Quando Chega a Hora

Zibia Gasparetto · Capítulo 4 de 4 · parte 3/5

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Quando Chega a Hora

- Vou pensar. Boa noite.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Eles prometeram não comentar com a tia, mas quando se viram sozinhos Eurico não se conformou:

- Tenho certeza de que é ele.

- Pensando bem, você pode ter razão - concordou Nico.

- E se for ele, o que faremos? - volveu Amelinha.

- Nada, ora. O que podemos fazer? - respondeu Eurico.

- Se for ele, deve estar do lado dela e você pode ver -lembrou Nico. - É. Mas eu não quero ver nada. Eu posso me assustar e dar com a língua nos dentes. Já pensou se tia Liana passar mal por causa disso? - A não ser que ela já saiba - aduziu Nico. - Pelo que mamãe disse, não. Depois, ela não o queria, lembra? tornou Eurico. - Ela pode ter mudado de idéia. Ter visto como ele está diferente - sugeriu Nico. - Mamãe disse que iremos até lá no fim da outra semana. Poderemos perguntar a ela - disse Amelinha.

- Eu é que não vou perguntar nada - garantiu Eurico.- Logo agora que tudo está tão sossegado.

- Você tem dormido bem. Não me chamou mais durante a noite. - Eles me deixaram em paz. Não quero que voltem. Mamãe tem razão. Vamos esquecer esta história.

- Se for ele, vai aparecer de novo mesmo - concordou Nico. - Será que ele vai aparecer como nenê? Isto é, se ele for nascer? - perguntou Amelinha. 340

- O professor disse que ele pode ser visto como ele era ou como ele vai ser. Depende. - Chi!!! Nico, você agora está confundindo minha cabeça - tornou Amelinha. - Como pode ser isso?

- Ora, na outra dimensão o tempo é diferente. Quem vê os espíritos está olhando para a outra dimensão. Pode ver o que já aconteceu, o que está acontecendo e o que vai acontecer. - É isso mesmo - concordou Eurico. - Já aconteceu comigo. Uma vez eu vi tia Liana como ela era quando foi esposa do coronel. - Como é isso? - indagou Amelinha.

- Ora, eu olhava para ela, e ela estava com outra cara. Parecia outra pessoa. Uma vez olhei para Nico quando ele dormiu do meu lado, e não era ele. Era um moço bonito, de cabelos castanhos, e que, engraçado, não estava dormindo. Olhou para mim e sorriu. Quase morri de medo! - Como sabe que era eu? Podia ser um espírito que estivesse do meu lado. - Não. Naquela hora eu sabia que era você. Não dá para explicar. - Puxa! E eu? Você nunca viu como eu era na outra encarnação? - Vi. Você era feia e faladeira. Como agora. Sempre dando palpites em tudo.

- É mentira! Não acredito. Você está querendo debochar de mim - reclamou ela chorosa. - Ele não viu você - disse Nico com voz conciliadora. - Tenho certeza que você foi uma moça muito bonita e agradável.

Eurico olhou para eles e disse sério:

- Você deve saber mesmo. Naquele tempo andava sempre agarrado a ela! Os dois olharam-no admirados.

- Por que está dizendo isso? - perguntou Nico.

- Não sei. De repente pareceu-me vê-Ios adultos e abraçados. - Você sabe que às vezes eu também me sinto assim, moço e ao lado de Amelinha? Será que já nos conhecemos de outra vida?

- Acho que de tanto andar juntos acabamos por imaginar coisas. - É mesmo. É melhor deixar esse assunto de lado. Não vamos poder saber ao certo mesmo - concluiu Nico, e os outros dois concordaram.

Quinze dias depois, eles foram passar o fim de semana na mansão. Eulália estava ansiosa para ver a irmã. Comprara já algumas coisas para o enxoval do bebê e não falava em outra coisa.

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Norberto, ao saber a notícia, ficara pensativo. Sentiu receio de descobrir que havia dentro de si um pouco do antigo sentimento que nutrira pela cunhada. Mais tarde, sozinho no quarto, resolveu analisar melhor o que ia dentro de seu coração. Ele e Eulália estavam vivendo uma vida feliz. Ela a cada dia revelava-se a companheira perfeita. Tendo descoberto o amor, tornara-se ardente, apaixonada, e Norberto sentia que a amava mais a cada dia.

Era com ela que ele sentia mais afinidade. Analisando melhor seus sentimentos, ele se sentiu aliviado, e todo o receio desapareceu. A gravidez de Liana não despertara nele nenhum ciúme ou desagrado. Ao contrário, sentia-se alegre, desejava que tanto ela como Alberto encontrassem a felicidade, formando uma família como a que ele possuía. Foi, pois, com disposição e prazer que participou da alegria de Eulália, ouvindo-a discorrer sobre o que comprara para presentear o futuro sobrinho, elogiando seu bom gosto.

Pouco depois de chegarem à mansão, Liana e Alberto apareceram para abraçá-Ios. O ambiente estava alegre e eles conversavam animadamente. As crianças estavam entusiasmadas com as roupinhas do bebê que Eulália levara e faziam perguntas querendo saber quando ele chegaria, se ele iria dormir no quarto do casal, como seria o berço.

Estavam tomando o café da tarde quando Maria informou Nico que seu irmão o procurava, muito agitado. Nico atendeu-o imediatamente:

- O que foi, Zé?

- Ainda bem que você veio! O pai teve um ataque e a mãe mandou chamar você. Está muito nervosa.

- O pai? O que é que ele tem? É melhor chamar o Dr. Marcílio. - Ele está lá agora. Acho melhor você ir comigo lá.

- Eu vou. Espere um pouco.

- Eu vou com você - disse Eurico, que ouvira tudo.

- Eu também quero ir - ajuntou Amelinha.

