Quando Chega a Hora
- Vou pensar. Boa noite.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
- Eu sei. Todos os dias agradeço a Deus e a todos vocês que me ajudaram a conseguir o que possuo. Saiba que sou muito agradecido à vida, que me deu muito mais do que mereço. - Se não é isso, o que é?
Pelos olhos de Nico passou um brilho de emoção.
- Minha mãe sempre dizia que, quando o mal não tem remédio, remediado está. Portanto, não adianta falar sobre isso.
- Sua mãe é sábia e sabe o que diz. Contudo, nós nos enganamos muitas vezes quando acreditamos que um mal não tem remédio. E nisso é que reside o perigo. Eu já vi muitos doentes desenganados curarem-se enquanto outros aparentemente saudáveis morriam de repente.
Nico sorriu:
- Eis aí nosso querido professor que assume a antiga posição. - Não fuja do assunto, nem queira me confundir. Habituei-me a ler você como um livro aberto, e nunca vai poder me esconder nada.
- Agradeço seu interesse, mas, creia, estou bem e não precisa preocupar-se. - Está bem. Não deseja falar, eu respeito. Mas saiba que estarei sempre aqui do seu lado para o que der e vier. Quando quiser conversar, serei todo ouvidos. O dono da galeria escolheu cinco quadros, mandou colocar neles luxuosas molduras e os expôs. O sucesso foi absoluto. Alguns críticos que a princípio haviam ignorado o novo pintor começaram a interessar-se.
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Houve um dos quadros que saiu em importante magazine e, desde então, Nico não teve muito tempo para trabalhar em seu consultório. As encomendas sucediam-se e, por fim, ele achou que estava abusando fazendo o salão da casa de Eulália de ateliê e alugou uma pequena casa para onde levou seu material de pintura.
Nesse tempo, absorveu-se inteiramente pela pintura, porque, enquanto pintava, sentia-se relaxado, esquecia o resto do mundo e também seu amor por Amelinha. Ela voltara a São Paulo e continuava cada dia mais conhecida como atriz. Foi folheando uma revista de moda na casa de Eulália que Nico foi tomado de pânico. Havia uma foto de Amelinha ao lado de um ator famoso e a notícia dizia que eles estavam apaixonados.
O que ele sempre temera acabou acontecendo. Procurou controlar-se. Sabia que um dia ela se apaixonaria e ele teria de se conformar. Mas, apesar de seu esforço, não se conformou. Da janela de seu quarto viu quando ela chegou, depois da meia-noite, acompanhada pelo moço do retrato. Ele abriu a porta para ela descer, abraçaram-se e beijaram-se. Nico pensou que fosse desmaiar de angústia. Afastou-se da janela tentando acalmar-se. Sentiu vontade de ir falar com ela, dizer que ela não podia amar outro homem, que era a ele que ela pertencia.
Passou a mão pelos cabelos tentando controlar-se. Ouviu os passos dela na escada e o barulho da porta de seu quarto fechando. Respirou fundo, resolveu deitar-se. Mas ficou revirando-se na cama.
Eram duas da madrugada quando Nico, insone, nervoso, se levantou e foi à cozinha para tomar água. Sentia o peito oprimido e a respiração agitada. Apanhou o copo, encheu-o e sentou-se na copa tomando a água devagar, respirando fundo. A dor era muito grande. Ele percebeu que não poderia suportar ver sua amada nos braços de outro. Então resolveu afastar-se, ir embora dali. Já economizara o suficiente para construir uma nova casa para a família no terreno que possuíam. Iria para Sertãozinho. Não pretendia morar com a família. Estava disposto a viver sua vida a seu modo, manter sua privacidade. Lá, no sossego da pequena cidade onde nascera, continuaria pintando seus quadros, mandando-os para a galeria em São Paulo. Ficar longe de Amelinha seria um sacrifício doloroso, mas vê-Ia nos braços de outro seria um tormento maior. Não se sentia com forças para enfrentar isso. 383
Ouviu passos, e Amelinha envolta em um robe apareceu na copa. Vendo-o, assustou-se: - Puxa! É você? O que está fazendo aí, sentado no escuro? - Tomando água e pensando na vida.
A claridade que vinha do jardim entrava pelo vitrô e ela não acendeu a luz. - Também senti sede.
Apanhou um copo de água, sentou-se ao lado dele e continuou: - Foi bom encontrá-Io. Quero conversar. Preciso tomar uma decisão.
Nico estremeceu. Tentou desviar o assunto:
- É tarde. É melhor irmos dormir.
- Estou sem sono. E, pelo jeito, você também. Faz tempo que não conversamos. Tenho sentido saudade.
Ela havia colocado a mão sobre o braço dele e aproximado seu rosto a tal ponto que ele podia sentir seu hálito. Falava baixinho para não acordar o resto da família. - Eu também. Pensei que fosse só eu a sentir falta de estarmos juntos. Você tem andado tão ocupada...
- Você também. É bom estarmos aqui, na penumbra, conversando como antigamente. Você se lembra quando íamos conversar no quarto de Eurico lá na mansão? - Foram os melhores dias de minha vida. Nunca esquecerei. Gostaria que o tempo não houvesse passado e fôssemos crianças ainda.
- Pois eu não. Gosto de ser adulta, independente. Por mais saudade que tenha, agora estou fazendo o que quero, consegui seguir a carreira que sempre sonhei e meus pais estão conformados. Eu seria uma péssima professora. Do jeito que você falou, deu-me a impressão de que se sentia mais feliz naqueles tempos do que agora. - É verdade.
- Não entendo. Você é um vencedor. Está ficando famoso. Tenho ouvido comentários elogiosos sobre suas telas. Você é um bom psicólogo, mas como pintor é um gênio. Não está contente?
