Política e identidade cultural na América Latina

José Luís Bendicho Beired · Capítulo 5 de 12

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Política e identidade cultural na América Latina

4 O Movimento Nacionalista Tacuara e suas ramificações: uma análise de suas representações figurativas

4 O Movimento Nacionalista Tacuara e

suas ramificações: uma análise de

suas representações figurativas

 

María Valéria Galván 1

O presente trabalho é uma breve análise do imaginário social do Movimiento Nacionalista Tacuara (MNT) e das agrupações que dele se originaram na década de 1960. Tais grupos surgiram durante o processo de instabilidade política que começou na Argentina com a queda do presidente Juan Domingo Perón após o golpe de 1955, e desapareceram com o início do terrorismo estatal, em 1976. O nome genérico Tacuara refere-se a um conjunto de agrupamentos formados por jovens católicos e nacionalistas de direita. Esse grupo surgiu das reuniões de vários ex-militantes da Unión Nacionalista de Estudiantes Secundarios (Unes) e da Alianza Libertadora Nacionalista (ALN), que decidiram formar um agrupamento político adotando o nome que havia pertencido a uma publicação da antiga Unes, pois era o que melhor representava suas influências

revisionistas. 2 Desse modo, o MNT iniciaria sua militância defendendo as posições do ensino católico durante os conflitos gerados por uma lei do presidente Arturo Frondizi, a qual concedia o status de universidade a instituições privadas.

Mais tarde, com o ingresso de militantes simpatizantes peronistas no MNT e com a declarada intenção da direção do movimento de aproximar-se do peronismo para cooptar as bases sociais deste, a frágil trama ideológica de características direitistas, antissemitas e nacionalistas que sustentava suas práticas iria se dissolvendo ao ritmo dos acontecimentos políticos da tumultuada década de 1970. Assim, surgem, em 1960, a Guardia Restauradora Nacionalista, em 1961, o Movimiento Nueva Argentina, e, em 1963, o Movimiento Nacionalista Revolucionário Tacuara (MNTR).

A primeira dessas cisões deveu-se a uma radicalização das tendências direitistas e antissemitas de um setor seguidor do primeiro mentor do MNT, o sacerdote integrista Julio Meinvielle. O segundo grupo foi assimilado pelo sindicalismo peronista, depois das tentativas fracassadas do MNT de nele se infiltrar. Por fim, o MNRT separou-se do MNT devido a conflitos de poder no interior do grupo original e a dissidências ideológicas originadas pelas influências do peronismo de esquerda e da Revolução Cubana. Apesar das diferenças entre os grupos, a opinião pública da época assimilava todos sob um nome que os englobava: Tacuara.

De qualquer maneira, as diferenças entre o MNT, a GRN e o MNRT não chegaram a obscurecer os muitos pontos de contato entre eles. É principalmente por meio de suas próprias produções discursivas que se podem rastrear traços em comum entre os agrupamentos, tanto nos aspectos ideológicos e pragmáticos como nos identitários. Nesse sentido, este trabalho vale-se do conceito de discursos sociais ou configurações espaço-temporais de sentido (Verón, 1996) para analisar, com o auxílio do método iconológico de Warburg e

Panofsky, 3 as representações figurativas dos agrupamentos Tacuara presentes em suas revistas, Ofensiva do MNT (1962), Tacuara. Vocero de la revolución nacionalista (1964) e Barricada (1963), do

MNRT, e 4 Mazorca(1966, 1968 e 1969), da GRN. Comparativamente, também é analisado um jornal da Unes: Tacuara. Vocero oficial de la UNES (1945 e 1946).

 

Principais diferenças e semelhanças entre as

publicações

A distância temporal entre as publicações e suas diversas origens explica, em geral, algumas diferenças de estilo e de temáticas e a variedade dos motivos iconográficos utilizados, particularmente nas folhas de rosto. As figuras de águias ou condores das capas da Ofensiva, assim como os motivos da cruz-de-malta, a espada e a ausência de perspectiva, remetem às influências da heráldica, dos fascismos europeus e do catolicismo. Apesar de nos primeiros anos a bagagem ideológica dos jovens membros do MNT não ter sido homogênea, houve casos de verdadeiros fanáticos do nazismo alemão e do fascismo italiano. A capa de Barricada, publicação do MNRT, sugere o caráter crítico e revolucionário desse agrupamento, tanto no estilo do desenho, que teria sido copiado do artista plástico argentino Ricardo Carpani, como no motivo do punho fechado. Também se percebe nessa figura um marcante contraste entre o projeto bem austero e moderno da parte do texto e a expressividade da imagem do logotipo. Desde sua separação do MNT original, em 1963, essa organização já havia deixado de lado as palavras de ordem e os motivos antissemitas, anticomunistas e fascistas, nostálgicos da velha ordem. Por outro lado, Mazorca, órgão de difusão da Guarda Restauradora Nacionalista, separada precocemente do MNT (1960), explicitou seu caráter ultraconservador e revisionista por meio da marcante recorrência de motivos e lemas criollistas, revisionistas, fascistas, anticomunistas e antissemitas não observados em outras publicações do MNT ou do MNRT. O contraponto desses parâmetros, por sua vez, esclarece as diferenças programáticas, ideológicas e identitárias de cada um desses grupos.