- Sua mãe não vai deixar. Vou falar com ela.

Nico foi até a sala acompanhado dos outros dois.

- O que foi, Nico? - indagou Eulália.

- O Zé veio me chamar. Meu pai sofreu um ataque e o Dr. Marcílio está lá. Preciso ir. - Eu vou com ele! - decidiu Eurico.

- Eu também - tornou Amelinha.

- Não é preciso. O médico está cuidando dele. Pode ser que já esteja bem. 342

- Vou mandar o motorista levá-lo para ir mais rápido - determinou Norberto. - Obrigado.

- Vocês dois ficam aqui - resolveu Eulália. - Nico vai sozinho. O Dr. Marcílio está lá cuidando. Em todo caso, Nico, pode contar com nossa ajuda. Se precisar, telefone.

Depois que os dois irmãos saíram, Alberto considerou:

- Fiquei com vontade de ir com eles.

- Podemos passar lá quando sairmos - sugeriu Liana.

- Faremos isso.

Ao passarem pela casa de Ernestina, viram o Dr. Marcílio chegando também. Ficaram sabendo que Jacinto havia sofrido um derrame, cuja extensão só um exame especializado poderia informar. O Dr. Marcílio medicou-o e ficou lá observando a evolução da doença. Depois que ele deu ligeiro sinal de melhora, o médico foi até sua casa apanhar alguns medicamentos e voltou para reexaminá-lo.

Nico estava conversando com os irmãos na cozinha e aproximou-se de Alberto e Liana quando entraram na sala.

- O Dr. Marcílio está tratando dele. Vai ficar bom - disse Liana notando o ar preocupado do menino.

- Ele é um grande médico. Vamos confiar - tornou Alberto. - Eu sei disso - respondeu Nico - Seus irmãos estão assustados e você inquieto, angustiado. Acalme-se. Sua mãe vai precisar de sua ajuda. Como fazer isso se não se acalmar? - lembrou Liana. - Minha mãe tinha medo que um dia isso fosse acontecer. - Como assim, Nico? - perguntou Liana.

Ernestina aproximou-se e pediu:

- Nico, vai com as crianças conversar lá fora. - Enquanto o menino obedecia saindo com os irmãos, ela se voltou para o casal e continuou:- Vamos sentar, por favor. - A senhora está ocupada, não queremos incomodar - respondeu Liana. - Só viemos saber como ele está e dizer que podem contar com nossa ajuda em tudo que precisar - completou Alberto.

- Obrigada. Sei que são nossos amigos. O doutor está com o Jacinto e pediu que eu saísse. É até bom nessa hora ter com quem conversar.

- Sentem, por favor.

Eles se sentaram e Alberto perguntou:

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- Nico disse que a senhora previu que seu marido iria adoecer. Por quê? Ele já havia tido alguns sintomas?

Ela fez um gesto vago e respondeu:

- Não. Mas eu deduzi que ia acabar assim Veja: ele sempre foi muito forte e saudável. Tinha apetite, bons braços, pernas ágeis, mas nunca os usou bem. Não é pessoa má, mas nunca foi disposto pra trabalhar. Vivia se encostando, sentado, tudo pra ele era trabalhoso. Então eu pensei: Deus dá bons braços e pernas, saúde, força pra gente usar. A vida é muito prática e não gosta de coisas inúteis. Tudo na natureza se movimenta, trabalha, produz. Pode ver: a água parada apodrece e cria bicho; se você põe gesso na perna ou no braço, quando tira, não pode movimentar como antes. Leva tempo, precisa exercício pra voltar a ficar bom. Tudo é assim. A vida tem sua linguagem e, quando observamos, podemos sentir o que ela vai fazer com as pessoas que não se importam em usar os bens que ela lhes dá. Com o Jacinto eu sabia que ele não ia ter bons resultados dessa sua atitude. O Dr. Marcílio está lá. O Jacinto acordou, mas não está conseguindo mexer o lado direito do corpo. O braço e a perna estão paralisados.

- Mas hoje em dia a medicina está muito adiantada. O Dr. Marcílio é um médico excelente. Tenho certeza de que o Sr. Jacinto aos poucos vai melhorar - interveio Liana. - Com a ajuda de Deus, e eu desejo isso. Mas no fundo do meu coração eu sinto que vai ser difícil. Ele sempre gostou de viver parado, a vida está dando a ele o remédio que ele sempre pediu.

Ernestina falava com naturalidade e Alberto olhou admirado para Liana, que comovida abraçou Ernestina, dizendo:

- Vamos esperar que ele se recupere, porque pode ser justo para ele, mas não o será para a senhora, que já luta com tanto trabalho e terá agora de ficar cuidando dele. - Estou pronta pra fazer o que puder. Ele é meu marido. Tem seus defeitos assim como eu os meus, mas, se ele não se recuperar e eu precisar ajudá-Io, farei de coração. Ele é o pai dos meus filhos e o meu companheiro.

O Dr. Marcílio saiu do quarto e Ernestina voltou-se para ele: - Como ele está, doutor?

- Na mesma. Amanhã vou conseguir uma ambulância para levá-lo ao hospital em Ribeirão Preto para fazer alguns exames. Depois poderei falar melhor sobre o caso. - Vou ficar ao lado dele.

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- Já dei o remédio e ele vai dormir um pouco. Vou explicar-lhe como dar os medicamentos. Venha.

Eles foram para o quarto e Alberto comentou:

- Que mulher extraordinária!

- É admirável. Acho que Nico vai querer passar a noite aqui a fim de confortá-la.

- É possível. Vamos esperar o Dr. Marcílio. Quero me informar melhor sobre o caso.

Quando o médico voltou, eles se despediram e saíram juntos. Nico pediu a Liana que telefonasse para Eulália e dissesse que ele iria ficar com a família naquela noite.

