Reflexões e práticas na formação de educadores
Capítulo 2. Experiências de um grupo de pesquisa na formação de professores: o GPET-UFSM
Capítulo 2. Experiências de um
grupo de pesquisa na formação
de professores: O GPET-UFSM
Cesar De David, Janete Webler Cancelier
O conhecimento não se estende do que se julga sabedor até aqueles que se
julgam não saberem; o conhecimento se constitui nas relações homem-
mundo, relações de transformação, e se aperfeiçoa na problematização
crítica destas relações (Paulo Freire).
Introdução
Neste texto, vamos descrever e discutir a trajetória do Grupo de Pesquisa em Educação e Território (GPET) – grupo de estudos, pesquisas e ações de extensão multidisciplinar da Universidade Federal de Santa Maria –, que, desde seu início, tem como foco a formação inicial e continuada de educadores. O GPET, por meio de suas diversas atividades, procura inserir docentes em serviço e acadêmicos em formação, dos cursos de graduação, e estudantes de pós-graduação da universidade no contexto da prática pedagógica, comprometida com as questões que articulam educação e território. Seus integrantes buscam vivenciar espaçotemporalmente a possibilidade de compreender crítica e responsavelmente formas diferenciadas de educação popular. Nessa práxis pedagógica, baseada no binômio ação-reflexão-ação, a educação ganha novos contornos, ultrapassando a dimensão escolar, construindo-se em meio a ambientes educativos formais e não formais.
O Grupo de Pesquisa em Educação e Território congrega pesquisadores e acadêmicos de diferentes áreas do conhecimento: Geografia, História, Pedagogia, Ciências Sociais, entre outros, que desenvolvem suas atividades de ensino, pesquisa e extensão tendo por princípios a preocupação com as demandas de uma sociedade plural e desigual, como é o caso da sociedade brasileira, e a interlocução com os sujeitos das ações na perspectiva da troca de saberes e conhecimentos, reconhecendo e valorizando as diferentes culturas, como forma de promoção do saber popular e do conhecimento científico.
Nas temáticas relacionadas à educação e às dinâmicas territoriais, o GPET está organizado em torno de duas linhas de pesquisa: a) Educação e Sociedade – reúne projetos de pesquisa e extensão que tratam dos temas Educação do Campo, Pedagogia dos/nos Movimentos Sociais e Comunidades Tradicionais, Sociedade e Cultura em diferentes espaços pedagógicos; e b) Dinâmicas Territoriais – reúne projetos que, em seu conjunto, trabalham com as territorialidades da sociedade brasileira em suas diferentes dimensões e escalas, sobretudo as transformações recentes do espaço rural. Os temas tratados concentram-se nas dinâmicas socioeconômicas ligadas às atividades da agricultura familiar e camponesa, nas problemáticas do desenvolvimento territorial e nos estudos socioculturais no campo.
As atividades realizadas ao longo dos anos possibilitaram aos seus integrantes o acompanhamento da luta dos movimentos sociais e da constituição de sua pedagogia. A formação cidadã dos acadêmicos e sua sensibilização para trabalhar com realidades sociais e educacionais diferenciadas é uma das prioridades do Grupo de Pesquisa em Educação e Território ao articular suas atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Essas atividades representaram um salto quanti/qualitativo no processo de interlocução entre a universidade e os movimentos sociais, pois possibilitaram não apenas o diagnóstico de problemas, mas a construção de alternativas e caminhos para a superação dos limites e dificuldades das escolas e demais espaços de aprendizagem, por meio do diálogo de saberes, cursos e oficinas às comunidades escolares. Essas medidas compreenderam momentos do processo de formação dos educadores dos movimentos, dos acadêmicos e de professores da universidade, ou seja, um componente cooperativo com o sujeito pedagógico, como referem as proposições da pedagogia da terra.
Com este texto, objetiva-se relatar a origem do GPET, sua trajetória, assim como descrever as atividades e estudos desenvolvidos pelo grupo. Utiliza-se como método de pesquisa uma abordagem de caráter qualitativo, tomando-se por referência o acervo documental do grupo, prioritariamente artigos, teses, dissertações, trabalhos de conclusão, relatórios de pesquisa, atas e demais documentos.
