Sombras da Noite

Stephen King · Capítulo 4 de 5 · parte 4/4

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Sombras da Noite

Primavera Vermelha

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— As legislaturas estaduais às vezes recebem um requerimento de que o sistema penitenciário acabe com a ração semanal de cigarros. Essas propostas são invariavelmente recusadas. Nos poucos casos em que foram aprovadas, houve revoltas ferozes nas prisões. Revoltas, Sr.

Morrison. Imagine.

— Isso não me surpreende — disse Morrison.

— Mas considere as implicações. Quando você coloca um homem na prisão, o está privando de qualquer vida sexual normal, de sua bebida, de sua política, de sua liberdade de movimentos. Não há revoltas... ou, pelo menos, há poucas, em comparação com o número de prisões. Mas quando você o priva de seus cigarros... bum! — ele bateu o punho na mesa para dar ênfase.

“Durante a Primeira Guerra Mundial, quando ninguém na retaguarda alemã conseguia cigarros, a visão de

aristocratas alemães catando guimbas nas sarjetas era bastante comum. Durante a Segunda Guerra Mundial, muitas americanas começaram a fumar cachimbo quando não conseguiam cigarros. Um problema fascinante para o verdadeiro pragmatista, Sr. Morrison.”

— Podemos passar ao tratamento?

— Imediatamente. Venha até aqui, por favor.

Donatti se levantara e estava de pé junto à cortina verde que Morrison notara na véspera. Donatti afastou a cortina, revelando uma janela retangular que dava para um quarto vazio. Não, não exatamente vazio. Havia um coelho no chão, comendo bolotas de ração numa vasilha.

— Coelho bonitinho — Morrison comentou.

— De fato. Observe-o.

Donatti apertou um botão no peitoril da janela. O coelho parou de comer e começou a pular pelo quarto alucinadamente. Parecia saltar mais alto a cada vez que seus pés tocavam o chão. Seu pêlo se eriçava em todas as direções. Seus olhos estavam arregalados.

— Pare com isso! Está eletrocutando o coelho!

Donatti soltou o botão.

— Longe disso. A carga elétrica no chão é muito baixa.

Observe o coelho, Sr.

Morrison!

O coelho estava agachado a cerca de 3 metros de distância do prato de ração. Seu nariz tremia. Subitamente, fugiu

para um canto.

— Se o coelho receber um choque com freqüência suficiente enquanto estiver comendo — Donatti disse —, fará a associação bem rapidamente. Comer causa dor.

Assim, não vai mais comer. Alguns choques a mais e o coelho morrerá de fome em frente à sua comida. Isso é chamado treinamento de aversão.

Fez-se a luz na mente de Morrison.

— Não, muito obrigado — começou a se encaminhar à porta.

— Espere, por favor, Sr. Morrison.

Morrison não parou de andar. Agarrou a maçaneta... e sentiu-a deslizar solidamente em sua mão.

— Destranque isto.

— Sr. Morrison, se o senhor ao menos se sentasse...

— Destranque esta porta, ou a polícia vai estar aqui antes que você possa dizer Homem de Marlboro.

— Sente-se — a voz era fria como gelo.

Morrison olhou para Donatti. Seus olhos castanhos eram turvos e assustadores.

Meu Deus, ele pensou, estou trancado aqui com um psicopata. Umedeceu os lábios.

Queria um cigarro mais do que em qualquer outro momento da sua vida.

— Deixe-me explicar o tratamento mais detalhadamente —

Donatti disse.

— Não está entendendo — Morrison disse, com fingida paciência. — Não quero fazer esse tratamento. Decidi recusá-lo.

— Não, Sr. Morrison, é o senhor que não está entendendo.

Não tem escolha.

Quando lhe disse que o tratamento já tinha começado, estava falando a pura verdade.

Achei que já tinha percebido isso, a esta altura.

— Você é louco.

— Não. Apenas um pragmatista. Deixe-me dizer tudo sobre o tratamento.

— Claro — Morrison falou. — Contanto que compreenda que assim que sair daqui vou comprar cinco maços de cigarro e fumar todos eles a caminho da delegacia —

ele subitamente se deu conta de que estava roendo a unha do polegar, chupando o dedo, e se obrigou a parar.

— Como quiser. Mas acho que vai mudar de idéia quando compreender a situação como um todo.

Morrison nada disse. Sentou-se novamente e entrelaçou os dedos.

— Durante o primeiro mês de tratamento, nossos agentes o manterão sob constante supervisão — Donatti disse. — Vai conseguir ver alguns deles. Não todos.

Mas eles sempre estarão com o senhor. Sempre. Se o virem fumando um cigarro, recebo um telefonema.

— E imagino que vai me trazer aqui e me dar o velho tratamento do coelho —

Morrison disse. Tentou fazer com que suas palavras soassem frias e sarcásticas, mas subitamente sentiu-se horrivelmente amedrontado. Aquilo era um pesadelo.

— Oh, não — Donatti disse. — Sua mulher recebe o tratamento do coelho, não

o senhor.

Morrison encarou-o, emudecido.

Donatti sorriu.

— O senhor — ele disse — apenas assiste.

Depois que Donatti o deixou ir embora, Morrison ficou andando por cerca de duas horas, completamente atordoado. Aquele era um outro dia bonito, mas ele nem notou. A monstruosidade do rosto sorridente de Donatti obscurecia tudo mais.

— Veja bem — ele dissera —, um problema pragmático requer soluções pragmáticas. O senhor precisa compreender que estamos pensando nos seus interesses.

A Ex-Fumantes Ltda., segundo Donatti, era uma espécie de fundação — uma organização sem fins lucrativos criada pelo homem do retrato na parede. O cavalheiro havia sido extremamente bem-sucedido em vários negócios de família

— incluindo máquinas caça-níqueis, casas de massagem, loteria ilegal e um ativo (embora clandestino) comércio

entre Nova York e a Turquia. Mort “Três-Dedos” Minelli fora um fumante inveterado — na faixa dos três maços por dia.

