Saúde da família: boas práticas e círculos virtuosos
Capítulo III – Cada caso, um caso
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
principalmente com Araxá (distante 50 km), Uberaba (140 km) e
Uberlândia (220 km). Com a capital do estado, pelo menos
atualmente, as relações são mais remotas, essencialmente de
cunho político-administrativo.
Ibiá tem uma história política até certo ponto comum a muitos
outros municípios de Minas Gerais e do Brasil, com a alternância no
poder de correntes partidárias derivadas do antigo bi-partidarismo
da República Velha que, em outra época, configurou-se por meio da
disputa entre PSD e UDN.
Em 1996, contudo, esta tendência rompeu-se com a eleição para
prefeito de Hugo França, em campanha acirrada contra as
lideranças antigas, acostumadas a um revezamento sem maiores
novidades. França já havia sido candidato anteriormente e fora
derrotado, mas não tivera passagens por cargos legislativos ou
executivos locais, apenas exercendo a presidência de seu partido, o
PDT.
França disputou as eleições de 1996 e de 2000 em coligação com
diversos partidos, entre eles o PT, sigla que, entretanto, não elegeu
nenhum vereador. De qualquer forma, a hegemonia da coligação do
prefeito na Câmara Municipal era folgada, com apoio de nove ou
dez dos 13 vereadores que compunham a instituição.
Além das realizações na área da saúde, que serão comentadas
com detalhe adiante, há evidências importantes de práticas de bom
governo em alguns outros setores da administração municipal.
Assim, na área de saneamento, a operação do sistema é feita por
uma autarquia municipal, anteriormente ligada à FUNASA, que
pratica tarifas menores do que aquelas da companhia estadual de
saneamento, com altos índices de cobertura e subsídios para
pequenos consumidores de baixa renda. Na área de transporte coletivo, ocorreu a revisão de contratos históricos com a redução de
tarifas a valores inéditos (R$ 0,40) e a ampliação da oferta de linhas
nos últimos anos. Na área de habitação, foi desenvolvido um
programa de moradias populares com recursos municipais próprios
e externos, com obras de infraestrutura associadas.
A saúde em Ibiá
O prefeito da época do estudo admitia que sua eleição e posterior
reeleição, em 2000, resultaram do grande impacto popular do
programa de saúde implementado nos anos anteriores. Mesmo seu
adversário na campanha, que havia sido prefeito anteriormente,
prometeu manter a política de saúde vigente, calcada no PSF,
embora na virulência da campanha muitas acusações tenham sido
feitas ao programa, inclusive a de que patrocinava “médicos de
1,99”, numa alusão maldosa às lojas de quinquilharias baratas.
O sistema de saúde de Ibiá organizou-se, historicamente, de
maneira pouco inovadora. Havia apenas uma unidade ambulatorial
pública (centro de saúde), operada precariamente pela secretaria de
estado da saúde de Minas Gerais por várias décadas, depois
municipalizada, dentro do amplo processo de transferência de
unidades que ocorreu na década de 90. A prefeitura, historicamente,
teve importância restrita na composição do sistema de saúde da
cidade (IBIÁ, 2000). É bem verdade que já existia um hospital
filantrópico (Santa Casa) desde os anos 40, mas que sempre
recebeu apoio financeiro da prefeitura, que acabou encampando-o
na década de 70. Com tal processo, contudo, não alterou-se a
denominação social e nem se interferiu no processo de escolha de
seus dirigentes, que continuaram sendo os “provedores” escolhidos
pela irmandade fundadora, com forte influência dos médicos locais,
que haviam transformado o hospital, o único da cidade, em foco de
seus interesses privados. A atuação da prefeitura na gestão da
Santa Casa consolidou-se na gestão 1996 - 2000, embora do ponto
de vista jurídico a definição de quem seja o verdadeiro mantenedor
– se a prefeitura ou a Sociedade São Vicente de Paula – não tenha
sido claramente estabelecida.
O sistema de saúde da cidade contava ainda com os serviços
médicos da antiga Rede Mineira de Viação e da Nestlé, nos quais a
medicina da cidade tinha monopólio dos postos de trabalho. Além
disso, os médicos mantinham seus consultórios e clínicas de forma
a complementar as atividades que exerciam no setor público e nas
empresas referidas, configurando um sistema relativamente
“fechado” do ponto de vista profissional, com restrições à entrada de
novos profissionais, o que se tornou patente quando ocorreram as
mudanças promovidas na gestão em foco.
A implementação do PSF
Uma singularidade de Ibiá é, como se viu, a situação de sua
Santa Casa, formalmente privada e filantrópica, mas com gestão e
financiamento municipal. Estima-se que 70% dos recursos
disponíveis são alocados pela prefeitura e que 30% provêm da
prestação de serviços ao SUS, mediante AIH e convênios, dentro de
uma linha de atuação bastante típica de hospital público, em que
pese seu estatuto jurídico indefinido. Curiosamente, ainda nos dias
atuais, é mantida na entrada da unidade uma placa antiga, na qual a
direção da instituição justificava-se aos usuários pelo fato de que as
“GIH” não garantiam atendimento para todos durante todo o mês,
dada a cota limitada a que fazia jus o hospital. Segundo a Secretária
de Saúde, tal informação é ainda conservada “para revelar o que
era o passado”.
O sistema de saúde de Ibiá teve sua conformação marcada pela
baixa (ou nenhuma) autonomia do município, pela falta de
compromisso com o usuário, pela não-universalidade e pela não-
integralidade do precário cuidado oferecido. Era este o quadro que
veio a ser enfrentado pela nova gestão iniciada em 1997, agravado
pelo sucateamento da pequena rede de serviços disponível,
inclusive do próprio hospital, pelas resistências dos médicos, pela
baixa auto-estima dos (poucos) funcionários da saúde e pela
baixíssima credibilidade do sistema público por parte da população.
Os depoimentos recolhidos entre os entrevistados, sejam
funcionários, conselheiros ou usuários, são bastante significativos a respeito das mudanças do velho regime de práticas para uma nova
situação de conquistas bastante expressivas na saúde. Assim, as
afirmativas de que o “ponto de partida foi o zero”, de que houve
mudanças muito profundas na vida das pessoas doentes, citando
como exemplo o caso dos diabéticos e dos hipertensos, a
constatação de que a “cobrança por fora”, que era regra no
passado, foi praticamente extinta, ou ainda, a taxativa expressão “ou
morria ou ia para araxá”, são aspectos que demonstram a existência
de transformações substanciais no sistema de saúde local.
O primeiro momento da administração iniciada em 1997 pareceu
ter sido marcado pela perplexidade dos novos dirigentes. O prefeito
chegou a pensar em iniciar simplesmente pela integração do
município à proposta de Consórcios de Saúde incentivada pela
SES-MG, dentro de um enfoque de especialização e policentrismo
na atuação. Assim, o primeiro projeto foi o de criar um Centro de
Cardiologia no município, para servir como “moeda de troca” na
relação com outros municípios da região do Alto Paranaíba, dentro
da proposta dos consórcios. O fato é que a preocupação com a
saúde era forte no discurso político, embora a maneira de
concretizá-la não estivesse muito clara.