Uma vez lá fora, Alberto conversou com Marcílio sobre o estado de Jacinto.

- Sua pressão arterial está descompassada. O processo ainda não se estabilizou. Não se pode prever como vai reagir.

- O derrame pode repetir-se? - indagou Alberto.

- Esse é meu receio.

- Nesse caso então seria melhor interná-lo imediatamente? - A medicação que ele tomaria no hospital, já lhe apliquei. Removê-lo nesse estado pode deixá-lo mais assustado do que já está e provocar exatamente o que desejo evitar. Amanhã faremos a internação com calma, sem nenhum prejuízo para ele e a família. - Nós desejamos ajudar para que ele tenha todo o atendimento necessário. Norberto também quer colaborar. Portanto, informe-nos o montante das despesas. - Deixe comigo. Nada faltará a ele, pode ter certeza. Quanto às despesas, depois falaremos. De minha parte tudo farei para que ele seja bem atendido.

Ao chegarem em casa, Liana ligou para Eulália e informou-a sobre a doença de Jacinto e finalizou:

- Nico pediu-me para avisá-la que vai ficar esta noite com a família. Quer confortar a mãe e ajudá-ia. Se tudo correr bem, amanhã ele volta.

- Está bem. Só espero que ele não queira ficar aqui mais tempo. Amanhã teremos de voltar para São Paulo. Ele não pode perder aula. Além disso, se ele ficar, Eurico vai me dar trabalho. Nunca vi coisa igual. Eles não se largam. Os três. Aonde um vai, os outros dois vão.

345 - É verdade. Nico é muito amoroso e preocupado com a mãe, mas ela tem bom senso. Não vai permitir que ele se prejudique por causa da doença do pai. É uma mulher prática e inteligente. Olhe, amanhã o Dr. Marcílio vai levar Jacinto a Ribeirão Preto para fazer alguns exames. Tenho certeza de que Ernestina vai convencer Nico a voltar com vocês para São Paulo.

- Espero que sim. Esse menino já faz parte de nossa família. Às vezes chego a esquecer que ele não é nosso filho. Até Norberto costuma conversar com Nico sobre os assuntos de família e muitas vezes já o vi fazer as coisas exatamente como ele sugeriu. Não é surpreendente?

- Se fosse com outro menino, eu diria que é. Mas Nico é um menino especial. Sempre percebi isso. É um líder natural. Os outros dois também acabam fazendo o que ele diz. Ainda bem que ele os influencia para melhor. Por isso vocês o estimam. - De fato. Se depender de nós, ele ficará conosco para sempre. Liana desligou o telefone e comentou com o marido:

- Decididamente Nico já conquistou toda a família. Eulália está com medo de que ele deseje ficar mais tempo com os pais.

- A mãe não vai permitir. Ela sabe o que quer.

Liana sorriu e meneou a cabeça, concordando. Estava se preparando para deitar quando disse:

- Sabe, aquela idéia de ir morar na mansão não é tão disparatada assim. Hoje, quando estava lá, observei como aquela casa é bonita. Dá gosto ver. - É verdade. Por mim, não tenho objeção. Você é que não gosta de lá. - Não sei onde eu estava com a cabeça quando disse isso. Por causa de uma bobagem eu estou me privando de ir viver em um lugar espaçoso e bonito como aquele. Afinal, o coronel já foi embora e nunca mais voltará. Não foi isso que o Dr. Marcílio disse? Alberto, apesar de surpreso, respondeu:

- Foi.

- Há um quarto que pode ser muito bem adaptado para nosso bebê. Fica logo ao lado do quarto de hóspedes, que seria nosso se nos mudássemos para lá. - Pelo jeito você esteve pensando nisso.

- É. Hoje me senti bem naquela casa. Acho que as más influências foram embora. - Ainda bem. Finalmente você se sente livre. Isso é o que importa. Às sete da manhã seguinte, a ambulância chegou para buscar Jacinto, e Ernestina queria acompanhar o marido.

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Vou ver se a Dona Ana pode tomar conta das crianças até eu voltar. - Pode ir, mãe. Eu fico aqui com eles.

- Você precisa voltar para a mansão, Nico. Dona Eulália está esperando. - Não agora. Você vai e eu fico com eles. A Dona Ana tem muitos filhos e o marido dela é abusado, vai ficar brigando com ela. Deixa que eu fico.

- Está bem. Não sei quanto tempo seu pai vai ficar lá. Mas, se ele estiver bem, eu volto e você poderá ir.

- Eu quero ficar com você. Sei que vai precisar de mim. Ernestina passou a mão de leve na cabeça do filho: - Nada disso. Acha que não sou suficiente para tomar conta da minha família? Você não pode perder aula. Seu pai está bem assistido. O Dr. Marcílio vai fazer tudo, que puder por ele. Depois, tem o professor Alberto. Ele também vai nos ajudar. - É meu pai, é minha família. Eu é que tenho que ficar.

- Vamos fazer os exames e seu pai vai ficar bem. Você vai poder voltar pra São Paulo. - E se ele piorar e eu estiver longe?

- Se ele piorar e eu precisar de você, telefono chamando. - Promete?

- Prometo. Agora tenho que ir. A ambulância já vai sair. Depois que eles se foram, Nico chamou José.

- Senta aí. Precisamos conversar.

- Acha que o pai vai morrer?

- Não sei. Mas você é o filho mais velho. Se o pai está doente, é você quem tem que cuidar da família.

- Eu?! A mãe nunca me dá ouvidos. Ela só fala no queridinho dela, que é você. Agora que as coisas estão complicando, eu é que tenho que pagar o pato? Nico levantou-se e aproximando-se do irmão olhou-o firme nos olhos e disse sério: - Você já fez treze anos. O que quer da vida? Acha que vai levar tudo assim, jogando bola, sem estudar nem trabalhar? Está na hora de começar a ajudar a mãe e a sua família. Viu o que aconteceu com o pai?

