Quando Chega a Hora

Zibia Gasparetto · Capítulo 4 de 4 · parte 4/5

Páginas do PDF

Quando Chega a Hora

- Vou pensar. Boa noite.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Depois que ele foi para o quarto, Ernestina foi ver se os filhos já estavam deitados e se o marido estava bem. Depois, quando viu tudo em silêncio, dirigiu-se a uma imagem de Nossa Senhora colocada em cima da cômoda, acendeu a lamparina como fazia todas as noites e começou a rezar.

Agradeceu a mudança do filho; pediu a ajuda para o marido, que, inconformado com a doença, se tornara irascível e revoltado; pediu proteção para sua família e, por fim, forças para conseguir cuidar de todas as suas obrigações com alegria e coragem. Para não incomodar o marido, Ernestina colocara um colchão no chão, ao lado da cama do casal, e era lá que dormia desde que ele adoecera. Apagou a luz e deitou-se. A noite era clara e ela ficou olhando a luz que entrava pelas frestas da veneziana e pensando. O que seria de sua vida se o marido nunca mais pudesse andar? Nelsinho tentara de todas as formas que Jacinto fizesse alguns exercícios mas ele se recusava. Não queria sentir dor nem fazer nenhum esforço. Não queria cooperar, alegando que isso não iria valer de nada. Dizia que o médico não era bom e exigia que lhe dessem um remédio que o curasse.

Ao sair, depois de muitas tentativas, Nelsinho comentara: - D. Ernestina, se o Sr. Jacinto não cooperar, não vai se recuperar. - Ele está revoltado. Nunca tinha ficado doente antes. Sabe como é, não tem paciência. Mas temos que insistir. O Dr. Marcílio disse que é preciso.

- Ele tem razão. Por isso, em benefício dele mesmo, vou precisar ser mais duro. - Coitado. Está tão sofrido!

- Ficar com pena só vai piorar o estado dele. O que ele precisa é tomar consciência de que, se não se mexer, não sara.

361

Depende dele melhorar ou ficar para sempre naquela cama. É isso que ele precisa saber e eu vou dizer-lhe. A senhora não repare se eu falar firme com ele. Faz parte da cura. - Eu entendo. O Jacinto sempre foi muito teimoso. Faça o que for preciso. Ernestina suspirou resignada. O dia seguinte ia ser trabalhoso. Jacinto, quando acordado, chamava-a insistentemente por qualquer coisa e muitas vezes ela só podia dar conta do trabalho nos momentos em que ele dormia.

Ela sentia as costas doendo e o corpo cansado. Mas, apesar disso, estava contente com a atitude de José. Se ele se dispusesse ao trabalho e conseguisse ganhar algum dinheiro para as despesas, ela poderia trabalhar menos e dispor de mais tempo para cuidar do marido. Agradecia a Deus essa ajuda. Virou-se para o lado e, como estava cansada, logo adormeceu.

362

Capítulo 26

O tempo varreu os acontecimentos e dez anos depois vamos encontrar Liana feliz e alegre na mansão preparando tudo para receber Eulália e a família, que lá iriam passar as festas do fim de ano, como sempre faziam.

Eles haviam se mudado para a antiga casa do coronel Firmino, dois meses antes do nascimento de seu primeiro filho. Liana, que a princípio não gostara da idéia, com o passar do tempo começou a sentir uma predileção especial por aquela casa, sentindo prazer em ir lá, em cuidar para que tudo ficasse sempre bem arrumado. Certa ocasião, Eulália voltou ao assunto, alegando a dificuldade de se encontrar uma casa tão confortável na pequena cidade:

- Fico penalizada de ver uma casa tão espaçosa e bonita vazia quase o ano inteiro. Nosso maior desejo é que vocês se mudem para lá. Assim, em nossas férias ficaremos todos juntos.

- Seria bom. Mas teríamos de fazer algumas mudanças para nos instalarmos e eu não gostaria de tirar o conforto de vocês.

- Está resolvido, Liana. A casa é grande o bastante para todos nós. Como aparecemos de vez em quando, vocês continuarão tendo toda a privacidade. - Vou pensar.

Uma vez a sós com Alberto, conversaram e resolveram aceitar. A alegria de Eulália deixou-os à vontade. Juntos cuidaram das mudanças necessárias. João Alberto nasceu dois meses depois, e seu choro forte encheu a casa, causando euforia até nos criados. Era um menino robusto e bonito. Imediatamente Alberto telefonou para Norberto comunicando o nascimento.

No fim de semana eles chegaram para conhecer o novo membro da família, trazendo inúmeros presentes.

Os meninos estavam curiosos, e alvoroçados subiram para o quarto onde ele dormia tranqüilo. Liana acompanhou-os recomendando silêncio para que não o acordassem. - Tia, eu quero pegá-lo no colo - pediu Amelinha. - Olhem que lindo! Tão pequenininho! 363

- Deixe-o acordar e eu o colocarei em seu colo um pouco. - Como pode ser tão pequeno? - indagou Eurico, admirado. - Vocês também já foram assim - comentou Eulália, que os acompanhara.

Amelinha quis ver todas as roupinhas enquanto os meninos corriam para ver o caramanchão e os ninhos de passarinhos.

A certa altura, Eurico ficou pensativo e Nico indagou:

- O que foi, aconteceu alguma coisa?

- A tia Liana não sabe, mas o coronel voltou.

- Lá vem você de novo...

- É ele, sim. Está pequeno, nasceu com outra cara, mas é ele mesmo. - Você quer dizer que o menino é ele?

-É.

- Você pode estar enganado, cismado.

- Não estou, não. Eu vi direitinho.

- Viu o quê?

- Eu olhava para o rosto do bebê, via a carinha dele, mas atrás da cabecinha dele eu via o coronel Firmino.

- Ele pode estar do lado do menino.

