Sombras da Noite
As Crianças do Milharal
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Havia uma escada pregada numa viga transversal no terceiro andar, uma escada que descia verticalmente até o chão do celeiro. Estávamos proibidos de subir nela porque era velha e tremia muito. Papai tinha prometido mil vezes a mamãe que iria descer com aquela escada e trocá-la por uma mais forte, mas alguma outra coisa sempre parecia surgir quando havia tempo... ajudar um vizinho com seu carro de juntar feno, por exemplo. E o empregado simplesmente não dava conta do recado.
Se você subisse por aquela escada frouxa — havia exatamente 43 degraus, Kitty e eu os havíamos contado vezes suficientes para saber com certeza —, terminava numa viga que ficava a 23 metros acima do chão coberto de palha do celeiro. Então, se você caminhasse com cuidado sobre a viga por mais ou menos 4 metros, os joelhos tremendo, as juntas dos tornozelos estalando, a boca seca e com gosto de fusível queimado, ficava bem em cima do monte de feno. Então podia saltar da viga e cair verticalmente 23 metros, com um mergulho suicida terrível e hilariante, desabando numa cama fofa de feno macio. Ele tem um cheiro doce, o feno, e você caía em cima daquele cheiro de verão, com seu estômago ainda lá atrás, em pleno
ar, e se sentia... bem, como Lázaro devia ter-se sentido.
Você caíra e sobrevivera para contar a história.
Era um esporte proibido, é claro. Se fôssemos pegos, minha mãe gritaria como louca e meu pai nos daria uma surra de cinto, mesmo já estando crescidos como estávamos. Por causa da escada, e porque se por acaso você perdesse o equilíbrio e despencasse da viga antes de chegar sobre a pilha de feno, seria o seu fim, sobre o piso duro de tábuas de celeiro.
Mas a tentação era simplesmente grande demais. Quando o gato sai... bem, vocês conhecem o ditado.
Aquele dia começou como todos os outros, uma deliciosa sensação de medo misturado com expectativa. Estávamos junto à escada, e nos entreolhávamos. Kitty estava bastante corada, e seus olhos, mais escuros e faiscantes do que nunca.
— Duvido — eu disse.
Kitty de pronto respondeu:
— Quem duvida vai na frente.
Eu de pronto respondi:
— Meninas primeiro.
— Não se for perigoso — ela disse, baixando recatadamente os olhos, como se todo mundo não soubesse que ela era o segundo maior moleque em Hemingford. Mas ela era assim mesmo. E iria, mas não iria primeiro.
— Tudo bem — eu disse. — Lá vou eu.
Eu tinha 10 anos naquela época, e era magro como o capeta, com mais ou menos 45 quilos. Kitty estava com 8
anos, e pesava 10 quilos menos do que eu. A escada sempre agüentara o nosso peso, e pensávamos que sempre agüentaria mais uma vez, filosofia que mete homens e nações em encrenca repetidamente.
Eu podia senti-la naquele dia, começando a vibrar um pouquinho no celeiro empoeirado, à medida que eu subia, cada vez mais alto. Como sempre, mais ou menos na metade do caminho, imaginei o que me aconteceria se eu subitamente me largasse e entregasse a alma a Deus. Mas continuei subindo até conseguir agarrar a viga, içar-me para o alto e olhar lá para baixo.
O rosto de Kitty, voltado para cima a me observar, era um pequeno oval branco.
Com sua camisa quadriculada e desbotada e seus jeans azuis, ela parecia uma boneca.
Ainda mais no alto, acima de mim, nos recantos empoeirados das calhas, as andorinhas arrulhavam suavemente.
Mais uma vez, de acordo com o roteiro:
— Oi, você aí embaixo! — gritei, minha voz flutuando até ela em grãos de farelo.
— Oi, você aí em cima!
Fiquei de pé. Vacilei para trás e para a frente um pouco.
