Saúde da família: boas práticas e círculos virtuosos
Capítulo II – Saúde da família no Brasil: do movimento ideológico à ação política
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
equipes e desenvolvimento institucional, facultando às SES
assumirem novos papéis de coordenação, capacitação e gestão das
ações (VIANA, 2000).
A Emenda Constitucional 29, aprovada em setembro de 2000 pelo
Congresso Nacional, veio trazer novas luzes para o financiamento
da saúde, conferindo ao SUS o que um de seus autores denominou
de “hora da maioridade” (JORGE, 2000). A emenda proporcionaria,
ao cabo de quatro ou cinco anos, maior aporte de recursos e mais
previsibilidade e controle, além de contribuir para a organização do
sistema. Seus efeitos sobre o PSF e a atenção básica em geral,
contudo, ainda não se faziam notar nos primeiros meses de sua
implementação.
D. PROCESSOS DE AVALIAÇÃO DE RESULTADOS
Os processos de avaliação do PSF passaram a ocorrer com mais
frequência a partir do final da década, considerando, como seria
natural, a ausência de uma massa crítica de experiências a produzir
resultados, a insuficiência dos sistemas de informação ou sua
implantação muito recente, bem como a carência de metodologias e
técnicas adequadas, de amplo domínio e comparabilidade até tal
momento. É bem verdade que alguns processos pontuais já vinham
sendo conduzidos, por influência de instituições externas ou por
iniciativas próprias locais, como ocorrido em Camaragibe
(Pernambuco) e também em outras localidades, na linha aberta por
pesquisadores do IMS/UERJ (VIANNA; DAL POZ, 1998), em 1998,
financiados por recursos internacionais. Entretanto, em torno de
1999 a 2000 é que começaram a aparecer com mais intensidade e
frequência trabalhos dessa natureza, seja na literatura especializada
em saúde coletiva, seja em teses acadêmicas ou, ainda, como resultados diretos de processos desencadeados e apoiados pelo
próprio Ministério da Saúde.
O Ministério da Saúde anuncia oficialmente sua intenção de dar
partida e aprofundar o processo de avaliação apenas no ano de
2000, ocasião em que publica um conjunto de manuais contendo as
linhas estratégicas para o PSF no quadriênio 1999-2002 (BRASIL,
2000c), aliás período correspondente ao PPA do Governo Federal.
Dessas linhas estratégicas, a de número quatro é a “avaliação
permanente da atenção básica”, que por sua vez se desdobra em
três áreas de atuação: avaliação do processo de implementação;
implementação de pesquisas avaliativas; acreditação e validação do
processo de avaliação.
Seguramente associada à primeira das áreas de atuação da
estratégia acima referida é a pesquisa denominada “Avaliação da
implantação e funcionamento do PSF”, cujos resultados foram
divulgados formalmente no ano 2000 (BRASIL, 2000c). Este estudo
foi realizado mediante consulta por correio a um conjunto de 1.219
municípios e 3.119 equipes de saúde da família, em 24 Estados,
durante o período de abril a julho de 1999. Os índices de resposta
estiveram entre 56,9% e 78,6%. A condução do processo foi
realizada por técnicos do DAB, pesquisadores acadêmicos e
representantes dos gestores municipais. Suas conclusões foram
bastantes abrangentes e, para as finalidades presentes, um
pequena síntese é apresentada a seguir.
Do ponto de vista da gestão do programa, a participação dos
gestores estaduais era marcada pela indefinição dos critérios de
priorização de áreas de cobertura. Algumas das principais
atividades desenvolvidas pelos mesmos eram, além da capacitação
de equipes, a assessoria ao sistema de informação e ao
desenvolvimento do projeto inicial. Incentivos financeiros, materiais
e técnicos por parte das SES constituíam exceções. As principais
causas do baixo desempenho dos gestores estaduais vinculavam-se
à estrutura material e de recursos humanos deficiente e defasada.
Entre as justificativas que levaram os municípios a implantar o PSF,
destacavam-se a substituição do modelo de atenção à saúde e a
necessidade de ampliação do acesso aos serviços.
Na política de recursos humanos, menos da metade dos médicos
e enfermeiros vinculados ao PSF eram recrutados no próprio
município e em torno de 20% o eram até mesmo fora do Estado ou
do País. Os processos seletivos de pessoal de modo geral haviam
transcorrido com alto grau de informalidade; da mesma forma
estabeleciam-se os contratos de trabalho, com enorme predomínio
de contratos temporários e de prestação de serviços (em torno de
79%, tanto para médicos, como para enfermeiros).
Do ponto de vista dos processos de trabalho, a noção de território,
com a utilização de instrumentos correspondentes, estava presente
em cerca de 80% dos casos. Os prontuários de família estavam
implantados em cerca de 70% dos casos. Foi também bastante
expressivo o incremento da oferta da maioria dos procedimentos
característicos da atenção básica com a implantação do programa,
persistindo, porém, alguns casos notáveis de baixa oferta, como, por
exemplo, o exame de Papanicolau, as ações voltadas para
adolescentes, as pequenas cirurgias, e a inserção de DIU.
