Cavaleiro

Comandante do Império Britânico". 31

 

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1 Doutora e docente da UFMG, é autora de A questão nacional em Porto Rico – O Partido Nacionalista (1922-1954), São Paulo: Annablume, 1998 e coautora de A rebelião de Tupac Amaru. São Paulo: Brasiliense, 1987.

2 Entre as obras de Gilberto Freyre em que esses temas aparecem de maneira mais explícita, ver Freyre (1975; 1941b). Sobre o iberismo e hispanismo na obra de Freyre, ver Bastos (2003) e Crespo (2003, p.181-204).

3 Como se sabe, há uma extensa bibliografia sobre a obra de Gilberto Freyre. Optei por citar aqui apenas os autores que me auxiliaram mais diretamente na feitura deste texto. Além dos trabalhos já referidos na nota anterior, ver Ribeiro (2000, p.11-42) (este texto de Darcy Ribeiro foi publicado como prólogo à edição de Casa-grande & senzala pela Biblioteca Ayacucho, Caracas, Venezuela, 1977; na 1ª edição brasileira do livro, o subtítulo aparece como: "Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal"), Araújo (2005), os ensaios reunidos em Kosminsky et al. (2003), Pallares-Burke (2005, p.39-41), Nicollazzi (2006, p.240-65) e Mailhe (2008, p.331-55). Entre as obras recentes publicadas sobre Freyre, também merece destaque Larreta & Giucci (2007).

4 Freyre relatou a viagem em livro cujos título e subtítulo são reveladores: Freyre (2001). Para uma perspectiva crítica sobre a viagem de Freyre e seu livro Aventura e rotina, ver Mailhe (2008; 2006).

5 Gilberto Freyre integrou o Conselho Federal de Cultura, a convite do presidente Emílio Garrastazu Médici e do ministro da Educação Jarbas Passarinho, durante o período mais repressivo do regime militar brasileiro. Além disso, "por decisão do presidente Médici", foi reconduzido ao Conselho Diretor do Instituto Joaquim Nabuco. Ver "Nota da Editora". In: FREYRE, G. O brasileiro entre os outros hispanos. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: INLMEC, 1975, p.17.

6 Ver Costa Lima (2003, p.9-13) e Skidmore (2003, p.41-64).

7 Ángel Ganivet pode ser considerado um antecessor da geração de 1898, já que se suicidou em novembro desse mesmo ano, aos 33 anos.

8 Livros e textos de vários desses autores podem ser encontrados na biblioteca de Gilberto Freyre. Ver Bastos (2003, p.36).

9 Na América Latina, o pensamento de José Ortega y Gasset difundiu-se com muita força desde a década de 1920. Ortega y Gasset esteve por três vezes na Argentina, ocasiões em que divulgou suas ideias a partir do país platino: de 1916 a 1917, de 1928 a 1929 e, pela terceira vez, de 1939 a 1942 (coincidindo com o período em que Freyre esteve no país vizinho). Nos anos 1940 e 1950, pensadores espanhóis exilados no México, como José Gaos, além de intelectuais mexicanos, como Samuel Ramos e Leopoldo Zea, entre outros, também contribuíram significativamente para incrementar a disseminação das ideias orteguianas pelo continente.

10 O "tempo tríbio", segundo Freyre, seria uma "singularidade no sentido hispânico de tempo", em que "presente, passado e futuro" seriam "aspectos de uma mesma fluência de vida" e não poderiam ser arbitrariamente separados. Ou seja, não se poderia romper com o passado e com as tradições. Cf. Freyre (1975, p.47).

11 As considerações aqui desenvolvidas sobre as leituras freyrianas dos filósofos e escritores espanhóis são devedoras das análises de Bastos (2003) e Crespo (2003, p.181-204).

12 Freyre (1942). No ano seguinte, também na Argentina, foi publicado outro clássico do autor: Nordeste: aspectos de la influencia de la caña sobre la vida y el paisaje del nordeste del Brasil. Buenos Aires: Espasa Calpe, 1943, 237p. (tradução de Cayetano Romano), além de uma segunda edição de Casa-Grande y Senzala, publicada em Buenos Aires, por Emecé Editores, na Colección Grandes Ensayistas, dirigida por Eduardo Mallea, em dois volumes.

13 Recentemente, foi publicada uma antologia com textos de Freyre sobre a América Latina, já citada: Freyre (2003c). Nessa obra estão reunidos os textos escritos por Freyre durante a viagem ao Uruguai, à Argentina e ao Paraguai (1941-1942); uma entrevista de Freyre sobre a viagem, concedida ao jornal carioca A Manhã e publicada em 01.03.1942; artigos sobre temas latinoamericanos escritos entre 1942 e 1948, posteriormente à viagem; um breve texto sobre Alfonso Reyes, publicado em 1961 na revista O Cruzeiro; além do ensaio, publicado pela primeira vez em 1963, na revista Diogène, de Paris, que abre e empresta seu título ao livro: "Americanidade e latinidade da América Latina: crescente interpenetração e decrescente segregação".

