Sobre Histórias de Fadas
Crianças
Agora me voltarei para as crianças, e assim chegarei à última e mais importante das três perguntas: quais são, se é que existem, os valores e as funções das histórias de fadas hoje? Normalmente se presume que as crianças são o público natural ou especialmente apropriado desse tipo de história. Ao descrever uma história de fadas que imaginam que os adultos possivelmente poderão ler para seu próprio entretenimento, os críticos costumam se permitir jocosidades como: “Este livro se destina a crianças de 6 a 60 anos”. Mas nunca vi um anúncio de um novo carrinho que começasse assim: “Este brinquedo divertirá crianças de 17 a 70 anos”. Contudo, em minha opinião, isso seria muito mais apropriado. Existe alguma conexão essencial entre crianças e histórias de fadas? Existe alguma necessidade de comentário quando um adulto as lê sozinho? Isto é, quando as lê como contos, não quando as estuda como curiosidades. Os adultos têm licença para colecionar e estudar qualquer coisa, até mesmo velhos programas de teatro ou sacos de papel.
Entre aqueles que ainda têm sabedoria bastante para acreditar que histórias de fadas não são perniciosas, a opinião comum parece ser a de que existe uma conexão natural entre a mente das crianças e as histórias de fadas, da mesma ordem da conexão entre o corpo delas e o leite. Creio que isso é um erro; na melhor das hipóteses um erro de falso sentimento, e portanto um erro cometido mais freqüentemente por aqueles que, seja qual for seu motivo particular (como não ter filhos), tendem a enxergar as crianças como um tipo especial de criatura, quase uma raça diferente, e não como membros normais, ainda que imaturos, de uma determinada família e da família humana em geral.
Na verdade, a associação entre crianças e histórias de fadas é um acidente de nossa história doméstica. No mundo letrado moderno as histórias de fadas foram relegadas ao “berçário”, assim como a mobília velha ou fora de moda é relegada à sala de recreação, principalmente porque os adultos não as querem mais e não se importam se a usarem de forma inadequada. 30 Não é a escolha das crianças que define isso. As crianças como classe - classe que não são, exceto pela falta de experiência que lhes é comum - não gostam mais das histórias de fadas nem as compreendem melhor do que os adultos, e não as apreciam mais do que muitas outras coisas. São jovens e estão em crescimento, e normalmente têm apetites aguçados, de forma que em geral as histórias de fadas são bastante bem digeridas. Mas na verdade só algumas crianças, e alguns adultos, têm um gosto especial por elas. E, quando o têm, ele não é exclusivo, nem mesmo necessariamente dominante.31 E também um gosto que, segundo creio, não surgiria muito cedo na infância sem estímulo artificial; certamente é um gosto que não diminui, e sim cresce com a idade, se é inato.
30. No caso de histórias e outros assuntos infantis, há também outro fator. As famílias mais ricas empregavam mulheres para cuidar das crianças, e as narrativas eram trazidas por essas pajens, que às vezes tinham contato com conhecimentos rústicos e tradicionais esquecidos por seus “superiores”. Faz muito tempo que essa fonte secou, pelo menos na Inglaterra, mas outrora ela teve alguma importância. Mas, outra vez, não há prova da adequação especial das crianças como destinatárias desse “saber popular” em extinção. As pajens podiam muito bem ter sido encarregadas de escolher os quadros e a mobília - e talvez o fizessem até melhor. 31. Ver Nota C ao final (p. 84).
É verdade que em tempos recentes as histórias de fadas normalmente têm sido escritas ou “adaptadas” para crianças. Mas também se pode fazer isso com a música, ou a poesia, ou os romances, ou a história, ou manuais científicos. Ê um processo perigoso, mesmo quando necessário. Na verdade só se salva da desgraça pelo fato de as artes e as ciências não serem em geral relegadas ao berçário. Este e a sala de aula só recebem dos adultos as amostras e os relances que lhes parecem ser adequados na opinião dos adultos (freqüentemente muito equivocada). Qualquer dessas coisas, se fosse deixada inteiramente no berçário, ficaria gravemente prejudicada. Também uma bela mesa, um bom quadro ou um instrumento útil (como um microscópio) seriam desfigurados ou quebrados se os abandonássemos por muito tempo numa sala de aula. As histórias de fadas assim banidas, isoladas de uma arte plena e adulta, ao final estariam arruinadas. Na verdade têm sido arruinadas na medida em que foram banidas desse modo.
