Sombras da Noite
Primavera Vermelha
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Minha avó costumava dizer que a primavera vermelha significa que o pior vento norte do inverno ainda está por vir... e quanto mais tempo durar, pior será a tempestade.
— Lendas — eu disse. — Não acredito numa única palavra
— olhei para ele. —
Mas estou nervoso. E você?
Ele sorriu, benevolente, e roubou um dos meus cigarros do maço aberto sobre o peitoril da janela.
— Suspeito de todo mundo, menos de mim e de você — disse ele, e então seu sorriso se desfez um pouco. — E às vezes tenho minhas dúvidas quanto a você. Quer ir ao Union jogar um pouco de sinuca? Aposto dez pratas.
— Tenho prova preliminar de trigonometria na próxima semana. Vou ficar quietinho aqui com um marcador de textos e uma pilha de anotações.
Por um longo tempo depois que ele se foi, só o que consegui fazer foi ficar olhando pela janela. E mesmo depois que abri meu livro e comecei a estudar, parte de mim ainda estava lá, andando pelas sombras onde algo de natureza negra se encontrava agora no comando.
Naquela noite, Adelle Parkins foi morta. Seis carros de polícia e 17 agentes à paisana com jeito de colegiais (oito dos quais eram mulheres importadas diretamente de Boston) patrulhavam o campus. Mas Jack Salto-de-Molas matou-a assim mesmo, passando-se convincentemente por um de nós. A primavera falsa, a primavera mentirosa, ajudou-o e acobertou-o — ele a matou e deixou-a recostada atrás do volante de seu Dodge 1964, e o corpo só foi encontrado no dia seguinte, parte no banco traseiro e parte no porta-malas. Escritas a sangue no pára-brisa — desta vez era realidade, não um mero boato — estavam as palavras: Ha! Ha!
O campus perdeu um pouco do juízo depois disso; todos nós e nenhum de nós tínhamos conhecido Adelle Parkins. Ela era uma daquelas mulheres anônimas e atormentadas que trabalhavam no turno estafante das três às dez no Grinder, enfrentando hordas de alunos famintos por hambúrgueres no intervalo dos estudos, vindos da biblioteca em frente. Ela devia ter tido maior sossego naquelas suas três últimas enevoadas noites de vida; o toque de recolher estava sendo rigorosamente observado, e depois das nove os únicos clientes do Grinder eram guardas esfomeados e faxineiros felizes — os prédios vazios haviam melhorado consideravelmente seu mau humor
habitual.
Há pouco mais o que contar. A polícia, tão propensa à histeria quanto qualquer um de nós, e imprensada contra a parede, prendeu um inofensivo homossexual do último ano de sociologia chamado Hanson Grey, que alegava não se lembrar onde havia passado várias das noites fatídicas.
Ficharam o sujeito, formalizaram uma acusação e o soltaram, após o que ele regressou às pressas à sua cidade natal em New Hampshire, depois da última e inominável noite da primavera vermelha, em que Martha Curran foi chacinada no passeio público.
Por que ela estava lá fora sozinha, jamais se saberá — ela era uma gordinha de beleza triste que morava num apartamento na cidade com três outras garotas. Deslizara para o campus tão silenciosa e facilmente quanto o próprio Jack Salto-de-Molas. O que a levou até lá? Talvez suas necessidades fossem profundas e indomáveis, assim como as de seu assassino, e tão incompreensíveis quanto. Talvez a necessidade de um romance desesperado e apaixonado com a noite cálida, a neblina cálida, o cheiro do mar, o punhal frio.
Isso foi no dia 23. No dia 24, o reitor da universidade anunciou que o recesso de primavera seria antecipado em uma semana, e nós nos dispersamos, não alegremente, mas como carneirinhos assustados diante de uma tempestade, deixando o campus vazio e assombrado pelos carros de polícia e por um espectro sombrio.
Eu tinha meu próprio carro no campus, e levei de carona seis pessoas que iam na mesma direção, sua bagagem entulhada de qualquer maneira. Não foi uma viagem agradável. Pelo que sabíamos, Jack Salto-de-Molas podia estar no carro conosco.
Naquela noite, o termômetro caiu quase dez graus, e toda a área norte da Nova Inglaterra foi assolada por um furioso vento norte que começou com granizo e terminou com mais de 30 centímetros de neve. O número habitual de pessoas idosas teve ataques cardíacos tentando removê-la — e então, como num passe de mágica, era abril.
Aguaceiros limpos e noites estreladas.
Chamam-na de primavera vermelha. Sabe Deus por que, e é uma época malévola, enganadora, que só regressa uma vez a cada oito ou dez anos. Jack Salto-de-Molas se foi com o nevoeiro, e no início de junho as conversas pelo campus voltaram-se para uma série de protestos contra a convocação para o serviço militar e uma vigília diante do prédio onde um conhecido fabricante de napalm entrevistava candidatos em busca de emprego. Em junho, Jack Salto-de-Molas era um assunto quase que unanimemente evitado — pelo menos em voz alta.
Desconfio que muitos eram os que o revolviam em particular, em busca daquela rachadura no ovo da loucura que daria sentido a tudo aquilo.
Esse foi o ano em que me graduei, e no seguinte me casei.
Um bom emprego numa editora local. Em 1971, tivemos um filho, que está agora quase em idade escolar.
Um ótimo garoto, inteligente, que tem os meus olhos e a boca da mãe.
Então, o jornal de hoje.
É claro que eu sabia que ela havia chegado. Soube ontem pela manhã, quando me levantei e ouvi o som misterioso da neve derretida escorrendo pela sarjeta, e senti o cheiro do oceano na nossa varanda da frente, a 15 quilômetros da praia mais próxima.