A folha de papel que segurava no retrato era o diagnóstico médico: câncer de pulmão. Mort morrera em 1970, após fundar com recursos da família a Ex-Fumantes Ltda.

— Tentamos equilibrar da melhor forma possível nossa receita e nossos gastos — Donatti dissera. — Mas estamos mais interessados em ajudar nossos semelhantes. E, é claro, isso é um grande argumento do ponto de vista dos impostos.

O tratamento era horripilantemente simples. Uma primeira recaída e Cindy seria trazida ao que Donatti chamava de

“sala do coelho”. Uma segunda recaída, e a dose seria para Morrison. Uma terceira recaída, ambos seriam levados juntos para a sala. Uma quarta recaída demonstraria graves problemas de cooperação e requereria medidas mais drásticas. Um agente seria enviado à escola de Alvin para dar uma surra no garoto.

— Imagine — dissera Donatti, sorrindo — como seria horrível para o garoto.

Ele não compreenderia, mesmo que alguém explicasse.

Apenas saberia que alguém o machucava porque o papai tinha sido mau. Ficaria muito assustado.

— Seu desgraçado — Morrison disse, impotente. Sentia-se à beira das lágrimas.

— Seu desgraçado miserável.

— Não me entenda mal — Donatti disse. Estava sorrindo, cheio de simpatia. —

Tenho certeza de que isso não vai acontecer. Quarenta por cento de nossos clientes jamais chegam a ter que ser disciplinados... e apenas 10 por cento cometem mais do que três deslizes. Esses números são bem reconfortantes, não são?

Morrison não os achava reconfortantes. Achava-os aterrorizantes.

— Naturalmente, se transgredir as regras uma quinta vez...

— O que quer dizer?

Donatti sorriu, radiante.

— A sala para o senhor e a sua mulher, uma segunda surra no seu filho e uma surra em sua mulher.

Morrison, que já ultrapassara os limites do pensamento racional, atirou-se por cima da mesa sobre Donatti. Ele moveu-se com velocidade surpreendente para um homem que aparentemente até então estava completamente relaxado. Empurrou a cadeira para trás e lançou os dois pés por cima da mesa, acertando Morrison na barriga.

Engasgando e tossindo, Morrison recuou, cambaleante.

— Sente-se, Sr. Morrison — Donatti disse, com ar benigno.

— Vamos discutir esse assunto como pessoas racionais.

Quando conseguiu recobrar o fôlego, Morrison seguiu as ordens do outro. Os pesadelos têm de terminar em algum momento, não têm?

A Ex-Fumantes Ltda., Donatti também explicara, funcionava numa escala de punição de dez passos. Os passos seis, sete e oito consistiam em outras visitas à sala do coelho (e

aumento de voltagem) e surras mais sérias. O nono passo consistiria em quebrar os braços do filho dele.

— E o décimo? — Morrison perguntou, a boca seca.

Donatti sacudiu pesarosamente a cabeça.

— Então nós desistimos, Sr. Morrison. O senhor passa a fazer parte dos dois por cento dos irrecuperáveis.

— Vocês realmente desistem?

— Por assim dizer — ele abriu uma das gavetas e colocou sobre a mesa uma pistola calibre .45 com um silenciador.

Encarou Morrison nos olhos e sorriu. — Mas mesmo os dois por cento dos irrecuperáveis jamais voltam a fumar. Nós garantimos.

O filme de sexta-feira à noite era Bullitt, um dos favoritos de Cindy, mas depois de Morrison ficar resmungando e se remexendo durante uma hora, ela perdeu a concentração.

— Qual é o problema com você? — ela perguntou, durante o intervalo.

— Nada... tudo — ele grunhiu. — Estou parando de fumar.

Ela riu.

— Desde quando? Desde cinco minutos atrás?

— Desde as três horas da tarde de hoje.

— Você não fumou mesmo nenhum cigarro desde essa hora?

— Não — ele disse, e começou a roer a unha do polegar, que já estava no sabugo.

— Isso é maravilhoso! E o que foi que te fez decidir parar?

— Você — ele disse. — E... e Alvin.

Ela arregalou os olhos, e, quando o intervalo terminou, nem reparou. Dick raramente mencionava seu filho retardado.

Ela se aproximou, olhou para o cinzeiro vazio junto à mão direita dele, e então dentro de seus olhos.

— Você está mesmo tentando parar, Dick?

— Estou.

E se eu procurar a polícia, ele acrescentou, mentalmente, o esquadrão local de capangas estará por perto para deformar o seu rosto, Cindy.

— Fico feliz. Mesmo que você não consiga, nós dois te agradecemos por tentar, Dick.

— Oh, acho que vou conseguir — ele disse, pensando na expressão turva e homicida que os olhos de Donatti haviam assumido quando ele o chutou no estômago.

Dormiu mal naquela noite, acordando repetidas vezes. Por volta das três horas, despertou completamente. A vontade que sentia de fumar era como uma febre baixa. Foi para o seu escritório, no andar de baixo. O cômodo ficava no meio da casa, não havia janelas. Abriu a gaveta superior de sua mesa e olhou para dentro, fascinado pela caixa de cigarros. Olhou ao redor e umedeceu os lábios.

Supervisão constante durante o primeiro mês, Donatti dissera. Dezoito horas por dia durante o segundo e o terceiro mês — mas ele jamais saberia que 18 horas.

Durante o quarto mês, o mês em que a maioria dos clientes costumava ter uma recaída, o

“serviço” retornaria a 24 horas por dia. Então, 12 horas intercaladas de vigilância todos os dias pelo resto do ano.

Depois disso? Vigilância ocasional pelo resto da vida do cliente.

Pelo resto de sua vida.

— Podemos verificá-lo a cada dois meses — Donatti disse.