Na seqüência das linhas estratégicas referidas antes, o Ministério
da Saúde fez realizar, durante o ano de 1999, um amplo estudo
nacional sobre o perfil da força de trabalho do PSF, abrangendo,
nesse momento, os médicos e os enfermeiros (BRASIL, 2000b). O
estudo foi conduzido com base no cadastro do DAB/MS, com data
de referência de dezembro de 1998, sendo enviados questionários
pelos correios a 3.147 equipes, 6.294 profissionais, distribuídos em
117 municípios de 25 Estados, um universo com a mesma dimensão
do estudo referido acima, portanto. Os índices de resposta foram
considerados satisfatórios, variando de 50% a 84,5%, de acordo
com a região; para os enfermeiros, os índices de resposta foram
maiores do que para os médicos. Algumas das conclusões do
estudo estão relacionadas a seguir, sem caráter exaustivo.
Os dados confirmavam uma tendência de feminilização da força
de trabalho em saúde, já verificada universalmente, além de uma
tendência a que a maior parte dos médicos e enfermeiros
estivessem abaixo dos 50 anos, uma juvenilização que se mostrava
mais marcante entre os enfermeiros que entre os médicos. Do ponto
de vista da origem profissional, na Região Norte, cerca de 18% dos
médicos eram estrangeiros, enquanto no resto do pais esta cifra não passava de 4%. Em termos de formação, apenas um terço dos
médicos havia concluído um programa de residência médica, de
qualquer natureza; entre os enfermeiros a incidência de habilitação
profissional era igualmente baixa; nos dois casos, as demandas por
qualificação e aprimoramento profissional eram altas.
Foi observado ainda que cerca de 43% dos profissionais atuavam
nos programas há menos de um ano, o que era explicado pelo
momento de expansão rápida que então ocorria. Entretanto, a
mobilidade entre municípios era da ordem de 20% entre os médicos
e apenas um pouco menor nos enfermeiros, configurando um
quadro de alta rotatividade no emprego. As formas de seleção e os
vínculos trabalhistas primavam, na ocasião, pela precariedade e
falta de garantias legais. Do ponto de vista das percepções do
público-alvo da pesquisa, o desgaste com a atividade no PSF foi
uma manifestação muito freqüente, sendo atribuída, principalmente,
aos vínculos precários de trabalho, ao excesso de trabalho, à
carência de suporte material para a atividade, à dificuldade de
acesso às áreas de trabalho, entre outros fatores. Entretanto, a
quase a totalidade dos profissionais das duas categorias, admitiam
estar contribuindo para a melhoria das condições de saúde da
população e tinham uma visão positiva de seu trabalho, o que é
diferente de conclusões de outros estudos realizados entre o
conjunto dos médicos brasileiros (MACHADO, 1997).
Em relação aos anos imediatamente anteriores, Viana e Dal Poz
(1998) haviam trazido à luz uma avaliação bastante positiva dos
efeitos “sistêmicos” do PSF, ao associar sua implementação (que
começava a se acelerar a partir de 1998) com um grande impulso
do processo de municipalização induzido pela extensiva
normatização do Ministério da Saúde, além de maior organização
dos sistemas de saúde no país. Entre outros aspectos, estes
autores apontaram o estímulo ao cumprimento da legislação do
SUS, como possível efeito da Portaria 1886/97, com a
implementação de novos Fundos e Conselhos Municipais de Saúde
em municípios de todo o país com o conseqüente aumento da
racionalidade do gasto e do controle social sobre os recursos e o
próprio sistema.
Ainda no trabalho em foco, registrou-se a adesão acelerada a
uma das modalidades de gestão da NOB 93 e, posteriormente, da
NOB 96, acarretando a reorganização da atenção básica como
decorrência dos novos mecanismos de financiamento,
particularmente após o advento do PAB, previsto na NOB 96. Uma
nova definição das atribuições das SES parece ter ocorrido,
segundo os autores, particularmente em relação à capacitação de
recursos humanos para o sistema de saúde. Da mesma forma,
registrou-se a abertura de novos tipos de parceria entre o público e
o privado, como aconteceu em São Paulo, com o Projeto Qualis. Em
relação à política de recursos humanos, predominava a
diversificação e, por vezes, a precarização das modalidades de
vínculos de trabalho no setor público.
Viana (2000), no relatório de pesquisa já citado, acrescenta ainda
a importância adquirida pelo PSF na prestação de ações e serviços
de atenção básica e para sua penetração nos estados e municípios,
dadas as expressivas e crescentes cifras verificadas nos anos em
torno de 1998. Esta autora destaca, ainda, a integração entre os
vários programas operados pelo governo federal possibilitada pelo
financiamento através do PAB variável e, também, pelas parcerias
estabelecidas, por exemplo, com o Programa Comunidade Solidária.
O referido relatório destaca alguns outros aspectos dignos de
nota, a saber: (a) tendência à concentração do programa em
pequenos municípios (quase a metade até 17 mil habitantes, na
ocasião), com níveis de cobertura decrescentes conforme aumenta
o tamanho dos municípios, ou seja, com baixa penetração nos
grandes municípios; (b) tendência de incremento da cobertura
financeira federal para os procedimentos da atenção básica em
geral, de forma global e per capita; (c) descompasso entre a
produção de procedimentos realizados por médicos frente àqueles
realizados por enfermeiros; (d) “centralidade” dos procedimentos de
atenção básica e baixa complexidade em geral, com tendência a
dobrarem a cada ano (entre 1997 e 1999, pelo menos); (e) impacto
confirmado sobre alguns indicadores de morbimortalidade no
período 1995-1998, como por exemplo: número de internações
hospitalares de crianças com menos de cinco anos; redução de internações para praticamente todos os grupos de causas;
coberturas vacinais; taxa de mortalidade infantil, entre outros.