Sabia que a primavera vermelha estava de volta quando regressava à minha casa ontem à noite e tive de acender os faróis em meio à neblina, que começava a se erguer dos campos
e ravinas, borrando os contornos dos prédios e imprimindo halos feéricos ao redor das lâmpadas dos postes.
O jornal desta manhã diz que uma garota foi assassinada no campus de New Sharon, perto dos canhões da Guerra Civil.
Foi assassinada ontem à noite e encontrada num monte de neve que começava a derreter. Ela não estava... não estava toda ali.
Minha mulher está aborrecida. Quer saber onde eu estive ontem à noite. Não posso lhe dizer porque não me lembro.
Lembro-me de dirigir para casa depois do trabalho, e lembro-me de acender os faróis para tentar me orientar em meio à adorável neblina que começava a se espalhar, mas isso é tudo.
Estive pensando sobre aquela noite enevoada em que sentia dor de cabeça e saí para caminhar ao ar livre e passei por todas aquelas sombras agradáveis sem forma ou substância. E estive pensando
sobre o porta-malas do meu carro — um nome tão feio, porta-
malas3 — e me
perguntando por que diabos estou com medo de abri-lo.
Posso ouvir minha mulher enquanto escrevo isto, no quarto ao lado, chorando.
Ela acha que eu estive com outra mulher ontem à noite.
Ah, meu Deus, também acho que estive.
1- Demônio em forma de mulher do folclore irlândes. (N. da T.)
2- Students for a Democratic Society, uma organização ativista de estudantes de esquerda dos anos 1960. (N. da E.)
3- Em inglês, trunk, que também pode significar “tronco”.
(N. da T.)
O Ressalto — Vamos lá — Cressner repetiu. — Olhe na sacola.
Estávamos no seu apartamento de cobertura, a 43 andares do térreo. O carpete era espesso e felpudo, cor de laranja opaco. No meio dele, entre a cadeira reclinável basca em que Cressner se sentava e o sofá de couro legítimo em que ninguém se sentava, encontrava-se uma sacola de compras marrom.
— É um suborno, esqueça — retruquei. — Eu a amo.
— É dinheiro, mas não suborno. Vamos lá. Olhe.
Ele fumava um cigarro turco numa piteira de ônix. O
sistema de circulação de ar só deixava chegar até mim uma leve amostra do aroma do fumo, que logo varria para longe.
Ele usava um roupão de seda com um dragão bordado. Seus olhos eram calmos e inteligentes por trás dos óculos. Ele parecia ser exatamente aquilo que era. Um legítimo filho-da-puta de primeira linha, quinhentos quilates. Eu amava sua mulher, e ela me amava. Esperava que ele fosse causar problemas, e sabia que era o que estava acontecendo, mas não tinha certeza do tipo de problema.
Aproximei-me da sacola de compras e virei-a. Maços de notas presos com elásticos caíram sobre o tapete. Notas de 20, todas elas. Apanhei um dos maços e contei.
Dez notas por maço. Havia um bocado deles.
— Vinte mil dólares — ele disse, e tragou o cigarro.
Fiquei de pé.
— Certo.
— São para você.
— Não quero.
— Minha mulher vai junto.
Eu não disse nada. Márcia me advertira sobre como as coisas iam se passar. Ele é como um gato, ela dissera. Um gato bem esperto, cheio de malícia. Tentará fazer de você um camundongo.
— Então você é um tenista profissional — disse ele. — Acho que nunca tinha visto um antes.
— Quer dizer que os seus detetives não tiraram nenhuma fotografia?
— Ah, sim, tiraram — ele gesticulou negligentemente com a piteira. — Fizeram até um filme em câmera lenta de vocês dois no Motel Bayside. Havia uma câmera atrás do espelho.
Mas as fotografias raramente são fiéis à realidade, não é mesmo?
— Se você diz.
Ele vai ficar o tempo todo mudando de assunto, Márcia dissera. É a maneira como coloca as pessoas na defensiva.
Em pouco tempo, você vai golpear na direção em que acha que ele se encontra, e ele vai te desviar para outro lugar.
Fale o mínimo
necessário, Stan. E lembre-se de que eu te amo.
— Convidei-o porque acho que devemos bater um papo de homem para homem, Sr. Norris. Apenas uma conversa agradável entre dois seres humanos civilizados, um dos quais roubou a mulher do outro.
Comecei a responder, mas decidi não fazê-lo.
— Gostou de San Quentin? — Cressner perguntou, soltando uma baforada indolente.
— Não particularmente.
— Creio que passou três anos por lá. Acusação de furto qualificado, se não me engano.
— Márcia sabe disso — falei, no mesmo instante desejei não tê-lo feito. Estava jogando o jogo dele, exatamente o que ela me aconselhara a não fazer. Levantando com delicadeza as bolas para que ele as rebatesse com toda força.
— Tomei a liberdade de remover seu carro — ele disse, lançando um olhar pela janela, na outra extremidade da sala. Na verdade, não era em absoluto uma janela: a parede inteira era de vidro. No meio havia uma porta corrediça, também de vidro. Do outro lado, uma sacada pequena. Do outro lado, uma queda bastante pronunciada. Havia algo de estranho com aquela porta, mas eu não conseguia identificar o quê.
— Este é um prédio muito agradável — Cressner disse. —
Boa segurança.
Circuito interno de TV e tudo mais. Quando soube que você estava no saguão, dei um telefonema. Um empregado então fez uma ligação direta na ignição do seu carro e levou-o do estacionamento até um local público, a vários quarteirões daqui — ele levantou os olhos para o relógio em forma de sol, em estilo modernista, que ficava sobre o sofá.