O que se aceita como marco definidor da política de saúde
posteriormente implementada no município foi a I Conferência
Municipal de Saúde de Ibiá, realizada em maio de 1997, na qual o
prefeito se envolveu pessoalmente, participando ativamente não só
do trabalho organizativo como das sessões plenárias e debates. A
conferência contou com a participação de alguns atores externos
que vieram a ter influência relevante no processo de reconstrução
do sistema local. Naquele momento, um problema ainda por ser
resolvido era o da constituição da equipe da secretaria de saúde,
ainda muito escassa e deficitária do ponto de vista da qualificação.
A pessoa nomeada inicialmente, uma médica da cidade, logo
afastou-se do cargo, abrindo então caminho para uma gestão mais
“profissional” do sistema de saúde, o que resultou em significativo
impacto para a construção e a implantação de uma nova proposta.
A “nova proposta” foi o PSF, sentido então como uma alternativa
de reconstrução do sistema de atenção local. O programa surge
como um projeto mais robusto do que o anterior, de integração aos consórcios regionais, embora ainda marcado pela forte cultura
hospitalar local, que tinha na Santa Casa o autêntico centro do
sistema de saúde. Paralelamente, entretanto, não descuidou-se da
contratação de especialistas para atendimento na unidade pública
denominada Policlínica, para dar resposta às carências crônicas da
cidade, fortemente denunciadas e objeto de compromissos do
prefeito durante a campanha eleitoral.
A implantação do PSF teve início apenas no segundo semestre
de 1998, embora fosse já esta a deliberação da Conferência
Municipal de Saúde realizada mais de um ano antes. Houve a
decisão de implantação do PACS nesse interregno, mas tal
programa funcionou de forma isolada e por apenas por três meses,
sendo logo associado e substituído pelo PSF. A sucessão dos
acontecimentos foi equivalente à ocupação intensiva de um espaço
anteriormente vazio ou muito deficitário. A palavra “substituição”,
presente no vocabulário do PSF em anos mais recentes, não se
aplicaria adequadamente ao caso local. Segundo um dos
entrevistados, o mais correto seria simplesmente falar de
“implantação” ou mesmo da “criação”, não restritamente do PSF,
mas de um verdadeiro sistema de saúde local. O PSF representava,
no momento das entrevistas, “o único sistema de saúde” da cidade,
com 100% de cobertura e completa integração entre os níveis do
sistema, sob uma mesma gestão. Uma visita à Santa Casa, nesse
momento, mostrava um dado significativo, qual seja a enfermaria de
pediatria desativada por várias semanas por falta de crianças para
internar, ao contrário da situação anterior à implantação do
programa, quando estas eram as internações mais demandadas.
Obedeceu-se a uma “curva de implantação” quase retilínea, pois
a totalidade das seis equipes, que correspondiam a uma cobertura
de 100%, inclusive na zona rural, foram instaladas em menos de
seis meses, ou seja, até o final do primeiro semestre de 1999.
É digno de destaque o fato de o programa em Ibiá ter seu início
repleto de carências, não só materiais como de outras naturezas.
Citavam-se, como exemplos destas dificuldades iniciais: a falta de
pessoal local tecnicamente preparado e politicamente sintonizado
com a proposta; a ausência de uma rede física adequada; o
sucateamento da rede existente; a cultura hospitalista da população, entre outros aspectos. Havia a falta mesmo de um sistema de
informações adequados, o que motivou a equipe a desenvolver um
sistema próprio, mais tarde substituído pelo SIAB, com o qual
mostrava compatibilidade.
Do ponto de vista da capacitação das equipes locais, a
participação mais significativa era a da SES-MG, que oferecia por
intermédio da DRS de Uberaba, à qual se jurisdiciona ibiá, os
treinamentos típicos do PSF e da atenção básica, mormente nas
áreas de saúde da mulher, da criança, imunizações etc. As
universidades (UFMG e PUC), embora estivessem utilizando o
sistema de saúde local como campo de estágio para seus alunos,
relutaram em participar efetivamente de treinamentos ou mesmo de
prestar assessoria à equipe local. A capacitação foi um tópico
uniformemente apontado como “necessidade maior” do sistema
local, deplorando-se mesmo o caráter restrito dos treinamentos que
recebiam através da SES-MG.
As relações entre mandatários e comandados pareciam estar em
evolução. Um depoimento significativo a respeito foi o de que, no
princípio, os ACS demandavam às chefias até mesmo sobre a
conveniência de se fechar as unidades no dia em que os médicos
eventualmente não comparecessem. Nos dias atuais, isso parecia
ser fato superado, o que refletiria um clima de mudança, tanto para
a equipe como para o usuário, que passou a confiar também no
atendimento de outros profissionais. Da mesma forma, outra
mudança registrada foi a de que as reuniões de equipes, antes, só
aconteciam com a presença da cúpula dirigente local, ou seja,
coordenador, médico ou enfermeira. Isso, entretanto, evoluiu para a
realização de reuniões mais “desconcentradas”, embora sujeitas a
veladas insinuações de “basismo”, geralmente por parte dos
médicos. Como ganho adicional, foi relatado que os ACS perderam
gradualmente o caráter de “despachantes” ou de office boys
burocráticos, para se transformarem efetivamente em “agentes” de
uma equipe de saúde.
O envolvimento dos instrumentos de participação social na
implementação do novo sistema de saúde merece destaque no caso
presente. Obviamente, conteúdos e práticas de participação e
responsabilização eram escassos ou ausentes antes do início da administração de Hugo França, ganhando entretanto ativação e
nitidez com o decorrer do tempo. As entrevistas de conselheiros
revelaram uma grande valorização do que chamaram de “respeito
aos usuários”, ou de um trabalho “honesto e bom”, aspectos
traduzidos por circulação de informações e ênfase no direito do
cidadão, posturas estas compartilhadas amplamente na prefeitura,
particularmente na SMS. Consideraram ainda que o risco de
“desmonte” do PSF, face a uma eventual mudança de administração
municipal parecia remoto, dado que o mesmo estava já bem
enraizado na população. O programa, aliás, não era objeto
freqüente de discussões do CMS como não tinha, no momento,
grandes adversários no conselho, pois estes haviam se “afastado
espontaneamente” depois das eleições.
A realização de três Conferências de Saúde durante a gestão de
França, em um processo inédito na cidade, e a própria participação
direta e ativa do prefeito em tais eventos, mostravam, por si só, as
disposições da administração municipal a respeito do tema. Não só
a retomada das atividades do Conselho Municipal de Saúde após a
realização da primeira Conferência, mas também a própria
deliberação sobre a via do PSF como estratégia para reestruturar o
sistema de saúde da cidade ocorreram como frutos diretos de um
investimento político no controle social em Ibiá. Admitem alguns
entrevistados, entretanto, que o Conselho Municipal de Saúde tinha
uma atuação um tanto passiva e que seria preciso torná-lo mais
atuante e mais crítico.