- Estou. É que, quando me recordo de nossa infância, sinto saudade. É só. - Você estava pensando na vida. Fazendo projetos para o futuro? - É. Decidi voltar para Sertãozinho.
- Você?! No momento em que está conquistando fama e reconhecimento quer enterrar-se no interior? Pensei que planejasse viajar, ir para a Europa, ver o mundo como sempre sonhou, e você quer fazer o contrário? Não acredito. Alguma coisa errada está acontecendo. O que é?
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- Não está acontecendo nada. Estou um pouco cansado da cidade. Creio que no interior terei mais inspiração para trabalhar. Vamos falar de você. Até quando a peça ficará em cartaz? Li que está nos últimos dias.
- Ficaremos mais duas semanas. Para dizer a verdade, também ando um pouco cansada. Gostaria de tirar umas férias. Mas não para ir ao interior. Gostaria de ir para um lugar calmo e em boa companhia.
Nico estremeceu. Ela prosseguiu:
- Hoje Wilson me pediu em casamento. Faz algum tempo que estamos saindo juntos. Ele sugeriu aproveitarmos essas férias para firmarmos nosso compromisso. Quer aproximar-se da família e convidou a todos para irmos a uma fazenda de seu pai. Nico ficou calado. Tinha receio de que, se falasse, ela notasse sua emoção. Não conseguindo dominar a pressão, levantou-se de repente e ela fez o mesmo dizendo admirada:
- O que foi? Está sentindo alguma coisa?
Nico sentiu um nó na garganta, e, seja pela cumplicidade da penumbra ou pela proximidade dela, não conseguiu conter-se. Abraçou-a com força, beijando-a apaixonadamente nos lábios. Ela estremeceu, e ele, sentindo toda a força de sua paixão contida, beijou-a diversas vezes apertando-a de encontro ao peito.
Ela se surpreendeu, mas não o repeliu. Ao contrário, correspondeu, e Nico, sentindo-a trêmula em seus braços, esqueceu todos os receios e ponderações a que se habituara. Quando conseguiu acalmar-se, largou-a dizendo baixinho: - Desculpe, mas não pude conter-me. Eu amo você, sempre amei. Sei que é impossível. Reconheço a distância que nos separa. Mas, quando você falou que ia casar-se, não pude controlar-me.
Amelinha aproximou-se dizendo com doçura:
- Nico, por que nunca me disse? Por que deixou que eu pensasse que éramos como irmãos? - Porque é como você me vê. Sei que não me ama. Nunca percebi nada que pudesse fazer-me acreditar que isso fosse possível. Mas fique tranqüila. Irei embora e nunca mais a incomodarei com meus sentimentos.
- Nico, eu disse que fui pedida em casamento, mas não que havia respondido sim. Gosto de Wilson, ele é atencioso, agradável, carinhoso.
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Mas, amor, não sinto por ele. Por isso hesitava em aceitar seu pedido. Não quero que vá embora por minha causa. Agora sei que não vou aceitar esse casamento. - Não confunda seus sentimentos, Amelinha. Minha falta de controle perturbou-a. Ela se aproximou ainda mais dele, olhando-o nos olhos e dizendo: - Nico, já tive alguns namorados, já me entusiasmei e pensei até estar apaixonada algumas vezes. Fui beijada, mas nunca senti com nenhum deles a emoção que seu beijo despertou. Ainda não sei o que é, mas foi como se uma força maior me arrebatasse e eu queria que nunca acabasse.
Ele a abraçou novamente e a beijou com paixão. Naquele momento esqueceram-se de tudo que não fosse aquele calor no corpo, transbordando, o coração batendo forte e descompassado e a vontade de que aquele momento fosse eterno. Então Amelinha puxou Nico pela mão e levou-o até seu quarto. Fechou a porta e lá se entregaram inebriados às emoções que os uniam.
O dia estava amanhecendo quando Nico abriu os olhos. Amelinha, cabeça encostada em seu peito, estava adormecida e ele ficou alguns minutos prendendo a respiração, comovido com a proximidade dela, olhando o rosto que amava, sem se mexer, com receio de acordá-Ia e acabar com aquele encantamento.
Recordando-se do que acontecera, sentiu uma onda de pavor. Ele sucumbira e arrastara Amelinha com sua paixão. O que diria ela quando acordasse e se desse conta do que acontecera?
Eles haviam se amado com paixão, mas ele temia que quando o entusiasmo do momento passasse ela o odiasse. Por que não pôde controlar-se? Ele fora recebido naquela casa como um filho e estava traindo a confiança das pessoas que tanto amava. Remexeu-se inquieto, e Amelinha ainda adormecida abraçou-o com carinho, apertando-o de encontro ao peito. Emocionado, Nico beijou seus cabelos com amor, depois delicadamente a afastou, ela se virou para o outro lado e continuou dormindo. Com cuidado, Nico levantou-se e foi para seu quarto. Sentia-se culpado, mas ao mesmo tempo as lembranças dos momentos de amor que haviam vivido emocionavam-no. O que faria quando todos acordassem? Não se sentia com coragem de aparecer diante de Norberto e Eulália depois do que havia feito. O melhor era ir embora. 386
Escreveria uma carta a Dona Eulália avisando que fora até Sertãozinho ver a família. Era o melhor a fazer, porque dali para a frente não se sentia com forças de conviver com Eurico como um irmão, nem com Amelinha.
Agoniado, sentindo o peito oprimido, Nico arrumou uma mala, escreveu a carta, colocou-a sobre a mesa da sala de jantar. Depois apanhou a mala e saiu sem fazer ruído, levando a tristeza e o remorso no coração.
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Capítulo 28
Nico levantou-se e foi até a janela. O jardim da mansão estava lindo como sempre e ele se recordou quando pela primeira vez havia entrado lá, com o coração cheio de curiosidade, desejoso de conhecer o interior da casa.