- Vi. Mas não foi por minha causa.

- Não? Eu ouvi a mãe falando que o pai ficou doente porque vivia muito parado. 347

- Isso é bobagem. Ele teve um derrame.

- Mas ficou sem poder mexer o braço e a perna. Se não melhorar, não vai mais poder andar. Já pensou nisso?

José baixou a cabeça e não respondeu, Nico continuou:

- A mãe está certa. Se você observar, tudo se movimenta na natureza. E é isso que garante a vida. A água corre para o rio, o rio corre para o mar, o sol nasce e se põe, até a Terra gira em volta do sol. O vento movimenta as árvores, tudo se move. Quem fica parado emperra. Já pensou se o sol resolvesse parar e não voltar no outro dia? Se as águas não corressem para os rios e o sol, parado no céu, secasse tudo? Em pouco tempo todos nós morreríamos. A vida se sustenta porque cada coisa, cada ser vivo, cada pessoa faz a sua parte. Você recebeu de Deus o dom da vida, precisa fazer a sua parte, contribuir para que a vida seja melhor a cada dia e tudo continue existindo. Esse é o preço que você tem que pagar por estar vivo. José olhou o irmão admirado. Nunca havia pensado nisso. Não se deu por achado:

- Eu não pedi pra viver. Deus me fez nascer porque quis. - Mas você nasceu, está vivo e com saúde. O que você fez em favor da vida? - Que idéia! Não preciso fazer nada. Eu quero viver, fazer o que eu gosto. Não sou como você, que vive puxando o saco dos outros.

- Mas enquanto eu estou estudando, me preparando para viver melhor, você está a cada dia mais preguiçoso. Não ajuda a mãe, não estuda, não trabalha. Como pensa que será a sua vida quando crescer?

- Quando chegar a hora vou pensar nisso. Agora sou criança. - Quando for grande, vai ter que pegar o cabo de enxada se quiser comer. Por enquanto a mãe trabalha e você tem comida todos os dias. Mas, quando ela ficar velha e você tiver que comprar a própria comida, como vai fazer isso?

- Você sempre foi o queridinho dela. Eu sempre fui rejeitado. Você aparece aqui vestido como gente rica, mora na cidade, anda de carro, e ainda se dá o luxo de me chamar de preguiçoso?

Nico colocou as mãos nos ombros do irmão e sacudiu-o com força: - Viu o que está fazendo com você? Você nunca foi rejeitado por ninguém. O que a mãe me ensinou também ensinou a você. Só que eu ouvi os conselhos dela, e você não. Não foi ela quem rejeitou você, foi você quem rejeitou o amor e os conselhos dela. Agora fica dando uma de coitado, mas eu sei que você não é nada disso, que é um menino inteligente, que tem saúde, que se quisesse poderia ser muito mais do que eu e conseguir tudo que precisasse para progredir na vida. Mas prefere dar-se ares de superioridade, de revoltado, não obedece à mãe, não ajuda, não faz nada. Acha que está se beneficiando com isso? Acha que está lucrando? Não, você está se enterrando, se acabando, se tornando um vagabundo. É isso que quer?

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José sacudiu o corpo e escapou dele, dizendo:

- Me deixa em paz. Você não manda em mim. O pai fala que eu sou criança para pensar na vida, que quem é esperto não precisa se matar de trabalhar pra viver. - Você dá ouvidos ao que ele fala e vai acabar como ele, vivendo às custas da mulher e entravado em uma cama. É isso que quer?

- Não fica agourando. Você não tem nada com a minha vida. Dizendo isso, saiu. Nilce, que observava da porta, aproximou-se: - Você está perdendo tempo. A mãe dá tantos conselhos a ele, mas nunca ouve. Esse não tem jeito mesmo.

- Apesar de tudo, ele é um menino inteligente. Um dia vai compreender e mudar. - A mãe também fala isso. Mas eu duvido. Vem tomar café, Nico. Eu fiz e tem bolo de milho. O Jaime e a Neusinha já comeram. - E o Zé?

- Deve estar no quarto. Vou chamar.

Pouco depois ela voltou admirada.

- Ele saiu. Não está em nenhum lugar. Ele é sempre o primeiro a tomar café. Saiu sem comer. Aonde terá ido?

- Foi esfriar a cabeça, mas volta logo, ainda mais que não tomou café. Vamos nós. Abraçando a irmã, Nico conduziu-a para a cozinha e sentou-se esperando que ela colocasse o bule na mesa. Felizmente Nilce estava crescida e tinha boa disposição para ajudar a mãe nos trabalhos da casa.

Se seu pai estivesse melhor, ele poderia voltar para São Paulo na tarde daquele mesmo dia. No fim da tarde, Ernestina voltou informando que o marido ficara internado para mais alguns exames, mas que o estado dele havia estabilizado, o que afastava temporariamente a possibilidade de repetição do derrame. Assim, Nico podia voltar para São Paulo com Dona Eulália.

Ele concordou, um pouco hesitante, mas Ernestina insistiu e ele finalmente aceitou ir. Entretanto, antes de ir embora, aproveitou quando todos estavam tomando um lanche na cozinha e disse:

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- Eu vou, mas, agora que o pai não está, o Zé é que tem que tomar conta da família. É o homem da casa.

Todos o olharam admirados. Ernestina olhou para Nico depois para José, e respondeu com voz calma:

- Ainda bem que Deus não me deixou sozinha nesta hora. É bom ter um homem dentro de casa pra me apoiar.

