Sombras da Noite

Stephen King · Capítulo 5 de 5 · parte 2/4

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Sombras da Noite

As Crianças do Milharal

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— O quê? — Burt perguntou, franzindo o cenho.

— Creme de barbear Burma Shave4 — ela apertou o punho cerrado sobre a boca aberta para refrear a gargalhada, mas suas risadinhas semi-histéricas escapavam dali como bolhas efervescentes de água tônica.

— Vicky, você está bem?

— Vou ficar. Assim que estivermos a pelo menos mil quilômetros daqui, na ensolarada e pecaminosa Califórnia, com as Montanhas Rochosas entre nós e Nebraska.

Um outro conjunto de placas surgiu, lidas por eles em silêncio.

tomai... e... comei... disse... o... senhor... deus...

Ora, pensou Burt, por que será que associo imediatamente a frase ao milho? Não é isso que dizem quando te dão a comunhão? Fazia tanto tempo da última vez em que ele fora à missa que ele não se lembrava ao certo. Não se surpreenderia se usassem pão de milho em lugar da hóstia naquela região. Abriu a boca para dizê-lo a Vicky, mas mudou de idéia.

Transpuseram um leve aclive e ali estava Gatlin logo abaixo deles, parecendo mais o cenário de um filme sobre a Grande Depressão.

— Ali vamos encontrar um policial — Burt disse, e se perguntou por que a visão daquela velha cidade caipira cochilando ao sol lhe dava um nó de medo na garganta.

Passaram por uma placa de limite de velocidade avisando que agora só se podia andar a 50 por hora, e uma outra placa, comida pela ferrugem, que dizia: você está entrando em gatlin, a melhor cidadezinha de nebraska — ou de qualquer outro lugar! pop. 5.431. Havia olmos empoeirados dos dois lados da estrada, a maioria doente. Passaram pelo Depósito de Madeira Gatlin e um posto de gasolina da cadeia 76, onde as placas com os preços balançavam devagar sob a quente brisa do meio-dia: comum $35.9

aditivada $ 38.9, e uma outra que dizia: olá caminhoneiros bomba de diesel nos fundos.

Atravessaram a Elm Street, depois a Birch Street, e saíram na praça da cidade. As casas alinhadas ao longo das ruas eram de madeira com varandas fechadas com tela.

Angulosas e funcionais. Os gramados estavam amarelados e sem viço. Lá adiante um cachorro vira-lata caminhou lentamente até o meio da Maple Street, ficou olhando para eles por um instante e depois se deitou na estrada com o focinho em cima das patas.

— Pare — Vicky disse. — Pare aqui mesmo.

Burt parou obedientemente o carro junto ao meio-fio.

— Dê meia-volta. Vamos levar o cadáver para Grand Island.

Não fica muito longe, não é? Vamos fazer isso.

— Vicky, qual o problema?

— O que você quer dizer com “qual o problema”? — ela perguntou, elevando a voz para um tom agudo. — Esta cidade está vazia, Burt. Não há ninguém aqui além de nós.

Não consegue sentir isso?

Ele havia sentido alguma coisa, e ainda sentia. Mas...

— É só uma impressão — ele disse. — Mas com certeza não passa mesmo de um povoado minúsculo. Devem estar todos na praça, num concurso de bolos ou num jogo de bingo.

— Não há ninguém aqui — ela disse as palavras com uma ênfase estranha, tensa.

— Você não viu aquele posto de gasolina 76 lá atrás?

— Claro, ao lado do depósito de madeira, e daí? — A mente dele estava longe, escutando o zumbido surdo de uma cigarra num dos olmos perto dali. Podia sentir cheiro de milho, rosas empoeiradas e fertilizante... é claro. Pela primeira vez estavam fora da rodovia principal e numa cidade. Uma cidade num estado a que nunca haviam ido antes (embora o tivessem sobrevoado de vez em quando nos 747 da United Airlines) e de algum modo aquilo parecia completamente errado, mas, ao mesmo tempo, tudo parecia estar bem. Em algum lugar mais adiante haveria uma drogaria com uma máquina de refrigerante, um cinema chamado Bijou e uma escola batizada em homenagem a JFK.

— Burt, os preços eram 35.9 a gasolina comum e 38.9 a aditivada. Ora, quanto tempo faz que alguém nesse país paga esses preços?

— Pelo menos quatro anos — ele admitiu. — Mas, Vicky...

— Estamos no centro da cidade, Burt, e não há um só carro!

Nenhum carro!

— Grand Island fica a 110 quilômetros daqui. Pareceria estranho se levássemos o cadáver até lá.

— Não me importo.

— Ouça, vamos de carro até o fórum e...

— Não!

É isso, diabo. Isso mesmo. O motivo pelo qual nosso casamento está desmoronando, em resumo. Não, eu não quero. Não senhor. E, além disso, vou prender a respiração até ficar azul se as coisas não forem feitas do meu jeito.

— Vicky — ele disse.

— Quero sair daqui, Burt.

— Vicky, preste atenção.

— Dê a volta. Vamos embora.

— Vicky, será que pode parar um minuto?

— Vou parar quando estivermos dirigindo na outra direção.

Agora vamos.

— Nós estamos com uma criança morta no porta-malas do nosso carro! — ele rugiu, e sentiu um nítido prazer na

maneira como ela se encolheu, na maneira como seu rosto pareceu desmoronar. Num tom de voz ligeiramente mais baixo, ele prosseguiu. —

A garganta do menino foi cortada e ele foi empurrado para a estrada, e eu o atropelei.

Agora vou até o fórum ou o que quer que haja por aqui, e vou comunicar o que aconteceu. Se você quiser voltar na direção da rodovia principal, vá em frente. Depois te pego no caminho. Mas não me diga para fazer a volta e dirigir por 110 quilômetros até Grand Island como se não tivéssemos levando nada além de um saco de lixo na mala do carro.

Ele, por acaso, tem uma mãe em algum lugar, e eu vou comunicar o ocorrido antes que a pessoa que o matou se mande para bem longe daqui.

— Seu desgraçado — ela disse, chorando. — O que eu estou fazendo junto de você?

— Não sei — ele disse. — Já não sei mais. Mas a situação pode ser remediada, Vicky.

Ele deu a partida. O cachorro levantou a cabeça diante do ligeiro cantar de pneus e depois voltou a deitá-la sobre as patas.

Percorreram o último quarteirão até a praça. Na esquina de Main e Pleasant, a Main Street dividia-se ao meio. Ali de fato havia uma praça, um parque gramado com um coreto no centro. Na outra ponta, onde a Main Street se tornava outra vez uma só, havia duas construções com aparência oficial.

Burt conseguia distinguir o letreiro num deles: centro municipal de gatlin.

— É ali — ele disse. Vicky continuou calada.

No meio da praça, Burt parou o carro outra vez. Estavam diante de um restaurante, o Gatlin Bar and Grill.

— Aonde você vai? — Vicky perguntou, alarmada, quando ele abriu a porta.

— Descobrir onde está todo mundo. O letreiro da vitrine diz

“aberto”.

— Você não vai me deixar aqui sozinha.

— Então venha também. Quem está impedindo?