Fazia um mês que ele estava hospedado lá a convite de Liana e AIberto, que não o deixaram procurar outro lugar para ficar.
Nico falara de sua intenção de morar em Sertãozinho durante algum tempo e de alugar um lugar para montar seu ateliê. Agradecia o convite e o aceitaria enquanto procurava um espaço só seu. Agora que tinha recursos, desejava realizar esse sonho. Sua mãe não quisera mudar-se das terras da família e Nico construíra graciosa casa já em fase de acabamento, e eles estavam muito contentes. Cada filho teria seu quarto, e eles não viam a hora em que a casa ficasse pronta.
Depois que deixou São Paulo, Nico nunca mais viu Amelinha. A princípio esperava que ela desse notícias, que o procurasse, ainda que fosse para reprovar sua atitude, mas ela não fez nada, nem um telefonema, nem um bilhete.
Seu silêncio aumentava sua sensação de culpa, tornando-o triste e calado. Diante dos outros fazia o possível para esconder seus sentimentos, e, se conseguia diante de algumas pessoas, não enganava sua mãe.
Uma noite em que não conseguira conciliar o sono, ao ouvir o galo cantar levantou-se e foi até a casa da mãe. Queria sentar-se mais uma vez a seu lado em baixo da mangueira, naquele caixão tosco que continuava no mesmo lugar, tomar aquele café gostoso e conversar com ela como nos tempos de infância.
Como foram bons aqueles momentos de intimidade e confidência, só os dois no silêncio da manhã que despontava, ouvindo o chilrear dos pássaros e o cacarejar das galinhas, deixando o pensamento fluir, sonhando com o futuro.
O futuro havia chegado, ele conseguira realizar muitas coisas com as quais havia sonhado. Entretanto, embora elas fossem boas, não haviam conseguido dar-lhe a felicidade que acreditaria obter com elas.
É que ele não pensara no amor, nem como esse sentimento o deixaria vulnerável, estabelecendo outros objetivos que se tornariam importantes para a conquista da felicidade. Agora ele sabia, mas não via possibilidades de realizar o que sonhava. 388
Chegou à casa da mãe sentindo o cheiro do café que vinha da cozinha. Entrou, beijou-a e, como fazia antigamente, apanhou uma caneca, serviu-se direto do coador e foi sentar-se em seu lugar preferido.
Ficou lá, sorvendo pequenos goles de café, observando os primeiros raios de sol que coloriam o céu e as últimas estrelas que desapareciam conforme a claridade aumentava. Ernestina logo foi sentar-se a seu lado, e ali, juntos como antigamente, Nico não teve receio de falar sobre o amor que tumultuava seu coração, os motivos que o fizeram voltar para sua cidade e o que ele pensava fazer no futuro.
Ela escutou em silêncio, olhando-o com carinho, sem perder uma palavra. Quando ele terminou, disse apenas:
- Você estudou, melhorou de vida, tem diploma de faculdade, é um artista de nome, mas ainda não deixou de ser aquele menino pobre que ia na porta da venda do Seu Nicolau à espera de carregar alguma compra e ganhar alguns níqueis. Na verdade, Nico, você nunca saiu daqui.
- Por que está dizendo isso?
- Porque essa é a verdade. Embora você hoje pareça outra pessoa, seja instruído, ganhe dinheiro, se vista como um doutor, nunca deixou de ser o Nico, o menino pobre, cuja mãe é lavadeira e o pai um incapaz. Então eu pergunto: de que te serviu tanto esforço? De que te serviu trabalhar tanto se o teu coração continua o mesmo? - Mãe, não estou entendendo.
- Está, sim. Você fez tudo pensando em nos ajudar, em conquistar o respeito dos outros, e conseguiu. Mostrou que é inteligente, capaz, honesto e trabalhador. Mas se esqueceu de ver todas essas qualidades em você. O tempo todo ficou se sentindo menos do que o Eurico ou a Amelinha, pensando que estava com eles de favor.
- Mas essa é a verdade. Eles foram muito bons comigo, me respeitam e me estimam. - Não estou dizendo o contrário. Eles são maravilhosos. Durante anos me ajudaram com uma mesada generosa que aliviou o sofrimento da nossa família. Sou eternamente grata a eles por isso e considero eles amigos de coração. Entretanto, você só vê esse lado. Esquece como retribuiu ajudando o Eurico a recuperar a saúde, sendo sempre sincero e amigo. Meu filho, o teu orgulho está te cegando, e isso é que está te infelicitando. 389
- Orgulho?! Não, pelo contrário. Estou considerando minha real posição. - Qual é a tua real posição? Você é ainda aquele menino pobre, sem estudos, precisando da ajuda dos outros? Claro que não. Você hoje é um psicólogo, tem diploma universitário, é um artista de nome. Talvez até mais nome do que a Amelinha, que está lutando pra conquistar um lugar de atriz, mas que apesar de ser relativamente conhecida ainda não atingiu fama igual à tua como pintor.
- Não é tanto assim.
- É, sim. Tenho acompanhado pelos jornais e revistas. O Dr. Marcílio sempre me traz as reportagens sobre você. Não que eu dê importância a isso, porque a fama é uma ilusão passageira, mas você está se colocando no lado oposto, como se fosse um fracassado, e isso não é verdade. Você é um vencedor e é digno de se casar com a mulher que ama, se ela te quiser.
- Está falando como mãe.
