Sobre Histórias de Fadas

J. R. R. Tolkien · Capítulo 4 de 10

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Sobre Histórias de Fadas

Origens

Na verdade a pergunta “Qual é a origem do elemento fantástico?” nos coloca, em última análise, na mesma indagação fundamental. Há entretanto muitos elementos nos contos de fadas (como aquele coração destacável, ou mantos de cisne, anéis mágicos, proibições arbitrárias, madrastas malvadas e até as próprias fadas) que podem ser estudados sem atacar essa questão principal. Tais estudos porém são científicos (pelo menos na intenção), são ocupação de folcloristas ou antropólogos, isto é, de pessoas que usam as histórias não como se pretendia que fossem usadas, mas como uma fonte da qual possam extrair evidências ou informações sobre assuntos que lhes interessam. Um processo perfeitamente legítimo por si só - mas a ignorância ou o esquecimento da natureza de uma história (como coisa contada por inteiro) muitas vezes levou tais pesquisadores a estranhos julgamentos. Para investigadores dessa espécie, semelhanças recorrentes (como essa questão do coração) parecem especialmente importantes. Tanto é assim que estudiosos do folclore se arriscam a se desviar do seu próprio caminho ou se expressar numa “taquigrafia” enganosa - especialmente enganosa se ela escapar de suas monografias e entrar em livros sobre literatura. Eles tendem a dizer que duas histórias construídas em torno do mesmo motivo folclórico, ou constituídas de uma combinação geralmente semelhante de tais motivos, são “a mesma história”. Lemos que Beowulf “é apenas uma versão de Dat Erdmänneken”; que “O Touro Negro de Norroway é A Bela e a Fera”, ou “é a mesma história que Eros e Psiquê”; que a Donzela-Mestra nórdica (ou a Batalha dos Pássaros 21 gaélica e seus muitos congêneres e variantes) é “a mesma história que o conto grego de Jasão e Medéia”.

21. Ver Campbell, op. cit., vol. i.

Afirmações desse tipo podem até expressar (numa abreviação indevida) alguma verdade, mas não são verdadeiras no sentido das histórias de fadas, não são verdadeiras em termos de arte ou literatura. São precisamente o colorido, a atmosfera, os inclassificáveis detalhes individuais de uma história e, acima de tudo, o teor geral que dotam de vida os ossos não dissecados do enredo, que realmente fazem a diferença. O Rei Lear, de Shakespeare, não é a mesma história de Layamon em seu Brut. Ou, tomando o caso extremo de Chapeuzinho Vermelho, é de interesse meramente secundário o fato de as versões recontadas da história, em que a garotinha é salva pelos lenhadores, derivarem diretamente da narrativa de Perrault, em que ela é devorada pelo lobo. O que realmente importa é que a versão posterior tem um final feliz (mais ou menos, se não nos condoermos demais da vovó) e que a versão de Perrault não tinha. E essa é uma diferença muito profunda, à qual hei de retornar.

É claro que não nego, porque o sinto fortemente, o fascínio do desejo de elucidar a história intrincadamente emaranhada e ramificada dos galhos da Arvore dos Contos. Ela tem uma ligação muito próxima com o estudo filológico da confusa meada da Linguagem, da qual conheço alguns pedacinhos. Mas, mesmo no que diz respeito à linguagem, parece-me que a qualidade e as aptidões essenciais de certa língua enquanto ainda está viva são mais importantes de capturar e muito mais difíceis de explicitar do que sua história linear. Sendo assim, no que se refere às histórias de fadas, acho que é mais interessante, e também mais difícil a seu modo, considerar o que elas são, o que se tornaram para nós e quais valores os longos processos alquímicos do tempo produziram nelas. Nas palavras de Dasent eu diria: “Temos que nos satisfazer com a sopa que nos servem, e não querer ver os ossos do boi com que foi fervida.”22 No entanto, estranhamente, ao dizer “sopa”, Dasent se referia a uma mixórdia de pré-história espúria fundamentada nas conjeturas primitivas da Filologia Comparada, e com “querer ver os ossos” tinha a intenção de expressar a necessidade de enxergar as operações e as provas que levaram a essas teorias. Como “sopa” eu me refiro à história tal como é servida por seu autor ou narrador e como “ossos”, a suas fontes ou seu material - mesmo quando (por rara sorte) possam ser descobertos com certeza. Mas é claro que não proíbo a crítica da sopa como sopa.