Ela destrancou a porta e saiu, enquanto ele passava pela frente do carro. Viu como seu rosto estava pálido e sentiu um momento de pena. Um desperdício de pena.

— Está ouvindo? — ela perguntou, quando ele se aproximou dela.

— Ouvindo o quê?

— O nada. Nenhum carro. Nenhuma pessoa. Nenhum trator.

Nada.

E então, a um quarteirão dali, ouviram o riso agudo e alegre de crianças.

— Estou ouvindo crianças — ele disse. — E você?

Ela olhou para ele perturbada.

Ele abriu a porta do restaurante e entrou para o calor seco, antisséptico. O chão estava empoeirado. Os cromados estavam sem brilho. As pás de madeira dos ventiladores de teto estavam imóveis. Mesas vazias. Bancos vazios junto ao balcão. Mas o espelho por trás do balcão fora quebrado e havia algo mais... num instante, ele percebeu: todas as

torneiras de chope tinham sido arrancadas. Jaziam sobre o balcão feito peças de decoração para uma festa.

A voz de Vicky soou alegre e quase num falsete:

— Claro. Pergunte a alguém. Com licença, senhor, mas poderia me dizer...

— Ah, cale a boca.

Mas a voz dele soou inexpressiva e sem força. Estavam de pé numa faixa de sol empoeirada, que entrava pela grande vidraça do restaurante, e mais uma vez ele teve a sensação de estar sendo observado e pensou no garoto que traziam no porta-malas e no riso agudo das crianças. Ocorreu-lhe uma expressão sem nenhum motivo, uma expressão que soava como jurídica, e que começou a se repetir misticamente em sua cabeça: Às escuras. Às escuras. Às escuras.

Seus olhos passearam pelos cartazes de papelão amarelados pelo tempo, presos com percevejos atrás do balcão: cheeseburger $ 0,35 o melhor café do mundo $

0,10 torta de morango com ruibarbo $ 0,2 5 hoje presunto especial & molho c/ purê de batatas $0,80.

Há quanto tempo ele não via preços de restaurante como aqueles?

Vicky tinha a resposta.

— Veja isto — ela disse, a voz estridente. Apontava para o calendário na parede.

— Creio que eles estão nessa situação faz 12 anos — ela deu uma risada aguda.

Ele se aproximou. A ilustração mostrava dois garotos nadando num lago, enquanto um cachorro fofinho levava embora suas roupas. Abaixo dela estava a legenda: com os cumprimentos da serraria gatlin. Você quebra, nós consertamos. O mês exibido ali era agosto de 1964.

— Não entendo — ele balbuciou — mas tenho certeza...

— Você tem certeza! — ela exclamou, histérica. — Com certeza, você tem certeza! Esse é o seu problema, Burt, você passou a vida inteira tendo certeza!

Ele se virou, encaminhando-se para a porta, e ela o seguiu.

— Aonde você vai?

— Ao Centro Municipal.

— Burt, por que você tem que ser tão teimoso? Sabe que alguma coisa está errada aqui. Será que não pode simplesmente admitir?

— Não estou sendo teimoso. Só quero me livrar daquilo que está no porta-malas.

Saíram para a calçada e Burt mais uma vez sentiu-se surpreso com o silêncio da cidade, e com o cheiro de fertilizante. De algum modo, você nunca pensava naquele cheiro quando passava manteiga numa espiga de milho e depois colocava sal e dava uma mordida. Graças ao sol, à chuva, a todos os tipos de fosfato fabricados pelo homem, e a uma boa e saudável dose de bosta de vaca. Mas de algum modo esse cheiro era diferente do cheiro com que ele fora criado, no norte rural do estado de Nova York. Você podia dizer o que quisesse sobre fertilizante orgânico, mas era quase como se ele fosse perfumado, quando alguém o espalhava pelos campos. Não é um desses grandes

perfumes, por deus, não, mas quando a brisa de primavera soprava no final da tarde e o trazia dos campos recém-arados, era um cheiro com boas associações. Significava que o inverno tinha acabado definitivamente. Significava que os portões da escola se fechariam dentro de seis semanas, ou coisa assim, e todo mundo ficaria livre para aproveitar o verão. Era um cheiro invariavelmente ligado, em sua mente, a outros aromas que eram perfumados: capim rabo de rato, trevos, terra fresca, malva-rosa, corniso.

Mas deviam fabricar algo diferente por ali, ele pensou. O

cheiro era parecido, mas não era o mesmo. Havia um traço doce e enjoativo nele. Quase um cheiro de morte.

Como servente de hospital de campanha no Vietnã, ele se tornara bem versado naquele cheiro.

Vicky estava sentada dentro do carro, em silêncio, segurando no colo o crucifixo feito de milho e olhando-o com um ar extasiado que não agradava a Burt.

— Largue isso — ele falou.

— Não — ela disse, sem levantar os olhos. — Você continua com os seus joguinhos e eu com os meus.

Ele engrenou a marcha no carro e dirigiu até a esquina. Um sinal de trânsito apagado pendia lá no alto, oscilando na brisa suave. À esquerda havia uma igreja branca bem cuidada. A grama estava aparada. Flores bem tratadas cresciam junto ao caminho que levava até a porta. Burt estacionou.

— O que você vai fazer?

— Vou entrar e dar uma olhada — disse ele. — É o único lugar da cidade que

não parece ter uma camada de poeira de dez anos. E veja o quadro de sermões.

Vicky olhou. Letras brancas cuidadosamente dispostas por trás do vidro anunciavam: o poder e a graça daquele que anda por trás das fileiras. A data era 24 de julho de 1976 —

o domingo anterior.

— Aquele que Anda por Trás da Fileiras — Burt disse, desligando a ignição. —

Um dos 9 mil nomes de Deus que só são usados em Nebraska, acho eu. Você também vem?

Ela não sorriu.

— Não vou com você.

— Tudo bem. Como quiser.

— Não entro numa igreja desde que saí de casa e não quero entrar nesta igreja e não quero mais ficar nesta cidade, Burt. Estou apavorada, será que não podemos simplesmente ir embora?

— Só vai levar um minuto.

— Estou com as minhas chaves, Burt. Se você não estiver de volta em cinco minutos, eu simplesmente vou me embora e te deixo aqui.

— Calma aí, madame.

— É o que vou fazer. A menos que você queira me assaltar como um ladrão barato e tomar minhas chaves. Suponho que seja capaz.

— Mas não acha que vou fazer isso.

— Não.

Sua bolsa estava entre os dois. Ele a apanhou. Ela gritou e tentou agarrar a alça.

Ele a puxou para fora do seu alcance. Sem se dar ao trabalho de remexer lá dentro, ele simplesmente virou a bolsa de cabeça para baixo, deixando cair tudo. O chaveiro dela brilhou entre lenços de papel, cosméticos, moedas e listas de compras. Ela tentou alcançar as chaves, mas ele mais uma vez levou a melhor e as colocou em seu próprio bolso.

— Não precisava fazer isso — ela disse, chorando. — Me dê as chaves.

— Não — ele disse, lançando-lhe um sorriso duro e inexpressivo. — De jeito nenhum.

— Por favor, Burt! Estou com medo! — Vicky estendeu a mão, agora suplicante.