Eram 8h05. — Às 8h20, o mesmo empregado ligará para a polícia de um telefone público, para falar a respeito de seu carro. Às 8h30, no máximo, os agentes da lei terão encontrado quase 200 gramas de heroína escondidos no estepe, na mala de seu carro.
Vão procurar por você com afinco depois disso, Sr. Norris.
Eu estava preso numa cilada. Tentara me defender da melhor forma possível, mas no fim das contas tinha sido brincadeira de criança para ele.
— Essas coisas vão acontecer, a menos que eu ligue para o meu empregado e diga-lhe que esqueça o tal telefonema.
— Tudo o que preciso fazer é contar onde Márcia está — eu disse. — Nada feito, Cressner, eu não sei. Combinamos desse jeito por sua causa.
— Meus homens a seguiram.
— Não creio. Acho que os despistamos no aeroporto.
Cressner suspirou, removeu a piteira do cigarro e o apagou num cinzeiro cromado com tampa deslizante. Nada de sujeira. A guimba de cigarro e Stan Norris tinham sido descartados com a mesma tranqüilidade.
— Na verdade — disse ele —, você tem razão. O velho truque de desaparecimento no banheiro feminino. Meus agentes ficaram extremamente envergonhados por cair num truque tão antigo. Acho que é tão velho que eles nem chegaram a prevê-lo.
Eu não disse nada. Depois que Márcia despistara os agentes de Cressner no aeroporto, havia tomado um ônibus de volta à cidade e dali até a estação rodoviária; esse fora o plano.
Levava consigo 200 dólares, todo o dinheiro da minha caderneta de poupança. Duzentos dólares e um ônibus Greyhound podiam levar você a qualquer
lugar do país.
— Você é sempre tão comunicativo assim? — Cressner perguntou, e dava a impressão de estar genuinamente interessado.
— Márcia me aconselhou a falar pouco.
Um pouco mais áspero, ele disse:
— Então imagino que vá fazer valer seu direito de permanecer em silêncio quando a polícia levá-lo. E na próxima vez em que vir minha mulher, ela talvez já seja uma vovozinha numa cadeira de balanço. Já enfiou isso na cabeça? Acredito que a posse de 200 gramas de heroína poderia custar quarenta anos de prisão.
— Isso não vai trazer Márcia de volta para você.
Ele sorriu ligeiramente.
— E esse é o xis da questão, não é? Será que preciso recapitular as coisas? Você e a minha mulher se apaixonaram. Tiveram um caso... se você chama de caso uma série de encontros de uma noite em motéis baratos.
Minha mulher me deixou. Mas eu tenho você. E você se encontra naquilo que chamamos de beco sem saída. Isso resume bem a situação?
— Agora entendo por que ela se cansou de você — disse eu.
Para minha surpresa, ele jogou a cabeça para trás e riu.
— Sabe de uma coisa, até que eu gosto de você, Sr. Norris.
Você é vulgar, é mesquinho, mas parece ter coragem.
Márcia disse que tinha. Bem que duvidei. Ela julga mal as pessoas. Mas você tem uma certa... verve. É por isso que arranjei as coisas dessa forma. Sem dúvida, Márcia lhe disse que eu gosto de apostar.
— Sim — agora eu sabia o que havia de errado com a porta no meio da parede de vidro. Estávamos em pleno inverno, e ninguém ia querer tomar chá numa sacada a 43
andares de altura. Na sacada não havia móveis. E a tela da porta fora removida. Por que diabos Cressner teria feito isso?
— Não gosto muito da minha mulher — Cressner disse, colocando cuidadosamente um outro cigarro na piteira. —
Isso não é segredo. Tenho certeza de que ela lhe disse isso.
E tenho certeza de que um homem com a sua... experiência sabe que mulheres satisfeitas não vão para a cama com o tenista do clube local logo de cara.
Na minha opinião, Márcia é uma puritanazinha afetada e assustadiça, uma choramingona, uma mexeriqueira, uma...
— Já chega — disse eu.
Ele sorriu friamente.
— Peço desculpas. Toda hora me esqueço de que estamos falando da sua amada.
São 8h16. Está nervoso?
Dei de ombros.
— Durão até o fim — ele disse, acendendo um cigarro. — De qualquer modo, você pode se perguntar por que, se Márcia me desagrada tanto, simplesmente não dou a ela sua liberdade...
— Não, não me pergunto em absoluto.
Ele franziu a testa.
— Você é um filho-da-puta egoísta, ganancioso e egocêntrico. É por isso.
Ninguém tira o que é seu. Nem mesmo quando você já não quer mais.
Ele ficou vermelho, depois riu.
— Ponto para você, Sr. Norris. Muito bom.
Dei de ombros outra vez.
— Vou te propor um desafio. Se ganhar, pode sair daqui com o dinheiro, a mulher e sua liberdade. Por outro lado, se perder, perde sua vida.
Olhei para o relógio. Não pude evitar. Eram 8h19.
— Tudo bem — eu disse. O que mais poderia fazer? Pelo menos ganharia tempo. Tempo para pensar em algum modo de dar o fora dali, com ou sem o dinheiro.
Cressner apanhou o telefone ao lado e discou um número.
— Tony? Plano dois. Sim — desligou.
— Qual é o plano dois? — perguntei.
— Vou ligar outra vez para Tony dentro de 15 minutos, e ele removerá a...
substância incriminadora da mala do seu carro, trazendo-a de volta para cá. Se eu não ligar, ele entra em contato com a polícia.
— Você não confia muito nas pessoas, não é?