Configurando mais uma abordagem avaliativa, destaca-se o
trabalho realizado por Aguiar (1998), que declina sua cautela face a
algumas perspectivas de análise que fazem referência ao impacto
positivo da normatização do Ministério da Saúde sobre o PSF. A
autora aceita o fato de que a implantação do PSF no Brasil tem
vínculos fortes com o processo normativo, particularmente das NOB
e demais instrumentos pós-93, e que vêm influenciando e até
reestruturando não só a alocação de recursos mas também o
próprio processo decisório em saúde. A capacidade indutora da
política, principalmente com o advento do PAB, foi notável, mas a
cautela se justificaria tendo em vista que alguns dos indicadores que
têm sido utilizados na avaliação do desempenho da gestão
municipal, como é o caso da existência do Conselho ou do Fundo
de Saúde, nada mais seriam do que obrigações legais e que, além
do mais, careceriam de estudos que demonstrassem de fato seu
impacto sobre o sistema local. A autora argumenta ainda que um
estudo do início da década, voltado para o impacto dos programas
da Comunidade Solidária, no qual atuou como pesquisadora,
evidenciou que a existência formal de tais instrumentos, nos
municípios, refletiria essencialmente o cumprimento de exigências
legais, não acarretando incremento da participação e do controle
social, nem de efetivas inovações de gestão.
Em 2001, dando seqüência à agenda aberta em 1999, o DAB/MS
realiza um segundo esforço de avaliação do PSF no nível nacional,
o chamado monitoramento, iniciado em 2001. Trata-se de um
processo que ainda estava em andamento quando do fechamento
desta tese (segundo semestre de 2002), mas as conclusões que o
mesmo permitiu até então pareciam ter provocado um certo impacto
na visão das autoridades do Ministério. Alguns resultados do
referido processo, que chegou a aferir o desempenho de quase
cinco mil equipes em nove Estados, são apresentados nas linhas
seguintes (BRASIL, 2002b).
Embora as reuniões de equipe pudessem ser consideradas como
prática consolidada, elas ainda eram pouco praticadas nas equipes
mais “jovens”, ou seja, com menos de um ano de atuação. Já em relação às atividades educativas em grupo, elas não faziam parte
das práticas médicas rotineiras em 32% dos casos e mesmo das de
enfermagem, em 18%. Atividades educativas continuadas não eram
realizadas rotineiramente em percentuais apreciáveis, sendo as
principais omissões em relação aos idosos, adolescentes, escolares
e crianças lactentes.
No campo assistencial, verificou-se que imunizações de rotina
ainda não estavam implantadas em 31% das unidades, sendo a
incidência ainda maior em equipes mais novas; atendimento básico
de adultos em geral, crianças e mulheres em idade reprodutiva
ainda não era realizado rotineiramente por 13% dos médicos e 31%
dos enfermeiros, sendo tais cifras também maiores nas equipes
“novas”; 15 a 40% das ações básicas de saúde da mulher não eram
realizadas rotineiramente, correspondendo cifra maior às ações de
planejamento familiar; 18 a 46% das ações básicas de saúde da
criança não eram realizadas rotineiramente, correspondendo a
última cifra à consulta de enfermagem para doenças prevalentes.
Outras ações básicas gerais também não chegavam a ser
realizadas rotineiramente em percentuais apreciáveis, sendo as
principais omissões registradas em relação à saúde mental,
realização de glicemia, além de diagnóstico e tratamento de DST.
Da mesma forma, as ações de controle da hanseníase e da
tuberculose não eram realizadas rotineiramente, sendo as principais
omissões a falta de dispensação de medicamentos e o tratamento
supervisionado. Na vigilância epidemiológica, as ações específicas
eram freqüentemente omitidas, sendo as principais a investigação
de óbitos, a investigação hospitalar, o controle de surtos e a
investigação das doenças de notificação obrigatória.
Além disso, as dificuldades nas referências especializadas ainda
eram marcantes, tendo como principais áreas-problema a
oftalmologia, a neurologia, a saúde mental e a fisioterapia. Em
contrapartida, foram detectadas facilidades razoáveis para pronto-
atendimento, emergência e internação geral, o que demonstraria,
sem dúvida, a forma de “concorrência” do novo modelo com o
tradicional.
A partir deste estudo, mesmo diante de suas conclusões
preliminares, que não deixaram de evidenciar certas modalidades “maquiadas” de programas nos municípios, parece ter ocorrido uma
relativização ou mesmo o abandono de um discurso mais
“triunfalista” por parte das autoridades e técnicos do Ministério da
Saúde, sendo que alguns dos pronunciamentos desses atores
passaram a assumir um tom mais realista e cauteloso – até crítico –
pelo menos por parte dos escalões técnicos. O ministro da saúde,
naturalmente, já enfronhado desde o início de 2002 na campanha
para a Presidência da República, preferiu manter o enfoque
costumeiro (SERRA, 2001). Entretanto, a diretora nacional do PSF
admitiu, na entrevista concedida a este estudo, que o programa
deveria contemplar as novas realidades abertas pelas
transformações do sistema de saúde, porém “sem perder a
inflexibilidade dos princípios” e, fundamentalmente, evitando os
“programas para botar placa” que ainda se viam em alguns estados
(SOUZA, 2000).