Os antecedentes
Antes de sua formalização, ocorrida em 2005 como grupo de pesquisa registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa da Plataforma Lattes do CNPq, o GPET já existia na prática desde 1996, quando iniciaram as atividades junto às Escolas Itinerantes do MST, integrando professores dos departamentos de Sociologia e Política, Geociências e Pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e estudantes dos cursos de Geografia e Pedagogia.
O marco inicial desse processo ocorreu em agosto de 1996, quando foi realizado um trabalho de campo no Acampamento Palmeirão, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, situado no município de Júlio de Castilhos, onde estavam
acampadas 1.421 famílias.1 2 Esse trabalho de campo foi promovido pelos professores Marisa Natividade e João Rodolfo Flores, da disciplina de Sociologia e Política. A visita a um acampamento de trabalhadores rurais sem terra foi a primeira oportunidade que muitos estudantes tiveram de conhecer as estratégias de ação dos movimentos sociais e interagir com eles. Como parte das atividades, discutiu-se a ação dos movimentos na região, oportunizando-se aos professores e estudantes envolvidos o contato com a proposta de educação do MST e a realidade da Escola Itinerante. Como resultado dessa experiência, organizou-se uma exposição fotográfica apresentada durante a Semana Acadêmica do Curso de Geografia, no ano de 1997, e elaborou-se o primeiro projeto de
extensão submetido ao Prolicen 3 (Programa das Licenciaturas da UFSM), em sua primeira edição. Teve por objetivo oportunizar a ação-reflexão docente em realidades educacionais diferenciadas, como é o caso da Escola Itinerante. Desde então, em todas as edições do programa, o grupo tem sido contemplado com bolsas para os acadêmicos. Isso tem possibilitado não só a realização de projetos de extensão, mas o acompanhamento de várias ações de movimentos sociais do campo no Rio Grande do Sul, pois, em todo esse período, foram vários os acampamentos/comunidades atendidos em diversos municípios, entre os quais Júlio de Castilhos, Santo Antônio das Missões, Tupanciretã e São Gabriel.
As atividades realizadas proporcionaram aos integrantes o acompanhamento da luta dos movimentos sociais, associações, instituições e entidades que articulam sem-terras, camponeses e outros grupos sociais e sua pedagogia. A formação cidadã dos acadêmicos e sua sensibilização para trabalhar com realidades sociais e educacionais diferenciadas é uma das prioridades do Grupo de Pesquisa em Educação e Território ao articular suas atividades de ensino, pesquisa e extensão.
As atividades realizadas nos últimos anos representaram um salto qualitativo no processo de interlocução entre a universidade e a sociedade, pois possibilitaram não apenas o diagnóstico de problemas, mas a construção de alternativas e caminhos para a superação dos limites e dificuldades das escolas, por meio do diálogo de saberes, cursos e oficinas à comunidade escolar, que compreendem momentos do processo de formação dos educadores dos movimentos/entidades e dos acadêmicos e professores da universidade, ou seja, um componente cooperativo com o sujeito pedagógico.
Essa prática oportunizou a reflexão sobre a Educação Popular e a Educação do Campo, temáticas que permeiam os projetos desenvolvidos em suas linhas de pesquisa.
Com a inserção de novos pesquisadores e a qualificação de seus integrantes, outras demandas surgiram, ampliando as temáticas dos projetos desenvolvidos, porém mantendo as características que dão identidade e coesão ao grupo. Assim, fortemente ligado à perspectiva das ações dos movimentos sociais e ao espaço rural, desenvolvem-se os projetos de pesquisa e extensão que têm como foco as dinâmicas territoriais, outra linha de pesquisa do GPET. Na sequência, apresentamos a trajetória do Grupo de Pesquisa em Educação e Território e as ações desenvolvidas ao longo dos anos.
As atividades desenvolvidas têm possibilitado que os acadêmicos e professores envolvidos nos projetos socializem saberes e reflexões sobre a educação popular, a questão agrária brasileira e a inserção e atuação dos movimentos sociais e de outros sujeitos do campo.