14 Na coletânea encontra-se, também, um artigo de Freyre em que elogia o trabalho do tradutor de Casa-grande & senzala para o espanhol, Benjamín de Garay, como promotor da cultura brasileira na Argentina e na América Hispânica, além de uma resenha do livro de Ricardo Sáenz Hayes, El Brasil moderno, publicado em Buenos Aires pelo Instituto Americano de Investigaciones Sociales y Económicas, em 1942. No texto de Freyre sobre o livro de Sáenz Hayes, o autor brasileiro destacou a percepção do argentino de que o Brasil vinha se modernizando, principalmente as suas cidades mais importantes, Rio de Janeiro e São Paulo, mas não deixou de aproveitar a oportunidade para reafirmar suas próprias interpretações sobre a formação sociocultural brasileira. Saliente-se que Ricardo Sáenz Hayes foi o autor do cuidadoso prefácio às duas edições argentinas de Casa-grande & senzala, já mencionadas. Em seu prefácio, também incluído na coletânea, o intelectual argentino situa Casa-grande & senzala no pensamento brasileiro, destacando o "alcance sociológico e antropológico" da obra, particularmente no que se refere ao reconhecimento e à valorização da mestiçagem, e percebe que, na interpretação de Freyre, ressalta a "sobrevivência do velho regime no novo, uma notória reminiscência de Tocqueville". Cf.: Freyre (2003c), p.103-5 ("O velho Garay"); p.107-13 ("Um argentino escreve sobre o Brasil"); p.139-66 ("Gilberto Freyre e a formação social brasileira", por Ricardo Sáenz Hayes).

15 Cf. Larreta & Giucci (2003, p.9-10).

16 Freyre (2003c, p.35-46) (trechos citados às páginas 41, 42 e 44). Uma versão ampliada dessa conferência foi incorporada, posteriormente, ao livro Problemas brasileiros de antropologia, publicado em 1943.

17 Essas visões pejorativas sobre o Paraguai aparecem, entre outros textos, em relatos de viajantes brasileiros que percorreram o país hispano-guarani. Cf.: Amaral (1927). Sobre o livro de Luiz Amaral, ver Baggio (2008, p.425-45).

18 Ver Dario (1898), Rodó (1991) e Morse (1988).

19 Sobre a "geração de 1898" na Espanha e a virada à direita da maioria dos intelectuais espanhóis identificados com essa geração, ver Capelato (2003, p.35-58).

20 Federico de Onís (Salamanca, 1885 – San Juan de Puerto Rico, 1966) foi um dos principais representantes e difusores do hispanismo nos Estados Unidos, onde viveu de 1916 a 1954, ano em que se trasladou à ilha caribenha de Porto Rico, onde continuou sua carreira acadêmica na Universidad de Puerto Rico.

21 Cf. Onís (1934).

22 Apesar de referir-se à transculturação como uma característica positiva das relações culturais na América Latina e em outros territórios ibéricos, Freyre não menciona, em O brasileiro entre os outros hispanos, o etnólogo, antropólogo e sociólogo cubano Fernando Ortiz, elaborador do conceito de transculturação e que tantos interesses em comum tinha com Freyre. É fato, entretanto, que Ortiz foi citado em outras obras de Freyre, como Casa-grande & senzala e Como e por que sou e não sou sociólogo, ainda que, no clássico de 1933, em notas de rodapé.

23 Freyre faz uma breve menção ao ensaio Buenos Aires, vida cotidiana y alienación (1964), de Sebreli, a quem chama de "pós-marxista argentino". Cf. Freyre (1975, p.107).

24 Com Alfonso Reyes, Freyre estabeleceu laços de amizade durante os anos em que o intelectual e diplomata mexicano assumiu a embaixada de seu país no Brasil (1930-1936).

25 A rápida menção de Freyre a Mariátegui contém elogios à sua proposição de um projeto socialista adequado à realidade peruana, mas é permeada pelas interpretações freyrianas e, muito provavelmente, por um conhecimento bastante superficial das concepções do socialista peruano. Assim afirma Freyre: "esse senso ecológico ou tropicalmente político, capaz de repelir europeísmos marxistas para procurar desenvolver soluções situacionais de problemas de governo e de organizações socioeconômicas, já madrugara tanto em notável pensador peruano Mariátegui do começo deste século [...]". Ver Freyre (1975, p.79) (citado conforme a redação original).

26 Entre outras referências, é possível citar o famoso ensaio do mexicano José Vasconcelos, La raza cósmica, publicado originalmente em 1925, que, como se sabe, tece elogios explícitos à mestiçagem étnica e cultural dos trópicos, inspirado, inclusive, no caso brasileiro. Ver Vasconcelos (1948) e Crespo (2003, p.181-204).

27 Agradeço a Alejandra Mailhe pela leitura cuidadosa e pelos comentários feitos a este texto, que me auxiliaram a pensar determinados pontos aqui desenvolvidos, particularmente as questões abordadas nos últimos parágrafos.

28 Sobre a importância, em Freyre, para a produção de sua obra, da viagem como experiência, como pesquisa etnográfica, como "reeducação do olhar", além da própria relevância dos relatos de viagem como fontes para o historiador, ver Nicolazzi (2006, p.240-65).

29 Sobre o debate acerca das "ideias fora do lugar" e "ideias no lugar", ver Schwarz (2000, p.9-31) e Franco (1976, p.59-64).

30 Ver Bastos (2003, p.52).

31 Cf. N. da E. Dados biobibliográficos do autor. In: Freire (1975, p.17) e A vida: cronologia. In: Biblioteca Virtual Gilberto Freyre. Fundação Gilberto Freyre. Recife, PE. Disponível em:

<http://prossiga.bvgf.fgf.org.br/portugues/ vida/cronologia.html>. Acesso em: jun. 2009.