Sombras da Noite

Stephen King · Capítulo 4 de 5 · parte 3/4

Páginas do PDF

Sombras da Noite

Primavera Vermelha

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Seu rosto era o que havia de mais durão nele. Arranquei a pistola de suas mãos e acertei-lhe o nariz com o cano. Ele desabou com um

único grunhido bastante extenuado, parecido com Rondo Hatton. 1

Cressner já tinha quase conseguido sair, quando disparei um tiro por cima de seu ombro e disse:

— Pare agora mesmo, ou é um cara morto.

Ele pensou a respeito e parou. Quando se virou, sua atitude blasée já havia cedido um pouco. Cedeu ainda mais quando ele viu Tony caído no chão, engasgando-se com o próprio sangue.

— Ela não está morta — ele disse, rapidamente. — Eu tinha que preservar alguma coisa, não tinha? — e me lançou um sorriso covarde e amarelo.

— Sou otário, mas não tanto — eu disse. Minha voz parecia sem vida. E por que haveria de ser diferente? Márcia havia sido minha vida, e aquele homem a colocara na mesa de um necrotério.

Com o dedo ligeiramente trêmulo, Cressner apontou para o dinheiro espalhado ao redor dos pés de Tony.

— Isso aí — ele disse — é ninharia. Posso lhe arranjar 100

mil. Ou 500 mil.

Ou melhor, o que acha de um milhão, depositado numa conta na Suíça? O que acha disso? O que acha...

— Vou lhe propor uma aposta — eu disse, devagar.

Seu olhar passou do cano da pistola para o meu rosto.

— Uma...

— Uma aposta — repeti. — Não é um desafio. É só um velho e bom joguinho.

Aposto que você não consegue dar a volta neste prédio andando sobre o ressalto lá fora.

Seu rosto ficou branco feito cera. Por um momento, achei que ele fosse desmaiar.

— Você... — ele murmurou.

— O que está em jogo é o seguinte — disse, com minha voz fria. — Se conseguir, eu te deixo ir embora. Que tal?

— Não — ele sussurrou. Seus olhos estavam esbugalhados.

— Tudo bem — falei, e engatilhei a pistola.

— Não! — ele disse, estendendo as mãos para a frente. —

Não! Não faça isso!

Eu... está bem — passou a língua sobre os lábios.

Fiz um gesto com a arma, e ele caminhou à minha frente para a sacada.

— Você está tremendo — disse-lhe. — Isso vai dificultar as coisas.

— Dois milhões — ele disse, sem conseguir fazer de sua voz mais do que um lamento rouco. — Dois milhões em notas sem marcas.

— Não — eu disse. — Nem por 10 milhões. Mas se você conseguir, é um homem livre. Falo sério.

Um minuto mais tarde, ele estava de pé sobre o ressalto.

Era mais baixo do que eu; só dava para ver seus olhos por cima da beirada, arregalados e suplicantes, as mãos pálidas nas juntas agarrando a grade de ferro como se fossem as barras de uma prisão.

— Por favor — ele murmurou. — Qualquer coisa.

— Está perdendo tempo — eu disse. — Isso enfraquece os tornozelos.

Mas ele não se moveu até eu colocar a boca do cano da pistola em sua testa.

Então começou a arrastar os pés para a direita, gemendo.

Olhei de relance para o relógio do banco. Eram 11h29.

Não achei que ele fosse conseguir passar pela primeira quina. Não queria sair do lugar, e, quando o fez, foi aos arrancos, arriscando seu centro de gravidade, o roupão esvoaçando na noite.

Desapareceu do outro lado da quina e saiu do meu campo de visão às 12h01, quase quarenta minutos atrás. Fiquei escutando atentamente, tentando ouvir o grito decrescente quando a corrente de vento o apanhasse, mas o grito não veio. Talvez o vento tenha diminuído. Lembro-me de ter pensado que o vento estava do lado dele, quando me encontrava lá fora. Ou talvez ele apenas tenha tido sorte.

Talvez esteja lá na outra sacada agora, caído e tremendo, com medo de prosseguir.

Mas provavelmente ele sabe que se eu encontrá-lo por lá quando arrombar a porta da cobertura vizinha, vou matá-lo como a um cão. E por falar no outro lado do prédio, pergunto-me se ele terá gostado daquele pombo.

Isso foi um grito? Não sei. Talvez tenha sido o vento. Não importa. O relógio do banco marca 12h44. Muito em breve arrombarei o outro apartamento para verificar a sacada, mas neste instante estou sentado aqui na sacada de Cressner com a pistola calibre

.45 de Tony em minhas mãos. Apenas para o caso de ele aparecer na última quina com o roupão esvoaçando atrás.

Cressner disse que nunca trapaçeou.

Mas eu já.

1- Ator norte-americano de feições disformes que atuava em filmes de horror ou como capanga em policiais, nos anos 1930 e 1940. (N. da T.)

O Homem do Cortador de Grama Em anos passados, Harold Parkette sempre se orgulhara do seu gramado. Possuía um grande cortador de grama Lawnboy prateado, e pagava ao garoto que morava logo abaixo no quarteirão 5 dólares por vez para apará-lo.

Naqueles dias, Harold Parkette acompanhava os Red Sox de Boston no rádio com uma cerveja na mão e tinha a certeza de que havia um Deus no céu e que tudo ia bem no mundo, incluindo seu gramado. Mas no ano passado, em meados de outubro, o destino pregara uma peça de mau gosto em Harold Parkette. Enquanto o garoto aparava a grama pela última vez na estação, o cachorro dos Castonmeyer perseguira o gato dos Smith, que fora parar debaixo do cortador.

A filha de Harold vomitara meio litro de Kool-Aid de cereja no macacão novo, e sua mulher tivera pesadelos durante uma semana, depois daquilo. Embora tivesse chegado após o ocorrido, ela chegara a tempo de ver Harold e o garoto de cara esverdeada limpando as lâminas. A filha deles e a Sra.

