Sobre Histórias de Fadas
Fantasia
A mente humana é capaz de formar imagens mentais de coisas que não estão presentes de fato. A faculdade de conceber as imagens é (ou era) naturalmente chamada de Imaginação. Mas em tempos recentes, em linguagem técnica, não normal, a Imaginação muitas vezes tem sido considerada algo mais elevado do que a mera criação de imagens, atribuída às operações relacionadas a 39 Fancy (uma forma reduzida e depreciatória da palavra mais antiga Fantasy). Assim tenta-se restringir, eu deveria dizer perverter, a Imaginação ao “poder de dar a criações ideais a consistência interna da realidade”.
39. Esta palavra inglesa tem, entre outros, os significados de “idéia visionária” e “obsessão”. (N. T.)
Por mais ridículo que possa ser alguém tão pouco instruído ter uma opinião sobre esse assunto crítico, arrisco-me a considerar a distinção verbal filologicamente inapropriada e a análise, imprecisa. O poder mental de criação de imagens é uma coisa, ou aspecto, e deveria apropriadamente ser chamada de Imaginação. A percepção da imagem, a compreensão de suas implicações e o controle, que são necessários para uma expressão bem-sucedida, podem variar em vivacidade e intensidade - mas essa é uma diferença de grau de Imaginação, não de espécie. A realização da expressão, que confere (ou parece conferir) “a consistência interna da realidade”,40 é na verdade outra coisa, ou aspecto, que necessita de outro nome: Arte, o vínculo operativo entre a Imaginação e o resultado final, a Subcriação. Para meu presente objetivo preciso de uma palavra que possa englobar tanto a Arte Subcriativa em si como uma qualidade de estranheza e admiração na Expressão, derivada da Imagem: uma qualidade essencial à história de fadas. Proponho, assim, arrogar-me os poderes de Humpty Dumpty 41 e usar Fantasia para este fim: ou seja, num sentido que combine a seu uso mais antigo e elevado, como equivalente de Imaginação, os conceitos derivados de “irrealidade” (ou seja, de dessemelhança com o Mundo Primário), de liberdade de dominação dos “fatos” observados, em suma, do fantástico. Assim, estou não só consciente das conexões etimológicas e semânticas de fantasia e fantástico, mas contente com elas: imagens de coisas que não somente “não estão presentes de fato”, mas que na verdade nem podem ser encontradas em nosso mundo primário, ou que geralmente se crê que não possam ser encontradas ali. Mas, mesmo admitindo isso, não consinto o tom depreciativo. O fato de as imagens refletirem coisas que não são do mundo primário (se é que isso é possível) é uma virtude, não um vício. Creio que a fantasia (nesse sentido) não é uma forma inferior de Arte, e sim superior, de fato a forma mais próxima da pura, e portanto (quando alcançada) a mais potente.
40. Ou seja, que impõe ou induz a Crença Secundária.
41. Personagem de Aventuras de Alice no País das Maravilhas que diz: “Quando eu uso uma palavra, ela significa exatamente o que eu quero que signifique - nem mais nem menos”. (N. T.)
É claro que a Fantasia começa com uma vantagem: a estranheza cativante. Mas essa vantagem tem sido voltada contra ela, e contribuiu para seu descrédito. Muitas pessoas não gostam de ser “cativadas”. Não gostam de nenhuma interferência no Mundo Primário, ou nos pequenos vislumbres dele que lhes são familiares. Portanto, elas confundem, de forma obtusa e até mal-intencionada, a Fantasia com o Sonho, no qual não existe Arte,42 e com distúrbios mentais, nos quais não existe nem mesmo controle, como a ilusão e a alucinação.
42. Isso não vale para todos os sonhos. Em alguns a Fantasia parece participar. Mas isso é exceção. A fantasia é uma atividade racional, não irracional.
Mas o erro ou a má intenção, engendrados pela inquietação e conseqüente aversão, não são a única causa dessa confusão. A Fantasia também tem uma desvantagem essencial: é difícil de alcançar. Ela pode ser, na minha opinião, não menos, e sim mais subcriativa, mas de qualquer modo descobre-se na prática que “a consistência interna da realidade” torna-se mais difícil de produzir quanto mais as imagens e os rearranjos do material primário forem diferentes dos arranjos reais do Mundo Primário. E mais fácil produzir esse tipo de “realidade” com material mais “sóbrio”. Portanto, com demasiada freqüência a Fantasia permanece rudimentar. Ela é e tem sido usada frivolamente, ou apenas de maneira quase séria, ou só como decoração: ela permanece apenas “fantasiosa”. Qualquer pessoa que tenha herdado o fantástico dispositivo da linguagem humana pode dizer o sol verde. Muitos podem então imaginá-lo ou concebê-lo. Mas isso não é suficiente - apesar de já poder ser algo mais potente do que muitos “breves esboços” ou “reproduções da vida” que recebem louvores literários.