— Você ia esperar dois minutos e chegaria à conclusão de que já era o suficiente.

— Eu não...

— E então iria embora rindo e dizendo para si mesma, “Isso vai ensinar Burt a não me contrariar quando quero alguma coisa”. Não tem sido esse o seu lema ao longo da nossa vida de casados? Isso vai ensinar Burt a não me contrariar?

Ele saiu do carro.

— Por favor, Burt! — ela gritou, escorregando pelo assento.

— Ouça... eu sei...

vamos sair desta cidade e ligar de um telefone público, está bem? Tenho moedas de todos os valores. Eu só... nós podemos... não me deixe sozinha, Burt, não me deixe aqui sozinha!

Ele bateu a porta do carro enquanto ela gritava, e depois ficou encostado na lateral do T-Bird por um momento, apertando os polegares sobre os olhos fechados.

Ela esmurrava o vidro da janela do motorista e gritava o nome dele. Ela causaria uma bela impressão quando ele finalmente encontrasse alguma autoridade para se encarregar do cadáver do menino. Ah, se causaria.

Ele se virou e seguiu pelo caminho pavimentado com lajes até a porta da igreja.

Dois ou três minutos, só uma espiada, e sairia outra vez.

Provavelmente a porta nem devia estar destrancada.

Mas bastou um empurrão leve para abri-la, silenciosamente, nas dobradiças bem lubrificadas (reverentemente lubrificadas, ele pensou, e isso lhe pareceu engraçado por nenhum motivo aparente), e ele se encontrou num vestíbulo tão fresco que chegava quase a estar frio. Seus olhos precisaram de um instante para se ajustar à penumbra.

A primeira coisa que ele notou foi uma pilha de letras de madeira na outra extremidade, empoeiradas e amontoadas negligentemente. Foi até onde estavam, curioso.

Pareciam tão velhas e esquecidas quanto o calendário no restaurante, ao contrário do restante do vestíbulo, que estava limpo e arrumado. As letras tinham mais ou menos 60

centímetros de altura e obviamente integravam um conjunto. Ele as espalhou sobre o carpete — havia 18 delas

— e as arrumou como anagramas. hurt bite crag chap.

Não. crap target chips huc. Isso também não servia. Exceto pelo ch em chibs. Ele rapidamente formou a palavra church e sobraram-lhe rap taget cibs. Idiotice. Estava agachado ali, brincando com um punhado de letras, enquanto Vicky enlouquecia lá fora no carro. Começou a se levantar, e então percebeu. Formou a palavra baptist, deixando rag ec

— e trocando duas letras de lugar ficava com grace. grace baptist church

— Igreja Batista da Graça. As letras deviam ficar na entrada.

Foram tiradas de lá e jogadas com indiferença num canto, e a igreja tinha sido pintada desde então, de modo que você nem conseguia saber onde as letras estavam antes.

Por quê?

Aquela não era mais a Igreja Batista da Graça, esse era o motivo. Então que tipo de igreja era? Por alguma razão aquela pergunta deu-lhe um arrepio de medo, e ele se levantou depressa, limpando o pó dos dedos. Então tinham removido um punhado de letras, e daí? Talvez a tivessem transformado na Igreja do que Está Acontecendo

Agora, de Flip Wilson. 5

Mas o que então havia acontecido?

Ele afastou o pensamento, impacientemente, e passou pela porta dupla interna.

Agora se encontrava no fundo da igreja propriamente dita, e quando olhou na direção da nave, sentiu o medo rodear seu coração e apertá-lo com força. Prendeu a respiração com um ruído que soou alto no silêncio carregado daquele lugar.

O espaço atrás do púlpito era dominando por um gigantesco retrato do Cristo, e Burt pensou: se nada nesta cidade tivesse deixado Vicky enlouquecida, isto deixaria.

O Cristo tinha um sorriso malicioso no rosto. Seus olhos estavam arregalados e fixos, deixando Burt inquieto ao lembrar de Lon Chaney em O Fantasma da Ópera. Em cada uma das grandes pupilas negras, alguém (um pecador, presumivelmente) se afogava num lago de fogo. Mas a coisa mais estranha era que aquele Cristo tinha cabelos verdes...

cabelos que um exame mais atento mostravam ser uma massa emaranhada de milho no início do verão. O retrato era tosco, mas eficiente. Parecia um mural de história em quadrinhos desenhado por uma criança talentosa — um Cristo do Antigo Testamento, ou um Cristo pagão que poderia matar seu rebanho em sacrifício, em vez de conduzi-lo.

Aos pés da fileira esquerda de bancos estava um órgão, e a princípio Burt não foi capaz de dizer o que estava errado com ele. Seguiu pela nave lateral esquerda e viu, com uma sensação de horror nascendo vagarosamente, que as teclas tinham sido arrancadas, os registros removidos... e os próprios tubos tapados com sabugos de milho secos. Por cima do órgão, havia uma placa cuidadosamente desenhada que dizia: não façais música exceto com a língua humana disse o senhor deus.

Vicky tinha razão. Alguma coisa estava terrivelmente errada ali. Considerou a hipótese de voltar para junto dela sem explorar mais o lugar, simplesmente entrar no carro e deixar a cidade o mais rapidamente possível, esquecendo o Centro Municipal.

Mas aquilo o irritava. Diga a verdade, ele pensou. Você quer dar trabalho ao desodorante dela antes de voltar e admitir que ela tinha razão desde o início.

Ele voltaria, dentro de um minuto ou dois.

Encaminhou-se para o púlpito, pensando: pessoas devem passar por Gatlin o tempo todo. Deve haver gente nas cidades vizinhas com amigos e parentes aqui. A Polícia Estadual de Nebraska deve passar por aqui de tempos em tempos. E quanto à companhia de eletricidade? O sinal de trânsito estava apagado. É claro que saberiam se estivesse faltando luz há 12 longos anos. Conclusão: O que parecia ter acontecido em Gatlin era impossível.

Ainda assim, ele estava arrepiado.

Subiu os quatro degraus acarpetados até o púlpito e de lá olhou para os bancos vazios, reluzindo em meio às sombras.

Parecia sentir o peso daqueles olhos medonhos e decididamente nada cristãos às suas costas.

Havia uma grande Bíblia sobre a estante do púlpito, aberta no capítulo 38 do livro de Jó. Burt deu uma olhada e leu:

“Depois disso o senhor respondeu a Jó de um redemoinho, dizendo: quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento? Onde estavas tu quando eu fundava a Terra? Faze-mo saber se tens inteligência.” O

senhor. Aquele que Anda por Trás das Fileiras. Faze-mo saber, se tens a inteligência. E por favor passe o milho.

Ele folheou as páginas da Bíblia, que faziam um ruído seco e sussurrado no silêncio — o ruído que fariam os fantasmas, se realmente existissem. E num lugar como aquele, você quase acreditava que existiam. Partes da Bíblia tinham sido arrancadas. Ele viu que a maioria era do Novo Testamento.

Alguém decidira empreender a tarefa de corrigir o Bom Rei Tiago com uma tesoura.

Mas o Antigo Testamento estava intacto.