Smith acompanhavam tudo, chorando, embora Alícia tivesse feito um intervalo longo o suficiente para trocar o macacão por um par de calças jeans e um daqueles detestáveis suéteres apertados. Estava apaixonada pelo garoto que aparava o gramado.

Depois de uma semana ouvindo sua mulher lamentando-se e choramingando na cama ao lado, Harold decidiu se livrar do cortador de grama. Na verdade, supunha que não precisava de um cortador de grama. Contratara um garoto este ano; no próximo, simplesmente contrataria um garoto e um cortador de grama. E talvez Carla parasse de choramingar durante o sono. Talvez ele até conseguisse transar outra vez.

Então, levou o Lawnboy prateado até o posto de gasolina Sunoco, do Phil, que tentou regatear o preço. Harold voltou para casa com um pneu Kelly novinho em folha e o tanque cheio de gasolina aditivada, e Phil colocou o Lawnboy prateado perto das bombas de gasolina, com um cartaz de vende-se escrito à mão.

E neste ano, Harold simplesmente ficava adiando a contratação necessária.

Quando finalmente resolveu chamar o garoto do ano passado, sua mãe disse-lhe que Frank fora estudar na universidade estadual. Harold sacudiu a cabeça, surpreso, e foi até a geladeira pegar uma cerveja. O tempo voava, não era mesmo? Meu Deus, se era.

Adiou a contratação de um outro garoto durante todo o mês de maio e depois de junho, enquanto os Red Sox continuavam a amargar um quarto lugar. Sentava-se na varanda dos fundos nos fins semana e observava de mau humor uma progressão infinita de rapazes que ele nunca vira antes aparecer e balbuciar um rápido oi antes de levar sua formosa filha para o reduto local de namorados. E a grama crescia e verdejava maravilhosamente. Fora um bom verão para a grama; três dias de sol seguidos por um dia de chuva suave, com a regularidade de um relógio.

Em meados de julho, o gramado parecia mais uma campina do que o quintal de uma casa de subúrbio, e Jack Castonmeyer começara a fazer todo tipo de piada extremamente sem graça, a maioria delas aludindo ao preço do feno e da alfafa. E Jenny, a filha de 4 anos de idade de Don Smith, começara a se esconder ali quando havia mingau de aveia no café-da-manhã ou espinafre no jantar.

Um dia, no final de julho, Harold saiu para o pátio quando o jogo já terminava e viu uma marmota petulantemente sentada no caminho de pedras coberto pela grama crescida.

Concluiu que o momento chegara. Desligou o rádio, apanhou o jornal e abriu-o nos classificados. No meio da coluna de serviços de meio expediente, encontrou o seguinte: Aparo gramados. Preço razoável. 776-2390.

Harold telefonou para aquele número, esperando ser atendido por uma dona de casa ocupada com o aspirador de pó, que chamaria o filho com um berro. Em vez disso, uma voz estritamente profissional disse:

— Serviço de Jardinagem Pastoral... em que posso servi-lo?

Cautelosamente, Harold disse à voz como a Jardinagem Pastoral poderia ajudá-lo. As coisas haviam chegado àquele ponto, então? Será que os cortadores de grama estavam começando seus próprios negócios e contratando serviços de escritório?

Perguntou à voz sobre os preços, e a resposta foi uma cifra razoável.

Harold desligou com uma insistente sensação de desconforto e voltou para a varanda. Sentou-se, ligou o rádio e ficou olhando para seu gramado viçoso, enquanto nuvens de sábado deslizavam devagar pelo céu de sábado.

Carla e Alícia tinham ido visitar a sogra, e a casa era toda dele. Seria uma agradável surpresa para elas se o garoto que viesse cortar a grama terminasse antes de voltarem.

Abriu uma cerveja e suspirou, quando Dick Drago fez uma jogada ruim e ainda acertou o rebatedor. Uma brisa ligeira soprava pela varanda coberta com tela. Grilos cricrilavam

suavemente na grama alta. Harold resmungou alguma coisa desagradável a respeito de Dick Drago e depois cochilou.

Acordou num sobressalto, meia hora mais tarde, com a campainha tocando.

Derrubou a cerveja ao se levantar para atender.

Um homem num macacão de brim sujo de grama estava parado em frente ao alpendre, mastigando um palito de dente. Era gordo. A curva de sua barriga inflava o macacão azul a tal ponto que Harold teve a impressão de que ele engolira uma bola de basquete.

— Pois não? — Harold Parkette perguntou, ainda meio tonto de sono.

O homem sorriu, rolou o palito de um canto da boca para o outro, ajeitou os fundilhos do macacão e em seguida empurrou o boné verde de beisebol para o alto da testa.

Havia uma mancha recente de óleo de motor na aba do boné. E ali estava ele, cheirando a grama, terra e óleo, sorrindo para Harold Parkette.

— A Pastoral me mandou, companheiro — disse, jovialmente, coçando a virilha.

— Você ligou, não ligou? Não ligou, companheiro? — ele continuava a sorrir incessantemente.

— Ah. A grama. Você? — Harold encarou-o estupidamente.

— É, eu — o homem do cortador de grama soltou uma gargalhada no rosto de Harold, ainda inchado de sono.

Harold afastou-se desajeitadamente o homem do cortador de grama avançou com passos pesados, em sua frente,

atravessando o vestíbulo, a sala e a cozinha, e saindo pela porta dos fundos. Agora Harold reconhecera o homem e tudo estava bem. Vira aquele tipo antes, trabalhando para o departamento de obras sanitárias e com as equipes de conservação da estrada, na barreira de pedágio. Sempre com um minuto de sobra para se apoiar nas ferramentas e fumar Lucky Strikes ou Camels, e olhando para você como se fossem o sal da terra, capazes de lhe pedir cinco pratas emprestadas ou dormir com sua mulher na hora em que desejassem. Harold sempre tivera um certo medo de homens como esse; eram sempre bem morenos de sol, tinham sempre muitos pés-de-galinha ao redor dos olhos, e eles sempre sabiam o que fazer.