Nesse sentido, apesar de a imagem ser, em geral, relegada aos logotipos das folhas de rosto, nelas se condensavam elementos identitários e ideológicos muito recorrentes. Essas influências remetiam, em muitos desses casos, ao falangismo espanhol e ao nazismo. Entretanto, em relação a esses movimentos, o uso da imagem para o Tacuara caracterizou-se por ser menos sofisticado, mais intuitivo e com pouco rigor artístico. Tais atitudes mostram que, apesar de um destacado amadorismo no manejo das imagens, havia uma preocupação geral em aproveitar sua imediatez e capacidade de comunicação.

Por outro lado, as ilustrações desses órgãos de difusão reconhecem filiações diretas com o estilo da historieta e da ilustração das décadas de 1950 e 1970 na Argentina. A chamativa recorrência do estilo da historieta na iconografia justifica a homogeneidade e juventude dos membros dos agrupamentos, influenciados pelo comic, a literatura de aventuras, e uma particular admiração pelas figuras heroicas. Isto é particularmente notório em Mazorca e Tacuara, da Unes, nas quais os traços e o uso das sombras e das linhas guardam certa semelhança com os desenhos do comic argentino de 1950 a 1960. A opção por esse estilo e por esse tipo de suporte genérico nas publicações do Tacuara poderia ser explicada pela juventude de seus membros, por sua escassa disponibilidade de recursos técnicos ou por sua admiração quase infantil pelas "figuras heroicas".

Os militantes do MNT eram formados por valores que os predispunham a ser protagonistas e condutores de um processo revolucionário. Essa formação era inculcada basicamente por meio de exemplos heroicos junto a um profundo misticismo católico que preparava os "futuros heróis" para dar a vida por uma causa superior (Orlandini, 2008, p.195-6). A heroicidade é o elemento central das histórias em quadrinhos. Na verdade, como recorda Roberto Bardini (2002) (ex-militante tacuarista) em seu livro, a infância e a adolescência precoce de muitos deles foram marcadas tanto pela leitura das histórias de aventura relatadas por Joseph Conrad, Emilio Salgari e Jack London como pelas revistas que marcaram o auge da criatividade e da difusão das revistas em

quadrinhos argentinas: 5 Misterix , Hora Cero e Frontera .

Por outro lado, os textos que acompanham essas ilustrações apresentam, em geral, um enunciador objetivo e pedagógico, cuja distância em relação ao leitor estreita-se diante dos apelos a uma "sensibilidade nacionalista" comum. Além disso, as diferenças entre as publicações dificilmente são rastreadas no plano da enunciação, tanto dos títulos como dos corpos de texto.

 

Capas

Ofensiva, Tacuara (Unes), Tacuara (MNT), Barricada e Mazorca apresentam a águia, o condor, a cruz, a espada, a cruz-de-malta e a

lança feita de bambu – material também conhecido como taquara 6 –

em suas capas e contracapas. As capas de Ofensiva (Figuras 1 e 2) apresentam quatro desses elementos. Em uma delas, uma águia bicolor, com três cruzes-de-malta no peito, encontra-se de frente e com as asas abertas, segurando uma corrente entre suas patas. A seu lado podem-se observar as letras do movimento, "MNT", atravessadas por uma cruz e uma espada, e, por cima da composição, o nome da publicação em letras góticas. Outra capa apresenta uma águia (ou condor) que sobrevoa um globo terrestre, em cujo horizonte levanta-se a cruz-de-malta no lugar do sol nascente. Aqui as letras do MNT encontram-se do mesmo lado, mas a espada e a cruz já não as atravessam e são colocadas no lado oposto. Do mesmo modo, podem-se ver os logotipos das

publicações Tacuara, voz oficial da Unes (Figura 3), Tacuara, voz da

Revolução Nacionalista (Figuras 4 e 5) e Barricada (Figura 6), cujas letras são formadas por lanças feitas de bambu. Em uma delas, as lanças encontram-se coroadas por um livro e, sobre ele, uma tocha, enquanto na seguinte, a lança é segurada por um rude punho fechado. Por fim, as folhas de rosto e as contracapas de Mazorca recuperam, mais tardiamente, a importância da cruz-de-malta e do condor, que já substitui com total convicção a figura da águia

(Figuras 7, 8 e 9).

 

Figura 1 – Ofensiva MNT, 1962, capa (Arquivo Cedinci)

Figura 2 – Ofensiva MNT, 1962, capa (Arquivo Cedinci)

 

Figura 3 – Tacuara UNES, 1945, capa (Arquivo Cedinci)

 

Figura 4 – Tacuara MNT, 1964, capa (Arquivo Cedinci)

Figura 5 – Tacuara MNT, 1962(?), n.8, capa (Arquivo Cedinci)

 

Figura 6 – Barricada MNRT, 1963, n.4, capa (Arquivo Cedinci)

 

Figura 7 – Mazorca, 1966, n.2, contracapa (doação)

Figura 8 – Mazorca, 1969, n.12, capa (doação)

 

Figura 9 – Mazorca, 1968, n.13, capa (doação)

Considerando o nível iconográfico da análise dessas figuras, é possível afirmar que existe uma relação entre a águia e o emblema do antigo Sacro Império Romano-Germânico (tão explorados pela propaganda nazista) com o escudo franquista. A ave foi substituída depois pela figura de outra, o condor, que sintetiza o caráter local com as qualidades da águia. Por outro lado, o estilo gótico das letras "MNT", no qual está escrito o nome da revista Ofensiva nas primeiras figuras, remete o espectador (assim como a ausência de

perspectiva da águia na Figura 1) ao mundo medieval – e com isso ao predomínio do cristianismo, da sociedade hierárquica, dos valores guerreiros –, mas também à tipografia gótica usada pelo nazismo.

