Prosas Bárbaras

Eça de Queirós · Capítulo 17 de 47

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Prosas Bárbaras

Capítulo XI

Tu estavas na egreja, curvada e perdida nas tuas orações, como uma fidalga hespanhola.

Tinhas um olhar velado e piedoso, um olhar que só dizia—Jesus!

Mas nos labios tinhas um colorido avelludado e luminoso, como o das flores vermelhas mettidas na agua; e na linha de sombra dos teus labios corria um sorriso, que só dizia—amor!

Talvez um dia ainda te encontre na egreja. Sómente, então, os teus labios estarão descorados como a fadiga e timidos como o arrependimento. Sómente, então, os teus olhos estarão fixos como os dos esfomeados, e terão aquella luz desejosa e ávida, que têm as estrellas.

 

XI

 

Foi debaixo das arvores. Voavam as pombas brancas. Morriam aromas de violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam subir a seiva.

Foi lá que me disseste aquellas palavras, que me pareceram uma blasphemia que te vinha do coração. Eu fiquei hirto e nullo, como um sacerdote esbofeteado pelo seu Deus!

 

XII

 

Eu tinha o rosto coberto de lagrimas: e ella compunha as prégas do seu vestido!

Ás vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, emquanto as ondas pequenas—as pobres ondas!—soluçando, choravam sobre a areia.

 

XIII

 

Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas, que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e a sua nudez era doce e melodiosa.