- Não. Ele saía e entrava no rosto dele.

- Chi!!... Você está complicando.

- Não estou, não. É difícil explicar. Ele sumia, parecia que se transformava no rosto do nenê. Depois, ele saía e voltava a ser o coronel de novo. Eu senti que ele e o menino eram a mesma pessoa.

- Acho bom não contar nada para sua tia. Ela pode ficar com medo. Logo agora que ela já esqueceu e até mora aqui na casa.

- Foi ele quem quis morar aqui. Ela sentiu a vontade dele. Começou a gostar da casa depois que ele encarnou.

- Ela se mudou antes do nascimento dele.

- É, mas ele já estava dentro da barriga dela.

- Puxa! É verdade. Vamos perguntar para o Dr. Marcílio sem que a sua tia saiba. No domingo, quando o médico apareceu para visitá-Ios, os meninos chamaram-no de um lado e contaram o que acontecera.

- O senhor acha que precisamos contar para a tia Liana?

- Eu penso que não - interveio Nico.

- É melhor não - concordou o médico.

- Nesse caso ela nunca vai saber que é ele? - indagou Eurico. 364

- Nesses casos, precisamos dar tempo ao tempo. Você viu isso e acredita que o menino seja o espírito do coronel Firmino reencarnado. Eu também acho que é. Entretanto, a vida deixou-o esquecer o passado, e ela faz tudo certo. Nós não temos o direito de interferir. - Nesse caso, não direi nada.

- Será que é ele mesmo? - perguntou Nico.

- Bem, nós não vamos comentar para não interferir na vida dele, mas podemos observar para nosso conhecimento.

- Como assim? - indagou Nico.

- Embora Firmino esteja esquecido do passado e tenha aprendido algumas coisas e se modificado, seu temperamento, sua personalidade ainda são os mesmos. - Eu sei - interveio Eurico. - Se for ele, vai ser mandão e vai querer comandar tudo. - Não se precipite - disse o médico sorrindo. - Você o conheceu muito pouco. Ele deve ter qualidades que você não teve tempo de perceber. Não se esqueça de que ele estava desequilibrado, sofrendo muito.

- Duvido que ele tenha qualidades boas - disse Eurico.

- Talvez seja por isso que a vida o colocou em sua família, para que vocês aprendam a conhecer os outros lados dele.

- É. Eu acho que foi isso mesmo. Puxa! Eu nunca pensei nele quando era criança ou moço - comentou Nico.

- Veja o que aconteceu com seu irmão. Ele mudou muito em pouco tempo. Tem ajudado sua mãe, trabalhado e já sabe ler corretamente.

- Quem diria! Você dizia que ele era um vagabundo! - lembrou Eurico. - É, ele era. Mas agora criou vergonha. Ainda bem.

- Bom, se ele criou vergonha e mudou, o espírito do coronel Firmino pode ter feito o mesmo - lembrou o doutor.

Os meninos concordaram e não falaram mais no assunto. Dois anos depois, Liana deu à luz uma menina a quem chamaram de Rosa Maria, em homenagem à avó materna. Era linda e saudável como seu irmão. Mas desde cedo revelou um temperamento diferente do dele. Enquanto ele era barulhento e ativo, ela se mostrava doce e tranqüila. Seu sorriso encantava a todos e seu jeitinho carinhoso tornava-a muito querida não só por todos os membros da família mas também pelos amigos. Em São Paulo, Nico, Eurico e Amelinha continuavam inseparáveis, embora revelando diferentes inclinações. Enquanto Nico revelava sua paixão pelo desenho e pela pintura, Amelinha interessava-se pelo balé e pelo teatro. Eurico preferia matemática e as ciências exatas.

365

Ao contrário dos outros dois, que em suas horas de lazer procuravam na música e nas artes seu entretenimento, Eurico se sentia inclinado aos estudos da física. Apesar disso, andavam sempre juntos. Enquanto Amelinha, que se matriculara em uma escola de balé, ouvia música clássica, calçava suas sapatilhas e rodopiava pelo salão de festas de sua casa, local onde eles passavam suas horas de lazer, Nico manejava pincéis e tintas nas telas que comprara, e Eurico estudava as leis da gravidade, fazia cálculos imaginativos dos astros e ficava horas manejando alguns instrumentos de medição que conseguira ganhar do pai, anotando tudo e fazendo experiências curiosas com objetos, plantas, etc. Embora tivessem amigos no colégio, eles passavam a maior parte do tempo entretidos em casa, longe dos divertimentos comuns. Apesar disso, mantinham boas relações com os demais. Recebiam muitos convites para festas, aceitavam alguns, mas o que eles mais gostavam mesmo era de ficar em casa juntos, cada um exercendo as atividades de sua predileção.

Todos sabiam que Nico não pertencia à família dos dois irmãos. Ele nunca escondeu sua procedência humilde e, com dignidade, oferecera-se para dar aulas aos alunos em dificuldade, e assim ganhava algum dinheiro para suas despesas pessoais. Certa vez uma colega fora até a casa deles em busca de uma matéria cuja aula perdera, e, ao ser conduzida ao salão onde eles se reuniam, encantou-se com uma tela que Nico pintara, oferecendo-se para comprá-Ia. Ele a deu de presente.

A mãe da menina ficou encantada e procurou-o para ver seu trabalho. A partir desse dia ele começou a ser procurado por algumas mães de seus colegas interessadas em adquirir suas telas e ele, animado por Amelinha e Eurico, que vibravam com o sucesso do amigo, estipulava os preços e mostrava os trabalhos.

Assim, ele começou a ganhar mais, a ter dinheiro para comprar material melhor e em maior quantidade, e do dinheiro que sobrava até mandava algum para ajudar a mãe, apesar de Eulália continuar dando a ela uma mesada.

