Reflexões e práticas na formação de educadores

Capítulo 12. Pedagogia da alternância: educador/monitor e práticas pedagógicas

Capítulo 12. Pedagogia da alternância:

 

Educador/monitor e práticas

 

pedagógicas

 

Cíntia Moralles Camillo, Liziany Müller Medeiros

 

Introdução

 

A Educação é um direito de todo e qualquer indivíduo e deve ser garantida pelo

poder público a toda a população, independentemente de residir na zona urbana ou rural. É direito garantido por lei que todas as famílias do campo tenham acesso à educação pública e gratuita em todos os níveis de ensino. Segundo Oliveira (2004), construir reflexões acerca do campo, seus sujeitos e, mais precisamente, sobre a Educação do Campo significa que estamos inseridos no debate político, ideológico e teórico. O acesso à escola foi democratizado, mas o acesso aos conhecimentos por ela construídos ainda é restrito, principalmente para o jovem do campo.

 

Desta forma, e para uma melhor compreensão do problema, parte-se para a análise de uma

importante categoria espacial: o lugar. É por meio da compreensão e do conhecimento do lugar,

que os educadores das escolas do campo poderão compor suas práticas educativas, de forma a

respeitar e apreender sobre os saberes sociais das comunidades envolvidas (Moura, 2009, p. 13).

 

Para que as escolas atendam às peculiaridades dos sujeitos do campo, é necessário

que o educador leve em conta a vida e o cotidiano dos educandos, entendendo a realidade, o contexto social e as dificuldades por eles enfrentados. Conforme Vieira Filho e Fishlow (2013), as pequenas propriedades são desprovidas de máquinas agrícolas, ordenha mecânica e insumos agrícolas, muitas vezes até de suporte técnico de um profissional.

 

A Educação do Campo nasceu como mobilização/pressão de movimentos sociais por uma política

educacional para comunidades camponesas: nasceu da combinação das lutas dos Sem Terra pela

implantação de escolas públicas nas áreas de Reforma Agrária com as lutas de resistência de

inúmeras organizações e comunidades camponesas para não perder suas escolas, suas

experiências de educação, suas comunidades, seu território, sua identidade (Caldart, 2000).

 

A escola do campo tem como objetivo profissionalizar e dar condições aos sujeitos

em manter-se no campo, preparando-os para isso. Percebe-se, cada vez mais, a importância em não formar os educandos apenas para os sistemas produtivos, mas como cidadãos comprometidos com a problemática referente à modernização da agricultura e consequente crise social, ambiental e econômica (Lourenzi et al., 2012).

Este capítulo tem o objetivo de problematizar as influências que o educador/monitor

e as práticas pedagógicas exercem no desenvolvimento da Pedagogia da Alternância, por meio de uma revisão sistemática das publicações acadêmicas sobre o tema no período de 2007 a 2017.

 

Origem da Pedagogia da Alternância

 

A Pedagogia da Alternância teve o início na França, em 1935, com a criação da

primeira Maison Familiale Rurale (MFR), que tinha como missão atender às famílias moradoras do campo, especialmente os jovens do sexo masculino (Detogni e Zancanella, 2016). A Alternância chegou ao Brasil a partir de 1969, com as primeiras Escolas Famílias Agrícolas (EFAs), no estado do Espírito Santo; já as Casas Familiares Rurais (CFRs) tiveram o seu início no nordeste do país, em 1987, em Alagoas. No ano de 2016, a União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil (UNEFAB)

publicou dados gerais relevantes a respeito das EFAs no país, conforme a tabela 1.

 

Tabela 1: Dados sobre as Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) no

Brasil

Total de EFAs em funcionamento 112

 

Total de EFAs em implantação 40

 

Número de cursos no Ensino Fundamental 103

 

Número de cursos no Ensino Médio Profissionalizante 21

 

Número de alunos atendidos pelas EFAs 10.779

 

Número de comunidades rurais envolvidas 2.818

 

Número de famílias envolvidas 25.400

 

Número de educadores que trabalham nas EFAs 624

 

Outras pessoas (auxiliares/colaboradores) 250

Fonte: União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil (UNEFAB), 2016.

