Saúde da família: boas práticas e círculos virtuosos
Capítulo III – Cada caso, um caso
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
diversos interlocutores sobre a questão. A marcação de consultas
era feita mediante a disponibilidade de cotas, operadas pelas
próprias equipes, inclusive da zona rural. A racionalização do
processo, através da Central de Marcação de Consultas e
Procedimentos certamente contribuiu para que maior sucesso tenha
sido obtido nesta área. A central de vitória da conquista tem sido
considerada um serviço exemplar (CONSELHO NACIONAL DE
SECRETÁRIOS MUNICIPAIS DE - SAÚDE CONASEMS, 2001),
contando com equipe de vídeo-fonistas e instalações próprias
informatizadas, com 12 terminais. Sua programação em software foi
desenvolvida pelo próprio Centro de Processamento de Dados da
PMVC.
Os processos de gestão referentes a custos e procedimentos
financeiros merecem especial destaque, uma vez que
acompanhavam de perto as arrecadações e os gastos dos diversos
programas. Neste aspecto, era relatado que o incentivo financeiro
do Ministério da Saúde já não cobriria mais os custos do PSF de
forma razoável, não só em vista da “inflação médica” como também
porque o valor do PAB já era insuficiente quando de sua criação, em
1996. Com efeito, de pouco mais do que R$ 7 mil ao mês por equipe
recebidos do Ministério da Saúde, os estudos de custo apontavam
despesas entre R$ 18 mil e R$ 21 mil. Tal raciocínio acabou sendo
utilizado para demonstrar a inviabilidade da expansão do PSF no
momento.
Quanto aos processos de supervisão e coordenação das equipes
do PSF em Vitória da Conquista, o que se tinha era uma situação
até certo ponto tradicional, materializada por uma Coordenação de
Assistência, sob a qual estavam jurisdicionadas as diversas ações
individuais de saúde, de baixa até a alta complexidade, inclusive o
Hospital Municipal e o Setor de Emergências, incluindo também a
supervisão de algumas áreas técnicas da SMS, como por exemplo
saúde bucal, imunizações, mobilização social etc. Havia uma certa
distância entre o organograma oficial e a prática cotidiana, de forma
a se adotar características mais flexíveis, com tendência a organizar
as ações administrativas mediante a formação de colegiados.
Os sistemas de informação em saúde, entre os processos de
gestão desenvolvidos em Vitória da Conquista, sem dúvida
pareceram ter atingido um nível acentuado de desenvolvimento.
Através do SIAB, por exemplo, cerca de 230 mil pessoas do
município já haviam sido cadastradas, o que corresponderia a quase
90% da população. Além disso, foi dado grande destaque pelos
interlocutores ao fato de que o Centro de Processamento de Dados
do município não só tinha desenvolvido algumas ferramentas úteis
ao sistema de saúde, por exemplo, o software do Centro de
Marcação de Consultas e Procedimentos, e também havia
implantado um Sistema de Geo-Processamento, em interação
formal com o ISC/UFBA.
A política de recursos humanos praticada em Vitória da Conquista
tinha, como padrão de referência, a estrita obediência aos requisitos
legais trabalhistas. Além disso, no dia-a-dia da gestão de pessoal,
alguns aspectos se sobressaíam. Foi adotada, desde o início da
administração Menezes, uma “estratégia de expansão incremental
dos serviços, consolidada a cada passo”. Isso possibilitou a criação
de um significante atrativo para as pessoas, muitas vindas de fora
do município para trabalhar no PSF e em outros programas da
prefeitura. Assim, consideraram que houve uma verdadeira
mobilização em torno de um projeto político, mais do que a simples
demanda de emprego. Isto afetou tanto a composição da equipe
gestora como das equipes de linha de frente e, em ambas, um certo
empreendedorismo militante pôde ser observado.
Um aspecto de particular interesse foi o processo seletivo dos
médicos. Como já se viu, o número destes profissionais alocados na
SMS foi multiplicado vinte vezes, o que significou marcante
importação de mão-de-obra de outros centros. Aparentemente,
porém, parece ter havido outros fatores atrativos, possivelmente
dados pelas características qualitativas da política municipal de
recursos humanos, nos termos comentados acima.
O perfil do pessoal médico é digno de destaque: grande parte
tinha formação pós-graduada, pelo menos Lato sensu incluindo
residência médica específica em Saúde da Família; pareciam ter
feito da atividade pública, particularmente no PSF, sua opção
profissional; poucos eram recém-formados e, da mesma forma, o
número de aposentados era reduzido. Este pode ser considerado
como um outro aspecto diferencial da experiência de Vitória da
Conquista.
Outro aspecto peculiar era a forma de contratação, via CLT, dos
trabalhadores do PSF e do PACS, num total de 600 pessoas, por
uma entidade local, de natureza civil, a Associação de Apoio à
Saúde Conquistense (ASAS), conveniada com a prefeitura
municipal e criada ad hoc, a partir de entidades e pessoas de
diversos setores da comunidade. No momento da visita estava em
discussão algum aprimoramento do formato jurídico do contrato
entre a prefeitura e a ASAS.
A política de recursos humanos de Vitória da Conquista
demonstrou e confirmou uma aproximação com a Academia,
particularmente com o ISC/UFBA e a UESB, o que também pode
ser considerado uma peculiaridade local. Com o ISC, na verdade, a
cooperação era bastante antiga, remontando a 1985, com o
programa dos agentes rurais. O próprio secretário de saúde, Jorge
Solla, teve sua chegada à cidade vinculada a estes processo de
cooperação. Além disso, o ISC utilizava o sistema local de saúde
como campo de estágio para vários de seus cursos de graduação e
pós graduação.
Algumas modalidades de articulações externas e intersetoriais
foram detectadas, o que demonstra, certamente, uma disposição
cosmopolita do governo local, resultado de um padrão de práticas
partidárias de apoio entre administrações, típico do Partido dos Trabalhadores. A articulação com os municípios da região, formando
o consórcio programático para as referências especializadas em
saúde, antes mencionado, constituía outro bom exemplo de
articulação externa. Também na área da capacitação de pessoal há
o que registrar: Vitória da Conquista associou-se ao ISC e a
prefeituras de outras localidades da região (Guanambi, Barra do
Choça, Jequié e Itagi) para criar um núcleo regional do Pólo de
Capacitação em Saúde da Família.
A ênfase nos instrumentos e mecanismos de controle social,
como não poderia deixar de acontecer em uma administração com
as características partidárias e ideológicas de Vitória da Conquista,
é muito acentuada. A retomada das reuniões do Conselho Municipal
de Saúde e sua reestruturação, medidas inaugurais da
administração de menezes, bem como a realização da IV
Conferência, em 1999, foram consideradas dois marcos essenciais
da experiência local. Um dos resultados deste processo foi a criação
dos conselhos locais de saúde.
