Saúde da família: boas práticas e círculos virtuosos
Capítulo II – Saúde da família no Brasil: do movimento ideológico à ação política
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
conservador, além de mais disposto a realizações de efeito político,
ou de ações localistas para seu Estado (Goiás) ou de repercussão
mais imediata. Não foi fora desse espírito que ocorreram algumas
das grandes realizações de Santilo à frente do Ministério da Saúde,
quais sejam a criação do Programa de Saúde da Família e a
constituição do PISUS – Programa de Interiorização do SUS,
deixando quase intocadas as questões mais estruturais, como
descentralização e financiamento. Em certos aspectos, porém,
Haddad e Santilo equivaliam-se: eram ambos muito frágeis nos seus
embates com a área econômica do governo.
Os primeiros movimentos da construção do PSF
O ministro Henrique Santilo havia sido governador de Goiás e, na
sua época, já se havia trabalhado com uma proposta semelhante a
dos Agentes Comunitários de Saúde, sendo esta considerada, junto
com a do Ceará, experiência pioneira no Brasil, além de
institucionalizada e oficial. Santilo tinha como assessor especial um
técnico brasileiro do UNICEF, Halim Girade, que acumulara
marcante experiência em trabalhos comunitários em Goiás e outros
Estados do Brasil. Girade, em entrevista, narra que o ministro pedira
sua atenção para algumas idéias que vinha desenvolvendo, em
busca de um novo modelo de atenção para comunidades pobres e
sem médico, tendo como ponto de partida sua experiência em
Goiás. O interlocutor destacou ainda um fato que considerava
importante: na ocasião já havia demanda dos prefeitos por apoio do
Ministério da Saúde para um programa naqueles moldes (GIRADE, 2000). Era, além do mais, a “única possibilidade de avanço
possível”, na visão de um dos entrevistados, também protagonista
dos acontecimentos daquele momento (SOUZA, 2000).
Sousa (2001), dando também testemunho desta época de
transformações, registra que um fato notável do período foi a
realização de um encontro nacional de enfermeiros coordenadores
do PACS, do qual surgiu um documento final de avaliação, com
destaque para uma agenda de prioridades a serem assumidas
nacionalmente. Este documento foi entregue ao ministro Santilo e
sua equipe na ocasião. Seus organizadores imaginavam que o
mesmo traria conseqüências importantes para o PACS, porém sem
ter, aparentemente, expectativas de que o mesmo mostraria
também influências na criação de um novo programa, o PSF.
As idéias de Santilo, segundo Girade, tinham correspondência em
algumas experiências em andamento no país, como, por exemplo,
as de Niterói, do Grupo Hospitalar Conceição, ligado ao Ministério
da Saúde, da SES de São Paulo e de Quixadá, no Ceará. Assim,
por determinação do ministro, o entrevistado visitou várias delas e
deu início a articulações para a elaboração de um programa
nacional. Como decorrência imediata, no dia 27 de dezembro de
1993, reuniram-se no Ministério da Saúde representantes das
experiências acima, mais alguns consultores e, então, foram
definidas as bases do que viria a ser o Programa de Saúde da
Família, mediante uma proposta que “[…] não era nenhuma das
presentes, mas que procurava ser uma síntese de todas – o melhor
para as condições do país”, segundo Girade. Um documento foi
produzido na ocasião e algumas semanas mais tarde, a bordo de
um avião entre Nova Iorque e o Rio de Janeiro, o Ministro Santilo
tomou a decisão final de implantar oficialmente o programa, mais
exatamente em janeiro de 1994.
Não se pode deixar de destacar o papel do UNICEF nesta etapa,
com as presenças de Girade e Castillo, que produziram os primeiros
documentos que serviram de base para as discussões
subseqüentes, além de apoio político à iniciativa e inclusive apoio
financeiro, por meio de contratações de técnicos, realização de
eventos, publicações, etc. Foi uma parceria mantida durante todo o
período de decolagem da proposta, sendo mais intensa até o ano de 1997; depois disso, por mudança de enfoque no trabalho desse
organismo – não por ruptura política, ainda segundo Girade – a
parceria foi atenuada. O UNICEF já vinha apoiando também o
PACS, particularmente no período 1992-1993, quando o programa
esteve “em baixa” no Ministério da Saúde. Além disso, a avaliação
que projetou o PACS nacionalmente, coordenada por Cecília
Minayo, cerca de 1990, foi financiada e apoiada em sua difusão pelo
mesmo UNICEF.
Naquele momento, começam a tomar parte não só nas
discussões para a formulação, como também nas primeiras gestões
para a implementação do PSF, alguns técnicos que viriam a conferir
ao mesmo uma marca nos anos seguintes. Tal grupo técnico,
formado mais por enfermeiras do que por médicos, tinha como
componentes pessoas com passagem por serviços de saúde,
geralmente no interior do País, envolvidos com programas de
atenção primária. Além disso, não eram pertencentes a uma
burocracia pública de carreira federal; antes, vieram para o
Ministério da Saúde como autênticos “executivos da saúde” de
extração técnica, com atribuição específica de trabalhar no
programa recém criado.