Do mesmo modo, a espada e a cruz remetem ao mundo medieval hispânico – que sugere as ideias de ordem e harmonia social –, embora também representem o espírito dos nacionalistas argentinos de 1930 que esses grupos pretendiam continuar. A cruz-demalta é uma referência explícita à ordem dos cavaleiros cruzados de Malta, e as lanças que formavam a palavra "Tacuara" remetem às lanças utilizadas pelos exércitos federalistas, conhecidos como "montoneras", do século XIX.

Enquanto o livro e o punho são dois objetos figurativos que indicam outro dos componentes identitários dos grupos Unes e MNT (estudantes e lutadores, respectivamente), os raios que a chama

lança sobre o livro (Figura 3) encontram-se dispostos de tal modo que se assemelham às cinco flechas unidas pela lança no emblema

da Falange espanhola (Figura 10). Além disso, em Estudio y Lucha, outra publicação da Unes, o logotipo situado na parte superior da capa apresenta uma composição com três lanças tacuara dispostas

da mesma forma (Figura 11). Reminiscências desse logotipo também podem ser identificadas em edições tardias de Mazorca e

Barricada (Figuras 12 e 13).

 

Figura 10 – Emblema da Falange espanhola

 

Figura 11 – Logotipo de Estudio y Lucha

Figura 12 – Mazorca, 1966, capa (doação) n.7, capa

 

 

Figura 13 – Barricada, 1964, 1964, n.7, capa (Arquivo Cedinci)

É de interesse para esta análise o fato de que todas essas composições, ao se encontrarem sistematicamente na capa dos números de Ofensiva, Tacuara (MNRT), Mazorca e Barricada, eram uma espécie de "carta de apresentação" do grupo. Desse modo, por meio do uso dessas imagens, buscava-se sintetizar a identidade do grupo e o caráter da publicação. Assim eram reconhecidas explicitamente filiações e simpatias que muitas vezes não eram percebidas com tanta clareza na análise de seus textos: falangismo, nazismo, nacionalismo, catolicismo militante e revisionismo.

Por outro lado, a recorrência de alguns temas, motivos e constantes iconográficas nessas publicações permitem observar a predominância comum da temática criollista. Predominância do criollismo

Segundo afirma Juan Esteban Orlandini (2008) em seu livro Tacuara, a lança que em geral acompanhava a figura do gaúcho foi utilizada pela primeira vez como motivo principal na Tacuara da

Unes (Figura 3) na década de 1940. Presente na capa anteriormente analisada, teria representado a rebeldia e a luta do povo oprimido. Como afirma esse autor, o MNT teria ecoado essa tradição, adotando o símbolo da taquara para representar seu ideal do "povo armado na luta por sua liberdade". Entretanto, a adoção do imaginário gauchesco em geral e da figura do gaúcho em si – que, a propósito, foram os elementos em comum mais recorrentes nas publicações dos diversos agrupamentos derivados da velha Unes – teve também outras implicações.

A influência do revisionismo histórico nas publicações analisadas é notória. Essa corrente, que – como afirma Halperin Donghi – surgiu no início do século XX como um projeto ao mesmo tempo historiográfico e político, inspirou-se principalmente na crítica à democratização política e ao modo de inserção do país no mundo, para o qual buscou o apoio da história. A corrente revisionista argentina pode se dividir em várias fases, mas um elemento nelas recorrente é a nostalgia da época de Rosas, vista como o "paraíso

perdido". 7

Nesse sentido, os integrantes do Tacuara identificavam-se com os discursos e ideais desse revisionismo e aderiam, particularmente, à identificação entre Rosas e Perón. Assim, suas práticas e discursos

empenhavam-se em destacar sua oposição à fé sarmientiana 8 na civilização e no liberalismo da história oficial argentina.

O imaginário revisionista adotado por esses agrupamentos caracterizou-se pela centralidade da figura de um gaúcho heroico que, representando o povo armado, se opunha radicalmente ao gaúcho despojado de qualquer atributo épico descrito por Sarmiento. Do mesmo modo, é recuperado e recebe um novo significado o conceito de "barbárie" (Marty, 1996), que Tacuara reivindicava em oposição ao de "civilização", que teria um caráter europeizante. Com isso, por sua vez, o agrupamento dava um novo significado à data de 11 de setembro – aniversário da morte de Domingo Faustino Sarmiento –, agora por eles denominada como Dia da Barbárie em homenagem ao caudilho riojano Facundo

Quiroga. 9 Nesse sentido, eram usuais os agravos a bustos de Sarmiento, a quem viam como o pai dos ideais liberais de progresso

e civilização,10 assim como também os agravos contra outros símbolos liberais, como, por exemplo, representações diplomáticas

do Reino Unido. 11 Outras datas importantes para o agrupamento

foram o dia 20 de novembro, Dia da Soberania Nacional,12 e o dia 20 de junho, Dia da Bandeira, quando se realizavam atos comemorativos e desfiles nos quais não faltavam a exibição de cruzes, aclamações, uniformes, a distribuição de panfletos e a