Houve algum grau de experimentação no desenvolvimento da
política de RH, por exemplo, nas formas de seleção e de vínculo do
pessoal. Assim, no início, como aconteceu com os ACS, os
contratos eram feitos diretamente com a entidade formalmente
mantenedora da Santa Casa, que praticava critérios seletivos
considerados clientelistas e pouco adequados do ponto de vista
técnico. Esta prática foi substituída por uma intervenção cada vez
maior da administração municipal nestes processos. De qualquer
forma, avaliouse que o movimento inicial ainda produzia reflexos na
qualidade do pessoal disponível, embora gradualmente o problema
fosse sendo equacionado graças a uma rotatividade relativamente
elevada do pessoal de nível elementar.
No caso dos médicos, o resultado da política de contratações foi
uma mudança radical no processo de trabalho da categoria, já que a
maioria absoluta dos médicos passou a depender da prefeitura para
ter trabalho, em relações assalariadas formais versus uma situação
anterior de grande autonomia. A prática privada integral passou a
ser um fenômeno apenas residual em Ibiá.
Um possível resultado das opções feitas pelo município no campo
dos recursos humanos foi o de que alguns dos problemas “típicos”
do PSF, nítidos aliás no conjunto das experiências em implantação
no Brasil como, por exemplo, a alta rotatividade médica, a
desmotivação, os movimentos “desestabilizadores” sobre o sistema
de saúde, principalmente por parte de médicos, eram pouco
relevantes na cidade.
As práticas de gestão se beneficiaram também – e isto poderia
até mesmo ser considerado um aspecto distintivo da experiências
local – da vinculação e do comando único existentes entre a rede
ambulatorial e o hospital. Com isto, a interação e até a
interpenetração das equipes e das práticas foi viabilizada, o que se
constatou, por exemplo, na utilização dos boletins de alta hospitalar
como instrumento de trabalho das equipes do PSF, no sentido de
fazer o monitoramento pós- hospitalização dos pacientes.
Dentre uma vasta gama de fatores considerados positivos ou
facilitadores, de um lado, ou dificultadores, de outro, no que diz
respeito à implantação da política de saúde, em geral, ou do PSF
em particular, em Ibiá, conforme depoimentos dos interlocutores,
merecem destaque os seguintes:
Fatores facilitadores: (a) a decisão política foi o fator positivo mais
destacado por todos, ancorada em um perfil pessoal de carisma,
energia, franqueza, cobrança de resultados, como era o feitio do
prefeito; (b) as dimensões do município, a concentração de sua
população em áreas urbanizadas e o relativo equilíbrio social e
econômico de sua população; (c) as premiações recebidas pelas
equipes municipais em mostras nacionais do DAB/MS e do
CONASEMS, com retorno considerado mais simbólico do que
material; (d) a possível neutralização dos adversários políticos e
partidários das propostas da administração, inclusive em termos de
saúde, fenômeno particularmente acirrado no decorrer da campanha eleitoral; (e) o trabalho em equipe muito valorizado, inclusive pelo
seu ineditismo no sistema de saúde local, no qual as práticas
centralizadas na figura do médico tinham curso histórico e marcante
sobre os demais profissionais e sobre a população; (f) a adesão da
população ao programa de saúde, e ao PSF em particular, com
apoio formal do Conselho Municipal de Saúde, embora se
registrassem críticas quanto à sua participação pouco efetiva no
processo; (g) a adesão das equipes ao PSF e à política de saúde
em geral, sem descartar a possibilidade de que tal adesão
representasse também um mecanismo natural de “auto-defesa” das
pessoas (com relação à manutenção do emprego), na visão de um
dos entrevistados; (h) além dos incentivos simbólicos, mediante
premiações, como já visto, as modificações introduzidas nas normas
de financiamento do PSF pelo DAB/MS, em 1999, com o pagamento
por faixas de cobertura, teve papel decisivo na orientação e
ampliação do programa, já que ibiá ficou na alíquota superior; (i) Lei
Estadual de 1997, dispondo sobre a redistribuição de recursos
gerados pelo ICMS e outros de fonte estadual (Lei Robin Hood), que
trouxe a criação de incentivos o PSF; (j) o espírito empreendedor,
liderança e carisma dos dirigentes; (l) os investimentos em
processos infraestrutura adequados para o PSF.
Fatores dificultadores: (a) as tradicionais limitações do
financiamento da saúde, agravadas pela Lei de Responsabilidade
Fiscal; (b) a baixa qualificação dos recursos humanos e a relativa
falta de governabilidade do município quanto a este aspecto; (c) o
problema da referência e da contra-referência, minorado
relativamente pela implementação do novo sistema de saúde; (d) as
restrições orçamentárias internas impostas pela municipalidade,
diante do temor da Lei de Responsabilidade Fiscal, em relação à
áreas de saúde que vinham sendo poupadas, mas não totalmente;
(e) a cultura da população, com as conhecidas dificuldades em
“entender” os objetivos do PSF, agravada por paternalismo e
medicalização; (f) a adesão por vezes relutante dos médicos; (g)
preocupações de que a questão salarial dos médicos, que
ganhavam cerca de R$ 3.300,00/mês, com reivindicações para
aumento, viesse a funcionar como autêntica “bomba” de efeito
retardado para as finanças municipais; (h) fragilidade do controle social, com taxa de comparecimento baixa de conselheiros às
reuniões do CMS (em torno de 50%) e discussões pouco
aprofundadas devido à “falta de informação” dos conselheiros e à
grande ênfase nas queixas e reclamações pontuais; (i) a então
recente campanha de reeleição, muito polarizada, que trouxe
insegurança para as equipes e teria contribuído para afastar
algumas lideranças comunitárias do CMS.
Síntese interpretativa
ATORES
O ator de maior destaque e influência é sem dúvida o prefeito
municipal, dadas suas características de carisma e liderança, de seu
referencial ideológico, bem como do respeito de que desfruta entre
os servidores e a população. A isso juntou-se a possibilidade única
na história da cidade de se ter um prefeito reeleito, portador de um
longo mandato, no qual foi possível planejar e implementar projetos
bem-sucedidos, como no caso da saúde. Poderia ter ocorrido o
contrário, mas certamente a continuidade administrativa em ibiá
compõe o que se poderia chamar de um ciclo virtuoso, tanto em
termos políticos como administrativos.
Embora o prefeito municipal tenha imposto uma marca especial
sobre a política que se implantou em Ibiá, não pode ser negada a
visibilidade e a importância de um outro grupo de atores, estes de
origem externa à comunidade local. Seus exemplares mais visíveis
são os três secretários de saúde que se sucederam a partir de 1998,
todos de origem externa ao município e de perfil bastante técnico e
destituídos de interesses corporativos e financeiros locais.