José estremeceu, endireitou o corpo, levantando a cabeça, mas não disse nada. Ernestina continuou tranqüilamente tomando seu café, conversando com os filhos com naturalidade. Quando acabaram, Nico beijou as crianças e despediu-se da mãe, fazendo-a prometer que o chamaria se precisasse dele. Ao sair, disse para José:

- Eu gostaria de ficar, mas não posso. Confio que você vai ajudá-los mais do que eu. Vamos rezar para que o pai sare logo.

José não disse nada, e Nico apressou-se em ir para a mansão. Eulália havia mandado avisar que partiriam às seis, e ele teria tempo apenas de arrumar suas coisas para a viagem de volta.

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Capítulo 25

Jacinto ficou internado no hospital durante uma semana. O Dr. Marcílio achou melhor que ele ficasse lá para poupar um pouco Ernestina e dar uma assistência intensiva. Seu estado havia se estabilizado, porém não conseguia movimentar os membros do lado direito nem pronunciar as palavras com facilidade, o que o deixava mais nervoso. Ernestina informava-se do estado do marido pelo Dr. Marcílio. - Amanhã ele vai deixar o hospital e voltar para casa. Por enquanto não consegue andar, mas vou ver se consigo que Nelsinho venha cuidar dele.

Ernestina olhou séria para o médico:

- Ele vai ficar bom? Isto é, vai se recuperar e voltar a ser como era? - A fisioterapia vai ajudá-Io. Vamos ver como reage. Ele está nervoso e rebelde. Tem dado um pouco de trabalho. Mas tenho certeza de que você vai conseguir convencê-Io a fazer tudo direito. É preciso que ele saiba que esses exercícios representam sua oportunidade de cura. Se ele

não reagir, se não fizer esse esforço, nunca mais vai andar. - Deixe comigo. Ele vai ter que fazer.

- Vou ver se consigo também uma cadeira de rodas, pelo menos enquanto ele está assim. - Isso deve ser caro, doutor. Não sei se terei como pagar. - Não se preocupe, Dona Ernestina. A senhora tem muitos amigos. O Dr. Norberto e o professor já se prontificaram a pagar o tratamento. Jacinto vai ter tudo que for preciso para ficar bom. O importante agora é fazer com que ele se esforce para aproveitar. Jacinto voltou para casa no dia seguinte. Alberto e Liana foram visitá-Io. Ernestina recebeu-os com carinho, informando-os sobre o estado do marido, e finalizou: - O Dr. Marcílio tem sido bom demais. Sem falar de vocês, que vão pagar o Nelsinho. Amanhã o Jacinto vai começar os exercícios. Nem sei como agradecer tudo que têm feito pelo Nico e agora por nós. Só Deus pode lhes pagar.

- Não se preocupe com isso, Dona Ernestina. Vamos rezar para ele ficar bom - respondeu Alberto.

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- Pode contar sempre com nossa amizade - ajuntou Liana. - Nico é muito querido por todos nós. Eulália não esquece que ele contribuiu muito para que Eurico ficasse bom. Eu mesma devo a ele muitos favores. Seu filho é maravilhoso.

Os olhos de Ernestina brilharam emocionados quando ela sorriu e disse: - De fato. Ele sempre foi a luz que Deus colocou em meu caminho. É um bom menino e merece ser feliz.

Depois de passar ligeiramente pelo quarto do doente e desejar-lhe breve recuperação, despediram-se, oferecendo-se uma vez mais para ajudar Dona Ernestina no que precisasse. Ao sair, viram José sentado em um canto do jardim, pensativo. Alberto aproximou-se: - Como vai, Zé?

O menino levantou os olhos e Alberto notou que ele havia chorado. - Não fique triste. Tenha fé. Seu pai vai melhorar.

José não respondeu. Limitou-se a baixar a cabeça novamente. Alberto fez um sinal para Liana, que se afastou discretamente, indo esperá-lo do lado de fora. Depois, Alberto abaixou-se e colocou a mão no ombro do menino, dizendo: - Está sendo difícil para você suportar esse momento. Sei como é, porque já passei por isso também. Gostaria de ser seu amigo e dizer que pode contar comigo para o que precisar. Um soluço sacudiu o corpo do menino. Ele tentou se conter, levantou os olhos ch ios de lágrimas e respondeu com voz emocionada:

- Desculpa, professor. Eu não sou um fraco. Meu pai sempre me ensinou que chorar é coisa de mulher.

- Não é verdade, Zé. Há momentos em nossa vida em que chorar alivia a alma. Eu mesmo já chorei muitas vezes. Deixe sair a sua dor.

Chore, se tem vontade.

O menino não conseguiu mais conter o pranto. Seu corpo foi sacudido pelos soluços enquanto as lágrimas lavavam suas faces e, embora ele com as mãos tentasse limpá-Ias, não paravam de cair.

Alberto tirou um lenço do bolso e deu-o a ele. Quando o viu mais calmo, disse: - Agora enxugue os olhos e não se deixe abater. Seu pai vai melhorar. Você pode ajudá-lo não o deixando perceber sua tristeza. Sua mãe e seus irmãos também precisam de seu apoio.

José suspirou, enxugou os olhos e depois tornou envergonhado: - Eu não sirvo pra nada, professor. Não sei ler nem trabalhar, como o Nico. Não posso ajudar ninguém.

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- Não diga isso, Zé. Tudo que Nico faz você também pode fazer. É só querer aprender. - Estou muito grande para ir na escola. Tenho vergonha. Depois, estou com muito medo. - Medo? Por causa da doença de seu pai?

- Por tudo. Eu tenho medo de ficar como ele, .sem poder andar. O pai nem pode mais falar direito. Não quero ficar como ele...

- Você não vai ficar como ele. Não precisa ter medo.

