Quando Chega a Hora

Zibia Gasparetto · Capítulo 4 de 4 · parte 2/5

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Quando Chega a Hora

- Vou pensar. Boa noite.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

- Mas eu me sinto. Pensei que fosse desfalecer quando se aproximou de mim. - O que está lhe fazendo mal não é a presença do espírito do coronel mas as lembranças desagradáveis que ele desperta em você. Apesar do tempo decorrido, de haver esquecido detalhes de sua vida passada, as energias acumuladas naqueles dias ainda estão aí provocando desequilíbrio e dor. Você também aprendeu, sofreu, está agora desfrutando de uma ótima oportunidade de progresso, mas esses bloqueios energéticos a impedem de alcançar o equilíbrio. Por isso a vida está lhe trazendo a chance de limpar esses resíduos e libertar-se para poder progredir.

- Poderia explicar melhor, doutor? - pediu Liana.

- Quando você foi esposa de Firmino, ele foi violento, arrogante impiedoso. Era sua maneira de ser na época. Você talvez pudesse ter escapado, como fez sua filha, mas, seja pelo que for, não o fez. Ele a dominava pela força física, então você, sentindo-se impotente diante dele, acovardou-se, não assumiu a própria força.

- Como poderia? Ele era mais forte...

- Não falo da força física, mas da força interior que com certeza a faria encontrar uma forma de escapar. Você se acovardou, colocou-se na postura de vítima indefesa, alimentando o ódio como única forma de vingança.

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Não era ódio, mas mágoa.

- Se não fosse ódio, não estaria agora vivenciando essa experiência. Reconheça isso, mas não se culpe. Você reagiu como sabia naquela época. Precisa saber que os pensamentos cultivados durante certo tempo, aos quais damos força, nos quais colocamos grande dose de emoção, tomam forma, materializam-se no mundo astral. Ficam colados em nosso corpo astral e interferem em nosso dia-a-dia.

- Está falando das formas-pensamentos? - indagou Norberto com interesse. - Isso mesmo. Nas sessões espíritas, muitas vezes os médiuns julgam estar incorporando espíritos de pessoas desencarnadas que perturbam os presentes, mas estão recebendo apenas as formas-pensamentos dessas pessoas.

- Como podemos perceber quando isso acontece? - perguntou Eulália. - Se prestar atenção, perceberá a diferença. Um espírito desencarnado reage diferentemente. Tem mais personalidade. As formas-pensamentos revelam problemas emocionais armazenados durante certo tempo. São resistentes e repetitivas. - Interessante - tomou Alberto. - Nesse caso, um bom psicólogo também pode ajudar. - Pode, e a recíproca é verdadeira. Quantas vezes o psicólogo acredita estar trabalhando no paciente seus problemas emocionais e está doutrinando um espírito? Nenhum profissional das áreas humanas pode ser eficiente se desconhecer essas variáveis, porque elas interferem no processo.

- É o meu caso? - indagou Liana.

- É. A causa de seu mal-estar está em você, não na presença do espírito do coronel Firmino. Ele pode evoluir, ficar muito bem, espiritualizar-se, mas, se você não acabar com essas formas-pensamentos, sempre se sentirá mal com a presença dele. - Mas eu não desejo conservar essas lembranças. Quero esquecer. - Você deseja, mas continua a alimentá-Ias, ainda que inconscientemente.

- Não. Eu não as alimento.

- Você se sentia agredida. Ao invés de reagir e libertar-se, cultivou o medo, e é ele que ainda as está alimentando. Sempre que o coronel Firmino se aproxima, o medo reaparece tal qual era naqueles tempos, reforçando as formas-pensamentos que criou. No momento em que enfrentar o passado, vencer esse medo que a paralisa, você as estará destruindo para sempre, libertando-se.

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Então poderá olhar para o passado sem se sentir mal e para Firmino sem ódio. Liana, pensativa, baixou a cabeça por alguns instantes, depois disse: - Eu não sinto que o odeio. Só desejo livrar-me dele. Não haverá outra maneira de fazer isso? - Não. Ele já foi embora, mas você ainda está presa a ele. - É injusto. Se tudo isso aconteceu mesmo, eu fui a vítima. Não deveria ser punida duas vezes.

- Você se engana, Liana. Ninguém é vítima. Se a vida a colocou ao lado de um marido déspota e cruel, foi porque você precisava dessa experiência.

- Para quê? Só consegui sofrer e carregar até hoje esse peso. - Você colheu os resultados de suas atitudes. Foi o melhor que conseguiu fazer naquele momento. Entretanto, a vida é perfeita e não joga para perder. Se ela a colocou ao lado de um homem como Firmino, foi porque você já tinha elementos não só para enfrentá-Io, mas também para ajudá-Io a tomar-se mais humano, puxando para fora seu lado melhor. Entretanto tal não aconteceu. Você se acovardou, não usou todo o seu poder interior, não acreditou na própria força. Por isso o relacionamento entre vocês continua inacabado. Ainda há muitas coisas que um pode ensinar ao outro até que se libertem. O mais importante agora é que você pense em tudo que conversamos. Faça mais: peça a ajuda de Deus para que consiga ver claro e decidir.

- É o que farei. Alberto me ajudará, estou certa.

Ele a abraçou com carinho, beijando-a na face.

- Pode contar comigo. Estarei sempre a seu lado.

- Lembre-se que essas formas-pensamentos que você criou impedem que possa discernir com lucidez. Firmino mudou, mas você continua vendo-o como ele foi naquele tempo. Quando se livrar delas, conseguirá vê-Io como ele é agora e tomar uma decisão mais clara. Vamos nos acomodar, está na hora de nossa reunião.

Sentaram-se ao redor da mesa orando em silêncio. Marcílio fez uma oração comovida e depois disse:

- Hoje não vamos fazer os estudos de costume. Nossos amigos espirituais já estão presentes.