— O gramado dos fundos é a parte principal — ele disse ao homem, inconscientemente engrossando a voz. — É

quadrado e não há obstruções, mas cresceu bastante — sua voz falhou, voltando ao registro normal, e ele se descobriu pedindo desculpas. — Sinto tê-lo deixado de lado.

— Não tem problema, companheiro. Tudo tranqüilo. Tudo jóia. — O homem do cortador de grama sorriu para ele com mil piadas de caixeiro-viajante nos olhos. —

Quanto mais alto, melhor. Solo saudável, é isso o que você tem, por Circe. É o que eu sempre digo.

Por Circe?

O homem do cortador de grama esticou a cabeça para o rádio. Yastrzemski acabava de perder a jogada.

— Fã dos Red Sox? Eu torço pelos Yankees.

Voltou para dentro de casa com seus passos pesados, indo até a entrada da frente.

Harold observava-o com amargor.

Voltou a sentar-se e olhou por um instante, acusatoriamente, a poça de cerveja debaixo da mesa, com a lata derramada de Coors no meio. Pensou em apanhar um pano de chão na cozinha, mas decidiu deixar tudo como estava.

Não tem problema. Tudo tranqüilo.

Abriu o jornal na parte de finanças e deu uma olhada criteriosa nas cotações com que a bolsa de valores fechara o pregão. Como um bom republicano, considerava os executivos de Wall Street por trás daquelas colunas de números no mínimo semideuses...

(Por Circe?)

...e por mil vezes desejara entender melhor a Palavra, da forma como ela tinha sido transmitida no alto da montanha, não em tábuas de pedras, mas em abreviações enigmáticas como p/c, arrem. e alta de 2/3 sobre 3.28. Certa vez comprara criteriosamente três cotas numa companhia chamada Midwest Bisonburgers Inc., que falira em 1968.

Perdeu todo o seu investimento de 75 dólares. Agora, pelo que entendia, hambúrgueres de bisão eram a futura sensação. A próxima onda. Discutira isso com Sonny, o barman do Goldfish Bowl. Sonny dissera a Harold que seu problema era ter estado cinco anos à frente de seu tempo, e que ele deveria...

Um ruído súbito e ensurdecedor arrancou-o de um novo cochilo em que começava a mergulhar.

Harold ficou de pé num salto, derrubando a cadeira e olhando ao redor desvairadamente.

— Isso é um cortador de grama? — Harold Parkette perguntou às paredes da cozinha. — Meu Deus, isso é um cortador de grama?

Ele atravessou a casa correndo e olhou pela porta da frente.

Não havia nada lá fora além de uma surrada van verde com as palavras jardinagem pastoral ltda.

pintadas na lateral. O rugido vinha agora dos fundos. Harold atravessou a casa correndo outra vez, irrompeu na varanda dos fundos e se deteve, paralisado.

Era obsceno.

Era uma visão grotesca.

O antigo cortador de grama vermelho movido a motor que o homem trouxera na van estava funcionando sozinho.

Ninguém o empurrava; na verdade, não havia ninguém num raio de um metro e meio de distância dele. Corria de modo quase febril, cortando seu caminho em meio à desafortunada grama do quintal de Harold Parkette como um demônio vermelho vingador saído diretamente do inferno. Berrava e roncava e expelia fumaça azul e oleosa numa espécie de intensa loucura mecânica que deixou Harold doente de pavor. O cheiro desagradável de grama cortada pairava no ar como vinho azedo.

Mas a verdadeira obscenidade era o homem do cortador de grama.

O homem do cortador de grama tirara as roupas — até a última peça. Elas estavam dobradas cuidadosamente no bebedouro de pássaros vazio que ficava no centro do gramado dos fundos. Nu e sujo de grama, ele andava de quatro mais ou menos um metro e meio atrás do cortador, comendo a grama cortada. Um sumo verde escorria pelo

seu queixo até sua barriga caída. E a cada vez que o cortador de grama fazia a curva num canto, ele se levantava e dava um pulinho esquisito, antes de se prostrar outra vez.

— Pare! — Harold Parkette gritou. — Pare com isso!

Mas o homem do cortador de grama não lhe deu a menor atenção, e seu estridente colega vermelho não diminuiu a velocidade. Na verdade, pareceu aumentá-la.

Sua grade de aço niquelado parecia mostrar os dentes num sorriso laborioso para Harold, ao passar rugindo.

Então Harold viu a marmota. Devia estar escondida, completamente aterrorizada, logo à frente do cortador de grama, na faixa prestes a ser ceifada. Disparou como um raio pelo trecho de grama já cortado, buscando a segurança da varanda, um pequenino vulto marrom tomado pelo pânico.

O cortador de grama fez uma curva.

Rugindo e uivando, passou por cima da marmota, cuspindo em seguida um rastro de pele e entranhas que fez Harold se lembrar do gato dos Smith. Destruída a marmota, o cortador de grama voltou ao trabalho principal.

O homem do cortador de grama rastejava rapidamente atrás, comendo a grama.

Harold estava paralisado de terror; ações, títulos e hambúrgueres de bisão completamente esquecidos.

Chegava a poder ver aquela imensa barriga caída se expandindo. O homem do cortador de grama fez uma curva e comeu a marmota.

Foi então que Harold Parkette se inclinou para fora da porta de tela e vomitou sobre as zínias. O mundo ficou cinza, e subitamente ele se deu conta de que estava desmaiando, de que havia desmaiado. Desabou de costas dentro da varanda e fechou os olhos...

Alguém o sacudia. Era Carla. Ele não lavara os pratos nem esvaziara o lixo, e Carla ficaria muito zangada, mas tudo bem. Contanto que ela o acordasse, o despertasse do horrível sonho que estava tendo, trazendo-o de volta ao mundo normal, Carla, que também era tão normal e boazinha com sua cinta Playtex e seu rosto dentuço...