Como sempre, parecia
subitamente haver estranhas correntes de ar que não existiam lá embaixo. Eu podia ouvir meu próprio coração
batendo quando comecei a avançar devagar, os braços abertos para manter o equilíbrio. Uma vez, uma andorinha passara voando rente à minha cabeça durante essa parte da aventura, e ao recuar quase perdi o equilíbrio. Tinha muito medo de que a mesma coisa voltasse a acontecer.
Mas não dessa vez. Por fim estava de pé sobre a segurança do feno. Agora, olhar para baixo não era tão assustador, mas sensual. Houve um momento de expectativa.
Então avancei para o espaço vazio, apertando o nariz para dar mais efeito, e como sempre acontecia, a repentina ação da gravidade, me puxando brutalmente para baixo, me fazendo mergulhar, me deu vontade de gritar: Ah, me desculpe, cometi um erro, deixa eu voltar lá para cima!
Então caí sobre o feno, fui atirado sobre ele como um projétil, seu cheiro doce e empoeirado num turbilhão ao meu redor, enquanto continuava afundando, como se dentro de água pesada, e por fim parando, enterrado no monte. Como sempre, sentia um espirro se formando em meu nariz. E ouvi um ou dois camundongos amedrontados correr em busca de uma parte mais tranqüila do monte de feno. Lembro-me de Kitty me dizer, certa vez, que depois de mergulhar no feno ela se sentia fresca e nova, como um bebê.
Não dei importância àquilo na época — eu em parte sabia o que ela queria dizer, em parte não sabia —, mas, desde que recebi a carta, também penso sobre isso.
Saí do monte de feno, como que nadando dentro dele, até que consegui voltar outra vez para o chão do celeiro. Tinha feno grudado nas calças e nas costas da camisa.
Havia feno nos meus tênis e nos cotovelos. Sementes de feno no cabelo? Pode apostar que sim.
Ela estava na metade da escada a essa altura, as marias-chiquinhas douradas batendo em seus ombros, enquanto ela subia através de um empoeirado facho de luz. Em outros dias, a luz talvez fosse tão brilhante quanto seu cabelo, mas naquele suas marias-chiquinhas não tinham rival — eram de longe a coisa mais colorida que havia lá em cima.
Lembro-me de pensar que não estava gostando do jeito como a escada oscilava para a frente e para trás. Parecia nunca ter estado tão frouxa assim.
Então ela estava sobre a viga, bem lá no alto acima de mim
— agora, eu era o pequenino, meu rosto era o pequeno oval branco voltado para cima, enquanto sua voz flutuava lá para baixo entre os grãos de farelo levantados pela minha queda:
— Oi, aí embaixo!
— Oi, aí em cima!
Ela andou cautelosamente sobre a viga, e meu coração se afrouxou um pouco dentro do peito quando achei que ela já estava sobre a segurança do feno. Era sempre assim, embora ela sempre fosse mais graciosa do que eu... e mais atlética, se não soa estranho demais dizer uma coisa dessas sobre sua irmã caçula.
Ela parou, equilibrada sobre as pontas de seus tênis Keds de cano baixo, as mãos estendidas para a frente. Então mergulhou. Imagine coisas que você não consegue esquecer, coisas que não consegue descrever. Bem, consigo descrever aquele mergulho...
de certo modo. Mas não de modo a fazer com que compreendam como era belo, como era perfeito, uma das poucas coisas na minha vida que parecia completamente
real, completamente verdadeira. Não, não sou capaz de descrevê-lo desse modo. Não tenho a habilidade, nem com minha pena, nem com minha língua.
Por um momento, ela pareceu suspensa no ar, como se sustentada por uma
daquelas misteriosas correntes que só existiam no terceiro andar, uma andorinha brilhante de plumagem dourada, como Nebraska jamais vira antes. Ela era Kitty, minha irmã, os braços estendidos para trás e as costas arqueadas, e como eu a amei naquele instante de tempo! Então ela caiu e mergulhou no feno, sumindo de vista. Uma explosão de farelo e risadinhas se ergueu do buraco feito por ela. Eu me esqueci de quanto a escada parecia sem segurança enquanto ela subia, e quando ela por fim saiu do feno, eu já estava na metade do caminho outra vez.