Na penumbra da sala iluminada apenas por suave luz azul, eles permaneceram em silêncio por alguns instantes. Depois, um dos presentes remexeu-se na cadeira inquieto e começou a falar:

- Hoje eu vim com a permissão dos amigos que estão me ajudando nesta casa. 320

Por isso peço que me escutem. É difícil encarar a verdade. Há momentos em que minha cabeça roda e tudo se embaralha de tal sorte que tenho receio de enlouquecer. Estou doente. Meu corpo está desgovernado e há momentos em que não consigo controlá-Io. Então, sinto-me inquieto. Vejo-me novamente em minha casa com minha família, sinto seu desprezo, Mariquita, e isso me fere fundo. Eu a amei desde o dia em que a vi. Em meu desespero, sinto medo de perdê-Ia e novamente a amarro no leito à noite para que não escape. Você chorava e me punia com seu ódio e eu sofria. E quanto mais sofria, quanto mais a dor me atormentava, mais eu a fazia sofrer, porque não era justo que eu, que desejava dar-lhe todo o meu amor, fosse tão machucado.

Ele interrompeu o discurso, porquanto os soluços o impediam de continuar. Depois de alguns-instantes ele prosseguiu:

- Mas tudo que fiz foi doloroso e inútil. Atormentou você, aumentou meu sofrimento, mergulhei na loucura. Passei anos dementado circulando pela casa que foi nossa, vendo-a em todos os cantos, sofrida e odiando-me cada vez mais. Às vezes, quando tinha momentos de lucidez, sentia sua falta, sabia que havíamos morrido, mas ficava ali, na esperança de que um dia você reaparecesse. Sempre ouvi dizer que quem morre descansa. Comigo não foi assim. Descobri que continuava vivo depois de meu corpo haver sido roído pelos vermes e que os sofrimentos continuavam.

Estou falando isso não para que você sinta pena de mim, mas para que possa saber que estou pagando caro por meus erros.

Quando você reapareceu em nossa casa, exultei. Tentei conversar, mas você não me ouvia. Com você, todos os outros vieram e me enfrentaram, apesar de estarem em um corpo de criança ainda. Eu não sabia bem o que estava acontecendo. Acreditava que todos se haviam disfarçado em outros corpos para poderem se vingar.

Havia momentos em que eu mergulhava no passado e acreditava que ainda estávamos vivendo naqueles tempos. Quando minha loucura estava no máximo, minha mãe aparecia, falava comigo e me acalmava. Eu dormia algum tempo, mas, quando acordava, o inferno recomeçava.

Depois que resolvi aceitar a ajuda que me ofereceram, fui recolhido a um hospital, e lá tenho sido tratado com consideração e carinho. Entretanto, meu tormento continua. Minha loucura reaparece e perco a noção da realidade. Quando o tratamento que recebo me tira desse estado e tenho como agora momentos de lucidez, sou orientado e procuro obedecer. Quero melhorar, sair desse estado de dependência mental que criei. Não culpo mais ninguém pelo que estou passando.

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Sei que a responsabilidade é só minha. Eu escolhi esse caminho e desequilibrei minha vida. Disseram-me que só a reencarnação pode abreviar esse tormento, oferecendo-me um corpo novo, um cérebro virgem para registrar e aprender novos valores para quando eu, aos doze ou treze anos, reassumir de todo minha personalidade anterior, já tenha desenvolvido elementos para reagir de outra forma aos desafios que a vida vai me trazer. Firmino fez ligeira pausa, depois prosseguiu:

- Terei uma boa chance se você, Mariquita, me aceitar como seu filho. Sei que desfruta agora de uma vida feliz e mais equilibrada ao lado de quem você ama. Eu mudei. Reconheço que não posso mandar em seu coração. Se me aceitarem, serei muito agradecido. Minha maior felicidade será apagar o mal que lhe fiz e conseguir sua estima. Agora preciso ir. Já abusei demais da bondade de vocês. Eu lhe peço: me dê a chance de voltar para aprender.

As lágrimas desciam pelas faces de Liana e ela estremecia de vez em quando, tentando conter os soluços que teimavam em querer sair.

No mesmo instante uma senhora ao redor da mesa começou a falar: - Boa noite, amigos. Vim agradecer de coração toda a ajuda que temos recebido. Gostaria de esclarecer algumas coisas com relação ao que está se passando aqui. - Pode falar - disse Marcílio. - Todos desejamos aprender. Ela continuou: - Firmino, como tantas pessoas ainda pensam, acreditava que a morte fosse o eterno descanso ou o eterno tormento no inferno. Posso adiantar que não é nem uma coisa nem outra. O progresso, a conquista da sabedoria trazem a serenidade e é ela quem leva à conquista de um estado de paz interior que muitos chamam de estado de graça, de elevação espiritual. Só alguns já alcançaram esse bem-estar; para a maioria, o estado de tormento é o mais comum. A morte do corpo muda o cenário externo e torna mais vivo o mundo interior. Entretanto, o mais importante e que poucos sabem é que tanto um quanto outro estado de espírito é criado pela própria pessoa.

Suas atitudes, suas crenças, sua maneira de olhar os fatos do dia-a-dia, à medida que vão se tornando importantes para a pessoa, vão sendo materializadas em seu mundo mental, criando formas que têm vida astral e conservam as emoções e idéias que as caracterizam. Damos a isso o nome de formas-pensamentos. Todas as pessoas que vivem no mundo as têm alimentado e a maioria infelizmente tornou-se prisioneira delas. 322

São responsáveis por muitos desacertos humanos, e depois da morte do corpo elas continuam a atormentar seu criador, que muitas vezes consome larga cota de tempo no umbral, lutando com elas, acreditando que sejam seres astrais, sem saber que está em suas mãos modificá-Ias, substituindo-as por outras mais otimistas, melhorando sua qualidade de vida.

Por isso aconselhamos os exercícios de pensamentos positivos, os bons pensamentos e a crença no bem maior.