Rosto dentuço, sim. Mas não o de Carla. Carla tinha dentinhos frágeis como os de um esquilo. Mas aqueles dentes eram...

Peludos.

Pêlos esverdeados cresciam naqueles dentes projetados para a frente. Pêlos que se pareciam talvez com...

Grama?

— Oh, meu Deus — Harold disse.

— Você desmaiou, companheiro, certo, hã? — O homem do cortador de grama estava debruçado sobre ele, sorrindo com seus dentes peludos. Seus lábios e seu queixo também eram peludos. Tudo era peludo. E verde. O quintal fedia a grama e gasolina, num silêncio demasiadamente súbito.

Harold sentou-se bruscamente e olhou para o cortador de grama desligado.

Toda a grama havia sido cuidadosamente aparada. E não haveria necessidade de remover os restos, Harold notou,

nauseado. Se o homem do cortador de grama deixara escapar uma só folha cortada, ele não conseguia vê-la.

Olhou de soslaio para o homem do cortador de grama e fez uma careta. Ele ainda estava nu, e gordo, e aterrorizante.

Filetes de sumo verde escorriam pelos cantos de sua boca.

— O que é isso? — Harold perguntou, suplicante.

O homem gesticulou com o braço, um ar benigno, para o gramado.

— Isso? Bem, é uma novidade que o chefe está experimentando. Funciona bem à beça. Bem à beça, companheiro. Matamos dois coelhos com uma cajadada só.

Continuamos a seguir até o estágio final, e ainda por cima ganhamos dinheiro para sustentar nossas outras atividades.

Está entendendo o que eu quero dizer? É claro que, de vez em quando, nos deparamos com um cliente que não compreende... algumas pessoas não respeitam a eficiência, não é mesmo? Mas um sacrifício sempre agrada ao chefe.

Meio que deixa as engrenagens lubrificadas, se você me entende.

Harold não disse nada. Uma palavra ecoava sem cessar em sua mente, e essa palavra era “sacrifício”. Viu mentalmente a marmota ser expelida por baixo do velho cortador de grama vermelho.

Levantou-se devagar, como um velho paralítico.

— É claro — disse, e só o que conseguiu dizer foi uma frase de um dos discos de folk-rock de Alícia. — Deus abençoe a grama.

O homem do cortador de grama deu uma palmada na coxa rosada como uma maçã no verão.

— Essa é muito boa, companheiro. Para dizer a verdade, é ótima. Estou vendo que você pegou o espírito da coisa. Tudo bem se eu anotar isso quando voltar para o escritório? Pode até me conseguir uma promoção.

— Claro — Harold disse, recuando em direção à porta dos fundos e lutando para conservar o seu frágil sorriso no rosto. — Vá em frente e termine o serviço. Acho que vou tirar uma soneca...

— Claro, companheiro — o homem do cortador de grama disse, erguendo-se pesadamente. Harold notou a esquisita fenda grande entre o dedão e o segundo dedo dos seus pés, quase como se estes fossem... bem, cascos.

— A princípio todo mundo fica meio surpreso — o homem do cortador de grama disse. — Você vai se acostumar — e ele observou atentamente o vulto corpulento de Harold. — Na verdade, é capaz até de querer experimentar. O chefe está sempre de olho em novos talentos.

— O chefe — Harold repetiu, a voz quase sumindo.

O homem do cortador de grama deteve-se no último degrau e lançou um olhar tolerante para Harold Parkette.

— Bem, companheiro, ora, ora. Achei que você já devia ter adivinhado... Deus abençoe a grama e tudo mais.

Harold fez que não com a cabeça cautelosamente e o homem do cortador de grama riu.

— Pã. Pã é o chefe — ele deu um passinho saltitante sobre a grama recém-cortada e o cortador de grama voltou à vida, com um estrondo, começando a avançar por volta da casa.

— Os vizinhos... — Harold começou a dizer, mas o homem do cortador de grama apenas acenou alegremente e desapareceu.

Lá na frente, o cortador de grama rugia e uivava. Harold Parkette recusava-se a olhar, como se com esse gesto pudesse negar o grotesco espetáculo que os Castonmeyer e os Smith — ambos malditos democratas — provavelmente absorviam aterrorizados mas sem dúvida com aquela expressão de “eu-não-te-disse?” nos olhos.

Em vez de olhar, Harold foi até o telefone, agarrou-o e ligou para a central de polícia, cujo número de emergência estava numa etiqueta colada ali.

— Sargento Hall — disse a voz do outro lado da linha.

Harold enfiou o dedo no ouvido livre e disse:

— Meu nome é Harold Parkette. Meu endereço é 1.421 East Endicott Street.

Gostaria de dar queixa... — de quê? Gostaria de dar queixa de quê? Um homem está estuprando e assassinando meu gramado, e ele trabalha para um cara chamado Pã e tem cascos no lugar dos pés?

— Sim, Sr. Parkette?

Uma idéia lhe ocorreu.

— Gostaria de dar queixa de um caso de atentado ao pudor.

— Atentado ao pudor — o sargento Hall repetiu.

— Sim. Há um homem aparando meu gramado. Ele está, digamos, em pêlo.

— Quer dizer que ele está nu? — o sargento Hall perguntou, polidamente incrédulo.

— Nu! — Harold confirmou, agarrando-se

desesperadamente aos restos de seu equilíbrio mental. —

Despido. Sem roupas. Com a bunda de fora. No meu jardim da frente. Agora será que dá para mandar alguém para cá?

— O endereço que me deu foi 1.421 West Endicott? — o sargento Hall perguntou, divertido.

— East! — Harold gritou. — Pelo amor de Deus...

— E está afirmando com certeza que ele está nu? Consegue ver seus, bem, seus órgãos genitais e tudo mais?