Ele estava prestes a deixar o púlpito, quando viu um outro livro numa estante mais baixa e o apanhou, pensando que pudesse ser um registro de casamentos e crismas e enterros da igreja.

Fez uma careta ao ver as palavras impressas na capa, gravadas em dourado por mãos inexperientes: que os injustos sejam ceifados para que o solo volte a ser fértil disse o senhor deus das hostes.

Parecia haver uma linha de pensamento por ali, e Burt não gostava muito da trilha que ela parecia seguir.

Abriu o livro na primeira página, que era larga e pautada.

Uma criança escrevera ali, ele notou imediatamente. Em alguns lugares, uma borracha de apagar canetas havia sido cuidadosamente usada, e embora não houvesse erros de ortografia, as letras eram grandes e infantis, desenhadas, mais do que escritas. A primeira coluna dizia: Amós

Deigan 4 de set.

(Richard), n. 4 de set. de 1964

de 1945

Isaac

Renfrew 19 de set.

(William), n. 19 de set. de 1964

de 1945

Sofonias

Kirk 14

de

(George), n. 14 de out. out.

de

de 1945

1964

12

de

Maria Wells (Roberta), nov. de

n. 12 de nov. de 1945 1964

Yemes Hollis (Edward), 5 de jan.

n. 5 de jan. de 1946

de 1965

Franzindo a testa, Burt continuou a virar as páginas. A três quartos do fim, as

colunas duplas terminavam repentinamente: Raquel Stigman 21

de

(Donna), n. 21 de jun. jun. de de 1957

1976

Moisés

Richardson

(Henry), n. 29 de jul. de

1957

Malaquias

Boardman

(Craig), n. 15 de ago. de

1957

O último registro no livro era de Rute Clawson (Sandra), n.

30 de abril de 1961. Burt olhou para a estante onde encontrara aquele livro e pegou outros dois. O

primeiro tinha o mesmo logotipo, que os injustos sejam ceifados, e continuava o mesmo registro, uma única coluna indicando datas de nascimento e nomes. No início de setembro de 1964, ele encontrou Jó Gilman (Clayton), n. 6

de setembro, e o registro seguinte era Eva Tobin, n. 16 de junho de 1965. Sem um segundo nome entre parênteses.

O terceiro livro estava em branco.

De pé atrás do púlpito, Burt refletiu sobre aquilo.

Alguma coisa acontecera em 1964. Alguma coisa relacionada a religião, e milho... e crianças.

Amado Senhor, imploramos Sua bênção sobre a colheita.

Em nome de Jesus, amém.

E a faca se ergueu bem alto para sacrificar o cordeiro —

mas será que havia sido um cordeiro? Talvez uma obsessão religiosa os tivesse arrebatado. Sozinhos, completamente sozinhos, isolados do mundo lá fora por centenas de quilômetros quadrados de milharais farfalhante. Sozinhos debaixo de quase 30 milhões de hectares de céu azul. Sozinhos sob o olhar vigilante de Deus, agora um estranho Deus verde, o Deus do milho, que se tornara velho e estranho e faminto. Aquele que Anda por Trás das Fileiras.

Burt sentiu um calafrio percorrer sua pele.

Vicky, deixa eu te contar uma história. É sobre Amós Deigan, nascido Richard Deigan no dia 4 de setembro de 1945. Ele adotou o nome de Amós em 1964, um belo nome do Antigo Testamento, Amós, um dos profetas menores.

Bem, Vicky, o que aconteceu — não ria — foi que Dick Deigan e seus amigos — Billy Renfrew, George Kirk, Roberta Wells e Eddie Hollis, entre outros — se tornaram religiosos e mataram os próprios pais. Todos eles. Não é impressionante? Os pais foram mortos a tiros em suas camas, apunhalados nas banheiras, envenenados, enforcados, estripados, até onde eu sei.

Por quê? O milho. Talvez o milho estivesse morrendo. Talvez de algum modo eles tenham imaginado que o milho morria porque havia pecados demais. Não havia sacrifícios o suficiente. Devem tê-los feito no milharal, entre as fileiras.

E de algum modo, Vicky, tenho quase certeza disso, de algum modo, eles concluíram que 19 anos era a idade máxima que viveriam. Richard “Amós” Deigan, o herói da nossa historinha, completou 19 anos no dia 4 de setembro de 1964 — a data que consta do livro. Acho que talvez eles o tenham matado. E o sacrificado no milharal.

Não é uma história tola?

Mas vejamos Raquel Stigman, que era Donna Stigman até 1964. Ela fez 19 anos no dia 21 de junho, há mais ou menos um mês. Moisés Richardson nasceu no dia 29 de junho —

vai fazer 19 anos daqui a apenas três dias. Você tem alguma idéia do que vai acontecer com o velho Moisés no dia 29?

Eu consigo imaginar.

Burt passou a língua pelos lábios, que estavam secos.

Uma outra coisa, Vicky. Veja isto. Temos Jó Gilman (Clayton), nascido em 6

de setembro de 1964. Nenhum outro nascimento até 16 de junho de 1965. Um intervalo de dez meses. Sabe o que eu acho? Eles mataram todos os pais, inclusive as mães grávidas, é isso que eu acho. E uma delas engravidou em outubro de 1964 e deu à luz Eva. Uma garota de 16 ou 17

anos. Eva. A primeira mulher.

Ele folheou o livro febrilmente, procurando nas páginas anteriores, e encontrou o registro de Eva Tobin. Logo abaixo:

“Adão Greenlaw, n. 11 de julho, 1965.”

Devia ter apenas 11 anos agora, ele pensou, sentindo que sua pele começava a formigar. E talvez estejam lá fora. Em algum lugar.

Mas de que modo uma coisa como aquela podia ser mantida em segredo? Como podia continuar?

Como, a não ser que o Deus em questão a aprovasse?

— Oh, Jesus — disse Burt no silêncio, e foi então que a buzina do T-Bird começou a soar no meio da tarde, um longo e contínuo toque.

Burt saltou do púlpito e saiu correndo pela nave central.

Abriu com um empurrão a porta exterior do vestíbulo, saindo para o sol quente e ofuscante. Vicky estava sentada rigidamente atrás do volante, as duas mãos apertando a buzina, a cabeça

girando desvairadamente para um lado e outro. De toda parte chegavam as crianças.

Algumas delas riam alegremente. Empunhavam facas, machadinhas, canos, pedras, martelos. Uma menina, com talvez 8 anos de idade e cabelos louros belos e compridos, segurava um cabo de macaco de automóvel. Armas rurais.

Nenhum deles trazia uma arma de fogo. Burt sentiu um impulso louco de gritar: Quem entre vocês são Adão e Eva?

Quem são as mães? Quem são as filhas? Pais? Filhos?

Faze-mo saber, se tens a inteligência.

Vinham das ruas transversais, do gramado da praça, através do portão da cerca que contornava o playground da escola, a um quarteirão de distância a oeste. Alguns deles lançavam olhares indiferentes para Burt, de pé, imóvel, nos degraus da igreja, e outros se cutucavam e apontavam e sorriam... doces sorrisos de crianças.

