Prosas Bárbaras

Eça de Queirós · Capítulo 4 de 47

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Prosas Bárbaras

Capítulo II

—Tem muito talento este rapaz; mas é pena que residisse em Coimbra, que seja inteiramente doido, que haja nos seus Contos, sempre, dois cadaveres amando-se n'um banco do Rocio, e que escre...va...va...va em francez.

Pouco tempo depois de publicado o ultimo d'esses Folhetins,—em Dezembro de 1867,—já ninguem pensava no author d'elles.

Que importava ao Café Martinho, ao Gremio supposto litterario, e aos circulos politicos, a apparição d'um novo escriptor com um novo estylo? Era ministro... não sei quem; discutia-se no Parlamento... não sei que; os negocios iam andando; os namoricos e a maledicencia seguiam o seu curso; a arte, serena e commedida, não sacudia os que dormitavam... e nada mais era de interesse, em Portugal, para as classes cultas.

 

II

 

Eu era, por 1867, estudante em Lisboa e muito novo. Por circumstancias que é inutil mencionar frequentava a Redacção da Gazeta de Portugal, no n.ᵒ 26 da travessa da Parreirinha, perto do Theatro de S. Carlos.

Uma noute, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça pequena e aguda. Esta figura mostrava-se inteiramente desenhada a preto intenso e amarello desmaiado:

Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até á barba, uma gravata alta e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lividas e magrissimas, o cabello corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa triangular, ondulante, na testa pallida que parecia estreita, sobre olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito negros. Um bigode farto, e tambem muito preto, caía aos lados da bocca grande e entreaberta. As mãos longas, de dedos muito finos côr de marfim velho, na extremidade de dois magros e longuissimos braços, faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéo de copa alta e conica, mas de feltro baço, como os chapéos do seculo que se veem nos