Harold tentou falar, mas só conseguiu emitir um som engasgado. O barulho do enlouquecido cortador de grama parecia ficar cada vez mais alto, sobrepondo-se ao universo inteiro. Sentiu ânsias de vômito.

— Pode falar mais alto? — o sargento Hall pediu. — Há uma interferência horrível do seu lado da linha...

A porta da frente de súbito se espatifou.

Harold olhou ao seu redor e viu o colega mecânico do homem do cortador de grama avançando pela porta. Atrás dele veio o próprio sujeito, ainda completamente nu.

Quase dominado pela total insanidade, Harold viu que os pêlos pubianos do homem eram de um verde intenso e viçoso. Ele girava o boné de beisebol na ponta de um dedo.

— Isso foi um erro da sua parte, companheiro — o homem do cortador de grama disse, em tom de censura. — Você devia ter ficado com “Deus abençoe a grama”.

— Alô? Alô, Sr. Parkette...

O telefone caiu dos dedos inertes de Harold quando o cortador de grama começou a avançar em sua direção, abrindo caminho pelo novo tapete Mohawk de Carla, e cuspindo punhados de fibras marrons ao se aproximar.

Harold ficou olhando fixamente para ele com uma espécie de fascinação do pássaro diante da cobra, até que chegasse à mesinha de centro. Quando o cortador de grama atirou-a para o lado, transformando uma das pernas em serragem e estilhaços de madeira, ele trepou por cima das costas da cadeira e começou a recuar na direção da cozinha, arrastando a cadeira em sua frente.

— Isso não vai adiantar nada, companheiro — o homem do cortador de grama disse, gentilmente. — E também vai aumentar a sujeira. Então, se você pudesse me mostrar onde está a sua faca de cozinha mais afiada, resolveríamos essa história do sacrifício de um jeito bastante indolor...

acho que o bebedouro de passarinhos serviria...

e então...

Harold jogou a cadeira no cortador de grama, que astutamente começara a flanquea-lo, enquanto o homem nu atraía sua atenção, e saiu como um raio pela porta. O

cortador de grama rugiu ao redor da cadeira, soltando fumaça, e quando Harold abriu com um empurrão a porta de tela da varanda e desceu às pressas a escada, ouviu-o —

sentiu-o, sentiu seu cheiro — bem nos seus calcanhares.

O cortador de grama arremessou-se rugindo do degrau mais alto como um esquiador executando um salto. Harold saiu em disparada pela grama recém-cortada, mas houvera

cervejas demais, cochilos demais à tarde. Podia senti-lo se aproximando, e então em seus calcanhares, e então olhou por cima do ombro e tropeçou nos próprios pés.

A última coisa que Harold Parkette viu foi a sorridente grade niquelada do cortador de grama que o atacava, abrindo-se para revelar suas lâminas reluzentes e manchadas de verde, e por cima dela o rosto gordo do homem do cortador de grama, balançando a cabeça numa censura bem-humorada.

— Que coisa — disse o tenente Goodwin, quando a última das fotografias foi tirada. Fez que sim para os dois homens de branco, que saíram arrastando o cesto pelo gramado.

— Ele registrou queixa de um sujeito nu em seu gramado há menos de duas horas.

— É mesmo? — o guarda Cooley perguntou.

— É. Um dos vizinhos também telefonou. Um cara chamado Castonmeyer.

Pensou que fosse o próprio Parkette. Talvez fosse, Cooley.

Talvez fosse.

— Senhor?

— Enlouquecido com o calor — disse o tenente Goodwin num tom grave, e deu um tapinha na própria têmpora. — A porra da esquizofrenia.

— Sim, senhor — Cooley disse, respeitosamente.

— Onde é que está o resto dele? — um dos homens de jaleco perguntou.

— O bebedouro dos passarinhos — Goodwin disse. Levantou os olhos sombriamente para o céu.

— O senhor disse o bebedouro dos passarinhos?

— Exatamente — o tenente Goodwin confirmou. O guarda Cooley olhou para o bebedouro e subitamente quase toda a cor de sua pele se esvaiu.

— Maníaco sexual — o tenente Goodwin disse. — Deve ter sido.

— Impressões? — Cooley perguntou, a voz embargada.

— Seria melhor você procurar por pegadas — Goodwin disse. Fez um gesto indicando a grama recém-aparada.

O guarda Cooley emitiu um ruído abafado com a garganta.

O tenente Goodwin meteu as mãos nos bolsos e balançou-se nos calcanhares.

— O mundo — ele disse, num tom grave — está cheio de gente doida. Nunca se esqueça disso, Cooley.

Esquizofrênicos. Os rapazes da perícia dizem que alguém perseguiu Parkette em sua própria sala com um cortador de grama. Consegue imaginar uma coisa dessas?

— Não, senhor — Cooley disse.

Goodwin olhou para o gramado meticulosamente aparado de Harold Parkette.

— Bem, como disse o sujeito ao ver o sueco de cabelos pretos, é com certeza um nórdico de cor diferente.

Goodwin começou a caminhar ao redor da casa, e Cooley o seguiu. Atrás deles, o cheiro de grama recém-podada

pairava agradavelmente no ar.

Ex-Fumantes Ltda.

Morrison esperava por alguém que estava detido no tráfego aéreo sobre o Aeroporto Internacional Kennedy, quando viu um rosto familiar na outra extremidade do bar e foi até lá.

— Jimmy? Jimmy McCann?

Era ele. Um pouco mais gordo do que quando Morrison o vira na Exposição de Atlanta, no ano anterior, mas fora isso parecia surpreendentemente em boa forma. Na faculdade era um sujeito pálido, que fumava desbragadamente, escondido atrás de imensos óculos com armação de tartaruga. Pelo visto, optara pelas lentes de contato.

— Dick Morrison?

— Eu mesmo. Você está ótimo — ele estendeu-lhe a mão e se cumprimentaram.

— Você também — McCann disse, mas Morrison sabia que era mentira. Vinha trabalhando demais, comendo demais e fumando demais. — O que está bebendo?

