Sobre Histórias de Fadas
História de fadas
O que é uma história de fadas? Neste caso você se voltará em vão para o Oxford English Dictionary. Ele não contém referência à combinação fairy-story, e não auxilia muito sobre o assunto fadas 2 em geral. No Suplemento, fairy-tale está registrado desde o ano de 1750, e seu sentido principal está indicado como (a) um conto sobre fadas, ou em geral uma lenda de fadas, com desdobramentos de sentido, (b) uma história irreal ou incrível, e (c) uma falsidade.
2. Conto de fadas (N. E.)
Os dois últimos sentidos obviamente tornariam meu tópico desanimadoramente vasto. Mas o primeiro é demasiado restrito. Não para um ensaio - é amplo o bastante para diversos livros, mas restrito demais para dar conta do uso real. Em especial se aceitarmos a definição de fadas do lexicógrafo: “seres sobrenaturais de tamanho diminuto, que a crença popular supõe possuírem poderes mágicos e terem grande influência sobre os afazeres dos homens, para o bem ou para o mal”.
Sobrenatural é uma palavra perigosa e difícil em qualquer um de seus sentidos, seja mais amplo ou mais estrito. Mas dificilmente poderá ser aplicada às fadas, a não ser que sobre seja considerado meramente um prefixo superlativo. Porque é o homem que é, ao contrário das fadas, sobrenatural (e muitas vezes de estatura diminuta), ao passo que elas são naturais, muito mais naturais do que ele. É essa sua sina. A estrada para a terra das fadas não é a estrada para o Paraíso - nem mesmo para o Inferno, creio, apesar de alguns terem afirmado que ela pode conduzir indiretamente até lá pelo dízimo do Diabo.
O see ye not yon narrow road
So thick beset wi' thorns and briers?
That is the path of Righteousness,
Though after it but few inquires.
And see ye not yon braid, braid road
That lies across the lily leven?
That is the path of Wickedness,
Though some call it the Road to Heaven.
And see ye not yon bonny road
That winds about yon fernie brae?
That is the road to fair Elfland,
Where thou and I this night maun gae.3
3. Ó, não vês aquela estrada estreita / Coberta de urzes e de espinhos? / Pois é a trilha da Honradez; / Poucos perguntam de tais caminhos. E não vês aquela estrada larga / Que passa pelo campo liso? / Pois é a trilha dos Perversos, / Que chamam de Estrada do Paraíso. E não vês aquela estrada linda / Que pela escarpa agreste desceu? / Pois leva à bela Terra dos Elfos, / Lá vamos à noite, tu e eu. (N. T.)
Quanto ao tamanho diminuto, não nego que a idéia domine o uso moderno. Muitas vezes pensei que seria interessante tentar descobrir como foi que isso aconteceu, mas meu conhecimento não é suficiente para uma resposta precisa. Antigamente havia de fato alguns habitantes do Belo Reino que eram pequenos (mas certamente não diminutos), porém a pequenez não era a característica desse povo como um todo. O ser diminuto, elfo ou fada, é na Inglaterra (eu acho) em grande parte um produto sofisticado da fantasia literária. 4 Talvez seja natural que na Inglaterra, onde o amor pelo delicado e fino freqüentemente ressurgiu na arte, a fantasia se volte, nesta questão, para o gracioso e diminuto, assim como na França ela foi à corte e se cobriu de pó-de-arroz e diamantes. Porém suspeito que essa miudeza de flores-e-borboletas também tenha sido produto da “racionalização” que transformou o deslumbramento da Terra dos Elfos numa mera sutileza e a invisibilidade, numa fragilidade que podia esconder-se numa prímula ou encolher-se atrás de uma folha de capim. Parece ter entrado em voga logo depois que começaram as grandes viagens que tornariam o mundo estreito demais para conter ao mesmo tempo homens e elfos, quando a terra mágica de Hy Breasail no Oeste se transformou em meros Brasis, a terra da madeira da tintura vermelha. 5 De qualquer forma, foi em grande parte um caso literário no qual William Shakespeare e Michael Drayton desempenharam seu papel.6 Nymphidia, de Drayton, é um ancestral daquela longa linhagem de fadas florais e duendes irrequietos com antenas que tanto me desagradavam quando criança e que meus filhos, por sua vez, detestavam. Andrew Lang tinha sentimentos semelhantes. No prefácio do Lilac Fairy Book7 ele se refere aos contos de autores contemporâneos enfadonhos: “sempre começam com um garotinho ou uma garotinha que sai ao encontro das fadas dos narcisos, das gardênias e das flores de macieira [...] Essas fadas tentam ser engraçadas e fracassam, ou tentam fazer um sermão e têm êxito”.