Tentei imitar o mergulho dela, mas o medo se apoderara de mim, como sempre fazia, e meu mergulho se transformou numa bomba de canhão. Acho que nunca acreditei que o feno estivesse lá da maneira como Kitty acreditava.
Por quanto tempo a brincadeira continuou? Difícil dizer. Mas olhei para cima uns dez ou 12 mergulhos mais tarde e vi que a luz se modificara. Papai e mamãe deviam voltar a qualquer momento, e estávamos todos cobertos de feno... o que equivalia a uma confissão assinada. Concordamos em ir apenas mais uma vez cada um.
Subindo primeiro, senti a escada se movendo sob meu corpo e pude ouvir —
muito de leve — o rangido de pregos velhos soltando-se da madeira. E pela primeira vez fiquei real e intensamente amedrontado. Acho que, se estivesse perto do chão, teria descido e aquilo teria sido o fim da brincadeira, mas a viga
estava mais perto e parecia mais segura. A três degraus do alto, o rangido de pregos se soltando ficou mais alto, e eu subitamente fiquei gelado de terror, com a certeza de que brincara demais com a sorte.
Então a viga cheia de farpas estava em minhas mãos, retirando meu peso da escada, e havia um suor frio e desagradável colando em minha testa os pedaços de feno.
A graça daquela brincadeira se acabara.
Avancei depressa até o ponto que ficava sobre o feno e pulei. Até mesmo a parte prazerosa da queda se acabara.
Ao descer, imaginei qual seria a sensação se fosse o piso duro de madeira vindo ao meu encontro em vez do feno macio.
Desci do monte até o meio do celeiro e vi Kitty subindo rapidamente a escada.
Gritei:
— Ei, desça! Não é seguro!
— Ela vai me agüentar! — Kitty respondeu, confiante. — Sou mais leve do que você!
— Kitty...
Mas não cheguei a terminar. Porque foi nesse instante que a escada cedeu.
Quebrou com um estalo forte de madeira podre e lascada.
Gritei, e Kitty deu um berro. Ela estava mais ou menos no lugar onde eu estava quando me convenci de que brincara demais com a sorte.
O degrau em que ela pisava cedeu, e depois os dois lados da escada se quebraram. Por um instante, a escada embaixo dela, que se soltara completamente, parecia um inseto enorme — um louva-a-deus ou um inseto-escada —
que simplesmente resolvera sair dali.
Então a escada veio abaixo, caindo sobre o chão do celeiro com um estampido surdo que levantou poeira e fez com que as vacas rugissem, assustadas. Uma delas deu um coice na parede da baia.
Kitty deu um grito agudo e estridente.
— Larry! Larry! Me ajude!
Eu sabia o que tinha de ser feito. Vi no mesmo instante.
Estava morrendo de
medo, mas não o suficiente para perder a razão. Ela estava a mais de 20 metros acima de mim, suas pernas vestidas de calças jeans chutando alucinadamente o vazio, e andorinhas arrulhando acima dela. Eu estava realmente com medo. Sabe, até hoje não consigo assistir a um número de acrobacia aérea no circo, nem mesmo na TV. Fico de estômago embrulhado.
Mas eu sabia o que tinha de ser feito.
— Kitty! — berrei para ela. — Tente apenas ficar quieta.
Fique quieta!
Ela me obedeceu no mesmo instante. Parou de espernear e ficou pendurada imóvel na vertical, suas mãozinhas agarradas no último degrau da escada quebrada, como um acrobata cujo trapézio tivesse parado.
Corri até o monte de feno, peguei dois punhados de palha, corri de volta e joguei-os no chão. Voltei. E mais uma vez. E
mais uma vez.