— Seja sensato, Sr. Norris. Há 20 mil dólares sobre o carpete, entre nós. Nesta cidade, as pessoas cometem assassinatos por 20 centavos.
— Qual é a aposta?
Ele pareceu genuinamente magoado.
— Desafio, Sr. Norris, desafio. Cavalheiros fazem desafios.
Gente vulgar é que aposta.
— Como quiser.
— Muito bem. Reparei que estava olhando para a minha sacada.
— Tiraram a tela da porta.
— Sim. Mandei tirar hoje à tarde. O que proponho é o seguinte: que você contorne o prédio andando sobre o ressalto que fica logo abaixo do nível da cobertura.
Se conseguir circundar com sucesso o prédio, o dinheiro é seu.
— Você é louco.
— Pelo contrário. Propus este desafio seis vezes a seis pessoas diferentes durante meus 12 anos neste apartamento. Três delas eram atletas profissionais, como você... um deles, um notório jogador de futebol americano, mais famoso pelos seus comerciais na tevê do que por seus passes no campo, outro um jogador de beisebol, outro um jóquei bem famoso que ganhava um salário anual extraordinário e que também tinha problemas extraordinários com pensão alimentícia. Os outros três eram cidadãos mais normais, que tinham profissões diferentes, mas duas coisas em comum: necessidade de dinheiro e um certo grau de elegância física — ele tragou o cigarro pensativamente, e então prosseguiu.
— O desafio foi declinado cinco vezes. Na outra ocasião, foi aceito. Os termos eram 20
mil dólares ou seis meses de serviços para mim. Ganhei. O
sujeito deu uma olhada pela sacada e quase desmaiou —
Cressner pareceu achar graça e ao mesmo tempo ser tomado pelo desprezo. — Disse que tudo lá embaixo parecia tão pequeno. Foi o que acabou com sua coragem.
— O que o faz pensar...
Ele me interrompeu com um gesto impaciente da mão.
— Não me aborreça, Sr. Norris. Acho que vai aceitar porque não tem escolha. É
meu desafio numa das mãos ou quarenta anos em San Quentin na outra. O dinheiro e minha mulher são apenas dádivas adicionais, que demonstram a minha generosidade.
— Que garantias eu tenho de que você não vai me trair?
Talvez eu fizesse o que sugere para depois descobrir que você ligou para Tony e disse-lhe para seguir em frente de qualquer modo.
Ele suspirou.
— Você é um caso de paranóia ambulante, Sr. Norris. Não amo minha mulher.
Tê-la por perto não faz nada bem ao meu célebre ego. Vinte mil dólares são uma ninharia para mim. Gasto quatro vezes isso por semana, em propinas para a polícia.
Quanto ao desafio, porém... — seus olhos brilharam. — Isso não tem preço.
Pensei a respeito, e ele me deixou pensar. Creio que sabia que o verdadeiro otário sempre convence si mesmo. Eu era um tenista vagabundo com 36 anos de idade, e o clube andara pensando em me mandar embora quando Márcia fez uma pequena pressão. O tênis era a única profissão que eu conhecia, e, sem isso, mesmo arranjar um emprego como zelador seria difícil — sobretudo com uma ficha criminal. Foi um delito chinfrim, mas os empregadores não levariam isso em conta.
E o engraçado naquilo tudo era que eu realmente amava Márcia Cressner.
Apaixonara-me por ela depois de duas aulas de tênis às nove da manhã, e ela por mim, no mesmo ritmo. Era a sorte de Stan Norris em cena, sem dúvida. Depois de 36 anos de uma feliz vida de solteiro, eu fiquei de pneus arriados pela mulher de um dos chefões da Organização.
A raposa velha sentada ali fumando seu cigarro turco importado sabia disso tudo, é claro. E de mais alguma coisa também. Eu não tinha nenhuma garantia de que ele não fosse me entregar, se eu aceitasse a aposta e vencesse, mas sabia muito bem que estaria atrás das grades às dez da manhã, se não aceitasse. E só recuperaria minha liberdade na virada do século.
— Quero saber uma coisa — eu disse.
— E o que seria, Sr. Norris?
— Olhe para mim bem nos olhos e me diga se você é um caloteiro ou não.
Ele encarou meus olhos.
— Sr. Norris — disse, em voz baixa —, nunca trapaceio.
— Tudo bem — eu disse. Que outra escolha eu tinha?
Ele se ergueu, radiante.
— Excelente! Realmente excelente! Aproxime-se da porta da sacada comigo, Sr.
Norris.
Caminhamos juntos até lá. Seu rosto era o de um homem que sonhara com aquela cena centenas de vezes, e saboreava até a última gota sua concretização.
— O ressalto tem 12 centímetros de largura — ele disse, com ar sonhador. —
Eu próprio o medi. Na verdade, já fiquei de pé sobre ele, segurando-me na sacada, é claro. Tudo o que você tem que fazer é passar por cima da grade de ferro. Ficará à altura do peito. Mas é claro que para além da grade não há nada em que se segurar. Vai ter que avançar centímetro a centímetro, tomando muito cuidado para não se desequilibrar.
Meu olhar bateu em uma outra coisa do lado de fora da janela... uma coisa que fez a temperatura do meu sangue baixar vários graus. Era um anemômetro. O
apartamento de Cressner era bem próximo ao lago, e tinha altura suficiente para que não houvesse prédios mais altos a barrar o vento. Que seria frio, e cortaria feito uma faca. A agulha estava bem firme nos 15km/h, mas uma rajada a levaria quase a 40 durante uns poucos segundos, antes de regressar à marca anterior.