22. Contos Populares Nórdicos, p. xviii.

Portanto, abordarei apenas de passagem a questão das origens. Sou demasiado ignorante para lidar com ela de algum outro modo, mas das três perguntas essa é a menos importante para meus propósitos, e bastarão algumas observações. É bem evidente que as histórias de fadas (no sentido mais amplo ou mais restrito) são de fato muito antigas. Coisas semelhantes a elas aparecem em registros muito primitivos e são encontradas universalmente onde quer que exista linguagem. Assim, obviamente estamos diante de uma variante do problema encontrado pelo arqueólogo ou pelo filólogo comparativo: o debate entre evolução (ou melhor invenção) independente dos semelhantes, herança de um antepassado comum e difusão, em várias épocas, de um ou mais centros. A maioria dos debates se baseia em uma tentativa (de um lado ou de todos) de simplificação em excesso, e não suponho que isso seja exceção. A história dos contos de fadas provavelmente é mais complexa do que a da raça humana, e tão complexa quanto a da linguagem humana. Todas as três coisas - invenção independente, herança e difusão - evidentemente tiveram seu papel na produção da intrincada teia das Histórias. Desemaranhá-la agora está além de qualquer habilidade que não seja a dos elfos. 23 Das três, a invenção é a mais importante e fundamental, e portanto (não é de surpreender) também a mais misteriosa. As outras duas terão que retornar, no fim, a um inventor, ou seja, um criador de histórias. A difusão (empréstimo no espaço), seja de um artefato ou de uma narrativa, só remete o problema da origem para outro lugar. No centro da suposta difusão há um lugar onde outrora viveu um inventor. O que é similar à herança (empréstimo no tempo): desse modo, por fim, chegamos somente a um inventor ancestral. Caso acreditemos que às vezes tenha ocorrido a criação independente de idéias, temas e esquemas semelhantes, simplesmente multiplicamos o inventor ancestral, mas sem com isso compreender mais claramente seu dom.

23. Exceto em casos especialmente felizes, ou em alguns detalhes ocasionais. Na verdade é mais fácil desemaranhar um único fio – um incidente, um nome, um motivo - do que rastrear a história de alguma imagem definida por muitos fios. Isso porque a imagem na tapeçaria introduziu um novo elemento: a imagem é maior do que a soma dos fios componentes, e não explicada por eles. Aí reside a fragilidade inerente ao método analítico (ou “científico”): ele descobre muito sobre coisas que ocorrem nas narrativas, mas pouco ou nada sobre seu efeito numa determinada narrativa.

 