— Ou a cada dois dias. Ou constantemente durante uma semana, daqui a dois anos. A questão é, o senhor não terá como saber. Se fumar, estará jogando com dados viciados.

Será que estão me observando? Será que estão levando minha mulher, ou mandando um sujeito pegar meu filho neste exato instante? É lindo, não acha? E se conseguir fumar um cigarro às escondidas, o gosto será horrível. Será o gosto do sangue de seu filho.

Mas eles não podiam estar observando agora, na calada da noite, em seu próprio escritório. A casa estava silenciosa como um túmulo.

Olhou para os cigarros na caixa durante quase dois minutos, incapaz de desviar o olhar. Depois foi até a porta do escritório e espiou lá fora, o corredor vazio, voltando então para olhar mais um pouco para os cigarros. Um quadro horrível lhe veio à mente: sua vida se estendendo à sua frente e nem um cigarro à vista. Como, em nome de Deus, ele conseguiria voltar a fazer uma boa apresentação de campanha a um cliente desconfiado sem aquele cigarro queimando indolentemente entre seus dedos, enquanto ele apontava para gráficos e esboços? Como conseguiria suportar as intermináveis exposições de jardinagem de Cindy sem um cigarro? Como conseguiria até mesmo

levantar-se pela manhã e encarar o dia sem um cigarro para fumar enquanto bebesse o café e lesse o jornal?

Amaldiçoou-se por ter se metido naquilo. Amaldiçoou Donatti. E, acima de tudo, amaldiçoou Jimmy McCann. Como ele podia ter feito isso? O filho-da-puta sabia.

Suas mãos tremiam de vontade de agarrar aquele Jimmy Judas McCann.

Furtivamente, lançou mais um olhar pelo escritório. Colocou a mão dentro da gaveta e tirou de lá um cigarro. Acariciou-o, acalentou-o. Como era mesmo aquele velho slogan? Tão redondo, tão firme, tão compacto. Nunca haviam sido ditas palavras mais verdadeiras. Levou o cigarro à boca e então se interrompeu, inclinando a cabeça, atento.

Tinha ouvido um barulho muito discreto no closet? Um leve movimento? Com certeza que não. Mas...

Uma outra imagem mental — aquele coelho saltando alucinadamente sob o efeito da eletricidade. A idéia de Cindy naquela sala...

Ficou escutando desesperadamente, e nada ouviu. Disse a si mesmo que tudo o que tinha a fazer era ir até a porta do closet e escancará-la. Mas estava apavorado demais diante do que poderia encontrar lá. Voltou para a cama, mas não conseguiu dormir durante um longo tempo.

Apesar de sentir-se muito indisposto pela manhã, achou o café-da-manhã gostoso. Após um instante de hesitação, comeu sua tigela costumeira de flocos de milho e em seguida ovos mexidos. Lavava a frigideira, mal-humorado, quando Cindy desceu, de robe.

— Richard Morrison! Você não comia ovos no café desde o tempo do onça.

Morrison resmungou. Achava Desde o tempo do onça uma das piores frases de Cindy, junto com não tem tu, vai tu mesmo.

— Já fumou? — ela perguntou, servindo-se de suco de laranja.

— Não.

— Já vai ter voltado por volta do meio-dia — ela proclamou, risonha.

— Você ajuda muito, mesmo! — ele bradou, voltando-se para ela. — Você e todas as pessoas que não fumam, vocês todos acham que... ah, deixa pra lá.

Pensou que ela fosse se irritar, mas ela o fitava como que maravilhada.

— Você está falando sério — ela disse. — Está mesmo.

— Pode crer que estou — jamais saberá o quanto estou falando sério. É o que espero.

— Pobrezinho — ela disse, aproximando-se dele. — Está parecendo um morto-vivo. Mas estou muito orgulhosa.

Morrison a abraçou com força.

Cenas da vida de Richard Morrison, outubro-novembro: Morrison e um amigo dos Estúdios Larkin, no bar de Jack Dempsey. O amigo oferece um cigarro. Morrison segura o copo com um pouco mais de força e diz: Estou parando. O

amigo ri e diz: Eu te dou uma semana.

Morrison esperando pelo trem, de manhã, olhando por cima do Times para um jovem de terno azul. Vê o jovem quase toda manhã, agora, e às vezes em outros lugares.

No Onde’s, quando foi se encontrar com um cliente. Vendo os discos de 45 rotações na Sam Goody’s, onde Morrison procurava um álbum de Sam Cooke. Certa vez no meio de uma partida de duplas, atrás do grupo de Morrison, no clube local de golfe.

Morrison se embebedando numa festa, louco por um cigarro

— mas ainda não bêbado o suficiente para fumar um.

Morrison visitando seu filho, levando para ele uma bola enorme que apitava quando apertada. O beijo babado e alegre de seu filho. De certa forma, não tão repulsivo quanto antes. Dando em seu filho um abraço apertado, compreendendo aquilo de que Donatti e seus colegas haviam tão cinicamente se dado conta antes dele: o amor é a droga mais perniciosa de todas. Que os românticos debatam sua existência. Os pragmatistas aceitam-no e fazem uso dele.

Morrison abandonando a compulsão física de fumar pouco a pouco, mas jamais se libertando por completo do anseio psicológico, ou da necessidade de ter alguma coisa na boca

— pastilhas contra tosse, balas Life Saver, um palito.

Substitutos ineficazes, todos eles.

E finalmente Morrison preso num engarrafamento colossal no túnel Midtown.

Escuridão. Buzinas soando. O ar fedendo. O tráfego irremediavelmente congestionado.

E subitamente Morrison abrindo o porta-luvas e vendo o maço de cigarros aberto lá dentro. Olhou para o maço por

um momento, então apanhou um cigarro e o acendeu com o isqueiro do painel. Se alguma coisa acontecer, é culpa de Cindy, ele disse a si mesmo, em tom de desafio. Disse a ela que sumisse com todos os malditos cigarros.