saudação romana. 13

Entretanto, a assimilação do imaginário criollista da figura do gaúcho apresentada pelo MNT, pela GRN e pelo MNRT e sua referência ao popular é anterior às correntes revisionistas. Em 1870, diante da preocupação pela "presença estrangeira" no país, tentou-se, a partir do poder político, recorrer a festas e monumentos pátrios para obrigar o nascimento de um culto à pátria então considerado insuficiente (Cattaruzza, 2003b). Posteriormente, teve grande sucesso a publicação do poema El gaucho Martin Fierro. Em 1880 foi publicado Juan Moreira, a história de um gaúcho levado ao crime pelas circunstâncias de sua situação. Aos olhos do povo, Juan Moreira converteu-se em um herói rebelde que luta contra as injustiças e os excessos do poder político (ibidem). Nesse período, "na produção dos grupos ilustrados [...] os elementos criollistas se encontravam expurgados ou eram convertidos em motivo de escárnio" (idem, p.227). Não obstante, a relação com a figura controvertida foi mudando de rumo no correr do tempo. Assim, no início do séc. XX,

no clima do Centenário, foram alguns homens de letras que

resgataram Martin Fierro como poema nacional, com

argumentos [...] que deslocavam o foco de atenção de uma

questão de conteúdo – a rebeldia frente às injustiças – para

uma vinculada à forma – a originalidade de um idioma e de um

gênero nativo. Paulatinamente, foram caindo no esquecimento

alguns dos aspectos do poema que, na sua época, haviam sido

considerados os mais perigosos para a ordem social. Estas

transformações foram uma das condições de possibilidade para

que, no final dos anos trinta, o Estado reconhecesse

tardiamente aquela inclinação popular para o criollismo. (idem,

p.260)

A direita – política e cultural – da década de 1940 também retomou a figura com novo significado do gaúcho e, para servir ao seu projeto ideológico, caracterizou-a como vítima da usura judia, do imperialismo inglês e do catolicismo (idem). Dessa maneira, tanto a partir desses setores como do Estado recuperou-se uma imagem do gaúcho completamente alheia ao criollismo.

Segundo a análise de Gené (2005), durante os anos do primeiro peronismo as iconografias do gaúcho identificaram-se com a figura do "peão rural". As representações figurativas do gaúcho nesse período não diferem muito daquelas do período anterior. Por meio de imagens gráficas superpostas com as silhuetas de conquistadores espanhóis, de aborígenes ou da rainha Católica, procurava-se apresentá-lo como símbolo da tradição católico-hispânica e do "autóctone" nacional (idem). Entretanto, "o uso da figura do gaúcho não se limitou apenas àquelas ocasiões em que se devia expressar o vernáculo, a evocação das tradições autóctones, as raízes comuns. Os propagandistas do peronismo exploraram a fundo as possibilidades oferecidas pelo ‘símbolo da argentinidade’" (idem, p.114). Assim, por exemplo, nas imagens fílmicas e fotográficas foi apresentado um gaúcho mais associado à figura de

Perón como líder. 14

No Tacuara do MNT, em que se retoma a cana na folha de rosto, o gaúcho a cavalo volta a aparecer representando o povo guiado pela Pátria. Ele veste um traje de guerreiro antigo e traz o estandarte da

organização (Figura 14). As características da imagem da Pátria no Tacuara remetem aqui à Pathosformel da ninfa, segundo os estudos iconográficos de Aby Warburg.

 

Figura 14 – De(Arquivo talhe de Tacuara Cedinci) MNT

As Pathosformeln são definidas por José Emilio Burucúa (2006, p.12) como

um conglomerado de formas representativas e significantes,

historicamente determinado no momento da sua primeira

síntese, que reforça a compreensão do sentido do que está

representado mediante a indução de um campo afetivo em que

se desenvolvem as emoções precisas e bipolares que uma

cultura destaca como experiência básica da vida social.

Não são outra coisa senão fórmulas recorrentes nas manifestações culturais do Ocidente ao longo da história, capazes – graças à sua condição de "vetores de emoções" – de dar conta da trama secular da cultura ocidental. Por esse motivo, sua análise exige relacionar fenômenos figurativos distantes no tempo que representem uma

continuidade significativa. 15 Assim, a busca exaustiva da ninfa realizada por Warburg (2005) tem suas origens na Antiguidade. O reaparecimento da Pathosformel da ninfa, com seus movimentos graciosos e joviais e suas roupas e cabelos ondulantes, no Renascimento europeu, segundo analisa Warburg, representava a emergência de um novo sujeito histórico, o burguês, jovem e dinâmico, encarregado do comércio, responsável pelo florescimento das cidades e antecessor do esplendor da política, da ciência e das viagens transatlânticas. Ou seja, a ninfa representava o dinamismo próprio da ampliação das fronteiras físicas e mentais, que havia sido

em grande parte recuperado dos antigos (Burucúa, 2002). 16

A ninfa continuou, assim, seu caminho, e foi também protagonista da Revolução Francesa. Como relata Peter Burke (2005), com a Revolução Francesa foram realizadas muitas tentativas de traduzir para a linguagem visual os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Nesse contexto, a ninfa reencarnou na figura de Marianne, símbolo da República Francesa, cuja cabeça de série é a

mulher de A Liberdade guiando o povo, de Eugène Delacroix (Figura

15).