- O Nico disse que sou vagabundo, que não gosto de trabalhar. Quem fica parado acaba assim, como o pai. Quando eu vi ele desse jeito, pensei que o Nico podia ter razão. Eu não quero ficar assim. Eu ouvi o Dr. Marcílio dizer que não sabe se ele vai ficar bom como era. Eu não ouvia os conselhos da mãe, só os dele. Agora sei que ele estava errado. E eu estou grande demais pra aprender. Estou com medo. O que vai acontecer comigo?

Alberto, penalizado, passou a mão pelos cabelos do menino. - Não vai acontecer nada de mau. Você ainda é criança. Reconhece que não estava agindo da melhor maneira. Mas tem tempo de aprender.

- Não quero ir pra escola com os pirralhinhos. Estou muito grande. - Eu tenho a solução. Se tem mesmo vontade de estudar, posso ensiná-Io.

José levantou para ele os olhos brilhantes de emoção:

- O senhor é professor. Faria isso por mim?

- Farei, se está mesmo disposto a estudar. Posso ensiná-Io e recuperar o tempo perdido. - Não tenho dinheiro pra pagar.

- Eu exijo pagamento. Só que não precisa ser em dinheiro. - Como, então?

- Sou pessoa ocupada e não posso perder tempo. Tem de aproveitar bem as aulas, prestando atenção, e estudar de fato. Depois, vai aprender a cuidar do meu jardim. José coçou a cabeça preocupado:

- Eu quero, só que não sei como se cuida de um jardim. Nunca fiz isso. - Não importa. Vai aprender. Então, o que me diz?

Ele se levantou e olhando nos olhos de Alberto disse:

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- Acha mesmo que posso aprender? Que não sou muito burro? - Tenho certeza. Você pode fazer tudo que eu faço, ou que Nico faz. Basta querer. Podemos começar amanhã. Apareça lá em casa às duas da tarde.

- Sim, senhor! Pode esperar!

Alberto apertou a mão dele, tentando esconder a emoção. Procurou por Liana, que o esperava do lado de fora.

- O que houve com ele? - indagou ela.

- Um milagre. A doença do pai, alguma coisa que Nico disse, não sei bem o que foi, tocou a alma dele e parece disposto a mudar, a estudar e até trabalhar. - Que bom. Ernestina vai ficar muito contente. Sempre se preocupou com o futuro dele. - Vamos ver. Vou dar-lhe aulas. Começamos amanhã.

Liana abraçou o marido e sorriu:

- Tenho certeza de que ele vai aprender tudo. Você nasceu para ensinar. No dia seguinte, José apareceu na casa do professor antes da hora marcada. Havia tomado banho, penteado os cabelos e vestido sua melhor roupa.

Antes do almoço ele já estava pronto e Ernestina, vendo-o limpo e calçado, o que não era seu costume, admirou-se:

- Você vai a algum lugar?

Ele hesitou. Não queria contar que ia começar a estudar. E se não conseguisse aprender? Não queria que os irmãos soubessem e o chamassem de burro. - Depois eu conto - respondeu olhando para Nilce, que estava ajudando a mãe com o almoço.

Ernestina notou seu embaraço e disse com naturalidade:

- Nilce, vai recolher a roupa do varal. O sol está forte e se secar muito vai ficar ruim pra passar.

Depois que a filha saiu, Ernestina tornou:

- Se é segredo, já pode falar. Estamos sozinhos.

- É que ontem eu estava pensando... isto é... o professor Alberto falou comigo e pediu pra eu ir trabalhar no jardim da sua casa. Disse que me ensina. - Que bom.

- Se eu limpar bem o jardim, ele vai me ensinar a ler e escrever. Ernestina abraçou o filho com carinho.

- Fico feliz que tenha decidido cuidar do seu futuro. Pode contar comigo pro que precisar: cadernos, lápis, tudo. Acho que vou comprar mais duas mudas de roupas. Vai precisar. Por que não contou isso na frente da sua irmã? Ela sempre quis que você fosse estudar na escola dela.

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- Não quero que ninguém saiba. O pai nem os irmãos. E se eu não conseguir aprender? - Você sempre foi um menino inteligente. Vai aprender tudo muito depressa. O que faltava era só vontade.

- Não sou inteligente como o Nico ou a Nilce. Se eu fosse, não tinha fugido da escola e dado ouvidos às conversas do pai.

- Qualquer pessoa, mesmo sendo inteligente, pode escolher errado. Foi o que aconteceu com você. O importante é que agora você percebeu e quer mudar. O seu sucesso vai depender da vontade que tem de melhorar a sua vida. Aprender coisas é alargar o seu mundo. Tenho certeza de que você vai adorar estudar com o professor Alberto. O Nico adorava.

Gislene fez José entrar e Alberto conduziu-o para o escritório. Notou que o menino estava acanhado e respondendo por monossílabos. Fê-lo sentar-se no sofá e sentou-se a seu lado, dizendo:

- Vamos conversar. Se vamos trabalhar juntos, precisamos nos conhecer melhor. Você já completou treze anos?

- Já.

- Qual é o dia de seu aniversário?

- Dois de setembro.

- O que você mais gosta de fazer?

- Bom... eu acho que... eu gostava de jogar bola, mas agora tenho que mudar. - Você pode continuar a jogar bola. É um excelente esporte. - Mas é só o que eu fazia, e por causa disso não fui mais na escola. - Não há nada de errado em gostar de fazer algum esporte, ou se divertir fazendo o que gosta. É uma questão de saber organizar sua vida com inteligência. Se fizer isso, terá tempo para estudar, para trabalhar e para se divertir jogando bola, fazer qualquer outra coisa que lhe dê prazer, ou até não fazer nada.

José arregalou os olhos:

- Será? Eu levantava cedo e só pensava em jogar bola.