A primeira tragada o fez tossir fumaça desesperadamente.

A segunda trouxe lágrimas aos seus olhos. A terceira fez com que se sentisse tonto, prestes a desmaiar.

Tinha um gosto horrível, ele pensou.

E a seguir: meu Deus, o que estou fazendo?

Buzinas soavam impacientemente atrás dele. À sua frente, o trânsito começara a

andar outra vez. Ele apagou o cigarro no cinzeiro, abriu as duas janelas dianteiras, os quebra-ventos, e abanou inutilmente o ar, como um garoto que acabasse de jogar na privada sua primeira guimba.

Juntou-se aos trancos ao fluxo do trânsito e seguiu para casa.

— Cindy? — ele chamou. — Cheguei.

Nenhuma resposta.

— Cindy? Onde é que você está, amor?

O telefone tocou, e ele correu para atender.

— Alô? Cindy?

— Alô, Sr. Morrison — disse Donatti. Sua voz era agradavelmente animada e num tom de quem tratava de negócios. — Parece que temos um pequeno compromisso.

Cinco horas seria conveniente?

— Você está com a minha mulher?

— Sim, para dizer a verdade estou — Donatti deu uma risadinha condescendente.

— Olhe, deixe-a ir embora — Morrison balbuciou. — Não vai acontecer de novo. Foi um deslize, só um deslize, foi tudo.

Só dei três tragadas e meu Deus, o gosto nem estava bom!

— Que pena. Espero o senhor às cinco, então?

— Por favor — disse Morrison, à beira das lágrimas. — Por favor...

Falava com um telefone desligado.

Às cinco da tarde, a sala de recepção estava vazia, exceto pela secretária, que lhe sorriu um sorriso radiante, ignorando a palidez de Morrison e sua aparência desalinhada.

— Sr. Donatti? — ela falou, para o interfone. — Sr. Morrison veio ver o senhor

— ela fez um sinal afirmativo com a cabeça para Morrison.

— Pode entrar.

Donatti estava esperando do lado de fora da sala sem identificação na porta com um homem que usava um moletom do bonequinho smile e carregava um .38. Era grandalhão como um macaco.

— Ouça — Morrison disse para Donatti. — Podemos pensar em alguma coisa, não podemos? Posso te pagar. Posso...

— Cala a boca — disse o homem no moletom do bonequinho smile.

— É bom ver o senhor — Donatti disse. — Lamento que tenha de ser sob circunstâncias tão adversas. Quer me acompanhar? Vamos resolver isso da forma mais breve possível. Posso lhe garantir que sua mulher não vai se machucar... desta vez.

Morrison retesou o corpo, pronto para saltar sobre Donatti.

— Ora, vamos — Donatti disse, parecendo aborrecido. — Se fizer isso, o nosso Junk aqui acerta-lhe um golpe com o revólver, e sua mulher ainda vai ter de ser punida.

O que o senhor tem a ganhar com isso?

— Espero que você queime no inferno — ele disse a Donatti.

Donatti suspirou.

— Se eu recebesse uma moeda a cada vez que alguém expressa um sentimento semelhante, poderia me aposentar.

Que isso lhe sirva de lição, Sr. Morrison. Quando um romântico tenta fazer alguma coisa e falha, dão a ele uma medalha. Quando um

pragmatista é bem sucedido, desejam vê-lo no inferno.

Vamos?

Junk fez um gesto com a pistola.

Morrison foi o primeiro a entrar na sala. Sentia-se entorpecido. A cortininha verde tinha sido afastada. Junk fez com que avançasse, empurrando-o com a arma. Ser testemunha da câmara de gás devia ser daquele jeito, ele pensou.

Olhou lá para dentro. Cindy estava ali, olhando ao redor, desconcertada.

— Cindy! — Morrison gritou, angustiado. — Cindy, eles...

— Ela não pode ouvi-lo ou vê-lo — Donatti disse. — É um espelho falso. Bem, vamos acabar logo com isso.

Realmente, foi um deslize bem pequeno. Acho que trinta segundos serão suficientes. Junk?

Junk apertou o botão com uma das mãos e manteve a pistola encostada firmemente nas costas de Morrison com a outra.

Foram os trinta segundos mais longos da sua vida.

Quando tudo terminou, Donatti colocou a mão sobre o ombro de Morrison e perguntou:

— O senhor vai vomitar?

— Não — disse Morrison, com um fiapo de voz. Sua testa estava apoiada no vidro. Suas pernas eram como geléia. —

Acho que não — ele se virou e viu que Junk se fora.

— Venha comigo — Donatti disse.

— Para onde? — Morrison perguntou, apático.

— Acho que o senhor tem algumas coisas a explicar, não é verdade?

— Como posso encará-la? Como posso dizer a ela que eu... eu...

— Acho que vai ficar surpreso — Donatti disse.

A sala estava vazia, exceto por um sofá. Cindy estava sentada nele, soluçando, desamparada.

— Cindy? — ele disse, baixinho.

Ela ergueu a cabeça, os olhos muito grandes por causa das lágrimas.

— Dick? — ela sussurrou. — Dick? Oh... Oh, meu Deus... —

ele a abraçou com força. — Dois homens — ela disse, a cabeça sobre seu peito. — Lá em casa, e primeiro pensei que eram ladrões, e depois pensei que iam me estuprar, e então eles me levaram para algum lugar com uma venda nos olhos e... e... oh, foi horrível...

— Shhh — ele disse. — Shhh.

— Mas por quê? — ela perguntou, olhando para ele. — Por que será que eles...

— Por minha causa — ele disse. — Tenho que te contar uma história, Cindy...

Quando ele terminou, ficou em silêncio por um momento e então disse:

— Imagino que você esteja com muita raiva de mim. Não te culpo.

Ele olhava para o chão, e ela segurou seu rosto com as duas mãos, virando-o para si.

— Não — ela disse. — Não estou com raiva de você.

Ele olhou para ela, mudo de espanto.