— Ah, vejo que você reparou no meu anemômetro —
Cressner disse, jovial. —
Na verdade, é o outro lado que recebe a maior parte do vento; de modo que a brisa talvez
seja um pouco mais forte por lá. Mas hoje está uma noite bem tranqüila. Já houve outras em que o vento chegou a marcar 135 km/h... você chega mesmo a sentir o prédio balançar um pouco. Algo como estar num navio, no cesto da gávea. Hoje está bem calmo, para esta época do ano.
Ele apontou e vi os números acesos no alto do prédio de um banco, um arranha-céu, à esquerda. Dizia ali que a temperatura era de seis graus. Mas com o vento, a sensação térmica com certeza cairia a quatro abaixo de zero.
— Você tem um casaco? — perguntei. Usava um paletó bem leve.
— Puxa vida, não — os números luminosos no banco mudaram para mostrar as horas. Eram 8h32. — E é melhor andar logo com isso, Sr. Norris, assim posso ligar para Tony e colocar em ação o plano três. Um bom rapaz, com tendência a ser impulsivo. Você entende.
Eu entendia, sim. Entendia bem demais.
Mas a idéia de estar com Márcia, livre dos tentáculos de Cressner e com dinheiro suficiente para começar a vida fez com que eu abrisse a porta corrediça e saísse para a sacada. Estava frio e úmido; o vento jogava meus cabelos sobre os olhos.
— Bon soir — Cressner disse atrás de mim, mas não me dei ao trabalho de me virar. Aproximei-me da grade, sem contudo olhar para baixo. Ainda não. Comecei a respirar fundo.
Não é exatamente um exercício, de jeito e maneira, mas uma forma de auto-hipnose. A cada inspiração e expiração, você remove uma distração da mente, até que já não haja mais nada além do desafio à sua frente. Livrei-me do dinheiro com uma respiração e do próprio Cressner com duas. Márcia levou mais tempo — seu rosto não parava de surgir em minha mente, dizendo-me que não fosse idiota, que não jogasse o jogo dele, que talvez Cressner nunca trapaceasse, mas sempre tomava cuidado para estar em vantagem em suas apostas. Não ouvi. Não podia me permitir ouvir. Se eu perdesse essa partida, não teria de pagar as cervejas e agüentar as gozações; seria um bocado de massa sangrenta espalhada por um quarteirão da Deakman Street, nas duas direções.
Quando pensei que já estava preparado, olhei para baixo.
O prédio descia vertiginosamente como um liso penhasco de calcário até a rua, bem longe lá embaixo. Os carros estacionados ali pareciam aquelas miniaturas de ferro que você compra nas lojas. Os que passavam pelo prédio eram apenas pequeninos pontos de luz. Se você caísse de tão alto, teria tempo suficiente para se dar conta do que acontecia, para ver o vento inflando suas roupas conforme a terra o puxasse de volta, cada vez mais rápido. Teria tempo para dar um grito muito, muito longo. E o som que faria ao atingir o calçamento seria como o de uma melancia madura demais.
Eu entendia muito bem por que o outro cara se acovardara.
Mas ele tinha de se preocupar com seis meses. E eu encarava quarenta longos e cinzentos anos, sem Márcia.
Olhei para o ressalto. Parecia pequeno. Eu nunca vira 12
centímetros tão parecidos com 5. Pelo menos o prédio era
razoavelmente novo; não haveria de desmoronar sob o meu peso.
Assim eu esperava.
Passei por cima da grade e baixei o corpo com cuidado até encontrar-me de pé sobre o ressalto. Meus calcanhares estavam no ar. O piso da sacada ficava mais ou menos na altura do peito, e eu olhava para a cobertura de Cressner através das barras ornamentais de ferro batido. Ele estava de pé atrás da porta, fumando, observando-me da forma como um cientista observa um porquinho-da-índia para ver quais os resultados da última injeção.
— Ligue — eu disse, segurando-me à grade.
— O quê?
— Ligue para Tony. Não me mexo até que você faça isso.
Ele voltou para a sala — que parecia surpreendentemente aquecida e segura e confortável — e pegou o telefone. Era um gesto inútil, na verdade. Com o vento, eu não conseguia ouvir o que dizia. Ele desligou e voltou.
— Tudo providenciado, Sr. Norris.
— É melhor que esteja mesmo.
— Adeus, Sr. Norris. Torno a vê-lo daqui a pouco... talvez.
Estava na hora de começar. A conversa terminara. Permiti-me pensar em Márcia uma última vez, seu cabelo castanho-claro, seus grandes olhos cinzentos, seu belo corpo, então tirei-a da cabeça de uma vez por todas. Nada de tornar a olhar para baixo, também.
Seria muito fácil ficar paralisado, olhando para baixo, àquela altura imensa. Muito fácil simplesmente congelar até perder o equilíbrio ou simplesmente desmaiar de medo. Era chegada a hora de ficar cem por cento focado. A hora de me concentrar em nada além de pé esquerdo, pé direito.
Comecei a avançar para a direita, segurando-me à grade da sacada pelo maior tempo possível. Não demorou muito para que percebesse que precisaria de todos os músculos de tenista que meus tornozelos tinham. Com os calcanhares fora do ressalto, aqueles tendões teriam de suportar todo o meu peso.
Cheguei à extremidade da sacada, e por um momento não me achei capaz de soltar aquela segurança. Forcei-me a fazê-lo. Doze centímetros, diabos, aquilo era espaço bastante. Se o ressalto ficasse a apenas meio metro do chão em vez de 120, você conseguiria facilmente contornar o prédio em quatro minutos, eu disse a mim mesmo.
Então basta fingir que fica.
É, e se você cai de um ressalto a meio metro do chão, diz droga e tenta de novo.