Para finalizar a presente seção, serão apresentadas algumas
informações sobre o crescimento do PSF e do PACS, em termos
quantitativos, em busca de uma correlação com a análise qualitativa
até aqui levada a efeito.
TABELA – Evolução quantitativa do PSF e do PACS
(1994-2001)
ANO Nº Nº POPULAÇÃO COBERTA
MUNIC.C/ESF ESF(*) (x 1.000)
1994 55 328 1.132
1995 150 724 2.498
1996 228 847 2.922
1997 567 1.623 5.599
1998 1.134 3.083 10.636
1999 1.647 7.254 14.676
2000 2.766 8.604 29.684
2001 3.233 11.285 38.933
Fonte:NEGRI, 1999. Demais informações, fonte: BRASIL, 2001
(*) Equipes de Saúde da Família
Algumas outras informações disponíveis no site do Ministério da
Saúde (BRASIL, 2002d) devem ser destacadas, correspondentes ao
período transcorrido entre dezembro de 1999 e dezembro de 2000,
mostrando uma significativa evolução qualitativa do programa. São
elas: (a) o crescimento mais expressivo, tanto da incorporação de
municípios como de equipes ao PSF, que ocorreu na faixa de
cobertura “9”, ou seja, acima de 70%, o que mostra uma possível
abertura de nova tendência de crescimento; (b) o crescimento
expressivo do número de equipes em todos os portes de municípios,
da ordem de 200% em média, sobressaindo-se, entretanto, a faixa
entre 250 e 500 mil habitantes, que teve crescimento de equipes da
ordem de 323%; (c) a incorporação de municípios ao programa em
todos os portes populacionais, sendo mais expressivo nas faixas até
100 mil habitantes; (d) a cobertura populacional com maior
incremento na faixa de municípios entre 20 e 50 mil habitantes,
embora se registrem aumentos superiores ou próximos a 100% em
todas as demais faixas.
A partir das informações geradas pelo monitoramento de 2001-
2002, bem como pelas informações quantitativas disponíveis na
página do Ministério da Saúde, o que se pode inferir é a existência
de alguns percalços recentes antepostos à evolução do PSF.
Verifica-se, com efeito, um certo “achatamento” da curva de
crescimento, tanto do número de equipes, da incorporação de novos
municípios e também dos recursos disponíveis, os quais, para o
último período referido, sofreram contingenciamento e tiveram sua
execução limitada a pouco mais de 60% (BRASIL, 2001). Diante de
tais evidências, parece ter sido atenuado o discurso da
implementação acelerada, que vinha marcando as manifestações
das autoridades do Ministério da Saúde, a começar do próprio
ministro, que sempre insistira no alcance da meta de 20 mil equipes
em 2002. O novo ministro, que assumiu em março de 2002, Barjas
Negri, aparentemente optou por um discurso mais cauteloso
(NEGRI, 2002).
Síntese interpretativa
A questão de o PSF, mesmo diante de avanços incontestáveis,
ainda carecer de experimentar apreciáveis “saltos de qualidade”, foi
bastante enfatizada nas entrevistas com as autoridades e quadros
técnicos da área. Em um momento mais recente, particularmente
após os relativos revezes apresentados pelo processo de
monitoramento conduzido em 2001. Tais manifestações tornaram-
se mais freqüentes.
Alguns desses saltos de qualidade ainda por realizar foram
descritos como: “necessidade de flexibilizar”; valorizar e abrir-se
para a “riqueza das experiências”; intensificar a assessoria e
orientação aos gestores; buscar nas experiências de outros países
“aquilo que interessa”, como por exemplo na acreditação e na
qualificação dos processos de treinamento; ampliar o conhecimento
da sociedade sobre o programa, entre outros.
Em julho de 2002, a equipe técnica do DAB passou a divulgar, em
suas apresentações em eventos de saúde (BRASIL, 2002b), uma
lista formal dos desafios que se colocavam diante da completa realização dos objetivos do PSF. São eles: (a) a maior
responsabilização dos gestores e trabalhadores da saúde; (b) a
otimização da utilização dos recursos disponíveis com inserção do
PSF nas redes de serviços; (c) o desenvolvimento de uma política
de priorização dos investimentos de acordo com variáveis
epidemiológicas e gerenciais; (d) a implantação efetiva de
instrumentos de gestão, inclusive dos disponíveis (SIAB, PPI, Pacto
da Atenção Básica, por exemplo); (e) a capacitação, formação e
contratação de recursos humanos; (e) a avaliação e o
acompanhamento permanente do programa.
Como se vê, trata-se de objetivos sintonizados não só com os
achados dos estudos avaliativos conduzidos pelo DAB, como
respondem também às críticas que observadores externos têm
colocado frente à concepção e operacionalização do programa.