A filologia foi destronada do lugar elevado que ocupava neste tribunal de inquérito. A opinião de Max Müller, a visão da mitologia como “doença da linguagem”, pode ser abandonada sem remorso. A mitologia não é nenhuma doença, porém pode adoecer, como todas as coisas humanas. Da mesma forma alguém poderia dizer que o pensamento é uma doença da mente. Estaria mais próximo da verdade dizer que as línguas, em especial as européias modernas, são uma doença da mitologia. Mas ainda assim a Linguagem não pode ser descartada. A mente encarnada, a língua e o conto são contemporâneos em nosso mundo. A mente humana, dotada dos poderes de generalização e abstração, não vê apenas grama verde, discriminando-a de outras coisas (e contemplando-a como bela), mas vê que ela é verde além de ser grama. Mas quão poderosa, quão estimulante para a própria faculdade que a produziu, foi a invenção do adjetivo: nenhum feitiço ou mágica do Belo Reino é mais potente. E isso não é de surpreender: tais encantamentos de fato podem ser vistos apenas como uma outra visão dos adjetivos, uma parte do discurso numa gramática mítica. A mente que imaginou leve, pesado, cinzento, amarelo, imóvel, veloz também concebeu a magia que tornaria as coisas pesadas leves e capazes de voar, transformaria o chumbo cinzento em ouro amarelo e a rocha imóvel em água veloz. Se era capaz de fazer uma coisa, podia fazer a outra, e inevitavelmente fez ambas. Quando podemos abstrair o verde da grama, o azul do céu e o vermelho do sangue, já temos o poder de um encantador em um determinado plano, e o desejo de manejar esse poder no mundo externo vem a nossa mente. Isso não significa que usaremos bem esse poder em qualquer plano. Podemos pôr um verde mortal no rosto de um homem e produzir horror, podemos fazer reluzir a rara e terrível lua azul, ou podemos fazer com que os bosques irrompam em folhas de prata e os carneiros tenham pelagem de ouro, e pôr o fogo quente no ventre do réptil frio. Mas numa “fantasia”, tal como a chamamos, surge uma nova forma: o Belo Reino vem à tona, o Homem se torna subcriador.

Assim, um poder essencial do Belo Reino é o de tornar as visões da “fantasia” imediatamente efetivas através da vontade. Nem todas são belas, nem mesmo salutares, certamente não as fantasias do Homem decaído. E ele maculou os elfos que têm esse poder (em verdade ou fábula) com sua própria mácula. Este aspecto da “mitologia” - a subcriação, não a representação ou interpretação simbólica das belezas e dos terrores do mundo - é muito pouco considerado, em minha opinião. Será porque é mais visto no Belo Reino do que no Olimpo? Porque se imagina que pertence à “mitologia inferior”, não à “superior”? Tem havido muito debate a respeito das relações entre essas coisas, o conto popular e o mito, mas, mesmo que não tivesse havido debate, a questão exigiria atenção em qualquer consideração das origens, ainda que fosse breve.

Em certa época uma opinião dominante era a de que todos esses assuntos derivavam de “mitos da natureza”. Os olímpicos eram personificações do Sol, da aurora, da noite e assim por diante, e todas as histórias contadas sobre eles eram originalmente mitos (alegorias seria uma palavra melhor) das grandes mudanças elementais e dos processos da natureza. Então o épico, a lenda heróica e a saga localizavam essas narrativas em lugares reais e as humanizavam, atribuindo-as a heróis ancestrais, mais poderosos do que homens e no entanto já homens. E finalmente essas lendas, ao minguarem, transformaram-se em contos populares, 24 Märchen, histórias de fadas - contos infantis.

24. “Contos de fadas” em alemão (N. T.)

Isso parece ser a verdade quase de cabeça para baixo. Quanto mais próximo o chamado “mito da natureza”, ou alegoria dos grandes processos da natureza, está de seu suposto arquétipo, menos interessante ele é e menos se torna capaz de proporcionar qualquer esclarecimento sobre o mundo. Presumamos por um momento, como presume esta teoria, que de fato não exista nada que corresponda aos “deuses” da mitologia: nenhuma personalidade, apenas fenômenos astronômicos ou meteorológicos. Então esses fenômenos naturais só poderão ser adornados com significado e glória pessoal através de um dom, o dom de uma pessoa, de um homem. A personalidade só pode derivar de uma pessoa. Os deuses podem derivar sua cor e sua beleza dos sublimes esplendores da natureza, mas foi o Homem que os obteve para ele, os abstraiu do Sol, da Lua e da nuvem; eles obtêm sua personalidade diretamente dele, recebem dele sua sombra ou centelha de divindade desde o mundo invisível, o Sobrenatural. Não há distinção fundamental entre as mitologias superior e inferior. Sua gente vive, se é que vive, compartilhando a mesma vida, exatamente como os reis e os camponeses no mundo mortal.