— Bourbon com bitters1 — respondeu Morrison. Puxou com o pé um dos bancos do bar e acendeu um cigarro. — Está esperando alguém, Jimmy?

— Não. Vou a Miami para uma reunião. Um cliente importante. Investe seis milhões de uma vez. Tenho que bajulá-lo, porque na primavera nós deixamos de operar uma grande venda especial.

— Você ainda trabalha para Crager & Barton?

— Sou vice-presidente executivo, agora.

— Fantástico! Meus parabéns! Quando foi que isso aconteceu? — ele tentava dizer a si mesmo que a minhoquinha de inveja em seu estômago era apenas indigestão causada pela acidez. Apanhou um tubo de pílulas antiácidas e mastigou uma delas.

— Agosto passado. Aconteceu uma coisa que mudou a minha vida — ele olhou especulativamente para Morrison e bebericou seu drinque. — Talvez lhe interesse.

Meu Deus, Morrison pensou, fazendo mentalmente uma careta de reprovação.

Jimmy McCann se tornou religioso.

— Claro — ele disse, e bebeu de um gole seu drique, quando este lhe foi servido.

— Eu não estava em muito boa forma — McCann disse. — Problemas pessoais com Sharon, meu pai morreu... ataque cardíaco... e comecei a ter uma tosse insistente.

Bobby Crager esteve lá no escritório um dia e me passou um sermão bem paternal. Você se lembra de como era?

— Lembro — ele trabalhara na Crager & Barton por 18

meses antes de ir para a Agência Morton. — Sente essa bunda e trabalhe direito, ou vá sentar essa bunda em outro lugar.

McCann riu.

— Você se lembra. Bem, para resumir a história, o médico me disse que eu tinha um princípio de úlcera. Disse-me para parar de fumar — McCann fez uma careta. —

Era o mesmo que me dizer para parar de respirar.

Morrison fez que sim com a cabeça, indicando que compreendia perfeitamente bem. Os não-fumantes podiam se dar ao luxo de ser presunçosos. Olhou para o seu próprio cigarro com desgosto e o esmagou no cinzeiro, sabendo que acenderia outro dentro de cinco minutos.

— Você parou? — ele perguntou.

— Sim, parei. No começo, não achei que conseguiria...

sempre acabava acendendo um cigarro. Então conheci um cara que me falou de uma organização na rua 46. Eu me perguntei, bem, o que tenho a perder e fui até lá. Desde então não fumei mais.

Morrison arregalou os olhos.

— O que eles fizeram? Encheram você com alguma droga?

— Não — ele pegara a carteira e procurava alguma coisa dentro dela. — Aqui está. Sabia que ainda tinha algum guardado.

Sobre o bar, entre eles, colocou um cartão de visitas simples, branco.

EX-FUMANTES LTDA.

Pare de fracassar e virar fumaça!

237 East 46th Street

Tratamentos com hora marcada

— Fique com ele, se quiser — McCann disse. — Vão te curar.

É garantido.

— Como?

— Não posso te dizer — McCann falou.

— Hã? Por que não?

— É parte do contrato que fazem você assinar. E, de qualquer modo, vão te dizer como funciona quando te entrevistarem.

— Você assinou um contrato?

McCann anuiu.

— E de acordo com ele...

— É — ele sorriu para Morrison, que pensava: Bem, aconteceu. Jim McCann juntou-se aos desgraçados dos presunçosos.

— Por que todo esse segredo se a organização é tão fantástica? Como é que eu nunca vi anúncios na TV, cartazes, propagandas em revistas...

— Eles chegam ao seu limite de clientes só com a propaganda boca a boca.

— Você é um publicitário, Jimmy. Não é possível que acredite nisso.

— Acredito — McCann disse. — Eles têm um percentual de cura de 98 por cento.

— Espere um segundo — Morrison disse. Fez um sinal, pedindo um outro drinque, e acendeu um cigarro. — Por acaso esses caras te amarram e te fazem fumar até vomitar?

— Não.

— Te dão alguma coisa que te deixa enjoado todas as vezes em que acende...

— Não, não é nada desse tipo. Vá e veja por si mesmo — ele fez um gesto para o cigarro de Morrison. — Você não gosta realmente disso, gosta?

— Nããão, mas...

— Ter parado realmente mudou as coisas para mim —

McCann disse. — Não acredito que seja igual para todo mundo, mas comigo foi exatamente como uma fileira de dominós caindo. Eu me senti melhor e minha relação com Sharon se acertou. Comecei a ter mais energia, e meu desempenho no trabalho começou a progredir.

— Olhe, você conseguiu despertar a minha curiosidade.

Será que não pode ao menos...

— Sinto muito, Dick. Realmente não posso falar sobre isso

— sua voz era firme.

— Você chegou a engordar?

Por um momento, teve a impressão de que Jimmy McCann parecia quase sinistro.

— Sim. Um pouco demais, na verdade. Mas emagreci outra vez. Agora já estou quase no meu peso ideal. Eu era esquelético antes.

— Convidamos para embarque no Portão 9 os passageiros do vôo 206 — o alto-falante anunciou.

— É o meu vôo — McCann disse, levantando-se. Deixou uma nota de cinco sobre o bar. — Tome mais um, se quiser. E

pense no que eu disse, Dick. Pense bem.

Com isso ele se foi, abrindo caminho em meio à multidão até a escada rolante.

Morrison apanhou o cartão, estudou-o pensativamente, depois o enfiou na carteira e se esqueceu dele.

O cartão caiu de sua carteira sobre o balcão de um outro bar, um mês mais tarde. Ele saíra do escritório mais cedo e fora até ali para passar o resto da tarde bebendo. As coisas não estavam indo tão bem na Agência Morton. Na verdade, as coisas estavam simplesmente péssimas.