- Não, meu filho. Você sabe que eu sempre digo a verdade. Nunca menti pra você. Repito, o teu orgulho está te confundindo. Você não é mais o Nico daqueles tempos, você agora é o Antônio Juventino dos Santos, psicólogo, pintor famoso. Está construindo uma casa pra tua família. Essa é a realidade. Mas, enquanto fica se depreciando, com medo de assumir aquilo que é, de deixar ir embora aquele menino pobre que você foi, não merece conquistar a felicidade. Vai ficar aqui, enterrado nessa pequena cidade, sofrendo, se machucando, perdendo tudo que conquistou. Você conseguiu progredir, isso pode acontecer a qualquer um, com esforço, perseverança e trabalho, mas manter esse progresso só será possível quando aceitar no teu coração que você é tão bom como qualquer pessoa. - Talvez tenha razão, mas para a família de Amelinha sempre serei Nico, o menino que eles ajudaram por caridade.
Ernestina colocou a mão no braço do filho ao responder: - É você quem está se colocando nessa posição. Pensando dessa forma, nunca chegará a ocupar o lugar que gostaria naquela família. Nunca te ocorreu que eles podem te ver de outra forma? Que não fariam objeção e até se sentiriam felizes em casar a filha com você? Nico sobressaltou-se:
- Eles nunca consentiriam.
- O preconceito é teu. Como pode saber se nunca perguntou pra eles? Nem sequer teve coragem pra se abrir com o Eurico, que é mais do que um irmão pra você. 390
- Não teria coragem de tocar nesse assunto com ele.
- Por quê? Onde está a tua sinceridade?
- Depois, Amelinha não me ama. De que serviria falar sobre meus sentimentos? - Você me decepciona. Nunca pensei que fosse covarde.
Nico endireitou-se no banco. Ela continuou:
- Por que será que essa moça se entregou a você depois de alguns beijos? Será que ela é assim tão fácil?
- Claro que não! - objetou ele. - Eu fui o primeiro... E é isso que me está atormentando. Ernestina foi à cozinha e voltou logo em seguida com mais café na caneca. - Quer mais um pouco?
Como ele fez que sim com a cabeça, ela despejou um pouco na caneca dele. - Tem bastante açúcar. É bom pra acalmar. Então essa moça, que nunca tinha tido um homem, se entregou a você. Por que será? Não é curioso? - Acho que a perturbei com meus beijos, ela me tem amizade, ficou confusa... - E arrastou você pro quarto em seguida. Pelo que contou, foi ela quem te levou lá, não foi? - Foi.
Ernestina suspirou. Meneou a cabeça negativamente várias vezes, depois tomou: - Você gosta mesmo dela?
- Gosto. Sem ela a vida não tem mais valor.
- Custo a acreditar.
- Eu a amo mais que tudo neste mundo. Por que diz isso? - Porque se amasse mesmo não tinha desistido sem ao menos tentar. Fica aqui perdendo tempo sem saber a verdade. Fugindo como se tivesse praticado um crime. - O que posso fazer? Não tenho coragem para olhar Dona Eulália e o Dr. Norberto. Se souberem o que eu fiz, vão ficar furiosos.
- Mais furiosos ficarão se descobrirem através de outras pessoas. - Ninguém sabe, a não ser ela e eu.
- E se ela contar?
- Não se atreveria. Teria vergonha.
- Não sei. Ela pode ser mais corajosa do que você.
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Nico remexeu-se no banco, inquieto.
- Ela teria coragem?
- Não sei. O que sei é que você gosta da Amelinha, dormiu com ela. Ao invés de fugir, o mais decente era pedir a moça em casamento pros pais.
- Não teria coragem.
- Pois ia ser o mais digno.
- Ela não me ama. - Tenho minhas dúvidas. Mas o correto era pedir a moça em casamento. Se ela não aceitar, não vai ser culpa tua. Eles não vão ficar magoados com você. - Isso é verdade. Estou começando a pensar que tem razão. - Pensa, meu filho. Vai pra casa e reflete em tudo que eu disse. Consulta o teu coração e não fica com medo de fazer o que tem vontade. A sinceridade é sempre a melhor escolha. Quantas vezes perdemos a chance de felicidade com medo de enfrentar algumas dificuldades? Você ama a Amelinha. Desejar casar com ela é natural. - Ela vai recusar...
- Se recusar, pelo menos você tentou. Não fugiu nem perdeu por omissão. Nico deu um beijo no rosto da mãe e levantou-se:
- Vou pensar. Prometo.
Ele mal dormiu naquela noite, mas, quando voltou para a mansão, não sentiu sono, ficou pensando em tudo quanto Ernestina lhe tinha dito. Reconheceu que era verdade. Apesar das conquistas que fizera na vida, no fundo continuava vendo-se como o menino pobre e desvalido que precisava da ajuda dos outros para sobreviver. Reconheceu que estava vivendo um momento decisivo: ou assumia e via-se como uma pessoa que subira na vida e poderia ainda progredir mais, ou continuaria a julgar-se socialmente inferior. Nesse caso, sua mãe tinha razão: de nada lhe valera ter conquistado o diploma e o sucesso.
As palavras dela continuavam se repetindo em seus ouvidos e ele não conseguia esquecê-Ias. Por fim decidiu. Voltaria a São Paulo e falaria com Amelinha. Afinal, havia se afastado sem nenhuma palavra sobre o que acontecera entre eles. Ela deveria estar magoada. Poderia estar pensando que ele desejava escapar à responsabilidade. A esse pensamento, sentiu-se inquieto. Sim, ele precisava voltar e enfrentar as conseqüências do que fizera.
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Preparou a bagagem, despediu-se de Liana e Alberto e passou pela casa de Ernestina para contar-lhe sua resolução.
- Estou contente que tenha decidido enfrentar a situação. Não é bom deixar mal resolvido um assunto tão importante como o teu.
- É. Foi o que pensei. A senhora estava certa. Sei que Amelinha não me ama, acredito que Dona Eulália e o Dr. Norberto não gostariam que ela se casasse comigo, mas diante do que aconteceu, tenho de me posicionar. Primeiro, falarei com ela para dizer que não pretendo fugir à minha responsabilidade. Vou pedi-Ia em casamento. Desejo saber também o que ela pensa sobre o que aconteceu entre nós, se devo confessar a seus pais ou se ela prefere manter em segredo.
