Prosas Bárbaras

Eça de Queirós · Capítulo 19 de 47

Páginas do PDF

Prosas Bárbaras

Capítulo XVI

Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrellas, como grandes olhos curiosos, espreitavam atravez da folhagem. Eu era o tenebroso, o inconsolavel, o viuvo. Errava pela floresta, e a espaços cantava uma canção vagamente triste como o susurro dos cyprestes:—depois dizia palavras iradas, e asperas como os cardos; —e mais adiante uma oração indefinida enchia-me todo o coração, e saía-me pelos labios, como uma açucena branca que se abre dentro de um copo, e que o enche.

E por cima de mim, ó meus amigos! ó minha bem amada! os ramos estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar ás cantigas, ás iras e ás orações todas os caminhos do ceu.

 

XVI

 

Tu pensavas que o teu amor me envolvia mollemente como um largo vestido de seda, todo forrado de arminhos.

E um dia, ó minha bem amada de cabellos côr de amora! viéste despir-m'o de golpe, com um rosto colorido de risos.

Mas o vestido estava collado ao corpo—vinte vezes collado ao corpo: e tão rapidamente o tiraste, que me rasgou pedaços de carne, e levou-me jorros de sangue, e arrancou-me os cabellos, e deixou-me, ó minha bem amada de braços d'aço! como uma forma longa, vermelha e indefinida!

 

XVII

 

Quando te amava e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras para mim a terra, o ceu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és tão varia como o ceu, tão fria como o mar, e tão dissoluta como a terra.

 

XVIII