Aqui em cima só haveria uma chance.
Deslizei o pé direito para mais longe e então trouxe o esquerdo para perto dele.
Soltei a grade. Levantei as mãos abertas, permitindo que as palmas repousassem sobre a pedra áspera do prédio.
Acariciei a pedra. Podia tê-la beijado.
Uma rajada de vento me atingiu, colando a gola do meu paletó ao meu rosto, fazendo meu corpo oscilar sobre o ressalto. Meu coração foi parar na garganta e ali ficou até o
vento diminuir. Uma rajada forte o suficiente teria me arrancado na mesma hora do meu poleiro e me arremessado para baixo, no meio da noite. E o vento seria mais forte do outro lado.
Virei a cabeça para a esquerda, pressionando a face contra a pedra. Cressner estava debruçado na sacada, me observando.
— Está se divertindo? — ele perguntou, num tom afável.
Usava um sobretudo marrom de pêlo de camelo.
— Achei que você não tinha um casaco — eu disse.
— Menti — ele respondeu, sem mudar o tom de voz. —
Minto a respeito de muitas coisas.
— O que quer dizer com isso?
— Nada... absolutamente nada. Ou talvez queira mesmo dizer alguma coisa.
Uma guerrinha psicológica, não é, Sr. Norris? Não recomendo ficar por aí muito tempo. Os tornozelos se cansam, e se eles cederem... — tirou uma maçã do bolso, deu uma mordida e depois atirou-a por cima da grade. Não se ouviu som algum durante um bom tempo. Então, um débil e apavorante plop. Cressner deu uma risada baixinha.
Tinha quebrado minha concentração, e eu podia sentir o pânico roendo as bordas da minha mente com dentes de aço. Uma torrente de terror queria invadir-me e afogar-me.
Virei a cabeça na outra direção e respirei fundo, varrendo para longe o pânico. Estava olhando para o sinal luminoso no banco, que agora dizia: 8h46, Hora de Poupar no Mutual!
Quando os números luminosos mostravam 8h49, senti que havia recobrado o controle. Acho que Cressner devia ter concluído que eu congelara, e ouvi um sardônico aplauso quando comecei a avançar novamente na direção da quina do edifício.
Comecei a sentir o frio. O lago tornara o vento cortante; sua umidade gelada mordia minha pele como uma broca. Meu fino paletó esvoaçava às minhas costas, enquanto eu avançava. Com frio ou não, eu me movia devagar. Se ia mesmo fazer aquilo, tinha de fazê-lo lenta e calculadamente. Se corresse, cairia.
O relógio do banco marcava 8h52 quando cheguei à quina do prédio. Ela não parecia ser um problema — o ressalto a contornava, fazendo um ângulo reto —, mas minha mão direita revelou-me que ali havia um vento contra. Se eu fosse apanhado inclinando-me na direção errada, voaria para longe em pouco tempo.
Esperei que o vento diminuísse, mas por um longo tempo ele se recusou, quase como se fosse aliado de Cressner.
Batia em mim com dedos malévolos e invisíveis, fustigando, cutucando, fazendo cócegas. Por fim, após uma rajada particularmente forte que me fez oscilar, percebi que poderia esperar para sempre e o vento jamais cessaria de todo.
Então, assim que ele voltou a diminuir um pouco, deslizei o pé direito em torno da quina e, agarrando as duas paredes com as mãos, contornei-a. O vento me empurrou em duas direções ao mesmo tempo, e vacilei. Por um segundo, tive a horrível certeza de que Cressner vencera a aposta. Então, avancei mais um passo e pressionei o corpo com força de encontro à parede, a respiração presa por fim saindo de minha garganta seca.
Foi então que escutei um ruído insultante, como alguém mostrando a língua para mim, quase junto ao meu ouvido.
Alarmado, recuei até quase perder o equilíbrio. Minhas mãos se soltaram da parede e rodopiaram loucamente, em busca de equilíbrio. Acho que, se uma delas tivesse esbarrado na parede do prédio, teria sido o meu fim. Mas após o que pareceu uma eternidade, a gravidade decidiu permitir que eu voltasse para junto da parede em vez de me lançar na calçada lá embaixo, numa queda de 43 andares.
O fôlego saía dos meus pulmões num assovio doloroso.
Minhas pernas pareciam de borracha. Os tendões dos meus tornozelos vibravam como fios de alta-tensão. Eu nunca me sentira tão mortal. O cara com a foice estava perto o suficiente para espiar por cima do meu ombro.
Virei o pescoço, olhei para cima, e lá estava Cressner, espiando pela janela de seu quarto, a pouco mais de um metro acima de mim. Sorria, e na mão direita segurava uma buzina daquelas que se usam na noite de Ano-Novo.
— É só para ajudá-lo a ficar alerta — ele disse.
Não desperdicei meu fôlego. De todo modo, eu mal conseguia falar. Meu
coração batia alucinadamente no peito. Avancei mais cerca de uns 2 metros, para o caso de ele estar pensando em se debruçar para fora e me dar um bom empurrão. Então parei e fechei os olhos e respirei fundo até conseguir recuperar o autocontrole.
Estava na fachada mais estreita do prédio, agora. À minha direita, só apareciam as mais altas torres da cidade. À
esquerda, apenas o círculo escuro do lago, com pequeninos pontos luminosos flutuando em sua superfície. O vento zumbia e gemia.
O vento após a segunda quina não era tão traiçoeiro, e consegui contorná-la sem problemas. E então algo me mordeu.
Perdi o folêgo e me sacudi. A perda de equilíbrio me deixou apavorado, e apertei com força o corpo de encontro ao prédio. Fui mordido outra vez. Não... não mordido, mas bicado. Olhei para baixo.