Assim, na minha opinião, o valor das histórias de fadas não pode ser encontrado levando em conta especificamente as crianças. Na verdade, as coleções de histórias de fadas são sótãos e quartos de despejo por natureza e quartos de brincar apenas pelo costume temporário e local. Seu conteúdo é desordenado, freqüentemente fragmentado, uma mixórdia de diferentes datas, objetivos e gostos. Mas no meio dele pode-se vez por outra encontrar algo de valor permanente: uma antiga obra de arte, não muito estragada, que só a estupidez teria tratado como bugiganga.
Os Fairy Books de Andrew Lang não são, talvez, quartos de despejo. São mais parecidos com barracas de um bazar. Alguém com um espanador e um bom olho para coisas que conservam algum valor deu uma percorrida nos sótãos e depósitos. Suas coleções são em larga escala um subproduto de seu estudo adulto da mitologia e do folclore, porém transformadas em livros infantis e apresentadas como tais. 32 Algumas das razões dadas por Lang merecem ser consideradas.
32. Por Lang e seus auxiliares. Isso não é verdade em relação à maior parte do conteúdo em sua forma original (ou mais antiga sobrevivente).
A apresentação do primeiro volume da série fala de “crianças para as quais e pelas quais são contadas”. “Representam”, diz ele, “a juventude do homem fiel aos seus primeiros amores, e têm seu gume de crença que não perdeu o corte, um apetite recente por maravilhas”. “‘É verdade’”?, continua, “é a grande pergunta feita pelas crianças”.
Desconfio que crença e apetite por maravilhas são aqui considerados coisas idênticas ou bem próximas. São radicalmente diferentes, se bem que o apetite por maravilhas não seja diferenciado pela mente humana em crescimento, imediata ou primeiramente, de seu apetite geral. Parece bastante evidente que Lang usou crença no sentido normal: crença de que algo existe ou pode ocorrer no mundo real (primário). Se for assim, temo que as palavras de Lang, despojadas de sentimento, só podem implicar que o narrador de histórias com feitos prodigiosos para crianças precisa ou pode se aproveitar, ou enfim se aproveita, da credulidade delas, da falta de experiência que torna menos fácil para as crianças distinguir o fato da ficção em casos particulares, mesmo que essa distinção seja fundamental à mente humana sadia e às histórias de fadas.
É claro que as crianças são capazes de ter crença literária quando a arte do criador de histórias é boa a ponto de produzi-la. Esse estado mental tem sido chamado de “suspensão voluntária da incredulidade”. Mas isso não me parece ser uma boa descrição do que acontece. O que acontece de fato é que o criador da narrativa demonstra ser um “subcriador” bem-sucedido. Ele concebe um Mundo Secundário no qual nossa mente pode entrar. Dentro dele, o que ele relata é “verdade”: está de acordo com as leis daquele mundo. Portanto, acreditamos enquanto estamos, por assim dizer, do lado de dentro. No momento em que surge a incredulidade, o encanto se rompe; a magia, ou melhor a arte, fracassou. Então estamos outra vez no Mundo Primário, olhando de fora o pequeno Mundo Secundário malsucedido. Se formos obrigados a ficar, por benevolência ou circunstância, então a incredulidade precisa ser suspensa (ou abafada), do contrário será intolerável ouvir e olhar. Mas essa suspensão da incredulidade é um substituto da coisa genuína, um subterfúgio que usamos quando nos deixamos levar por uma brincadeira ou um faz-de-conta, ou quando tentamos (mais ou menos voluntariamente) descobrir alguma virtude na obra de arte que fracassou para nós.