Seus professores interessaram-se por sua pintura, aconselhando-o a cursar uma escola de belas-artes. Ele, porém, não se decidia. Para ele, pintar era fácil e natural, mas, quando pensava em fazer disso profissão, sentia medo, tristeza e vontade de largar tudo. 366

No momento de escolher uma carreira, Norberto reuniu-os para uma conversa. Amelinha queria ser bailarina e fazer escola de arte dramática. Mas o pai tentou fazê-Ia mudar de idéia. Como ela insistisse, ele propôs:

- Você pode continuar no balé, cursar a escola de arte dramática se quiser, mas, como isso não é profissão, terá de escolher outra coisa também. Ser professora, dentista, médica, vocês precisam se preparar para a vida. Arte é um hobby. Faz bem para a alma, mas é só. Nico abanou a cabeça, dizendo:

- Dr. Norberto, eu não sei o que escolher. Pintar para mim é como o ar que respiro. Nunca aprendi, mas sempre soube. Mas penso que o senhor tem razão. Não quero fazer disso profissão.

- Ainda bem, Nico. Você pode ser professor, como Alberto. Como eu disse, arte é só para passar o tempo. Por isso, acho bom os três pensarem no assunto e resolver. O ano está no fim e não podemos esperar mais.

Quando ele se foi, os três sentaram-se no salão em meio aos objetos de costume e trocaram idéias sem chegar a nenhuma conclusão.

- O Zé já escolheu o que ele quer ser -lembrou Nico.

- Eu sei, ele disse que vai ser agrônomo. Mas sem fazer faculdade. Só prático. Estudando nos livros e experimentando. Depois do que ele já fez nas terras de sua mãe, acho que vai dar muito certo - tornou Eurico.

- É mesmo. Aquilo está uma beleza! Minha mãe disse que ele tem uma mão! Tudo que ele planta dá. Ela nem está comprando mais feijão.

- Eu vi o que ele fez no jardim da mansão. Está lindo! - interveio Amelinha. - O professor ensinou e deu muitos livros a ele. Agora tem até um ajudante. - Ele já escolheu, mas nós, o que faremos? - indagou Amelinha. - O que eu gostaria mesmo é de ser artista. Mas já sei que papai não vai deixar. Terei de escolher outra coisa. Mas o quê?

- Escolha alguma coisa bem fácil, e assim você vai poder ter tempo de fazer a escola de arte - sugeriu Eurico. - Eu gosto de fazer minhas experiências. Quero escolher uma profissão que me permita fazer isso.

- Eu quero pintar; gosto também de pegar no barro e fazer coisas. Mas isso não é profissão. Professor eu não sei... será que eu podia ensinar pintura? - Claro que não, Nico. Se pintar quadros não é profissão, quem vai querer aprender? Só se você se tornar pintor de paredes - disse Eurico.

- Não é desse tipo de pintura que eu gosto.

367

- Você pode fazer arquitetura. Tem de desenhar e criar coisas sugeriu Amelinha. - É. Talvez. Vamos ver. Amanhã vou conversar com a psicóloga da escola. Ela disse que pode nos ajudar a encontrar nossa vocação profissional.

- É uma boa idéia, Nico. Irei com você.

- Eu também - concordou Eurico.

Assim, Amelinha resolveu fazer pedagogia, Eurico engenharia química e Nico psicologia. Apesar de haverem escolhido carreiras diferentes, eles continuavam a estudar juntos.

Eurico conseguira montar um pequeno laboratório de pesquisas nos fundos da casa, onde realizava suas experiências, nem sempre bem-sucedidas, o que provocava o riso dos outros dois e alguma preocupação de Eulália.

Estavam satisfeitos com os cursos que escolheram, mas nas horas vagas continuavam, Eurico com as experiências, Nico com a pintura, Amelinha com o balé. Nico granjeara fama no bairro. Certa vez ele pintou o retrato de Amelinha vestida de bailarina para oferecer a Eulália como presente de aniversário. Eulália notava o movimento que Nico fazia com seus quadros, mas tanto ela como Norberto viam isso como um passatempo e nunca se interessaram em examinar com atenção o que ele fazia.

Porém o retrato de Amelinha impressionou-os. Era óleo sobre tela e era difícil imaginar que ele houvesse sido feito por um jovem que nunca freqüentara nenhum curso de pintura. No dia do aniversário, ele a procurara e lhe entregara o quadro, dizendo sério: - Dona Eulália, quero que a senhora saiba o quanto lhe sou grato por tudo que tem feito por mim e pela minha família. Sempre desejei dar-lhe um presente, mas a senhora tem tudo e eu queria oferecer alguma coisa que viesse do meu coração. Então, pensei, o amor de mãe é sagrado, e fiz este trabalho. Quero que saiba que sinto um amor muito grande pela senhora, por Amelinha especialmente, sem falar do meu irmão Eurico e do Dr. Norberto. Comovida, Eulália abraçou-o e beijou-o na face:

- Obrigada, meu filho. Eu gosto de você como um filho e estou muito orgulhosa por você ter feito um trabalho para mim.

368

Quando ela retirou as folhas de papel de seda com o qual ele embrulhara o quadro, olhou-o impressionada. Era uma tela de oitenta por setenta centímetros, e parecia haver sido pintada por um mestre.

- Nico, é uma beleza! Vou pôr uma bela moldura e colocar em destaque em nossa sala de estar. Você realmente tem talento. Não sei se foi uma boa idéia estudar psicologia em vez de pintura.

- Pintura eu não preciso estudar, Dona Eulália. Nasci sabendo. Agora, psicologia sim. Eu precisava aprender a lidar com minhas emoções. O Dr. Marcílio sempre diz que a vida nos leva para o que precisamos aprender.

Ela olhou séria para ele. Aquele menino sempre a surpreendia com sua maneira única de dizer as coisas.