Essa é a causa da loucura de Firmino. Ele criou, alimentou tantas ilusões, e agora vive prisioneiro delas. Já sabe a verdade, mas ainda não consegue fazer a mudança. O medo é um elemento destrutivo e muito forte que o impede de libertar-se. Devo esclarecer que essas formas estão materializadas no mundo astral e precisam ser desfeitas. Só a própria pessoa pode fazer isso. Claro que nossos terapeutas ajudam e nossos benfeitores espirituais cooperam mandando energias de sustentação e auxílio. Mas é só o que podem fazer.

Cada um precisa aprender a lidar com as energias e descobrir como a vida funciona. Por isso ninguém faz a parte que lhe cabe. Apenas ajudam, esperando que a própria pessoa a faça. Está na hora de falarmos sobre isso. Agora tenho de ir. Se tiverem alguma pergunta, na próxima reunião tragam-na, que procuraremos responder. Até breve. Marcílio fez ligeira prece de agradecimento e encerrou a sessão. Enquanto tomavam seu copo com água, os presentes comentavam com interesse os ensinamentos. Havia muita curiosidade. Já tinham ouvido falar das formas-pensamentos, mas não sabiam que podiam ser tão importantes e que influenciavam tanto a vida de cada um. Liana estava calada e pensativa. As palavras de Firmino haviam-na impressionado muito. Teria sido ele mesmo quem falara? Parecia-lhe tão diferente do Firmino que ela conhecia, sempre ameaçador e agressivo. Comentou com Marcílio: - Foi o espírito do coronel Firmino que se comunicou mesmo? O senhor o viu? - Sim. Foi ele. Qual é a dúvida?

- É que ele veio tão humilde, diferente. Não se parece nada com o coronel que conhecemos. - Com o coronel que você tem em sua mente - esclareceu Marcílio. - Pense em tudo quanto ouviu esta noite. Ele mudou, mas você ainda o vê como ele era. Sua reação é esclarecedora. Fique atenta e vai perceber o que está acontecendo.

Liana calou-se. Depois do café com bolo costumeiro, despediram-se. 323

Enquanto Eulália e Norberto conversavam sobre as revelações e os ensinamentos daquela noite, Liana seguiu com o marido para casa, calada. Alberto, por sua vez, impressionado com tudo que ouvira, não sentia vontade de comentar. Queria observar melhor, experimentar, saber o que havia de verdade em tudo aquilo.

Capítulo 23

O tempo correu rápido e as férias da família estavam terminando. Encorajada pelo marido e por Eulália, Liana voltou a freqüentar a mansão. A princípio temerosa, mas notando que nada de novo acontecia, foi ficando mais à vontade.

Havia também Norberto, cuja atitude para com ela se modificara inteiramente. Nunca mais o surpreendeu olhando-a como antigamente. Tratava-a com respeito e amizade, e ela notava com satisfação que ele estava se dedicando mais à esposa e aos filhos, interessando-se mais em participar da vida familiar. Contente, comentou com Alberto, que concordou: - Tenho observado também que Eulália mudou bastante. Eles conversam muito mais que antes. Estão mais unidos. Notou como ele a ouve com satisfação? Troca idéias com ela até sobre seus negócios. Pelo que observei deles, não era assim antes. Não mesmo. Sempre foi atencioso, cuidou da família, mas eu sentia que entre eles havia certa distância. Talvez porque ele soubesse que Eulália se casou sem amor, apenas para obedecer aos pais.

- Quero crer que muitas coisas aconteceram também por influência do coronel Firmino. - Falando assim, dá a impressão de que nós não fomos culpados. Isso não é verdade.

- Cada um tem sua parcela de responsabilidade. Contudo vocês não entendiam nada sobre espiritualidade. Nem sequer acreditavam na possibilidade de serem influenciados por um espírito desencarnado. Isso fez com que ele pudesse envolvê-Ios sem ser notado, o que o colocou em vantagem. Norberto sentia-se atraído por você, Firmino aproveitava-se transferindo para ele sua paixão, deixando-o enlouquecido. Ele sentia e acreditava que esse sentimento fosse dele.

- Acha mesmo que foi isso?

- Acho. Ele mudou depois que Firmino foi afastado. Quer prova maior? - Tem razão. Agora percebo que o que houve entre nós foi uma grande ilusão. Felizmente consegui reagir. Tenho pensado muito nisso. A cada dia que passa fico consciente de como somos diferentes. Ele não é o tipo de homem por quem eu me apaixonaria. 325

- E eu, tenho chance de ser esse homem?

Liana abraçou-o, beijando-o nos lábios com amor.

- Você é exatamente o meu tipo.

Alberto apertou-a nos braços, sentindo que ela estava dizendo a verdade. A cada dia, mais eles notavam o quanto se queriam.

No sábado eles foram cedo para a mansão. Eulália queria passar o dia inteiro com eles. - É nosso último fim de semana aqui. Segunda-feira voltamos para São Paulo. As aulas das crianças começarão logo. Temos de preparar tudo para a volta à escola - pedira Eulália. O dia estava bonito e eles passaram momentos agradáveis. As crianças brincaram no jardim o dia inteiro. No fim da tarde, entraram contrariadas para tomar banho enquanto Hilda insistia para que se apressassem.

Liana comentou contente:

- Veja só, Eulália, Eurico está incansável. Estou admirada. O dia inteiro correu, brincou sem se cansar. Comeu de tudo com apetite. Olhando-o agora, não dá para acreditar que tenha sido tão doente.

- Todos os dias agradeço a Deus sua cura. De vez em quando ele ainda tenta me comover fingindo-se de doente. Olho seu rosto corado, e percebo logo sua intenção. Não me deixo influenciar e ele acaba se traindo. Depois, Nico e Amelinha caçoam tanto que ele acaba rindo e acaba o mimo. O jantar decorreu alegre. As crianças recolheram-se cedo. Pretendiam aproveitar ao máximo o domingo, já que era o último dia de férias. Nico acomodou-se e dormiu logo. Acordou com Eurico sacudindo-o: - Nico! Nico! Acorde! Sonolento, ele balbuciou:

- O que foi? O que aconteceu?