— Valeu a pena — ela disse. — Que Deus abençoe essa gente. Eles te libertaram de uma prisão.

— Está falando sério?

— Estou — ela disse, e o beijou. — Podemos ir para casa, agora? Estou me sentindo muito melhor. Muito melhor mesmo.

O telefone tocou certa tarde, uma semana depois, e quando Morrison reconheceu a voz de Donatti, disse:

— Seus rapazes se enganaram. Não cheguei nem perto de um cigarro.

— Sabemos disso. Temos um último assunto para discutir.

Pode passar por aqui amanhã à tarde?

— Por acaso...

— Não, não é nada sério. Contabilidade, para falar a verdade. Aliás, parabéns pela sua promoção.

— Como soube disso?

— Nós nos mantemos informados — disse Donatti num tom neutro, e desligou.

Quando entraram na salinha, Donatti disse:

— Não fique tão nervoso. Ninguém vai mordê-lo. Venha até aqui, por favor.

Morrison viu uma balança de banheiro comum.

— Olhe, ganhei um pouco de peso, mas...

— Sim, isso acontece com 73 por cento dos nossos clientes.

Suba, por favor.

Morrison obedeceu, e a balança marcou setenta e nove quilos.

— Muito bem, pode descer. Qual é a sua altura, Sr.

Morrison?

— Um metro e oitenta.

— Muito bem. Vejamos — ele tirou do bolso um pequeno cartão plastificado.

— Ora, não está tão mau assim. Vou lhe dar uma receita de pílulas dietéticas altamente ilegais. Deve tomá-las com parcimônia e de acordo com as instruções. E vou fixar seu peso máximo em... vejamos... — ele consultou o cartão novamente. — Oitenta e dois quilos e meio, o que acha? E

como hoje é dia 1º de dezembro, vou aguardá-lo no primeiro dia de cada mês para verificar seu peso. Não tem problema se não conseguir comparecer, contanto que telefone com antecedência.

— E o que acontece se eu passar de 82,5kg?

Donatti sorriu.

— Mandamos alguém até a sua casa para cortar o dedo mínimo da sua mulher

— ele disse. — Pode sair por esta porta, Sr. Morrison. Tenha um bom dia.

Oito meses mais tarde:

Morrison encontra o amigo dos Estúdios Larkin no bar de Dempsey. Morrison atingiu o peso que Cindy orgulhosamente chama de seu peso de lutador: 75 quilos.

Faz ginástica três vezes por semana e está em plena forma.

Comparando, o amigo dos Estúdios Larkin parece mais alguma coisa que um gato trouxe da rua pela boca.

Amigo: Meu Deus, como foi que você conseguiu parar?

Estou preso a essa droga de vício. O amigo apaga o cigarro com repulsa genuína, e bebe seu uísque de um gole só.

Morrison olha para ele especulativamente e então tira da carteira um pequeno cartão de visitas branco. Coloca-o sobre o bar, entre eles. Sabe, ele diz, esses caras mudaram a minha vida.

Doze meses mais tarde:

Morrison recebe uma conta pelo correio. A conta diz: EX-FUMANTES LTDA.

237 East 46th Street

Nova York, N.Y. 10017

1

$2500.00

Tratamento

Orientador

(Victor

$2500.00

Donatti)

Eletricidade

$ .50

total

(Favor pagar

$5000.50

esta

importância)

Aqueles filhos-da-puta!, ele explode. Estão me cobrando pela eletricidade que usaram para... para...

Apenas pague a conta, ela diz, beijando-o.

Vinte meses mais tarde:

Por acaso, Morrison e sua mulher encontram o casal Jimmy McCann no Teatro Helen Hayes. As apresentações são feitas.

Jimmy está com a aparência tão boa quanto naquele dia no terminal do aeroporto, não tanto tempo atrás — se não melhor.

Morrison ainda não conhecia sua mulher. Ela é bonita daquele jeito radiante que as garotas simples têm quando são muito, muito felizes.

Estende a mão e Morrison a cumprimenta. Há alguma coisa estranha no aperto, e no meio do segundo ato ele se dá conta do que é. Ela não tem o dedo mínimo da mão direita.

1- Licor amargo de ervas. (N. da T.)

2- Autor de Como fazer amigos e influenciar pessoas. (N. da

T.)

Eu Sei do que Você Precisa

— Eu sei do que você precisa.

Elizabeth levantou os olhos do seu texto de sociologia, espantada, e viu um jovem de aparência bem comum, usando uma jaqueta militar verde. Por um momento, pensou que ele parecia familiar, como se já o conhecesse; a sensação era parecida com um déjà-vu. Então, a impressão se foi. Ele tinha mais ou menos a sua altura, era bem magro e...

dava a impressão de estar se contorcendo. Essa era a palavra. Ele não se movia, mas parecia estar se contorcendo dentro da pele, fora da vista dos outros. Seu cabelo era preto e estava despenteado. Usava óculos espessos com armação tartaruga que aumentavam seus olhos castanho-escuros, e as lentes pareciam sujas. Não, ela tinha certeza absoluta de que não o havia visto antes.

— Quer saber? — ela disse. — Duvido.

— Precisa de uma casquinha de morango com duas bolas.

Certo?

Ela ficou piscando os olhos, positivamente espantada. Em algum lugar no fundo de sua mente ela estava pensando em fazer uma pausa para tomar um sorvete. Estava estudando para os exames finais num canto isolado no terceiro andar da União dos Estudantes, e ainda estava lamentavelmente longe de terminar.

— Certo? — ele insistiu, e sorriu. O sorriso transformou seu rosto de algo por demasiado intenso e quase feio numa outra coisa estranhamente atraente. A palavra “fofo”

ocorreu a ela, e não era uma palavra muito boa para se aplicar a um rapaz, mas aquele rapaz era mesmo fofo quando sorria. Retribuiu antes de conseguir impedir que seu próprio sorriso lhe chegasse aos lábios. Se havia algo de que ela não precisava era de ter que perder tempo dando um fora num esquisitão que decidira escolher a pior época do ano para tentar impressioná-la. Ela ainda tinha 16

capítulos do Introdução à Sociologia para percorrer.