Devem, também, ser arroladas algumas pessoas que, por motivos
pessoais ou ideológicos, trouxeram contribuições à administração
municipal, principalmente em seu início. Neste aspecto, a coligação
local com o PT pode ter facilitado estes contatos, visto ser esta
prática de assessoria a municípios em que o partido esteja no
governo um fato comum na referida agremiação, configurando o que
se denominará aqui de Rede PT.
A atuação do Conselho Municipal de Saúde não chegou,
certamente, a mostrar-se muito dinâmica. Ocorreu, sem dúvida, um
ambiente de sintonia e aproximação entre o governo municipal e
este organismo. O controle social fora, por assim dizer, resgatado de
um limbo pela administração municipal. O reconhecimento, de parte
a parte, de uma relação de harmonia e colaboração era a regra
geral, embora alguns setores mais críticos dentro da administração
questionassem o papel um tanto amorfo e passivo do Conselho.
Adversários não faltaram às propostas de mudança na saúde de
Ibiá. Mas, passado o tempo, o que se percebia é seu afastamento
do cenário, como aconteceu tanto no caso dos médicos como dos
políticos de oposição, as duas correntes antagônicas mais fortes à
proposta de saúde em Ibiá. Pode-se aventar a hipótese de que a
oposição política se retraiu através de um movimento previsível,
dentro da lógica de sístole e diástole característica da atuação
político-partidária, em que tempos de intenso movimento (as
eleições e seu entorno) se alternam com tempos de calmaria. No
caso dos médicos, parece ter ocorrido um autêntico desbaratamento
de seu movimento, certamente intensificado pela pouca
organicidade do mesmo, aliás característica de uma categoria que
prima pelo liberalismo e autonomia em sua atuação. De qualquer
forma, a impressão que fica a respeito das oposições ao programa
de saúde em Ibiá é a de que elas não foram capazes de se
organizar sistematicamente, ou por outra, que o prefeito tem sido,
ao menos temporariamente, o vencedor das contendas travadas
com as mesmas.
CONTEXTOS
A discussão sobre as condições de implementação e o sucesso
obtido com o PSF, quase sempre, têm como pano de fundo
questões ligadas à marginalidade e à carência em que estão
imersas as populações-alvo do programa. Em Ibiá, contudo, este
não é um aspecto central, pois em que pese a existência de alguns
redutos de pobreza e de baixo acesso aos bens públicos no
município, a regra geral pode ser traduzida como um contexto de
inclusão social, muito mais do que de exclusão. A economia relativamente “moderna” do município (pelo menos para os padrões
do interior do Brasil), com as agroindústrias e a produção e a
manufatura de laticínios gerando empregos permanentes,
confirmam e justificam este panorama. O programa de Ibiá tem,
certamente, entre as razões de seu sucesso, o fato de ter sido
assentado em um ambiente equilibrado do ponto de vista
socioeconômico, não se podendo afastar, todavia, a existência
conjunta de outros fatores ligados às características dos atores
locais, de contextos e processos políticos e institucionais
adequados, como se verá a seguir.
A implementação do PSF em Ibiá certamente beneficiou-se de um
contexto político altamente favorável, dado pela emergência de um
novo ator na política local, imbuído de um ideário marcante de
promoção de eqüidade e bem-estar, rompendo um ciclo histórico de
clientelismo e populismo na política local. Além disto, concretizou-
se, com a reeleição do prefeito, a possibilidade de um mandato de
oito anos ininterruptos, com continuidade administrativa na saúde e
nas demais áreas da administração municipal.
O pano de fundo político, embora favorável ao desenvolvimento
das ações de saúde, se isentou de conflitos. Com efeito, mesmo
para os padrões habituais de polarização partidária em períodos
eleitorais, as eleições de 1996 e 2000 transcorreram em clima de
muita passionalidade e exacerbação, não sendo raros os recursos à
violência física e denúncias de compra de votos. Todavia, passado o
calor dos embates eleitorais, deu-se a acomodação dos adversários
e o prevalecimento do tradicional pragmatismo dos políticos,
preocupados com o ato de governar. Evidentemente, as
possibilidades de manutenção de tal cenário a médio e longo prazo
são certamente remotas, sendo de se esperar que o mesmo se
desfaça com o advento de um novo calendário eleitoral. Isso foi
confirmado pela história imediata: nas eleições seguintes (2004), o
ambiente político novamente se “anuviou”. A campanha transcorreu,
novamente, em clima altamente polarizado e, dessa vez, o então
prefeito não conseguiu fazer seu sucessor, assumindo o comando
municipal a oposição histórica.
As condições de “partida” para o programa de saúde em Ibiá
merecem algum destaque, pelas suas características especiais. Em primeiro lugar, pelo substrato de carências culturais, materiais e
institucionais (no setor saúde) sobre o qual instalaram-se as ações
do município. Entre estas carências se destacava, sobremaneira, a
escassez e o baixo nível de preparação técnica do pessoal
disponível para a gerência e a execução dos programas de saúde.
Notória, também, foi a existência histórica de uma mescla de
relações entre o público e o privado, por vezes conflituosas, mas
quase sempre assimiladas como “parte da paisagem”. Assim é que
se dava a inserção dos médicos no sistema de saúde local, o
mesmo acontecendo com outros atores, por exemplo, a diretoria da
entidade mantenedora do hospital filantrópico local, em que todos se
colocam em um ou outro lado das relações entre o poder público e o
interesse privado, ao sabor de conveniências pessoais e políticas.
O resultado mais visível de tais conflitos era dado pela existência
de um sistema de cuidados de saúde extremamente precário,
principalmente para os setores menos aquinhoados da população,
e, além de tudo, fortemente dependente das referências externas,
destinadas a municípios vizinhos, como Araxá e Uberaba, onde a
tendência era também de manter tal status quo.
Um outro contexto que pesou favoravelmente na evolução do
processo de implementação do PSF em Ibiá foi a dupla premiação
obtida na mostra e concurso nacionais de experiências, entre 1999
e 2000, projetando a imagem de município bem-sucedido na saúde
para além de suas fronteiras, com repercussão favorável também no
plano interno.
PROCESSOS
O caso da saúde não parece ter sido um acontecimento isolado
em Ibiá. Como referido antes, outras práticas sintonizadas com o
que se poderia chamar de bom governo foram detectadas em outros
setores da administração municipal, como, por exemplo,
transportes, urbanismo e habitação popular. Uma certa ênfase no
recurso aos mecanismos formais de participação social estaria
também em consonância com tais práticas inovadoras.