- Ele voltou, Nico. Acorde. Mande-o ir embora.

- Ele quem? O que foi?

- O coronel Firmino.

- De novo? Perguntou o que ele quer agora?

- Eu? Não. Sem você não falo com ele.

Nico sentou-se na cama:

- Onde ele está?

- Aqui. Olhe, nos pés de sua cama. Vou deitar com você... Ele pulou na cama e cobriu a cabeça com o lençol.

- Deixe de ser medroso. Você não disse que ele está mudado e que não sentia mais medo dele?

- Eu disse, mas agora estou sentindo...

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Nico olhou para os pés da cama e, embora não visse nada, disse sério: - Por que você voltou? O que quer?

Como Eurico não dissesse nada, Nico tornou:

- Então, Eurico, o que foi que ele respondeu?

- Ele não disse nada. Está muito triste e abatido. Parece doente. - O senhor não está bem? Nós podemos ajudar em alguma coisa? - indagou Nico.

- Ele pede para rezarmos por ele. Agora aquela senhora bonita chegou. Está do lado dele e sorri para mim.

- Nós vamos rezar por você, coronel Firmino. A senhora pode nos dizer alguma coisa? - Ela abraçou o coronel com carinho e disse: - Precisamos da ajuda de vocês.

- O que podemos fazer?

- Dar um recado meu a Liana.

- Pode falar.

- Ela quer que você escreva.

Nico acendeu a luz do abajur, procurou papel e lápis, sentou-se na cama e descobriu a cabeça de Eurico:

- Você disse que não tem medo dela.

- Ela me deixa sentir muito bem. Parece que estou flutuando. Além disso, tem um perfume agradável. Está sentindo?

Nico aspirou o ar e disse alegre:

- Estou. Parece de jasmim.

- Isso mesmo. Ela está sorrindo. É linda! Você não está vendo? - Não. Mas estou sentindo o perfume.

- Escreva: "Querida Liana. Preciso muito de sua ajuda. Vou procurá-Ia durante o sono para conversarmos. Tenho certeza de que juntas venceremos. Um beijo da amiga de sempre, Amália".

Eurico fez silêncio por alguns instantes, depois continuou: - Ela está abraçando você. Puxa, como ela é linda! Seu rosto parece de porcelana. Ele se calou e de repente começou a chorar. Assustado, Nico abraçou-o perguntando: - O que foi, Eurico? Por que está chorando?

Ele não respondeu logo. Continuou soluçando e Nico olhava-o preocupado. Quando ele se acalmou, disse:

- É que ela me abraçou, beijou a testa e eu senti uma emoção muito forte. Não sei explicar. Não consegui segurar.

Nico respondeu comovido:

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- Eu também senti. Parecia que eu estava flutuando, como você disse. Nunca senti isso antes. Puxa, que mulher!

- É mesmo. Ela desapareceu e levou o coronel. Precisamos contar para tia Liana. Que horas são?

- É tarde. Passa da uma. Amanhã entregamos o bilhete. É melhor irmos dormir. - Ainda me sinto flutuando. Acho que não vou conseguir dormir logo. Fiquei muito emocionado.

- Eu também. Vamos ficar conversando. Quando vier o sono, você vai para sua cama e pronto.

- Às vezes fico pensando: como será a vida no outro mundo? - O professor disse que há muitos mundos e cada pessoa vai para O lugar que precisa. Acho que o mundo onde vive essa mulher deve ser muito lindo, cheio de flores e perfumes. Se ela aparecer de novo, vamos perguntar como é lá. Será que ela conta?

- Acho que sim. Ela parece tão boa. Dá vontade de ficar ao lado dela. - Mas você estava com medo. - Não era bem medo. É que eu começo a tremer, sinto arrepios, não sei explicar. Já o mundo do coronel deve ser triste. Ele parece tão deprimido. Está acabado. Olhos tristes, rosto abatido. Queria que você visse como ele está diferente. - Você lembra que o professor explicou que quem morre vai viver no mundo que ele mesmo fez durante a vida? Se fez muitas coisas ruins, está triste, doente, assim será o mundo em que irá viver. Se foi alegre, ficou no bem e viveu contente, viverá em um mundo onde as pessoas também são assim.

- Ainda bem que eu sarei. Vou me esforçar para ser sempre alegre e ficar no bem. - Eu também.

- Acha que vou conseguir?

- Tenho certeza. Principalmente se deixar de fingir de doente para enganar sua mãe. Já pensou se a doença volta?

- Deus me livre! Agora posso brincar, ir à escola como qualquer um. Nunca mais vou fingir de doente.

Nico riu e considerou:

- Veja bem o que está dizendo. Se esquecer, farei tudo para você se lembrar. Na manhã seguinte eles acordaram com Amelinha batendo na porta do quarto de Eurico: 328

- Abra a porta, Eurico. É tarde.

Foi Nico quem acordou primeiro e ouviu. Eurico ainda estava em sua cama, dormindo. - Acorde, Eurico. Amelinha está chamando.

Ele abriu os olhos e fechou-os novamente:

- Estou com sono. Ontem custei a dormir.

- Eu sei. E você nem foi para sua cama. Já pensou se a Dona Eulália souber? Trate de acordar e vá para o seu quarto.

Ele se levantou contrariado, e como Amelinha insistisse, batendo em sua porta, foi abrir:

- O que você quer cedo desse jeito?

- Passa das nove. O dia está lindo. Hoje é nosso último dia aqui. Precisamos aproveitar. Depois, mamãe mandou chamar vocês dois. A mesa do café não pode ficar posta o dia inteiro esperando.

- Está bem... eu vou. Pode ir agora.