A trajetória de um grupo de pesquisa
A trajetória de um grupo de pesquisa, além da produção do conhecimento, centra-se na formação de pessoas, futuros profissionais da educação. Assim, a razão de sua existência em uma universidade pública, laica e referenciada socialmente é oferecer as condições necessárias para que a aprendizagem aconteça fora dos limites restritos das disciplinas acadêmicas. Ao articular pesquisa, ensino e extensão, tem-se a intenção de proporcionar um conhecimento baseado na indissociabilidade da teoria-prática, da reflexão-ação, como condição para a formação cidadã e para a transformação social.
Privilegia-se, assim, o diálogo entre as áreas do conhecimento, rompendo-se o cânone disciplinar, comum na academia, no sentido de um saber plural, multi e transdisciplinar, intrinsecamente ligado ao mundo da vida e do trabalho. Diferentes estratégias, tecidas nas ações do cotidiano, compõem o itinerário de um grupo de trabalho que congrega professores e estudantes. Nossas práticas compõem-se de:
Projetos de investigação, cujo objetivo primeiro é a produção do conhecimento. Levantamento bibliográfico, coletas de dados, entrevistas, mapeamentos e outras técnicas de pesquisa – atividades que inserem os estudantes na rotina do trabalho sistemático e responsável, segundo o método e as exigências do conhecimento científico. O reconhecimento e a valorização
do saber popular, com o qual dialogamos, não exime o pesquisador do rigor conceitual e metodológico, pelo contrário, exige o compromisso com a vanguarda científica, o Estado da Arte, os métodos de abordagem e as mais recentes técnicas de pesquisa coadunadas com o espírito da descoberta e da criatividade;
Projetos de extensão, cuja finalidade é a articulação dos saberes, na perspectiva da troca de
conhecimentos/experiências, sobretudo entre os educandos em formação na universidade e os educandos em serviço, nos mais diferentes contextos escolares e não escolares. Entre os projetos de extensão, merece destaque o intitulado “A formação continuada de educadores em exercício das Escolas Itinerantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”, desenvolvido no ano de 2005 com o apoio do Programa à Extensão Universitária (PROEXT) do Ministério da Educação; Projetos de ensino, que oportunizam a prática pedagógica e sua reflexão aos estudantes das licenciaturas, desde os anos iniciais de sua formação. Essa ação/reflexão se faz com os educadores em serviço, com os educandos da educação básica e com as comunidades escolares.
Entre os projetos desenvolvidos, merecem destaque, tanto pelas repercussões quanto pela abrangência, os seguintes:
Projeto integrado de trabalho com professores e alunos das Escolas Itinerantes do MST. Foi o projeto pioneiro do grupo, realizado no período de 1997 a 2008, tendo acompanhado a formalização e reconhecimento da educação promovida pelas Escolas Itinerantes do MST até seu fechamento. Esse projeto tinha por objetivo a interlocução entre educadores leigos em exercício nessas escolas e os educadores em formação, alunos das licenciaturas da UFSM. Como parte das atividades desenvolvidas, destacam-se as oficinas de formação continuada, a produção de materiais didáticos, as metodologias de ensino-aprendizagem, cursos, seminários e estágios de vivências.
A valorização do espaço agrário e a compreensão do lugar: o caso da Escola Estadual de Ensino Fundamental Joaquim José da Silva Xavier, em Val de Serra, Júlio de Castilhos, (RS). Desenvolvido em 2008, tinha por objetivo a compreensão das transformações recentes do espaço rural de Júlio de Castilhos RS, como forma de valorização da agricultura familiar e da comunidade rural onde a escola está inserida e de onde provêm seus educandos.