 

Atualmente, a localização predominante das CFRs está na região Sul do país, e, de

acordo com dados da Associação Regional das Casas Familiares Rurais do Sul do Brasil (Arcarfa Sul) (2014), existem, na referida região, 71 Casas Familiares Rurais, sendo 41 no Paraná, 22 em Santa Catarina e 8 no Rio Grande do Sul. Essas casas vêm oferecendo e possibilitando a muitos jovens do meio rural uma formação voltada a sua realidade, com o objetivo integral de promover o seu desenvolvimento socioprofissional (Bernardi et al., 2014).

Segundo Monteiro (2014), a Pedagogia da Alternância tem como principal

característica o envolvimento da comunidade e da família no processo educativo e possui a intencionalidade em proporcionar uma formação profissional técnica para que o indivíduo possa atuar no meio em que vive. Ainda, apresenta a finalidade de abrir caminhos que proporcionam ao agricultor, à sua família e à comunidade em geral o desenvolvimento e a criação de novas alternativas de produção e conhecimento, a fim de garantir trabalho, renda na propriedade, além do convívio em sociedade (Gimonet, 2007).

“A alternância constitui o meio, ao mesmo tempo para aceder a uma qualificação

reconhecida por diploma e de construir uma identidade profissional duradora” (Gimonet, 2007, p. 119). Contudo, para garantir o processo educativo numa proposta interativa, a alternância desenvolve-se em três momentos e espaços significativos,

conforme a figura 1.

 

Figura 1: O método de Alternância

 

Fonte: Samua, 2012, p. 43.

 

Portanto, o processo de desenvolvimento na Pedagogia da Alternância, os saberes

teóricos e práticos construídos a partir da relação propriedade- CFR -propriedade, com a participação do educando do campo, são de suma importância para garantir uma proposta interativa e dinâmica, possibilitando que o conhecimento gerado rompa barreiras da escola e chegue à comunidade do campo. O processo de ensino-aprendizagem proposto por essa Pedagogia “possibilita aos educandos vivenciarem momentos na escola, na família e na comunidade. A aquisição do conhecimento se dá de forma construtiva e participativa, envolvendo vários autores: educandos, pais e monitores/educadores” (Queiroz et al., 2006, p. 60).

A Pedagogia da Alternância abre caminhos, proporciona ao jovem do campo a

obtenção de sua formação, alternando os períodos de estudos na CFR ou nas EFAs, assim como na sua propriedade, a partir da relação entre a teoria e a prática. Também auxilia o educando no conhecimento e valorização de sua cultura e o conduz para o despertar da consciência crítica, visando à ampliação e ao enriquecimento do seu modo de vida (Jesus, 2011).

 

Práticas pedagógicas na Pedagogia da

 

Alternância

O processo de ensino-aprendizagem diferenciado torna-se possível devido ao

conjunto de ferramentas, metodologias e práticas pedagógicas. As ferramentas pedagógicas são apontadas por Gimonet (2007) como possibilidades para articular o tempo e o espaço da formação do educando, associar a formação profissional com a formação geral e associar os pais, jovens e educadores/monitores ao processo de formação, acompanhando cada jovem nas suas aprendizagens e caminhadas. A seguir, destacam-se as seguintes práticas metodológicas mediante os pressupostos de Moro (2016).

 

Plano de Estudo: elemento chave da Pedagogia da Alternância, pois os demais elementos pedagógicos se originarão das temáticas abordadas, a partir dos planos de estudos aplicados em cada ano. Integra a relação entre a escola, a família e o meio em que vive o educando, gerando uma abordagem de saberes empíricos;

 

Colocação em Comum: é a socialização das questões abordadas no plano de estudo, na qual todo educando tem contato com diferentes realidades, promovendo a troca de experiências. É a base para o educador trabalhar suas disciplinas, sendo que, após uma reflexão, o educando retorna ao meio com um novo olhar sobre a própria realidade;

 