— Não, obrigada — disse.

— Vamos lá, se você continuar estudando desse jeito vai arranjar uma dor de cabeça. Já está nisso há duas horas, sem nenhuma pausa.

— E como é que você sabe disso?

— Estava te observando — ele disse, prontamente, mas dessa vez seu sorriso de garoto não surtiu efeito. Ela já estava com dor de cabeça.

— Bem, então pode parar — ela disse, com mais aspereza do que pretendia. —

Não gosto de gente olhando para mim.

— Desculpe.

Ela sentiu uma certa pena dele, como às vezes sentia pena de cachorros perdidos.

Ele parecia flutuar dentro da jaqueta militar verde... sim, usava meias descombinadas.

Uma era preta, a outra marrom. Ela se sentiu prestes a sorrir de novo e se refreou.

— Estou em provas finais — ela disse, num tom brando.

— Claro — ele disse. — Tudo bem.

Ficou olhando pensativa, enquanto ele ia embora. Então baixou os olhos para seu livro, mas uma imagem persistente do encontro ainda permanecia: casquinha de morango com duas bolas.

Quando voltou para o dormitório eram 11h15 da noite e Alice estava estendida em sua cama, ouvindo Neil Diamond e lendo A História de O.

— Não sabia que esse livro era adotado no seu curso —

Elizabeth disse.

Alice se sentou.

— Ampliando meus horizontes, querida. Abrindo minhas asas intelectuais.

Elevando meu... Liz?

— Hmmm?

— Você ouviu o que eu disse?

— Não, me desculpe, eu...

— Parece que alguém te acertou, menina.

— Encontrei um cara hoje à noite. Aliás, um cara meio gozado.

— Ah, é? Ele deve ser mesmo demais, se consegue separar a grande Rogan de seus textos adorados.

— O nome dele é Edward Jackson Hamner Júnior, nada menos. Baixo.

Magrelo. Parece ter lavado o cabelo pela última vez no dia em que Washington nasceu.

Ah, e meias descombinadas. Uma preta, outra marrom.

— Achei que os caras das fraternidades fossem mais o seu tipo.

— Não é nada disso, Alice. Eu estava estudando na União, no terceiro andar... o Tanque das Idéias... e ele me convidou a ir até o Grinder tomar um sorvete. Eu disse que não e ele foi embora, meio que com o rabo entre as pernas. Mas depois que ele me fez começar a pensar no sorvete, não consegui mais parar. Resolvi fazer uma pausa e lá estava ele, segurando uma enorme e gotejante casquinha dupla de morango em cada mão.

— Estremeço de ansiedade para ouvir o desdobramento.

Elizabeth riu, com desdém.

— Bem, eu não podia dizer que não. Então ele se sentou, e acabei descobrindo que estudou sociologia com o professor Branner no ano passado.

— Os milagres jamais cessarão, que Deus seja louvado. Pela sagrada...

— Preste atenção, isso é mesmo espantoso. Você sabe como eu tenho me esforçado nesse curso?

— Sei. Você praticamente fala sobre ele enquanto dorme.

— Estou com média 78. Preciso ter 80 para continuar com a bolsa, e isso significa que preciso de pelo menos 84 na prova final. Bem, esse Ed Hamner disse que Branner dá praticamente a mesma prova final todos os anos. E Ed é eidético.

— Você quer dizer que ele tem... como é mesmo que se chama?... uma memória fotográfica?

— Isso. Veja só — ela abriu seu livro de sociologia e tirou de lá três folhas de caderno cobertas de anotações.

Alice apanhou-as.

— Isso parece coisa de múltipla escolha.

— E é. Ed disse que é a prova final de Branner do ano passado, palavra por palavra.

Alice disse, sem rodeios:

— Não acredito.

— Mas cobre toda a matéria!

— Mesmo assim não acredito — ela devolveu as folhas de papel. — Só porque esse maluco...

— Ele não é maluco. Não fale assim dele.

— Tudo bem. Esse carinha não te convenceu a parar de estudar e simplesmente decorar isto, não é?

— Claro que não — ela disse, pouco à vontade.

— E mesmo que essa seja a prova, você acha que isso é ético?

A raiva a surpreendeu e desatou sua língua antes que ela pudesse evitar:

— Isso tem tudo a ver com você, é claro. Está na lista do reitor todos os semestres, e seus pais pagam para você continuar. Você não é... Ei, me desculpe. Eu não precisava responder desse jeito.

Alice deu de ombros e abriu o O novamente, o rosto calculadamente neutro.

— Não, você tem razão. Não me diz respeito. Mas por que você não estuda o livro também... por medida de segurança?

— Claro que vou estudar.

Mas ela estudou basicamente as anotações da prova fornecidas por Edward Jackson Hamner Jr.

Quanto saiu do auditório após a prova, ele estava sentado no saguão, flutuando dentro de sua jaqueta militar verde.

Sorriu hesitante para ela e ficou de pé.

— Como foi?

Num impulso, ela beijou seu rosto. Não conseguia se lembrar de uma sensação tão abençoada de alívio como aquela.

— Acho que gabaritei.

— É mesmo? Que ótimo. Quer comer um hambúrguer?

— Adoraria — ela disse, ausente. Sua mente ainda estava na prova. Era a que Ed havia lhe dado, quase palavra por palavra, e ela respondera tudo com a maior facilidade.

Enquanto comiam hambúrgueres, ela perguntou a ele como estava indo em suas provas.

— Não tenho provas. Estou no programa especial de estudos avançados, e você só faz provas se quiser. Eu estava indo bem, então não fiz.

— Então por que você ainda está aqui?

— Precisava ver como você tinha se saído, não precisava?