Programa de Extensão e Pesquisa em Educação do Campo. A partir de 2008, os projetos de extensão, pesquisa e ensino foram agrupados em um projeto integrado, de caráter mais abrangente, de modo que contemplasse a diversidade das modalidades, práticas e experiências em educação do campo existentes em Santa Maria e região. São exemplos de projetos com essa proposta: “Educação rural, territorialidade e saber social: o caso das escolas rurais municipais de Santa Maria, RS” (2008); “Perfil da educação rural no município de Santa Maria/RS: problemas e perspectivas de valorização do campo e do saber social” (2008); “Formação continuada de educadores e educadoras das escolas da reforma agrária do Rio Grande do Sul” (2009); “Formação inicial e continuada de educadores das escolas do campo” (2010); “Formação de professores das Escolas do Campo: construção das diretrizes operacionais da Educação do Campo no município de Santa Maria, RS” (2010); “Projeto de extensão universitária em educação do campo: formação continuada de educadores da reforma agrária” (2010); “Desenvolvimento rural sustentável: resgatando saberes na escola municipal de ensino fundamental Bernardino Fernandes, Distrito de Pains, Santa Maria, RS” (2010); “O desenvolvimento rural sustentável como forma de valorização do espaço local: resgatando saberes na Escola Municipal de Ensino Fundamental Bernardino Fernandes, Distrito de Pains, Santa Maria, RS” (2011); “Formação de professores das Escolas do Campo: uma reflexão a partir da Escola do Campo no município de Santa Maria, RS” (2011); “Formação de professores das escolas da reforma agrária no âmbito da 8º Coordenadoria Regional de Educação” (2012); “As dificuldades no processo de
inclusão dos alunos das Escolas Itinerantes e dos assentamentos do MST na rede pública do ensino nas cidades de São Gabriel e Santa Margarida do Sul” (2012); “Formação de professores das Escolas do Campo: uma reflexão a partir da Escola do Campo na Região Centro e Oeste do Rio Grande do Sul” (2013); “Educação do Campo em Santa Maria/RS: Educadores, Escolas e Comunidades Rurais” (2013-15); “Formação de professores das escolas do campo: inclusão cidadã e valorização do espaço agrário” (2015-17).
A linha de pesquisa “Dinâmicas Territoriais Rurais” desenvolve projetos nas seguintes temáticas: assentamentos rurais, agricultura familiar e desenvolvimento territorial. São estudadas as dinâmicas e conflitos das territorialidades rurais historicamente produzidas pelo capitalismo, os movimentos de resistência e de luta e as alternativas de desenvolvimento local e territorial que se constituem como possibilidades de permanência das populações e grupos sociais que compõem a diversidade do campo brasileiro.
Investigam-se a pobreza rural, as condições do trabalho e emprego, as atividades produtivas agrícolas e não agrícolas desenvolvidas pelos sujeitos do campo em tempos de globalização. Nesses projetos, objetiva-se refletir sobre o aprofundamento do quadro de pobreza, no bojo das transformações em curso no meio rural brasileiro, e sobre a mudança de significado do espaço rural, tendo-se por base o movimento de expansão do capitalismo urbano-industrial na agricultura e no rural como um todo, como parte do processo de mundialização.
São exemplos de projetos guarda-chuva, desenvolvidos nessa linha de pesquisa:
“Estratégias de reprodução familiar em assentamentos: limites e possibilidades para o desenvolvimento rural” (2005-10). Tem por objetivo analisar o processo de formação e territorialização dos assentamentos rurais no Rio Grande do Sul, focalizando os processos de luta pela terra e as possibilidades, atividades e práticas de permanência no campo das famílias assentadas, assim como suas relações com as sociedades envolventes,
pois a luta dos assentados não se esgota com a conquista da terra, mas continua no sentido de promover as condições necessárias à produção agrícola, valorizando o espaço rural, promovendo o desenvolvimento da região onde estão inseridos. Os assentamentos rurais têm possibilitado aos agricultores familiares que neles vivem um espaço de produção de alimentos para o autoconsumo e comercialização, gerando trabalho e renda, proporcionando condições de moradia, de trabalho e de vida digna, o que não significa que todas as carências venham sendo supridas; pelo contrário, o quadro de pobreza ainda persiste, e muitos direitos ainda não foram conquistados;
“Reforma agrária e assentamentos no Brasil: o caso dos assentamentos de reforma agrária no Rio Grande do Sul” (2010-15). Esse projeto tem como objetivo descrever e interpretar os condicionantes históricos, sociais e econômicos da ocupação do espaço pelos assentamentos de reforma agrária e os impactos socioterritoriais resultantes desse processo. Os resultados das pesquisas apontam problemas estruturais vigentes desde o momento de sua implantação, passando pela falta de assistência e educação técnica e a falta de participação de instituições, como problemas na limitação dos mercados para comercialização dos produtos. Observam-se, por outro lado, impactos sociais e econômicos positivos no que se refere à participação na economia municipal, à melhora significativa da qualidade de vida das famílias assentadas e à enorme satisfação pela conquista da terra; “Agricultura familiar e políticas públicas para o campo” (2012-16). Analisa as condições e características da agricultura familiar no Rio Grande do Sul, seu significado para a economia e a sociedade regional, assim como o papel das políticas públicas para o setor. Busca compreender as especificidades do espaço rural gaúcho sob a globalização da economia e a eficácia das políticas públicas e seus impactos espaciais.