Caderno da Realidade: é o caderno da vida do educando, no qual ele registra suas reflexões sobre as vivências escolares, familiares e comunitárias. Estarão arquivadas as sínteses, redações ilustradas e respostas dos planos de estudos bem como os relatórios de visitas de estudos e experiências;

 

Folha de Observação: é uma complementação ao plano de estudo, principalmente para atender levantadas mais polêmicas, necessitando de um aprofundamento maior e uma nova pesquisa com base na realidade dos educandos;

 

Cursos e Palestras: são atividades mais práticas realizadas a partir dos temas dos planos de estudos, objetivando construir novas aprendizagens, além dos conteúdos curriculares;

 

Visitas e Viagens de Estudo: complementa o plano de estudos e tem por objetivo proporcionar aos educandos novas realidades e saberes que poderão ser utilizados em sua realidade local, a fim de perceber contradições, levantar hipóteses, superar dúvidas, entre outros. Os educandos são encaminhados e assistidos por educadores que orientam e organizam a realização das visitas e viagens de estudo;

 

Estágio: possibilita ao educando o contato direto com outra realidade além da sua, vivenciando novas práticas e podendo, assim, melhorar as atividades na própria propriedade;

 

Serões: são espaços e tempo de reflexão, no período noturno, quando geralmente acontecem atividades artísticas, culturais, lazer, entre outras, que em sua maioria são organizadas pelos próprios educandos;

Visitas às Famílias: possibilita ao educador conhecer a realidade dos educandos e troca de experiências em que a escola e a família têm uma aproximação maior, o que favorece o processo de ensino-aprendizagem do educando;

 

Caderno de Acompanhamento: é um elemento de ligação entre escola e família, no qual a escola fica ciente das atividades dos educandos no meio sociofamiliar comunitário e a família ficam a par das atividades dos educandos no meio escolar;

 

Projeto Profissional do Jovem: o educando escolhe um tema do próprio interesse profissional, realiza uma pesquisa teórica e o aplica em sua propriedade, considerando as técnicas exigidas, conforme sua escolha. Desenvolve-se ao final do ensino médio profissionalizante;

 

Atividade de Retorno: o educando realiza atividades concretas em sua comunidade a partir de temas trabalhados nos planos de estudo. Em seguida, volta para a escola e socializa a experiência;

 

Avaliações: o processo de avaliação na perspectiva da Alternância é dinâmico e participativo, envolve o educando, a escola, a família e a comunidade, em uma interação contínua e dinâmica. Nesse contexto, a Pedagogia de Alternância constitui-se de um método pedagógico inovador e próprio para atender ao público alternante, vindo a permear o desenvolvimento cognitivo do educando.

 

O papel do educador/monitor na Pedagogia da

 

Alternância

 

O papel do educador/monitor na Pedagogia da Alternância está muito além da sala

de aula. Assim, a docência constitui-se em um âmbito de maior abrangência, uma vez que, nessa perspectiva, o educando fica em sistema de internato na escola e requer uma metodologia específica aplicada dentro e fora da instituição, utilizando as ferramentas e as práticas pedagógicas já mencionadas anteriormente (Krüger, 2016). Ao educador/monitor é possibilitado que abranja todos os conteúdos interdisciplinares, a partir das questões vivenciadas pelos educandos por meio do plano de estudo. Desse modo:

 

O monitor, mais que um educador que trabalha num ou para um Centro Educativo, é alguém que,

através do seu trabalho específico de educador, se associa a responsabilidade de quem digere e

acompanha um Projeto. Tudo isto nos permite falar de um Projeto Educativo e de promoção do

território, protagonizado por seus sujeitos, que devem conhecer profundamente. Ser monitor

requer umas aptidões para o conhecimento (reconhecimento) do meio e de seus atores (García-

Marirrodriga e Puig-Calvó, 2010, p. 76).

 

Assim, pode-se refletir que o papel do educador/monitor não é apenas ser o

responsável por uma disciplina, mas construir um trabalho coletivo e interdisciplinar, abrangendo a família e a sociedade nas quais o educando está inserido. Outras funções são atribuídas aos educadores/monitores: a responsabilidade pela organização, dinamização e elaboração das atividades docentes e do Plano de Formação, sempre respeitando o calendário agrícola (Rosa e Vendrusculo, 2013).