O processo de implementação do PSF em Ibiá transcorreu em
uma dupla via, fundada na decisão política, mas executada por um
escalão de extração técnica. Contudo, o envolvimento direto do
prefeito em tal processo foi uma característica local notável,
ressaltando-se seu perfil de empreendedor, sua formação médica,
suas vivências profissionais em áreas afins à saúde pública. São
dignas de destaque, também, algumas características de
personalidade do prefeito e de outros membros da equipe de
governo, nominalmente os secretários de saúde do período de
implementação, entre os quais o carisma e a liderança podem ser
ressaltadas como aspectos fortes, embora aqueles últimos não
fossem exatamente partisans típicos.
Assim, o peso da decisão política foi uniformemente destacado
como uma característica central da implementação do sistema de
saúde em Ibiá, sem dúvida acompanhado de um certo
“voluntarismo”, dados os traços de personalidade de seus atores
principais.
O apelo aos mecanismos participativos foi outra característica
marcante do processo de implementação do PSF em Ibiá. Este foi,
sem dúvida, um aspecto enfático no discurso das autoridades,
particularmente do prefeito, o qual, aliás, para além do discurso,
revelou-se um ator diretamente envolvido com os instrumentos de
participação social no município, como ocorreu nas conferências de
saúde, nas quais foi o protagonista. Contudo, há que se registrar a
crítica quanto ao processo de participação, freqüentemente
considerado como passivo e até mesmo omisso nas grandes
decisões referentes ao desenvolvimento do sistema. Ao contrário,
no envolvimento com as minúcias do dia-a-dia, por exemplo, no
exame das queixas de usuários, os conselheiros se revelaram
bastante ativos. De outro lado, o discurso dos usuários mostrou-se
como gratificado – e nisso soava muito enfático – em reconhecer a
disposição da administração em ouví-los e prestigiá-los.
Uma aparente contradição do processo de Ibiá foi o descompasso
existente entre a notoriedade externa obtida pelo município, em
função das premiações nacionais recebidas e o baixo grau de
envolvimento e participação no movimento municipalista de saúde,
seja em cargos de direção do COSEMS-MG ou do CONASEMS, seja mesmo no acompanhamento das atividades cotidianas de tal
movimento. Com efeito, seria de se esperar uma certa “relação de
causa e efeito” entre a visibilidade obtida pelo município e seu status
de excelência perante seus pares e uma participação ativa no
movimento de representação dos municípios. Isto, entretanto, não
aconteceu por vários motivos, entre os quais podem ser citados o
consumo da energia institucional no processo de construção local
do sistema e uma relativa fase de “baixa” do movimento, pelo
menos em Minas Gerais, conforme depoimento de algumas
testemunhas externas.
O grande nó crítico destacado por vários dos entrevistados foi a
“questão dos recursos humanos”, na qual, aliás, Ibiá não se
diferencia muito de outras realidades. Importa, contudo, analisar
como ocorreram os processos de superação ou aprimoramento da
difícil situação encontrada. No item capacitação, por exemplo, as
manifestações foram sempre de descontentamento e
reconhecimento de pouco avanço, por não terem contado com o
apoio institucional decidido de quem esperavam, ou seja, das
universidades, mesmo daquelas envolvidas com o processo local e
da SES-MG. Apesar disso, a política de recursos humanos local
mostrou-se eficaz em criar alternativas de desenvolvimento de
pessoal, particularmente de adesão à proposta de reconstrução do
modelo e de sintonia ao ideário do SUS, destacandose
particularmente uma acentuada interação positiva entre equipes e
comunidade.
A chamda questão médica, entretanto, pairava no horizonte como
precária e provisoriamente equacionada, dadas as manifestações
de insatisfação com a política salarial praticada e a potencial
resistência às mudanças na saúde, seja de origem interna ou
externa, com influências preocupantes sobre o conjunto dos
usuários.
Ao contrário, alguns ganhos de monta devem ser reconhecidos,
como por exemplo o aumento e o impacto na resolutividade do
sistema; o trabalho em equipe, com a incorporação de novas
categorias profissionais; o nítido incremento do grau de
responsabilização, seja dos serviços, seja do sistema como um
todo; a marcante mudança do processo de trabalho em saúde; o advento da credibilidade social no sistema de saúde; a incontestável
adesão ideológica interna, entre outros.
Em linhas gerais, o processo de implementação do PSF se deu
mais por mecanismos de poiesis (criação) ou construção “a partir do
novo” do que propriamente de substituição, dada a situação precária
da saúde encontrada pela administração de Hugo França. As
dimensões do município, bem como a necessidade de levar
respostas rápidas à população, dada a ênfase calcada na saúde,
como ocorreu nas campanhas eleitorais de 1996 e 2000, fizeram
com que o processo de implementação transcorresse em ritmo
acelerado, um verdadeiro big bang.
Persiste, entretanto, alguma incerteza quanto ao futuro das
medidas implantadas, calcadas, principalmente, nas possibilidades
de “virada” política nas eleições vindouras, na questão salarial dos
médicos e no enraizamento apenas superficial do programa entre o
quadro de prioridades da comunidade local e do conseqüente grau
de envolvimento da mesma em sua defesa.
CONTEÚDOS
Destaca-se em Ibiá uma certa ideologização da saúde, o que não
parece ser fato comum em pequenos municípios, nos quais o
pragmatismo político não deixa espaço para questões de certa
forma “menos substantivas”, qual seja o apelo a um ideário ou pauta
de saúde centrado, por exemplo, no direito à saúde, na
responsabilidade pública, na eqüidade, na participação e
democratização do sistema de cuidados.
Este ideário, defendido em toda parte por partidos de esquerda ou
mesmo de feição social-democrata, embora menos elaborado em
ibiá, não se revela ali como extemporâneo ou surpreendente, dadas
as características pessoais de seu mandatário, bem como das
alianças políticas que ali se estabeleceram, tendo o PT como
parceiro. Neste aspecto, chama atenção o destaque dado aos
processos de participação social, embora exista também “o outro
lado da moeda”, como comentado acima.
Um outro fato marcante na definição dos conteúdos certamente
pode ter sido uma prática política “de resultados”, em que o pragmatismo tem primazia sobre a ideologia, conforme as palavras
de seu defensor, o prefeito. Assim, apesar da administração
municipal se apoiar assumidamente em uma “ideologia de saúde”,
ao mesmo tempo propõe-se a contornar certas barreiras
ideológicas, por exemplo, ao estabelecer alianças políticas que
posturas mais ortodoxas provavelmente rejeitariam.
As lições de Ibiá
A partir da identificação dos fatores que foram fortalecedores ou,
ao contrário, criaram obstáculos ao pleno desenvolvimento da
atuação do gestor municipal, em termos dos processos de
implementação de sua política de saúde, algumas supostas lições
puderam ser enumeradas, ressaltando também os aspectos
distintivos apresentados pela experiência de Ibiá.
Em primeiro lugar, a pergunta “por que Ibiá deu certo?” teve suas
respostas geralmente focalizadas na decisão política e na condução
do processo, de forma quase unânime entre os entrevistados, sendo
que o próprio prefeito sentiu-se à vontade para fazer tal declaração.