 

Figura 15 – La Liberté guidant le Peuple, de Eugène Delacroix, 1830

A tradição liberal predominante na Argentina no final do século XIX continuou essa série de personificações, encomendadas a essa Pathosformel com o Corpo de Marianne. A produção figurativa liberal na Argentina é vasta e nela se destaca a figura da República Argentina, construída a partir de elementos tomados da

personificação da Liberdade (por exemplo, o gorro frígio 17). Entretanto, no caso do Tacuara, a figura da República como mulher jovem e dinâmica recebe um novo significado: ela é construída a partir de elementos que se opõem claramente à tradição liberal. Assim, deixa-se de lado a figura central da "República" e esta é substituída pela da "Pátria", que é representada por uma mulher vestida com um traje de guerreiro antigo e com uma atitude desafiadora, própria do início de uma batalha. Levando em uma das mãos a espada de combate e, na outra, o estandarte do Tacuara, inicia a luta e auxilia, como um espectro protetor, um gaúcho guerrilheiro. Além disso, o texto que acompanha essa imagem poderosa afirma que

a velha do gorro frígio, filha da revolução francesa e senhora do

país desde Caseros, está nas últimas: caduca, e nossa pobre

Pátria, nascida para grandes destinos em constante frustração,

corcoveia para tirar de cima de si esta gorda caduca, que com

as rédeas na mão está fazendo com que ela faça loucas

piruetas. Porque isto que estamos presenciando, que são os

estertores de um regime decadente, a democracia liberal, de

instituições, homens, parlamentos e partidos de um regime de

sobreviventes, tem todas as características de um circo e de um

sainete.18

Aqui, a imagem e as afirmações revisionistas de texto coincidem e complementam-se, sem que uma seja descrição da outra e vice-versa: a figura da Pátria é representada por meio de uma mulher jovem, esbelta, forte e galharda (a ninfa), em contraposição aos elementos com os quais o texto caricaturiza a figura da República Argentina.

Esse paralelo entre as duas figuras femininas aparece também em Barricada, só que ali a figura da ninfa não está representada iconograficamente, mas o que está representado é "apresentado" de maneira explícita e, mais uma vez, acompanhado do seu oposto: "nossa juventude avança sobre as ruínas do regime caduco para plasmar a arquitetura revolucionária de uma nova Argentina, poderosa, imperial e comunitária" (Barricada, n.9, p.1). Neste exemplo, o que está condensado pela ninfa na figura anterior está dissolvido na ideia de uma juventude revolucionária, por um lado, e de uma Argentina utópica, a própria motivação da luta. Fica assim explicitada a dimensão transitiva da ninfa, enquanto sua dimensão

reflexiva permanece.19 Ou seja, a ninfa que desliza nas representações desses agrupamentos revela um movimento ágil, dinâmico e revolucionário que, com sua ação, procura apresentar uma imagem de Pátria, com a qual identifica-se e com a qual acredita compartilhar os mesmos atributos. Estes se opõem, por sua vez, a uma mulher envelhecida que, para eles, já perdeu sua jovialidade e seu dinamismo: a República liberal.

O atraente é que, apesar disso, a tradição liberal tão enfadonha e antagonizada por esses grupos está de alguma maneira presente (aparentemente de maneira imperceptível para o olho do Tacuara) na figura da Pátria, que assume uma forma humana e feminina graças ao auxílio da Pathosformel da ninfa. Seu contraste com a

obra de Delacroix (Figura 15) – imagem não só paradigmática da Revolução Francesa e do valor da liberdade, mas também a principal das personificações dos valores liberais – contribui para a observação do parentesco. A pose é muito similar, e as duas mulheres seguram em uma das mãos a bandeira pela qual lutam e, na outra, uma arma, o que convida o observador a associar as duas

imagens. 20 Além dis-so, elas se encontram nas duas representações guiando, de um lugar elevado e por trás (quase como um espírito que luta com o povo), o elemento popular da

composição: em um caso, o gaúcho guerrilheiro a cavalo; 21 no outro, o rapaz. A identidade do menino de Delacroix com o povo não é uma novidade. A respeito, é necessário lembrar que, como afirma Michel De Certeau (1999_, a associação entre os dois conceitos é um lugar-comum na tradição ocidental. Entretanto, talvez seja mais interessante para esta análise o fato de que, na composição quase especular da Pátria, o lugar do menino é substituído pela figura do gaúcho.

Finalmente, na Mazorca da GRN, a figura do gaúcho entra de novo

em cena pelas mãos de dois Pathosformeln. Nas Figuras 16, 17 e

18 pode-se ver gaúcho forte, heroico, valente e em pé de guerra (o

gaúcho da Figura 16 é um mazorquero), tendo sempre na mão a lança feita de bambu. Trata-se da Pathosformel do herói em

combate.22 Não obstante, nas Figuras 19 e 20 vê-se um gaúcho desarmado, pobre, cabisbaixo e vencido: o gaúcho que encarna a

Pathosformel 23 do sofredor.

Figura 16 – Mazorca GRN, 1966, n.12, capa (doação)

 

Figura 17 – Mazorca GRN, 1969 (?), n.16, capa (doação)

 

Figura 18 – Mazorca GRN, 1969 (?), n.16, contracapa (doação)

Figura 19 – Mazorca GRN, 1969, n.12, contracapa (doação)

 

Figura 20 – Mazorca GRN, 1968, n.14, contracapa (doação)

Essas diferenças tão radicais nos modos de representar o gaúcho da publicação e o recurso a diferentes, e inclusive opostas, Pathosformeln, em um lapso de tempo muito curto, devem-se em parte ao uso que é outorgado a essa imagem em cada composição. Nessas figuras, o gaúcho encontra-se na capa ou na contracapa da publicação, razão pela qual se pode interpretar que com a imagem procurase "representar" o caráter da publicação e a identidade do agrupamento responsável. Além disso, o texto que acompanha as

