Sobre Histórias de Fadas
Epílogo
Essa “alegria” que escolhi como sinal da verdadeira história de fadas (ou romance), ou como selo para ela, merece mais algumas considerações.
Provavelmente todo escritor que faz um mundo secundário, uma fantasia, todo subcriador, deseja em certa medida ser um criador de verdade, ou espera estar se baseando na realidade: espera que a qualidade peculiar desse mundo secundário (senão todos os detalhes)58 seja derivada da Realidade, ou flua para ela. Se conseguir de fato uma qualidade que possa ser descrita honestamente pela definição de dicionário - “consistência interna da realidade” -, é difícil conceber como isso pode acontecer se a obra não tiver algumas características da realidade. A qualidade peculiar da “alegria” na Fantasia bem-sucedida pode portanto ser explicada como um repentino vislumbre da realidade ou verdade subjacente. Não é apenas um “consolo” para o pesar do mundo, mas uma satisfação, e uma resposta à pergunta: “E verdade?” A resposta a essa pergunta que dei inicialmente foi (muito corretamente): “Se você construiu bem seu pequeno mundo, sim, é verdade nesse mundo”. Isso basta ao artista (ou à parte artística do artista). Mas na “eucatástrofe” enxergamos numa breve visão que a resposta pode ser maior - pode ser um lampejo longínquo ou eco do evangelium no mundo real. O uso dessa palavra dá uma indicação de meu epílogo. E um assunto sério e perigoso. Ê presunção minha tocar em tal tema, mas se por algum tipo de graça o que digo tiver alguma validade sob algum ponto de vista, é claro que é apenas uma faceta de uma verdade incalculavelmente rica: finita somente porque é finita a capacidade do Homem para quem isso foi feito.
58. Porque nem todos os detalhes podem ser “verdadeiros”: é raro que a “inspiração” seja tão forte e duradoura a ponto de fermentar o bolo todo e não deixar muita coisa que seja simples “invenção” não inspirada.
Eu me arriscaria a dizer que, abordando a História Cristã dessa direção, por muito tempo tive a sensação (uma sensação alegre) de que Deus redimiu as corruptas criaturas-criadoras, os homens, de maneira adequada a esse aspecto da sua estranha natureza, e também a outros. Os Evangelhos contêm uma história de fadas, ou uma narrativa maior que engloba toda a essência delas. Contêm muitas maravilhas -peculiarmente artísticas,59 belas e emocionantes: “míticas” no seu significado perfeito e encerrado em si mesmo - e entre as maravilhas está a maior e mais completa eucatástrofe concebível. Mas essa narrativa entrou para a História e o mundo primário. O desejo e a aspiração da subcriação foram elevados ao cumprimento da Criação. O Nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história do Homem. A Ressurreição é a eucatástrofe da história da Encarnação. Essa história começa e termina em alegria. Ela tem preeminentemente a “consistência interna da realidade”. Não há conto já contado que os homens mais queiram descobrir que é verdadeiro, e não há nenhum que tantos homens céticos tenham aceitado como verdadeiro por seus próprios méritos. Porque sua Arte tem o tom supremamente convincente da Arte Primária, isto é, da Criação. Rejeitá-lo leva à tristeza ou à ira.
59. Aqui a Arte está na própria história, não na narrativa, porque o Autor da história não foram os evangelistas.
Não é difícil imaginar a peculiar exaltação e alegria que sentiríamos se alguma história de fadas especialmente bela se revelasse “primariamente” verdadeira, se sua narrativa fosse História, sem com isso necessariamente perder o significado mítico ou alegórico que possuía. Não é difícil, porque não se é obrigado a tentar conceber algo de qualidade desconhecida. A alegria seria exatamente da mesma qualidade, se não do mesmo grau, da alegria proporcionada pela “virada” em uma história de fadas: uma alegria como essa tem o próprio sabor da verdade primária. (Do contrário seu nome não seria alegria.) Ela olha para a frente (ou para trás - neste contexto a direção não importa) em direção à Grande Eucatástrofe. A alegria cristã, a Gloria, é da mesma espécie, mas é preeminentemente (infinitamente, se não fosse finita nossa capacidade) elevada e jubilosa. Mas essa história é suprema, e verdadeira. A Arte foi verificada. Deus é o Senhor, dos anjos e dos homens - e dos elfos. A Lenda e a História encontraram-se e fundiram-se.
Mas no reino de Deus a presença do maior não deprecia o pequeno. O Homem redimido ainda é homem. A história e a fantasia ainda prosseguem, e devem prosseguir. O Evangelium não ab-rogou as lendas; ele as consagrou, em especial o “final feliz”. O cristão ainda precisa trabalhar, com a mente e com o corpo, sofrer, ter esperança e morrer; mas agora pode perceber que todas as suas inclinações e faculdades têm um propósito, que pode ser redimido. Ê tão grande a generosidade com que foi tratado que talvez agora possa, razoavelmente, ousar imaginar que na Fantasia ele poderá de fato auxiliar o desfolhamento e múltiplo enriquecimento da criação. Todas as histórias poderão tornar-se verdade, e no entanto, redimidas por fim, elas poderão ser tão semelhantes e dessemelhantes às formas que lhes damos como o Homem, finalmente redimido, será semelhante e dessemelhante ao decaído que conhecemos.