Fazer um Mundo Secundário dentro do qual o sol verde seja verossímil, impondo a Crença Secundária, provavelmente exigirá trabalho e reflexão, e certamente demandará uma habilidade especial, uma espécie de destreza élfica. Poucos se arriscam a uma tarefa tão difícil. Mas, quando elas são tentadas e executadas em algum grau, então temos uma rara realização da Arte: na verdade, a arte narrativa, a criação de histórias em seu modo primário e mais potente.
Na arte humana a Fantasia é algo que deve ser deixado a cargo das palavras, da verdadeira literatura. Na pintura, por exemplo, a apresentação visível da imagem fantástica é tecnicamente fácil demais - a mão tende a exceder a mente, até mesmo derrubá-la. 43 Freqüentemente o resultado é banal ou mórbido. É um infortúnio que o Teatro, uma arte fundamentalmente diversa da Literatura, seja tão comumente contemplado juntamente com ela, ou como um ramo dela. Dentre esses infortúnios podemos citar a depreciação da Fantasia, que, pelo menos em parte, é devida ao desejo natural dos críticos de exaltar as formas de literatura ou “imaginação” que eles próprios preferem, de modo inato ou por treinamento. E a crítica num país que produziu um Drama tão relevante e possui as obras de William Shakespeare tende a ser demasiado dramática. Mas o Teatro é naturalmente hostil à Fantasia. Ela, mesmo do tipo mais simples, raramente tem êxito no Drama quando este é mostrado como deve ser, representado de forma visível e audível. As formas fantásticas não podem ser falsificadas. Homens vestidos de animais falantes podem redundar em bufonaria ou mimetismo, mas não alcançam a Fantasia. Isso, penso, é bem ilustrado pelo fracasso de sua forma bastarda, a pantomima. Quanto mais próxima da “história de fadas dramatizada”, pior ela é. Só é tolerável quando o enredo e sua fantasia se reduzem a uma mera estrutura vestigial para a farsa, e não se exige nem espera de ninguém a “crença” em qualquer parte da representação. Isso, é claro, deve-se em parte ao fato de que os produtores de teatro precisam, ou tentam, trabalhar com mecanismos para representar a Fantasia ou a Magia. Certa vez assisti a uma chamada “pantomima infantil”, a história do Gato de Botas, que tinha até a metamorfose do ogro em um camundongo. Caso tivesse havido um êxito mecânico, teria aterrorizado os espectadores ou então teria sido apenas um truque de prestidigitação de alta classe. Da forma como foi feito, apesar de alguma habilidade na iluminação, a incredulidade não foi tanto suspensa quanto enforcada, estripada e esquartejada.
43. Ver Nota E ao final (p. 85).
Em Macbeth, ao ler a peça, acho as feiticeiras toleráveis: elas têm função narrativa e uma alusão de sinistro significado; no entanto são vulgarizadas, pobres representantes de sua espécie. Na peça são quase intoleráveis. Seriam totalmente intoleráveis se eu não fosse fortalecido por alguma lembrança de como são no texto. Dizem-me que eu me sentiria diferente se pensasse como as pessoas daquela época, com suas caçadas e julgamentos de feiticeiras. Mas isso equivale a dizer: se eu considerasse as feiticeiras possíveis, de fato prováveis, no Mundo Primário; em outras palavras, se elas deixassem de ser “Fantasia”. Esse argumento me dá razão. Ser dissolvida, ou degradada, é a sina provável da Fantasia quando um dramaturgo tenta usá-la, mesmo um dramaturgo como Shakespeare. Macbeth é de fato uma obra de arte de um teatrólogo que deveria, pelo menos naquela ocasião, ter escrito uma narrativa, caso tivesse habilidade ou paciência para essa arte.