4. Falo da evolução antes do aumento do interesse pelo folclore de outros países. As palavras inglesas, como elf por muito tempo foram influenciadas pelo francês (do qual derivaram fay e faërie, fairy); porém, posteriormente, por terem sido usadas em traduções, tanto fairy como elf adquiriram muito da atmosfera dos contos alemães, escandinavos e celtas, e muitas características dos huldu-fólk, dos daoine-sithe e dos tylwyth teg.
5. Para mais informações sobre a probabilidade de o Hy Breasail irlandês ter desempenhado um papel na nomeação do Brasil, ver Nansen, In Northern Mists, ii, 223-30.
6. A influência deles não se restringiu à Inglaterra. O alemão Elf, Elfe parece derivar do Sonho de uma Noite de Verão na tradução de Wieland(1764).
7. “Livro de Fadas Lilás” (N.T.)
Mas o caso começou, como disse, bem antes do século XIX, e há muito alcançou o tédio, certamente o tédio de tentar ser engraçado e fracassar. Nymphidia, de Drayton, considerada uma história de fadas (uma história sobre fadas), é uma das piores já escritas. O palácio de Oberon tem paredes de pernas de aranha,
And windows of the eyes of cats, And for the roof, instead of slats, Is covered with the wings of bats. 8
8. E janelas de olhos de gato, / E o telhado, sem sarrafos, / É coberto de asas de morcego. (N. T.)
O cavaleiro Pigwiggen monta uma lacraia travessa, manda ao seu amor, a rainha Mab, uma pulseira de olhos de formiga e marca um encontro numa flor de prímula silvestre. Mas a história contada em meio a toda essa lindeza é um obtuso conto de intriga e astutos intermediários. O galante cavaleiro e o marido furioso caem no atoleiro, e sua ira é acalmada por um gole das águas do Letes. 9 Teria sido melhor que o Letes engolisse o caso todo. Oberon, Mab e Pigwiggen podem ser elfos ou fadas diminutos, o que não é o caso de Artur, Guinevere e Lancelot, mas a história sobre o bem e o mal da corte de Artur é muito mais uma “história de fadas” do que esse conto de Oberon.
9. Na mitologia clássica, o rio do inferno, cuja água provocava o total esquecimento do passado. (N. E.)
Fairy, como substantivo mais ou menos equivalente a elfo, é uma palavra relativamente moderna, quase não usada antes do período Tudor. A primeira citação no Oxford Dictionary (a única antes de 1450) é significativa. É do poeta Gower: 10 as he were a faierie. Mas não foi isso que Gower disse. Ele escreveu as he were offaierie, “como se tivesse vindo de Faërie [o Belo Reino]”. Gower estava descrevendo um jovem galante que busca enfeitiçar os corações das donzelas na igreja.
10. “Como se fosse uma fada [faierie]” (N. T.)
His croket kembd and thereon set A Nouche with a chapelet, Or elles one of grene leves Which late com out of the greves, Al for he sholde seme freissh;
And thus he loketh on the fleissh, Riht as an hauk which hath a sihte Upon the foul ther he schal lihte, And as he were of faierie He scheweth him tofore here yhe.11*
11. Confessio Amantis, v. 7065 ff.
* Seu cacho é penteado e nele está posta / Uma fivela com um diadema, / Ou uma de folhas verdes / Recém-tiradas dos bosques, / Tudo para ele parecer vigoroso; E assim ele contempla a carne, / Como um falcão que faz mira / Na ave onde vai pousar, / E como se tivesse vindo do Belo Reino / Exibe-se diante dos seus olhos. (N. T.)
