Prosas Bárbaras

Eça de Queirós · Capítulo 18 de 47

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Prosas Bárbaras

Capítulo XIV

Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos, as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias; serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.

Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da frescura das plantas.

Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens. E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam, junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue!

Esta historia é de ha seiscentos annos—e de hontem á noite...

 

XIV

 

Por fim, tu eras simplesmente uma alma preguiçosa e uma pelle macia.

Todos os teus pensamentos se moviam n'uma comedia extravagante e solta.

Abafavas burguezmente a musica do teu corpo em chailes pesados e largas saias: e a seda dos teus vestidos tinha um fremito indefinido de sarabanda—e de cachucha.

 

XV