Na verdade, não me lembro do que aconteceu depois disso, exceto que o feno entrou no meu nariz e comecei a espirrar sem conseguir parar. Corria de um lado para outro, formando um monte de palha no lugar onde antes estava o pé da escada. Era um monte bem pequeno. Olhando para ele, e depois olhando para Kitty pendurada tão alto lá em cima, você se lembrava de um daqueles desenhos animados em que o sujeito pula de 100 metros de altura dentro de um copo d’água.
De um lado para outro. De um lado para outro.
— Larry, não vou conseguir segurar por mais muito tempo!
— a voz dela era aguda e desesperada.
— Kitty, tem que conseguir! Tem que conseguir segurar!
De um lado para outro. Feno dentro da minha camisa. De um lado para outro.
O monte de feno estava agora na altura do meu queixo. Mas o monte em que estávamos mergulhando tinha mais de 7
metros de profundidade. Pensei que se ela apenas quebrasse as pernas sairíamos lucrando. E sabia que, se ela de todo não caísse no monte de feno, estaria morta. De um lado para o outro.
— Larry! O degrau! Está quebrando!
Eu podia ouvir o rangido prolongado do degrau cedendo sob o peso dela. Kitty começou a espernear outra vez em pânico, mas, se continuasse a se mexer daquele jeito, com certeza erraria o monte de feno.
— Não — eu gritei. — Não! Pare com isso! Apenas se solte!
Se solte, Kitty! —
porque era tarde demais para pegar mais feno. Tarde demais para qualquer outra coisa que não fosse a esperança cega.
Ela se soltou e caiu no instante em que eu lhe disse para fazê-lo. Caiu verticalmente, como uma faca. Tive a impressão de que ela ia cair para sempre, as marias-chiquinhas douradas na vertical sobre sua cabeça, os olhos fechados, o rosto pálido como porcelana. Ela não gritou.
Suas mãos estavam cruzadas sobre seus lábios, como se ela rezasse.
E atingiu o feno bem no meio. Sumiu de vista dentro dele —
o feno voou para toda parte, como se uma granada tivesse explodido ali — e eu ouvi o baque de seu corpo sobre o piso de madeira. Aquele som, um baque forte, provocou um calafrio terrível em mim. Tinha sido alto, alto demais. Mas eu tinha de ver.
Começando a chorar, atirei-me sobre o monte de feno e abri caminho, jogando para trás a palha em grandes punhados.
Uma perna usando calças jeans veio à luz, depois uma camisa quadriculada... e então o rosto de Kitty. Estava mortalmente pálido, e seus
olhos estavam fechados. Ela estava morta, eu soube disso quando olhei para ela. O
mundo se tornou cinza para mim, de um cinza de novembro. As únicas coisas que possuíam alguma cor eram suas marias-chiquinhas, de um dourado brilhante.
Em seguida, o azul profundo de suas íris, quando ela abriu os olhos.
— Kitty? — minha voz estava rouca, embargada, incrédula.
Minha garganta estava cheia de farelo de feno. — Kitty?
— Larry? — ela perguntou, atordoada. — Estou viva?
Tirei-a de dentro do feno, abracei-a, ela envolveu meu pescoço e também me abraçou.
— Você está viva — eu disse. — Você está viva, você está viva.
Ela quebrara o tornozelo direito, isso havia sido tudo.
Quando o Dr. Pendersen, o clínico-geral de Columbia City, foi até o celeiro com meu pai e eu, ficou olhando para a escuridão lá em cima durante um bom tempo. O último degrau da escada ainda estava pendurado, de viés, preso por um único prego.
Ficou olhando, como eu disse, durante um bom tempo. “Um milagre”, ele disse para o meu pai, e deu um chute desdenhoso no feno que eu colocara ali. Saiu do celeiro em direção ao seu empoeirado DeSoto, e partiu.
Senti a mão de meu pai sobre o ombro.