Um verdadeiro fã de críquete está no estado encantado: a Crença Secundária. Eu, quando assisto a uma partida, estou no nível inferior. Consigo atingir (mais ou menos) a suspensão voluntária da incredulidade quando sou mantido ali e sustentado por algum outro motivo que afaste o tédio - por exemplo uma predileção selvagem, heráldica, pelo azul escuro em detrimento do claro. Assim, essa suspensão pode ser um estado mental um tanto desgastado, roto ou sentimental, portanto tendendo ao “adulto”. Imagino que é freqüentemente esse o estado dos adultos na presença de uma história de fadas. São mantidos ali e sustentados pelo sentimento (lembranças da infância ou idéias de como deveria ser a infância). Pensam que deveriam apreciar o conto. Mas, se realmente o apreciassem por ele mesmo, não teriam que suspender a incredulidade: creriam, nesse sentido.
Se Lang tivesse desejado dizer algo assim, poderia haver alguma verdade em suas palavras. Pode-se argumentar que é mais fácil lançar o feitiço sobre as crianças. Talvez seja, mas não tenho certeza. Muitas vezes, creio, essa aparência é uma ilusão adulta produzida pela humildade das crianças, por sua falta de experiência crítica e vocabulário e por sua voracidade (própria do crescimento rápido). Gostam ou tentam gostar do que lhes dão mas, se não conseguem, são incapazes de expressar bem sua aversão ou justificá-la (e portanto podem escondê-la); e gostam indiscriminadamente de uma grande variedade de coisas, sem se preocuparem em analisar o grau de sua crença. De qualquer forma duvido que essa poção- o encantamento da história de fadas bem-sucedida - realmente seja do tipo que se “embota” com o uso, menos potente depois de repetidos goles.
“‘É verdade?’ é a grande pergunta feita pelas crianças”, disse Lang. Sei que fazem, sim, essa pergunta, e não é algo que possa ser respondido de modo impulsivo ou negligente.33 Mas essa questão dificilmente é prova de “crença que não perdeu o corte”, nem mesmo do desejo por ela. Mais freqüentemente ela provém do desejo que a criança tem de saber que espécie de literatura está diante dela. Muitas vezes o conhecimento do mundo pelas crianças é tão pequeno que elas não conseguem discernir, de imediato e sem ajuda, entre o fantástico, o estranho (isto é, fatos raros ou remotos), o despropositado e o simplesmente “adulto” (coisas comuns do mundo de seus pais, ainda quase totalmente inexplorado). Mas reconhecem as diferentes classes, e às vezes podem gostar de todas elas. E claro que os limites entre elas com freqüência flutuam ou se confundem, mas isso não vale só para crianças. Todos conhecemos essas diferenças, mas nem sempre temos certeza de como classificar algo que ouvimos. Uma criança pode muito bem acreditar num relato de que existem ogros no condado vizinho; muitos adultos acham fácil crer nisso quando se trata de outro país; e, quanto a outro planeta, muito poucos adultos parecem capazes de enxergá-lo povoado, se é que o termo é esse, por algo diferente de monstros perversos.
33. Muito mais freqüentemente elas têm me perguntado: “Ele era bom? Ele era malvado?” Isto é, estavam mais preocupadas em distinguir o lado Certo e o lado Errado, porque essa é uma questão que tem a mesma importância na História e no Belo Reino.
Eu fui uma das crianças às quais Andrew Lang se dirigia - nasci mais ou menos na mesma época que o 34 Green Fairy Book -, as crianças para as quais, ele parecia pensar, as histórias de fadas eram o equivalente do romance adulto, e das quais disse: “Seu gosto permanece igual ao de seus antepassados nus de milhares de anos atrás, e elas parecem apreciar histórias de fadas mais do que história, poesia, geografia ou aritmética”.35 Mas será que realmente sabemos muita coisa desses “antepassados nus”, exceto que certamente não estavam nus? Nossas histórias de fadas, por mais antigos que sejam alguns de seus elementos, certamente não são as mesmas que eles tinham. Porém, se presumirmos que temos histórias de fadas porque eles as tinham, então provavelmente temos história, geografia, poesia e aritmética porque eles tamciavam essas coisas, na medida em que podiam obtê-las, e na medida em que já tinham separado os muitos ramos de seu interesse geral por tudo.