Amelinha não foi. Ficou esperando até que ele estivesse pronto para descer. Nico entrou no quarto, dizendo:

- Não esqueça o bilhete para a Liana.

- Que bilhete? - indagou Amelinha.

- Como você é curiosa! Vai saber quando chegar a hora.

- Foi um recado daquela mulher bonita que aparece com o espírito do coronel Firmino. Ela quer que entreguemos para Liana - esclareceu Nico.

- Por que não me chamaram? Vocês ficaram conversando e não fiquei sabendo de nada!

- Não era com você que ela queria falar. Vamos descer, que mamãe está esperando, - Vamos. Depois eu mostro a você.

Eles desceram e Eulália já os esperava. - Pensei que fossem se levantar mais cedo para aproveitar o dia. O sol está alto. Acho que ficaram conversando no quarto até tarde.

- Não, Dona.Eulália. Nós dormimos cedo. Estávamos cansados. É que no meio da noite recebemos visitas - respondeu Nico.

Eulália olhou-os surpreendida:

- Visitas? Como assim?

- O coronel Firmino voltou - disse Eurico.

- Por que não nos chamaram? Ele tentou algo contra vocês? Eles relataram o que havia acontecido e mostraram o bilhete que Nico escrevera para Liana. 329

Quando Liana e Alberto chegaram, eles já os esperavam no jardim para contar a novidade. Com mãos trêmulas, Liana apanhou o bilhete e leu. - Amália! É esse o nome dela! Que estranho.

- Você se emocionou. Ela é sua conhecida? - indagou Alberto. - Não. Mas ao ler esse bilhete senti que ela me é muito familiar. Parece-me haver retomado alguma coisa de minha vida, mas não sei o que é. - Tudo indica que seja sua amiga de outras vidas. - Ela é tão linda! Quando ela conversar com você, verá como ela é. Além disso, tem um perfume delicioso. Nico também sentiu disse Eurico.

- Senti. Parecia de jasmim. Fiquei emocionado.

- Será que ela é uma santa? - indagou Amelinha. - Eu também queria ver! - Deve ser um espírito bom e iluminado - esclareceu Alberto. - Iluminada ela era -lembrou Eurico. - Em volta dela havia muita claridade e seus olhos eram brilhantes como estrelas. Nunca vi ninguém assim.

- Isso nos deixa felizes - tornou Alberto. - A proximidade de um ser como esse traz energias superiores que nos fortalecem e ajudam.

Liana ouvia calada. Depois considerou:

- Ela disse que vai me procurar durante o sono. Será que vou me lembrar de nossa conversa quando acordar?

- Não sei. A maior parte das experiências que temos quando nosso espírito se desliga durante o sono se apagam de nossa consciência quando retomamos o corpo físico, porém ficam registradas em nosso inconsciente, de onde continuam nos influenciando. É comum pretender mos resolver algum assunto de certa forma e no dia seguinte acordar com uma idéia completamente diferente da anterior.

-Se ela vier mesmo conversar comigo, gostaria de estar consciente e me lembrar de tudo. - Às vezes isso acontece. Vamos esperar para ver.

As crianças foram brincar e eles entraram na casa onde Norberto e Eulália já os esperavam. Claro que a conversa girou em torno do bilhete de Amália e de como seria possível o encontro dela com Liana.

À tarde, quando o Dr. Marcílio e Adélia chegaram para o chá de despedida com os amigos, foram logo informados do que acontecera. Com naturalidade ele comentou: - Vocês têm muita ajuda espiritual, Liana. Com essa proteção, tenho certeza de que vencerão todos os problemas do passado.

330 - Gostaria de ter essa certeza - respondeu Liana. - Há momentos em que me sinto tão insegura.

- Às vezes você não acredita na própria força e sente-se fraca. Essa é sua maior ilusão. Por haver se enganado em algumas escolhas que fez em sua vida, julga-se errada e culpa-se. Daí se ilude acreditando-se incapaz e fraca, o que não é verdade. Coloca-se na posição de vítima da própria incapacidade e subestima suas qualidades reais. Vem o medo, a insegurança, a infelicidade. É preciso sair disso, Liana. A vida está escolhendo você e dizendo que é hora de enfrentar seus medos. Ela não joga para perder. Sabe que você é forte e capaz de vencer todos esses desafios. Por que não confia no que ela está lhe pedindo?

- Será que estou pronta para fazer isso? Não estarei sendo provada para ver se consigo melhorar?

- A vida não está testando você. Ela sabe que é capaz. Quer apenas que você perceba isso, o que só vai acontecer quando decidir enfrentar todas as coisas, guiando-se apenas pelo seu bom senso e pela sua confiança em Deus. Você já possui conhecimento espiritual suficiente para viver melhor.

- Não penso assim. Faz tão pouco tempo que estou estudando esse assunto! - Não falo de conhecimento técnico, nem do que se pode conhecer através dos livros e das experiências de outros, mas da sabedoria da alma. Você já possui conhecimento do que é bom ou mau para você. Sente quando está agindo bem ou não. Você está tão consciente da ética espiritual que qualquer deslize a incomoda terrivelmente. Isso demonstra o grau de lucidez que seu espírito já tem. Você é completamente capaz de levar a bom termo toda a sua missão terrena, por mais difícil que ela lhe pareça agora. - O senhor se refere ao caso do coronel Firmino?

- Falo de um modo geral. Não pretendo induzi-Ia a tomar nenhuma decisão. Só desejo que tome consciência de sua própria força e não se julgue menos do que é. Norberto ouvia calado e recordava-se de como Liana fora mais forte do que ele naqueles momentos de desequilíbrio que tinham vivido. Sentia horror só em pensar o que teria sido de suas vidas se ela houvesse aceitado fugir com ele. Fora a força dela que os salvara. Embora ela tenha fraquejado, sua consciência reta, seu bom senso fizeram-na recuar a tempo de evitar um mal maior.