Tomemos algo que parece um caso evidente de mito da natureza olímpico: o deus nórdico Thórr. Seu nome é Trovão, Thórr em nórdico, e não é difícil interpretar seu martelo, Miöllnir, como o raio. No entanto Thórr tem (até onde alcançam nossos registros tardios) um caráter, ou personalidade, bem marcante, que não se encontra no trovão nem no raio, apesar de alguns detalhes poderem de certo modo ser relacionados com esses fenômenos naturais: por exemplo sua barba ruiva, sua voz possante e seu temperamento violento, sua força precipitada e destrutiva. Ainda assim é fazer uma pergunta sem muito sentido se indagarmos: o que veio primeiro, as alegorias naturais sobre um trovão personalizado nas montanhas, partindo rochas e árvores, ou narrativas sobre um fazendeiro de barba ruiva, irascível e não muito esperto, de força além da medida comum, uma pessoa (em tudo menos na mera estatura) muito semelhante aos fazendeiros do Norte, os baendr, por quem Thórr era especialmente adorado? Pode-se considerar que Thórr “minguou” até chegar à imagem de um homem assim ou que o deus foi ampliado a partir dela. Mas duvido que qualquer uma dessas visões esteja correta - não isoladamente, não se insistirmos em que uma dessas coisas tem que preceder a outra. É mais razoável supor que o fazendeiro apareceu no mesmo momento em que o Trovão adquiriu voz e rosto, que havia um rugido distante de trovão nas colinas todas as vezes que um contador de histórias ouvia um fazendeiro furioso.

É claro que Thórr precisa ser reconhecido como membro da mais alta aristocracia mitológica: um dos soberanos do mundo. No entanto a história que se conta dele no Thrymskvitha (na Edda Antiga) é certamente apenas uma história de fadas. É antiga, no que concerne a poemas nórdicos, mas não muito (digamos, o ano 900 ou um pouco antes neste caso). Porém não há motivo real para supor que esse conto seja “não primitivo”, ao menos por sua qualidade, ou seja, por pertencer à espécie dos contos populares e não dos considerados nobres. Se pudéssemos recuar no tempo, descobriríamos que a história mudaria nos detalhes, ou que daria lugar a outros contos. Mas sempre haveria um “conto de fadas” enquanto houvesse um Thórr. Quando acabasse o conto de fadas, haveria apenas o trovão, que nenhum ouvido humano jamais escutara.

Ocasionalmente vislumbra-se na mitologia algo realmente “mais elevado”: a Divindade, o direito ao poder (diverso da sua posse), a devida adoração; na verdade, “religião”. Andrew Lang disse, e alguns ainda o elogiam por dizê-lo, 25 que mitologia e religião (no sentido estrito da palavra) são duas coisas distintas que ficaram inextricavelmente enredadas, apesar de a mitologia em si ser quase isenta de significado religioso. 26

25. Por exemplo Christopher Dawson em Progress and Religion. 26. Isso é demonstrado pelo estudo mais cuidadoso e compreensivo dos povos “primitivos”, ou seja, dos povos que ainda vivem num paganismo herdado, que não são, como dizemos, civilizados. Uma busca apressada encontra somente seus contos mais selvagens; um exame mais detalhado acha seus mitos cosmológicos; só a paciência e o conhecimento interior descobrem sua filosofia e religião: o verdadeiramente venerável, de que os “deuses” não são necessariamente uma corporificação, ou o são apenas em medida variável (freqüentemente decidida pelo indivíduo).

No entanto essas coisas de fato ficaram enredadas. Ou talvez tenham sido separadas muito tempo atrás e desde então tenham voltado devagar - às apalpadelas, através de um labirinto de erros, em meio à confusão - até chegar à refusão. Mesmo as histórias de fadas como um todo têm três faces: a Mística, voltada ao Sobrenatural; a Mágica, voltada à Natureza; e o Espelho de desdém e compaixão, voltado ao Homem. A face essencial do Belo Reino é a do meio, a Mágica. Mas o grau em que as outras aparecem (se é que aparecem) é variável, e pode ser decidido pelo contador de histórias. A Mágica, a história de fadas, pode ser usada como um Mirour de l'Omme, bem como (mas não tão facilmente) ser transformada em veículo do Mistério. Pelo menos foi isso que tentou George MacDonald, criando narrativas de poder e beleza quando teve êxito, como em A Chave Dourada (que ele chamou de conto de fadas); e mesmo quando fracassou parcialmente, como em Lilith (que ele chamou de romance).