Cabe destacar que esses projetos só puderam ser desenvolvidos a partir do financiamento das instituições de fomento, por meio, seja da concessão de bolsas para os estudantes, seja de recursos financeiros para o custeio das pesquisas e investimentos em equipamentos e outros recursos dos laboratórios. Os estudantes receberam, nas várias edições dos projetos de pesquisa e extensão, bolsas dos seguintes órgãos: Fipe/UFSM, Fiex/UFSM, Prolicen/UFSM, ProExt/MEC, PIBIC/CNPq e Probic/FAPERGS. Os recursos de custeio e investimento vieram a partir dos seguintes editais de financiamento: ProExt/MEC, Edital Universal/CNPq, Edital Ciências Humanas/CNPq, Programa Pesquisador Gaúcho/FAPERGS, além dos recursos institucionais da UFSM, viabilizados pelo Departamento de Geociências, Centro de Ciências Naturais e Exatas e Programa de Pós-Graduação em Geografia.
A interlocução com a sociedade não se faz apenas nos projetos de pesquisa e extensão, ela está presente também nos eventos que o GPET promove, buscando cumprir seu compromisso com a democratização e a popularização da ciência e do conhecimento. Os eventos objetivam também partilhar o que é produzido com os colegas pesquisadores de outras instituições, formando redes colaborativas de troca de experiências, saberes, práticas e metodologias, além de promover momentos de socialização e afetividade entre pesquisadores, professores e estudantes de diferentes centros de pesquisa e regiões do país. Ao longo de sua trajetória acadêmica, o GPET promoveu os seguintes eventos:
Educação do Campo e Valorização do Espaço Agrário (2007) – seminário de formação continuada para educadores das escolas do campo, abrangendo mais de 23 municípios do estado;
Formação Continuada de Educadores da Reforma Agrária (2009) – reuniu 450 educadores de acampamentos e assentamentos do Rio Grande do Sul;
V Encontro de Grupo de Pesquisa Agricultura, Desenvolvimento e Transformações Socioespaciais (2009) – teve como tema “Olhares sobre o processo investigativo”, objetivando refletir sobre os caminhos metodológicos já percorridos e articular projetos conjuntos entre os grupos de pesquisa participantes. Foram apresentados, nessa ocasião, quase cem trabalhos de
pesquisa agrupados nos seguintes eixos temáticos: dinâmicas do espaço rural contemporâneo, dinâmicas do espaço urbano, turismo e pluriatividade, educação do campo e reflexões sobre a pesquisa e a extensão, políticas públicas e desenvolvimento, relações campo-cidade, e comunidades e populações tradicionais;
I Seminário Regional de Educação do Campo (2013) – objetivou discutir experiências, práticas e metodologias de Educação do Campo entre educadores em atividade na região central do estado do Rio Grande do Sul, visando à preparação do evento nacional, promovido no ano seguinte, também realizado no município de Santa Maria;
II Seminário Internacional de Educação do Campo e Fórum Regional do Centro e Sul do Rio Grande do Sul (2014) – teve como tema: educação, memória e resistência popular na formação social da América Latina.