- Você fala como se ela já tivesse recusado o teu pedido de casamento. E se ela aceitar? Se disser que gosta de você?
Nico passou a mão pelos cabelos inquieto e suspirou fundo. - Claro que ela vai recusar. Durante tantos anos de convivência sempre me viu como um irmão. Ninguém deseja casar-se com um irmão.
Ernestina sorriu.
- Se eu fosse você, Nico, não tinha tanta certeza. As mulheres são imprevisíveis. - Nesse caso acho difícil. Apesar disso, estou disposto a enfrentar seja o que for. Afinal, aconteça o que acontecer, pelo menos as coisas se definem, é melhor do que ficar aqui me culpando.
- Vai com Deus, meu filho.
- Obrigado, mãe.
Beijou Ernestina e saiu. Dirigindo seu carro de volta à capital, Nico ia pensando no que poderia estar acontecendo na casa de Eulália. Eurico ligara quase todas as noites contando as novidades e perguntando quando ele voltaria. Chegaria de surpresa. Passava das duas da tarde quando Nico chegou. Foi recebido com alegria por Eulália, que comentou:
- Ainda bem que voltou. Espero que resolva ficar, porque Eurico anda impossível. Fala em você o tempo todo. "Porque vou ligar para Nico e contar isso... Vou perguntar quando ele estará de volta..." Vivia me pedindo para ir buscar você. Quanto a Amelinha, parece uma sombra. Não sei que bicho a mordeu. Anda de mau humor, quieta, o que não é seu costume. Ando desconfiada de que é alguma coisa de namorado.
- Vai ver que brigou com ele.
- Pode ser. Ele não tem aparecido para buscá-Ia. Acho que sua presença poderá ajudá-Ia. Comigo ela nunca se abre. Com você sempre foi diferente. Sei que conta todos os seus segredos. Por isso lhe peço: veja se consegue saber o que está acontecendo com ela. Não agüento mais vê-Ia tão apática, distraída e triste.
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Tentando esconder a preocupação, Nico respondeu:
- Conversarei com ela quando chegar.
- Ela está no salão. Devia ter ido ensaiar, mas disse que não estava muito bem e queria descansar um pouco. Isso me deixou mais desconfiada de que algo não vai bem com ela. - Vou levar a bagagem para o quarto e depois falarei com ela. - Isso, meu filho. Você tem feito muita falta aqui em casa, viu? Todos sentimos saudade dos tempos em que estávamos todos juntos.
- Eu também sinto saudade. Foi um tempo bom.
- Foi, sim. Agora vá, meu filho. Deve estar cansado da viagem, com fome. Deixe a mala no quarto e venha tomar um lanche antes de falar com Amelinha. - Obrigado, mas eu comi na estrada. Estou bem. Não se preocupe. Nico subiu, deixou a mala, lavou-se, trocou a camisa um tanto suada e empoeirada da viagem e procurou Amelinha no salão.
Abriu a porta e espiou. Ela estava deitada no sofá tendo ao colo um maço de papéis, olhos fechados. Estaria dormindo?
Ele entrou e aproximou-se dela, chamando:
- Amelinha.
Ela abriu os olhos e disse:
- Você! Você voltou!
Colocou os papéis sobre a mesinha e sentou-se olhando para ele. - Voltei porque precisamos conversar.
Ele se sentou ao lado dela no sofá.
- Por que foi embora sem dizer nada?
Sem desviar os olhos dos dela, que o fitavam firmes, ele respondeu: - Porque estava com medo. Senti-me culpado. Por não haver controlado minhas emoções, arrastei você a uma situação delicada. Devo-lhe desculpas por isso. - É só o que tem para me dizer? Que está arrependido?
- Não. Vim para dizer-lhe que, se me aceitar, poderemos nos casar, embora seus pais possam se opor.
- Por que se oporiam?
- Você sabe. Não pertenço à mesma classe social que vocês. - E isso lhe dá o direito de decidir por nós? Você disse que me amava. Beijou-me com paixão. Está arrependido disso também?
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Nico colocou a mão sobre o braço dela, dizendo nervoso: - Sabe, Amelinha, seus pais receberam-me nesta casa como um filho, e vocês me trataram como um irmão. Eu não tinha o direito de trair essa confiança. - Desde quando o amor acontece de acordo com as regras convencionais? Desde quando o amor entre duas pessoas livres e adultas é proibido? Se reconhece que o queríamos como se fosse da família, porque ocultou seus sentimentos e agora se envergonha deles? Será que esse amor não é uma ilusão? Será que não está confundindo nossa proximidade, nosso carinho, com amor?
- Você está sendo cruel comigo. Eu gostaria de sentir por você apenas um carinho de irmão, mas o que fazer se quando me aproximo de você meu corpo treme, sinto desejo de abraçá-la, de beijá-la, de guardá-la em meus braços para sempre? Como posso explicar o que sinto e como me foi difícil ocultar esses sentimentos por perceber que você não sentia a mesma coisa?
As lágrimas corriam pelo rosto de Amelinha, e Nico passou a mão pelo rosto dela como querendo enxugá-Ias e continuou:
- Estou fazendo você sofrer. Não queria isso.
Ela o fitou com os olhos molhados e rompeu em soluços. Nico não esperava por isso. Nervoso, abraçou-a dizendo:
- Não chore mais, por favor. Não posso vê-la assim.