Este é um jovem de sangue e ossos mortais, mas fornece uma imagem muito melhor dos habitantes da Terra dos Elfos do que a definição de “fada” em que foi colocado por um duplo equívoco. Porque o problema do verdadeiro povo do Belo Reino é que nem sempre se parecem com o que são, e ostentam a soberba e a beleza que usaríamos de bom grado. Pelo menos parte da magia que manejam para o bem ou para o mal do homem é um poder para brincar com os desejos de seu corpo e seu coração. A Rainha da Terra dos Elfos - que levou Thomas, o Rimador, em seu corcel branco como leite mais veloz que o vento- veio cavalgando junto à Arvore Eildon na forma de uma dama de encantadora beleza. Portanto, Spenser estava dentro da tradição verdadeira quando chamou os cavaleiros de seu Belo Reino pelo nome de Elfe. Este pertence a cavaleiros como Sir Guyon muito mais do que a Pigwiggen armado de ferrão de vespa.
Agora, apesar de ter somente mencionado (de forma bem inadequada) os elfos e as fadas, preciso retornar, porque me afastei do meu tema propriamente dito: as histórias de fadas. Disse que o sentido de “histórias sobre fadas” era demasiado restrito.12 E restrito demais mesmo que rejeitemos o tamanho diminuto, porque no uso corrente do termo as histórias de fadas não são histórias sobre fadas ou elfos, mas sim sobre o Belo Reino, Faërie, o reino ou estado no qual as fadas existem. O Belo Reino contém muitas coisas além de elfos, fadas, anões, bruxas, trolls, gigantes ou dragões. Contém os oceanos, o Sol, a Lua, o firmamento e a terra, e todas as coisas que há nela: árvore e pássaro, água e pedra, vinho e pão, e nós, os homens mortais, quando estamos encantados.
12. Exceto em casos especiais, como compilações de contos galeses ou gaélicos. Nestes as narrativas sobre a “Bela Família” ou o povo Shee às vezes se distinguem, como “contos de fadas”, dos “contos populares” que tratam de outras maravilhas. Neste uso, “contos de fadas” ou “histórias de fadas” são normalmente breves relatos da aparição de “fadas” ou de suas intrusões nos assuntos humanos. Mas essa distinção é produto da tradução.
As narrativas que de fato se ocupam principalmente de “fadas”, isto é, de criaturas que na linguagem moderna também poderiam ser chamadas de “elfos”, são relativamente raras e, em geral, não muito interessantes. A maioria das boas “histórias de fadas” trata das aventuras dos homens no Reino Perigoso ou em seus confins sombrios. É natural porque, se os elfos são reais e de fato existem independentemente de nossas histórias sobre eles, então também isto certamente é verdade: a princípio os elfos não estão interessados em nós, nem nós neles. Nossos destinos são distintos, e nossas trilhas raramente se encontram. Mesmo nas divisas do Belo Reino nós os encontramos somente em algum cruzamento fortuito de caminhos. 13
13. Isso também é verdadeiro, mesmo que sejam apenas criações da mente humana, “verdadeiras” somente como reflexo, de um determinado modo, de uma das visões humanas da Verdade.
A definição de história de fadas - o que é ou o que deveria ser - não depende portanto de qualquer definição ou relato histórico sobre elfos ou fadas, mas sim da natureza do Belo Reino, do Reino Perigoso e do ar que sopra nessa terra. Não tentarei definir isso nem descrever diretamente. Não é possível fazê-lo. O Belo Reino não pode ser capturado numa rede de palavras, porque uma de suas qualidades é ser indescritível, porém não imperceptível. Ele tem muitos ingredientes, mas uma análise não necessariamente revelará o segredo do todo. No entanto espero que aquilo que direi mais tarde sobre as demais questões proporcione alguns vislumbres de minha visão imperfeita. Por ora só direi isto: uma “história de fadas” é aquela que resvala ou usa o Belo Reino, qualquer que seja sua finalidade principal -sátira, aventura, moralidade, fantasia. O próprio Belo Reino talvez possa ser traduzido mais proximamente por Magia14 - mas uma magia com disposição e poder peculiares, no pólo mais afastado dos artifícios vulgares do mágico laborioso e científico. Há uma ressalva: se houver alguma sátira presente na narrativa, de uma coisa não se deve zombar: a própria magia. Nesse tipo de história ela precisa ser levada a sério, não deve ser motivo de riso nem de muitas explicações. O conto medieval Sir Gawain e o Cavaleiro Verde é um exemplo admirável dessa seriedade.