Os “saltos de qualidade” face aos desafios que se apresentam
não impedem que sejam computados, também, alguns avanços
substanciais ao longo da implementação do PSF. Alguns deles
tornaram-se “clássicos”, sendo constantemente reiterados nas falas
das autoridades e mesmo nas análises externas. Exemplos constam
do Quadro 6, organizado pelo autor:
QUADRO 6 – Avanços do PSF
a. Transferência do programa da FUNASA para a SAS/MS,
conferindo maior poder a seus dirigentes e mais
articulação de suas práticas com a superação de um
caráter de “programa vertical”;
b. Normatização que facultou ao programa maior qualificação
de sua atuação, como por exemplo, as portarias anteriores
à NOB 96 que estabeleceram exigências de que o PSF se
articulasse às condições de gestão do SUS, nos
municípios, de acordo com a NOB 93;
c. O conjunto normativo inaugurado pela NOB 96 que criou o
Piso da Atenção Básica e os mecanismos de
financiamento mais estáveis e intensivos para as
atividades ligadas à atenção básica;
d. O estabelecimento, por meio da Portaria 1.329/99 de
financiamento diferenciado por cobertura populacional,
que incentivou a expansão qualificada do programa, de
forma substitutiva e não mais como um processo pontual e
paralelo, além da complementação da mesma norma em
2000, com o estabelecimento de índice de cadastramento
de famílias como critério;
e. A criação dos Pólos de Capacitação em quase todos os
estados brasileiros, com repercussões notáveis na oferta
de vagas em cursos e outras atividades de capacitação
para as equipes;
f. O desenvolvimento de uma estratégia de avaliação e
mensuração de impacto do programa, que tem permitido
rever as metas e as estratégias anteriormente
estabelecidas;
g. A busca de financiamento alternativo, por exemplo junto
ao REFORSUS, procurando desenvolver projetos de
investimentos não só em termos físicos como de
qualificação de equipes e de unidades gestoras e também
a abertura de crédito junto ao Banco Mundial e outros
organismos para ampliar a incorporação do PSF nos
grandes centros urbanos (PROESF);
h. A articulação internacional do programa, obtida graças à
realização de dois Seminários Internacionais, em 1998 e
2001;
i. O incremento da visibilidade e da auto-estima das equipes
possibilitada por um conjunto numeroso de ações, entre as
quais podem ser citadas as oportunidades de capacitação
oferecidas pelos pólos; a realização de atividades de
avaliação participativa; a realização da I Mostra de
Experiências em Saúde da Família; a premiação realizada
em 2002 com a presença do Presidente da República.
Em último lugar, mas não como aspecto menos relevante, há que
se destacar a importância e a “centralidade” assumida pela questão
da atenção básica dentro do SUS, com tendência a perder seu
caráter historicamente marginal. Contribuíram para tanto eventos
diversos, de natureza política ou simplesmente normativa, como o
estabelecimento do Pacto da Atenção Básica entre os gestores dos
três níveis de governo; o desenvolvimento de um sistema de
informações específico, o SIAB; a edição do Manual da Atenção
Básica e, por último, a importância conferida ao tema dentro da
NOAS.
O Programa de Saúde da Família foi ainda alvo – ou terá sido
provocador? – de um verdadeiro amálgama das ações de saúde
coletiva no país, de caráter inédito historicamente. Trata-se de uma
nova situação, de fato, dada pela ruptura de velhas barreiras
técnicas, ideológicas e institucionais, cedendo lugar a práticas
potencialmente unificadas de saúde.
Cumpre analisar, pelo menos de forma tentativa, os marcos
daquela que teria sido, até o momento, a trajetória histórica do PSF
no Brasil. Neste intuito, foi preparado o Quadro 7, no qual são
correlacionados, ano a ano, os diversos elementos do contexto
político, dos eventos sanitários, dos processos normativos e
políticos e dos resultados alcançados pelo programa.
Evidentemente que se tratam de muitas e complexas informações para serem contidas em um simples quadro, mas o efeito que se
procura aqui é simplesmente de criar uma sinopse, já que algum
aprofundamento se obteve na análise que ora se encerra.
Ao final desta síntese interpretativa, os dados mostrados no
Quadro 7 permitiriam uma categorização do PSF por períodos ou
momentos a serem justificados a seguir. São os seguintes: (a) Era
de formulação e ensaios; (b) Era da expansão; (c) Era de
enfrentamento de desafios.
QUADRO 7– Contextos, eventos e processos relativos ao PSF
CONTEXTOS EVENTOS DA PROCESSOS RESULTADOS
SAÚDE
Pré-1993 Reforma Sanitária Programas Restritos,
Dicotomia SUDS; SUS – pioneiros (RS, pontuais
INAMPS-MS; primeiros SP); Criação do Difusão da
Impeachment movimentos; PACS (1991); idéia do PACS
de Collor; Escândalos na Formulação do
Etapa de saúde; IX PSF (1993)
transição; Conferência
Atores Nacional.
isolados,
autônomos
1993 Forças progres Reestruturação Restritos,
Governo sistas na saúde; do MS; “A pontuais
Itamar; Jamil Crise finenceira da ousadia de (iniciativas
Hadad no Saúde cumprir a lei”: locais apenas)
MS. NOB 93;
transferências
fundo a fundo;
Financiamento
convenial do
PACS
1994 Agravamento da Lançamento Ainda pouco
Governo crise financeira da oficial do PSF palpáveis
Itamar; Plano saúde (94); “A saúde
Real; “Mapa dentro de casa”
da Fome” (1º doc.