Figuras 17 e 18 é um chamado à luta. Nesse contexto, a imagem descreve o horizonte que se busca alcançar a partir da interpelação:

o herói pátrio ativo e em luta. Por outro lado, as Figuras 19 e 20 apresentam, por meio da imagem do gaúcho, um estado de crise social (da qual o gaúcho é vítima) que deveria servir como motivação para a luta, ou seja, a situação que se busca transformar. Portanto, o uso da imagem do gaúcho busca não somente representar o povo – ao qual se deve proteger e defender –, mas também estabelecer uma continuidade entre sua luta e heroísmo pátrios e a luta do nacionalismo do século XX (Marty, 1996). Nesse sentido, em todas as publicações aqui mencionadas são dedicadas notas mais ou menos extensas aos paralelismos entre a história do século XIX e a atualidade política. Por exemplo, no artigo intitulado "Más de un siglo", publicado no número 14 de Mazorca, enfatiza-se a continuidade de um mesmo modelo político de dominação:

Mais de um século de sacrifício do povo criollo em benefício

das oligarquias e dos senhores internacionais. Primeiro foi

Caseros, onde perdemos a Pátria Grande e Soberana do

General Don Juan Manuel de Rosas. Depois, em 1955, um

povo cheio de esperanças é massacrado pelo único delito de

trabalhar por uma Argentina Justa, Livre e Soberana. [...] da

podridão sempre surgem vermes e aqui se destruiu a bicheira.

Foram os Sarmientos, Mitres … Sim, porque eles eram os

vermes […] Já não se chamam unitários; agora são "gorilas". Já

não são apenas oligarquias portenhas; transformaramse em

todas as latitudes do nosso campo convertidos em fazendeiros

defensores do latifúndio. Já não são os imperialismos da "velha

Europa"; estes foram superados pelo imperialismo ianque-

judeu. (Mazorca, n.14, p.5)

Nesse encontro constrói-se uma relação metafórica entre os períodos mencionados, as figuras antagônicas (Sarmiento, Mitre, os antiperonistas da "Revolución Libertadora") e as figuras heroicas de Rosas e Perón.

Como afirma Marty (1996), para o grupo Tacuara o uso do imaginário das lutas do século XIX e, principalmente, o da Argentina de Rosas, tem o objetivo de estabelecer uma linha de continuidade entre a luta contra o inimigo estrangeiro-invasor do séculos XIX e XX. O modelo de Rosas é, desse modo, retomado por Tacuara como opção política. A esse respeito, Glück (2000) afirma que

a percepção que os membros do Tacuara tinham de si mesmos

era a de um grupo que estava realizando uma missão histórica,

de restauração de uma ordem perdida, vinculada ao catolicismo

e ao hispanismo, à qual vinculam em parte ao passado recente

peronista. Justificam sua rebelião em função destas

reivindicações, paradoxalmente vinculadas à ordem, que, no

caso de serem cumpridas, voltaria a converter estes jovens em

"modelos de obediência e acatamento aos mais velhos".

Pareciam acreditar que sua vitória era irreversível.

O posicionamento central de Tacuara na cena tão cuidadosamente construída com o auxílio da mensagem revisionista contribui para se entender a razão de o grupo – como recorda Marty – não se interessar pelas particularidades históricas da vida do gaúcho, carência de interesse que, como se poderia acrescentar, compartilhavam os "criollistas" das primeiras décadas do século XX. O gaúcho simplesmente transformou-se em um ícone de redenção para o nacionalismo, enquanto sua imagem havia sido ressuscitada da desonra da narrativa sarmientina e resignificada como a morte trágica do orgulho nacional. Este último se vê reforçado pela presença da Pathosformel do lutador, neste caso com o objetivo de engrossar o panteão dos heróis trágicos de Tacuara que lutaram até a morte por sua causa. Nesse sentido, a relação do MNT, do MNRT, da GRN e da Unes com o popular, segundo mostra sua iconografia, é do tipo folclorista. Segundo a descrição de Néstor García Canclini (1988), o folclorismo define-se por apresentar os elementos folclóricos descontextualizados, despojados das referências semânticas e pragmáticas que poderiam torná-los inteligíveis. Ou seja, o folclorismo do Tacuara, manifestado nos temas e nos motivos das imagens, consiste em um uso meramente pictórico e conservador de elementos que representam as tradições do povo, com o objetivo de promover um projeto político nostálgico e alheio aos setores populares, baseado na reinstauração de uma ordem perdida. Nesta, o gaúcho, metáfora do povo (como se vê claramente

na Figura 5), não ocupa o lugar do dirigente, daquele que conduz a batalha, como faz o militante nacionalista, o tacuara. Isso pode ser

observado também nas Figuras 19 e 20, onde a Pathosformel do sofredor – que tradicionalmente tem simbolizado a vítima, aquele que sofre impotente as injustiças – representa esse gaúcho desvalido, que parece esperar a ajuda do militante nacionalista.

 

Considerações finais

Este trabalho teve como eixo o estudo dos discursos sociais que circularam no interior da corrente Tacuara, buscando compreender a visão que os integrantes desses agrupamentos tinham sobre o mundo e sobre si mesmos. Para isso, foram consideradas as publicações periódicas do MNT, da GRN, do MNRT e da Unes.

