Prosas Bárbaras

Eça de Queirós · Capítulo 40 de 47

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Prosas Bárbaras

Capítulo IV

Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser á tunica franjas de Tyro.

Jesus, de resto, acceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os publicanos, todos os peccadores.

Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais (dizia eu) aquelle homem que eu vi no templo, com as indignações de Isaias, é pois suave como o ceu da Galilea!? Realmente, uma raça tão humana, tão simples, tão abundante, tão pacifica poderia dar um propheta irritado?

—O Mestre é a propria doçura—dizia-me João.

D'onde vinha então aquella colera, aquelle gesto de Messias vingador?

—Desde quando é elle assim?—perguntava eu a João.

—Dizes bem. O Rabbi mudou desde que chegou a Jerusalem.

 

IV

 

Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, emquanto eu seguia para o templo. Ia perturbado, sem centro moral. Ora me vinham desejos de ir á Galilea seguir os passos de Jesus de Nazareth, ora o meu velho orgulho estreito de homem do templo me suscitava hostilidades ou desdens.

O templo abria-se, chegavam os phariseus, os devotos; os doutores approximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras; encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a agua das piscinas, accendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velarios; os pregões annunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam a installar-se as escolas rabbinicas; o oiro tinia nas bancas dos cambiadôres; havia risadas; ouvia-se o balar das rezes.

Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um velho camarada do templo, Josué, que andava ha muito pelas villas de Galilea para a organisação dos sophorins nas synagogas. Era homem conhecedor das tradições e cheio de experiencia da vida sacerdotal. Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazareth, filho de Maria de Caná, e os seus companheiros. Elle era douto, sincero, attento; devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado João, a essencia do Rabbi da Galilea.

Disse-me, com effeito, que vira Jesus na synagoga de Chorasin; que conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado, mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado ás portas de Bethel; que prégava toda a sorte de impiedades; que combatia a lei, a tradição e os textos; que fallava contrariamente á velha sabedoria judaica, sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os sacerdotes, nem os phariseus; que queria distribuir as riquezas pelos pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas; que dormia ao acaso pelos hortos; que não tinha casa nem campo; que se associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções, nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galilea, sem auctoridade entre os doutos e entre os ricos.

Eu ouvia, calado, estas palavras, que eram todo o espirito dos phariseus e dos doutores. E, quando sahi do templo, corri ao atrio d'Hannan.

Jesus de Nazareth era-me já sympathico e intimo, pelo sentimento e pela rasão. Mas o que era aquelle homem? Era um simples visionario? Era um contemplador, cheio da melancholia que dão as espessuras de Galilea, e tomado d'um desdem divino? Era um espirito cheio de sabedoria? Era um continuador de Judas Galannite? Vinha elle prégar contra o imposto e contra o dizimo? Era elle hostil a Cezar, e cheio da tradicção dos Machabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das esperanças messianicas? Vinha elle atacar o espirito do templo?

Encontrei João, conversando no atrio lageado com um homem da milicia sacerdotal. Chamei-o para uma longa galeria escura, vagamente estrellada de lampadas.

—João—disse eu—dize o que vem fazer a Jerusalem o sabio de Nazareth?

João olhou-me:

—Vem á festa da Paschoa—disse elle, lento.

—João—insisti—pelo Messias, e pela liberdade do Baptista, prisioneiro d'Antipas, dize-me a que vem Jesus, a Jerusalem e ao templo?

—Prégar—disse João.

Comprehendi, rapidamente, todos os resultados d'aquella lucta original.

—Vae!—lhe disse eu exaltado—dize-lhe que parta, que volte para o lago de Tiberiade! Que viva nas suas montanhas, com o seu Deus, com os que o amam, socegado, no repouso dos campos. Que vá, que evite as portas de Jerusalem! Dize-lhe que não venha nunca encostar-se como propheta á columna do templo! Que volte para a Galilea, que se lembre das pedras que estão á Porta Esterquilinaria e que são para lapidar os prophetas!

João tinha o espanto nos olhos, na voz.

—Eliziel! Eliziel!

—Que volte, que volte para a Galilea!

E subi rapidamente pela escadaria de granito verde, que levava aos interiores d'Hannan.