Para Aued e Vendramini (2009), o conceito de professor/monitor não é apenas de

um profissional que detém conhecimentos, mas também aquele que acompanha, guia, orienta, intervindo sempre que necessário. Conforme Lorenzini (2006), “ser monitor é muito mais que exercer uma função, é viver dentro de uma complexidade, é acompanhar o desenvolvimento do educando, ser o seu guia, seu orientador, o facilitador no aprendizado, é dar a direção para que o educando construa o seu conhecimento”.

Na formação do monitor/educador, é essencial que seja realizado um estágio de

vivência em uma das CFRs, com ao menos uma alternância, a fim de conhecer as práticas pedagógicas da referida perspectiva (Rosa e Vendrusculo, 2013). Ainda, segundos os autores, para ser monitor/educador, é essencial que seja feito um curso de formação de monitor para trabalhar com os pilares das Casas Familiares Rurais, a Associação, a Pedagogia da Alternância, a formação integral do jovem e família e o desenvolvimento do meio.

Conforme os pressupostos de Gimonet (2007), os educadores/monitores precisam

ser qualificados e organizados para trabalhar com a Pedagogia da Alternância e, por consequência, ter um trabalho seguro e estável para exercer sua profissão de maneira duradoura. Tendo em vista que a formação dos educadores/monitores nas universidades é pouco explorada, as Associações das Casas Familiares Rurais Regionais acabam por promover a formação dos monitores anualmente, com trocas de experiências e conhecimentos (Rosa e Vendrusculo, 2013).

 

Desenvolvimento

 

Este capítulo é resultado de uma pesquisa que consiste em uma revisão sistemática,

com base nos estudos sobre como a avaliação do educador/monitor e das práticas pedagógicas influenciam no desenvolvimento da Pedagogia da Alternância. Para Linde e Willich (2003), a revisão sistemática é uma forma de pesquisa que se baseia na literatura como fonte de dados, sendo considerada capaz de apresentar resultados conflitantes e/ou coincidentes, proporcionando base para investigações futuras.

Para obter os artigos analisados, utilizaram-se os descritores “Educação do Campo”,

“Pedagogia da Alternância”, “Educação Rural”, “Escola do Campo”, “Escola Agrícola” e “Escola Rural” na base de dados da Scientific Electronic Library Online (SciELO) e do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação e Cultura (Capes/MEC). O período de pesquisa incluiu artigos publicados entre 2007 a 2017.

A inclusão ou exclusão dos artigos definiu-se, num primeiro instante, pela análise

dos títulos, resumos e palavras-chave dos estudos publicados nos portais. Logo após, realizou-se a leitura na íntegra dos estudos pré-selecionados para definir se a publicação se enquadrava ou não no presente estudo.

É importante observar que a produção científica sobre Pedagogia da Alternância e

Educação do Campo, relacionadas à metodologias de ensino, são pouco exploradas. Foram encontrados no total 19 artigos na base de dados SciELO, dos quais dois se encaixaram nos critérios de inclusão e foram selecionados para a análise. Na base de dados da Capes, foram encontrados 24 artigos, mas somente 9 se encaixavam nos critérios propostos.

No quadro 2, são apresentados os autores, ano de publicação e títulos dos artigos

selecionados, que foram realizados no período de 2007 a 2017, os locais das pesquisas e os nomes dos periódicos nos quais os referidos artigos foram publicados.