Havia um pombo de pé sobre o ressalto, olhando para cima com olhos brilhantes e cheios de ódio.
Você se habitua aos pombos na cidade; eles são tão comuns quanto motoristas de táxi sem troco para uma nota de 10.
Eles não gostam de voar, e é com relutância que abrem caminho, como se as calçadas fossem suas por usucapião.
Ah, sim, e você costuma encontrar seus cartões de visita no capô do carro. Mas nunca dá muita bola. Eles ocasionalmente podem ser irritantes, mas são intrusos em nosso mundo.
Agora, porém, eu era o intruso no mundo dele, praticamente indefeso, e ele parecia saber disso. Bicou novamente meu cansado tornozelo direito, lançando uma pontada de dor pela minha perna.
— Fora — eu rosnei para ele. — Dê o fora.
O pombo só fez me bicar outra vez. Eu obviamente estava no lugar que ele considerava seu lar; aquela parte do ressalto estava coberta de excrementos, antigos e novos.
Um gorjeio abafado acima de mim.
Virei o pescoço para trás ao máximo e olhei para cima. Um bico avançou contra meu rosto, e quase recuei. Se tivesse feito isso, poderia ter-me tornado a primeira vítima de um pombo na cidade. Era a Mamãe Pomba, protegendo uma ninhada de pombinhos logo abaixo da estreita marquise no topo do prédio. Longe demais para bicar minha cabeça, graças a Deus.
Seu marido bicou-me outra vez, e agora o sangue começou a escorrer. Podia senti-lo. Comecei a avançar outra vez, centímetro a centímetro, na esperança de afugentar o pombo e obrigá-lo a sair do ressalto. Sem sucesso. Pombos não se assustam, não os pombos urbanos, pelo menos. Se um furgão em movimento só faz com que andem um pouco mais depressa, um homem preso a um ressalto elevado não conseguirá incomodá-los de modo algum.
O pombo recuava à medida que eu avançava, sem tirar os olhos brilhantes do meu rosto, exceto quando o bico afiado descia para bicar meu tornozelo. E a dor tornava-se mais intensa agora; o pombo já bicava carne viva... e a comia, ao que me constava.
Chutei-o com o pé direito. Foi um chute fraco, o único de que era capaz. O
pombo só bateu um pouco as asas e voltou ao ataque. Eu, por outro lado, quase despenquei lá de cima.
O pombo me bicou de novo, e de novo, e de novo. Uma rajada de vento frio me atingiu, fazendo com que eu por pouco não perdesse o equilíbrio; as pontas de meus dedos rasparam a parede áspera e consegui recobrar o equilíbrio, a face esquerda pressionada contra a pedra, a
respiração pesada.
Cressner não poderia ter concebido uma tortura pior, se a tivesse planejado durante dez anos. Uma bicada não era tão ruim. Duas ou três eram apenas um pouco pior. Mas aquele maldito pássaro deve ter me bicado sessenta vezes antes que eu chegasse à grade de ferro da sacada, no apartamento vizinho ao de Cressner.
Chegar àquela grade foi como chegar aos portões do paraíso. Minhas mãos se fecharam suavemente sobre suas colunas frias e as seguraram como se jamais fossem soltá-las outra vez.
Bicada.
O pombo me fitava quase que com ar superior, com seus olhos brilhantes, confiante em minha impotência e em sua própria invulnerabilidade. Lembrou-me a expressão de Cressner ao me conduzir à sacada, do outro lado do prédio.
Agarrei-me com mais força às barras de ferro e desferi um chute violento que atingiu em cheio o pombo. O pássaro emitiu um pio de dor imensamente satisfatório e subiu no ar, as asas batendo. Algumas penas cinzentas flutuaram de volta ao ressalto ou desapareceram na escuridão, oscilando para um lado e para o outro no ar.
Ofegando, ergui o corpo para dentro da sacada e desabei ali. Apesar do frio, meu corpo estava molhado de suor. Não sei por quanto tempo fiquei deitado ali, me recuperando. O
prédio escondia o relógio do banco, e não uso relógio de pulso.
Sentei antes que meus músculos pudessem enrijecer e cuidadosamente baixei a meia. O tornozelo direito estava dilacerado e sangrando, mas a ferida parecia superficial.
Ainda assim, eu teria de cuidar dela, se chegasse a sair daquela situação. Sabe Deus que germes os pombos transmitem. Pensei em fazer uma atadura sobre aquele pedaço em carne viva, mas decidi que não faria. Uma atadura poderia acabar me causando um tropeço. Haveria tempo mais tarde. Eu então poderia comprar 20 mil dólares de ataduras.
Levantei-me e olhei com cobiça para a cobertura escura oposta à de Cressner.
Desabitada, nua, vazia. A pesada tela de proteção contra tempestades cobria a porta.
Talvez eu conseguisse arrombá-la, mas isso seria perder a aposta. E eu tinha mais coisas a perder do que apenas o dinheiro.
Quando já não podia mais prolongar aquela pausa, passei por sobre a grade e voltei ao ressalto. O pombo, a quem faltavam algumas penas, estava pousado abaixo do ninho de sua companheira, onde a camada de excremento era mais espessa, me encarando de modo malévolo. Mas não achei que fosse me incomodar, não agora que via que eu me afastava.
Foi muito difícil afastar-me — muito mais difícil do que havia sido deixar a sacada de Cressner. Minha mente sabia que eu tinha de fazê-lo, mas meu corpo, particularmente meus tornozelos, gritava que seria loucura abandonar aquele porto seguro. Foi o que eu fiz, porém, com o rosto de Márcia na escuridão a me incitar.
