Sobre Histórias de Fadas

J. R. R. Tolkien · Capítulo 2 de 10

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Sobre Histórias de Fadas

Sobre Histórias de Fadas

Proponho-me a falar de histórias de fadas, embora esteja consciente de que essa é uma aventura temerária. O Belo Reino 1 é uma terra perigosa, e nela existem armadilhas para os incautos e calabouços para os demasiado audazes. E posso ser considerado demasiado audaz, porque, apesar de ter sido um amante de histórias de fadas desde que aprendi a ler e de pensar sobre elas de tempos em tempos, nunca as estudei profissionalmente. Tenho sido pouco mais do que um explorador errante (ou transgressor) nessa terra, cheio de admiração, mas não de informações.

1. No original Faërie, cuja sonoridade remete a “fair” (“belo”, em inglês). Por isso a opção por “Belo Reino”. (N. T.)

O reino das histórias de fadas é amplo, profundo e alto, repleto de muitas coisas: todas as espécies de animais e aves se encontram por lá; oceanos sem margem e estrelas incontáveis; uma beleza que é um encantamento, e um perigo sempre presente; alegrias e tristezas agudas como espadas. Um homem pode talvez se considerar afortunado por ter vagado nesse reino, mas sua riqueza e estranheza atam a língua do viajante que as queira relatar. E, enquanto ele está por lá, é perigoso que faça perguntas demais, para que não se fechem os portões e não se percam as chaves.

Há porém algumas perguntas que aquele que se propõe a falar sobre histórias de fadas precisa esperar responder, ou tentar responder, não importa o que a gente do Belo Reino pense de sua impertinência. Por exemplo: O que são histórias de fadas? Qual é sua origem? Para que servem? Tentarei dar respostas a essas perguntas - ou ao menos esboços de respostas que pude obter - com base principalmente nas próprias histórias, as poucas que conheço dentre o seu grande número.