Quadro 2: Artigos selecionados no período de 2007 a 2017

Autor/Ano Local Periódico Título

Assunção Escola Casa da Revista Etnomatemática e e Guerra, Pesca (CEPE), Latinoamericana pedagogia da 2011 localizada na Ilha de alternância: elo entre

de Caratateua, Etnomatemática saber matemático e

distrito de práticas sociais

Outeiro,

município de

Belém-PA

Bernardi et Casa Familiar Reflexão e Ação O desafio de ser al., 2014 Rural Santo professor na escola

Agostinho, do campo: o contexto

Quilombo, Santa da Casa Familiar

Catarina Rural Santo

Agostinho

Castro, Casa Familiar de Monografia da O papel da Casa 2011 Altamira/Pará Faculdade de Família Rural de

Engenharia Altamira na formação

Agronômica da técnica de jovens do

UFPA campo

Conceição Escola Familiar Geosaberes Caminhos da e Agrícola Rio sustentabilidade: Rodrigues, Peixe, município análise preliminar das

2012 de Balsas, Sul do práticas pedagógicas

Maranhão e o ensino

aprendizagem dos

alunos na Escola

Família Agrícola Rio

Peixe - Balsa/MA

Detogni e Casa Familiar Revista Casa Familiar Rural Zancanella, Rural de Coronel Brasileira de de Coronel Vivida-2016 Vivida -Paraná Educação do PR: desafios da

Campo formação continuada

em Pedagogia da

Alternância

Klein, 2016 Casa Familiar Pedagógica A questão do gênero

Rural de São e a Pedagogia da

José do Cedro, Alternância na Casa

Santa Catarina Familiar Rural de São

José do Cedro (SC)

Autor/Ano Local Periódico Título

Oliveira, Escola Família Mercator A Escola Camponesa 2013 Agrícola Dom na Alternância e o

Fragoso, ensino de Geografia

localizada no

município de

Independência,

Ceará

Portugal et Casa Familiar Revista de A Biologia na al., 2016 Rural, Altamira, Educação em Pedagogia da

Pará Ciências e Alternância:

Matemática perspectivas e

desafios de uma

ciência natural

integrada a Casa

Familiar Rural de

Altamira–Pará

Silva e Escola Família Eventos Pedagogia da Nery, 2016 Agrícola do Pedagógicos Alternância no

Pacuí/Amapá Amapá:

Um estudo na Escola

Família Agrícola do

Pacuí

Silveira e Escola do Campo Eventos O currículo e suas Peripolli, Municipal São Pedagógicos inquietações no 2016 Manuel, distrito campo: uma análise

Colorado do da proposta curricular

Norte – Nova da Escola Municipal

Canaã do São Manuel em Norte/MT Colorado do Norte -

Mato Grosso

Teodoro et Escola Família Sociedade A pedagogia da al., 2008 Agroindustrial de Brasileira de alternância na

Turmalina, Vale Economia, construção do

do Jequitinhonha, Administração e desenvolvimento rural

município de Sociologia Rural do Vale do

Turmalina, Minas Jequitinhonha, Minas

Gerais Gerais

Fonte: Dados da própria pesquisa, 2017.

 

Durante a realização do estudo, ASSUNÇÃO, C.; BORGES, R. (2012) perceberam

que os habitantes da Ilha de Caratateua, no distrito de Outeiro, município de Belém do Pará, vivem basicamente da pesca, da agricultura e de pequeno comércio local, enfrentando particularidades socioculturais relevantes.

Mesmo diante de fatores impeditivos, como as longas distâncias entre as suas casas

e a escola, jovens com idades entre 15 e 24 anos não abandonam os estudos, tendo em vista que muitos deles moram ao redor da ilha ou no seu interior. Perante o exposto, os educandos necessitam de uma metodologia pedagógica diferenciada das escolas localizadas em espaços urbanos, sendo necessários cursos de formação continuada para os educadores/monitores. Por tal motivo, os autores defendem que a educação do campo precisa ser uma educação diferenciada e específica, isto é, alternativa. Logo, a Escola Casa da Pesca tem como prática pedagógica contar com as experiências dos educandos sobre o processo da pesca, permitindo a reciprocidade de ideias e experiências entre os sujeitos, promovendo também a pesquisa de campo, visitas técnicas, aulas práticas em indústrias, projetos e estágios.