De forma associada, foram destacadas a clareza nas prioridades
definidas e a disposição para promover a ruptura com interesses
pré-estabelecidos e consolidados, como foi o caso dos confrontos
com a corporação médica e outros atores.
Questões ligadas à nova organização que se procurou dar ao
sistema também foram bastante destacadas, enfatizando-se a
construção de um modelo que fosse realmente novo e capaz de
romper com todos os obstáculos que se erigiram no passado,
principalmente no que diz respeito ao direito à saúde, à
integralidade e à resolutividade. Isso se obteve, reconhecidamente,
graças à priorização que conferiu-se à atenção básica.
Entre os obstáculos estratégicos ainda a contornar, visando dar
feição definitiva ao sistema de saúde local, foram enfatizados: a
estrutura hospitalar ainda carente na cidade, as resistências
corporativas não totalmente superadas, além da crônica
insuficiência dos mecanismos de garantia de atenção especializada
além dos limites do município.
Vitória da Conquista: o feliz encontro
da ideologia com a práxis
Contexto político
A região de Vitória da Conquista tem uma história ligada aos
ciclos de gado e mineração e agricultura característicos do sertão
semi-árido do Nordeste do Brasil. O primeiro núcleo de população
da cidade foi constituído ainda no século XVIII, cerca de 1752, como
resultado da intenção da metrópole portuguesa criar um aglomerado
urbano na vasta faixa compreendida entre o litoral e o sertão da
Bahia (BAHIA, 1999). Está localizada no chamado Planalto de
Conquista, um contraforte da Chapada Diamantina, situado no
centro-sul do estado da Bahia, distando 510 km da capital, Salvador.
Tem clima temperado na maior parte do ano, ao contrário do que se
imagina para localidades situadas em plena caatinga, dada a
altitude das terras do município, em torno ou mesmo acima dos mil
metros. Uma parte do município, onde a caatinga predomina, é
bastante seca durante quase todo o ano. A cidade inclui-se na
região do chamado Polígono das Secas, usufruindo de alguns
benefícios fiscais dada esta condição.
A cidade constitui-se em ponto de trânsito obrigatório de correntes
humanas e comerciais, decorrente de sua situação às margens da
BR-116 (Rodovia Rio-Bahia), via primordial de união entre o
Nordeste e o Sul-Sudeste brasileiros. Trata-se de uma posição
geográfica estratégica, com influências econômicas e culturais
recíprocas dentro de uma vasta região que abrange os estados da
Bahia e de Minas Gerais, polarizando mais de 80 municípios, com
uma população de abrangência superior a um milhão de habitantes
(TEIXEIRA, 2001). Constitui-se, acima de tudo, um grande
entreposto comercial, localizado no cruzamento de vias como a BR-
116 e também, de abrangência estadual, que unem o leste e o oeste
do estado da Bahia. Tais características favorecem o trânsito e a
concentração de populações migrantes, o que acarreta,
naturalmente, forte impacto na área de saúde.
O município é de médio porte, com uma população pouco
superior a 260 mil habitantes, de acordo com o censo de 2000, e
índice de urbanização da ordem de 85%. A população rural, embora
proporcionalmente pequena (para os padrões nordestinos) está
extremamente dispersa, existindo na zona rural do município cerca
de 284 povoados de variados tamanhos. Somente a rede de
estradas vicinais locais atinge 3.500 km, e as distâncias percorridas
dentro do município não raro ultrapassam os 90 km.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de vitória da
conquista é baixo, da ordem de 0,574. Para se ter uma idéia
comparativa, o mesmo é de 0,816 em Campinas e 0,806 no Distrito
Federal. Da mesma forma se comporta o Índice de Condições de
Vida. Entre os vários fatores que compõem estes indicadores, têm
mais peso aqueles ligados à renda, sobrepujando a educação e a
longevidade, conforme revelado por estudo recente
(ENSP/FIOCRUZ - DAB/MS, 2002). Os indicadores urbanísticos
também se apresentam de forma bastante precária: no saneamento
básico, a rede de abastecimento de água não alcança mais do que
55% da população urbana e a de esgotos chega apenas a 35% na
zona urbana. Já a coleta de lixo atende a quase 100% da população
urbana, mas o produto é destinado a um lixão a céu aberto. Na zona
rural, estes indicadores são bem piores, conforme revelado pelo
estudo de Teixeira (2001) já referido acima.
A economia do município está assentada, via de regra, na
prestação de serviços, particularmente nas áreas de educação e
saúde, além da agricultura e do comércio, com a abrangência bi-
estadual, já citada acima. A produção agrícola está baseada no
café, implantado intensivamente na região a partir dos anos 70.
Considera-se, entretanto, que a cafeicultura já teve seu apogeu e
hoje está em declínio, o que estaria afetando de forma marcante a
vida econômica e social do município.
A tradição histórica da política local em Vitória da Conquista é
muito semelhante à de outras cidades do interior do Nordeste, e do
Brasil em geral, marcada pela alternância de poder entre correntes
oligárquicas tradicionais, de modo geral constituídas ainda nos
tempos da rivalidade entre os antigos PSD e UDN, ou mesmo
anterior a eles, remontando à República Velha. Nas décadas de 70 e 80, a cidade abrigou uma corrente política ligada ao antigo MDB,
que se notabilizou como foco de resistência ao regime militar,
capitaneada por Waldir Pires, ex-governador da Bahia e ex-ministro
no governo Sarney, hoje ligado ao Partido dos Trabalhadores. A
história do grupo político oposicionista local teve, porém, o mesmo
destino de outros no estado da Bahia: acabou cooptado pela
corrente partidária que há décadas se movimenta em torno de
Antonio Carlos Magalhães.
O processo eleitoral local transcorreu sem maiores sobressaltos
até 1996, alternando-se no poder municipal correntes ligadas ao
“carlismo” tradicional e ao PMDB. Nessa ocasião, entretanto, a
situação das finanças e dos serviços públicos municipais ficara
extremamente comprometida, por práticas pouco responsáveis de
governo, fortemente denunciadas na ocasião. É então que se coloca
a candidatura, afinal vitoriosa, de Guilherme Menezes, filiado ao PT,
um médico na faixa etária dos 50 anos, acumulando experiências de
militância política importantes, que já se lançara candidato pleitos
anteriores, havendo sido derrotado, então, pelas oligarquias
tradicionais. Foi assim que sua eleição (e depois a reeleição, em
2000) representou, sem dúvida, uma marcante ruptura com um
longo e arraigado passado, inclusive com a chegada ao poder de
um partido de esquerda.