Conteúdos
Caberia, neste momento, algum detalhamento dos conteúdos e
das concepções que subsidiaram a formulação do Programa de
Saúde da Família no Brasil.
Cordeiro (1996), na condição de observador e militante
privilegiado da política de saúde no Brasil no decorrer das décadas
de 80 e 90, afirma, por exemplo, que tal proposta de organização
das práticas de saúde implica seu reconhecimento como um direito
universal, vinculado à qualidade de vida. Da mesma forma, a
escolha da família e de seu espaço social como alvo de abordagem,
a democratização do conhecimento a respeito da saúde, da doença
e da organização dos serviços, a intervenção sobre os fatores de
risco, a prestação de um atendimento integral, resolutivo, contínuo e
de qualidade, a humanização, o estímulo à organização social e o estabelecimento de parcerias, são avanços inquestionáveis que o
programa vem oferecendo.
O PSF tem sido definido, ainda, como uma estratégia de
consolidação do Sistema Único de Saúde, fazendo parte de um
processo de planejamento estratégico com implicações na
ampliação da oferta de trabalho nos cuidados básicos, bem como
uma ação potencialmente hegemônica na organização e na prática
sanitária (CORDEIRO, 1996). É visto ainda como “o SUS que está
dando certo”, na expressão utilizada por Levcovitz e Garrido (1996),
autores (e também atores das primeiras etapas da implementação
do programa) que valorizaram ainda alguns aspectos inerentes ao
programa, tais como: o caráter de reorganização de serviços; a
potencialidade de substituição do modelo assistencial vigente; o fato
de se constituir fonte de inspiração para novas práticas de gestão,
seja no plano estadual ou local; a geração de vínculos e
responsabilidades entre serviços e sua população, etc.
Além disso, em outra análise, o PSF é qualificado como “um
programa inserido no escopo das políticas públicas de saúde, no
contexto do SUS”, dotado de uma concepção que abrange não só
aspectos relativos ao modelo de práticas assistenciais, mas também
aos processos de trabalho e formação de recursos humanos e cuja
implantação se dá de forma participativa, conforme afirmativa de
Trad e Bastos (1998).
Viana (2000) atribui ao PSF o caráter de propagador de práticas
não convencionais de assistência, com grande peso dado à
prevenção e promoção, como forma de reorganização dos serviços
e antecipação das demandas dos mesmos e que, além do mais,
trata-se de programa em que não entra em conflito “nenhum de
seus princípios básicos ou formas de operacionalização com as
diretrizes do sistema nacional de saúde”.
Mendes (2000) credita ao PSF o status de ter se constituído como
a contribuição mais importante do governo de Fernando Henrique
Cardoso no campo da saúde, possibilitando a consolidação de uma
política de atenção primária à saúde, com o mérito adicional de ter
envolvido as universidades do país na capacitação de suas equipes.
Em outro trabalho este autor identifica no programa matizes que
permitem sua inclusão nas novas tendências da “gestão da atenção à saúde”, dados seus elementos de gestão de riscos populacionais
e gestão da oferta através da atenção primária resolutiva (MENDES,
1998).
Souza (1999, 2000), que militou no PACS e no PSF desde seus
primórdios, acredita que tais programas vieram fortalecer o
movimento de descentralização do SUS, apoiando-se na concepção
de oferta de atenção básica no seio das próprias comunidades, de
forma próxima aos usuários e abrangendo as localidades onde os
serviços não se encontravam disponíveis, inovando ainda com a
oferta de cuidados a domicílio. Para esta autora, o PSF representa
também um avanço nas propostas de saúde ao superar uma etapa
de “serviços realizados na comunidade” para outra de “serviços que
envolvem a comunidade”. Aponta esta estratégia como uma
possível saída para a crise contemporânea do Estado, desde que
sua execução seja provida por serviços públicos qualificados e
fortalecidos, em parceria com entidades não governamentais
(igrejas, associações diversas, clubes, redes, voluntariado, etc.).
Paim (1994), autor que constitui referência obrigatória quando o
assunto é a organização dos modelos assistenciais de saúde no
Brasil, insere o PSF na categoria das políticas democratizadoras da
saúde na década de 90, em contraposição ao caráter meramente
racionalizador das políticas de momentos anteriores. Além do mais,
credita ao programa em pauta, ressalvadas as contradições que o
mesmo apresenta, o caráter de “modelo tecnoassistencial de base
epidemiológica”, configurando-se como legitimamente ancorado em
dois dos conceitos fundamentais da medicina social contemporânea,
quais sejam a determinação social do processo saúde-doença e o
enfoque nos processos de trabalho em saúde (PAIM, 1997).
Vasconcellos (1998) atribui ao programa a potencialidade de
promover uma “retomada” na humanização da atenção clínica, além
da melhor qualificação de seus profissionais, sem embargo de seus
componentes de resposta a certa tendência global de redução de
custos com pessoal e tecnologia.