- Na vida todos precisamos aprender disciplina. Sabe o que é isso? - Sei. É ter que fazer tudo que você não gosta.

Alberto riu bem-humorado.

- Quem disse isso a você?

O menino enrubesceu e disse baixinho:

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- Foi meu pai... mas agora acho que ele não estava certo. - Com certeza seu pai não teve quem lhe ensinasse isso. Vamos começar nosso estudo por aí.

Alberto apanhou um livro de gravuras sobre a natureza e os fenômenos do universo e sentou-se novamente ao lado do menino, dizendo:

- Vou chamar você de José. É esse seu nome. Veja esta gravura. É um retrato da Terra, o planeta onde nós vivemos.

Alberto começou a contar ao menino toda a história da dimensão do universo, das galáxias, da formação dos planetas e de seus movimentos em torno do sol. Ia mostrando no livro e falando do equilíbrio dos planetas e da própria Terra, de como nasce o dia e como o sol se põe.

A certa altura o menino não se conteve:

- Quer dizer que nós estamos em cima dessa bola que gira sem cair? Como pode ser isso? - É que o planeta Terra tem uma força de atração que nos puxa para ela. Por isso não caímos de sua superfície. É por isso que, quando você joga a bola para cima, ela cai. - É essa força da Terra que puxa ela?

- É. Isso é uma lei da natureza.

- O que é uma lei?

- É uma força natural a que tudo e todos estamos sujeitos. Essa força a que me referi é própria da natureza e nós a chamamos de lei da gravidade. - Puxa, professor! Nunca pensei que fosse assim.

- O universo é maravilhoso. Há muito mais.

Alberto descrevia e José ouvia deslumbrado, esquecido de tudo que não fosse o brilho das estrelas, a imensidão dos céus e os mistérios insondáveis dos mundos distantes. - Desejo que você perceba que Deus fez tudo isso, mas colocou cada coisa em seu devido lugar. Tudo é organizado, tudo se movimenta perfeitamente, dentro de uma ordem sem que os planetas se choquem. Cada coisa cumpre sua função e tudo acontece dentro do plano de Deus. Isso é disciplina, organização. Já pensou se as coisas fossem ao acaso e não houvesse um rumo para elas?

- Ia dar confusão. Os planetas podiam se chocar, ia morrer todo mundo. - É verdade. Mas a sabedoria de Deus criou o universo e um sistema disciplinar para que ele funcione.

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- Deus foi inteligente.

- Isso mesmo. Você acaba de dizer que usar a disciplina é ser inteligente. E eu digo mais: que a disciplina com inteligência serve para facilitar nossa vida. - Como assim?

- Se nós seguirmos certas normas, embora elas requeiram certo esforço, no fim vão facilitar muito e contribuir para melhorar nossa vida. - O estudo é uma disciplina? - É. Você percebeu bem. Às vezes você pode achar que é melhor passar o dia inteiro jogando bola, ao invés de dividir se tempo estudando, trabalhando, jogando bola. Mas o estudo vai lhe dar condições de conhecer mais como as coisas funcionam, de trabalhar melhor, de ser mais útil e ter mais realização. Além disso, quem sabe fazer coisas pode obter melhor salário. Quando for jogar bola, estará feliz, com dinheiro para poder comprar o que quiser, ajudar sua família, sentir-se realizado. Não acha que vale a pena aprender a ser disciplinado?

- Acho.

- Todas as coisas que você desejar fazer têm um caminho que você precisa percorrer para chegar aonde pretende. A disciplina é o jeito inteligente de encontrar o caminho mais curto. - Qualquer um pode aprender a fazer isso?

- Pode, se tiver vontade e for observador.

- Observador como?

- Prestar atenção em como a vida funciona. A vida é a maior professora. - Como eu posso saber que é ela quem está me ensinando? - Quando uma coisa complica, pode ter certeza de que está errada. É melhor parar e tentar perceber onde você errou e recomeçar de outra forma. A vida gosta da simplicidade, do jeito prático, fácil.

- O caso do meu pai está complicado, mas agora ele não pode voltar atrás. O médico disse que não sabe se ele vai voltar a ser como antes.

- Ele precisava aprender a enxergar o valor do trabalho, da disciplina. Teve certo tempo para que ele fizesse isso. Como ele não o fez, a vida resolveu aplicar um remédio para curá-Io de vez.

- Não foi remédio, foi doença.

- Para ele a doença é o remédio. Por meio dela ele vai compreender o valor da disciplina e do esforço próprio.

- E se ele não sarar, do que vai adiantar essa doença?

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- É bom você saber que a vida não existe só enquanto estamos vivendo neste mundo. Ela continua depois da morte.

- O Nico fala de espírito, mas eu tenho medo.

- Se conhecer a verdade, o medo vai embora. É bom saber que a vida continua. Seu pai vai continuar vivendo mesmo depois que o corpo dele morrer. E, então, ele terá aprendido o que a vida deseja lhe ensinar. Sabe, José, a vida sempre ensina pensando na alma, que é eterna.

- Quer dizer que se eu morrer vou continuar vivendo em outro lugar? - Vai. Seu espírito é eterno. A vida não tem fim. Você não sente que nunca vai morrer? - É. Eu sinto. Apesar de ver o cemitério cheio de túmulos, dentro de mim eu acredito que nunca vou morrer. - É porque o espírito nunca morre. Você já viveu outras vidas antes dessa e ainda viverá outras depois.

- Eu não me lembro de nada antes de agora.

- É assim mesmo. Nós nascemos e esquecemos, mas guardamos em nosso espírito todas as vidas passadas. Quando voltamos para o mundo de onde viemos, recordamos tudo. Assim, de vida em vida vamos aprendendo, experimentando, crescendo. - Minha avó era muito boa. Fiquei triste quando ela morreu. Quer dizer que ela está viva em outro lugar?