Voltemos por um momento à “Sopa” que mencionei anteriormente. Ao falar da história das narrativas, e especialmente das histórias de fadas, podemos dizer que a Panela de Sopa, o Caldeirão das Histórias, estava sempre fervendo, e que lhe foram continuamente acrescentados novos bocados, saborosos ou não. Por esse motivo, tomando um exemplo fortuito, o fato de uma narrativa semelhante àquela conhecida por A Menina dos Gansos (Die Gänsemagd em Grimm) ser contada no século XIII tendo como foco Berta Pés Grandes, mãe de Carlos Magno, na verdade nada prova em ambos os sentidos: nem que a história (no século XIII) estava descendo do Olimpo ou de Asgard por meio de um antigo rei, já lendário e a caminho de se tornar um Hausmärchen, nem que estava em ascensão. Encontramos a história bastante difundida, sem qualquer ligação com a mãe de Carlos Magno ou outro personagem histórico. Certamente não podemos deduzir desse fato por si só que não existe verdade em relação à mãe de Carlos Magno, mas esse é o tipo de dedução que mais freqüentemente se faz desse tipo de evidência. A opinião de que a história não é verdadeira no que se refere a Berta Pés Grandes precisa basear-se em algo diferente: em características da narrativa que a filosofia do crítico não admite serem possíveis na “vida real”, de forma que ele efetivamente duvidaria da história mesmo que ela não fosse encontrada em nenhum outro lugar; ou basear-se na existência de boa evidência histórica de que a verdadeira vida de Berta foi bem diferente, de forma que se duvidaria da história mesmo que sua filosofia admitisse que ela seria perfeitamente possível na “vida real”. Ninguém, imagino, desacreditaria uma história contando que o arcebispo de Canterbury escorregou numa casca de banana só por saber que já fora relatado um infortúnio cômico semelhante envolvendo muitas pessoas, em especial cavalheiros idosos e respeitáveis. Duvidaria da história se descobrisse que nela um anjo (ou mesmo uma fada) avisara o arcebispo de que escorregaria se usasse polainas numa sexta-feira. Poderia também duvidar dela se afirmassem que ocorreu, digamos, no período entre 1940 e 1945. Chega disto. E um argumento óbvio, e já foi usado antes. Mas arrisco-me a repeti-lo (apesar de ser um pouco alheio ao meu objetivo atual), porque é constantemente negligenciado pelos que se ocupam das origens dos contos.

Mas e a casca de banana? Nossa ocupação com ela realmente começa apenas quando é rejeitada pelos historiadores. Ela é mais útil quando jogada fora. O historiador provavelmente diria que a história da casca de banana “vinculou-se ao arcebispo”, assim como diz, com boa evidência, que “o Märchen da Menina dos Gansos vinculou-se a Berta”. Essa forma de expressar-se é bastante inofensiva, no que comumente se conhece por “história”. Mas será de fato uma boa descrição do que está acontecendo, e aconteceu, na história da criação de narrativas? Acho que não. Creio que seria mais verossímil dizer que o arcebispo se vinculou à casca de banana, ou que Berta foi transformada na Menina dos Gansos. Ainda melhor: diria que a mãe de Carlos Magno e o arcebispo foram postos na Panela, na verdade entraram na Sopa. Foram apenas novos bocados adicionados ao caldo. Uma honra considerável, porque nessa sopa havia muitas coisas mais antigas, mais potentes, mais belas, cômicas ou terríveis do que eles próprios (considerados simplesmente vultos históricos).