Creio que uma razão mais importante do que a inadequação dos efeitos de palco é esta: o Teatro, por sua própria natureza, já empreende uma espécie de magia falsa, digamos pelo menos substituta - a apresentação visível e audível de pessoas imaginárias numa história. Isso, por si só, é uma tentativa de falsificar a varinha do mágico. Introduzir fantasia ou magia adicional nesse mundo secundário quase mágico, mesmo com sucesso mecânico, é exigir algo como um mundo interno ou terciário. É um exagero. Pode até não ser impossível conseguir algo assim. Nunca o vi conseguido com êxito. Mas no mínimo não pode ser considerado a forma apropriada de Teatro, em que pessoas que caminham e falam são os instrumentos naturais da Arte e da ilusão.44
44. Ver Nota F ao final (p. 86).
Por este exato motivo - que no Teatro os personagens, e mesmo as cenas, não são imaginados, e sim contemplados de fato -, o Drama, apesar de usar material semelhante (palavras, versos, enredo), é uma arte fundamentalmente diferente da arte narrativa. Assim, se preferirmos o Teatro à Literatura (como fazem muitos críticos literários), ou formarmos nossas teorias críticas principalmente a partir dos críticos dramáticos, ou mesmo do Drama, estaremos sujeitos a compreender mal a pura criação de histórias e a restringi-la às limitações das peças de teatro. Por exemplo, provavelmente preferiremos os personagens, mesmo os mais ordinários e obtusos, aos objetos. Numa peça pode-se incluir muito pouca coisa a respeito de árvores como árvores.
Já o “Drama do Belo Reino” - aquelas peças que, conforme abundantes registros, os elfos muitas vezes apresentavam aos homens - é capaz de produzir Fantasia com um realismo e um caráter imediato que ultrapassam os limites de qualquer mecanismo humano. Como conseqüência, seu efeito usual (sobre um homem) é ir além da Crença Secundária. Se presenciarmos um drama do Belo Reino, nós estaremos, ou pensaremos estar, pessoalmente dentro de seu Mundo Secundário. A experiência pode ser muito semelhante ao Sonho, e às vezes (pelos homens) tem sido (ao que parece) confundida com ele. Mas no drama do Belo Reino estamos em um sonho que outra mente está tecendo, e o conhecimento desse fato alarmante pode escapar à nossa compreensão. Ao experimentar diretamente um Mundo Secundário, a poção é forte demais, e nós a atribuímos à Crença Primária, não importa quão maravilhosos sejam os acontecimentos. Somos iludidos - se é essa a intenção dos elfos (sempre ou a qualquer tempo), é outra questão. Seja como for, eles mesmos não se iludem. Para eles essa é uma forma de Arte, distinta da Mágica ou da Magia propriamente dita. Eles não vivem nela, apesar de talvez serem capazes de gastar mais tempo com ela do que os artistas humanos. O Mundo Primário, a Realidade, é o mesmo para elfos e homens, ainda que valorizado e percebido de modo diverso. Precisamos de uma palavra para essa destreza élfica, mas todas as palavras que lhe têm sido aplicadas foram obscurecidas e confundidas com outras coisas. Magia é uma que se apresenta prontamente, e já a utilizei anteriormente (p. 16), mas não devia tê-lo feito. Ela deveria ser reservada para as operações do Mágico. A Arte é o processo humano que produz Crença Secundária como subproduto (esse não é seu objeto único nem final). Os elfos também conseguem usar Arte da mesma espécie, se bem que mais habilmente e sem esforço - é o que parecem mostrar os relatos. Mas chamarei de Encantamento a destreza mais potente, especialmente élfica, por falta de palavra menos discutível. O Encantamento produz um Mundo Secundário no qual podem entrar tanto o planejador quanto o espectador, para satisfação de seus sentidos enquanto estão dentro; mas em estado puro ele é artístico por desejo e propósito. A Magia produz, ou finge produzir, uma alteração no Mundo Primário. Não importa quem se diga que a pratique, fada ou mortal, ela permanece distinta - não é arte, e sim técnica, seu desejo neste mundo é poder, dominação dos objetos e das vontades.