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Agora, havendo modificado sua forma de ver, estava convencido de que ela sempre estivera certa, e agradecia a Deus por isso. Ele era um homem que valorizava a família. Adorava os filhos. Queria ser respeitado por eles. Gostava de desfrutar da calma familiar. Odiava escândalos e situações dúbias. Além disso, descobrira outras qualidades em Eulália e até não acreditava muito que ela houvesse se casado com ele sem amor. Ela era tímida. Fora educada com rigor, por isso encobria seus sentimentos. Sentia vergonha de mostrá-Ios. Foi lhe ensinado que a mulher precisava manter-se controlada para não parecer vulgar e leviana.

Olhou para ela, que, sentada ao lado de Liana, prestava atenção ao que o médico e ela conversavam. Lábios entreabertos, olhos brilhantes, postura firme, rosto expressivo, toda a sua aparência revelava que ela não era uma mulher fria.

E se ele a provocasse? E se ele tentasse penetrar e conhecer as profundidades daquele coração? Sempre respeitara sua intimidade agindo de acordo com a postura dela. Mas agora se perguntava se isso fora bom. Ele precisava fazê-Ia sentir o calor de um relacionamento mais verdadeiro, sem máscaras nem fingimentos.

Ele era um homem ardente. Desde jovem aprendera que no trato com as mulheres precisava manter diferentes posturas, conforme a posição delas. Com a esposa não podia ser venal como com as amantes. Uma era a mãe dos filhos, a mulher de família. Com as outras ele poderia dar vazão a todas as fantasias amorosas.

Entretanto, Norberto descobrira que o que o fazia feliz seria realizar com a mulher escolhida um relacionamento franco, sem papéis sociais ou preconceitos. Nunca havia sido feliz levando vida dupla. Se por um lado com a esposa continha seus impulsos amorosos com receio de ofendê-Ia, com as outras não se sentia bem. Quase sempre, depois de alguns encontros, acabava indiferente e entediado, com raiva de si mesmo. Depois da experiência com Liana, do sofrimento daquela desastrada paixão, havia decidido renunciar para sempre esse seu desejo secreto de uma vida regular e plena com uma mulher. Acreditara ser impossível em uma sociedade falsa e tão conturbada realizar esse sonho.

Diante disso havia decidido viver para a família e aceitar os limites da relação íntima com a esposa. Mas o fato é que a descoberta do mundo espiritual, os acontecimentos que os envolveram, os aproximaram muito, tornando-os mais íntimos. Com isso descobriram um no outro qualidades e atitudes que não tinham observado antes. Passaram a sentir prazer em conversar, em estar juntos.

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Para Norberto, Eulália havia se tornado uma nova mulher, mais natural e atraente. Haviam modificado a forma quase cerimoniosa com a qual se tratavam até na intimidade. Havia momentos em que ele chegava a esquecer como ela era antes e a abraçava com prazer.

Depois que todos se foram, havendo combinado que Liana e Alberto voltariam na segunda-feira para despedir-se, Norberto comentou:

- Gostaria de poder ficar mais um pouco por aqui.

- Eu também. Sentirei saudade de Liana, apesar de ela estar muito feliz com o marido e não precisar mais de mim.

- Ela valoriza muito sua companhia.

- Eu sei. Gostaria que ela fosse morar mais perto de nós. Mas parece que ambos gostam daqui e não pretendem voltar à capital.

- É compreensível. Isto aqui é um paraíso. Depois, Alberto é um escritor. Pode viver em qualquer lugar.

Depois de verificar se tudo estava fechado, Eulália perguntou: - Você quer alguma coisa antes de subir?

- Não, obrigado.

Ele se levantou e ficou ao pé da escada esperando. Quando ela se aproximou, ele passou o braço sobre seu ombro para subirem juntos. Eulália estremeceu e ele notou que seu rosto se ruborizou.

Norberto não controlou a curiosidade e pensou: como seria Eulália sem o rígido controle de sempre? Que tipo de mulher se ocultaria atrás daquela postura habitual? Estava decidido a descobrir.

Assim que entraram no quarto, Norberto fechou a porta e, aproximando-se dela, apanhou sua mão e puxou-a apertando-a de encontro ao peito.

Ele notou que ela estava trêmula e sua respiração agitada. Ela sentiu que ele estava diferente. Em seus olhos havia um brilho que ela nunca vira antes. Seu coração descompassou.

Seu relacionamento íntimo com o marido sempre fora embaixo dos lençóis, na escuridão do quarto, e ela ficava o tempo todo esforçando-se para controlar as emoções, preocupada em não o desagradar e não ser vulgar.

Norberto procurou os lábios dela beijando-a com ardor várias vezes. Depois, apertando-a de encontro ao peito, beijou com carinho todo o seu rosto, seu pescoço, como nunca fizeram antes.

Eulália sentiu calor pelo corpo, enquanto uma emoção antes nunca sentida a invadia impedindo-a de raciocinar. Só sabia que queria que ele continuasse a apertá-Ia em seus braços e a beijá-Ia.

Sem pensar em mais nada, entregou-se à emoção.

333

Quando ela o apertou em seus braços tomada de paixão, Norberto sentiu que naquele momento ela estava se revelando, sem reservas, mostrando seus verdadeiros sentimentos de amor.

Então, inesperadamente ele foi tomado de deliciosa sensação. Ela era sua mulher e eles eram livres para amar. Entusiasmado, ele murmurou em seu ouvido: - Eulália, meu amor. É assim que sonhei ver você. É assim que eu quero que seja em meus braços.

lnebriada de felicidade, Eulália deixou-se conduzir para a cama, encantada com o carinho que ele demonstrava, cobrindo-a de beijos, despertando seus sonhos adormecidos e suas mais loucas fantasias de felicidade.