Parece bastante evidente que Artur, outrora histórico (mas talvez não muito importante como tal), também foi posto na Panela. Lá foi fervido por muito tempo, juntamente com muitos outros vultos e artifícios mais antigos, da mitologia e do Belo Reino, e até com alguns outros ossos esparsos da história (como a defesa de Alfred contra os dinamarqueses), até emergir como um rei do Belo Reino. A situação é semelhante na grande corte nórdica “arturiana” dos Reis dos Escudos da Dinamarca, os Scyldingas da antiga tradição inglesa. O rei Hrothgar e sua família têm muitas marcas manifestas de história verdadeira, muito mais do que Artur, e no entanto mesmo nos relatos (ingleses) mais antigos eles são associados a muitos vultos e eventos das histórias de fadas: estiveram na Panela. Mas me refiro agora aos remanescentes dos mais antigos contos ingleses registrados do Belo Reino (ou de suas fronteiras), a despeito de serem pouco conhecidos na Inglaterra, não para discutir a transformação do menino-urso no cavaleiro Beowulf, nem para explicar a intrusão do ogro Grendel no salão real de Hrothgar. Dessas tradições desejo destacar algo mais: um exemplo singularmente sugestivo da relação entre o “elemento do conto de fadas” e homens anônimos, deuses e reis, ilustrando (creio) a opinião de que esse elemento nem sobe nem desce, mas está lá, no Caldeirão das Histórias, esperando pelos grandes vultos do Mito e da História e pelo Ele ou Ela ainda sem nome, esperando pelo momento no qual serão lançados no ensopado em lenta fervura, um por um ou todos juntos, sem levar em conta dignidade nem precedência.

O grande inimigo do rei Hrothgar era Froda, rei dos Heathobards. No entanto ouvimos ecos de uma estranha história sobre Freawaru, filha de Hrothgar - não uma história usual das lendas heróicas nórdicas: o filho do inimigo de sua casa, Ingeld, filho de Froda, apaixonou-se por ela e, desastrosamente, com ela se casou. Mas isso é extremamente interessante e significativo. No segundo plano da antiga disputa aparece o vulto daquele deus que os nórdicos chamavam de Frey (o Senhor) ou Yngvi-Frey, e os anglos de Ing: um deus da antiga mitologia (e religião) nórdica da Fertilidade e do Trigo. A inimizade das casas reais estava ligada ao local sagrado de um culto dessa religião. Ingeld e seu pai têm nomes que pertencem a ela. A própria Freawaru se chama “Proteção do Senhor (de Frey)”. No entanto, uma das principais coisas que se contam mais tarde (em islandês antigo) sobre Frey é a história em que ele se apaixona à distância pela filha dos inimigos dos deuses, Gerdr, filha do gigante Gymir, e se casa com ela. Isso prova que Ingeld e Freawaru, ou seu amor, são “meramente míticos”? Creio que não. A História muitas vezes se parece com o “Mito”, porque ambos em última análise se compõem da mesma matéria. Se de fato Ingeld e Freawaru jamais viveram, ou pelo menos jamais amaram, então em última análise é de um homem e uma mulher anônimos que provém sua história, ou melhor, foi na história deles que os dois entraram. Foram postos no Caldeirão, onde tantas coisas potentes passam eras em fervura lenta sobre o fogo, entre elas o Amor-à-primeira-vista. O caso do deus é semelhante. Se nenhum jovem jamais tivesse se apaixonado por uma donzela por se encontrar fortuitamente com ela, e jamais tivesse encontrado velhas inimizades que se interpusessem entre ele e seu amor, então o deus Frey jamais teria visto Gerdr, a filha do gigante, do elevado trono de Odin. Mas se falamos de um Caldeirão não podemos nos esquecer totalmente dos Cozinheiros. Há muitas coisas no Caldeirão, mas os Cozinheiros não mergulham a concha exatamente às cegas. Sua seleção é importante. Afinal de contas deuses são deuses, e é uma questão importante que tipo de histórias se conta sobre eles. Portanto, temos que admitir livremente que é mais provável que se conte uma história de amor de um príncipe histórico, na verdade é mais provável que aconteça de fato numa família histórica cujas tradições são as do Dourado Frey e dos Vanir, não as de Odin, o godo, ou de Necromante, que alimenta os corvos, Senhor dos Mortos. Não é de espantar que a palavra spell signifique ao mesmo tempo uma história contada e uma fórmula de poder sobre os homens viventes.