O estudo de Bernardi et al. (2014) na Casa Família Rural Santo Augustinho analisou

que os educadores/monitores se mostram comprometidos com formação integral do educando e com os pressupostos emancipatórios das lutas do campo. Entretanto, há necessidade de se desenvolverem como agentes mediadores da aprendizagem, devido ao protagonismo necessário para a aprendizagem dos educandos, exigindo interação e atitude de colaboração. Por fim, os autores acreditam que mesmo os educadores engajados no ensino aprendizagem, com metodologias como o plano de formação, de estudos, caderno de realidade e projetos, necessitam de cursos de formação continuada para poderem dar continuidade na prática educativa.

Os resultados da pesquisa de Castro (2011) evidenciam que a Casa Família de

Altamira tem contribuído positivamente na formação profissional de seus educandos, refletindo significativamente na adoção de inovações técnicas nas propriedades; em alguns casos, influenciando diretamente na dinamização econômica das famílias, assim como na melhoria da qualidade de vida. Verificando-se que os estudantes colocam em prática o que aprendem em projetos, de acordo com os educandos entrevistados, seria necessária a realização de mais visitas dos monitores para acompanhamento dos educandos durante o espaço comunidade, a fim de conhecerem melhor as potencialidades e limitações de cada estabelecimento agrícola. Em relação aos monitores da Casa Familiar, estes encontram dificuldades para desenvolver atividades como a interdisciplinaridade, acreditando que poderia ser amenizado se houvesse uma formação pedagógica continuada.

Os autores Conceição e Rodrigues (2012) verificaram que a construção de novos

conteúdos a partir da problematização da vida dos educandos, pelas práticas nas propriedades, na família e nos serões de estudo, é um conjunto de práticas metodológicas que vêm proporcionando conhecimentos, inclusive sobre sustentabilidade. No estudo foi possível verificar que os pais, os educandos e educadores/monitores estão satisfeitos com a metodologia de ensino da Casa Familiar, na qual se verificou que 100% dos estudantes colocaram em prática alguma experiência ou projeto desenvolvido.

Detogni e Zancanella (2016), em sua pesquisa na Casa Familiar Rural de Coronel

Vivida – Paraná, analisaram que os educadores/monitores não tinham experiências com a educação do campo e que a rotatividade destes é muito grande; constataram que um dos principais motivos pode ser a falta de incentivos e recursos financeiros. Além disso, apontam desmotivação e acreditam que a falta de capacitação específica influencia no resultado final. Na pesquisa, foi constatado que nenhum dos educadores e monitores possuem formação para a Pedagogia de Alternância. Logo, em relação às práticas pedagógicas, esses educadores/monitores utilizam somente o acompanhamento das atividades práticas de campo.

Klein (2012), em sua pesquisa, acredita que se deve pensar na qualificação dos

educadores/monitores em uma educação voltada para a Pedagogia da Alternância com políticas públicas bem estruturadas, na qual o olhar seja voltado para a educação do campo. A autora observou que as educandas estão em menor número se comparado aos educandos. Em relação aos educadores, estes acreditam que é preciso desmitificar a participação da mulher nas escolas, uma vez que é um lugar sem preconceitos em que se formam cidadãos. São educadores engajados por uma educação democrática e qualificada, procurando sempre cumprir da melhor forma a metodologia da alternância, por meio do Caderno da Realidade e do Acompanhamento de Práticas do Campo.

Durante seu estudo na Escola Família Agrícola Dom Fragoso, Oliveira (2013) pôde

verificar que a escola é bem estruturada e organizada, proporcionando ao educando toda educação e apoio necessários. A escola oferece metodologias específicas para desenvolver o seu plano de formação, tais como: Caderno de Realidade, Visita de Estudos, Intervenção Externa, Visita às Famílias, Estágios e Projeto Profissional. A instituição ainda segue a pedagogia freireana, na qual os Planos de Estudos estão inseridos.

Segundo Portugal et al. (2016), a Pedagogia da Alternância possibilita a experiência

de um estudo de biologia aliado à interdisciplinaridade e significativo à realidade dos estudantes alternantes. Os autores identificaram que a metodologia por meio de atividades investigativas proporciona ao educando uma maior participação, averiguação e solução de problemas. Dos desafios, os autores destacam a importância de promover espaços de formação docente, cursos de capacitação e laboratórios de pesquisas nas escolas.