A Fantasia aspira à destreza élfica, o Encantamento, e quando bem-sucedida aproxima-se mais dele do que todas as formas da arte humana. No coração de muitas histórias de elfos feitas pelos homens reside, aberto ou oculto, puro ou misturado, o desejo por uma arte subcriativa viva e realizada, que (por muito que se lhe assemelhe no exterior) é internamente bem diferente da avidez por poder centrado em si mesmo que é o sinal do simples Mágico. E desse desejo que os elfos, em sua melhor parte (mas ainda assim perigosa), são feitos principalmente. E é deles que podemos aprender o desejo e a aspiração central da Fantasia humana - mesmo que os elfos sejam, e ainda mais na medida em que sejam, somente um produto da própria Fantasia. O desejo criativo só é enganado por imitações, sejam os artifícios, inocentes, mas desajeitados, do dramaturgo humano, sejam as fraudes malévolas dos mágicos. Nesse mundo, para os homens, ele é impossível de ser satisfeito, e portanto imperecível. Incorrupto, ele não busca ilusão nem feitiço ou dominação, mas enriquecimento compartilhado, parceiros no fazer e no deleite, não escravos.
A muitos a Fantasia, essa arte subcriativa que prega estranhas peças ao mundo e a tudo o que há nele, combinando substantivos e redistribuindo adjetivos, parece suspeita, se não ilegítima. A alguns ela parece no mínimo uma tolice infantil, algo que só serve para povos ou pessoas em sua juventude. Sobre sua legitimidade nada mais farei do que citar um breve trecho de uma carta que certa vez escrevi a um homem que descreveu o mito e a história de fadas como “mentiras”. Para ser justo com ele, no entanto, devo dizer que foi bondoso e gentil o bastante para chamar a criação de histórias de fadas de “Sussurrar uma mentira através da Prata”.
“Dear Sir,” I said - “Although now long estranged, Man is not wholly lost nor wholly changed. Dis-graced he may be, yet is not de-throned, and keeps the rags of lordship once he owned: Man, Sub-creator, the refracted Light through whom is splintered from a single White to many hues, and endlessly combined in living shapes that move from mind to mind. Though ail the crannies of the world we filled with Eives and Goblins, though we dared to build Gods and their houses out of dark and light, and sowed the seed of dragons - 'twas our right (used or misused). That right has not decayed: we make still by the law in which were made.” 45
45. “Meu caro”, eu disse, “Embora alheado, / o Homem não é perdido nem mudado. / Sem graça, sim, porém não sem seu trono, / tem restos do poder de que foi dono: / Subcriador, o que a Luz desata / e de um só Branco cores mil refrata / que se combinam, variações viventes / e formas que se movem entre as mentes. / Se deste mundo as frestas ocupamos / com Elfos e Duendes, se criamos / 1 Deuses, seus lares, treva e luz do dia, / dragões plantamos - nossa é a regalia / (boa ou má). Não morre esse direito: / eu faço pela lei na qual sou feito”. (N. T.)
A Fantasia é uma atividade humana natural. Certamente ela não destrói, muito menos insulta, a Razão; e não abranda o apetite pela verdade científica nem obscurece a percepção dela. Ao contrário. Quanto mais aguçada e clara for a razão, melhor fantasia produzirá. Se os homens estivessem num estado em que não quisessem conhecer ou não pudessem perceber a verdade (fatos ou evidências), então a Fantasia definharia até que eles se curassem. Se chegarem a atingir esse estado (o que não parece ser impossível), a Fantasia perecerá e se transformará em Ilusão Mórbida.
A Fantasia criativa está fundamentada no firme reconhecimento de que as coisas são assim no mundo como este aparece sob o Sol, no reconhecimento do fato, mas não na escravidão perante ele. Assim foi fundamentado na lógica o contra-senso que se exibe nos contos e poemas de Lewis Carroll. Se as pessoas realmente não conseguissem distinguir entre sapos e homens, não teriam surgido histórias de fadas sobre reis sapos.
É claro que a Fantasia pode ser levada ao excesso. Pode ser malfeita. Pode ser empregada para maus usos. Pode até mesmo iludir as mentes das quais surgiu. Mas de que coisa humana neste mundo decaído isso não é verdade? Os homens não somente conceberam elfos, mas imaginaram deuses, e os adoraram, adoraram até mesmo aqueles mais deformados pelo mal de seu próprio autor. Mas fizeram falsos deuses a partir de outros materiais: suas opiniões, seus estandartes, seus dinheiros - até suas ciências e suas teorias sociais e econômicas demandaram sacrifício humano. 46 Abusus non tollit usum. A
Fantasia continua sendo um direito humano: fazemos em nossa medida e em nosso modo derivativo, porque somos feitos, e não somente feitos, mas feitos à imagem e semelhança de um Criador.
46. “O abuso não prejudica o uso.” (N. E.)