Complementando a política de controle social, notava-se uma
preocupação muito grande da administração com os instrumentos
de comunicação e informação, sejam internos ou externos, voltados
para o público. O material de divulgação que circulava na rede era
de qualidade, além de muito abundante, mostrando uma intervenção
profissional em sua elaboração. Do ponto de vista do conteúdo,
eram marcantes as mensagens em torno dos temas de cidadania,
direitos, controle popular, condições de vida, promoção de saúde e
outros correlatos.
Quanto aos processos de avaliação de desempenho do sistema
local, em primeiro lugar há que se destacar que já fora realizado no
momento da visita um esforço razoável neste sentido e que o tema
fazia parte, de fato, da pauta de preocupações do gestor municipal.
Assim o exame de documentos colocados à disposição do estudo
registrava diversos levantamentos e análises, convergindo para um
diagnóstico de bom desempenho do sistema local.
Ainda no campo da avaliação do sistema local, é digno de
menção um estudo (já citado anteriormente) desenvolvido por
Simone Teixeira (2001), pesquisadora da UESB, versando sobre a
apreciação feita pelos usuários a respeito dos serviços de saúde que lhes eram prestados. Os resultados eram francamente
favoráveis à política de saúde desenvolvida pela municipalidade, em
período mais recente.
Em estudo concluído em maio de 2002 e realizado por
pesquisadores da ENSP/FIOCRUZ, conduzido por Sarah Escorel e
patrocinado pelo Ministério da Saúde, foram destacadas algumas
características peculiares da experiência de Vitória da Conquista,
assim resumidas: trata-se de uma estratégia e não um mero
programa; constitui uma proposta de atenção integral à saúde;
possui ênfase em uma base territorial definida; realiza um balanço
adequado entre oferta programada e atenção à demanda; tem
concentração em atividades extra-muros; configura-se como um
autêntico processo de conversão do modelo assistencial à saúde
(FUNDAÇÃO INSTITUTO OSWALDO CRUZ, 2002).
Na visão dos interlocutores locais, alguns fatores facilitadores
teriam estado presentes no decorrer da experiência até então, não
só em relação à implantação do PSF, como no desenvolvimento do
programa de saúde como um todo. Em primeiro lugar, o que seria
uma combinação virtuosa de vontade política local, de apoiadores
externos, dentro de um substrato ideológico envolvendo a
administração como um todo, e a saúde. Assim, foi bastante
significativa a influência de determinados atores externos, com
especial destaque para Davi Capistrano e o para o Instituto de
Saúde Coletiva da UFBA. Não se pode dissociar, porém, dos fatores
de sucesso, o prestígio e o carisma pessoal dos dirigentes, com
destaque para as figuras do prefeito e do próprio secretário de
saúde.
Teria expressão, também, a opção por uma estratégia de
expansão incremental, consolidada a cada passo, com oferta de
boas condições de trabalho, com seleção, qualificação e incentivo
às equipes, cujo trabalho, em todas as ações de governo, seria
modulado por um pano de fundo ideológico compartilhado, um
projeto político que captou e envolveu atores dentro e fora da
administração.
Além desses, podem ser arrolados outros fatores facilitadores das
políticas de saúde em Vitória da Conquista. Exemplos: a marcante
disponibilidade de profissionais qualificados, como decorrência da proximidade com as instituições universitárias (UFBA e UESB); a
infra-estrutura técnica e material possibilitada pela situação especial
de Vitória da Conquista como pólo regional econômico, tecnológico
e cultural; o fato de o município ter assumido frontalmente a Gestão
Plena do Sistema Municipal (GPSM) enfrentando, de fato e de
direito, os desafios gerenciais impostos pela mesma; a política de
credibilidade desenvolvida pelo governo municipal, cujo exemplo
mais típico, embora não exclusivo, foi o bloqueio das fraudes do
setor privado; a decisão de desenvolver uma atenção básica efetiva
e resolutiva, como autêntica âncora do sistema local de saúde; a
capacidade de realizar alianças com municípios vizinhos, com a
sociedade organizada local, com o funcionalismo, com órgãos
externos diversos e, até mesmo, com o setor privado local.
Entre os fatores dificultadores, que aliás não podem ser
minimizados, podem ser citados: a questão financeira com
incentivos não reajustados com valor real acarretando que o
município arque com até 50% do custeio, fator agravado pela Lei de
Responsabilidade Fiscal; a questão dos recursos humanos,
particularmente dos médicos, sem dúvida atenuada quando
comparada a outras localidades, mas ainda considerada um nó
crítico, dadas as características do mercado de trabalho para esta
categoria profissional, situação agravada por uma certa insegurança
profissional diante de eventual mudança de governo; os
permanentes dilemas das referências especializadas; as
expectativas sociais centradas em alta tecnologia e hospitalismo,
seja entre os usuários ou entre os profissionais, como, por exemplo,
o fato de ainda se pedir muitos exames complementares na rede,
mesmo dentro do PSF; a vulnerabilidade diante de mudanças na
política local e estadual ainda é considerada um risco efetivo.
Síntese interpretativa
A experiência de implementação do Programa de Saúde, e do
PSF em particular, em Vitória da Conquista, possui características
bastante peculiares, que a diferenciam de outras encontradas pelo país, embora alguns pontos de aproximação sejam também
evidentes.
Chama a atenção, por exemplo, o desenvolvimento bem-sucedido
de práticas de negociação em um ambiente desfavorável. Os
embates com o gestor estadual de saúde e com o setor privado
local e a maneira como os conflitos foram solucionados e
contornados são bem ilustrativos nesse aspecto.
Sem dúvida, a implementação do PSF e dos demais programas
sociais e de saúde da administração de Guilherme Menezes esteve
imersa num vasto conjunto de práticas políticas e técnicas que
poderiam ser consideradas como de bom governo. São inúmeros os
pontos que convergem para dar validação a esta afirmativa e sua
análise será feita no capítulo seguinte, quando se tratar da
comparação entre as experiências.
Considera-se, além do mais, que a implementação do PSF em
Vitória da Conquista foi direcionada para uma certa radicalidade e
transformada em estratégia promotora de mudanças efetivas no
status quo sanitário, com decidida opção pela perspectiva
substitutiva em relação ao modelo tradicional de atenção à saúde
vigente.
Outro aspecto que chama a atenção é o da real construção de
uma liderança regional em saúde, dada não só pelas práticas de
regulação de serviços estabelecida como em outros aspectos, por
exemplo, na assessoria para a capacitação de equipes. Neste tópico
conta muito a situação do município, de certa forma privilegiada, de
se constituir como um pólo comercial, educacional e sanitário de
uma grande área de abrangência.
Deve ser mencionada ainda, no plano mais geral ora exposto, a
marcante preocupação com a avaliação e a auto-avaliação dos
processos de mudança implantados, bastante nítida localmente e
com indicadores expressivos já levantados.