Silva e Nery (2016) evidenciaram que a falta de recursos financeiros na Escola

Família Agrícola do Pacuí impede a efetivação dos instrumentos de aprendizagem, voltada para atingir o desenvolvimento local, que se realiza por meio da formação dos jovens. Os próprios educandos são os atores de sua formação, destacando-se a cooperação educativa. Educadores/monitores desmotivados e em número muito pequeno fazem o seu melhor pelos educandos, utilizando Caderno de Realidade, Visita nas Propriedades, Planos de Estudo e Avaliações.

No quadro 3, são apresentados os principais cursos oferecidos, o total de educandos

matriculados nas escolas, os níveis de ensino, os períodos de alternância, o nível de capacitação do educador/monitor (analisado como requer e não requer) e as práticas pedagógicas.

Quadro 3: Principais características dos artigos pesquisados

Autor/ano Curso Níveis de Variáveis

 

oferecido/total de ensino/períodos Nível de Práticas alunos capacitação pedagógicas matriculados educador/monitor

Assunção Qualificação Fundamental e Requer Pesquisa de

e Guerra, profissional de EJA/15 dias de Campo, Visitas

2011 formação inicial alternância Técnicas, Aulas

em pesca e Práticas em

aquicultura/90 Industrias,

alunos Projetos e

Estágios

Bernardi et Curso Fundamental e Requer Plano de

al., 2014 Profissionalizante Médio/15 dias de Formação, Plano

Técnico em alternância de Estudos,

Agronegócios/61 Caderno de

alunos Realidade e

Projetos

Castro, Técnico Fundamental/15 Requer Plano de Estudo,

2011 Agrícola/17 alunos dias de Plano de

alternância Formação,

Caderno de

Acompanhamento,

Colocação em

Comum, Cursos,

Visitas de

Estudos, Caderno

Pedagógico,

Avaliações e

Projetos

Conceição Fundamental de Fundamental/15 Não Requer Serão de Estudos,

e Habilidades dias de Práticas na

Rodrigues, Agropecuárias/55 alternância propriedade e

2012 alunos Práticas na família

Detogni e Técnico em Ensino Médio/1 Requer Acompanhamento

Zancanella, Alimentos/48 semana com a das Atividades

2016 alunos família e 1 Práticas de

semana na Campo

Escola

Autor/ano Curso Níveis de Variáveis

 

oferecido/total de ensino/períodos Nível de Práticas alunos capacitação pedagógicas matriculados educador/monitor

Klein, 2012 Curso Ensino Requer Caderno de

Multidisciplinar/250 Médio/Intercala 1 Realidade e

alunos semana na Acompanhamento

Escola e 2 de Práticas de

semanas com a Campo

família

Oliveira, Curso Técnico de Médio 15 dias de Não requer Caderno de

2013 Nível Médio alternância Realidade, Visita

Integrado com de Estudos,

Habilitação em Intervenção

Agropecuária/74 Externa, Visita às

alunos Famílias, Estágios

e Projeto

Profissional.

Portugal et Curso de EJA/15 dias de Requer Atividades

al., 2016 Agricultura/115 Alternância Investigativas

alunos

Silva e Técnico Ensino Requer Caderno de Nery, 2016 Profissionalizante Médio/Intercala 1 Realidade, Visitas

em semana na de Professores

Agropecuária/166 Escola e 2 nas Propriedades,

alunos semanas com a Planos de Estudos

família e Avaliações

Silveira e Multidisciplinar/250 Educação Infantil Requer A escola não

Peripolli, alunos e possui métodos

2016 Fundamental/15 pedagógicos

dias de

alternância

Teodoro et Educação Fundamental e Requer Estágios,

al., 2008 Profissional Básica Médio/15 dias de Seminários,

em alternância Reuniões e

Agroindústria/260 Cursos de

alunos Capacitação

Fonte: Dados da própria pesquisa, 2017.