como técnico);
indicativo de Transferência
ação do de recursos ao
governo; PSF e PACS
Henri-rique por convênio ou
Santilo no MS tabelas
difeciadas
1995 1º ano Adib Jatene no MS PSF e PACS: 724 equipes e
de governo da FNS para o 2,5 milhões de
Fernando Departamento pessoas
Henrique de Assistência cobertas
Cardoso e Promoção da
Saúde da SAS
Implantação do
SIAB
1996 X Conferência NOB 96 847 equipes e
Governo FHC Nacional de Documento 2,9 milhões de
Saúde; Luta Técnico: pessoas
política pela “Saúde da cobertas
CPMF; Adib Família – uma
Jatene no MS estratégia de
organização
dos serviços de
saúde” (março
de 1996);
Primeiras
medidas
normativas
qualificadoras
do PSF
1997 Troca de Ministros Prossegue Início da
Governo da Saúde (2); regulamentação expansão
Fernando Carlos e detalhamento nacional do
Henrique Albuquerque no da NOB 96; PSF e do
Cardoso; MS Fusão PACS- PACS: 1.623
Preparação PSF; Portaria equipes e 5,6
do Governo SAS vincula milhões
FHC II criação do PSF pessoas
a instrumentos cobertas
de gestão;
Criação dos
Pólos de
Capacitação
1998 José Serra no MS; Início efetivo 3.083 equipes
Governo FHC Ativação de vigência do e 10 milhões
– ano final estratégias no MS: financiamento de pessoas
genéricos, planos pelo PAB cobertas
de saúde, atenção Portaria 1886:
básica, tabagismo, qualificação do
AIDS, etc. PSF; Manual da
Atenção Básical
Seminário
Internacional de
Saúde da
Família;
Pesquisa
Nacional de
Avaliação da
Implantação do
PSF no Brasil;
Pesquisa
Nacional Perfil
de Médicos e
Enfermeiros do
PSF
1999 Fortalecimento Primeiros 7.254 equipes
Governo FHC internacional: luta projetos de e cobertura de
II; (1º ano) contra AIDS e financiamento 14, 7 milhões
PPA; genéricos; pelo
Continuidade Enfrentamentos REFORSUS;
no MS (J. com a indústria Primeiro
Serra) farmacêutica e esforço de
planos de saúde avaliação
José Serra no MS nacional do
PSF; Cartão
SUS; Portaria
1329:
financiamento
por níveis de
cobertura DAB:
da SAS para a
SPS/MS;
Incorporação
“programas”
(tbc. hansen.,
diabetes, hipert.
etc.);
associação com
assistência
farmacêutica e
vig. alimentare
II; I Mostra de
Experiências
em SF; Pacto
da Atenção
Básica
2000 Relatório da WHO 1ª Reunião 8.604 equipes
Aprovação da coloca o Brasil em Nacional dos e 29, 6
EC 29 má situação em Pólos de milhões de
ranking entre Capacitação pessoas
nações; XI cobertas
Conferência
Nacional; José
Serra no MS
2001 – 2002 Instabilidade, Início da 15.000
Final do dossiês, etc. vigência da equipes; 50
segundo motivados pela NOAS Estudos milhões de
Governo candidatura de para pessoas
FHC; Serra Serra; implantação do cobertas pelo
candidato a Contingenciamento PSF em PSF
Presidente; de recursos; grandes centros
Crise político-Substituição no (PROESF); II
financeira do MS: sai Serra; Seminário
país; Brasil Barjas Negri no Internacional de
vai ao FMI MS Saúde da
Família; I
Encontro
Nacional de
Pólos de
Capacitação
Era de formulação e ensaios
Para fazer justiça, poderia ser denominada de forma mais
completa como a era da formulação, consolidação doutrinário-
normativa e de desenvolvimento de ensaios operativos. Iniciou-se
com os primeiros passos do PSF em 1994 e durou até o início da
implementação da NOB 96, ou seja, na prática, até o início de 1998.
Correspondeu ao desenho da política por parte do Ministério da
Saúde e definição do quadro de articulações que deram seguimento
à sua implementação.
Este momento teve correspondência com a incorporação não só
no discurso como na prática oficial, dos conceitos e das estratégias
formuladas e divulgadas nas décadas anteriores pela Academia e
pelos organismos internacionais, como, por exemplo, Atenção
Primária à Saúde, Medicina Comunitária, Promoção da Saúde,
Vigilância à Saúde, entre outras. O movimento geral que se percebe
seria, portanto, da transformação de um discurso ideológico em
ação política.
Do ponto de vista do processo político, o período foi de fortes
mudanças: procurava-se sepultar heranças e resgatar prejuízos da
relativa paralisia imposta ao sistema de saúde, não só na Era Collor
como na chamada Nova República. É nessa esteira que surgiram os
documentos do Ministério da Saúde propondo ousadia no
cumprimento da Constituição e das leis orgânicas, que vêm
desembocar na edição da NOB 93 e na decolagem de um processo
mais efetivo e coerente de implementação do SUS.