— Ed, não precisava. É bonitinho da sua parte, mas... — A expressão desarmada em seus olhos a perturbava. Ela já tinha visto aquilo antes. Era uma garota bonita.

— Sim — ele disse, ternamente. — Sim, eu precisava.

— Ed, estou agradecida. Acho que você salvou minha bolsa.

Estou mesmo. Mas eu tenho namorado, sabe?

— Sério? — ele perguntou, numa tentativa malsucedida de parecer despreocupado.

— Bem sério — ela disse, imitando o tom dele. — Estou quase noiva.

— Ele sabe a sorte que tem? Sabe quanta sorte?

— Eu também tenho — ela disse, pensando em Tony Lombard.

— Beth — ele disse, subitamente.

— O quê? — ela perguntou, espantada.

— Ninguém te chama assim, chama?

— Ora... não. Ninguém me chama assim.

— Nem mesmo esse sujeito?

— Não... — Tony a chamava de Liz. Às vezes de Lizzie, o que era ainda pior.

Ele se inclinou para a frente.

— Mas Beth é o que você prefere, não é?

Ela riu para disfarçar a confusão que sentia.

— Por que cargas d’água...

— Deixa para lá — ele sorriu seu sorriso de garoto. — Vou te chamar de Betty.

Assim é melhor. Agora coma seu hambúrguer.

E então o penúltimo ano chegara ao fim, e ela dizia adeus à Alice. Estavam pouco à vontade uma com a outra, e Elizabeth sentia muito. Achava que era culpa sua; ela havia se gabado um pouco demais de sua prova final de sociologia quando as notas saíram.

Tirara 97 — a nota mais alta da turma.

Bem, ela disse a si mesma, enquanto aguardava, no aeroporto, a chamada para o seu vôo, não era mais antiético do que o estudo de última hora que ela se resignara a dar naquele canto do terceiro andar. O estudo de última hora não era, na verdade, estudo propriamente dito; era apenas uma decoreba mecânica que desaparecia por completo assim que a prova passava.

Apalpou o envelope cuja ponta saía de sua bolsa. O aviso de que recebera a bolsa para o último ano — 2 mil dólares. Ela e Tony trabalhariam juntos em Boothbay, Maine, naquele

verão, e o dinheiro que ela ganharia lá completaria o restante. E graças a Ed Hamner, seria um belo verão. Um mar de rosas, do começo ao fim.

Mas foi o pior verão de sua vida.

Junho foi um mês chuvoso, a escassez de gasolina diminuiu o movimento dos turistas, e suas gorjetas no Boothbay Inn foram medíocres. Pior ainda, Tony a pressionava com relação ao casamento. Podia arranjar um emprego no campus, ou perto, ele disse, e com a bolsa da Student Aid de Elizabeth ela podia se formar em grande estilo. Ela ficou surpresa ao descobrir que a idéia a amedrontava mais do que agradava.

Alguma coisa estava errada. Ela não sabia o que, mas havia algo faltando, desajustado, deslocado. Certa noite, no final de julho, ela se assustou ao ter uma crise de choro histérica em seu apartamento. A única coisa boa naquilo tudo foi que sua colega de quarto, uma garota tímida e miúda chamada Sandra Ackermann, tinha saído com o namorado.

O pesadelo começou no princípio de agosto. Ela estava deitada no fundo de uma sepultura aberta, incapaz de se mexer. A chuva caía de um céu branco sobre seu rosto virado para cima. E então Tony estava de pé à beira da sepultura, com seu capacete amarelo de operário.

— Case-se comigo, Liz — ele disse, olhando para ela lá embaixo, sem qualquer expressão no rosto. — Case-se comigo, ou então...

Ela tentou falar, concordar; faria qualquer coisa para ele tirá-la daquele buraco enlameado medonho. Mas estava paralisada.

— Muito bem — ele disse. — Então é a segunda opção.

Ele foi embora. Ela tentava sair daquela paralisia, mas não era capaz.

Então, ouviu o trator.

Um instante mais tarde conseguiu vê-lo, o imenso monstro amarelo, empurrando com a lâmina um monte de terra molhada. O rosto impiedoso de Tony olhava pela cabine aberta.

Ele ia enterrá-la viva.

Presa ao seu corpo imóvel e mudo, só o que ela podia fazer era observar, num pavor silencioso. Torrões de terra começaram a cair pelas laterais do buraco...

Uma voz familiar gritou:

— Vá embora! Deixe ela em paz! Vá embora!

Tony desceu do trator aos tropeços e saiu correndo.

Um enorme alívio a invadiu. Ela teria chorado, se fosse capaz. E seu salvador apareceu, de pé junto ao túmulo aberto, tal como um coveiro. Era Ed Hamner, flutuando em sua jaqueta militar verde, o cabelo despenteado, os óculos com armação de tartaruga escorregando para a ponta do nariz. Estendia-lhe as mãos.

— Levante-se — ele disse, ternamente. — Eu sei do que você precisa. Levante-se, Beth.

E ela conseguiu se levantar. Soluçou de alívio. Tentou agradecer-lhe; suas palavras se embaralhavam umas às outras. E Ed apenas sorria com ternura e fazia que sim com a cabeça. Ela segurou sua mão e olhou para baixo, a fim de ver onde pisava. E

quando levantou os olhos outra vez, segurava a pata de um imenso lobo cinzento, que babava, com olhos vermelhos e brilhantes e dentes grossos e afiados na mandíbula aberta, pronta para morder.

Acordou repentinamente sentada na cama, a camisola ensopada de suor. Seu corpo tremia incontrolavelmente. E

mesmo depois de um banho morno e um copo de leite, ela não conseguiu fazer as pazes com a escuridão. Dormiu com a luz acesa.

Uma semana mais tarde, Tony morreu.