14. Ver mais adiante (p. 60).
Mas, mesmo que apliquemos apenas esses limites vagos e mal definidos, fica claro que muitos, até os entendidos em tais assuntos, usaram de forma muito descuidada o termo “conto de fadas”. Basta bater os olhos nos livros recentes que afirmam ser coleções de “contos de fadas” para ver que histórias sobre fadas, sobre a bela família em qualquer uma de suas casas, ou mesmo sobre anões e duendes, são apenas uma pequena parte de seu conteúdo. Isso, como vimos, era de se esperar. Mas esses livros também contêm muitas narrativas que não usam nem mesmo resvalam o Belo Reino, e que na verdade nem deveriam ser incluídas.
Darei um ou dois exemplos de expurgos que eu realizaria. Isso reforçará o lado negativo da definição. Também se verá que conduzirá à segunda pergunta: quais são as origens das histórias de fadas?
O número de coleções de histórias de fadas é hoje muito grande. Em inglês provavelmente nenhuma rivalizará em popularidade, abrangência ou mérito geral com os 12 livros de 12 cores que devemos a Andrew Lang e sua esposa. O primeiro deles foi publicado mais de 50 anos atrás (1889) e continua sendo impresso. A maior parte de seu conteúdo passa no teste, com maior ou menor clareza. Não o analisarei, apesar de uma análise poder ser interessante, mas observo de passagem que, das histórias deste 15 Blue Fairy Book, nenhuma é primariamente sobre “fadas”, e poucas se referem a elas. A maioria dos contos provém de fontes francesas: na época foi de certo modo uma escolha justa, como talvez ainda seja (se bem que não para meu gosto, o atual ou o de minha infância). Seja como for, a influência de Charles Perrault tem sido tão forte - desde que seus Contes de ma Mère l'Oye foram traduzidos pela primeira vez para o inglês, no século XVIII, e de outros excertos do vasto repertório do Cabinet des Fées que se tornaram famosos - que, se pedíssemos a uma pessoa para citar ao acaso um típico “conto de fadas”, suponho que ela muito provavelmente ainda mencionaria uma daquelas coisas francesas, como O Gato de Botas, Cinderela ou Chapeuzinho Vermelho. Algumas pessoas poderão lembrar-se primeiro dos Contos de Grimm.
15. “Livro de Fadas Azul” (N. T.)
Mas o que dizer sobre a aparição de Uma Viagem a Lilliput no Blue Fairy Book? Eu diria que essa narrativa não é uma história de fadas, nem como o autor a concebeu nem como aparece “condensada” ali pela srta. May Kendall. Está totalmente deslocada ali. Temo que tenha sido incluída simplesmente porque os liliputianos são pequenos, diminutos até - a única razão pela qual são notáveis. Mas a pequenez, no Belo Reino como em nosso mundo, é apenas um acidente. Os pigmeus não estão mais próximos das fadas do que os patagônios. Não excluo essa história por causa de sua intenção satírica: existe sátira, sustentada ou intermitente, em narrativas que são indubitavelmente histórias de fadas, e a sátira muitas vezes pode ter sido intencional em contos tradicionais nos quais hoje não a percebemos. Excluo-a porque o veículo da sátira, por mais que seja uma invenção brilhante, pertence à classe das histórias de viajantes. Tais narrativas relatam muitos prodígios, mas são prodígios para ver neste mundo mortal, em alguma região do nosso próprio tempo e espaço; somente a distância as oculta. Os contos de Gulliver não têm mais direito de entrada do que as narrativas do Barão de Münchhausen, ou, digamos, do que Os Primeiros Homens na Lua ou A Máquina do Tempo. Na verdade, os Eloi e os Morlocks teriam mais direitos do que os liliputianos. Estes são simplesmente homens vistos de cima, sarcasticamente, do alto do telhado. Eloi e Morlocks vivem muito longe, num abismo de tempo tão profundo que lança um encantamento sobre eles. E, se são nossos descendentes, podemos recordar que outrora um antigo pensador inglês afirmou que os 16 ylfe, os próprios elfos, descendiam de Adão através de Cairn. Esse encanto da distância, em especial do tempo distante, só é enfraquecido pela própria Máquina do Tempo, absurda e inacreditável. Mas vemos neste exemplo um dos principais motivos por que as fronteiras do conto de fadas são inevitavelmente dúbias. A magia do Belo Reino não é um fim em si mesma, sua virtude reside em suas operações - entre elas está a satisfação de certos desejos humanos primordiais. Um desses desejos é inspecionar as profundezas do espaço e do tempo. Outro (como veremos) é entrar em comunhão com outros seres vivos. Assim, uma história poderá tratar da satisfação desses desejos com ou sem a interferência de máquinas ou de magia, e na medida em que tiver sucesso se avizinhará da qualidade de histórias de fadas e terá o seu sabor.