 

Na pesquisa realizada por Silveira e Peripolli (2016), os autores verificaram que a

proposta curricular implantada na Escola São Manuel é totalmente urbana, havendo apenas adaptações feitas pelos educadores/monitores. Verificou-se também que há alguns impedimentos, tanto no campo pedagógico quanto no humano, financeiro e político. Contudo, cabe ressaltar que a comunidade busca se adaptar e proporcionar o ensino-aprendizagem para os jovens do local.

Teodoro et al. (2008) salientam que os pais são a base da escola do campo, pois

sem o apoio deles os educandos não iriam à escola. No entanto, a Escola Família Agroindustrial de Turmalina está passando por sérios problemas financeiros, o que não contribui para um efetivo quadro de educadores/monitores, havendo muita rotatividade entre eles e sendo difícil, assim, manter e fixar uma metodologia pedagógica.

 

Considerações finais

 

As Escolas do Campo permitem a organização da formação em espaços e tempos

diferenciados, contribuindo significativamente com a formação integral do jovem educando, mostrando, assim, que a Pedagogia da Alternância proporciona aprendizagens multidisciplinares, auxilia na construção do conhecimento.

Pode-se verificar que nem todas as escolas utilizam a prática recomendada para a

Pedagogia da Alternância e que 83% apontam a necessidade de cursos de capacitação aos seus educadores/monitores. Inclusive, na sua grande maioria, ainda são educandos de graduação e sem a devida formação para atuar na Pedagogia da Alternância – que requer uma visão muito além da sala de aula –, considerando que têm nos seus currículos uma realidade muito diferente das necessidades do educando do campo. Vai, assim, na direção contrária do que procura construir a Educação do Campo, por meio das licenciaturas em Educação do Campo, que buscam formar educadores sensíveis às questões que permeiam os sujeitos do campo.

Verificou-se também que o educador/monitor sofre com os baixos salários, o que

desmotiva e, muitas vezes, faz com que esses profissionais abandonem a Escola do Campo, havendo, assim, uma grande rotatividade. Os fatores elencados afetam automaticamente a metodologia das práticas pedagógicas propostas, especialmente para a Pedagogia da Alternância.

A ação educativa na Pedagogia da Alternância não está vinculada apenas a uma

aula expositiva e transferência de conhecimentos, atos que exigem somente compreensão e memorização, mas, sobretudo, proporciona a mediação de pesquisas de campo e experimentações práticas e colaborativas, considerando a experiência do cotidiano a matéria-prima para uma aprendizagem dinâmica e democrática. Busca-se a construção do conhecimento a partir do conhecimento empírico do meio rural, no qual o educando está inserido; por isso, é necessário que o educador/monitor enxergue essa realidade, que esse profissional tenha a devida qualificação para entender que o educando em questão é um indivíduo em condições diferenciadas.

 

Referências

 

ARCAFAR SUL – ASSOCIAÇÃO REGIONAL DAS CASAS FAMILIARES RURAIS DO

SUL DO BRASIL. Quem somos? Disponível em: www.arcafarsul.org.br. Acesso em: 15 set. 2017.

ASSUNÇÃO, C. e BORGES, R. “Etnomatemática e Pedagogia da Alternância: elo entre saber matemático e práticas sociais”. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, v. 5, n. 1, pp. 4-34, 2012.

 

AUED, B. W. e VENDRAMINI, C. R. (orgs.). Educação do campo: desafios teóricos e práticos. Florianópolis: Insular, 2009.

 

BERNARDI, L. T. M. S. et al. “O desafio de ser professor na escola do campo: o contexto da Casa Familiar Rural Santo Agostinho”. Reflexão e Ação, v. 22, n. 2, pp. 120-42, Santa Cruz do Sul, jul.-dez. 2014.

 

CALDART, R. S. A escola do campo em movimento. Porto Alegre: 2000.

 

PUIG-CALVÓ, P. e GARCIA-MARIRRODRIGA, R. Formação em Alternância e desenvolvimento local: o movimento educativo nos CEFFA do mundo. Belo Horizonte: O Lutador, 2010.

 

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