— Vamos para o depósito de lenha, Larry — ele disse, com a voz muito calma.
— Acredito que você saiba o que vai acontecer por lá.
— Sim, senhor — sussurrei.
— A cada vez que eu te bater, Larry, quero que agradeça a Deus por sua irmã ainda estar viva.
— Sim, senhor.
E fomos. Ele me bateu várias vezes, tantas vezes que tive de comer de pé durante uma semana e com uma almofada na cadeira por duas semanas depois disso. E a cada vez que ele me batia com sua mão grande, vermelha e calejada, eu agradecia a Deus.
Em voz alta, muito alto. Nas duas ou três últimas palmadas, tinha certeza de que Ele me ouvia.
Deixaram que eu fosse vê-la logo antes da hora de dormir.
Havia um tordo do lado de fora da sua janela, lembro-me disso. Seu pé, todo enfaixado, estava apoiado numa tábua.
Ela olhou para mim durante tanto tempo e com tanta ternura que me senti desconfortável. Então ela disse:
— Feno. Você colocou feno.
— Claro que coloquei — eu disse, abruptamente. — O que mais eu poderia fazer? Como a escada estava quebrada, não havia jeito de chegar até lá em cima.
— Eu não sabia o que você estava fazendo — ela disse.
— Devia saber! Estava bem debaixo de você, caramba!
— Eu não tinha coragem de olhar para baixo — ela disse. —
Estava sentindo medo demais. Fiquei com os olhos fechados o tempo todo.
Fitei-a, atônito.
— Você não sabia? Não sabia o que eu estava fazendo?
Ela balançou a cabeça.
— E quando eu disse para se soltar... Você simplesmente obedeceu?
Ela fez que sim.
— Kitty, como você pôde fazer uma coisa dessas?
Ela olhou para mim com aqueles profundos olhos azuis.
— Eu sabia que você devia estar fazendo alguma coisa para dar um jeito — ela disse. — Você é meu irmão mais velho.
Eu sabia que você ia tomar conta de mim.
— Oh, Kitty, você escapou por muito pouco, sabia?
Eu colocara as mãos sobre meu rosto. Ela se sentou e as afastou. Beijou minha face.
— Não — ela disse. — Mas sabia que você estava lá embaixo. Puxa, estou com sono. Vejo você amanhã, Larry.
Vou ter que engessar o pé, o Dr. Pendersen disse.
Ela ficou com o gesso por pouco menos de um mês, e todos os seus colegas de turma assinaram — ela fez com que eu próprio assinasse. E quando tirou o gesso, foi o fim do incidente no celeiro. Meu pai substituiu a escada que levava ao terceiro andar por uma outra, nova e forte, mas eu nunca mais subi até a viga transversal e saltei sobre o monte de feno. Até onde sei, Kitty também não.
Esse foi o fim, mas por um lado não foi. De certo modo, nunca terminou a até nove dias atrás, quando Kitty saltou do alto do prédio de uma companhia de seguros em Los Angeles. Guardo na carteira o recorte do The L. A. Times.
Acho que vou levá-lo comigo sempre, não daquele jeito gostoso com que as pessoas carregam fotografias de quem desejam se lembrar, ou ingressos de um show realmente bom, ou parte de um programa de um jogo da World Series.
Carrego o recorte do modo como se carrega alguma coisa
pesada, porque carregar é o nosso dever. A manchete diz: PROSTITUTA DE LUXO MERGULHA PARA A MORTE.
Nós crescemos. É tudo o que sei, além de fatos que não significam nada. Ela ia estudar administração em Omaha, mas no verão seguinte, ao se formar no ginásio, ganhou um concurso de beleza e se casou com um dos jurados. Parece uma piada suja, não parece? A minha Kitty.
Enquanto eu estava na faculdade de direito, ela se divorciou e me escreveu uma carta comprida, dez páginas ou mais, me contando como havia sido, como fora complicado, e como teria sido melhor se ela pudesse ter tido um filho.