Ela abriu a porta de roupão, esperando ver Tony, mas era Danny Kilmer, um dos colegas de trabalho dele. Danny era um cara engraçado; ela e Tony haviam saído com ele e sua namorada algumas vezes. Parado ali, contudo, em pé, na porta de seu apartamento no segundo andar, ele parecia não apenas sério, mas doente.

— Danny? — ela disse. — O quê...

— Liz — ele disse. — Liz, você precisa ser forte. Você precisa... ah, meu Deus!

— ele esmurrou a ombreira da porta com sua mão grande e suja, e ela viu que chorava.

— Danny, foi o Tony? Alguma coisa...

— Tony morreu — Danny disse. — Ele estava... — mas já falava para as paredes. Ela havia desmaiado.

A semana seguinte passou numa espécie de sonho. A história foi montada a partir da nota no jornal, tristemente breve, e do que Danny lhe contou, enquanto bebiam uma cerveja no Harbour Inn.

Estavam consertando bueiros na Rota 16. Parte da pista estava esburacada, e Tony desviava o tráfego. Um garoto dirigindo um Fiat vermelho se aproximava, descendo a colina. Tony agitou a bandeira vermelha, mas o garoto não chegou sequer a

diminuir a velocidade. Tony estava de pé junto a um caminhão basculante, e não havia espaço para recuar. O

garoto no Fiat tivera ferimentos na cabeça e um braço quebrado; estava histérico e também totalmente sóbrio. A polícia descobriu vários furos na tubulação de freio, como se estes tivessem passado por um superaquecimento e depois derretido. Seu prontuário de motorista era impecável; ele simplesmente não tinha conseguido frear. Tony fora vítima da mais rara entre as fatalidades automobilísticas: um acidente honesto.

O choque e a depressão dela foram aumentados pela culpa.

Os fatos tinham tirado de suas mãos a decisão sobre o que fazer a respeito de Tony. E uma parte secreta e doentia sua estava feliz que fosse assim. Porque ela não queria se casar com Tony... pelo menos não desde a noite do sonho.

Ela sucumbiu na véspera de voltar para casa.

Estava sentada num promontório, sozinha, e depois de uma hora ou coisa assim as lágrimas vieram. Surpreenderam-na com sua fúria. Ela chorou até sentir dor de estômago e de cabeça, e quando as lágrimas passaram, ela se sentia não melhor, mas pelo menos seca e vazia.

E foi então que Ed Hamner disse:

— Beth?

Ela se virou subitamente, a boca tomada pelo gosto de cobre do medo, em parte esperando ver o lobo feroz de seu

sonho. Mas era apenas Ed Hamner, vermelho de sol e estranhamente indefeso sem sua jaqueta militar verde e seus jeans. Usava shorts vermelhos que chegavam logo acima de seus joelhos ossudos, uma camiseta branca que se enfunava em seu peito magro como uma vela solta sob a brisa do oceano, e sandálias de borracha. Não sorria, e o forte brilho do sol em seus óculos tornava impossível ver seus olhos.

— Ed? — ela perguntou, hesitante, em parte convencida de que aquela era alguma alucinação causada pelo sofrimento.

— É mesmo...

— Sim, sou eu.

— Como...

— Estou trabalhando no Teatro Lakewood, em Skowhegan.

Encontrei com sua colega de quarto... Alice, não é esse o nome dela?

— Sim.

— Ela me contou o que aconteceu. Vim no mesmo instante.

Pobre Beth.

Ele mexeu a cabeça, apenas um grau ou coisa assim, mas o brilho do sol se foi da superfície dos óculos e ela não viu nada que lembrasse um lobo, nada predatório, mas apenas uma solidariedade calma e cálida.

Começou a chorar novamente, e ficou um pouco abalada com a força inesperada daquele choro. Então ele a abraçou, e então tudo ficou bem.

Jantaram no Silent Woman em Waterville, que ficava a 40

quilômetros dali; talvez exatamente a distância de que ela

precisava. Foram no carro de Ed, um Corvette novo, e ele dirigia bem — nem de um jeito ostentoso, nem alvoroçado, como ela achou que talvez dirigisse. Ela não queria conversar e não queria que a alegrassem. Ele parecia saber disso, e colocou uma música suave no rádio.

E fez o pedido sem consultá-la — frutos do mar. Ela achou que não estava com

fome, mas, quando a comida veio, devorou-a com voracidade.

Quando levantou os olhos outra vez, seu prato estava vazio, e ela riu nervosamente. Ed estava fumando um cigarro e observando-a.

— A donzela enlutada fez uma lauta refeição — ela disse. —

Você deve achar que sou uma pessoa horrível.

— Não — ele disse. — Você passou por muita coisa e precisa recuperar suas forças. É como estar doente, não é?

— É. Exatamente.

Ele segurou sua mão por cima da mesa, apertou-a por um breve instante e depois soltou-a.

— Mas agora é hora de se recuperar, Beth.

— Será? Será mesmo?

— Sim — ele disse. — Então me conte. Quais são seus planos?

— Vou para casa amanhã. Depois disso, não sei.

— Vai voltar para a faculdade, não vai?

— Eu juro que não sei. Depois disso, parece tão... tão trivial.

Muitos dos meus objetivos parecem ter desaparecido. E

toda a graça.

— Essas coisas vão voltar. É difícil acreditar nisso agora, mas é verdade.

Experimente durante seis semanas e veja. Você não tem nada melhor do que isso para fazer — a última frase parecia uma pergunta.

— É verdade, eu acho. Mas... Pode me dar um cigarro?

— Claro. Mas são mentolados. Sinto muito.

Ela pegou um cigarro.

— Como você sabia que eu não gosto de cigarros mentolados?

Ele deu de ombros.

— Você não tem cara de quem gosta, acho.

Ela sorriu.

— Você é engraçado, sabia disso?

Ele sorriu um sorriso neutro.

— Não, realmente. Você aparecer, entre todas as pessoas...

achei que não queria ver ninguém. Mas estou realmente feliz por ter sido você, Ed.