Esses eventos de maior abrangência são complementados por eventos de menor envergadura, mas que oportunizam o estudo, a reflexão e o debate entre os integrantes do grupo, sobretudo alunos de pós-graduação, com pesquisadores e estudantes de outras áreas do conhecimento e/ou outros grupos de pesquisa. São seminários que ocorrem ao longo do ano letivo, articulados por um tema ou assunto que compõem os projetos em desenvolvimento. Esses eventos menores tornam-se significativos para a formação dos estudantes por oportunizar o estudo e a experiência na redação de textos e apresentação oral de trabalhos científicos. Em 2007, realizaram o I Ciclo de Estudos – a questão agrária brasileira – e, em 2017, o II Ciclo de Estudos Saberes Tradicionais – as expressões artesanais do rural.
Além desses eventos promovidos pelo grupo, seus integrantes apoiam e participam de diversos outros, colaborando e auxiliando na organização, a fim de estreitar laços de solidariedade com outros grupos da instituição.
Nesse percurso formativo, assume especial relevo a escrita científica, como forma de partilha, socialização e popularização do que é feito na academia, especialmente os frutos de sua reflexão teórico-metodológica, que compõe sua produção científica. Todos os projetos desenvolvidos encerram com a produção de um relatório que contempla todas as atividades realizadas, escrito pelos estudantes e professores, sob a supervisão destes últimos. Tais relatórios, por fim, resultam em textos publicados na forma de artigos científicos, em diversos periódicos e capítulos de coletâneas nas áreas da Educação e da Geografia principalmente. Entre as publicações do GPET, merecem destaque:
Espaços-tempos de itinerância:interlocuções entre universidade e escola itinerante do MST. Orgs.: Ane Carine Meurer e Cesar DE David. Santa Maria: Editora UFSM, 2006; Experiências e diálogos em educação do campo. Orgs.: Kelma Socorro Alves Lopes de Matos, Carmen Rejane Flores Wizniewsky, Ane Carine Meurer e Cesar DE David. Fortaleza: Edições UFC, 2010;
“Palmas” para o quilombo: processos de territorialidade e etnicidade negra. Orgs.: Ana Lúcia Aguiar Melo, Cesar DE David, Dilmar Luiz Lopes, Cristiano Sobroza Monteiro, José Luiz de Moura Filho, Raoni da Rosa e Rosane Aparecida Rubert. Santa Maria: Editora UFSM, 2011; Rio Grande do Sul: estudos de geografia agrária. Orgs.: Cesar DE David, Carmen Rejane Flores Wizniewsky e Janete Webler Cancelier.Porto Alegre: Evangraf, 2015;
Agricultura e transformações socioespaciais: olhares geográficos e a pesquisa de campo. Orgs.: Cesar DE David e Carmen Rejane Flores Wizniewsky. Porto Alegre: Evangraf, 2015;
Educação, memória e resistência popular na formação social da América Latina. Orgs.: Carmen Rejane Flores Wizniewsky e Leonice Aparecida de Fátima Alves Mourad. Porto Alegre: Evangraf, 2016.
Os trabalhos acadêmicos são também significativos na formação dos educadores, seja na formação inicial, seja na pós-graduação. Os estudantes que compõem o GPET se envolvem na elaboração, e os professores, na orientação e supervisão de trabalhos de conclusão de curso, estágios supervisionados, dissertações de mestrado e teses de doutorado.
O Grupo de Pesquisa em Educação e Território vem, ao longo de sua trajetória, promovendo e ampliando os estudos e pesquisas referentes às temáticas que envolvem a educação do campo e as territorialidades rurais contemporâneas em suas mais diversas abordagens. Esse interesse também surge nos acadêmicos comprometidos com a realidade ainda desigual do campo e da educação, com relação à superação do quadro de pobreza e concentração que persiste no espaço rural gaúcho, brasileiro e latino-americano. Seu percurso é marcado pelo enraizamento nos territórios rurais, analisando e sistematizando trajetórias de camponeses, agricultores familiares, pescadores, assentados, cooperativados, populações tradicionais e demais grupos que compõem a diversidade dos povos do campo, bem como pelas trajetórias de educadores e educandos das escolas do campo, também diversas e plurais, a exemplo da universidade e suas possibilidades de formação. Assim, a práxis em um ambiente universitário somente pode vir a se realizar mediante um processo de inserção/aproximação com as diferentes realidades educacionais e sua necessária discussão/reflexão.