Naquela noite, finalmente, os dois se conheceram intimamente e se encontraram. No dia seguinte, quando Liana e Alberto chegaram para as despedidas, notaram que eles estavam diferentes. Havia um brilho novo nos olhos de Eulália, e Norberto rodeava-a de pequenas atenções, o que não era de seu feitio.

Vendo-se a sós com Eulália enquanto ela arrumava as malas no quarto, Liana comentou: - Você hoje está diferente. O que foi?

- Nada. Está tudo bem.

- Há um brilho novo em seus olhos. Não sei o que é, mas você está radiosa. Está contente porque vai nos deixar?

- Não diga isso nem de brincadeira. Sabe que eu gostaria que vocês fossem morar bem do nosso lado. Vamos sentir saudade, isso sim.

- Eu também. Adoro essas crianças. Nunca vi ninguém como eles. Mas, se não é a viagem de volta que a deixou alegre, o que é? Eulália sentou-se na cama e deu profundo suspiro. Vendo que Liana a olhava curiosa, esclareceu:

- Para você posso contar. Norberto ontem estava particularmente carinhoso. Nunca o vi assim. Vou confessar uma coisa. Eu amo meu marido. Amo muito. Agora entendo por que você saiu de casa para casar com Alberto. Se sentiu o que eu senti esta noite, não dava para segurar.

Liana sorriu com satisfação. Sentia-se aliviada em saber que Norberto finalmente se dera conta do amor que sentia pela esposa. Seu pesadelo havia finalmente acabado para sempre. - Não há nada que se compare a uma noite plena de amor. Percebi logo ao chegar que Vocês estavam iluminados.

- Eu ouvia falar de amor, imaginava que fosse fantasia. Mas eu senti a força desse sentimento e vi que ele também sentia. Foi maravilhoso. Ele me parece outro homem. 334

- E você é outra mulher. Mais humana, mais experiente. Que Deus a conserve sempre feliz como hoje.

- E vocês também. Que sejam sempre felizes como até agora. Norberto estava chamando e perguntando se podia mandar apanhar as malas. Eulália apressou-se a responder.

As crianças faziam mil recomendações ao caseiro para cuidar dos passarinhos, não lhes deixando faltar água com açúcar que eles se habituaram a procurar no caramanchão e comida para que se fartassem.

Chegou a hora das despedidas. Abraçando a irmã, Eulália tinha lágrimas nos olhos quando disse baixinho a seu ouvido:

- Vou sentir sua falta. Você me ajudou a perceber muitas coisas e a aprender a ser feliz sem medo. Sua coragem de defender seu amor por Alberto impressionou-me muito, confesso. - Também sentirei saudade. Desejo que seja sempre feliz. Não tenha medo de amar, de mostrar seus sentimentos. Vocês se amam. Aproveite as alegrias do amor correspondido - murmurou Liana emocionada.

Norberto aproximou-se dela, abraçando-a e murmurando: - Obrigado, Liana. Você me ajudou a encontrar a verdadeira felicidade. Sempre lhe serei grato. Que Deus a abençoe.

Ela não respondeu. A emoção era grande e não encontrou palavras. Quando os carros sumiram na curva da rua, Alberto abraçou-a com carinho. - Você se emocionou. Vamos sentir falta deles.

- Estou feliz. Finalmente eles compreenderam que se amam e estão felizes. Agora posso ficar em paz.

- Eu notei que eles estavam diferentes. Norberto estava mais falante, seus olhos brilhavam e estavam sempre procurando por Eulália. Você está certa. Ele descobriu seu amor pela esposa e ela correspondeu. Que bom.

- Apesar de ter percebido que o interesse dele por mim havia terminado, de vez em quando eu ainda me sentia culpada pensando que por minha causa, por haver despertado essa louca paixão no coração dele, eu havia roubado algo de minha irmã. Hoje, ao despedir-se, ele murmurou palavras a meu ouvido que me devolveram a paz. - O que ele disse?

- Agradeceu e abençoou-me. Disse que eu o ajudei a encontrar a verdadeira felicidade. Eu compreendi. Senti que ele percebeu a loucura que estava cometendo quando quis deixar a família e fugir comigo. Como eu o repudiei com firmeza, ele agora percebe o quanto foi boa minha atitude. Ele estava descontrolado. Eu consegui colocar cada coisa em seu verdadeiro lugar. Eles estão bem, graças a Deus.

335 - A Deus e a você. Ele está certo. Você, apesar de perturbada, teve o bom senso de reagir. Hoje ele sabe que, se continua a ter uma vida familiar tranqüila, foi graças a você. - E à ajuda espiritual, não se esqueça.

- Nunca vou esquecer. Sem falar que eu fui o maior beneficiado. Se você não tivesse vivido aquela situação em casa, talvez nunca viesse a aceitar-me para marido.

Ela riu com gosto.

- Você teria conseguido de qualquer jeito. Nós estávamos destinados um para o outro. Não foi o que os espíritos disseram?

- Ainda bem. O que seria de minha vida sem você?

Abraçados e alegres, eles foram para o carro conversando com animação. O momento era de calma e de paz, eles queriam aproveitar.

336

Capítulo 24

Liana acordou indisposta.

- O que foi? - indagou Alberto, preocupado com a palidez de seu rosto. - Não sei. Acho que comi alguma coisa que me fez mal.

- Melhor irmos ver o Dr. Marcílio. Você comeu o mesmo que eu. Não havia nada pesado.

- Isso não é nada. Vai passar logo.

Ela se levantou e foi ao banheiro lavar-se. Era o primeiro domingo de maio. A manhã estava fresca, agradável. Quando ela se sentou à mesa para o café, Alberto notou que as cores haviam voltado a seu rosto e sorriu.

- Sente-se melhor?

- Sim.

- Em todo caso, falaremos com o Dr. Marcílio.

- Não é preciso. Estou muito bem. O cheiro do pão fresco despertou meu apetite. Comeu com disposição, porém nos dias que se seguiram ela acordava sentindo-se enjoada. Alberto convenceu-a a procurar o médico. Ele a examinou cuidadosamente e indagou: - Acorda indisposta, mas logo depois passa?