Mas depois de fazermos tudo o que a pesquisa - coleta e comparação das narrativas de muitas terras - é capaz de fazer, de explicarmos muitos dos elementos que comumente estão envolvidos nas histórias de fadas (como madrastas, ursos e touros encantados, bruxas canibais, tabus sobre nomes e coisas assim) como relíquias de antigos costumes outrora praticados na vida diária, ou de crenças antes classificadas como crenças e não como “fantasias”, ainda resta um ponto muitas vezes esquecido: o efeito produzido hoje por essas coisas antigas nas histórias tais como são.

Por um lado, agora são antigas, e a antigüidade tem um apelo próprio. A beleza e o horror do Pé de Junípero (Von dem Machandelboom), com seu princípio extraordinário e trágico, o abominável cozido canibalesco, os ossos repulsivos, o alegre e vingativo espírito de pássaro que emerge de uma névoa que se erguia da árvore, permaneceram comigo desde a infância, e no entanto sempre o principal sabor dessa história presa na lembrança não foi a beleza nem o horror, e sim a distância e um grande abismo de tempo, não mensurável nem mesmo em 27 twe tusend Johr. Sem o cozido e os ossos - de que as crianças de hoje são muito freqüentemente poupadas em versões suavizadas dos Grimm 28 — essa visão teria se perdido em larga medida. Não penso que fui prejudicado pelo horror no ambiente do conto de fadas, não importa de que obscuras crenças e práticas do passado ele possa ter vindo. Tais narrativas têm agora um efeito mítico ou total (não analisável), um efeito bastante independente das descobertas do Folclore Comparado, e que essa disciplina não consegue estragar nem explicar. Elas abrem uma porta para Outro Tempo e, se a atravessarmos, nem que seja por um momento, estaremos fora de nosso tempo, talvez fora do próprio Tempo.

27. “Dois mil anos” em alemão dialetal. (N. T.)

28. Não deveriam poupá-las disso - a não ser que as poupem da história toda até que sua digestão seja mais resistente.

Se nos detivermos não apenas para notar que tais elementos antigos foram preservados, mas para refletir sobre como foram preservados, devemos concluir, penso, que isso aconteceu, muitas vezes se não sempre, precisamente por causa desse efeito literário. Não podemos ser nós, nem mesmo os irmãos Grimm, que o sentimos primeiro. De forma nenhuma os contos de fadas são matrizes rochosas das quais os fósseis só podem ser arrancados por geólogos especialistas. Os elementos antigos podem ser extraídos, ou esquecidos e descartados, ou substituídos por outros ingredientes com a maior facilidade. Isso é mostrado por qualquer comparação de uma história com suas variantes próximas. As coisas que lá existem muitas vezes devem ter sido mantidas (ou inseridas) porque os narradores orais, instintiva ou conscientemente, sentiram sua “significância” literária.29 Mesmo quando se suspeita de que uma proibição em uma história de fadas deriva de algum tabu praticado muito tempo atrás, ela provavelmente foi preservada nas etapas posteriores da história do conto em virtude do grande significado mítico da proibição. Por trás dos próprios tabus de fato pode ter havido uma noção dessa significância. Não deves- do contrário partirás como mendigo para o remorso infindável. Os mais brandos “contos infantis” a conhecem. Até mesmo a Peter Rabbit foi proibido um jardim, e ele perdeu seu casaco azul e adoeceu. A Porta Trancada é uma eterna Tentação.

29. Ver Nota B ao final (p. 82).