Souza (1999, 2000), na condição de ter sido a principal executiva
do PSF desde seus momentos iniciais, fornece indicativos
importantes a respeito das concepções que orientaram a sua
criação e vêm orientando sua implementação, ressaltando a característica de “não ser uma proposta nova”, mas sim o resultado
de uma acumulação de saberes e práticas de diversas pessoas e
instituições. O PSF estaria na origem de importantes
transformações qualitativas do SUS, como, por exemplo, a
rediscussão da NOB 93, que acabou por desencadear uma nova
lógica de financiamento das ações de saúde. Defende ser ainda o
programa uma “estratégia estruturante” do modelo de assistência no
país e uma garantia de vínculo entre os serviços e a população. Na
visão da autora, o PSF é uma “escolha técnica, ética e política”,
constituindo-se uma autêntica marca do “futuro tecido no presente”.
Alguns aspectos do conteúdo do PSF encontram-se bastante
detalhados nos documentos oficiais do Ministério da Saúde, que
mostram uma certa evolução em seu enfoque. De uma abordagem
mais “carregada” ideologicamente em um primeiro momento,
correspondente aos anos de 1994 e 1995, com denúncia das
mazelas do sistema vigente e propondo a urgente superação do
paradigma clínico, os textos assumem um caráter gradualmente
mais técnico, com conteúdos mais objetivos e prescritivos,
enfatizando a articulação dos programas à rede. Tais diferenças
tornam-se nítidas quando se compara, por exemplo, um dos
documentos oficiais do programa, emitido em 1994 (BRASIL, [199-?
b]) e aquele intitulado Saúde da Família: uma estratégia para a
reorientação do modelo assistencial, divulgado em 1997 (BRASIL,
1997b). Registre-se, ainda, que, nos dois documentos, o que era
“estratégia para organização dos serviços de saúde”, converte-se
em “estratégia de reorientação do modelo assistencial”.
O documento de 1997 do Ministério da Saúde anuncia, com
detalhes, a que veio o PSF, declinando seus objetivos e diretrizes
operacionais, dedicando especial atenção à reorganização das
práticas de trabalho, às competências dos níveis de governo, bem
como às etapas de implantação do PSF. O mesmo é, aliás, bastante
ambicioso e abrangente em suas análises e propostas, ao anunciar,
já em sua apresentação: (a) a vinculação de uma “crise estrutural”
do setor público com a fragilidade da eficiência e da eficácia da
gestão das políticas sociais; (b) a denúncia da incapacidade de
algumas propostas “inspiradas na Reforma Sanitária e pelos
princípios do SUS”, tais como os SILOS e os Distritos Sanitários de promover mudanças significativas no modelo assistencial; (c) a
priorização do “estabelecimento de vínculos e a criação de laços de
compromisso e de co-responsabilidade entre os profissionais de
saúde e a população”, como ponto central de atuação do PSF; (d) a
proposta de mudanças “no objeto de atenção, forma de atuação e
organização geral dos serviços”, através da “reorganização da
prática assistencial em novas bases e critérios”; (e) a busca de uma
“compreensão ampliada do processo saúde/doença” com ênfase em
intervenções “de maior impacto e significação social”.
O texto de 1997 procura enfatizar algumas características
inovadoras pretendidas pelo PSF, como, por exemplo,: (a) fugir ao
caráter “vertical e paralelo” dos demais programas do Ministério da
Saúde; (b) constituir-se em proposta substitutiva com inovação
técnica, política e administrativa; (c) incorporar os princípios da
vigilância à saúde e, finalmente, (d) negar o equívoco da
identificação do PSF como “um sistema de saúde para os pobres”.
Assim, o programa deve ser entendido como um “modelo
substitutivo” da atenção básica de feição tradicional, porém
encarando de frente a questão da eqüidade, além de ser
necessariamente reconhecido como prática de alta complexidade
tecnológica em termos de conhecimento e do desenvolvimento de
habilidades e mudanças de atitudes.
Já a vinculação do PSF com o SUS é afirmada no referido
documento, ressaltando sua contribuição para a reorientação do
modelo assistencial a partir da atenção básica “em conformidade
com os princípios do Sistema Único de Saúde” e buscando uma
outra dinâmica de atuação nas unidades de saúde, com maiores
responsabilidades e vínculos entre os serviços de saúde e a
população. São também definidas diretrizes operacionais de caráter
conceitual e prescritivo quanto aos seguintes aspectos: (a) caráter
substitutivo, complementaridade e hierarquização; (b) adscrição de
clientela; (c) cadastramento; (d) instalação das unidades do PSF; (e)
composição e atribuições das equipes; (f) atribuições dos membros
da equipe (médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agente
comunitário). O documento detém-se ainda à reorganização das
práticas de trabalho, enumerando, entre outros aspectos, o
processo de diagnóstico da saúde da comunidade; a abordagem multiprofissional; o desenvolvimento de mecanismos de referência;
a educação continuada, além do estímulo à ação intersetorial e ao
controle social.
A seguinte declaração de princípios finaliza o documento:
[…] a operacionalização do PSF deve ser adequada às diferentes realidades
locais, desde que mantidos os seus princípios e diretrizes fundamentais.
Para tanto, o impacto favorável nas condições de saúde da população
adscrita deve ser a preocupação básica dessa estratégia. A humanização da
assistência e o vínculo de compromisso e de co-responsabilidade
estabelecido entre os serviços de saúde e a população tornam o Programa
de Saúde da Família um projeto de grande potencialidade transformadora do
atual modelo assistencial (BRASIL, 1997b, p. 11-12).