- É.

- Você está muito bem de saúde. Mas preciso fazer um exame. - Exame? - estranhou ela. - Sim. Acho que está grávida.

Liana levantou-se assustada:

- Grávida? Acho que não. Minha menstruação não está atrasada. Marcílio sorriu e respondeu:

- Há mulheres muito sensíveis que podem sentir a gravidez no momento da fertilização do óvulo.

Liana olhou para Alberto indecisa. Sempre desejara ter filhos, mas, depois que soubera do pedido do coronel Firmino para reencarnar através dela, evitara pensar no assunto. Alberto abraçou-a emocionado. Ele não tivera filhos do primeiro casamento. 337

O médico olhou-os com satisfação e esclareceu:

- Compreendo a emoção de vocês. Já presenciei muitos nascimentos, mas o milagre da vida sempre me emociona. Você me parece preocupada. Não está feliz? - Sempre desejei ser mãe. Contudo, nestas circunstâncias, sinto receio. - Você está muito bem de saúde e na idade boa para ser mãe. Do que tem medo? Ela hesitou um pouco e depois respondeu:

- Do coronel Firmino. Será que é ele que vai nascer?

- É cedo para saber - disse o médico.

- Não deve preocupar-se com isso, Liana. Deus sempre faz tudo certo - interveio Alberto. - Bem, não pensei que fosse acontecer assim, de repente. Os espíritos disseram que ele só nasceria se eu o aceitasse. Nunca sonhei com ele, não me recordo de havermos conversado e de haver concordado em ser sua mãe.

- Nesse caso, pode não ser o espírito dele que vai nascer. Não acha, Dr. Marcílio? - Pode ser. Entretanto, o mais importante é reconhecer que a vida não erra. Se ela programou esse nascimento, tudo está certo e você não deve preocupar-se. Vamos fazer o exame e confirmar a gravidez. Depois, é cuidar-se bem e esperar o bebê com alegria. Isso é o que importa agora. No caminho de volta para casa, Alberto não escondia o entusiasmo. Vendo sua alegria, Liana animou-se.

- Vou telefonar para Eulália. Ela será a primeira a saber.

- Estou pensando na casa. Vamos precisar de mais um quarto. O que acha de procurarmos uma maior?

- Não sei. Gosto tanto de nossa casa... Vamos esperar um pouco mais para decidir. Eulália vibrou com a notícia!

- Que maravilha! Como se sente?

- Por enquanto bem. Um pouco enjoada de vez em quando. - É natural. Meu primeiro sobrinho! Faço questão de comprar um enxoval completo para ele. O mais lindo que encontrar.

- Ainda é muito cedo, Eulália.

- Qual nada. O tempo passa depressa.

- Alberto quer procurar uma casa maior, mas eu gosto tanto da nossa que ainda não decidi. 338

- Você vai precisar de companhia. Eu gostaria de estar a seu lado agora. Por que não voltam a morar aqui?

- Nós gostamos da calma do interior. Não nos habituaríamos mais com a cidade. - Nesse caso, por que não se mudam para a mansão?

Liana teve um sobressalto:

- Que idéia, Eulália...

- Por que não? É uma casa linda, com conforto. Mesmo que morem lá, há espaço para nos acolher quando resolvermos passar férias aí. Além de economizarem o aluguel, ficariam mais bem instalados.

- Obrigada, Eulália, mas não podemos aceitar. O que Norberto iria dizer? - Ficaria muito contente. Em nossas conversas, muitas vezes lamentamos que uma casa tão boa, tão bonita, permaneça fechada tanto tempo. Vocês cuidariam bem de tudo e nos fariam muito felizes. - Agradeço, mas você sabe: eu não gostaria de voltar a morar lá, por causa do espírito do coronel Firmino. Já pensou se ele me aparecesse de novo? - Qual nada! Ele já se foi. A casa agora está livre. Converse com Alberto. Prometa pensar no assunto.

- Está bem. Direi a ele. Gosto da casa, é linda, mas não me sinto com coragem de morar lá de novo.

Assim que desligou o telefone, Liana comentou com Alberto, que disse apenas: - A casa é ótima, mas, se você se sente assim, não vamos aceitar. Quero que se sinta feliz, alegre. Vamos escrever uma carta a eles agradecendo e pronto. Não falaram mais no assunto. Nos dias que se seguiram, Liana fez todos os exames necessários e o Dr. Marcílio concluiu satisfeito que ela estava muito bem. No mesmo dia em que soube da novidade, Eulália participou às crianças a chegada do sobrinho.

- É o espírito do coronel Firmino - afirmou Eurico.

- Como é que você sabe? - interveio Amelinha curiosa.

- Isso mesmo - comentou Eulália. - Ninguém sabe. A natureza tem seus segredos. - Claro que é ele. Estava louco para nascer. Pediu muito, chorou. Agora conseguiu.

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- Isso é você que está concluindo - disse Eulália. - Liana não falou nada a esse respeito. Portanto é melhor não ficar afirmando isso. Ela pode ficar nervosa se achar que é o espírito dele.

- Quem mais pode ser? Ele é que estava querendo... - lembrou Eurico. - Nem tudo que ele quer pode ter. No lugar onde ele vive agora há disciplina. Para nascer, ele precisaria de permissão superior.

- Acha que ele não conseguiu? - perguntou Nico com interesse. Não sei. É provável que não. Em todo caso, não acho prudente desde já acreditar que seja ele.

- Mas e se for? - teimou Eurico.

- Se for, um dia saberemos. Tenho estudado sobre a reencarnação e aprendido que não devemos fantasiar sobre o assunto. O espírito que nasce esquece o passado e isso evita problemas, ajuda seu progresso. Não quero que falem com Liana sobre isso. Ela pode ficar nervosa, e não é bom para sua saúde.

Continuar: parte 3 de 5