Quando ela se foi, interessada em mostrar a tela a Norberto, Nico sentou-se pensativo. Na verdade, nos últimos tempos ele andava preocupado e desejoso de entender o que se passava em seu coração.

Estava terminando o curso e habituara-se a examinar o teor de seus pensamentos para entender melhor seus sentimentos, mas, nos últimos tempos, emoções fortes e imperiosas acometiam-no, e ele não conseguia encontrar, no que aprendera, uma solução. O que estava acontecendo com ele? Estava com vinte e três anos e prestes a receber seu diploma de psicólogo. Deveria sentir-se realizado. Conseguira estudar, fazer uma universidade, ser respeitado, querido. Uma vez formado, poderia melhorar a vida de sua família, como sempre desejara, ter sua própria casa, comprar o que quisesse. Ele vencera. Por que então, quando pensava em sua formatura dali a dois meses, sentia um aperto no coração?

A figura bonita de Amelinha surgiu em sua mente e ele se levantou inquieto. Ela se tornara muito bonita. Onde aparecia era sempre requesitada, elogiada. Os rapazes andavam à sua volta como abelhas no mel. Isso o irritava. Ele a vigiava constantemente. Comentava com Eurico:

- Precisamos tomar conta de Amelinha.

Eurico sacudia os ombros e dizia:

- Qual nada! Ela já é grandinha e sabe se conduzir. Não vou perder tempo com isso. - Mas você não vê o perigo? Aquele malandro do Clóvis estava rodeando. Claro que com má intenção. Ele é o maior cafajeste do clube.

- Ele é, mas Amelinha não vai entrar na dele.

Mas Nico não se conformava. Onde ela andava ele a perseguia com os olhos e quando os rapazes se aproximavam dela Nico encontrava um jeito de intervir, procurando atrair sua atenção para outras coisas.

369

Ele desejava terminar os estudos, mas ao pensar nisso sentia um aperto no coração. Um dia descobriu o que o angustiava: sentia que, depois de formado, não teria mais motivos para continuar vivendo na casa de Eulália.

Teria de ir embora, cuidar de sua vida. Eles já haviam feito demais. Não seria direito aproveitar-se dessa proteção. Depois, pensava na família, principalmente em sua mãe. Apesar de seu pai continuar inválido e requisitar muito sua atenção, Ernestina agora já não precisava trabalhar tanto. José tomara-se trabalhador e contribuía para o sustento da família, não só plantando feijão, milho, criando galinhas, que negociava na cooperativa trocando por outros alimentos, mas também cultivando mudas de flores e frutas que vendia a bom preço.

Jaime interessara-se pelo trabalho do irmão e ajudava-o na lavoura, enquanto Nilce e até Neusinha aliviavam o trabalho caseiro de Ernestina, que dispunha de mais tempo para cuidar do marido. Ela continuava a lavar roupas para fora, mas agora ficara apenas com os melhores clientes.

Apesar disso, Nico não esquecera o antigo sonho de oferecer à mãe e a toda família um padrão de vida melhor, em que ela não precisasse mais trabalhar para ninguém e até tivesse uma empregada para cuidar dos serviços domésticos. Além disso, queria que os irmãos continuassem estudando e pudessem tanto quanto ele mesmo desfrutar de uma vida melhor. Há algum tempo vinha guardando dinheiro para montar um consultório quando se formasse. Seus quadros eram muito procurados e nos últimos tempos havia muitas encomendas, o que possibilitou que ele pudesse ao se formar fazer isso com recursos próprios.

Se por um lado isso era o que sempre sonhara, por outro deixar a casa de Eulália significava perder a convivência diária com Eurico e Amelinha, que já faziam parte de sua vida. Não podia deixar de pensar nisso, e um dia, quando viu Amelinha deixar a companhia dos dois e sair de mão dada com um rapaz, compreendeu o que o angustiava. Era dela que ele não queria separar-se. Era a presença dela que o fazia sentir-se alegre. Era sua proximidade que o fazia estremecer e seu coração se descompassar.

Claro que ele havia tido algumas namoradas, mas nenhuma delas conseguira fazê-lo sentir-se tocado. Às vezes saía com elas apenas para fazer companhia a Eurico, que sempre arrumava um jeito de sair com alguma moça e o convidava para acompanhar a amiga dela. 370

A descoberta de que estava apaixonado por Amelinha deixou-o angustiado e nervoso. Ele se tornara seu confidente. Cada vez que algum rapaz se interessava por ela, Amelinha lhe contava, olhos brilhantes de prazer, mas até então não amara ninguém. Esquivava-se, dizia que não pretendia namorar ainda, queria dedicar-se aos estudos. Até então Nico sentira-se seguro, mas naquela tarde, vendo-a sair para ir a um cinema de mão dada com Raul, irmão de um colega dela, ficou preocupado. A dúvida assaltou-o e ele pensou: será que ela está apaixonada por ele?

Foi para casa e não quis sair, pretextando dor de cabeça. Esperou ansiosamente que Amelinha voltasse. Quando a viu entrar, não se conteve:

- E então?

- E então o quê?

- Esse moço com quem você saiu. Você gosta dele?

- É muito atraente, simpático e culto.

- O que ele faz?

- É engenheiro e tem uma construtora.

Nico mordeu os lábios nervoso. Além de formado, ele deveria ser rico. Baixou a cabeça pensativo.

- O que foi, aconteceu alguma coisa? - perguntou ela.

- Não. Nada. Estava pensando.

-Em quê?

- Bem, temos vivido juntos nós três todos estes anos e logo teremos de nos separar. - Separar? Como assim?

- É. Não somos mais crianças. Logo mais cada um irá para um lado e não será mais como até agora.