34. “Livro de Fadas Verde” (N. T.)
35. Prefácio do Violet Fairy Book (“Livro de Fadas Violeta”).
E no que tange às crianças de hoje a descrição de Lang não se ajusta às minhas próprias lembranças, nem à minha experiência com elas. Lang podia estar enganado em relação às crianças que conhecia, mas, se não estava, pelo menos elas são consideravelmente diferentes, mesmo dentro dos estreitos limites da Grã-Bretanha, e tais generalizações, que as tratam como uma classe (desconsiderando seus talentos individuais, as influências da região em que vivem e sua criação), são ilusórias. Eu não tinha nenhum “desejo de acreditar” especial. Eu queria saber. A crença dependia do modo como as narrativas me eram apresentadas pelos mais velhos, ou pelos autores, ou do tom e da qualidade inerentes ao conto. Mas em nenhum momento de que me lembro a apreciação da história foi dependente da crença de que tais coisas poderiam acontecer, ou tinham acontecido, na “vida real”. Claramente as histórias de fadas não se ocupavam em primeiro plano da possibilidade, mas sim da desejabilidade. Se despertavam desejo, satisfazendo-o enquanto muitas vezes o atiçavam insuportavelmente, tinham sucesso. Não é necessário ser mais explícito aqui, porque espero dizer algo mais tarde sobre esse desejo, um complexo de muitos ingredientes, alguns universais, outros particulares aos homens modernos (inclusive às crianças modernas), ou mesmo a certas espécies de homens. Eu não desejava ter sonhos nem aventuras como Alice, e o relato deles simplesmente me divertia. Desejava bem pouco procurar tesouros enterrados ou combater piratas, e a Ilha do Tesouro não me entusiasmava. Os peles-vermelhas eram melhores: havia nessas histórias arcos e flechas (tive e tenho um desejo totalmente insatisfeito de atirar bem com um arco), línguas estranhas, vislumbres de um modo de vida arcaico e, acima de tudo, florestas. Mas a terra de Merlin e Artur era melhor do que isso e, melhor do que tudo, o norte sem nome de Sigurd dos Völsungs e o príncipe de todos os dragões. Essas terras eram proeminentemente desejáveis. Nunca imaginei que o dragão pertencesse à mesma ordem do cavalo. E isso não somente porque eu via cavalos todos os dias, mas também porque nunca vira nem mesmo a pegada de um lagarto.36 O dragão tinha a marca registrada Do Belo Reino inscrita com clareza. Não importa em que mundo ele existia, era Outro Mundo. A fantasia, a criação ou o vislumbrar de Outros Mundos era o coração do desejo do Belo Reino. Eu desejava dragões com um desejo profundo. E claro que, com meu corpo franzino, não queria tê-los nos arredores, intrometendo-se em meu mundo relativamente seguro, onde por exemplo era possível ler histórias desfrutando de paz mental, livre de medo. 37 Mas o mundo que continha até mesmo a imaginação de Fàfnir era mais rico e mais belo, não importava o custo do perigo. O habitante da planície tranqüila e fértil pode ouvir falar das colinas castigadas pelas intempéries e do mar sem vida e ansiar por eles em seu coração. Porque o coração é firme, embora o corpo seja fraco.
36. Ver Nota D ao final (p. 84).
37. Naturalmente, muitas vezes é isto que as crianças querem dizer quando perguntam “É verdade?” Querem dizer: “Gosto disso, mas ainda existe? Estou a salvo em minha cama?” A resposta: “Certamente não existem dragões no mundo hoje em dia” é tudo o que querem.