As garotas usavam vestidos compridos de lã marrom e toucas antigas e desbotadas. Os meninos, como pastores Quaker, estavam todos de preto e usavam chapéus de copas arredondadas e abas chatas. Afluíam através da praça na direção do carro, cruzando o gramado, e alguns passaram pelo jardim da frente do que havia sido a Igreja Batista da Graça até 1964. Um ou dois quase ao alcance de sua mão.

— A espingarda! — Burt gritou. — Vicky, pegue a espingarda!

Mas ela estava imobilizada pelo pânico, como ele podia ver dos degraus da igreja.

Tinha dúvidas de que ela sequer conseguiria ouvi-lo através de janelas fechadas.

Todos convergiam na direção do Thunderbird. Os machados, machadinhas e pedaços de cano começaram a subir e descer. Meu Deus, estou mesmo vendo isso?, ele pensou, imobilizado. Um detalhe cromado despencou da lateral do carro. O emblema do capô voou longe. Facas desenharam espirais nas laterais dos pneus e o carro arriou. A buzina não parava de soar. O pára-brisa e as janelas laterais ficaram opacos e se quebraram sob aquela investida... e então o vidro de segurança se desfez numa chuva de estilhaços, e ele conseguiu ver novamente. Vicky estava encolhida, apenas uma das mãos sobre a buzina agora, e a outra erguida para proteger o rosto. Mãos ávidas e jovens tatearam lá dentro, em busca da trava. Vicky afastou-os com golpes desvairados. A buzina se tornou intermitente e depois parou de todo.

A porta do motorista, toda amassada e arranhada, foi escancarada. Estavam tentando arrastá-la para fora, mas

suas mãos estavam fortemente agarradas ao volante.

Então um deles se inclinou para dentro, uma faca na mão, e...

Ele venceu a paralisia e se atirou pelos degraus abaixo, quase caindo, e correu pelo caminho de lajes na direção das crianças. Uma delas, um garoto de 16 anos com um comprido cabelo ruivo escorrendo por baixo do chapéu, virou-se em sua direção, quase que despreocupadamente, e alguma coisa reluziu no ar. O braço esquerdo de Burt foi puxado para trás, e por um momento ocorreu-lhe a idéia absurda de que havia levado um soco à distância. Então veio a dor, tão súbita e aguda que o mundo se tornou cinza.

Ele examinou o braço com uma espécie de assombro idiota.

Um canivete Pensey barato, daqueles que custavam um dólar e meio, crescia do seu braço como um estranho tumor.

A manga de sua camisa esporte J. C. Penney começava a ficar vermelha. Ele contemplou aquela imagem pelo que pareceu ser uma eternidade, tentando entender como era possível que um canivete estivesse crescendo de seu braço... seria possível?

Quando levantou os olhos, o garoto de cabelo ruivo estava quase sobre ele.

Sorria, confiante.

— Ei, seu desgraçado — Burt disse. Sua voz falhava, devido ao choque.

— Entregue sua alma a Deus, pois logo estará diante do Seu trono — disse o garoto de cabelo ruivo, tentando cravar as unhas nos olhos de Burt.

Burt recuou, arrancou o canivete Pensey do braço e enfiou-o na garganta do garoto de cabelo ruivo. O jorro de sangue foi imediato e enorme. Esguichou sobre Burt.

O garoto de cabelo ruivo começou a gorgolejar e a caminhar num círculo amplo.

Agarrou o canivete, tentando tirá-lo da garganta, mas não conseguiu. Burt o observava, boquiaberto. Nada daquilo estava acontecendo. Era um sonho. O garoto de cabelo ruivo gorgolejava e andava. Agora, o som que ele fazia era o único naquele começo quente de tarde. Os outros olhavam, aturdidos.

Aquela parte não estava no roteiro, Burt pensou, sentindo-se entorpecido. Vicky e eu, nós estávamos no roteiro. E o garoto no milharal, que tentava fugir. Mas não um deles.

Ficou a encará-los furiosamente, com vontade de gritar, E

agora, gostaram?

O garoto ruivo deu um último e fraco gorgolejo, e caiu de joelhos. Encarou Burt por um momento, então suas mãos largaram o cabo do canivete e ele tombou de bruços.

Um suave ruído de lamentação veio das crianças reunidas ao redor do Thunderbird. Olhavam fixamente para Burt. Burt também as encarava, fascinado... e foi então que notou que Vicky tinha desaparecido.

— Onde ela está? — ele perguntou. — Para onde vocês a levaram?

Um dos garotos ergueu uma faca de caça manchada de sangue até o próprio pescoço e fez um gesto de degolá-lo.

Sorriu. Foi a única resposta.

De algum lugar lá atrás, a voz de um garoto mais velho, tranqüila:

— Peguem ele.

Os garotos começaram a caminhar na sua direção. Burt recuou. Começaram a andar mais rápido. Burt recuava mais rápido. A espingarda, a maldita espingarda! Fora de alcance. O sol recortava suas sombras escuras sobre o gramado verde da igreja... e então ele estava na calçada.

Virou-se e correu.

— Matem ele! — alguém berrou, e partiram em seu encalço.

Ele corria, mas não totalmente às cegas. Contornou o Centro Municipal — não adiantaria esconder-se ali, iam cercá-lo como um rato — e seguiu pela Main Street, que se alargava e se tornava outra vez a auto-estrada dois quarteirões adiante. Ele e Vicky estariam naquela estrada agora, e longe dali, se ele apenas tivesse dado ouvidos a ela.

Seus mocassins estalavam sobre a calçada. À sua frente, podia ver mais alguns prédios comerciais, incluindo a Sorveteria Gatlin e — é claro — o Cine Bijou. O

letreiro empoeirado anunciava em exibi ão cleópa ra com eli a th taylor c nsura ez an s. Depois da próxima rua transversal, havia um posto de gasolina que marcava o limite da cidade. E depois dele o milharal, fechando-se sobre as margens da estrada. Um oceano verde de milho.

Burt corria. Já estava sem fôlego, e a ferida causada pelo canivete em seu braço começava a doer. Ele deixava uma trilha de sangue. Enquanto corria, puxou o lenço do bolso traseiro e o enfiou por dentro da camisa.

Corria. Seus mocassins martelavam o cimento rachado da calçada, sua respiração raspava em sua garganta, cada vez mais quente. Seu braço começou a latejar com força.

Uma parte sarcástica de seu cérebro tentava perguntar se ele achava que seria capaz de correr por todo o caminho até a próxima cidade, se agüentaria correr 35 quilômetros de asfalto numa estrada de pista dupla.

Ele corria. Podia ouvi-los lá atrás, 15 anos mais jovens e mais rápidos do que ele, se aproximando. Seus pés batiam sobre a calçada. Eles davam berros e gritavam uns para os outros. Estão se divertindo como se vissem o circo pegar fogo, Burt pensou, com a mente desconexa. Falarão sobre isso durante anos.

Burt corria.

Passou correndo pelo posto de gasolina que marcava o limite da cidade. Sua respiração saía do peito ofegante e rugindo. A calçada acabou debaixo de seus pés. E

agora só havia uma coisa a fazer, uma única chance de derrotá-los e escapar com vida. As casas tinham acabado, a cidade tinha acabado. O milharal assomava numa suave onda verde que chegava até a beira da estrada. As folhas verdes, semelhantes a espadas, farfalhavam suavemente.