ATORES
Guilherme Menezes e Jorge Solla podem ser considerados os
dois atores principais no enredo desenvolvido em Vitória da
Conquista. Ambos associavam, além de um alicerce ideológico nítido, erguido sobre o terreno de uma organização partidária com
ramificações nacionais, características tais como: carisma pessoal,
liderança, vontade política, e capacidade e senso de oportunidade
na tomada de decisões. Solla, que veio a se tornar posteriormente
secretário de assistência do Ministério da Saúde (o principal cargo
do ministério, depois do ministro) acrescentava ainda a este perfil
uma expertise sanitária fortemente assentada não só na formação
acadêmica, como na prática dos serviços de saúde. Ambos podem
ser considerados autênticos agentes de modernidade, ainda mais
num contexto tão marcado por práticas políticas arcaicas, de
clientelismo, paternalismo e descaso pela coisa pública.
Mas, em Vitória da Conquista, a análise do papel dos atores
sociais, sem dúvida extremamente influente no desenrolar da
complexa experiência política administrativa ali desenvolvida, não
pode deixar de levar em consideração a participação de agentes
externos. Nisto, provavelmente, a experiência em foco possui
características que a distinguem fortemente de muitas outras. Entre
os referidos agentes, dois merecem o devido destaque: a figura
ímpar de Davi Capistrano e o verdadeiro emblema institucional
representado pelo Instituto de Saúde Coletiva da UFBA. Não por
acaso, em ambos os casos prevalecem também os traços de uma
visão de mundo, em particular da saúde, marcada por idéias ditas
progressistas, tais como direito, responsabilidade pública, cidadania
etc.
Pode-se dizer, sem dúvida, que o desenvolvimento do projeto de
saúde teve um forte pano de fundo ideológico e que no palco das
ações moveramse atores sociais com características peculiares,
dado o fato de serem partisans típicos e de agirem conforme um
fundamento ideológico nítido, ocasionado pelo programa do partido
dos trabalhadores.
Quanto aos adversários da proposta, embora não fossem poucos
e nem desprezíveis, pode-se dizer que pelo menos uma parte deles,
no caso a oposição política local e o conjunto dos prestadores
privados locais, ou foram “pacificados” por processos de negociação
levados a cabo pelos dirigentes ou então guardaram suas armas
para atuar em momento mais oportuno, o que poderá ser
confirmado – ou não – apenas pela passagem do tempo.
CONTEXTOS
Os fatos essenciais do contexto político sobre o qual se
estabeleceu a experiência de Vitória da Conquista são aqueles
trazidos pela tradição política do Nordeste, senão de boa parte da
nação, de fundo clientelista e paternalista, encarnada
contemporaneamente na Bahia pelo carlismo, mas sem dúvida de
percurso histórico e distribuição geográfica muito mais abrangente.
É dentro dessa estrutura, rígida e pouco propensa a inovações e
muito menos a contestações à sua ordem estabelecida, que se
instala um governo municipal de oposição e, além do mais, disposto
a inovar e romper com tradições até seculares. É também um
governo que, ao lado de procurar firmar-se em condições tão difíceis
e adversas, em todo o tempo mostra-se também disposto a praticar
rupturas, algumas das quais bem-sucedidas.
Igualmente, no cenário das não poucas adversidades com que
teve de se haver a administração de Guilherme Menezes, deve ser
destacada a influência das problemáticas condições sociais e
econômicas vigentes na realidade local. Aqui se manifesta a
peculiar situação econômica da cidade, dada por uma monocultura
em declínio, a dispersão da população rural, estabelecida em áreas
de caatinga, além do relativo caos administrativo e financeiro
herdado pelo governo eleito em 1996. Os resultados alcançados
pelas ações da municipalidade devem ser cotejados com tais
cenários desfavoráveis e o sucesso que parece ter sido alcançado
em muitas áreas ficaria ainda mais valorizado diante do universo de
dificuldades existentes.
Mesmo com as dificuldades assinaladas, sem dúvida é digna de
destaque a situação de visibilidade externa que a experiência de
Vitória da Conquista foi capaz de alcançar, seja regional, estadual
ou mesmo nacional. Não há dúvida que a condição de histórico pólo
regional, em termos culturais e comerciais, por exemplo, já fazia da
cidade um centro de referência abrangente. Se houve vantagens
nesta condição, entretanto, pode ter havido também algumas
desvantagens, como a atração de migrantes e, particularmente no
caso da saúde, com a sobre-demanda expressiva dos serviços
prestados no município.
Há que se enfatizar uma certa disposição cosmopolita praticada
pela administração, dada não só por características pessoais do
prefeito e de seus assessores, mas também pela verdadeira rede de
contatos políticos e técnicos que o PT oferece às administrações
que ocupa. É claro que os empreendimentos locais, na medida que
foram bem-sucedidos, como ocorreu em várias situações, também
serviram para despertar a atenção externa para o que acontecia
localmente. Mas, inquestionavelmente, Vitória da Conquista faz
parte de um conjunto seleto de cidades brasileiras que passaram a
ter suas realizações divulgadas e acompanhadas amplamente no
país. Os registros locais dão conta de dezenas de visitas de
dirigentes e técnicos de outros municípios, de outros órgãos do
sistema de saúde e, até mesmo de missões estrangeiras e de
técnicos de organismos internacionais, que lá estiveram para
conferir e aprender com as experiências ali desenvolvidas.
Na saúde, o contexto histórico é bem nítido. O desenvolvimento
precoce, ainda na década de 80, de um trabalho de ação
comunitária rural (agentes rurais de saúde) é mais que uma história
particular. Representa, sobretudo, uma antecipação do que seria o
projeto muito mais abrangente da administração menezes,
principalmente considerando o fato de que o mesmo era, naquele
momento, um simples chefe de divisão de uma pequena e pouco
relevante Secretaria Municipal de Saúde. O tema da saúde, por
certo, já fazia parte de uma pauta política local, tanto que permeou
com intensidade as duas campanhas eleitorais mais recentes.
Talvez, por isso, a saúde obteve algumas prerrogativas, como a de
ter sido priorizada entre as ações de governo, mesmo diante de um
quadro adverso, como se viu acima.
PROCESSOS
Administração em condições adversas seria um bom slogan para
caracterizar os processos de gestão empreendidos em Vitória da
Conquista e que culminaram com as experiências de saúde ora
analisadas. Nada mais desfavorável, aliás, do que o ponto de
partida zero com que tiveram de se defrontar os administradores,
com a precariedade social, econômica e institucional vigente na realidade local no início do governo. Seus problemas, diga-se de
passagem, foram agravados – e muito – pelo permanente
enfrentamento do forte dilema entre a necessária contenção de
despesas para equilibrar um orçamento municipal em frangalhos e o
clamor pela ampliação de serviços e atendimento aos
compromissos de campanha.
Com todas as dificuldades, a administração se iniciou e
prosseguiu – e, na verdade, foi até reeleita – dentro de tal clima de
conflitos e que, freqüentemente, caminhou para situações de
ruptura. Ou melhor dizendo, rupturas alternadas com processos de
negociação, a partir de embates fortes com várias forças sociais,
cujo resultado, aparentemente, não chegou a ser um jogo de soma
zero. Podem ser enumeradas diversas dessas rupturas, no geral da
administração, por exemplo, quando as renúncias tributárias foram
abolidas, e também, no campo particular da saúde, quando a greve
dos hospitais foi confrontada judicialmente e se estabeleceu o
sistema de controle e auditoria que pôs fim a uma longa era de
distorções e pouco respeito ao bem público. A análise ex post facto
do governo em Vitória da Conquista mostra uma forte tendência do
mesmo em “mexer em vespeiros”, ou, pelo menos, de não recuar
diante de problemas crônicos, buscando alcançar, na seqüência,
soluções negociadas.