Mesmo assim, por mais que eu agora perceba a importância do elemento história de fadas nas leituras infantis, falando por mim quando criança, só posso dizer que gostar dessas narrativas não foi uma característica dominante dos primeiros gostos. O verdadeiro gosto por elas despertou após os dias do “berçário” e após os anos, poucos, mas que pareciam longos, entre aprender a ler e ir à escola. Naquele tempo (quase escrevi “feliz” ou “dourado”, mas foi na verdade triste e turbulento) eu gostava igualmente, ou mais, de muitas outras coisas, como história, astronomia, botânica, gramática e etimologia. Eu não me parecia nem um pouco em essência com as “crianças” generalizadas de Lang; por acaso as lembrava em alguns poucos pontos: por exemplo, eu era insensível à poesia, e a pulava quando ela aparecia nas histórias. Descobri a poesia muito mais tarde, no latim e no grego, especialmente por ser obrigado a tentar verter versos ingleses para versos clássicos. Um gosto real por história de fadas foi despertado pela filologia no limiar da idade adulta, e estimulado pelo resto da vida pela guerra.
Talvez eu tenha dito mais do que o suficiente sobre este tema. Pelo menos ficará claro que na minha opinião as histórias de fadas não deveriam ser especialmente associadas às crianças. Associam-se a elas de três modos: naturalmente, porque as crianças são humanas e as histórias de fadas são um gosto humano natural (porém não necessariamente universal); acidentalmente, porque as histórias de fadas representam grande parte do material literário que a Europa recente enfiou nos sótãos; antinaturalmente, por causa de um sentimento errôneo sobre as crianças, um sentimento que parece aumentar com a diminuição das crianças.
É verdade que a era do sentimento infantil produziu alguns livros agradáveis (porém especialmente encantadores para adultos) de histórias de fadas ou semelhantes, mas também foi responsável por uma espantosa vegetação rasteira de narrativas escritas ou adaptadas para o que se concebia ou concebe ser a medida da mente e das necessidades infantis. As antigas narrativas são abrandadas ou expurgadas em vez de ser preservadas. Muitas vezes as imitações são simplesmente tolas, algo como Pigwiggen sem nem ao menos a intriga; ou condescendentes; ou (mais mortal do que tudo) dissimuladamente desdenhosas, visando aos outros adultos presentes. Não acusarei Andrew Lang de desdém dissimulado, mas com certeza ele sorriu consigo mesmo, e também muitas vezes espiava o rosto de outras pessoas espertas por sobre as cabeças de sua platéia infantil, em sério detrimento às Crônicas de Pantouflia.
Dasent respondeu com vigor e justiça aos críticos pudicos de suas traduções de contos populares nórdicos. No entanto, cometeu a espantosa loucura de proibir as crianças de ler especialmente as duas últimas histórias de sua coleção. Parece quase inacreditável que um homem pudesse estudar histórias de fadas e não saber fazer melhor do que isso. Mas nem a crítica, nem a réplica, nem a proibição teriam sido necessárias se as crianças não tivessem sido consideradas, desnecessariamente, as leitoras inevitáveis do livro.
Não nego que haja certa verdade nas palavras de Andrew Lang (por muito que possam soar sentimentais): “Quem quiser entrar no Belo Reino precisa ter o coração de uma criancinha”. Essa característica é necessária para qualquer aventura mais elaborada, em reinos menores e muito maiores do que o Belo Reino. Mas humildade e inocência - é isso que “o coração de uma criança” deve significar em tal contexto - não implicam necessariamente uma admiração isenta de crítica, tampouco uma delicadeza isenta de crítica. Certa vez Chesterton observou que as crianças em cuja companhia assistiu ao Pássaro Azul de Maeterlinck ficaram insatisfeitas “porque não terminou com um Juízo Final, e não foi revelado ao herói e à heroína que o Cão fora fiel e o Gato, infiel”. “Porque as crianças”, diz ele, “são inocentes e amam a justiça, enquanto a maioria de nós é malvada e naturalmente prefere a misericórdia”.