Um postulado central do SUS, a universalidade, poderia ser
questionado em relação às ações desenvolvidas no âmbito do PSF.
Até certo ponto, este seria um aspecto constante, empiricamente
verificado nos programas existentes. Entretanto, como os
programas geralmente destinam-se a segmentos mais pobres
dentre os usuários, derivam daí questionamentos sobre um possível
caráter de focalização, configurando um dilema entre uma opção
universalista e uma opção focalista, a ser resolvido mediante uma
análise mais global da política de saúde, em termos de
compromisso político, saúde como bem público, focalização com
instrumento técnico, além de financiamento e condução públicos,
nos termos colocados por Granados-Toraño (1995). A questão
remeteria-se, portanto, ao próprio potencial evolutivo do SUS no
momento atual.
Em que pesem certos questionamentos, como o acima
apresentado, o PSF configura-se como uma possível “mudança de
paradigma” nas práticas assistenciais, tendo como aspectos
centrais, entre outros, a superação do curativo para o preventivo; do
eixo de ação mono-setorial para o intersetorial; da exclusão para a
universalização. Seu caráter inovador e potencialmente
transformador de um modelo de práticas de saúde parece também
evidenciado, não só nas análises dos documentos oficiais, como na
visão dos autores citados.
Há, por certo, uma coerência conceitual na inclusão do PSF no
quadro das políticas sociais universalistas, eqüitativas e integrais,
ressalvando-se que suas potencialidades ainda não se cumpriram
de todo, facultando uma certa tensão entre o possível e o desejável.
A resolução dos dilemas do PSF não está confinada, certamente,
aos limites formais e legalistas de uma reforma administrativa
setorial, o que implica, na visão de Paim, no fato de que é preciso se
desenvolver esforços, tantos no campo cultural como no político,
advindo daí uma “reconceitualização das necessidades de saúde e
a crítica das práticas sanitárias”, com deslocamento da ênfase nos
serviços para as condições de saúde e seus determinantes,
configurando o que este autor denomina de uma “repolitização da
saúde” Paim (1997).
Tal discussão sobre os modelos de atenção, entre eles o PSF, tem
recebido a atenção de diversos autores no Brasil. Algumas
contribuições importantes são aquelas aportadas por autores
ligados ao Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de
Medicina da USP, que cunharam a expressão “ação programática”,
uma referência importante com relação ao plano organizacional e de
estratégias de intervenção na atenção básica (SCHRAIBER, 1990).
Nesta proposta, as ações de prevenção, proteção e assistência à
saúde, constituem elementos transformadores dos modelos de
atenção, além de alavancas de integração entre diferentes níveis de
atenção.
Destaque-se também a contribuição, embora fora da main-stream
da discussão, de Misoczky (1994), elaborada no momento do
lançamento do programa nacional e, assim, um tanto “datada” e
presa a circunstâncias peculiares da política de saúde em Porto
Alegre. Esta autora considera o PSF como divergente dos objetivos
e princípios do SUS, afirmando que seus defensores locais
contentariam-se em apenas “sussurrar aos ouvidos do Príncipe” e
não em lutar por mudanças substantivas no modelo assistencial.
Na mesma linha, Merhy, Bueno e Franco (1999) consideram que
o PSF carece de instrumentos de atuação clínica, o que faz suas
ações se desenvolverem como mera “linha auxiliar do modelo
médico hegemônico”, balizando de forma limitada e limitante as
possibilidades de competição entre as suas práticas e aquelas desejadas pela corporação médica. Franco (1999), além do mais,
afirma que o PSF falha em fazer com que os processos de trabalho
nele verificados operem mediante “tecnologias leves” e que, devido
a isso, sua implantação, por si só, não garantiria mudanças
substantivas do modelo assistencial vigente. Em outras palavras, a
forma como o PSF vem sendo implementado pelo Ministério da
Saúde não lhe conferiria a possibilidade de se tornar de fato uma
alavanca de transformações, o que tudo indica que o mesmo
careceria de se reciclar para incorporar “potência transformadora”.
A linha mais crítica ao PSF vem sendo desenvolvida por autores
ligados ao Laboratório de Planejamento (LAPA), da Faculdade de
Medicina da Unicamp, entre os quais se incluem os citados no
parágrafo anterior. A proposta de tais autores tem sido designada de
“defesa da vida” e suas principais características, como anunciadas
em documento oficial de um projeto municipal de saúde que a
incorpora são: (a) a ancoragem e reconhecimento de uma dada
visão de mundo – o “recorte interessado”; (b) a composição de
conceitos e aspirações em que transita o técnico e o político; (c) o
político como um reflexo dos interesses, necessidades e direitos da
sociedade; (d) o técnico como intermediação entre uma concepção
de saúde (o foco), um recorte dos problemas e condições de saúde
(objeto) – “carregado de intenções” e, ainda, um conjunto de
estratégias (meios) para enfrentar os problemas de saúde (CAXIAS
DO SUL, 2000).
Estas críticas mostram-se, entretanto, fora da corrente principal –
a referida main-stream – de análise do PSF e têm oferecido, sem
dúvida, um efeito demonstrativo interessante, com o
desenvolvimento de programas alternativos ao PSF em cidades
assessoradas pelo Lapa, geralmente governadas pelo Partido dos
Trabalhadores, como é o caso de Betim (até 2000), Caxias do Sul,
Campinas e outras.