Lá dentro o caminho seria profundo, profundo e fresco, sombreado, naquelas fileiras de milho que chegavam à altura de um homem.

Passou correndo por uma placa que dizia: você está saindo de gatlin — a melhor cidadezinha de nebraska — ou de qualquer outro lugar! Volte sempre!

Com certeza vou voltar, ele pensou, vagamente.

Passou pela placa como um corredor de velocidade aproximando-se da linha de chegada, e então virou à esquerda, atravessando a estrada e chutando para o alto os mocassins. Estava agora no meio do milharal, que se fechava por trás e por cima dele como as ondas de um mar verde, engolindo-o. Ocultando-o. Sentiu-se invadir por uma súbita e totalmente inesperada sensação de alívio, e ao mesmo tempo recuperou o fôlego.

Seus pulmões, que pareciam à beira da exaustão, deram a impressão de se dilatar e lhe dar mais fôlego.

Correu diretamente pela primeira fileira em que entrou, a cabeça abaixada, os ombros largos roçando as folhas e as fazendo tremer. Uns 20 metros depois, virou para a direita, paralelo à estrada outra vez, e continuou correndo, mantendo-se abaixado para que não vissem seus cabelos escuros aparecendo em meio aos pendões amarelos do milho. Virou outra vez na direção da estrada por alguns instantes, atravessou mais fileiras, depois deu as costas para a estrada e trocou aleatoriamente de fileira para fileira, mergulhando cada vez mais profundamente no milharal.

Por fim, desabou de joelhos e encostou a testa no chão. Só conseguia ouvir sua própria respiração ofegante, e o pensamento que se repetia em sua mente era: graças a Deus eu parei de fumar, graças a Deus eu parei de fumar, graças a Deus...

Então pôde ouvi-los, gritando uns para os outros, em alguns casos esbarrando uns nos outros (“Ei, esta é minha fileira!”), e o som o animou. Estavam bem distantes à sua esquerda, e pelo que ouvia pareciam muito mal organizados.

Tirou o lenço de dentro da camisa, dobrou-o e o enfiou de novo, depois de olhar para o ferimento. O sangramento parecia ter parado, apesar do exercício a que se submeteu.

Descansou mais um instante, e subitamente se deu conta de que se sentia bem, fisicamente melhor do que há anos não se sentia... a não ser pelo latejar do braço. Sentia-se bem após o exercício, e subitamente tendo que lidar com um problema bem definido (não importava o quão insano), após dois anos tentando lutar contra aqueles monstrinhos de pesadelo que estavam sugando a vida de seu casamento.

Não era certo sentir-se daquele jeito, ele disse a si mesmo.

Corria um sério

perigo de vida, e tinham levado embora sua mulher. Talvez ela estivesse morta, agora.

Tentou se lembrar do rosto de Vicky e dissipar um pouco daquele estranho bem-estar assim, mas o rosto dela não lhe surgia na lembrança. O que surgia era o garoto de cabelo ruivo com o canivete atravessado na garganta.

Ele então se deu conta do odor do milho em seu nariz, em toda parte ao seu redor. O vento no alto dos pés de milho produzia um som semelhante ao de vozes.

Calmante. O que quer que tivesse sido feito em nome daquele milho, ele era agora seu protetor.

Mas eles estavam se aproximando.

Correndo abaixado, ele seguiu pela fileira em que se encontrava, passou para uma outra, voltou atrás e cruzou outras fileiras. Tentava manter as vozes sempre à sua esquerda, mas, conforme a tarde avançava, isso se tornava

cada vez mais difícil. As vozes agora estavam muito fracas, e com freqüência o farfalhar do milho as apagava por completo. Ele corria, parava para escutar, corria outra vez.

A terra estava bem dura, e seus pés calçados apenas com meias deixavam poucos rastros, ou mesmo nenhum.

Quando parou, bem mais tarde, o sol se inclinava sobre os campos à sua direita, vermelho e inflamado, e, quando consultou o relógio, viu que eram 19h15. O sol tingira as pontas dos pés de milho com um tom de ouro avermelhado, mas ali as sombras eram escuras e profundas. Ele espichou a cabeça, escutando. Com o pôr do sol, o vento cessara por completo, e o milharal estava imóvel, exalando o aroma de seu crescimento no ar quente. Se ainda estivessem no milharal, ou estariam bem longe, ou simplesmente agachados, à escuta. Mas Burt não achava que um punhado de crianças, mesmo crianças malucas, conseguissem ficar quietas por muito tempo. Suspeitava que haviam feito a coisa mais infantil de todas, a despeito das conseqüências que isso poderia lhes trazer: tinham desistido e voltado para casa.

Virou-se na direção do sol poente, que mergulhara em meio às nuvens esparsas no horizonte, e começou a andar. Se mantivesse uma linha diagonal através das fileiras, sempre com o sol poente diante dele, mais cedo ou mais tarde chegaria à Rota 17.

A dor em seu braço se tornara agora um leve latejar que era quase agradável, e aquela boa sensação ainda o acompanhava. Ele decidiu que, enquanto ainda estivesse ali, deixaria que a boa sensação tomasse conta dele, sem culpa. A culpa retornaria quando tivesse de encarar as autoridades e fazer um relato do que acontecera em Gatlin.

Mas isso podia esperar.

Apertou o passo através do milharal, pensando que jamais se sentira tão intensamente alerta. Quinze minutos depois, o sol era apenas um semicírculo espiando por cima do horizonte, e ele parou outra vez, seu novo sentido de alerta assumindo um padrão que ele não gostou. Era vagamente...

bem, vagamente assustador.

Espichou a cabeça. O milho farfalhava.

Burt percebera aquilo fazia algum tempo, mas simplesmente o associara a alguma outra coisa. Não ventava. Como era possível?

Olhou ao redor desconfiado, quase esperando ver os garotos sorridentes com suas roupas de Quaker esgueirando-se entre os pés de milho, as facas nas mãos.

Nada disso. Ainda havia aquele farfalhar. À esquerda.

Começou a caminhar naquela direção, não mais precisando atravessar as fileiras de milho. A fileira o levava na direção em que ele queria seguir, naturalmente. E

terminava lá adiante. Terminava? Não, desembocava numa espécie de clareira. O farfalhar

estava lá.

Ele parou, subitamente amedrontado.

O cheiro do milho era forte o suficiente para enjoá-lo. As fileiras conservavam o calor do sol, e ele se deu conta de que estava ensopado de suor e coberto de palha e fios finíssimos e sedosos de barba de milho. Os insetos deviam estar sobre seu corpo todo...

Mas não estavam.

Ele ficou imóvel, olhando fixamente para aquele lugar onde o milho se abria ao que aparentava ser um largo círculo de terra nua.

Não havia moscas ou mosquitos ali, nem borrachudos ou micuins — aqueles insetos que ele e Vicky chamavam de

“insetos de drive-in” quando ainda eram namorados, ele pensou, com uma nostalgia triste, repentina e inesperada. E

ele não vira um só corvo. Não era bem estranho aquilo, um milharal sem corvos?