Menezes, cuja administração foi auto-intitulada de Governo
Participativo, assumiu a prefeitura com um quadro financeiro
adverso, herdado de gestões anteriores, com uma dívida em torno
de 83 milhões de reais, ao mesmo tempo que a arrecadação anual
do município não passava de 30 milhões. Na ocasião da posse,
diversos serviços urbanos e sociais estavam praticamente
paralisados, como, por exemplo, a coleta de lixo, creches, serviços
de saúde e de educação, entre outros. Assim, um primeiro esforço
do novo governo municipal teve de ser o de sanear as finanças,
antes de apresentar resultados, o que obrigou a um política de
intensa contenção de despesas. Contraditoriamente, ao mesmo
tempo, era necessário ampliar a atuação do município na área
social. Neste aspecto, a questão da saúde acabou tendo
prerrogativas especiais, pois fora um tópico freqüente nos
palanques, tanto na primeira como na segunda eleição de Menezes.
Entre outras inovações administrativas, o novo prefeito constituiu
um grupo de secretários e assessores de extração diferenciada do
ponto de vista intelectual, pouco usual para os padrões interioranos,
reunindo pessoas com formação técnica, professores universitários
e mesmo recrutados externamente, em salvador, por exemplo – não
necessariamente com experiência administrativa anterior no poder
público municipal.
As realizações administrativas em Vitória da Conquista foram
chamadas por um observador de “capacidade de administrar em
condições adversas” (LESSA, 2000). Alguns aspectos marcantes
puderam ser evidenciados desde os primeiros meses de governo,
como foi o caso do recolhimento do IPTU, antes negligenciado, que
deu um verdadeiro “salto” de R$ 677 mil, em 1997, para um valor
três vezes maior dois anos depois. As outras receitas municipais,
muitas delas alvo de renúncias generosas de arrecadação, como
era o caso do ISS, aumentaram em mais de 100% nos primeiros
três anos de administração de menezes. O município vinha
conseguindo, também, canalizar recursos externos de certa monta,
não apenas de órgãos públicos federais como de fundações
privadas.
A saúde em Vitória da Conquista
Na saúde, a administração de Guilherme Menezes mostrou uma
visão imbuída de um ideário progressista e de defesa das
conquistas do SUS. Imediatamente reivindicou e passou a tratar o
processo de municipalização como uma prioridade, enfrentando na
ocasião algumas dificuldades em se enquadrar em formas mais
avançadas de gestão do SUS, por contar com forte resistência por
parte da Secretaria de Estado da Saúde da Bahia, motivada
claramente por desavenças de fundo partidário.
Ao se iniciar o Governo Participativo, em janeiro de 1997, o
município praticamente não oferecia ações básicas de saúde e
sequer havia pleiteado enquadramento nas condições de gestão da
NOB 93 (VITÓRIA DA CONQUISTA, 2000). Havia apenas seis
unidades básicas, com reduzida oferta de serviços, com não mais do que oito médicos contratados, mesmo assim em tempo parcial,
com controle precário do cumprimento das jornadas de trabalho. As
unidades existentes estavam todas em condições de funcionamento
muito precárias, com fornecimento de água e de luz geralmente
suspenso e bastante desabastecidas em termos de medicamentos e
de material de consumo. A atuação da prefeitura na saúde das
comunidades rurais, feita por meio de agentes rurais, uma
experiência pioneira desenvolvida no município desde a década de
80, estava também desativada. O quadro profissional, além de
escasso, estava profundamente desmotivado, até mesmo pelo
atraso de salários, que chegara a cinco meses em janeiro de 1997.
Muitas das atividades de saúde coletiva e vigilância estavam
ativadas apenas minimamente ou mesmo não haviam sido
implantadas. A cobertura vacinal em gestantes e em crianças estava
muito aquém do razoável e o Conselho Municipal de Saúde fazia
meses que não era convocado. Na atenção especializada e
hospitalar, o acesso era restrito e constituía prática comum o
pagamento de taxas por parte dos usuários, em flagrante
desrespeito à legislação do SUS.
Em fevereiro de 1998, o município conseguiu sua habilitação à
Gestão Plena da Atenção Básica, e, posteriormente, com muitas
pressões e recursos junto ao gestor estadual do SUS, obteve, em
outubro de 1999, a gestão plena do sistema municipal, nos termos
da nob 96. A grande mudança possibilitada por esta última medida
foi a transferência direta de recursos financeiros do sus, antes
repassados a prestadores privados e públicos estaduais, à
secretaria municipal de saúde.
Um aspecto senão peculiar mas muito evidenciado em Vitória da
Conquista era a atuação da iniciativa privada em saúde. Os relatos
disponíveis apontavam-no como fraudador contumaz e afeito à
prática de cobranças ilegais, além de prosperar mesmo diante do
quadro de recessão econômica presente na cidade. Um exemplo
típico da atuação desregrada dos hospitais privados seriam as
“torções de testículo”, evento nosologicamente raro, mas que em
Vitória da Conquista assumia grandes proporções nas internações
pelo SUS, da mesma forma que as internações por kwashiokor e
outras condições inusitadas. Naturalmente, os embates contra a corporação médico-hospitalar – articulada politicamente com as
antigas administrações e com o governo do Estado – foram bastante
acentuados.
A IV Conferência Municipal de Saúde foi convocada pelo Governo
Participativo em abril de 1999 e teve 76 pré-conferências, contando
com cerca de quatro mil participantes, com grande repercussão
política no município e fora dele. O evento referendou o quadro de
prioridades e estratégias colocadas pela administração municipal no
Plano Municipal de Saúde, entre elas a criação do Programa de
Saúde da Família.
Alguns marcos materiais são bastante expressivos do processo
de desenvolvimento da saúde em Vitória da Conquista, ao longo do
primeiro mandato de Guilherme Menezes. Em 2001, por exemplo, a
SMS já tinha 1.500 funcionários contratados, contra os 190 do início
da gestão de Menezes; os médicos, que eram menos de uma
dezena ao final de 1996, somavam cerca de 160 nesse último
momento. O gasto em saúde, dentro do total das receitas
municipais, cresceu de pouco mais de 10% até 41%, havendo
também crescimento expressivo do gasto com pessoal em saúde e
com investimentos nesta área.
A implantação do PSF
É expressão corrente entre os interlocutores de Vitória da
Conquista que a verdadeira história do PSF na cidade começa um
tanto antes do momento atual, mais precisamente em 1985.
Naquele momento, o atual prefeito, Guilherme Menezes, fora chefe
da divisão médica da SMS, e neste posto criou e coordenou a
implementação de um projeto de Agentes Rurais de Saúde, uma
iniciativa pioneira não só na Bahia como em termos nacionais. Os
agentes rurais eram escolhidos dentro da própria comunidade onde
iam trabalhar e tinham como tarefa desenvolver atividades de
prevenção e promoção, identificação de problemas de saúde na
coletividade, além de realizarem o encaminhamento e o
acompanhamento de pacientes à sede do município, quando isso se
fazia necessário. Cada um deles tinha como base de operações um pequeno Posto de Saúde, onde realizavam também pequenos
procedimentos, como curativos e injeções. Os agentes rurais de
saúde chegaram a um total de 65 dois anos depois da criação do
programa.