Cheguei à segunda fachada mais estreita, passei pela quina e avancei devagar pela extensão da largura do prédio.
Agora que eu chegava perto, havia uma vontade quase
irrefreável de me apressar, de acabar logo com aquilo. Mas, se me apressasse, morreria.
Então me obriguei a ir devagar.
O vento quase me pegou outra vez na quarta quina, e, se passei por ela, foi graças à sorte, mais do que à habilidade.
Descansei apoiado no prédio, recobrando o fôlego.
Mas pela primeira vez eu soube que ia conseguir, que ia vencer. Minhas mãos eram como bifes meio congelados, meus tornozelos doíam como se estivessem pegando fogo (sobretudo o direito, bicado pelo pombo), o suor não parava de escorrer sobre meus olhos, mas eu sabia que ia conseguir. No meio do caminho, no último trecho, uma luz amarela brilhou sobre a sacada de Cressner. A distância, eu podia ver o letreiro luminoso do banco reluzindo como uma faixa de boas-vindas. Eram 10h48, mas parecia que eu havia passado a minha vida inteira sobre aqueles 12
centímetros de ressalto.
E que Deus tivesse piedade de Cressner, se ele resolvesse trapacear. A vontade de ir mais depressa desaparecera. Eu quase que me demorava de propósito. Eram 11h09, quando coloquei primeiro a mão direita na grade de ferro da sacada, e depois a esquerda.
Ergui o corpo, passei por cima da grade e desabei no chão com uma sensação de gratidão... sentindo então o cano frio de uma pistola calibre .45 em minha têmpora.
Levantei os olhos e vi um capanga feio o suficiente para congelar os ponteiros do Big Ben. Ele sorria, com os dentes à mostra.
— Excelente! — disse lá de dentro a voz de Cressner. —
Minhas palmas para você, Sr. Norris! — e em seguida às
palavras, vieram as palmas de fato. — Traga-o para dentro, Tony.
Tony me ergueu e me colocou de pé tão abruptamente que meus tornozelos fracos quase cederam. Ao entrar, cambaleei e esbarrei na porta da sacada.
Cressner estava de pé junto à lareira da sala, bebericando conhaque numa taça do tamanho de um aquário. O dinheiro tinha sido recolocado na sacola de compras, que ainda se encontrava no meio do tapete cor de laranja opaco.
Vi a mim mesmo de relance num pequeno espelho, do outro lado da sala. O
cabelo estava desgrenhado, e o rosto, pálido, exceto por duas manchas brilhantes nas bochechas. Os olhos pareciam insanos.
Mas foi só uma visão de relance, porque no instante seguinte eu voava pela sala.
Bati na cadeira basca e caí em cima dela, fazendo com que se virasse sobre mim e perdendo o fôlego.
Quando recuperei parte dele, sentei-me e consegui dizer:
— Seu trapaceiro desgraçado. Você tinha planejado isto.
— De fato eu tinha — Cressner disse, colocando cuidadosamente o conhaque sobre o aparador da lareira. —
Mas não sou um trapaceiro, Sr. Norris. De jeito nenhum.
Apenas um péssimo perdedor. Tony está aqui apenas para garantir que você não tome nenhuma atitude... imprudente
— ele pôs os dedos sob o queixo e deu uma risadinha. Não parecia ser um mau perdedor. Parecia mais um gato com
penas de canário no focinho. Fiquei de pé, subitamente mais apavorado do que tinha estado no ressalto.
— Você arranjou tudo — eu disse, devagar. — De algum modo, arranjou tudo.
— De jeito nenhum. A heroína foi retirada de seu carro. O
próprio carro está de volta ao estacionamento. O dinheiro está ali. Pode pegá-lo e ir embora.
— Muito bem — eu disse.
Tony estava de pé junto à porta de vidro da sacada, ainda parecendo alguma coisa que sobrara do Halloween.
Segurava a pistola calibre .45. Fui até a sacola de compras, apanhei-a e segui na direção da porta, caminhando com meus tornozelos trêmulos, esperando levar a qualquer momento um tiro pelas costas. Mas, quando a abri, comecei a ter a mesma sensação que tivera sobre o ressalto, quando contornara a quarta quina: ia
conseguir.
A voz de Cressner, indolente e soando como se ele achasse graça, me deteve.
— Você não acha mesmo que aquele velho truque do banheiro feminino enganou alguém, acha?
Voltei-me devagar, a sacola de compras nos braços.
— O que quer dizer?
— Disse a você que nunca trapaceio, e isso é verdade. Você ganhou três coisas, Sr. Norris. O dinheiro, sua liberdade, minha mulher. Já está de posse das duas primeiras. Pode ir buscar a terceira no necrotério local.
Fiquei olhando fixamente para ele, incapaz de me mover, atingido por um choque semelhante a um raio silencioso.
— Não pensou mesmo que eu fosse permitir que ficasse com ela, pensou? — ele me perguntou, num tom de dó. —
Ah, não. O dinheiro, sim. Sua liberdade, sim. Mas não Márcia. Ainda assim, não sou um trapaceiro. E depois que você tiver mandado enterrá-la...
Não cheguei perto dele. Não naquele momento. Ele ficaria para depois. Andei na direção de Tony, que pareceu ligeiramente surpreso até que Cressner lhe disse, numa voz enfadada:
— Atire nele, por favor.
Joguei a sacola de dinheiro. Atingi-o bem na mão que empunhava a arma, e com força. Eu não usara os braços e os punhos lá fora, e essas são as melhores partes do corpo de um tenista. A bala acertou o tapete cor de laranja opaco, e então eu o alcancei.