Ela encostou a cabeça em seu peito e continuou soluçando. Ele alisava seus cabelos tentando acalmá-Ia. Por fim, Amelinha passou as mãos em seu pescoço, levantou sua cabeça e beijou os lábios dele, que inebriado retribuiu apertando-a de encontro ao peito, sentindo novamente dentro de si aquele turbilhão de emoções. Beijaram-se várias vezes. Nico estava trêmulo, emocionado. Notou que Amelinha, tanto quanto ele, não conseguia falar. Fez um esforço, tentou acalmar-se. Quando serenou um pouco, disse:
- Eu amo você, Amelinha. Não é pela proximidade, nem pelo fato de estarmos sempre juntos. É amor de verdade. Faz tempo que descobri isso. Mas me contive porque você nunca demonstrou sentir atração por mim.
- É que eu não sabia. Naquela noite, quando você me beijou, tudo ficou claro. Senti que o amava e foi por isso que o levei para meu quarto. Foi por amor! - Não está confundindo seus sentimentos, o carinho de irmão, a afinidade espiritual que sempre tivemos, com amor?
395 - Por que duvida de mim? Já lhe dei a maior prova que uma mulher pode dar. Depois, quando eu estava feliz, sonhando com nosso futuro, você foi embora sem uma palavra. Fiquei triste, cheia de dúvidas. Por que fez isso?
- Senti-me culpado. Achei que a tinha induzido a fazer o que fez. Pensei na bondade e na confiança de seus pais que eu tinha traído. Fui embora com o coração partido. Sofri muito todo esse tempo.
- E agora, por que voltou?
- Porque resolvi deixar de ser aquele menino pobre que sempre fui e assumir o que sou hoje. Como pessoa que tem um diploma, uma profissão, que conseguiu realizar seu sonho proporcionando conforto e bem-estar à sua família, que tem, além de muito amor e carinho, condições de formar uma família e sustentá-la. Vim para pleitear a conquista mais importante de todas. Casar-me com você.
Amelinha passou novamente os braços em torno do pescoço dele e beijou-o nos lábios com carinho. Depois se afastou um pouco e disse alegre:
- Agora está falando verdade. Sempre admirei sua postura firme, sua lucidez, sabendo o que queria da vida, trabalhando para conquistar seus objetivos de maneira clara. Por isso, quando se colocou abaixo de mim, falou de diferença de classes, não entendi. O importante é o que você é, o que conquistou, com esforço, trabalho, perseverança e boa vontade. - Você se casaria comigo?
- Depende.
- Do quê?
- De ver como encara esse casamento. Se for por amor, para ficarmos juntos toda vida, eu aceitaria; mas, se for apenas por causa do que aconteceu naquela noite, só para "reparar um erro", eu sofreria, mas diria não.
Nico abraçou-a, beijando delicadamente seus lábios.
- Passar o resto da vida com você é meu maior sonho.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Nesse caso, se me pedir, eu aceito.
Beijaram-se longamente. Depois ele disse:
- Bom, e agora? Terei de falar com seus pais.
- É o primeiro passo.
- Você acha que me aceitarão?
- Vai ter de descobrir. - Vendo que ele franziu o cenho preocupado, ela sorriu e continuou: - Do jeito que eles gostam de você, será fácil.
396
A porta do salão abriu-se e Eulália entrou. Vendo-os abraçados, parou surpresa. Foi Amelinha quem falou primeiro:
- Mamãe, Nico pediu-me em casamento e eu aceitei.
Eulália abriu a boca e fechou-a de novo sem saber o que dizer. Nico interveio: - Dona Eulália, nós nos amamos. Descobrimos isso há algum tempo. Por isso fui embora. Pensei que estava abusando da confiança que tanto a senhora quanto o Dr. Norberto depositaram em mim. Mas, lá longe, sozinho, sofrendo, resolvi lutar por esse amor. Por isso voltei. Estou aqui. Conversamos, e Amelinha garantiu que também me ama. Pretendia conversar com a senhora e o Dr. Norberto juntos e falar de meus sentimentos e do que eu posso oferecer para a mulher que for minha esposa. Porém, já que fomos surpreendidos, acho melhor abrir meu coração.
Eulália aproximou-se, olhando-os com interesse. Seus olhos brilhavam emocionados. Quando Nico se calou, ela disse:
- Fez muito bem, meu filho, em voltar. Se vocês se amam de verdade, se pensam em casar-se, têm todo o meu apoio. Para ser bem sincera, ultimamente o futuro de Amelinha tem me preocupado. Ela foi sempre ajuizada, mas o ambiente onde trabalha é muito liberal. Há pessoas de todos os tipos. Várias vezes Norberto e eu conversamos sobre isso, sentindo receio de que um dia ela se apaixonasse pela pessoa errada e viesse a sofrer. Nós a amamos muito. Ela é nosso raio de sol, com sua alegria e beleza. Deixá-la com você, a quem amamos e confiamos, é para mim uma grande alegria e até certo alívio. Nico esforçou-se por segurar as lágrimas que estavam prestes a cair, mas não conseguiu. Elas lhe desceram pelas faces. Eulália abraçou-os com carinho. - Sejam felizes, meus filhos. Tenho certeza de que Norberto vai concordar comigo. - Obrigado, Dona Eulália. Depois de tudo quanto recebi da senhora nestes anos todos, ainda tenho este presente. Só Deus pode pagar o que tem feito por mim. Desde já tem minha promessa de que tudo farei pela felicidade de Amelinha. Eu a amo muito. - Eu sei, meu filho. Para dizer a verdade, estou me sentindo muito feliz. - Hoje, quando o Dr. Norberto chegar, farei o pedido.
- Vou mandar fazer um jantar especial. Tenho certeza de que teremos muito a comemorar. Espere até Eurico saber! Ele vai ficar muito feliz. Estava reclamando tanto sua ausência. 397
- Também sinto falta dele.
- Vamos tomar um café na copa. Quero saber tudo exatamente como aconteceu. Abraçados e alegres, eles foram até a copa, sentaram-se ao redor da mesa, trocando idéias, planejando o futuro.