Como um dos traços mais significativos pôde-se observar que, entre muitas semelhanças discursivas e estilísticas presentes nas publicações editadas pelas diferentes facções do Tacuara – que remontavam inclusive ao agrupamento antecessor Unes – destacava-se uma constante principalmente temática que obscurecia suas diferenças ideológicas e identitárias. Essa constante encontra-se sintetizada pela incorporação, de teor folclorista, da figura mítica do gaúcho ao seu imaginário, e pela assimilação metafórica entre as lutas do século XIX e os objetivos do movimento nacionalista que acreditavam representar. Dessa maneira, os agrupamentos Tacuara coincidiram na tentativa de legitimar seu papel de "restauradores" de uma ordem perdida, atribuindo-se o papel de vanguarda política na condução do povo. Nesse sentido, a importância comum do folclorismo e do antiliberalismo do MNT, da GRN e do MNRT deixou em segundo plano as rupturas ideológicas e políticas que suscitaram as divisões do MNT original.

 

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1 Mestre em Sociologia da Cultura e em História pela Universidade Nacional de La Plata.

2 O revisionismo constituiu uma corrente política e historiográfica nacionalista que inverteu a clássica interpretação liberal do passado argentino e dessa forma revalorizou personagens tais como os caudilhos federalistas do século XIX.

3 Esse método consiste em estabelecer parentescos e filiações entre elementos de fenômenos figurativos diversos e distantes, sob o pressuposto de que existe uma única trama secular da civilização ocidental. Nesse sentido, a sobrevivência (Nachleben) das denominadas Pathosformeln ou constantes iconográficas (que poderiam ser traduzidas como fórmulas, vetores ou elos de emotividade que possibilitam a conivência de diferentes níveis de racionalidade) esclareceria, em última instância, as experiências básicas da vida social na cultura ocidental. Esse método, instrumentalizado por Erwin Panofsky, consiste em três níveis de análise dos fenômenos figurativos: o nível pré-iconográfico ou meramente descritivo, o nível iconográfico ou dos significados convencionais, e o nível iconológico propriamente dito ou dos princípios culturais "subjacentes". Sobre este tema, ver Ginzburg (1989; 2003); Francastel (1970); Gombrich (1983; 1997); Burucúa (2002; 2006); Burke (2005); Saxl (1989) e Warburg (2005).

4 O termo Mazorca designava as forças parapoliciais que reprimiam os opositores ao governo do caudilho Juan Manuel de Rosas na Província de Buenos Aires, entre 1829 e 1852.

5 "Misterix" aparece pela primeira vez na revista Salgari, na década de 1940. Posteriormente, teria sua própria publicação, na qual Héctor Germán Oesterheld apresentaria, junto com Hugo Pratt, "El sargento Kirk". A historieta tratava de um sargento do oeste longínquo que desertava depois de presenciar um massacre de índios e tornava-se um acérrimo defensor da causa indígena. Hora Cero, cuja principal historieta era "Ernie Pike", tinha como tema a Segunda Guerra Mundial por meio das crônicas imparciais de um correspondente de guerra. Por sua vez, a principal história de Frontera seria "Ticonderoga", que desenvolvia os acontecimentos da batalha de Ticonderoga durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos. Estas duas últimas foram as primeiras publicações de Oesterheld com sua editora Frontera, e ali iriam participar os ilustradores de maior prestígio da época: Solano López, Carlos Roume, Alberto Breccia, Ivo Pavone, Hugo Pratt, Daniel Haupt, Jorge Moliterni e Arturo del Castillo, entre outros. O estilo dessas historietas de aventura não pode negar as influências das obras literárias de Conrad, Melville e Stevenson (Perez Edía, 2003).

6 Termo tupi, sinônimo de bambu, que busca afirmar o sentido nacionalista do movimento.

7 Seguindo a classificação realizada por Alejandro Cattaruzza em seu trabalho "El revisionismo: itinerario de cuatro décadas" (2003a), podem-se distinguir quatro etapas no revisionismo histórico argentino, segundo as diferenças nas práticas e estratégias dos intelectuais revisionistas em relação ao campo político e historiográfico argentinos no transcurso do seu desenvolvimento. Em primeiro lugar, Cattaruzza caracteriza aquela que percorre os anos entre o Centenário e 1929, à qual seguem os períodos de 1930-1945 e 1945-1955, e finalmente aquela entre 1955 e 1973. Durante as primeiras décadas do século XX, o revisionismo argentino caracterizou-se, principalmente, por levar adiante uma propaganda de "revisão" da história oficial, sob o prisma dos esquemas de interpretação maurrasianos do passado. A segunda etapa do revisionismo teve início com a idealização por parte da nova geração de intelectuais revisionistas de um período do passado argentino em particular: o governo de Rosas. Em um primeiro momento, identificou-se o governador de Buenos Aires com o demagogo aniquilado, Yrigoyen, quadro no qual Uriburu (figura política que representava os interesses do grupo de revisionistas) estaria representado pela figura de Lavalle, inimigo de Rosas. Entretanto, o fracasso de Lavalle (confundido com o do próprio Uriburu), atribuído ao seu grupo mais próximo, suporia a demonização dos unitários. A partir daí, o crescimento das simpatias por Rosas seria inevitável (Halperin Donghi, 2005). A terceira etapa começa com a chegada do peronismo ao poder. Nesse período, os revisionistas acreditaram ver realizado seu projeto político; entretanto, como recorda Halperin Dongui (idem, p.30), "o novo regime político não ia receber com efusão o aporte revisionista: se o seu triunfo debilitou o influxo daquela que os revisionistas chamavam de história oficial nos centros oficiais de estudos históricos, não se traduziu na integração da visão revisada do passado argentino que da Argentina propunha o novo oficialismo…". Nesse período, os ares revisionistas estavam também excluídos do imaginário peronista, ou seja, da propaganda estatal e dos manuais e programas escolares, entre outros (Cattaruzza, 2003a). Por causa disso, os revisionistas viram-se reduzidos ao seu papel de historiadores e seu próprio projeto político teve de ser congelado. Por fim, a partir da derrocada do governo peronista, os opositores do peronismo começaram a promover uma suposta equivalência entre os dois líderes. Alguns anos depois, o revisionismo seria finalmente adotado pelo peronismo (tanto de direita como de esquerda), assumindo definitivamente um novo significado.