Andrew Lang foi confuso neste ponto. Esforçou-se para defender o assassinato do Anão Amarelo pelo Príncipe Ricardo em uma de suas próprias histórias de fadas. “Odeio crueldade”, disse ele, “[...] mas isso foi numa luta justa, espada na mão, e o anão, paz às suas cinzas!, tinha cumprido sua missão”. Porém não é evidente que uma “luta justa” seja menos cruel do que um “julgamento justo”, ou que trespassar um anão com uma espada seja mais justo do que a execução de reis malignos e madrastas más- que Lang repudia: ele manda os criminosos (segundo se vangloria) à aposentadoria com amplas pensões. Isso é misericórdia não temperada pela justiça. E verdade que esse apelo não foi dirigido às crianças, e sim aos pais e tutores, a quem Lang estava recomendando seu Príncipe Prigio e Príncipe Ricardo 38 como adequados aos seus protegidos. Foram os pais e tutores que classificaram histórias de fadas como Juvenilia. E essa é uma pequena amostra da conseqüente falsificação de valores.
38. Prefácio do Lilac Fairy Book.
Se usarmos criança no bom sentido (a palavra também tem, legitimamente, um mau sentido), não devemos permitir que isso nos empurre para o sentimentalismo de só usar adulto no mau sentido (a palavra também tem, legitimamente, um bom sentido). O processo de se tornar mais velho não necessariamente está aliado ao de se tornar mais malvado, apesar de os dois muitas vezes ocorrerem juntos. Espera-se que as crianças cresçam e não se transformem em Peter Pans. Não para perderem a inocência e a admiração, mas para prosseguirem na viagem estipulada: aquela na qual viajar esperançoso certamente não é melhor do que chegar, apesar de precisarmos viajar esperançosos se quisermos chegar. Mas uma das lições das histórias de fadas (se pudermos atribuir lições a coisas que não lecionam) é que, à juventude imatura, indolente e egoísta, o perigo, o pesar e a sombra da morte podem conferir dignidade e às vezes até sabedoria.
Não dividamos a raça humana em Eloi e Morlocks: crianças bonitas - “elfos”, como o século XVIII costumava chamá-las idioticamente - com seus contos de fadas (cuidadosamente podados) e Morlocks escuros cuidando de suas máquinas. Se a história de fadas é digna de ser lida, então é digna de ser escrita e lida por adultos. É claro que elas acrescentarão mais e extrairão mais do que as crianças são capazes de lidar. Então, como um ramo de arte genuína, as crianças poderão desejar ler histórias de fadas adequadas para elas e que estejam ao seu alcance, bem como poderão desejar receber introduções apropriadas à poesia, à história e às ciências. Contudo, pode ser melhor para elas que leiam algumas coisas, em especial histórias de fadas, que estão além do seu alcance e não aquém. Seus livros, como suas roupas, devem dar espaço para crescer, e no mínimo devem estimular o crescimento.
Ora, muito bem. Se os adultos devem ler histórias de fadas como um ramo natural da literatura -nem brincando de ser crianças, nem fingindo que estão escolhendo para crianças, nem sendo meninos que não querem crescer -, quais são os valores e as funções desse tipo de narrativa? Esta é, segundo penso, a última e mais importante pergunta. Já aludi a algumas das minhas respostas. Primeiro de tudo: se forem escritas com arte, o valor primordial das histórias de fadas será simplesmente aquele valor que, por ser literatura, compartilham com outras formas literárias. Mas as histórias de fadas também oferecem, em grau ou modo peculiar, estas coisas: Fantasia, Recuperação, Escape, Consolo - todas elas coisas de que as crianças em regra precisam menos do que os mais velhos. Hoje a maioria delas é muito comumente considerada nociva para todos. Vou abordá-las brevemente, começando pela Fantasia.