O processo de implementação do PSF
Os contextos e os atores
Embora tenha sido formulado no governo Itamar Franco, sob a
gestão de Henrique Santilo, no Ministério da Saúde, o PSF, na
verdade, encontrou condições de crescimento qualitativo e
quantitativo nos anos seguintes, já no governo de Fernando
Henrique Cardoso, mais precisamente a partir de 1998, quando o
economista José Serra assumiu o Ministério da Saúde. Os dois
ministros que sucederam a Santilo, Jatene e Albuquerque, embora
não tivessem explicitado em nenhum momento oposição do PSF,
não demonstraram vontade ou não obtiveram acumulações políticas
para fazer acelerar sua implementação. Jatene, particularmente,
fazia uma defesa competente do PSF e tinha uma história
profissional compatível com isso, mas ocupouse em sua breve
segunda passagem pelo MS, entre 1995 e 1996, mais com os
aspectos estruturais e de financiamento, voltando-se para o ato de
“arrumar a casa”, conforme expressão que freqüentemente utilizava
(JATENE, 1992).
De qualquer forma, o PSF enquadra-se como uma proposta forte
dentro do quadro do segundo governo Fernando Henrique Cardoso,
constituindo-se um aspecto típico do mesmo. Segundo Singer
(2002), ao analisar este período da vida nacional, o compromisso do
presidente eleito em 1994, que era garantir recursos suficientes e
estáveis para a saúde, só foi cumprido parcialmente, com
expedientes transitórios. Embora o primeiro mandato tivesse
apresentado um crescimento do gasto em saúde, com elevação de
29% entre 1994 e 1995, e tendo seu melhor momento em 1997,
com cerca de R$ 121,00 per capita – a evolução posterior chegou a
ser negativa. A CPMF, aprovada no final de 1996, representou,
entretanto, uma vitória de Pirro para a saúde, dada a alocação de
recursos em outras áreas, motivando a saída do ministro Jatene a
seguir. Já a aprovação da Emenda Constitucional 29, em setembro
de 2000, foi capaz de melhorar o prognóstico do financiamento à
saúde para os próximos anos, mas não ao ponto de se dar a
questão por resolvida.
Do ponto de vista dos indicadores de saúde durante os dois
governos Fernando Henrique Cardoso, uma melhoria dos mesmos
continuou a acontecer, mas foi pouco expressiva em alguns casos,
por exemplo, na mortalidade materna, no controle da tuberculose e da dengue. Houve também enormes dificuldades em cumprir
diversas metas sociais, por exemplo, no saneamento básico.
A questão do financiamento da saúde pode ser considerada como
verdadeiramente crucial no período aqui analisado. Com a
autoridade de quem exerceu papéis importantes na saúde ao longo
da década de 90, inclusive no Governo Federal, Carvalho (2002)
analisa o tema com profundidade e abrangência. Este autor parte do
pressuposto de que, no âmbito do Governo Federal, no período pós
constitucional, gastou-se pouco – ou indevidamente – com saúde,
sendo descumpridos os dispositivos constitucionais referentes ao
financiamento da saúde e, ainda, que os órgãos fiscalizadores
descumpriram a lei por se omitirem diante das ilegalidades
praticadas pelo Executivo, detentor que este é do “rolo compressor”
já comentado antes. Assim, aponta diversas pendências
acumuladas nos anos 90, particularmente nos dois governos de
Fernando Henrique. Por exemplo, a definição pouco precisa do que
sejam os recursos da Seguridade Social, a serem melhor
classificados como “nacionais” e não simplesmente “federais”; a
necessidade da ampliação da composição dos recursos do Fundo
Nacional de Saúde e, ainda, os constrangimentos que os recursos
vinculados à saúde, como no caso da Emenda Constitucional 29,
continuassem a sofrer contingenciamento por parte do Executivo,
como mostram as tendências atuais. Aponta, ainda, que várias são
as conseqüências dos desvios inconstitucionais que se praticaram
nestes anos, particularmente no panorama presente, traduzidas por
danos sociais “inquantificáveis e irrecuperáveis, como perdas de
vida, seqüelas físicas, sofrimento humano, etc”.
Entretanto, há também consenso a respeito de importantes
avanços obtidos na área da saúde, como, por exemplo, no controle
da epidemia de HIV, no enfrentamento de interesses de produtores
de medicamentos, na popularização da política de genéricos e, até
certo ponto, na regulação do seguro-saúde. Outros problemas,
contudo, permaneciam, em torno do ano 2000, mal (ou não)
resolvidos, como era o caso do controle da malária, da hanseníase,
do sarampo e da dengue (SINGER, 2002).