16.Beowulf 111-12.
Em seguida, após as histórias de viajantes, eu também excluiria, ou declararia inadequada, qualquer uma que usasse a maquinaria do Sonho, do sonhar do real sono humano, para explicar a aparente ocorrência de seus prodígios. No mínimo, ainda que sob outros pontos de vista o próprio sonho relatado fosse uma história de fadas, eu condenaria o todo como algo gravemente defeituoso: como um bom quadro numa moldura desfiguradora. É verdade que o Sonho não é alheio ao Belo Reino. Nos sonhos podem ser liberados estranhos poderes da mente. Em alguns deles uma pessoa pode, dentro de certos limites, desfrutar do poder do Belo Reino, esse poder que, mesmo enquanto concebe a história, lhe dá formas e cores vivas diante dos olhos. Às vezes um sonho real pode de fato ser uma história de fadas de tranqüilidade e destreza quase élficas - enquanto está sendo sonhado. Mas, se um escritor desperto lhe disser que seu conto é apenas uma coisa imaginada durante o sono, ele defraudará deliberadamente o desejo primordial no coração do Belo Reino: a compreensão do feito prodigioso imaginado, não importa a mente que o conceba. Muitas vezes diz-se que as fadas (em verdade ou mentira, não sei) produzem ilusões, que enganam os homens com “fantasia”, mas esse é um assunto bem diferente. E problema delas. Seja como for, tais trapaças acontecem no interior de narrativas em que as próprias fadas não são ilusões. Por trás da fantasia existem vontades e poderes reais, independentes da mente e dos propósitos dos homens.
De qualquer modo, é essencial à história de fadas genuína, diferentemente do uso dessa forma para fins menores ou aviltados, que ela seja apresentada como “verdadeira”. Em breve considerarei o significado de “verdadeira” nesse contexto. Mas, visto que a história de fadas trata de “maravilhas”, ela não pode tolerar qualquer moldura ou maquinaria que dê a entender que toda narrativa em que ocorrem é uma ficção ou ilusão. É claro que o próprio conto pode ser tão bom que torne possível ignorar a moldura. Ou pode ter sucesso e ser divertido como uma narrativa onírica. São assim as histórias da Alice de Lewis Carroll, com sua moldura e suas passagens de sonho. Por esse motivo (e por outros) elas não são contos de fadas. 17
17. Ver Nota A ao final (p. 82).
Há outro tipo de história fantástica que eu excluiria do título de “história de fadas”, outra vez certamente não porque não gosto dele - a saber, a pura “fábula de animais”. Escolherei um exemplo dos Fairy Books de Lang: O Coração do Macaco, um conto suaíli que aparece no Lilac Fairy Book. Nessa história, um tubarão malvado convence um macaco a montar em seu lombo e o leva até a metade do caminho para sua própria terra para então lhe revelar que o sultão de lá estava doente e precisava de um coração de macaco para curar sua moléstia. Mas o macaco logrou o tubarão e persuadiu-o a voltar, convencendo-o de que seu coração ficara em casa, pendurado num saco numa árvore.