- Está. A morte é apenas uma mudança, uma viagem.

Liana apareceu na porta:

- Vocês estão aí há mais de duas horas. Está na hora do lanche. - Já? - indagou José. - Vamos parar. Você já tem muito material para pensar. Amanhã continuaremos - resolveu Alberto. - Venha, vamos tomar nosso café. José levantou-se um pouco acanhado. Liana adiantou-se:

- Venha, José. Vou levá-Io para lavar as mãos.

Ele a acompanhou até o banheiro e quando saiu Alberto esperava-o e conduziu-o à copa, onde a mesa posta e o gostoso cheiro do café os esperavam. - Sente-se, José - pediu Liana.

Percebendo o acanhamento do menino, Alberto disse com naturalidade: - Amanhã gostaria que você viesse cedo. A que horas levanta? - A hora que for preciso. A que horas posso vir?

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- Às nove.

- Eu trouxe caderno e lápis. Minha mãe disse que compra o que for preciso pra que eu faça as lições.

- Por enquanto não vai precisar. Eu tenho aqui algum material. Quero que venha de manhã para trabalhar no jardim e à tarde para estudar. Você concorda? - Sim, senhor. Nós combinamos que eu devo trabalhar em troca das aulas. - Isso mesmo.

José remexeu-se na cadeira.

- O que foi, José?

- É que eu não sei lidar no jardim. Está cheio de flores e eu tenho medo de estragar alguma coisa.

- Vou ensinar como você vai cuidar de tudo. Não se preocupe. Vamos fazer juntos.

Ele respirou aliviado.

- Tome seu café, José - convidou Liana. - Experimente o bolo. É a especialidade de Gislene. Hoje ela fez em sua homenagem. José endireitou o corpo, olhou para Gislene, que colocava uma generosa fatia do bolo em seu prato, sorriu e disse:

- Muito obrigado, Gislene. Nunca ninguém fez um bolo em minha homenagem. - Um menino que trabalha e estuda merece. Eu admiro você disse ela satisfeita. Quando saiu da casa meia hora depois, José sentia-se muito feliz. Nunca fora tratado com tanto carinho e respeito. Chegou em casa alegre, e Nilce foi logo perguntando: - E então, como foi?

- Muito bem. Aprendi tudo que o professor ensinou.

- Ele não passou lição de casa?

- Ainda não.

Ernestina entrou na cozinha carregando uma pilha de roupas que recolhera do varal. - Está com fome, Zé? Tem café no bule e pão no armário. - Obrigado, mãe, mas já comi. Sabe que na casa do professor a Gislene fez um bolo em minha homenagem?

- Puxa! E você comeu? - interveio Nilce.

- Claro que comi. Dois pedaços. Estava uma delícia.

- Espero que você tenha agradecido e não tenha abusado. 359

- Não, mãe. Pode ficar sossegada. Eles são muito educados e eu vou aprender a ser como eles.

- Isso mesmo, meu filho. É preciso respeitar as pessoas para ser respeitado. Não quero que nenhum filho meu seja malcriado. Nós somos pobres mas dignos. Quando começou a escurecer, José sentou-se no degrau da escada do jardim, perdido em seus próprios pensamentos. Olhava o céu, onde as primeiras estrelas já apareciam, e dava largas à imaginação.

Nunca havia reparado na beleza do céu estrelado. Notou que algumas estrelas eram maiores e brilhavam mais do que as outras. Estariam mais perto ou seriam maiores? No dia seguinte perguntaria ao professor.

Ficou ali contemplando o céu até que Ernestina o chamou: - Está na hora de entrar, Zé. Vamos dormir.

Ele entrou e ajudou a mãe a fechar as janelas. Depois disse: - Amanhã vou levantar cedo. Preciso estar na casa do professor às nove horas pra trabalhar no jardim. Não quero perder a hora. Já que eu vou levantar mesmo, posso ir até a padaria buscar o pão.

Ernestina concordou. Nilce, que passava pela sala e ouviu as palavras dele, comentou: - Uma alma se salvou agora. Os milagres podem acontecer! Você se oferecendo pra ir buscar pão?!

- O que é que tem? Eu vou porque quero. Você não tem nada com isso. Ernestina interveio:

- Ei, vocês dois! Vamos parar com isso. Você deveria agradecer a boa vontade do seu irmão. Se ele não se oferecesse, você é que tinha que ir. - Não está mais aqui quem falou, mãe. O Zé está mudado mesmo. - Isso é só o começo. Você ainda não viu nada. - Hum... pelo jeito está resolvido mesmo. Só quero ver até quando... - Deixa ele, Nilce, e vai ver se a Neusinha escovou os dentes. Ela comeu broa, tomou café com leite e foi direto pro quarto. Acho que já se deitou.

Nilce foi para o quarto e José disse sério:

- Mãe, a Nilce não acredita, mas eu estou mudado mesmo. Ainda hoje, lá na casa do professor, eu senti que era isso que eu queria da vida. Eles me chamaram de José, me trataram tão bem que me senti importante. Estou resolvido, mãe. O Nico está certo em querer ser gente. Eu também quero ter uma vida melhor. 360

Ernestina sorriu e seus olhos brilhavam de felicidade quando ela respondeu: - Filho, estou muito contente que tenha decidido isso. Eu sabia que um menino inteligente e esperto como você não ia ficar toda a vida se contentando em viver na miséria e na inutilidade. Não me enganei e estou orgulhosa de você. Estou certa que daqui pra frente você vai melhorar a cada dia.

- Obrigado, mãe. Vou mostrar pra todo mundo do que sou capaz. - Isso mesmo, meu filho. Que Deus o abençoe.

Continuar: parte 4 de 5