Os processos de implementação
Vianna e Dal Poz ([199-?]) situam a implementação do PSF como
um “reforma da reforma” ou “reforma incremental” em saúde. Estes
termos aplicam-se a um conjunto de transformações, tanto no
desenho como na operação das políticas, que ocorrem de forma
separada ou simultânea em relação aos sistemas e aos serviços de
saúde, nas modalidades de alocação de recursos, nas formas de
remuneração a prestadores e, fundamentalmente, na configuração
da prestação de serviços, resultando em mudanças do modelo
assistencial em saúde. Os autores referem-se, ainda, a
determinados fatores que interferem em uma agenda de mudanças
dessa natureza, a saber: exigências econômicas, interesses e
dimensão política. O maior ou menor grau de mudança vai depender
dessas três variáveis e o caso do PSF parece bem ilustrativo disso,
como se verá adiante.
A. PLANO POLÍTICO E INSTITUCIONAL
Do ponto de vista institucional, o PSF passou por várias situações
dentro do Ministério da Saúde. Em um primeiro momento esteve na
Fundação Nacional de Saúde, onde, junto com o PACS e o PISUS –
Programa de Interiorização do SUS, fazia parte de uma das
coordenações (COSAC) do antigo Departamento de Operações. O
PISUS, entretanto, teve vida curta, sendo extinto na mudança de
governo que ocorreu em 1994-95. Segundo um dos entrevistados
(ARRUDA, 2000), foi uma experiência que fracassou por ter sido
articulada junto aos Estados e não diretamente com os municípios,
ao contrário do PACS e do próprio PSF, que tiveram tal componente
bem definido e, por isso mesmo, outra trajetória.
Um segundo momento, iniciado a partir de 1995-1996 foi marcado
pela transferência da antiga COSAC da FUNASA para a SAS –
Secretaria de Assistência à Saúde, do Ministério da Saúde. Esta
transferência teve dois impactos de monta na estrutura do
programa, a saber: primeiro, permitiu a junção de fato entre as duas
estratégias, pois na FUNASA, embora estivessem na mesma
coordenação, tinham titulares, equipes e até mesmo áreas físicas
diferentes; em segundo lugar, com a mudança, o programa
aproximou-se da área realmente incumbida das questões relativas à assistência à saúde na esfera do Ministério da Saúde, sabidamente
poderosa, obtendo, assim, um notável incremento em seu status
institucional. Como decorrência, foi constituída uma nova
Coordenação de Saúde da Comunidade, que depois se transformou
em Departamento de Atenção Primária à Saúde. Desta forma, o
PSF e o PACS deixam de ser mais um “programa vertical”
tradicional e passam a ser estratégias de mudança de modelo
assistencial em saúde (VIANA; DAL POZ, [199-?]).
Posteriormente, em 1999, o setor foi transferido para o
Departamento de Atenção Básica, da Secretaria de Políticas de
Saúde (SPS), dentro de um quadro de mudança institucional, no
qual este órgão passava a assumir o papel de instância formuladora
de políticas e estratégias do Ministério da Saúde, chamando a si a
responsabilidade pela política de atenção básica, bem como pelos
antigos “programas”. Tal medida não deixou de ser também uma
maneira de esvaziar ou de “equilibrar”, de certa forma, o papel da
SAS, que concentrava poderes muito fortes na área de assistência
nas várias complexidades e também na articulação de estados e
municípios, relativa à descentralização do sistema.
Ainda do ponto de vista institucional, alguns marcos podem ser
destacados na trajetória do PSF, como, por exemplo, a articulação
entre as universidades e as secretarias de saúde para a criação dos
Pólos de Capacitação em Saúde da Família (1997); a parceria com
a Comunidade Solidária (1998); a abertura de linhas de
financiamento junto ao REFORSUS (1998); a realização de dois
Seminários Internacionais em Saúde da Família, em 1998 e 2001; a
realização da I Mostra Nacional de Experiências em Saúde da
Família (1999); o estabelecimento do Pacto da Atenção Básica,
entre Ministério da Saúde, gestores estaduais e municipais (2000),
entre outros.
Em termos políticos, pode-se dizer que o PSF teve também uma
trajetória movimentada. Entre 1994, ano de sua fundação, e 1996,
galgou espaços importantes na estrutura institucional do Ministério
da Saúde, como visto acima. No final do primeiro mandato de
Fernando Henrique Cardoso e, particularmente, no primeiro ano do
segundo mandato, foi erigido com autêntica política nacional,
passando a fazer parte do chamado “Avança Brasil”, o plano de governo para o segundo mandato e, posteriormente, do PPA –
Plano de Pronta Ação (BRASIL, 1999) o programa de metas do
governo brasileiro para o quadriênio iniciado em 1999.
Talvez o fator mais notável para a ascensão política, tanto do PSF
como do PACS, estivesse ligado à chegada de José Serra ao cargo
de ministro, substituindo Carlos Albuquerque em março de 1998.
Serra foi um dos raros não-médicos a ocupar o cargo de ministro da
saúde no Brasil, e tinha uma carreira mais ligada às áreas de
planejamento e finanças públicas, compatível com sua formação de
economista. Ao que se diz, Serra já tinha pretensões próprias e
incentivo do presidente para ser o candidato à sucessão de 2002 e
procurou pautar sua ação de modo a conferir visibilidade ao
Ministério e à sua pessoa. Sem impedimento de outros projetos
desenvolvidos, podese dizer que o PSF “caiu como uma luva” para
os desejos de Serra. Como disse um dos interlocutores ao ser
entrevistado: “[…] que outra proposta havia no cenário para
avançar? Não havia outra […]” (SOUZA, 2000).