Amelinha colocou a mão no braço dele, dizendo inquieta: - Não diga isso! Nós nunca nos separaremos. Viveremos sempre juntos. Nico suspirou triste:

- Gostaria que isso fosse verdade. Mas veja: quando me formar, terei de me mudar, trabalhar e levar minha vida. Não posso mais viver às expensas de sua família, que já fez muito por mim. Você logo vai encontrar um rapaz rico, de sua classe social, que a amará. Vai se apaixonar, casar e ir viver sua vida. Eurico fará o mesmo. - Isso não é verdade - disse ela sacudindo a cabeça negativamente, balançando os anéis de seus cabelos dourados que lhe caíam pelas espáduas, emoldurando seu rosto bonito. - Você nunca vai nos deixar. Vai trabalhar, ganhar dinheiro, ajudar os seus, mas ficará para sempre aqui.

371

Os olhos dela brilhavam emocionados e Nico sentiu seu coração disparar, encantado com a beleza lírica daquele rosto que ele amava.

- Você sabe que vou montar consultório. Posso me sustentar, e não desejo ser pesado à sua família.

Ela o abraçou, dizendo emocionada: - Não vou deixar você ir. Falarei com papai, ele não vai permitir. - Você diz isso agora, mas logo vai se apaixonar e então nem vai sentir minha falta. - Eu não vou me apaixonar por ninguém, e você não vai embora. - E o moço com quem você foi ao cinema esta tarde? Disse que ele era atraente, cheio de qualidades e, além de tudo, rico. Acho até que está se apaixonando por ele. - Quem disse isso? Ele pode ser tudo isso, mas quando me deu um beijo senti vontade de sair correndo do cinema. Acho que nunca mais quero sair com ele. Gostou? Acha que sabe tudo e pensa que vou me deixar levar pelo primeiro que aparece? Não é isso que eu quero na vida.

Nico, sentindo a proximidade dela, teve vontade de beijá-Ia, mas conteve-se. Ele não podia demonstrar o que ia em seu coração. Apesar de haver sido criado com eles, sempre entendera a distância social que os separava e não queria que pensassem que estava abusando da bondade deles. Faria tudo para que ninguém nunca soubesse de seu amor por Amelinha.

Não se conteve e indagou: - O que você quer da vida?

- Quero viver, dançar, aprender coisas que embelezem minha vida. Não penso em ser igual à minha mãe, que se conformou com o horizonte estreito em que vive e nunca desejou mais. Eu nunca me conformaria em tornar-me uma matrona dentro de casa, criando filhos e mais nada.

- E o amor? Toda mulher sonha com o amor, os filhos, uma família. - O amor é um sentimento natural, vai acontecer como o ar que respiro, vai me trazer alegria e vida, prazer e felicidade. Quando aparecer, saberei. Tenho certeza de que não vou precisar das regras da sociedade para ser feliz.

- Do que você precisa?

- Da cumplicidade na intimidade, do prazer de conviver com naturalidade, do companheirismo, da troca de idéias e de atitudes que alimentem a alma. É isso que eu quero. Só assim valerá a pena amar.

372

- Você se esqueceu do contato físico.

- Também, é claro. Como é possível intimidade com alguém sem isso? Tenho observado que as pessoas se entregam quando sentem atração física e não questionam outros elementos importantes para um relacionamento bom. Para mim é preciso mais que isso. É preciso uma ligação de alma.

- É difícil achar alguém que seja igual a você.

- Você não entendeu. Não pretendo isso. Sei que cada um é um e não existem duas pessoas iguais. Mas o que eu sinto é que no companheirismo, na troca de intimidades, na ligação de almas, existe o respeito, o carinho, a compreensão, a admiração. Onde existe tudo isso, não há manipulação, mentiras ou competição. Apenas amor, troca afetiva, sustentação, paz. Nico respirou fundo, sentindo-se emocionado. Disse simplesmente: - Puxa, Amelinha, eu gostaria muito de sentir um amor assim.

- Você? Com tantas garotas suspirando por você, nunca o vi interessado em ninguém. Como pode ser tão frio? Eurico já se apaixonou várias vezes, enquanto você não. Às vezes penso que é tão controlado que nunca será capaz de amar. Vai planejar tudo nos mínimos detalhes, como tem feito com esse seu plano de deixar esta casa quando se formar. - As aparências enganam. - Pois eu gostaria que se apaixonasse perdidamente a ponto de perder um pouco essa sua compostura bem-comportada.

- O que ganharia com isso?

- Teria certeza de que você não é indiferente, mas de carne e osso, como todo mundo. - Não diga isso. Sou mais frágil do que supõe.

- Pois não parece. Sempre faz tudo certo, é calmo, muito diferente de mim e de Eurico. Tem sempre a resposta sensata e por isso acaba sempre nos convencendo a fazer do seu jeito.

- Nunca pretendi ensinar nada.

- Mas ensina. Sua segurança torna-o mais lúcido que nós. - Isso não é verdade. Talvez por eu ser pobre e ter tido desde cedo de lutar para sobreviver, eu possua certa experiência que vocês, que nunca precisaram preocupar-se em ganhar a vida, não têm. Mas, ainda agora, quando você chegou, eu estava mais inseguro que nunca, pensando em nossa separação.

- Pois não pense. Tenho certeza de que nunca nos separaremos. Ele a olhou nos olhos e respondeu:

373

- Gostaria que isso fosse verdade. Não posso pensar em viver sem você... sem Eurico - emendou.

- Nem eu. Nunca me separarei de você.

- É o que você quer?

-É.

Os olhos dela brilhavam emocionados e Nico sentiu mais que nunca vontade de apertá-Ia de encontro ao peito e dizer o que lhe ia na alma. Não podia fazer isso. Controlou-se e procurou disfarçar.

