Prosas Bárbaras
Capítulo XI
Tu estavas na egreja, curvada e perdida nas tuas orações, como uma fidalga hespanhola.
Tinhas um olhar velado e piedoso, um olhar que só dizia—Jesus!
Mas nos labios tinhas um colorido avelludado e luminoso, como o das flores vermelhas mettidas na agua; e na linha de sombra dos teus labios corria um sorriso, que só dizia—amor!
Talvez um dia ainda te encontre na egreja. Sómente, então, os teus labios estarão descorados como a fadiga e timidos como o arrependimento. Sómente, então, os teus olhos estarão fixos como os dos esfomeados, e terão aquella luz desejosa e ávida, que têm as estrellas.
XI
Foi debaixo das arvores. Voavam as pombas brancas. Morriam aromas de violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam subir a seiva.
Foi lá que me disseste aquellas palavras, que me pareceram uma blasphemia que te vinha do coração. Eu fiquei hirto e nullo, como um sacerdote esbofeteado pelo seu Deus!
XII
Eu tinha o rosto coberto de lagrimas: e ella compunha as prégas do seu vestido!
Ás vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, emquanto as ondas pequenas—as pobres ondas!—soluçando, choravam sobre a areia.
XIII
Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas, que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e a sua nudez era doce e melodiosa.