Aliás, mesmo que possa parecer contraditório, tais soluções
negociadas também fariam parte do modo de governar em Vitória
da Conquista, o que poderia surpreender alguns críticos, talvez
preconceituosos com a prática política do partido ocupante do
governo local. Assim aconteceu, por exemplo, em relação à Gestão
Plena, aos tributos municipais e à greve do hospitais, entre outras
situações. No caso da greve, embora o caso tivesse caminhado
para um confronto perante a Justiça, as soluções que advieram não
foram de todo avessas aos interesses privados, como por exemplo,
na celebração do acordo com um prestador local para
funcionamento do setor de emergências e dos contratos realizados
com especialistas, mas também não deixaram à deriva o interesse
público.
Caos, conflitos, riscos, rupturas e necessidade de negociações.
Mesmo diante de tal seqüência de eventos, que poderia ter sido desastrosa e aniquiladora em relação a quaisquer boas intenções
no governar, pode-se dizer que, em Vitória da Conquista, buscou-se
com intensidade a governabilidade plena. E os processos adotados,
surpreendentemente, deixaram de lado soluções mais cômodas ou
tradicionais para ir ao encontro de soluções modernizadoras, ao
pioneirismo e criatividade das ações encetadas, à busca de
eficiência, à assunção da responsabilização pública, à saúde
financeira etc. Um observador menos atento ou pouco avisado
poderia até mesmo considerar o governo local como preso a
figurinos de estilo neoliberal, dado o grau de ajuste de contas
públicas obtido. Nada mais longe da verdade, entretanto. As tônicas
de realizar uma obra socialmente justa, sem perder a
governabilidade do sistema, parecem ter prevalecido todo o tempo,
não se rendendo aos tradicionais raciocínios de “custo-benefício”,
em que o numerador da fórmula é sobreposto – por manipulações
ideológicas – ao denominador. Os fatos que permitiram esta
inferência estão em toda parte, não só no discurso dos
interlocutores, como nos bancos de dados e mesmo nas análises de
organismos externos, como o BNDES e as fundações privadas, que
prestaram apoio aos processos de gestão em Vitória da Conquista.
Um bom exemplo de busca de governabilidade, mesmo correndo
riscos, é a habilitação à Gestão Plena do Sistema Municipal de
Saúde, nos termos da NOB 96. Como já foi comentado, travou-se
uma luta renhida, diretamente com a Secretaria de Estado da Saúde
da Bahia e, indiretamente, com os prestadores privados. Os
primeiros tinham fortes interesses políticos a defender; os segundos,
aliados tradicionais dos primeiros, por certo que não veriam com
bons olhos o ganho de autonomia do município em uma área tão
estratégica como o controle e a auditoria do setor privado. O fato é
que a luta foi travada e ganha, e a GPSM foi assumida de fato e de
direito, não como um instrumento burocrático, mas como uma
alavanca de mudanças. Estabeleceu-se um processo regulador forte
que mudou o perfil da atenção à saúde em Vitória da Conquista, não
só com a construção de um sistema ancorado na atenção básica,
como também na ampliação da oferta em média e alta
complexidade. As vantagens se fizeram sentir localmente e em toda
a região. Ao setor privado, restou a possibilidade de uma inusitada greve, depois resolvida mediante mecanismos de negociação, mas
com um resultado diferencial positivo: o interesse geral passou a ser
contemplado.
Outro indicativo favorável de boa administração foi a ênfase e a
prioridade conferidas aos processos de avaliação de desempenho
do sistema. Embora seja um caminho ainda por ser explorado e
aprofundado, os primeiros resultados, inclusive de estudos
conduzidos por observadores externos, pareceram bastante
concretos, em termos de impacto e qualidade das ações prestadas.
Aqui se insere também outra marca distintiva dos processos de
gestão em Vitória da Conquista: a marcante articulação externa, já
comentada anteriormente, e que se transformou em moeda política,
sem dúvida, na medida que conferia legitimidade e possibilidade de
neutralização das forças adversárias internas e externas. Mas
houve, também, um dividendo material que não pode ser
desprezado, quando este processo de se abrir para o mundo
conferiu à municipalidade não apenas o acesso direto a
financiamentos de projetos, como também abriu as portas para
articulações múltiplas, traduzidas por cooperação técnica e
carreamento de novos recursos. Da mesma forma, a busca de
soluções negociadas, seja com a iniciativa privada, seja com o
governo do estado ou com outros adversários internos, mostrou
uma disposição e uma capacidade de articulação ímpar, “apesar de
serem PT”, como um interlocutor declinou, carregando nas tintas da
sinceridade de sua visão de mundo.
A administração em condições adversas torna-se, assim,
sinônimo de um bom governo no sertão, parafraseando uma
expressão de Tendler (1998), autora à qual se retornará, mais
adiante, para buscar um contraponto entre diversas das
experiências aqui analisadas. E este bom governo não parece
localizado, mas, sim, difuso em toda a administração municipal, na
qual as boas práticas administrativas aparecem como regra, não
como exceção. A composição do secretariado municipal, as
coordenações colegiadas, a naturalização dos instrumentos de
planejamento estratégico entre as equipes, constituem exemplos
concretos de boas práticas administrativas difusas, nas quais ocorreria um encontro – certamente feliz – entre práxis
administrativa e fundamento ideológico.
Este feliz encontro da ideologia com a práxis não seria o substrato
do aspecto já destacado antes, ou seja, daquela outra convergência,
entre o empreendedorismo e a militância política? Com efeito, em
Vitória da Conquista as pessoas pareciam se orgulhar do fato de
que tiveram que “passar pela rede para chegar à coordenação”, o
que, sem dúvida, revela uma coerência entre discurso e prática.
CONTEÚDOS
Conteúdo, seja de natureza técnica ou ideológica, é o que não
falta à experiência administrativa e de saúde desenvolvida em
Vitória da Conquista.
Com efeito, seja no discurso dos dirigentes e dos técnicos, nos
documento de divulgação publicitária da prefeitura ou mesmo nos
relatórios formais e trabalhos apresentados em fóruns científicos e
políticos externos, é forte o apelo aos temas de cidadania, direitos,
controle popular, condições de vida, promoção de saúde etc.
Como fundamento do discurso, uma gama de influências, que
passam pelos lemas do estado de bem-estar social, pela Reforma
Sanitária, pelos dispositivos constitucionais, pelo programa
partidário do PT, pelo humanismo cristão, entre outros, configurando
o que poderia ser chamado de um ideário progressista e de
esquerda no trato das questões sociais.