Serra traçou metas para a expansão acelerada do programa,
ainda em 1998, dando início à divulgação da meta de 20 mil equipes
no segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso.
Como afirmou textualmente o então ministro e atual candidato, em
dezembro de 2000: “[…] é para mudar a cara da saúde no Brasil”
(SERRA, 2000).
B. ASPECTOS NORMATIVOS
Do ponto de vista normativo, embora tenha havido uma seqüência
de portarias e outros instrumentos do Ministério da Saúde que
tiveram influência direta e indireta sobre o desenvolvimento do
programa, particularmente no que diz respeito a seu financiamento,
como será comentado adiante, o verdadeiro salto qualitativo em
relação às disposições que regeram a implementação do PSF foi
dado pela Norma Operacional Básica do SUS de 1996 (BRASIL,
1996b).
Entretanto, alguns meses antes da promulgação da NOB 96,
algumas portarias do Ministério da Saúde já davam início ao
processo de mudança na estrutura de financiamento e nos requisitos para habilitação do programa, buscando um caráter de
indução em relação ao modelo de atenção que se desejava
implantar. Tal é o caso da Portaria SAS número 8, de janeiro de
1996 (BRASIL, 1996a), que obrigava, para fins de cadastramento e
faturamento, que o PSF estivesse implantado em municípios que
cumprissem os requisitos da NOB 93, em termos de modalidade de
gestão. Na prática, isto forçava os pleiteantes a organizar seus
conselhos, planos e fundos de saúde, bem como outros
instrumentos de gestão preconizados na norma.
A NOB 96 apresentou, com relação às NOB’s anteriores, a
perspectiva de mudança do modelo assistencial, mediante alguns
incentivos à organização dos programas PACS e PSF. Para tanto,
por meio de portarias e instruções normativas complementares, tais
incentivos foram implantados atribuindo um determinado valor
financeiro por equipe de ACS ou PSF, diretamente proporcional à
cobertura populacional alcançada. O resultado parece ter sido
apreciável, pois correspondendo ao período imediatamente seguinte
à implantação efetiva da NOB 96 foi observada uma expansão
marcante da implantação de equipes de PACS e de PSF em todo o
país.
Tudo indica que, nos termos da NOB 96, tanto o PSF como o
PACS aparecem justificados e, mais do que isso, incentivados, em
inúmeras passagens do documento. Nos campos de atenção à
saúde (item 3-a da NOB) observa-se, por exemplo, uma definição
de atenção à saúde que compreenderia todo um conjunto de ações
realizadas no SUS, em todos os níveis de governo, seja para o
atendimento das demandas pessoais ou ambientais, abrangendo
também ações assistenciais voltadas às pessoas, de forma
individual ou coletiva, nos âmbitos ambulatorial e hospitalar, e ainda
no espaço domiciliar – grifo do autor (BRASIL, 1996b).
A NOB 96 enfatiza ainda, em seu item 9, alguns aspectos
relacionados à mudança do modelo assistencial em saúde, bastante
coerentes com as diretrizes dos PSF, como, por exemplo: (a) a
busca da integralidade; (b) a incorporação ao modelo dominante do
modelo epidemiológico; (c) a associação dos processos
individualizados e de intervenção terapêutica vigentes com “um
modelo de atenção centrado na qualidade de vida das pessoas e em seu meio ambiente, bem como na relação da equipe de saúde
com a comunidade, especialmente com seus núcleos sociais
primários – as famílias”; (d) a incorporação, como objeto das ações,
das pessoas, do meio ambiente e dos comportamentos
interpessoais.
Ainda no terreno normativo, merecem referência especial três
instrumentos, considerados marcantes, do ponto de vista
estratégico, para o programa. São eles: (a) a Portaria 1.886/97
(BRASIL, 1997a), que reconhece no PACS e no PSF estratégias
para o aprimoramento e consolidação do SUS e aprova normas e
diretrizes para tais programas, incorporando ainda a figura
normativa do “programa similar”; (b) a Portaria 3.925/98 (BRASIL,
1998), que implanta o Manual da Atenção Básica; (c) a Portaria
1.329/99 (BRASIL, 1999b) que estabelece financiamento
diferenciado por cobertura populacional.
Por último, algumas breves considerações sobre o PSF na NOAS
– Norma Operacional da Assistência à Saúde (BRASIL, 2002c),
instrumento que passa a regulamentar a implementação do SUS,
nos aspectos relacionados à assistência, a partir de 2001-2002.
Embora o PSF não seja citado diretamente nesta norma, o mesmo
não acontece com a atenção básica, que constitui um dos pilares de
tal instrumento normativo. Assim são definidas como áreas de
atuação estratégicas mínimas da condição de Gestão Plena da
Atenção Básica Ampliada, o controle da tuberculose, a eliminação
da hanseníase, o controle da hipertensão arterial, o controle da
diabetes, a saúde da criança, a saúde da mulher e a saúde bucal,
atividades tipicamente vinculadas à atuação das equipes do PSF. A
NOAS ainda enfatiza que tais ações devem ser assumidas por todos
os municípios, levando-se em consideração o seu perfil
epidemiológico, definido como componente essencial para o efetivo
cumprimento das metas do Pacto da Atenção Básica.