A fábula de animais, é claro, tem ligação com as histórias de fadas. Animais, pássaros e outras criaturas muitas vezes falam como homens nas verdadeiras histórias de fadas. Em parte (muitas vezes pequena), esse prodígio decorre de um dos “desejos” primordiais que estão próximos ao coração do Belo Reino: o desejo dos homens de se comunicar com outros seres vivos. Mas a fala dos animais, no tipo de fábula que se desdobrou em um ramo separado, tem pouca relação com esse desejo, e freqüentemente se esquece dele por completo. A compreensão mágica por parte dos homens das linguagens próprias dos pássaros, dos animais e das árvores, é isto o que está muito mais próximo dos verdadeiros objetivos do Belo Reino. Mas nas histórias que não envolvem nenhum ser humano - ou nas narrativas em que os heróis e heroínas são animais e os homens e mulheres, quando aparecem, são simples coadjuvantes - e principalmente naquelas em que a forma animal é apenas uma máscara sobre um rosto humano, um artifício do satirista ou do pregador, nessas histórias temos fábulas de animais e não histórias de fadas, quer sejam Reynard Raposa, quer O Conto do Padre da Freira, quer o Irmão Coelho, ou simplesmente Os Três Porquinhos. As histórias de Beatrix Potter situam-se próximas dos limites do Belo Reino, porém, de acordo com o que penso, em geral do lado de fora.18 Sua proximidade deve-se em grande parte ao forte elemento moral: com isso quero dizer sua moralidade inerente, não alguma significatio alegórica. Mas Peter Rabbit, apesar de conter uma proibição, e apesar de existirem proibições na terra das fadas (como provavelmente existem em todo o universo, em todos os planos e em todas as dimensões), continua sendo uma fábula de animais.
18. O Alfaiate de Gloucester talvez se aproxime mais. Sra. Tiggywinkle ficaria à mesma distância, não fosse pela alusão de uma explicação onírica. Eu também incluiria O Vento nos Salgueiros entre as fábulas de animais.
Também O Coração do Macaco é claramente apenas uma fábula de animais. Suspeito que sua inclusão num “Livro de Fadas” não se deve em particular à sua qualidade como entretenimento, mas precisamente ao fato de dizer que o coração do macaco foi deixado para trás num saco. Isso era significativo para Lang, estudioso de folclore, mesmo que essa curiosa idéia seja usada somente como brincadeira, porque nesse conto o coração do macaco era de fato bem normal e estava no peito dele. Ainda assim, esse detalhe é claramente apenas um uso secundário de uma idéia antiga e muito difundida no folclore que ocorre nos contos de fadas19 - a idéia de que a vida ou a força de um homem ou de uma criatura possa residir em algum outro lugar ou objeto, ou em alguma parte do corpo (especialmente o coração), que pode ser destacada e escondida num saco, ou sob uma pedra, ou num ovo. Em um extremo da história registrada do folclore, essa idéia foi usada por George MacDonald em sua história de fadas O Coração do Gigante, que retira esse motivo central (bem como muitos outros detalhes) de contos tradicionais bastante conhecidos. No outro extremo, na verdade no que provavelmente é uma das mais antigas narrativas escritas, ela ocorre no Conto dos Dois Irmãos no papiro egípcio D'Orsigny. Ali o irmão mais moço diz ao mais velho:
“Hei de encantar meu coração, e hei de colocá-lo no alto da flor do cedro. O cedro será derrubado e meu coração cairá ao chão, e tu virás buscá-lo, mesmo que passes sete anos buscando-o; mas quando o tiveres encontrado põe-no em um vaso de água fria, e em verdade hei de viver.”20
Mas esse ponto de interesse e comparações como esta nos conduzem à iminência da segunda pergunta: Quais são as origens das “histórias de fadas”? Isso, é claro, deve significar a origem ou as origens dos elementos fantásticos. Perguntar qual é a origem das histórias (não importa como estejam classificadas) é perguntar qual é a origem da linguagem e da mente.
19. Como O Gigante que Não Tinha Coração nos Contos Populares Nórdicos, de Dasent, ou A Sereia nos Contos Populares das West Highlands, de Campbell (nº iv, ver também nº i), ou de forma mais distante Die Kristallkugel em Grimm. 20. Budge, Egyptian Reading Book, p. xxi.