Trata-se de um discurso ambicioso, sem dúvida. O Plano
Municipal de Saúde oferece inúmeras passagens que confirmam
como ele é amplamente explícito e demonstrativo de que, em Vitória
da Conquista, a ideologia é tratada abertamente, sem nenhum
pudor de ser mal-compreendida ou, por outra, como afirmação de
uma disposição de governar amplamente ancorada na práxis.
Alguns exemplos não exaustivos, pinçados do referido documento:
(a) saúde como um conceito ampliado, relacionado às condições de
vida e de como a sociedade organiza sua vida material e cultural e
também como resultado de políticas sociais e econômicas; (b)
descentralização, não só das ações de saúde mas das sociais como
um todo, criando novos modelos organizacionais e gerenciais com efetiva participação popular; (c) tecnologias de assistência: com
diferenciação, eficácia, baixo custo, tendo como exemplos ação
interdisciplinar, extra-muros, internações domiciliares, etc.; (d)
promoção de saúde: de forma a conferir maior dignidade, qualidade
de vida, humanização, efetividade dos serviços, garantia de
condições de trabalho e remuneração adequada aos profissionais
de saúde; (e) informação e comunicação como instrumentos de
democratização.
As lições de Vitória da Conquista
Assim, um série de “lições” poderiam ser depreendidas da análise
dos acontecimentos em Vitória da Conquista, e que dariam resposta
a uma pretensa questão: por que aqui deu certo? Algumas de suas
características gerais podem ser apontadas:
a. O grande investimento em qualificação dos recursos humanos e
da gestão como um todo;
b. A oferta de condições de trabalho, processos e insumos
adequados para o processo de assistência à saúde;
c. A disponibilidade de uma retaguarda ao mesmo tempo
ideológica, técnica e material para o desenvolvimento das
atividades;
d. A gradualidade dos processos de implantação, sem perder de
vista a necessidade de aceleração em algumas circunstâncias;
e. A ênfase em controle, avaliação e regulação do sistema;
f. O desenvolvimento de alianças bem sucedidas de apoio interno
e externo ao projeto.
Contudo, apesar do avanço obtido, a ampliação do PSF tinha
perspectivas nulas, apontadas por seus gestores – durante a
realização do estudo, em 2002 – basicamente devido aos aspectos
ligados ao financiamento.
Centro de Saúde Escola de Murialdo e
Grupo Hospitalar Conceição:
pioneirismo, resitência e articulação
política
Duas experiências desenvolvidas em Porto Alegre, uma em
meados dos anos 70 e a outra no início dos 80, respectivamente
aquelas do Centro de Saúde Escola de Murialdo (CSEM) e do
Grupo Hospitalar Conceição (GHC), são hoje reconhecidas pelo seu
caráter pioneiro entre as propostas de atenção à saúde da família
no Brasil, embora nem sempre identificadas por tal rótulo. Sem
dúvida, CSEM e GHC vieram a influenciar o desenvolvimento de
outras experiências no país e, no caso específico do GHC, o próprio
Programa de Saúde da Família.
Mas, o que haveria de comum entre os dois processos?
Em primeiro lugar, surgem na mesma ocasião, entre os anos de
1975 e 1980 e até certo ponto, a partir da influência e da liderança
de um mesmo grupo de pessoas. Havia também como pano de
fundo preocupações de natureza pedagógica com a formação
médica, a partir do que era então uma idéia nova no campo da
saúde: a formação pós-graduada em uma residência médica,
particularmente dentro de um campo de conhecimento, já no
panorama institucional da época, considerado descuidado, a
Medicina Geral.
Os dois projetos surgem como alternativas à formação médica,
não propriamente como modelos assistenciais ou mesmo com a
preocupação de difundir idéias afins a esta última categoria. Em
certo sentido, se afirmaram – embora num regime de fortes
alternâncias de visibilidade e estruturação interna – como
movimentos contra-culturais, paralelos ao sistema de saúde oficial e
formal, sem buscar, de modo geral, o caráter substitutivo aos
modelos vigentes de atenção à saúde.
Tal alternância na visibilidade e na organização interna dos
programas acabou por delinear o que seria uma característica comum das duas experiências, qual seja um movimento constante
de sístoles e diástoles, tendo como pano de fundo contextos
institucionais internos e externos, ora favoráveis, ora desfavoráveis
ao desenvolvimento dessas experiências.
Pode-se dizer que as experiências desenvolvidas no GHC e no
CSEM constituíram-se em autênticas situações pioneiras, e que, em
muitos momentos, pagou-se um avantajado preço pela ousadia, ao
mesmo tempo que alguns dividendos favoráveis foram também
palpáveis, na medida da visibilidade nacional das mesmas,
principalmente do GHC, ao ponto de influenciar a própria formulação
do PSF em sua versão oficial.
Ao longo destas linhas desenvolver-se-á a idéia de que GHC e
CSEM têm deixado marcas importantes no panorama
contemporâneo da saúde nacional e que uma das características
marcantes dessas experiências foi a de praticar uma dinâmica de
poder e resistência, às vezes de forma combinada, às vezes
destacando mais um efeito do que o outro.
Contexto político
No princípio era um grupo de médicos, ligados à carreira docente
ou às atividades de pesquisa na Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), com preocupações marcantes com o
ensino médico, todos com formação de elite, realizada mormente
em universidades norte-americanas e com liderança, poder e
influência em determinadas instâncias do sistema de saúde local de
Porto Alegre e também nas instituições universitárias. Nenhum
deles, contudo, exercia cargos no sistema de saúde, no sentido de
que sua inserção se fazia dentro de um escalão mais periférico no
sistema, seja como docentes ou como simples médicos atendentes
na rede pública. É este o perfil básico dos atores, cujo prestígio e
carisma terão enorme impacto no desenvolvimento dos projetos que
serão construídos no Sul do país.
Alguns nomes desse grupo inicial são os de Carlos Grossman e
Ellis D´Arrigo Busnello, ainda envolvidos com as atividades atuais dos programas, além de Isaac Levin e Sérgio Ruschell, também
médicos com formação semelhante aos dois primeiros.
O contexto político era o de um estado e de um município
fortemente vinculados a um panorama político situacionista em
relação ao governo federal, tendo seus mandatários eleitos
indiretamente, por simples indicação do poder central, como
determinava o Ato Institucional nº 5. Aliás, na ocasião, o Poder
Central vinha sendo exercido por presidentes de ascendência
gaúcha por três mandatos sucessivos, entre 1968 e 1979, com
Costa e Silva, Médici e Geisel, respectivamente.
Na saúde, os dirigentes naturalmente detinham um perfil afinado
com o regime e eram basicamente constituídos por aliados políticos
ou então por técnicos de carreira, de modo geral pouco propensos à
aceitação de inovações ou quaisquer formas de rupturas, que viriam
a se tornar comuns mais tarde, em matéria de organização de
serviços, de formação profissional ou mesmo de ampliação das
discussão sobre temas como conceito de saúde, direito à saúde,
descentralização, responsabilidade pública, etc. No panorama
nacional vigorava a dicotomia entre as ações curativas, hospitalares
e não universalistas desenvolvidas pelo inps-inamps e as ações
preventivas e de baixa complexidade deixadas por conta do sistema
público tradicional, capitaneado pelas secretarias de saúde do
estado e do município, esvaziadas e pouco poderosas.