C. PROCESSO DE FINANCIAMENTO
Também na questão do financiamento, foram várias as
transformações que experimentou o PSF, podendo-se mesmo dizer
que a análise deste programa fornece, por si só, uma ilustração bastante completa a respeito das diferentes formas de transferência
de recursos que já vigoraram ou ainda estão em vigor na saúde.
Nos primórdios, ou seja, entre 1994 e 1995, o financiamento se
dava a partir de convênio firmado entre MS, estados e municípios,
com critérios de escolha de municípios e cumprimento das
exigências formais de praxe, tais como a prestação de contas
(SOUZA, 2000). Por meio desse instrumento, era garantido um
aporte ao gestor, uma determinada quantia por mês, nos três
primeiros meses de funcionamento do programa. Contudo, já a
partir de janeiro de 1996, ocorre mudança na sistemática, passando
o PSF a ser remunerado pela tabela de procedimentos do SIA SUS,
com valor agora diferenciado para a consulta médica, equivalente
ao valor de duas consultas “normais” (VIANA, 2000).
Estava ainda em vigência a era da NOB SUS 93. Em período
seguinte – ou seja, após fevereiro de 1998 – passaram a valer as
novas regras de financiamento ditadas pela NOB seguinte. Iniciou-
se assim a era do PAB – Piso da Atenção Básica, medida
responsável por forte indução de mudanças no modelo assistencial,
conforme explicitado por Levcovitz, Lima e Machado (2000). Na
NOB 96, a transferência, de acordo com a nova sistemática, partia
da exigência de que as equipes de PSF e PACS estivessem
atuando integradas à rede municipal, ou que se desenvolvesse
estratégias similares de garantia de integralidade da assistência. A
Norma estabeleceu, ainda, a salvaguarda de que a omissão de
informações referentes à produção de serviços do PSF e do PACS
por determinados períodos de tempo, consecutivos ou alternados,
em um ano, resultaria na suspensão dos créditos respectivos.
No que se refere aos mecanismos de transferência de recursos,
foram de forte impacto as mudanças estabelecidas com a
implantação do PAB, como era o caso da vigência do PAB fixo e
variável e também de outros incentivos financeiros, o que acarretou
ampliação marcante da transferência de recursos federais. Assim,
no final do ano 2000, quase a totalidade dos municípios brasileiros
já recebiam, dentro da modalidade automática (fundo-a-fundo) pelo
menos os montantes destinados à atenção básica e cerca de dois
terços dos recursos assistenciais federais (LEVCOVITZ; LIMA;
MACHADO, 2000).
Outra mudança que a NOB 96 facultou foi a estipulação de um
valor per capita mínimo, definido com base na média da produção
dos procedimentos básicos no ano anterior e que resultou também
na ampliação do valor transferido para a assistência básica, mesmo
nos municípios que tinham problemas em apresentar produção
suficiente de procedimentos. Um valor de R$ 10,00 por
habitante/ano foi estabelecido, possibilitando homogeneização das
transferências para o conjunto de municípios. Houve também algum
“achatamento” dos valores transferidos a alguns municípios, mas
isso não chegou a ser significativo em relação ao conjunto.
As vantagens do recurso PAB derivavam de que o mesmo, apesar
de calculado com base em séries históricas de produção, não se
encontrava sujeito à revisões periódicas baseadas meramente na
produção, o que não acontecia, por exemplo, com o recurso
destinado à média e alta complexidade e à assistência hospitalar.
Assim, o PAB superou a modalidade tradicional de “pós-pagamento”
e vínculo à produção, em favor de um “pré-pagamento” para a
remuneração dos serviços, representando, sem dúvida, um fator de
inovação no modelo de financiamento da saúde (LEVCOVITZ;
LIMA; MACHADO, 2000; NEGRI, 1999).
A introdução do PAB e a normatização referente à sua parte
variável provocou, segundo Viana (2000), outras mudanças de
impacto no financiamento, não só diretamente sobre o PSF mas
sobre o conjunto de programas do Ministério da Saúde, resultando
em maior integração das ações que compõem os programas assim
custeados.
Em 1999, nova medida normativa, de forte impacto sobre o
processo de financiamento é implantada – a Portaria 1.329 de
novembro de 1999 (BRASIL, 1999) –, por meio da qual as
coberturas populacionais oferecidas pelas equipes de saúde da
família passam a ser critério para a definição do incentivo a ser pago
por equipe. Ocorre, desta forma, um aumento significativo do valor
de tal incentivo, obedecendo a uma razão incrementalista, incidindo
sobre os percentuais de cobertura, dentro de alíquotas
progressivamente maiores (de 3% a 7%) em relação ao montante
da população coberta (NEGRI, 1999).
A partir do final da década de 90, o PACS e o PSF puderam
contar com uma nova fonte de financiamento, particularmente para
investimentos, através do REFORSUS, um empréstimo
internacional para o setor saúde, operacionalizado pelo Banco do
Brasil. Assim, além da expansão da rede física e dos equipamentos,
houve disponibilidade de recursos também para a qualificação das