À última luz do dia, ele correu os olhos pela fileira de milho à sua esquerda. E

viu que cada folha e talo eram perfeitos, o que simplesmente não era possível. Não havia pragas ou pulgões. Não havia folhas roídas, não havia ovos de lagarta, não havia tocas de animais, não havia...

Arregalou os olhos.

Meu Deus, não há nenhum mato!

Nem um único. A cada 45 centímetros, os pés de milho brotavam da terra. Não havia capim, figueira-brava, ervados-cancros, nenhuma erva daninha. Nada.

Burt levantou os olhos, que estavam arregalados. A luz já sumia no oeste. As nuvens esgarçadas tinham-se juntado.

Abaixo delas, a luz dourada desbotara, ganhando tons de rosa e ocre. Logo estaria escuro.

Estava na hora de ir até a clareira no milharal e ver o que havia lá — não era esse o plano, desde o início? Durante todo o tempo em que ele achou que estava cortando caminho de volta à estrada, não estava na verdade sendo conduzido àquele lugar?

Sentindo o medo na barriga, ele seguiu pela fileira e se deteve na borda da clareira. Havia luz suficiente para ver o que havia lá. Não podia gritar. Não parecia restar ar suficiente em seus pulmões. Cambaleou nas próprias pernas como se fossem feitas de ripas de madeira lascada. Seus olhos saltaram de seu rosto suado.

— Vicky — ele sussurrou. — Oh, Vicky, meu Deus...

Ela fora colocada numa viga transversal de madeira como um troféu hediondo, os braços amarrados pelos punhos, e as pernas pelos tornozelos, com arame farpado, 70

centavos o metro em qualquer loja de ferragens de Nebraska. Seus olhos tinham sido arrancados. As órbitas, preenchidas com sedosos fiapos de barba de milho. Sua boca estava escancarada num grito silencioso, e cheia de sabugos de milho.

À sua esquerda estava um esqueleto numa batina apodrecida. A mandíbula descarnada se abria num sorriso forçado. As órbitas dos olhos pareciam encarar Burt de modo jocoso, como se o antigo pastor da Igreja Batista da Graça dissesse: Não é tão ruim, ser sacrificado por crianças-demônios pagãs no milharal não é tão ruim, ter seus olhos arrancados da cara de acordo com as Leis de Moisés não é tão ruim...

À esquerda do esqueleto de batina havia um segundo esqueleto, vestido com um uniforme azul que apodrecia.

Um chapéu pendia sobre o crânio, ocultando seus olhos, e na pala havia um distintivo ficando verde que dizia chefe de polícia.

Foi então que Burt ouviu o ruído se aproximando: não as crianças, mas alguma coisa muito maior, avançando através do milharal em direção à clareira. Não, não as

crianças. As crianças não se aventurariam no milharal à noite. Aquele era o lugar sagrado, o lugar ocupado por Aquele que Anda por Trás das Fileiras.

Trêmulo, Burt se virou para fugir. A fileira pela qual ele entrara na clareira tinha desaparecido. Estava fechada.

Todas as fileiras estavam fechadas. O ruído agora estava mais próximo, e ele podia ouvi-lo, abrindo caminho em meio ao milho. Podia ouvir um som de respiração. Um acesso de terror supersticioso se apoderou dele. Aproximava-se.

O milho na outra extremidade da clareira tinha subitamente ficado mais escuro, como se uma sombra gigantesca o estivesse cobrindo.

Estava chegando.

Aquele que Anda por Trás das Fileiras.

Começou a penetrar na clareira. Burt viu algo imenso, crescendo na direção do céu... algo verde com terríveis olhos vermelhos do tamanho de bolas de futebol.

Algo com cheiro de palha de milho seco guardada durante anos em algum celeiro escuro.

Começou a gritar. Mas não gritou por muito tempo.

Algum tempo mais tarde, uma enorme lua cheia e alaranjada se elevou no céu.

As crianças do milharal reuniram-se na clareira ao meio-dia, olhando para os dois esqueletos crucificados e os dois corpos... os corpos ainda não eram esqueletos, mas seriam.

Com o passar do tempo. E ali, no coração de Nebraska, no meio do milharal, o que mais havia era tempo.

— Ouçam, tive um sonho esta noite, e o Senhor me mostrou tudo isto.

Todos se viraram para olhar para Isaac com temor e espanto, até mesmo Malaquias. Isaac tinha 9 anos, mas era o Vidente desde que o milharal levara Davi, um ano antes.

Davi estava com 19 anos e penetrara no milharal no dia de seu aniversário, no momento em que o crepúsculo descia pelas fileiras, no verão.

Agora, o rostinho sério debaixo do chapéu de copa arredondada, Isaac continuou:

— E no meu sonho o Senhor era uma sombra que caminhava atrás das fileiras, e ele falou comigo com as palavras que disse aos nossos irmãos mais velhos, anos atrás.

Ele está muito descontente com este sacrifício.

Fizeram um ruído de lamento, entre soluços, e olharam para as paredes verdes ao seu redor.

— E o Senhor disse: não vos dei um lugar de matança, para que lá pudessem fazer sacrifícios? E não vos dediquei a minha estima? Mas este homem cometeu uma blasfêmia contra mim, e eu próprio completei este sacrifício. Como o Homem Azul e o falso pastor, que escaparam, há muitos anos.

— O Homem Azul... o falso pastor — eles sussurraram, e se entreolharam, nervosos.

— Portanto, agora a Idade da Graça baixou de 19

plantações e colheitas para 18

— Isaac prosseguiu, implacável. — Ainda assim, sede férteis e multiplicai-vos como o milho se multiplica, para que minha proteção vos seja revelada e recaia sobre vós.

Isaac se calou.

Os olhos se viraram para Malaquias e José, os dois únicos do grupo que tinham 18 anos. Havia outros na cidade, talvez vinte, ao todo. Esperaram para ouvir o que Malaquias ia dizer, Malaquias, que liderara a caçada

por Jafé, que para todo o sempre seria conhecido como Ahaz, amaldiçoado por Deus.

Malaquias que cortara a garganta de Ahaz e atirara seu corpo para fora do milharal, de modo que aquele cadáver imundo não o poluísse ou lhe trouxesse maus fluidos.

— Obedeço a palavra de Deus — Malaquias sussurrou.

O milho pareceu suspirar de satisfação.

Nas semanas seguintes, as garotas fariam vários crucifixos com espigas de milho, para afastar maiores males.

E naquela noite todos aqueles que agora ultrapassavam a Idade da Graça caminharam silenciosamente para dentro do milharal e até a clareira, para ganhar a graça constante d’Aquele que Anda por Trás das Fileiras.

— Adeus, Malaquias — gritou Rute. Ela acenava desconsoladamente. Seu ventre estava crescido com o filho de Malaquias e lágrimas escorriam silenciosamente por sua face. Malaquias não se virou. Suas costas estavam eretas. O

milho o engoliu.

Rute se virou, ainda chorando. Ela alimentava uma raiva secreta pelo milharal, e às vezes sonhava em penetrar nele com uma tocha em cada uma das mãos, quando o mês seco de setembro viesse, e os talos estivessem secos e facilmente incendiáveis. Mas ela também o temia. Lá fora, na noite, alguma coisa caminhava, e via tudo... até os segredos guardados nos corações humanos.