Quando surgem as idéias que convergiram para a criação das
duas experiências em foco, o que seria mais natural, como de fato
aconteceu, foi que seu caráter não buscou um vínculo direto ou
mesmo adesão aos princípios que norteavam o sistema público de
então. Daí o caráter paralelo assumido pelas mesmas. Em
ambientes tão pouco favoráveis como o que se via na ocasião,
restava espaço apenas, por um lado, para praticar a resistência
possível ao status quo; por outro, o desenvolvimento de efeito
demonstrativo, o que aliás foi um denominador comum de muitas
das experiências consideradas inovadoras na época.
CSEM e GHC foram, sem dúvida, projetos, que se
desenvolveram, pelo menos em seus primórdios, em ambientes
políticos desfavoráveis. Com isso tiveram que buscar apoios dentro
e fora das estruturas imediatas que os abrigavam numa estratégia de fazer alianças ou perecer. Sua sobrevivência, por certo,
dependeu dessa capacidade de articulação. Tratava-se de algo
mais nítido no caso do GHC, mas em ambas parece ter havido uma
intencionalidade de explorar o jogo das contradições existente na
estrutura de poder, tanto da SES-RS como na empresa hospitalar,
para buscar apoio justamente Em que este pareceria impossível ou
impraticável. Assim, muitas das lutas internas e externas foram
vencidas com a realização de alianças e parcerias com o poder, seja
imediatamente local, seja no plano estadual ou federal. Tal opção
serviu como antídoto eficaz contra a extinção ou o esvaziamento,
que certamente seriam o destino final dos projetos, como de fato
aconteceu em outras partes do país.
Murialdo: resistência e contracultura sanitária
O programa desenvolvido em São José do Murialdo, e que
evoluiu para o atual Centro de Saúde Escola (CSEM), tem, como já
se viu, origens comuns com o programa do GHC. Seus vínculos
institucionais, entretanto, são bem diferentes, na medida em que a
unidade esteve sempre ligada ao serviço público autárquico típico,
ou seja, à SES-RS.
A Paróquia de São José do Murialdo, situada em um bairro de
classe média baixa, (originalmente) em Porto Alegre, mantinha,
desde o início do século XX, uma obra social fundada pelo seu
pároco italiano e subvencionada com recursos caritativos, voltada
para a atenção à criança e para educação. No final da década de
50, a então denominada Associação de Proteção à Infância, ligada à
Igreja Católica, formalizava uma parceria com a SES-RS, então
detentora de toda a rede ambulatorial de saúde da capital,
constituindo assim o Centro Médico Social (CMS), que viria a
abrigar a experiência em foco. Em 1959, a UFRGS se aproximava
da entidade e formalizava também um convênio com a mesma,
visando transformar o Centro em campo de estágio para seus
alunos. Nos anos seguintes aprofundam-se as ligações entre a
Universidade e a Unidade de Murialdo, surgindo então novos
protagonistas que terão enorme influência no desenvolvimento dos futuros programas de formação profissional. Entre eles sobressai-se
a figura emblemática de Elis Busnello, um médico com formação em
psiquiatria e docente da UFRGS, que havia feito mestrado em
Saúde Pública nos EUA.
Unia o grupo também o projeto de desenvolver formação pós-
graduada em serviços de saúde, sob o molde de uma residência
médica, uma modalidade de ensino pouco desenvolvida no país
naquela ocasião, particularmente no campo específico da Medicina
Geral ou da Medicina Interna. Como pano de fundo, a discussão
internacional sobre a formação médica especializada versus a
formação generalista, com grande repercussão também no Brasil,
quando apareceram no horizonte os termos Medicina de Família e
Medicina Geral Comunitária (PAIM, 1986).
A opção do Centro de Saúde Escola de Murialdo (CSEM),
denominação que recebeu no início das atividades do programa, em
1974, foi para a formação multiprofissional. Dois anos depois
empregou-se a expressão “residência” para a formação
desenvolvida na Unidade, aspecto que provocou uma certa reação
na época, já que a mesma era considerada privativa da formação
médica. Não poucas resistências advieram desse fato,
particularmente por parte da cúpula técnica da SES-RS, pouco
afeita a aceitar inovações de tal ordem e ideologicamente
comprometida com o modelo assistencial vigente. A idéia da
formação multiprofissional, totalmente inédita para a época, foi
também transportada para o GHC, mas lá não teve condições de
vingar, devido a pressões corporativas não superadas ou mesmo
por acomodação e concessão estratégica das lideranças do projeto.
Nos embates com a cúpula técnica da SES é destacado o apoio
recebido, da mesma forma que ocorreu em relação ao GHC, de Jair
Soares, secretário estadual de saúde na época, e que demonstrou
não só acreditar como estar disposto a investir politicamente na
proposta. Este foi um ator considerado fundamental para a
consolidação de ambas as experiências analisadas neste momento.
Na experiência de Murialdo é bastante nítida a alternância de
momentos mais ou menos favoráveis ao desenrolar das atividades.
No início, houve a já mencionada oposição da cúpula da SES,
contornada por uma articulação política “por cima”, no caso com a autoridade maior, o secretário de saúde do estado. Outra ruptura
ocorreu quando a ênfase nos processos de trabalho, por exemplo,
na afirmação da multi-profissionalidade e do trabalho em equipe
teve de ser confrontada com a diretriz básica de apenas “levar
saúde às pessoas”, da maneira tradicional. Nesse embate acabou
por acontecer a saída da Paróquia de Murialdo, por esta adotar uma
postura mais assistencialista, não absorvida pelos condutores do
projeto. Da mesma forma, visões antagônicas a respeito da prática
de generalistas versus a de especialistas estiveram presentes,
levando a conflitos que não raramente resultaram no afastamento
de pessoas e perdas de apoios, embora tais eventos possam ter
aberto também caminhos para novas alianças. Como parte do
processo de sístoles e diástoles, a residência de Murialdo chegou a
ficar desativada durante alguns anos, na década de 80.
Um aspecto especial do CSEM é que ele possui forte articulação
com o sistema local de saúde da região do bairro Partenon e suas
adjacências em Porto Alegre. Melhor dizendo, ele representa
diretamente este sistema dada a organização regionalizada,
hierarquizada, com base territorial e vínculo definido entre suas
equipes e a população, configurando um autêntico distrito sanitário.
Sua unidade básica é o posto avançado, em número de sete no
território de abrangência, com cerca de 50 mil pessoas adscritas.
Das unidades disponíveis, seis fazem parte da rede da SES-RS e
uma é resultado de parceria com uma organização privada de
saúde, o Hospital Moinhos de Vento, que mantém tal unidade,
porém sem representar referência formal para o sistema local.