Ele deu a Henry uma nota de dez para pagar pela bebida, depois pegou o pequeno cartão e releu-o — o número 237

da rua 46 leste ficava a apenas dois quarteirões dali; lá fora era um dia fresco e ensolarado de outubro, e talvez, só por diversão...

Quando Henry trouxe o seu troco, ele terminou o drinque e saiu para uma caminhada.

A Ex-Fumantes Ltda. ficava num prédio novo, em que o preço mensal do aluguel de um escritório provavelmente equivalia à renda anual de Morrison. Pelo quadro que ficava no saguão, pareceu-lhe que suas instalações ocupavam todo um andar, e isso significava dinheiro. Um bocado de dinheiro.

Tomou o elevador e desceu num saguão luxuosamente acarpetado, e dali seguiu até uma uma recepção graciosamente decorada com uma ampla janela da qual o mundo lá embaixo parecia povoado por pequenos insetos apressados. Havia três homens e uma mulher sentados nas

cadeiras junto à parede, lendo revistas. Gente típica do mundo dos negócios, todos eles. Morrison dirigiu-se à mesa da recepcionista.

— Um amigo me deu isto — ele disse, passando o cartão à recepcionista. —

Acho que se pode dizer que ele é um ex-aluno.

Ela sorriu e colocou um formulário na máquina de escrever.

— Qual é o seu nome, senhor?

— Richard Morrison.

Claque-claque-claque. Teclas bem silenciosas; a máquina de escrever era uma IBM.

— Seu endereço?

— Maple Lane número 29, Clinton, Nova York.

— Casado?

— Sim.

— Filhos?

— Um — ele pensou em Alvin e franziu ligeiramente a testa.

“Um” era a palavra errada. “Meio” talvez fosse melhor. Seu filho era retardado mental e vivia numa escola para excepcionais em Nova Jersey.

— Quem nos recomendou ao senhor, Sr. Morrison?

— Um antigo colega de escola. James McCann.

— Muito bem. Quer sentar-se, por favor? Hoje estamos com o dia cheio.

Ele se sentou entre a mulher, que usava um costume azul bem tradicional, e o jovem executivo vestido com um blazer listrado e ostentando costeletas estilosas. Pegou o maço de cigarros, olhou ao redor e viu que não havia cinzeiros.

Guardou novamente o maço. Tudo bem. Levaria aquele joguinho até o fim, e então acenderia um cigarro ao sair.

Talvez até mesmo batesse algumas cinzas no luxuoso tapete marrom deles, se o fizessem esperar demais.

Apanhou um exemplar da Time e começou a folheá-lo.

Chamaram-no 15 minutos mais tarde, depois da mulher de costume azul. Sua central consumidora de nicotina falava bem alto, agora. Um homem que entrara depois dele apanhou uma cigarreira, abriu-a, viu que não havia cinzeiros e voltou a guardá-la —

parecendo um tanto culpado, Morrison pensou. Isso fez com que se sentisse melhor.

Por fim, a recepcionista ofereceu um sorriso brilhante e disse:

— Pode entrar agora, Sr. Morrison.

Morrison passou pela porta que ficava atrás de sua mesa e viu-se num corredor com iluminação indireta. Um homem corpulento com cabelos brancos que pareciam falsos apertou sua mão, sorriu amigavelmente e disse:

— Acompanhe-me, Sr. Morrison.

Conduziu Morrison ao longo de uma série de portas fechadas, sem qualquer marca, depois abriu com uma

chave uma delas, mais ou menos no meio no corredor. A porta dava para uma salinha austera e revestida com painéis de cortiça brancos. A única mobília era uma mesa com uma cadeira de cada lado. Havia o que parecia ser uma pequena janela oblonga na parede atrás da mesa, mas estava coberta com uma cortininha verde. Havia um retrato na parede à esquerda de Morrison — um homem alto com cabelos cor de chumbo. Segurava uma folha de papel numa das mãos. Parecia vagamente familiar.

— Sou Vic Donnati — o homem corpulento disse. — Se o senhor decidir seguir nosso programa, serei o encarregado de seu caso.

— Prazer em conhecê-lo — Morrison disse. Precisava muito de um cigarro.

— Sente-se.

Donnati colocou sobre a mesa o formulário da recepcionista, e em seguida tirou outro formulário da gaveta. Olhou Morrison diretamente nos olhos.

— Quer parar de fumar?

Morrison pigarreou, cruzou as pernas e tentou pensar numa forma de soar

ambíguo. Não conseguiu.

— Sim — respondeu.

— Pode assinar isto? — deu a Morrison o formulário. Ele passou os olhos rapidamente pela folha. O abaixo assinado se compromete a não divulgar os métodos ou técnicas ou etc., etc.

— Claro — ele disse, e Donatti colocou uma caneta em sua mão. Rabiscou seu nome, e Donnati assinou embaixo. Um instante depois, o papel desapareceu dentro da gaveta de onde viera. Bem, ele pensou, ironicamente, fiz um juramento. Já o havia feito antes. Uma vez durou dois dias inteiros.

— Ótimo — disse Donnati. — Não nos preocupamos com propaganda aqui, Sr. Morrison. Nem com questões de saúde, gastos, aparência. Não temos qualquer interesse nos motivos pelos quais deseja parar de fumar. Somos pragmatistas.

— Ótimo — Morrison disse, inexpressivamente.

— Não utilizamos drogas. Não utilizamos gente do estilo Dale

Carnegie2 para lhe fazer sermões. Não recomendamos qualquer dieta especial. E não aceitamos pagamento até que tenha ficado um ano sem fumar.

— Meu Deus — Morrison disse.

— O Sr. McCann não lhe disse isso?

— Não.

— A propósito, como está o Sr. McCann? Ele vai bem?

— Sim, está ótimo.

— Maravilhoso. Excelente. Agora... apenas algumas perguntas, Sr. Morrison.

São um tanto quanto pessoais, mas garanto que suas respostas serão mantidas no mais estrito sigilo.

— Sim? — Morrison perguntou, em tom neutro.

— Qual é o nome da sua mulher?