O crepúsculo se transformou em noite. Ao redor de Gatlin, o milharal farfalhava e sussurrava secretamente. Estava muito satisfeito.

1- Ordem fraternal, similar à maçonaria, fundada em 1868

nos EUA. (N. da T.)

2- Caubói fictício, protagonista de uma série de livros, filmes e gibis. (N. da T.)

3- Personagem de livro infantil homônimo que se vestia como um pequeno lorde vitoriano. (N. da T.)

4- A marca ficou famosa por seus cartazes cheios de rima à beira de estradas. (N. da T.)

5- Comediante negro que fez sucesso na TV americana dos anos 1970. (N. da T.)

O Último Degrau da Escada

Recebi a carta de Katrina ontem, menos de uma semana depois que meu pai e eu voltamos de Los Angeles. Estava endereçada a Wilmington, Delaware, e já me mudei duas vezes desde então. As pessoas se mudam tanto hoje em dia, e é engraçado como aqueles endereços riscados e adesivos de mudança de domicílio assumem, às vezes, o aspecto de acusações. Sua carta estava suja e amarrotada, uma das pontas dobradas devido ao manuseio. Li o que

dizia, e a próxima coisa de que me dei conta foi de estar na sala de visitas com o telefone na mão, pronto para ligar para o papai. Recoloquei o fone no gancho com uma sensação que era quase de horror. Ele estava velho, e tivera dois ataques cardíacos. Eu devia lhe telefonar e falar da carta de Katrina tão pouco tempo depois de chegarmos a L.

A.? Isso poderia muito bem matá-lo.

Então, não telefonei. E não tinha ninguém para quem pudesse contar... algo como aquela carta é pessoal demais para ser contado a qualquer um, exceto uma mulher ou um amigo muito íntimo. Não fiz muitos amigos íntimos ao longo dos últimos anos, e minha mulher e eu nos divorciamos em 1971. Tudo que trocamos agora são cartões de Natal. Como vai você? Como está o trabalho? Tenha um feliz ano novo.

Fiquei a noite toda acordado com aquele papel, com a carta de Katrina. Ela poderia ter escrito as palavras num cartão-postal. Só havia uma única frase abaixo do

“Caro Larry”. Mas uma frase pode significar muita coisa.

Pode resultar em muita coisa.

Lembrei-me do meu pai no avião, o rosto parecendo velho e abatido sob a luz forte do sol a 18 mil pés de altura, enquanto voávamos de NY rumo ao oeste.

Acabávamos de sobrevoar Omaha, de acordo com o piloto, e papai disse: “É um bocado mais longe do que parece, Larry.” Havia uma tristeza pesada em sua voz que fazia com que eu me sentisse desconfortável, porque não conseguia entendê-la. Entendi melhor depois que recebi a carta de Katrina.

Crescemos a 130 quilômetros a oeste de Omaha, numa cidade chamada Hemingford Home — meu pai, minha mãe, minha irmã Katrina e eu. Eu era dois anos mais velho do

que Katrina, que todo mundo chamava de Kitty. Ela era uma linda criança e uma linda mulher — mesmo aos 8 anos de idade, quando aconteceu o incidente no celeiro, você podia ver que seu cabelo louro e sedoso jamais haveria de escurecer e que aqueles olhos sempre teriam um tom escuro de azul da Escandinávia. Bastaria encarar por um segundo aqueles olhos e qualquer homem estaria perdido.

Acho que você pode dizer que crescemos como caipiras.

Meu pai era dono de 120 hectares de terra plana e fértil, onde plantava milho para ração e criava gado. Todo mundo chamava o lugar simplesmente de “casa”. Naqueles dias, todas as estradas eram de terra, exceto a Interestadual 80 e a Rota 96 de Nebraska, e uma viagem para a cidade era um acontecimento pelo qual esperávamos com ansiedade durante três dias.

Hoje em dia, sou um dos melhores advogados corporativos autônomos da América, pelo menos é o que me dizem — e tenho de admitir, em nome da honestidade, que acho que têm razão. O presidente de uma grande empresa certa vez me apresentou aos membros da diretoria como seu pistoleiro de aluguel. Uso ternos caros e o couro dos meus sapatos é o melhor. Tenho três assistentes trabalhando em tempo integral e posso dispor de mais uma dúzia, se precisar. Mas, naqueles dias, eu caminhava pela estrada de terra até uma escola que só tinha uma sala, com os livros amarrados num cinto sobre o ombro, e Katrina ia comigo. Às vezes, na primavera, íamos descalços. Isso em dias anteriores à época em que você só conseguiria ser servido numa lanchonete ou comprar numa loja se estivesse calçado.

Mais tarde, minha mãe morreu — Katrina e eu estávamos no ginásio em Columbia City, nessa época — e, dois anos depois, meu pai perdeu as terras e foi trabalhar com venda

de tratores. Foi o fim da família, embora na época não parecesse tão ruim assim. Papai se saiu bem com seu trabalho, comprou uma concessionária e foi sondado para ocupar um cargo de gerência há mais ou menos nove anos.

Ganhei uma bolsa de estudos como jogador de futebol americano na Universidade de Nebraska, e consegui aprender alguma coisa além de como passar a bola dentro do campo.

E Katrina? Mas é sobre ela que quero falar.

O tal incidente no celeiro aconteceu num sábado, no começo de novembro. Para dizer a verdade, não sei dizer ao certo qual foi o

ano, mas Ike1 ainda era presidente.

Mamãe estava num concurso de bolos em Columbia City, e papai tinha ido até a casa de nosso vizinho mais próximo (que ficava a 11 quilômetros de distância) para ajudá-lo a consertar um carro de juntar feno. Devia haver um empregado em casa, mas naquele dia ele não apareceu, e meu pai o despediu menos de um mês depois.

Papai me deixou uma lista de tarefas a cumprir (e havia algumas para Kitty também), e nos disse para não começar a brincar até que todas estivessem terminadas.

Mas isso não levou muito tempo. Estávamos em novembro, e a essa altura do ano já ficara para trás o período em que era preciso dar duro para não ir à falência. Naquele ano, nós nos saímos bem. Mas nem sempre isso acontecia.

Lembro-me com muita clareza daquele dia. O céu estava encoberto, e, embora não fizesse frio, dava para sentir o tempo querendo ficar frio, querendo começar logo com as geadas, a neve e o granizo. Os campos estavam nus. Os animais estavam indolentes e rabugentos. Parecia haver na

casa pequenas correntes de ar que nunca haviam existido ali antes.

Num dia como aquele, o único lugar realmente agradável para se estar era o celeiro. Lá dentro era quente, e reinava um agradável aroma misto de feno e pêlo e estrume, além dos sons misteriosos e dos arrulhos das andorinhas no terceiro andar. Se você dobrasse o pescoço para trás, podia ver a luz branca de novembro penetrando pelas frestas no telhado e tentar soletrar seu nome. Era um jogo que realmente só parecia agradável em dias nublados de outono.

Continuar: parte 3 de 4