Considerações finais
A universidade é espaço-tempo de formação de educadores que, não apenas por meio do currículo formal, desenvolvem estratégias de aprendizagem diferenciadas, seja via participação em projetos de pesquisa, extensão e ensino, seja via interação e troca de saberes com as comunidades e com os demais estudantes e pesquisadores. Nos grupos de pesquisa, vivenciam-se experiências e práticas que contribuem para a formação de sujeitos históricos e políticos comprometidos com as transformações sociais e com a produção do conhecimento, buscando-se sua universalização. A partir dessas premissas, o Grupo de Pesquisa em Educação e Território buscou oportunizar experiências junto às escolas do campo e demais espaços formativos formais e não formais, constituindo-se lócus de educação popular em que o direito ao acesso à educação diferenciada se efetiva. Pretende-se, com isso, compreender as problemáticas relacionadas à terra e à escola, que, com seu projeto político-pedagógico, poderá vir ao encontro desses interesses.
As experiências vivenciadas junto aos espaços formativos do campo, escolares e não escolares, possibilitaram aprendizagens a todos os participantes. Essas reflexões remetem-se a compreender o quanto a universidade ainda tem se mantido como instituição que se desvincula do direito à educação, por meio tanto de uma educação alijada da realidade das classes trabalhadoras quanto de projetos que não procuram problematizá-la, compreendê-la.
Portanto, muito ainda temos que trabalhar no sentido de transformar essa instituição em espaço-tempo que se articula à educação popular, independentemente do nível de ensino. Sendo assim, opta-se por trabalhar na perspectiva de formar trabalhadores em educação comprometidos com essas realidades. Com esses projetos político-pedagógicos, já fazemos algo, superando, assim, a educação que vem sendo desenvolvida nos vários espaços-tempos. Com tais compromissos, acredita-se que o direito à educação terá mais possibilidade de efetivar-se.
As ações desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa em Educação e Território buscam um educando-leitor-investigador consciente da produção do espaço e de sua representação. Nesse sentido, a representação do espaço geográfico é muito importante para que os educandos compreendam fenômenos e processos históricos e sociais. Assim, o professor de Geografia tem um papel fundamental, enquanto mediador e problematizador, estimulando o educando a realizar a sua leitura do mundo e traçar suas formas de intervenção, contribuindo de forma significativa para a sua autonomia, inclusive de sua própria aprendizagem e formação.
Referências
DE DAVID, Cesar e WIZNIEWSKY, Carmen Rejane Flores (orgs.). Agricultura e transformações socioespaciais: olhares geográficos e a pesquisa de campo. Porto Alegre: Evangraf, 2015. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. 17 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
MATOS, Kelma Socorro Alves Lopes de et al. (orgs.). Experiências e diálogos em educação do campo. Fortaleza: Edições UFC, 2010.
MELO, Ana Lúcia Aguiar et al. “Palmas” para o quilombo: processos de territorialidade e etnicidade negra. Santa Maria: Editora UFSM, 2011.
MEURER, Ane Carine e DE DAVID, Cesar (orgs.). Espaços-tempos de itinerância: interlocuções entre universidade e escola itinerante do MST. Santa Maria: Editora UFSM, 2006.
SILVA, Ana Maria Radaelli da. “Trabalho de campo: prática “andante” de fazer Geografia”. In Geo UERJ: Revista do Departamento de Geografia. n.11, pp. 61-73, 2002.
WIZNIEWSKY, Carmen Rejane Flores e MOURAD, Leonice Aparecida de Fátima Alves (orgs.). Educação, memória e resistência popular na formação social da América Latina. Porto Alegre: Evangraf, 2016.
______ et al. (orgs.). Rio Grande do Sul: estudos de geografia agrária. Porto Alegre: Evangraf, 2015.