8 Em referência a Domingo Faustino Sarmiento.

9 Ver Mundo Israelita, 15 de setembro de 1962; Marty (1997); Gutman (2003).

10 Ver Comisión Provincial por la Memoria (ex-archivo DIPBA), Legajo 15456, Mesa Referencia; Fondo CEN, Caja 1424; La Razón, 20 de fevereiro de 1963; La Prensa, 2 de abril de 1964.

11 Comisión Provincial por la Memoria (ex-archivo DIPBA), Legajo 1352, carpeta Daños, Mesa "DS".

12 No dia 20 de novembro de 1964, um grupo de afiliados ao MNT – sob a liderança de Juan Mario Collins – pendurou três bandeiras no Cabildo, com o objetivo de comemorar o Dia da Soberania Nacional, enquanto seus companheiros aclamavam fora "San Martin-Rosas-Perón" (Gutman, 2003).

13 Ver La Luz, 5 de julho de 1963.

14 Gené cita os exemplos do filme de ficção La payada del tiempo nuevo, dirigido por Ralph Pappier em 1950, e da fotografia do boxeador César Brion, vestido de gaúcho sobre um fundo com imagens de Eva e Juan Perón, durante sua excursão pelos Estados Unidos (Gené, 2005, p.114-6).

15 As Pathosformeln estão sempre presentes nas manifestações culturais, apesar dos vaivens do Denkraum ou "espaço para o pensamento" (determinado por três umbrais: a magia, a religião e a ciência). Nas palavras de Burucúa (2006, p.179-80), "…as transformações do papel das artes com respeito ao Denkraum implicariam uma supremacia da dimensão transitiva das imagens e uma escassez da sua potência reflexiva, enquanto um retrocesso no sentido da magia, isto é, da diminuição do Denkraum, conduziria, talvez, a uma debilitação das determinações transitivas e a uma intensificação da imagem per se. Mas, nesses vaivens seculares, as Pathosformeln estariam sempre disponíveis e o maior ou menor peso de cada extremo da simbiose – o pathos ou a forma clara e definida – não questionaria a integridade das Pathosformeln características do que chamamos de uma tradição civilizatória".

16 Como descreve Burucúa (2002, p.16), "em um lado e outro dos Alpes, então, esses homini novi ressuscitavam as experiências do intelecto e das experiências do intelecto e da emocionalidade de outros homens em um pretérito remoto, muito anteriores a qualquer antepassado cristão daqueles que tiveram uma memória direta mais ou menos imediata".

17 O gorro vermelho da figura francesa da Liberdade é uma versão modernizada do gorro frígio associado na época clássica com a libertação dos escravos (Burke, 2005).

18 Tacuara, vocero de la Revolución Nacionalista, n.8, ano 1962 (?).

19 A dimensão transitiva ou da representação na imagem referiria-se ao conteúdo cultural da Pathosformel em relação ao seu contexto histórico, pois a dimensão reflexiva estaria mais vinculada à emoção disparada pela própria Pathosformel (Burucúa, 2006).

20 Apesar de Marianne encontrar-se nua e a Pátria de Tacuara estar pesadamente vestida com um uniforme militar antigo, imitando a deusa Ateneia. Este, na verdade, talvez seja o único elemento figurativo que destaque a diferença entre as duas mulheres e que recorde que, enquanto uma delas remete à tradição liberal incipiente, a outra remete a um conservadorismo militar e nostálgico.

21 A presença do cavalo acompanhando o gaúcho é outra diferença importante entre as duas composições. O cavalo remete à tradição americanista dos heróis a cavalo atravessando a vastidão do continente.

22 Segundo Saxl (1989), a Pathosformel do homem lutador, o homem que luta com a besta, em suas diversas versões com armas primitivas (brandindo uma maça ou um pau) ou apresentando uma disposição do corpo que o coloca em situação de caça ou de luta contra forças não humanas, nasceu na arte da Mesopotâmia com a figura de Mitras e teria alcançado sua expressão máxima nas representações gregas de Hércules. Burucúa (2006, p.188) continua a série e mostra o ressurgimento desta na arte da Shoa, encarnando neste caso os verdugos.

23 "Também a reelaboração icônica do cristianismo afetou a outra Pathosformel que encontramos na arte antiga, a do escravo, a do vencido, a do homem extenuado pelo trabalho, a servidão e a derrota, uma figura com a cabeça baixa, encurvada, que pode transmitir uma sensação de esforço, mas sempre à beira do esgotamento. Assim a vemos nos relevos históricos das colunas de Trajano e de Marco Aurélio, nos relevos da época antonina incorporados ao arco de Constantino. Os artistas cristãos da Baixa Idade Média e do Renascimento recuperaram essa Pathosformel, mas lhe outorgaram a dignidade do sofredor, da vítima que padece as injustiças do mundo e fizeram dele uma fórmula mais que apta a representar os mártires e até mesmo o próprio Jesus nas diversas instâncias de sua Paixão" (idem, p.189).