- Quando você se casar com um moço rico e bem-posto, não se lembrará mais de mim. - Nico! Estou falando sério. Nem pense em se mudar de nossa casa. Abra seu consultório, faça até uma clínica de psicologia depois que se formar, mas continuará morando aqui. Não abro mão disso. Tenho certeza de que o resto da família também não. O que seria de nós sem você? Eurico não saberia o que fazer da vida; e eu, quem irá me apoiar quando eu resolver ser bailarina? Está decidido. Você não irá embora. Não vou deixar. Nico sorriu. A veemência com que ela desejava que ele continuasse na casa emocionava-o. Não tocaram mais no assunto, porém apesar disso a sombra da separação rondava os pensamentos de Nico, inquietando-o, fazendo com que ele chegasse a desejar que o tempo não passasse para que esse dia nunca chegasse.

374

Capítulo 27

Amelinha entrou em casa eufórica procurando por Nico. A empregada informou que ele não chegara ainda.

- Vou tomar um banho. Assim que ele chegar, avise-me. Não vá esquecer! Quando ele entrou, Maria deu o recado.

- Está bem. Vou falar com ela.

Fazia seis meses que ele havia se formado, ficara uma semana com a família no interior e voltara a São Paulo para começar a trabalhar.

Alugara duas salas e montara seu consultório, onde já tinha alguns clientes, e o movimento melhorava a cada dia. Começou a ganhar mais, vestia-se melhor. Pensou em mudar-se da casa de Eulália, mas tanto ela quanto Norberto insistiram para que ele ficasse. Alegavam que o tinham como um filho e não queriam privar-se de sua companhia. - Enquanto você for solteiro, não o deixaremos sair. Eu só abriria mão se fosse para você morar com sua mãe. Mas sua família não deseja morar em São Paulo e você pretende trabalhar aqui. Portanto só vai se mudar quando se casar, isso se quiser. - Obrigado, Dona Eulália. Mas vocês já fizeram muito por mim. Não desejo abusar. - Fizemos uma troca maravilhosa, e nessa troca tivemos mais lucro do que você. Só a recuperação de Eurico vale tudo. E não é apenas isso. Conheço meu filho. É um menino bom, inteligente, mas um tanto fraco. Sem sua constante presença e seu bom senso, talvez ele hoje não estivesse tão bem. Tenho certeza de que tanto ele quanto Amelinha sofreriam muito se você nos deixasse. Por isso, peço-lhe que continue conosco. - Está bem, Dona Eulália. Para dizer a verdade, eu deveria me sustentar, agora que ganho meu próprio dinheiro, mas sofreria muito se precisasse deixar vocês. - Ainda bem, meu filho. Fico aliviada. Não se fala mais nisso. Nico tomara-se um moço elegante, bonito, fino. Vestia-se bem e estava economizando. Desejava comprar uma bela casa para a família.

Subiu para o quarto, trocou de roupa, passou pelo quarto de Eurico, que ainda não havia chegado. Ele ainda tinha mais dois anos de faculdade.

Bateu no quarto de Amelinha, que imediatamente abriu:

375

- Nico, temos de conversar! Aconteceu uma coisa maravilhosa! - O que foi? - A peça na faculdade. Hoje foi lá aquele diretor de que eu falei. Ele é profissional mesmo. Já dirigiu muitas peças. Lembra aquela que fomos ver no mês passado?

- Lembro.

- Foi dirigida por ele! O diretor da faculdade contratou-o para nos dirigir. Nem acreditei! Estávamos ensaiando quando ele apareceu, sentou-se lá calado. Ninguém sabia quem ele era. Quando paramos, o Sr. Gabriel nos chamou e apresentou-o. - Que bom! Essa peça vai ser um sucesso.

- E não é só! Entre e sente.

Amelinha arrastou-o para dentro do quarto e forçou-o a sentar-se. - O que foi? Você me assusta!

- Não via a hora de lhe contar. Sabe o que ele fez? Disse que já havia lido a peça e que eu fui escolhida para o papel principal. Fiquei muda. Minhas pernas tremiam, pensei que fosse desmaiar.

- “Você acha que serei capaz?" - eu disse trêmula.

- Você é perfeita para o papel - respondeu ele.

- Aí me perguntou se eu estava disposta a estudar muito. Disse que eu estava muito crua e precisava treinar bastante. Se eu realmente quisesse me dedicar, ele me ajudaria ensinando o que pudesse. Marcou já um ensaio para amanhã. Já pensou, Nico? - Parabéns. Esse diretor deve ser muito bom. Viu logo que você tem talento. - Você acha?

- Claro. Ele não perderia tempo com você se não fosse isso. - Puxa, Nico. Vou fazer o papel da protagonista. Eu, que me contentaria com uma ponta. Parece um sonho. Trouxe o roteiro para estudar. Você pode me ajudar? - Claro. Quando quer começar?

- Agora mesmo. Vamos para o salão.

Seu rosto corado e o brilho de seus olhos tomavam-na mais encantadora, e Nico precisou se controlar para não beijar aquele rosto que tanto amava.

A cada dia ficava mais difícil para ele controlar seus sentimentos. 376

A proximidade dela, sua espontaneidade abraçando-o, segurando seu braço, confidenciando seus pensamentos íntimos atraíam-no cada dia mais.

Dizia para si mesmo que Amelinha o queria como a um irmão e não deveria alimentar nenhuma esperança. Acreditava que, se ela viesse a descobrir o que ele sentia, se afastaria. A esse pensamento, Nico estremecia de pavor.

Ele haveria de sepultar esse amor no coração, porque só assim poderia continuar a desfrutar não só do carinho dela mas também da amizade de toda a família. A partir daquele dia eles começaram os ensaios. Ela ia para a faculdade de manhã, almoçava lá mesmo e ficava para os ensaios com o diretor e com o elenco. Depois do jantar, ela e Nico iam para o salão de festas da casa e ensaiavam. Eurico divertia-se vendo-os representar, porque, enquanto Amelinha fazia somente a protagonista, Nico era forçado a fazer todos os outros personagens, inclusive os femininos. A princípio eles haviam insistido para que Eurico participasse, mas ele recusara: - Não tenho paciência para esses salamaleques de teatro. Estou ocupado com um teste importante que ocupa todo o meu tempo disponível.