A crise política que se procurava superar tinha no componente
financeiro seu elemento mais visível e de difícil remoção. Boa parte
das energias institucionais dos primeiros anos da Era da formulação
e ensaios, ou seja, entre 1994 e 1996, foi assim consumida. Mesmo
o avivamento econômico geral proporcionado pelo Plano Real não mostrou, pelo menos de forma direta, grande impacto na saúde
nesse momento.
Se o período foi de mudanças profundas e rápidas, pautou-se
também pela relativa estabilidade política. No início, houve o grande
arco de alianças originadas do movimento Fora Collor. Em seguida,
veio a atuação poderosa do Governo Fernando Henrique Cardoso
em seu primeiro mandato, apoiado por uma base política forte, além
do uso freqüente do recurso a medidas provisórias e outros
instrumentos alternativos como estratégia decisória e legislativa.
Mesmo com as trocas de ministro (quatro entre 1993 e 1997),
demonstrando que o governo tinha dificuldades em “encontrar o
rumo” na saúde, foi possível formar um corpo estável de gerentes
técnicos à frente do PSF – verdadeiros executivos da saúde – que
vem respondendo pela linha técnica do programa durante oito anos
consecutivos. Esta tem sido, aliás, uma característica marcante do
PSF e talvez seja mesmo inédita em termos de políticas públicas no
Brasil.
A formulação doutrinária foi outra marca do período. Ela se torna
mais exuberante e mais profunda a partir de 1996, seja nos papers
de origem acadêmica, oficial ou semi-oficial (considerando que
havia e ainda há alguma mescla entre estes dois segmentos).
Nessa produção predominava, sem dúvida, um caráter de
justificativa do que já estava criado, e também – não se pode deixar
de admitir – introduzia-se uma certa sofisticação de análise, como
parte de um discurso renovado, ligado à nova saúde pública ou às
novas pautas de saúde, com ênfase em questões como as
condições de saúde e seus determinantes, vislumbrando, também,
as práticas de saúde como imbuídas de caráter social e dimensões
simultaneamente técnicas, políticas e ideológicas.
O esforço normativo no período é também digno de nota. Embora
a vigência da NOB 93 tenha se prolongado, na prática, até 1997, ou
mesmo além disso, em todo o período foi intensa a preocupação
com a edição de nova NOB, o que acabou acontecendo em 1996,
com vigência plena a partir de 1998. Da mesma forma, foram sendo
emitidos instrumentos normativos (portarias) que gradualmente
voltavam-se para a definição mais acurada de critérios de
financiamento e de qualificação do PSF.
Era de expansão
A expansão do PSF de que aqui se fala refere-se não só à
adesão numérica progressiva de municípios ao programa, que na
verdade já ocorria desde o período anterior. Ela diz respeito também
ao aprofundamento de aspectos mais qualitativos, dados, por
exemplo, pelo fato de que o arcabouço normativo e doutrinário
disponível havia se adensado bastante e também pela
inquestionável adesão ao SUS, revelada por uma verdadeira
“explosão” de habilitações de municípios às condições de gestão da
NOB 96. Teve início com a vigência de fato da NOB 96, o que na
prática ocorreu somente em 1998, prolongando-se até o ano de
2001.
Em termos de poder e articulação, o PSF teve, nesse período,
uma trajetória ascendente dentro do Ministério da Saúde, ao passar
da FUNASA para o MS e, dentro deste, assumir o status de uma
diretoria, primeiro na SAS e, depois, dentro da Secretaria de
Políticas de Saúde. Dessa forma, o programa torna-se,
gradualmente, mais visível e notório dentro e fora do setor saúde,
haja vista suas “pontes” com a Programa Comunidade Solidária,
com o REFORSUS, com Centros Formadores, e devido também à
realização de dois seminários internacionais voltados para o tema
da saúde da família.
O contexto inicial da Era de Expansão caracterizou-se pela
preparação e posterior condução do segundo mandato de Fernando
Henrique Cardoso, quando foi elaborado o documento Avança
Brasil, cujo conteúdo deu origem ao PPA – Plano de Pronta Ação
para o período 1999–2002. A figura emblemática do período foi a do
senador José Serra, com o cortejo de pretensões políticas que bem
ou mal o acompanhava em 1998, quando assumiu o Ministério da
Saúde, após a gestão pouco expressiva de Carlos Albuquerque.
A disputa por recursos, uma das marcas do período anterior, não
se arrefeceu. O incremento verificado entre 1995 e 1997 foi
frustrado por uma redução no ritmo do crescimento dos recursos
logo após. Essa foi também a era da CPMF, da PEC 169 e também
da promulgação, em 2000, da Emenda Constitucional número 29, saudada por muitos como histórica mudança de rumo para o
financiamento da saúde no país.
O grande marco normativo institucional foi a NOB 96. Seus
impactos foram de diversas naturezas, principalmente financeiras,
que se fizeram sentir com o PAB, trazendo a transferência per capita
como novo padrão referencial para o financiamento da saúde.
Surgiram também mais estabilidade nos mecanismos de alocação e
repasse, a adesão acelerada de municípios às condições de gestão
então definidas pela NOB, bem como a integração programática
possibilitada pelo PAB variável, configurando um verdadeiro “salto
qualitativo” para o sistema.