— Lucinda Morrison. Seu sobrenome de solteira era Ramsey.

— O senhor a ama?

Morrison levantou os olhos rispidamente, mas Donatti o olhava com suavidade.

— Sim, é claro — ele disse.

— Alguma vez já tiveram problemas conjugais? Uma separação, talvez?

— O que isso tem a ver com largar o vício? — Morrison perguntou. Seu tom de voz estava um pouco mais zangado do que ele tencionava, mas queria um cigarro...

diabos, precisava de um cigarro.

— Muita coisa — Donatti disse. — Tente colaborar.

— Não, nada desse tipo — embora ultimamente as coisas tivessem estado um pouco tensas.

— Os dois só têm esse filho?

— Sim. Alvin. Ele está numa escola particular.

— E qual é a escola?

— Isso — Morrison falou, implacável — eu não vou lhe dizer.

— Muito bem — Donatti disse, compreensivo. Sorriu de forma a desarmar Morrison. — Todas as suas perguntas serão respondidas amanhã, em seu primeiro tratamento.

— Que ótimo — Morrison disse, pondo-se de pé.

— Uma última pergunta — Donatti disse. — Está sem fumar há mais de uma

hora. Como se sente?

— Ótimo — Morrison mentiu. — Ótimo mesmo.

— Que bom para o senhor — Donatti exclamou. Contornou a mesa e abriu a porta. — Aproveite-os bem esta noite.

Depois de amanhã, jamais voltará a fumar.

— É mesmo?

— Sr. Morrison — Donatti disse, num tom solene —, isso nós garantimos.

Estava sentado na sala de espera da Ex-Fumantes Ltda. no dia seguinte, pontualmente às três. Passara a maior parte do dia oscilando entre faltar à consulta que a recepcionista marcara para ele quando saíra e comparecer num espírito de teimosa colaboração —

Faça o melhor de que for capaz para me convencer, cara.

No fim, algo que Jimmy McCann dissera o convencera a comparecer — mudou a minha vida. Só Deus sabia o quanto a sua própria vida precisava de algumas mudanças. E havia também a curiosidade. Antes de tomar o elevador, fumou um cigarro até o filtro. Que droga se for o último, pensou. O

gosto era horrível.

A espera na recepção foi curta, dessa vez. Quando a recepcionista lhe disse para entrar, Donatti o aguardava.

Estendeu-lhe a mão e sorriu, e para Morrison o sorriso pareceu quase predatório. Começou a se sentir um pouco tenso, o que o fez desejar um cigarro.

— Venha comigo — Donatti disse, conduzindo-o até a pequena sala. Sentou-se outra vez atrás da mesa, e Morrison ocupou a outra cadeira.

— Fico muito feliz que tenha vindo — Donatti disse. — Vários possíveis clientes nunca voltam aqui após a entrevista inicial. Dão-se conta de que não queriam deixar de fumar tanto quanto pensavam. Será um prazer trabalhar com o senhor.

— Quando começa o tratamento? — hipnose, ele pensava.

Deve ser hipnose.

— Oh, já começou. Começou quando nos cumprimentamos no corredor. Tem cigarros consigo, Sr. Morrison?

— Tenho.

— Pode entregá-los a mim, por favor?

Dando de ombros, Morrison entregou o maço a Donatti. De qualquer modo, só restavam uns dois ou três cigarros nele.

Donatti colocou o maço em cima da mesa. Então, encarando Morrison e sorrindo, fechou a mão direita num punho e começou a socar o maço de cigarros, que ficou todo amarrotado e achatado. Uma ponta partida de cigarro voou longe. Pedaços de tabaco se espalharam. O som do punho de Donatti era bem forte na sala fechada. O

sorriso permanecia em seu rosto apesar da força dos golpes, e Morrison sentiu um arrepio. Provavelmente era exatamente o efeito que queriam causar, ele pensou.

Por fim, Donatti parou de bater. Pegou o maço, um destroço completamente amassado e desmantelado.

— Não pode imaginar o prazer que isso me dá — ele disse, jogando o maço na lata de lixo. — Mesmo depois de três anos de profissão, ainda me dá prazer.

— Como tratamento, deixa algo a desejar — Morrison disse, sendo gentil. —

Há uma banca de jornais no saguão deste prédio. E eles vendem todas as marcas.

— Como quiser — Donatti disse. Entrelaçou os dedos. — Seu filho, Alvin Dawes Morrison, está na Escola Paterson para Crianças Excepcionais. Nasceu com danos cerebrais. Fez 46

pontos no teste de QI. Não pertence exatamente à categoria dos

retardados que podem ser educados. Sua mulher...

— Como descobriu isso? — vociferou Morrison. Estava surpreso e furioso. —

Não tem o direito de meter o nariz...

— Sabemos muita coisa a seu respeito — Donatti falou, de forma branda. —

Mas, como disse, tudo será mantido sob o mais estrito sigilo.

— Vou-me embora daqui — Morrison disse, a voz tensa.

Ficou de pé.

— Fique um pouco mais.

Morrison encarou-o fixamente. Donatti não estava aborrecido. Na verdade, parecia até estar achando uma

certa graça. Era o rosto de um homem que vira essa reação dezenas ou mesmo centenas de vezes.

— Certo. Mas é melhor que isso seja bom mesmo.

— Ah, mas é — Donatti reclinou-se para trás. — Disse-lhe que aqui nós éramos pragmatistas. E enquanto pragmatistas, temos de começar reconhecendo como é difícil curar o vício do tabagismo. O índice de recaídas é de quase 85 por cento. O índice de recaídas de viciados em heroína é mais baixo do que esse. É um problema extraordinário. Extraordinário.

Morrison lançou um olhar para o cesto de lixo. Um dos cigarros, embora amassado, ainda parecia fumável. Donatti riu, bem-humorado, colocou a mão no cesto e destruiu o cigarro com os dedos.

Continuar: parte 4 de 4