- Mas você tem algumas noites livres - disse Nico.

- Você disse bem. Eu tenho algumas noites livres e não vou gastá-Ias dessa forma. Prefiro a companhia de Elvira. Aliás, esta noite vamos ao cinema e Dalva irá com ela. Eu contava que você fosse conosco. Afinal ninguém gosta de segurar vela! - Nada disso - protestou Amelinha. - Nico vai ficar comigo ensaiando. - Veja como ela fala! E você deixa? Ela manda e você não reage? - provocou Eurico. - Não estou mandando. Acontece que Nico combinou comigo de ensaiar sempre que ele pudesse. Depois, se fosse para sair com alguém interessante eu entenderia, mas com Dalva...

- O que é que tem Dalva? É bonita e educada. Além de tudo, EIvira disse-me que ela está caidinha por Nico. É sopa no mel!

- Não acredito que ele se interesse por aquela lambisgóia. Eurico sacudiu os ombros e tentou ignorar as palavras dela:

- E então, você vem comigo?

- Não, Eurico. Eu prometi ensaiar com ela. Não temos muito tempo. Falta apenas um mês para a estréia.

377

Fingindo não perceber o olhar triunfante da irmã, Eurico comentou: - Puxa! Até parece que é você quem vai trabalhar na peça! Por que não fala com o diretor? Pode ser que ele o deixe fazer uma ponta.

Sem se aborrecer com o tom maldoso dele, Nico tornou:

- Não fique zangado comigo. Explique a Dalva que hoje não poderei ir. Irei outro dia. - Nesse caso também não vou. Telefonarei para Elvira.

Nico colocou as mãos nos ombros de Eurico, olhando-o nos olhos enquanto dizia: - Comigo não pega. Conheço muito bem esse seu jeito de coitado. Não vou me sentir culpado de nada. Por isso, é melhor não entrar nessa. Vá com elas ao cinema, divirta-se e pronto. Não vou sair com você apenas para que não perca sua noite. É você quem deve se dar ao prazer de fazer o que gosta. Não eu.

Eurico começou a rir, depois comentou:

Sei porque gosto de sair com você. Depois, Dalva vai ficar decepcionada. - Agora você quer que eu me sinta culpado e fique com pena dela. Não temos nenhum compromisso, nem sequer a convidei para sair. E se ela ficar frustrada é porque criou expectativas sem fundamentos. Eu vou ensaiar com Amelinha e está decidido. - Está bem. Pelo que estou vendo, você leva esse negócio de teatro a sério mesmo. Nesse caso, vou indo.

Ele saiu e os dois continuaram ensaiando. A estréia da peça no teatro da faculdade foi um sucesso, a tal ponto que o grêmio decidiu repetir o espetáculo vários sábados seguidos. Por causa disso, começaram a pensar em levar a peça a outras faculdades. Amelinha não pensava em outra coisa, e perdeu completamente o interesse pelos estudos. - O que eu quero mesmo é ser atriz! - confidenciou a Nico entusiasmada. - Você não sabe o que é pisar naquele palco, representar, sentir o interesse da platéia, seus aplausos. Nico coçava a cabeça e dizia:

- Pelo menos termine a faculdade. Assim seu pai não ficará tão contra. - Ele pode ficar contra, mas sei o que quero!

378

Nico olhava e não respondia. Por um lado não queria que Norberto se aborrecesse e implicasse com a vocação dela, mas por outro, quando a via representando com naturalidade, como se sempre houvesse feito isso, vivendo seu papel com brilho e capacidade, olhos brilhantes de excitação ao colher os aplausos entusiasmados da platéia, sentia que essa era sua vocação. Sabia que chegaria um dia em que ela seguiria esse caminho e que ninguém a deteria.

O problema apareceu no fim do ano, quando ela não conseguiu aprovação e o pai descobriu o quanto ela havia faltado às aulas. Irritado, chamou-a para uma conversa na qual tentou fazê-Ia compreender a necessidade de terminar os estudos. Amelinha, entretanto, havia tomado uma decisão. Recebera um convite para ingressar no teatro profissional. O diretor reservara-lhe um papel que não era o principal, mas tinha boas possibilidades, e ela, entusiasmada, aceitara-o. Não disse nada aos pais, na tentativa de retardar o conflito que sentia inevitável, mas aproveitou a ocasião para se colocar. - Papai, vou deixar a faculdade. Desejo ser atriz.

- Nada disso, Amelinha! Você vai terminar os estudos. Se tivesse estudado, teria apenas mais um ano para concluí-Io. Mas, como foi reprovada, terá dois. - Não adianta, papai. Não sinto vontade de estudar. Não tenho vocação para lecionar. Escolhi essa carreira só para fazer a vontade de vocês, mas a cada dia percebo que não é isso que desejo fazer.

- Ser educadora é uma nobre profissão, muito diferente do que ser uma atriz de segunda categoria de teatro.

- É uma nobre profissão para a qual não tenho nenhuma inclinação. Eu tenho alma de artista, papai. Sempre senti desejo de trabalhar as emoções, de transmitir sentimentos, de entender os problemas de relacionamento, de experimentar situações como se fossem minhas, de compreender como a vida funciona.

Norberto olhou-a admirado com sua veemência. Mas foi irredutível: - Você não vai abandonar os estudos.

- Papai, é inútil gastar mais dinheiro com essa faculdade. Eu aceitei um convite para ingressar no teatro profissional, já tenho os documentos. É minha vocação e preciso dedicar todo o meu tempo a ela. Não terei condições de estudar nem de freqüentar as aulas. - Eu a proíbo de fazer isso.