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Capítulo 29
O dia amanheceu lindo e todos na mansão acordaram cedo. Os empregados iam e vinham cuidando dos preparativos. Era o grande dia do casamento de Amelinha e Nico. Eles haviam decidido casar-se na igreja de Sertãozinho e depois a recepção seria na mansão. O ambiente era alegre e a expectativa grande.
Norberto e a família haviam chegado na véspera. Os preparativos foram feitos por Alberto e Liana. Nico chegara dois dias antes e hospedara-se na casa de sua família. A casa que Nico mandara construir era espaçosa, arejada, mobiliada com conforto. Ernestina não lavava mais roupa para fora, mas não havia parado de trabalhar. Fazia doces tão gostosos que em pouco tempo sua fama ultrapassou os limites da pequena cidade e várias pessoas que passavam por Sertãozinho paravam em sua casa para comprá-Ios. Nico mandava-lhe dinheiro todos os meses e José havia tomado gosto pela plantação e pela criação de galinhas, ganhava dinheiro e contribuía para as despesas.
Vendo a mãe às voltas com os doces na cozinha, Nico meneava a cabeça e dizia: - Você já trabalhou muito. Agora é hora de descansar.
Ao que ela respondia:
- Deus me livre de ficar preguiçosa! Não é do meu feitio. Depois, o Jaime já ajuda o Zé, mas a Nilce e a Neusinha não podem crescer sem trabalhar. Precisam aprender para valorizar a vida que têm. Você viu como elas já sabem fazer de tudo na cozinha? A Neusinha tem um gosto pra enfeitar os potes de doce que você precisa ver! Nico sorria feliz. Ele sabia que Ernestina nunca iria ficar sem trabalhar. O único que não havia mudado era Jacinto. Preso à sua cadeira de rodas, continuava mais do que nunca pendurado na família.
A princípio, mostrara-se revoltado com a nova situação e com a dieta que o Dr. Marcílio o obrigara a fazer. Reclamava de tudo, dizendo-se vítima da fatalidade. Ernestina, entretanto, não se deixou impressionar pelas lamúrias do marido. Traçou para ele férrea disciplina no cumprimento do tratamento médico e, sempre que ele se queixava, ela argumentava:
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- Queixar-se não vai melhorar o teu estado. A culpa do que te aconteceu é só tua. Não movimentava o corpo, comia muita gordura, e estragou a saúde. Depois, não quis fazer os exercícios que o médico mandou. Se tivesse feito tudo direito, teria voltado a andar. - Não tenho ânimo. Estou sofrendo muito.
- E se continuar assim vai continuar sofrendo. Não se esforça para melhorar! - Você não tem pena de mim.
- Não tenho mesmo. Você escolheu a tua vida. Nunca me ouviu. Agora me diga: por que eu tenho que ficar ouvindo as tuas queixas todo dia? Faz o favor de parar com isso! De agora em diante, toda vez que se queixar, deixo você sozinho. Cuido de você, mas não vou ficar me aborrecendo com as tuas reclamações. Eu e as crianças temos o direito de viver alegres dentro de casa.
Ela disse e fez. Aos poucos, Jacinto deixou de se queixar e nos últimos tempos chegava a participar das brincadeiras e da alegria dos filhos. Jaime tocava violão e os outros cantavam.
Nico sentia-se feliz observando o progresso dos irmãos e a alegria que reinava em sua família.
Na mansão, Eurico conversava com Alberto, dizendo de sua satisfação de ter Nico como cunhado.
- Para mim foi natural. Os dois não se largavam. Depois, Nico sempre teve uma queda por ela. Quando éramos crianças e brigávamos, ele sempre a defendia. Eu ficava louco de raiva. - Eles estavam destinados um para o outro. Anos atrás tivemos uma revelação sobre o passado de sua família. Eles se amavam desde aqueles tempos. - Puxa! Nunca ninguém me contou isso.
- Temos de ser discretos com as revelações de nossas vidas passadas. Há de se ter bom senso e não fantasiar. As pessoas costumam exagerar esses fatos e acabam desiludidas quando as coisas não acontecem como elas esperavam.
- Não se pode confiar nessas revelações?
- Não se trata disso. Ocorre que elas registram parte de alguns fatos do passado. Querer adivinhar o futuro é ilusão. No presente as coisas mudaram, as pessoas mudaram, as oportunidades são outras, além de haver o livre-arbítrio de cada um, escolhendo a todo momento.
- Mas você disse que estavam destinados um para o outro. Poderia ter se enganado. 400
- Poderia. Por isso nunca toquei no assunto. Mas, já que aconteceu, tenho certeza de que serão felizes.
Liana entrou na sala acompanhada de João Alberto.
- Vocês estão com fome? Vou mandar preparar um lanche. Alberto segurou-a pelo braço: - Não vá ainda. Sente-se um pouco conosco. Descanse. Está andando de um lado para o outro desde cedo.
Ela se sentou no sofá ao lado do marido e João Alberto ficou em pé do lado dela. - Por que não vai brincar com Rosa Maria? - indagou Liana - Quero ajudar você. - Já ajudou. Agora vá brincar. Vou descansar um pouco conversando com eles. - Por que não conversa comigo? Eles estavam conversando muito bem. Liana franziu o cenho.
- João Alberto, chega de ficar colado em mim. Acho que está na hora de tomar banho e se aprontar para o casamento. Aproveite que agora o banheiro está vazio. - Só se você for comigo para escolher a roupa que vou vestir. - Você está grande e sabe muito bem que vai vestir a roupa que compramos para o casamento.
- Eu só vou se você for comigo.
Liana levantou-se, dizendo:
- Vou com ele até lá em cima, mas volto logo.
Quando eles saíram, Eurico estava sério.
- O que foi? - indagou Alberto.