Nesse momento, a atenção básica ganhou destaque e
centralidade na política de saúde. Foram realizadas importantes
ações neste sentido, como a assinatura do Pacto da Atenção
Básica, a edição do respectivo Manual, a incorporação do DAB à
SPS, e a própria formulação da NOAS. Ocorreu também a
elaboração e a divulgação das linhas estratégicas para o quadriênio
1999-2002, mostrando o delineamento cada vez maior de um “rumo”
estratégico para o PSF. Desencadearam-se, na seqüência,
processos extensivos de monitoramento e avaliação, com a
revelação de algumas faces sombrias no programa, cujo
enfrentamento, foi iniciado, embora com certa cautela, dada à
vigência de um período complexo, em contexto eleitoral.
O padrão de adesão de municípios revelou-se em tanto desigual,
com os grandes centros não aderindo ou fazendo-o com coberturas
muito baixas. Contudo, confirmaram-se os impactos produzidos pelo
PSF, que, no entanto, tenderam a tornar-se mais sistêmicos e não
tão pontuais e localizados, como no período anterior.
Os indicadores de saúde não responderam igualmente,
principalmente no caso da mortalidade materna e no controle da
dengue, atividades sensíveis à estratégia da atenção básica que
justamente se procurava ampliar. Um relatório da OMS divulgado
em 2000 (WHO, 2000) colocou o Brasil em má situação perante
outras nações até mais pobres, mas houve pronta contestação do
governo brasileiro, com apoio acadêmico inclusive. Ainda no plano
internacional, verificou-se a afirmação da ação do Brasil em matéria de saúde, com as medidas tomadas pelo governo nas áreas de
genéricos, antitabagismo e, principalmente, AIDS.
Foi um período de metas otimistas e arrojadas: Serra queria 20
mil equipes e cobertura da metade da população brasileira durante
seu mandato. Não se chegou lá, até porque, entre outras razões,
fatores externos diversos, ligados ao mau desempenho da
economia, impuseram injunções que comprometeram o
desempenho de vários programas na área social.
É bem verdade que, cada vez mais, o programa deixou de ser
para a realidade para ser a partir da realidade, como o prova
reconhecimento oficial de padrões diferenciados de organização de
equipes e de práticas, ou “programas similares”.
No final do período, o relativo estacionamento do padrão de
incremento dos recursos produziu uma certa defasagem entre o
discurso expansionista e a realidade dos fatos, inclusive com o
contingenciamento deliberado de recursos, mostrando que as
velhas pendências e disputas entre a área social e a área
econômica do governo não estariam de todo superadas. Uma
mudança no tom do discurso das autoridades termina por ocorrer
após a saída de Serra, em março de 2002, passando de um
triunfalismo com dificuldades em encontrar sustentação nos fatos
para manifestações mais pragmáticas de uma real politik.
Era de desafios
Imitando Galbraith, esta poderia ser também chamada de uma
Era de Incerteza. E também de realismo, de enfrentamento de faces
sombrias, de priorizações, de necessidade de se definir rumos e
corrigir desacertos.
Aqui, a questão fundamental não seria mais a de formular ou
testar o programa, nem mesmo de fazer expandir sua cobertura a
todo custo. De uma forma ou de outra, estas ações já tinham sido
desenvolvidas e a própria expansão estaria condicionada ao
equacionamento de algumas das pendências não resolvidas ou
totalmente esclarecidas. Tal momento de desafios, que se inicia em
torno da virada do ano de 2001 para 2002, coincidindo com a substituição de José Serra no Ministério da Saúde, estava marcado
pela necessidade de reconsiderar as metas do programa e
promover um reajuste de seus rumos.
O contexto mostrava-se mais uma vez complexo e diverso. O
governo Fernando Henrique Cardoso rumava para seu final; a crise
da economia mais uma vez ameaçava, tanto de dentro como de fora
do País; Serra, agora afastado de Executivo, recebia uma carga de
insinuações a respeito de sua gestão, envolvendo o uso da máquina
no processo eleitoral, gasto pouco justificado ou indevido de
recursos, etc. Como pano de fundo, as revelações não de todo
meritórias ao programa originadas do processo de monitoramento
desencadeado em 2001.
No horizonte, pairavam problemas sombrios, acumulados ao
longo dos anos recentes e cuja solução fora, até então, postergada
ou não encontrada pelos tomadores de decisão na saúde:
financiamento, recursos humanos, referências, papéis dos gestores,
“maquiagem de programas”, enraizamento social precário, etc.
Assim, na era de desafios, ou de incertezas, os órgãos gestores
terão que enfrentar, mais cedo ou mais tarde, tais áreas de sombra
e suas conseqüências. Alguns dilemas a ser encarados: o programa
continuaria se expandindo sem equacionar seus problemas de
gestão interna e sem se articular de fato ao restante do sistema de
saúde, ou teria de assumir o caráter integrado e substitutivo
imaginado nos documentos oficiais? A política de recursos humanos
continuaria seguindo seu curso, com os atuais problemas de
formação, qualificação, seleção, contratação, rotatividade? Os
programas “maquiados” continuariam a proliferar e receber “placas”
das autoridades? Estados e municípios manteriam seus papéis
desencontrados na implementação da estratégia do PSF?