A implantação do PACS e do PSF fazia parte dos planos da
administração Menezes desde o início, o que seria um fato natural,
diante da história dos Agentes Rurais de Saúde. Entretanto, esta
opção, pelo menos quanto ao PSF não ficou isenta de contradições
dentro da administração, havendo argumentações quanto a seu alto
custo diante de um diferencial de qualidade pouco expressivo,
segundo seus críticos. Assim, a consolidação da idéia se deu
mediante um árduo processo de negociação política interna, além
de prolongado. Nesse contexto é que se destaca Davi Capistrano,
figura médica e política de âmbito nacional, como grande
incentivador da idéia de implantar o PSF e transformá-lo em um
marco político da administração de Menezes.
O PSF representou em Vitória da Conquista um fato político de
grande repercussão social, atraindo manifestações de simpatia e
adesão, mas também de rejeição, por parte da oposição, que
desqualificava muitas vezes esta e outras ações do governo
municipal como “puro marketing”.
Durante todo o primeiro ano de governo as ações se
concentraram no processo de saneamento financeiro da prefeitura,
obtendo-se relativo sucesso não só na atualização da folha salarial,
como na quitação de débitos com fornecedores e renegociação de
dívidas previdenciárias e obrigações legais em geral.
O primeiro passo foi dado com a implantação do PACS, mas a
falta de impacto dessa medida isolada foi logo detectada e se iniciou
de vez, ao cabo de poucos meses, a etapa do PSF, que a partir de
setembro de 1998 começou a ser implantado na zona urbana, tendo
como etapa prévia um processo de territorialização e mapeamento
do município, sendo priorizadas as áreas mais pobres, de maneira
geral, periféricas. Cerca de seis equipes foram implantadas em 1999
e mais 15 em 2001, atingindo-se 30 até o final desse ano. Com a
implantação do programa, gerou-se simultaneamente a necessidade
de obras de infra-estrutura: ainda no primeiro ano foram construídas e equipadas quatro unidades de saúde da família, a um custo total
superior a R$ 350 mil.
A zona rural foi atendida na seqüência, com as naturais
dificuldades dadas pela dispersão da população em quase 300
povoados. Em um primeiro momento foram organizadas operações
itinerantes, mas a partir de 2000 passou a vigorar uma proposta de
cobertura de toda a zona rural com o PSF, com as equipes
concentrando-se nos distritos maiores e daí fazendo trabalho
itinerante nos demais povoados, sempre apoiadas pelos ACS. De
forma associada, iniciou-se a implantação de Casas de Parto nos
distritos-sede de Unidades de Saúde da Família.
Existiam, no final de 2001, 12 equipes de PSF atuando na zona
rural, além das 18 da zona urbana. Um aspecto diferencial era a
composição das equipes, em termos do número de ACS, sempre
superior aos quatro previstos no padrão nacional e chegando até a
onze nas equipes rurais.
Havia ainda uma questão severa a resolver, a da infra-estrutura
dos serviços municipais de saúde. Foi preciso, então, agir de
maneira urgente e acelerada, treinando e contratando pessoas e
construindo ou reformando uma verdadeira rede de serviços na
cidade, com seis Policlínicas; quatro Unidades Básicas de Saúde;
uma Central de Marcação de Consultas e Procedimentos; um
hospital com 72 leitos (retomado de um comodato com a Santa
Casa local), além de ambulatório de especialidades, serviço de
saúde no trabalho, auditoria médica, entre outros. Além disso, um
serviço de emergências foi aberto, em convênio com o setor
privado. Os contratos com o setor privado passaram a ser feitos
mediante licitações públicas, de acordo com a lei, e desta forma a
rede foi acrescida de cinco laboratórios, além de serviços de ultra-
sonografia, fisioterapia e oftalmologia.
Do ponto de vista dos instrumentos de gestão e dos processos de
trabalho que tiveram curso na experiência de Vitória da Conquista é
preciso destacar, em primeiro lugar, um pioneirismo, por exemplo,
no processo de licitações de prestadores privados; na criação da
Central de Marcação de Consultas e Procedimentos; na articulação
regional entre as SMS com vistas aos processos de referência e
contra-referência; no desenvolvimento de instrumentos visando o ressarcimento de planos de saúde privados ao SUS, além de alguns
instrumentos de articulação inter-setorial.
A regulação do sistema foi um aspecto do processo de gestão
que veio a merecer uma grande ênfase, com ações voltadas não só
para a melhoria da qualidade dos cuidados prestados, mas também
para os mecanismos intermediários de gestão e controle. Houve
claramente uma determinação de barrar as práticas pouco
convencionais do setor privado, amplamente documentadas,
gerando superfaturamento e distorções diversas. Além disso,
buscou-se estender a ação reguladora também para fora dos limites
municipais, de forma a racionalizar a forte demanda externa de
pacientes, decorrente da histórica influência regional de Vitória da
Conquista sobre uma vasta região da Bahia e mesmo de Minas
Gerais. Configurou-se, assim, o que os interlocutores locais
chamaram de um consórcio programático, formado inicialmente por
cerca de 40 municípios (depois chegando a mais de 60), os quais,
por meio de um processo de pactuação intermediado pela SES,
passaram a compartilhar cotas de internações e consultas
especializadas na cidade de Vitória da Conquista.
Alguns números apontados com muita ênfase e orgulho por parte
dos interlocutores locais foram: na atenção básica ampliação da
oferta da ordem de 8,6 vezes, entre 1996 a 2000; nas consultas
médicas básicas oferecidas pela rede pública municipal o
incremento foi de quase cinco vezes neste mesmo período; nos
procedimentos odontológicos básicos a elevação chegou próximo a
nove vezes; nos procedimentos de vigilância epidemiológica,
sanitária e atos não médicos o crescimento foi de cerca de dez
vezes.
Além disso, mediante parcimoniosa negociação com a SES, foi
possível incrementar a oferta de atenção de alta complexidade, de
forma a descentralizá-la. Como exemplo, de uma situação
caracterizada por um único serviço (hemodiálise) disponível em
1999, foi possível avançar para uma gama maior de oferta, com
hemodiálise, quimioterapia, hemoterapia e tomografia
computadorizada, já no ano seguinte.
Os processos de gestão em saúde referidos acima estariam, na
verdade, articulados a um conjunto mais amplo de possíveis práticas de bom governo, ou como se referiu um observador,
“capacidade de administrar em condições adversas” (LESSA, 2000).
A existência de práticas de gestão inovadoras e qualificadas foi
percebida também no âmbito das equipes de saúde, particularmente
nas do PSF. Com efeito, foi detectado o uso mais ou menos
generalizado de instrumentos típicos de planejamento estratégico
entre as equipes, tais como as listas de problemas, diagramas de
priorização, árvores de problemas, entre outros.
O desenvolvimento dos processos de referência e contra-
referência parece ter tido, em Vitória da Conquista, um caminho
mais produtivo do que a situação geral de outras experiências de
PSF – embora não tenha havido consenso absoluto entre os