- Sinto que não aprove, papai, mas eu já o fiz.

Norberto tentou de todas as formas convencê-Ia, inutilmente. Inconformado, procurou Eulália, para quem apelou a fim de conseguir o que pretendia. Amelinha estava decidida e não voltou atrás.

379

Norberto, nervoso, pretendia impedi-Ia a todo custo, mas Eulália conseguiu contornar, afirmando que era um capricho da filha. Era uma carreira difícil e são raros os que conseguem sucesso. Por isso achava melhor dar tempo a que ela compreendesse e voltasse atrás. Quando percebesse que o sucesso não vinha, certamente perderia o entusiasmo e essa ilusão passaria.

Mas não passou. Amelinha dedicou-se inteiramente ao trabalho, freqüentando cursos com grandes atores, levando muito a sério sua carreira. Levantava cedo, ia para o curso de dança. Quando não estava no teatro ensaiando, estava estudando não só suas falas na peça mas também a vida dos grandes atores, seus sucessos e fracassos. Nico era seu companheiro habitual. Eurico ia com eles de vez em quando, mas preferia dedicar-se a outros entretenimentos.

Bonita, com talento e carisma, ela brilhou nos palcos e o sucesso apareceu, ao contrário do que seus pais esperavam. Surgiram viagens, contratos, fotos em revistas da moda, e Amelinha viu-se envolvida em muitos compromissos.

Por causa disso, aos poucos foi se afastando não só da família mas também de Nico, que vibrava com cada sucesso dela, mas sentia muita falta de sua companhia. Ele estava indo bem no trabalho, era muito procurado como psicólogo. Nos dois anos de formado, ele economizara mas ainda não juntara o suficiente para comprar a tão sonhada casa para a mãe.

Amelinha ausentava-se, e ele se sentia sozinho. Eurico convidava-o para sair, mas ele recusava. Não encontrava prazer longe de Amelinha, e sofria em silêncio seu amor inconfessado.

Fechava-se no salão, onde costumavam estudar juntos, montava o cavalete, escolhia tintas, pincéis e passava o tempo pintando. Era a forma de extravasar suas emoções, e suas telas ganhavam expressão, luz e força.

Estavam no fim do ano e Eurico conseguiu formar-se. Alberto, Liana e os dois filhos chegaram para a solenidade. Amelinha, em viagem pela Argentina, onde estava se apresentando com a companhia, telefonara dizendo que ia fazer o possível para estar presente no grande dia.

Nico colocou seus quadros em um canto e cobriu-os com panos. Deixou espaço livre para João Alberto e Rosa Maria brincarem. Alberto interessou-se em vê-los e não conteve sua admiração. Chamou Liana e comentou: - Veja que maravilha! Ele é um gênio. Como pode pintar um quadro assim sem nunca haver aprendido?

Liana lembrou:

380

- Você sabe que ele foi pintor famoso em outra vida. Isso confirma as informações que temos.

- É verdade. Isso não pode ficar oculto. Vou conversar com um amigo do jornal e vamos ver o que acontece.

Alberto conversou com o colega, que foi até lá e ficou tão impressionado que em seguida levou um especialista, dono de uma galeria de arte, para vê-los. Depois de conversar com Nico, ele o convidou a fazer uma exposição.

Para surpresa de todos, Nico hesitou.

- Não sei se vale a pena. Para isso eu teria de me dedicar mais, talvez estudar um pouco. Acho que não estou pronto.

- Nada disso. Você está mais do que maduro. Há muitos pintores formados em escolas de belas-artes que não têm sua força. Faço questão de organizar uma exposição. Ele ainda hesitava.

- Eu terei de pintar mais alguns, e pintura para mim não é obrigação. Não sei se quero fazer isso.

- Façamos uma coisa. Daqui a quinze dias tenho uma exposição em que apresentarei vários artistas. Se me permitir, podemos expor alguns de seus trabalhos e vamos ver como o público vai recebê-Ios.

- Está bem. Se insiste... Escolha os que quiser e pode levar. Depois que eles se foram, Alberto considerou:

- Pensei que você fosse ficar contente em fazer uma exposição. Entretanto, notei que ficou hesitante. Por quê? Não confia em sua arte?

- Não sei. Mas ao pensar em expor meus quadros sinto um aperto no coração! Pintar para mim é tão natural como respirar. Sempre que olho as coisas à minha volta, até as pessoas, vejo-as retratadas em cores, como se ganhassem forma, força, colorido, expressão. A pintura para mim é um canal para extravasar meus sentimentos, minhas emoções. Se estou alegre, eu pinto; se estou triste, eu pinto também. E dessa forma. consigo equilibrar meu espírito.

- Talvez você tenha muito de sua intimidade nessas telas e não deseje que os outros .as vejam.

- Pode ser.

- Você é alegre, bem-disposto, nunca o vi queixar-se, mas reconheço que nunca fala de seus sentimentos. É fechado. Não troca confidências, como Eurico ou Amelinha. - Não acredito que alguém sinta interesse em saber o que vai em meu coração.

381

Alberto colocou a mão em seu ombro e, olhando-o nos olhos, respondeu: - Eu sinto, Nico. Saiba que o admiro muito. Queria que soubesse que tudo quanto se relaciona à sua felicidade me interessa de verdade. E várias vezes tenho sentido que há alguma coisa dentro de você que coloca um brilho triste em seus olhos. O que é? Nico baixou a cabeça pensativo, ficou calado por alguns segundos, depois considerou: - Está dando para notar?

- Você disfarça bem, mas eu o conheço muito.

- É, deixar de ser criança tem seu preço.

- Você é um vencedor. Nasceu em uma família pobre e conseguiu subir na vida graças a seu esforço, seu trabalho, sua determinação e coragem. Você só tem motivos para alegrar-se. Além disso, é estimado e respeitado.

Continuar: parte 5 de 5