No CSEM é bastante expressiva a articulação com a comunidade
local, o que acontece, aliás, desde os tempos em que o projeto tinha
a participação da Igreja Católica. É generalizada a constituição dos
conselhos locais de saúde, aspecto coerente com o estilo de
governar do Partido dos Trabalhadores, no poder na cidade de
Porto Alegre durante três mandatos e também no estado, por um
mandato (até o momento da entrevista).
O CSEM desenvolve atividades de assistência, ensino e
pesquisa. Do ponto de vista da assistência, são oferecidas
atividades de atendimento clínico em especialidades básicas,
acolhimento, odontologia, visitas domiciliares, educação em saúde e programas para grupos de risco, imunizações, visita domiciliar, além
de outras, componentes do menu típico da atenção básica.
Além da UFRGS, também a ULBRA (Universidade Luterana do
Brasil) – uma instituição privada de ensino – mantinha acordo formal
com o CSEM para estágios de alunos de graduação e pós-
graduação.
Em resumo, os aspectos distintivos da experiência de Murialdo
são: (a) a ênfase no trabalho de campo; (b) a multi-profissionalidade
das práticas e da formação de recursos humanos; (c) o caráter de
escola de que está imbuída a rede de serviços locais, que a
transforma em centro de formação profissional expressivo, com
práticas de ensino multiprofissional nos níveis de graduação e pós-
graduação.
GHC: a força da articulação política
O trabalho de entrevista e levantamento de informações no GHC
foi muito facilitado, não apenas pela presença de Carlos Grossman,
médico participante do grupo fundador, ainda em atividade, além de
outros profissionais vinculados ao projeto durante muitos anos,
como também por um bem cuidado estado de organização e
preservação da memória local, com abundante documentação.
O GHC tem um estatuto único no Brasil, qual seja o de empresa
pública vinculada ao Ministério da Saúde, porém com autonomia de
gestão, o que se reflete na sua política de recursos humanos, por
exemplo. Tem, aliás, tradição autonômica e empresarial desde os
anos 50, quando foi fundado como uma propriedade particular da
família Boeira, que acabou sendo obrigada a entregar o conjunto ao
INSS, por força de dívidas previdenciárias, depois sendo transferido
ao Ministério da Saúde. O GHC compreende quatro hospitais, com
2.700 leitos, sendo de longe o principal prestador de serviços para o
SUS em todo o Rio Grande do Sul, abrangendo nada menos do que
40% das internações pelo SUS na capital.
A vinda do grupo liderado por Grossman ocorreu em meados da
década de 70, mas só em 1980 desenvolveu-se a proposta inicial de
incrementar nos hospitais do grupo a formação em Medicina Geral (ou Medicina Interna), dentro dos moldes praticados nos Estados
Unidos, onde as lideranças do projeto haviam cumprido programas
de residência médica. Tinha, como o restante do grupo fundador,
forte interesse em ensino, particularmente em formação pós-
graduada sob a forma de residência médica.
Assim, em 1980, abriu-se a residência em Medicina Geral no
GHC. A partir de 1981, acrescenta-se o componente comunitário,
por demanda dos próprios residentes da época, que desejavam ter
práticas voltadas também ao ambiente social. Em 1982, foi criada
uma unidade específica para o atendimento da clientela da área
coberta pelo programa de residência, no Hospital Nossa Senhora da
Conceição, localizado em uma área onde a população apresentava
menor poder aquisitivo. Nessa mesma ocasião, já fora possível
contar com algumas unidades da SES-RS situadas na periferia de
Porto Alegre (Zona Norte), bem como de municípios metropolitanos,
então utilizados como campos de prática da MGC.
Em 1984, inicia-se um período de consolidação da MGC, mas, ao
mesmo tempo, de lutas internas que buscaram inviabilizar ou
esvaziar a proposta, particularmente por razões corporativas. Um
dos estopins da crise interna foi dado pelas primeiras contratações
de médicos para o programa, em relação aos quais houve manifesta
recusa de serem recebidos como “médicos do hospital”, então
considerada uma categoria à parte. Nesse momento, como parte
das negociações para aceitação dos profissionais adventícios,
estabeleceu-se que os médicos do programa de MGC ganhariam
apenas salário, enquanto o pagamento por “produtividade”,
naturalmente mais vultoso, destinaria-se aos demais, os médicos do
hospital. Posteriormente, contudo, como parte de um processo
político contínuo e articulado dentro e fora do GHC, houve
mudanças substanciais nesse quadro, até se chegar a uma
diferenciação positiva dos médicos gerais comunitários.
Entre os atores envolvidos com a experiência do GHC, os
interlocutores apontam diversos apoiadores externos¸ de modo geral
investidos de poder político e que em momentos sucessivos
facilitaram ou mesmo concederam ao projeto condições de
sobrevivência, nas vicissitudes internas ou externas a que o mesmo
esteve submetido. Um desses atores, o mais destacado, foi Jair Soares, político gaúcho, formado em Odontologia, que foi secretário
de saúde do estado e ministro da Previdência Social, além de
governador do Rio Grande do Sul nas décadas de 70 e 80. Soares
era uma pessoa de confiança do Regime Militar, que ao ser
demandado em relação às idas e vindas do projeto de MGC no
GHC – o que ocorreu não em poucas ocasiões – mostrou possuir e
exercitar uma “visão de estadista”, segundo os interlocutores.
Os contextos políticos que tiveram influência sobre o
desenvolvimento da experiência mostram a marca já mencionada de
sístoles e diástoles sucessivas, como referido. No início do
percurso, quando o grupo precursor se concentrava em Murialdo,
enfrentou-se a oposição de uma cúpula técnica da carreira da SES-
RS, que depositava pouca crença em inovações como a que se
propunha, talvez associada a outras razões corporativas ou até
pessoais. Depois foi a oposição corporativa interna do Hospital
Nossa Senhora da Conceição. Alguns anos adiante, cerca de 1984,
foi a própria proposta de uma residência em MGC que se viu
ameaçada pelo recuo do financiamento federal, seja do MEC ou do
INAMPS. Em todos esses casos a saída foi pela via da articulação e
da negociação política, com a participação de atores poderosos, de
um lado a medicina organizada nas instituições e entidades de
classe; de outro, personalidade da vida política gaúcha.
Contemporaneamente, dentro do quadro de embates que
marcaram o desenvolvimento do programa de MGC, cabe uma
breve menção às relações mantidas com as três administrações
municipais do Partido dos Trabalhadores em Porto Alegre. O início
da década de 90 representou um momento de tensão, em que havia
críticas ao caráter “elitista” do programa e, por vezes, ameaças de
fechamento, segundo depoimentos. Existem relatos de que, também
do lado do GHC, não houve esforços maiores para se integrar ao
sistema local. Mas o fato é que em anos recentes estabeleceu-se
um processo de gradual distensão entre a administração municipal e
o GHC, dentro de um processo que continua “cauteloso”, de parte a
parte, segundo um interlocutor credenciado.
A nova realidade vivenciada com a aproximação do programa
com as SMS facilitou a decisão política de ampliar o escopo da
cooperação do GHC com o SUS, não só na área de assistência como também em assessoria e capacitação. A meta atual é de
transformar o GHC em Centro de Capacitação, particularmente na
área do PSF.