- O coronel Firmino. Continua o mesmo.
Alberto sobressaltou-se:
- Como assim? Você o viu?
- Sim. Hoje ficou bem claro.
- O quê?
Eurico respondeu:
- Ele agora se chama João Alberto, mas continua apegado a Liana. Seu filho é o coronel Firmino reencarnado. Penso que vocês já sabem disso.
- Já. Mas com o tempo nos esquecemos. Você tem razão: ele é muito apegado a Liana e tem muito ciúme dela. Tanto que evitamos nos abraçar sempre que ele está perto. 402
Quando ele era menor e nos via abraçados, chorava, tinha crises, suava frio. Por causa disso, diante dele temos evitado manifestações de carinho. - A reencarnação é um fato. Tenho estudado esses fenômenos e freqüentado uma sessão de estudos na casa de um professor meu.
- É bom ouvir isso. Nós também continuamos estudando e freqüentando as sessões do Dr. Marcílio.
- Gostaria de ir também, antes de voltar a São Paulo. - Boa idéia. Ele vai ficar muito feliz. E você, não pensa em se casar? - Por enquanto não. Quem sabe um dia, se aparecer alguém que valha a pena... Alberto sorriu malicioso. Eurico havia se tornado um rapaz bonito e simpático. Já havia notado que as mulheres olhavam para ele com interesse.
- Vai aparecer, estou certo. Está quase na hora. Acho que vou subir para me preparar.
- Eu também.
Quando Nico desceu do carro em frente à igreja da cidade, já o povo se aglomerava à espera.
Ele estava bonito, muito elegante, e os que o haviam conhecido desde criança olhavam-no com entusiasmo, admiração e respeito. Ele entrou procurando a sacristia. Minutos depois Eurico apareceu abraçando-o emocionado.
Aquele casamento era o acontecimento importante da cidade e o povo se comprimia lotando a igreja, olhando com curiosidade e alegria a beleza dos arranjos de flores dispostos em profusão e os candelabros com todas as velas acesas. Os convidados haviam chegado e lotavam os lugares que lhes foram reservados.
Nico olhava o relógio com certa impaciência e comentou: - Espero que Amelinha não atrase.
- O que é isso? Nunca vi você tão ansioso. Calma. Ela virá. Acha que o deixaria escapar? Está louquinha para agarrar você.
Logo depois Nico foi convidado para dirigir-se ao altar, onde o padre já se encontrava. Nico sentia-se muito feliz. Parecia um sonho, e intimamente ele agradecia a Deus tanta felicidade.
A música tocou, as portas principais abriram-se e Amelinha, de braços dados com o pai, entrou dirigindo-se a passos lentos até o altar, onde os membros das duas famílias já se encontravam.
Nico aproximou-se para receber a noiva e os dois postaram-se diante do padre, que imediatamente iniciou a cerimônia.
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A tarde estava linda e os presentes assistiam emocionados, vibrando pela felicidade do jovem casal.
Em um canto da igreja, um casal assistia emocionado, sem que ninguém os pudesse ver. Era o espírito de Anita, acompanhada por seu amigo Neves.
Quando a cerimônia terminou, os dois acompanharam os noivos até entrarem no carro que os levaria de volta à mansão. Neves perguntou: - Você deseja ir até lá?
- Não. Temos de voltar. Estou contente e aliviada. Sei que eles desfrutarão de um período de tranqüilidade e progresso. Finalmente conseguimos nossos objetivos. Helena está feliz em companhia de Amadeo e não há nada que os possa atrapalhar. Sou muito grata a você e ao grupo de Marcílio. Sem vocês, teria demorado mais e o sofrimento deles teria sido maior.
- Você sabe, Anita, como é o processo. Depende exclusivamente do esforço de cada um. Deus espera que as pessoas amadureçam para dar-lhes a felicidade. Nós os protegemos sugerindo bons pensamentos, idéias do bem, mas estamos proibidos de fazer a parte que lhes cabe.
Anita sorriu, seus olhos brilharam emocionados e ela respondeu com voz suave: - Eu sei, Neves. Embora a felicidade seja nosso objetivo maior, ainda não sabemos distinguir o falso do verdadeiro. Criamos ilusões, perseguimos objetivos falsos e colhemos sofrimentos. Mas é por meio deles que aprendemos a conhecer a vida, a melhorar atitudes. É possível que venhamos a nos enganar outras vezes. Esse é o preço do progresso. Apesar disso, meu coração está em paz por saber que, acima de todas as nossas falhas e até de nosso livre-arbítrio, está a vida nos protegendo, conduzindo nossos passos para o bem maior.
- A ansiedade atrapalha. As pessoas estão tão voltadas ao mundo material, não têm paciência de esperar, querem fazer tudo sozinhas. Não se ligam com a fonte de vida. Nem sequer percebem que um objetivo não alcançado, ao invés de ser um fracasso, pode ser uma ajuda. Em tudo só os valores verdadeiros permanecem. Assim, é preciso não esmorecer, fazer sempre o melhor que souber, confiar na sabedoria divina e esperar. - Essa é a lição que estou aprendendo agora. Há muito deixei a ansiedade. Decidi servir à vida, libertar minha alma das prisões do passado. Hoje consegui uma grande vitória. - Você mereceu, não se desesperou. Esforçou-se, trabalhou, soube esperar. 403
- É que eu sei que quem decide é a sabedoria divina, e ela, meu amigo, só faz acontecer quando chega a hora!
Neves sorriu, colocou o braço dela no seu e disse:
- Vamos embora.
Os dois deslizaram para cima, desaparecendo na distância. No céu, as primeiras estrelas começavam a brilhar, iluminando a Terra e revelando a grandiosidade do universo e o poder de Deus.
Fim
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Você terminou Quando Chega a Hora
Zibia Gasparetto