Do ponto de vista dos conteúdos desenvolvidos no programa de
MGC, a questão da multi-profissionalidade, tal como praticada no
CSEM, foi uma idéia vigente no início da experiência e que depois
foi abandonada, sem ter vigorado concretamente, possivelmente
pelas pressões corporativas médicas. O programa, como se viu,
teve início dentro de um hospital e sua própria denominação inicial
(Medicina Geral) já denotava uma forte inserção da clínica.
Entre as propostas de integração externa apontadas, destacou-se
a colaboração e a influência recebida da Escola de Saúde Pública
da SESRS, instituição que apoiou o desenvolvimento do
componente “comunitário” da residência médica desde seu início e
que mantinha também uma relação muito próxima com a equipe do
CSEM. Recentemente, o GHC tem recebido assessoria da
Universidade Federal de Pelotas, detentora de importante expertise
em epidemiologia.
Outra articulação a destacar é a dos canadenses da Universidade
de Toronto, liderados por Yves Talbot, também presentes em
Curitiba e Contagem.
A grande marca da articulação externa do GHC foi, sem dúvida, o
convite para participar, no final de 1993, do grupo de especialistas
nacionais e estrangeiros que definiu as bases para o lançamento do
PSF nacional, na gestão de Henrique Santilo no Ministério da
Saúde. Os interlocutores locais consideram-no um fator fundamental
para a visibilidade que o serviço passou a ter após 1994.
Em síntese, alguns dos aspectos distintivos do programa do GHC
podem ser destacados: (a) base hospitalar das práticas; (b) forte
vínculo com a formação médica; (c) trabalho em equipe liderado
pelo médico; (d) formação uni-profissional; (e) articulação crescente
com o sistema local de saúde, embora com momentos de recuo e
avanço; (f) diferenças marcantes em relação ao PSF nacional.
Síntese interpretativa
O quadro a seguir mostra algumas das características distintivas e
diferenciais das duas experiências. Seu caráter não é exaustivo,
embora seja bastante abrangente e, a partir dele, algumas
conclusões podem ser vislumbradas e estão listadas em seqüência.
Para efeito comparativo, e também por razões metodológicas, foi
obedecida seqüência de abordagem utilizada na síntese
interpretativa das demais experiências analisadas neste trabalho, ou
seja: atores, contextos, processos, e conteúdos.
QUADRO 8 – GHC x Murialdo: características
distintivas comparadas
ITEM DE GHC CSEM
COMPARAÇÃO
ATORES
Fundadores médicos, médicos,
professores professores
universitários com universitários com
formação formação
especializada no especializada no
exterior exterior
Apoiadores Atores políticos, atores políticos,
reforma intensa embora de forma
menos acentuada
do que no GHC
CONTEXTOS
Ano de início 1974 Grupo 1980 Secretaria de
Vinculo Hospitalar Estado Da Saúde
institucional Conceição – uma do Rs –
autarquia federal, administração
depois empresa direta
pública
Contexto Grupo médico Burocracia pública
institucional fortemente de carreira de
corporativo e até tendência
certo ponto elitista conservadora
Contexto Regime militar, Regime militar,
político geral possibilidades de possibilidades de
ação política ação política
limitadas limitadas, com o
governo do estado
fortemente
atrelado
Aliados Escalão dirigente Escalão dirigente
da SES, da SES
articulações
externas
(INAMPS, MPAS)
Adversários Grupo médico da Burocracia da ses-
ghc rs
PROCESSOS
Inserção atual Compartilhamento Caráter
no sistema de substitutivo
local responsabilidades (representa
com a SMS de diretamente o
Porto Alegre sistema local)
Referência e hospitais do GHC Não definidas com
contra- precisão (rede
referência pública de Porto
Alegre)
Características Áreas de baixa Partenon e outros
da área de renda e bairros vizinhos ao
abrangência municípios CSE Murialdo –
vizinhos – cobertura de 50
cobertura de 100 mil habitantes
mil hab.
Articulação Pouco Institucionalizada
comunitária institucionalizada via Conselhos
Locais de Saúde
Articulação “externa”, forte Mais “local”
externa e inter-(ex.
setorial Universidades,
SMS de Curitiba,
Ministério da
Saúde)
Política de Própria com Não própria –
recursos autonomia de obedece regras
humanos gestão de RH gerais da SES-RS
Financiamento Orçamento do Orçamento da
Ministério da SES-RS e
Saúde prestação de
serviços ao SUS
Relações com Forte Forte
centros
formadores e
universidades
CONTEÚDOS
Natureza das Hospitalares e Basicamente
práticas comunitárias comunitárias
(“vigilância à
saúde”)
Formação Apenas médicos médicos,
profissional enfermeiros,
odontólogos,
assistentes sociais
e outros
profissionais
Ênfase Ação clínica, Comunitária,
resolutividade melhoria de
qualidade de vida,
ação coletiva
Ensino Residência e Dimensão
formação ampliada: multi-
pósgraduada profissionalidade,
voltada para o graduação e pós-
SUS graduação;
residência e
estágios
Estratégias de Constituir-se Constituir-se como
expansão como grande centro de
centro de
capacitação para formação de
o PSF e o SUS de interesse local
interesse regional
nacional
As lições de Murialdo e GHC
Em uma breve síntese conclusiva pode-se afirmar o seguinte, a
respeito das duas experiências pioneiras, consideradas como
detentoras de elementos de resistência e articulação política:
a. São experiências que possuem uma história comum em muitos
aspectos essenciais, por exemplo, seus atores fundadores e
apoiadores; os vínculos institucionais públicos; as
preocupações com formação e capacitação; o caráter de efeito
demonstrativo (pelo menos em seu início); a sucessão de
sístoles e diástoles, entre outros;
b. Utilização de estratégias calculadas de sobrevivência face a
ambientes complexos e adversos, com forte grau de articulação
externa (articular para não perecer) com formação gradual de
uma rede importante de apoiadores externos técnicos e
políticos, além de busca crescente de institucionalização;
c. Tendência de gradual incorporação aos sistemas de saúde
locais mediante sintonização política com seus gestores e
mediante incorporação de sua gramática, o que inclui as
diretrizes de responsabilização, territorialização, hierarquização,
regionalização, participação etc.;
d. Busca de superação da condição de serem meros exercícios de
efeito demonstrativo ou de visibilidade acadêmica;
e. Aquisição de amplo reconhecimento externo e de
transformação em centros de referência regionais e nacionais
na capacitação para Saúde da Família e Atenção Básica em
geral;
f. Não superação das dificuldades derivadas das inconsistências
quantitativas e qualitativas das políticas de financiamento
vigentes para a atenção básica no país;
g. Manutenção de marcante diferenciação da natureza das
práticas desenvolvidas em cada instituição: hospitalar, clínico,
de resolução individualizada (GHC) x comunitário, social,
vigilância à saúde (CSEM) – de caráter não antagônico, mas
complementar em termos da formação de recursos humanos.