Perguntou-me se eu podia ir vê-la. Mas perder uma semana na faculdade de direito seria como perder um semestre do curso de ciências humanas. Aqueles caras são como galgos.
Se você perde de vista o coelhinho mecânico, ele some para todo o sempre.
Ela se mudou para Los Angeles, e se casou outra vez.
Quando esse casamento acabou, eu já tinha terminado a faculdade de direito. Recebi uma outra carta, mais curta, mais amargurada. Ela nunca ia ficar presa naquele carrossel, ela me disse. Era um armadilha. A única maneira de conseguir apanhar o anel de metal era cair do cavalo e quebrar a cabeça. Se esse era o preço de uma volta grátis, quem ia querer? PS. Pode vir me ver, Larry? Já faz muito tempo.
Respondi à carta dizendo que adoraria ir, mas que não podia. Arranjara emprego numa firma das grandes, e estava lá embaixo na hierarquia; ficava com todo o trabalho e nenhum crédito. Se quisesse subir o próximo degrau, teria de ser naquele ano. Essa foi a minha carta comprida, toda ela falando sobre minha carreira.
Eu respondia a todas as suas cartas. Mas nunca conseguia realmente acreditar que era Kitty a escrevê-las, você sabe, da mesma forma como não conseguia acreditar que o feno estava realmente lá... até que ele interrompesse minha queda no final da linha e salvasse minha vida. Eu não conseguia acreditar que minha irmã e a mulher derrotada que assinava “Kitty” dentro de um círculo no final de suas cartas eram realmente a mesma pessoa. Minha irmã era uma garota de maria-chiquinha, ainda sem seios.
Foi ela quem parou de escrever. Eu recebia cartões de Natal, cartões de aniversário, e minha mulher respondia. Então nós nos divorciamos, e eu me mudei, e simplesmente esqueci. No Natal e no aniversário seguintes, os cartões vieram reencaminhados pelo correio. Na primeira mudança.
Eu continuava pensando: Caramba, tenho que escrever para Kitty e dizer a ela que mudei. Mas nunca escrevi.
Mas como lhes disse, esses são fatos que não significam nada. As únicas coisas que importam são que crescemos juntos e que ela mergulhou do alto daquele edifício, e que Kitty era quem sempre acreditava que o feno estaria lá.
Kitty era quem dissera: “Eu sabia que você devia estar fazendo alguma coisa para dar um jeito.” Essas coisas importam. E a carta de Kitty.
As pessoas se mudam tanto hoje em dia, e é engraçado como aqueles endereços riscados e adesivos de mudança de domicílio assumem, às vezes, o aspecto de acusações.
Ela anotara o endereço do remetente no canto esquerdo superior do envelope, o endereço onde ela estava até pular do edifício. Um prédio muito bom em Van Nuys.
Papai e eu fomos lá apanhar as coisas dela. A senhorita foi simpática. Gostava de Kitty.
A carta fora colocada no correio duas semanas antes de sua morte. Teria chegado às minhas mãos muito antes, se não fossem os seguidos reendereçamentos do correio.
Ela deve ter ficado cansada de esperar.
Querido Larry,
Tenho pensado bastante a respeito ultimamente... e a conclusão a que cheguei é de que teria sido melhor para mim se o último degrau tivesse quebrado antes de você conseguir colocar o feno embaixo.
Sua,
Kitty
Sim, acho que ela deve ter-se cansado de esperar. Prefiro acreditar nisso do que achar que ela concluiu que eu a esquecera. Não gostaria que pensasse isso, porque essa única frase era talvez a única coisa capaz de fazer com que eu tivesse ido correndo.
Mas nem mesmo essa é a razão pela qual pegar no sono se tornou tão difícil agora. Quando fecho os olhos e começo a adormecer, vejo-a caindo do terceiro andar, os olhos grandes e profundamente azuis, o corpo arqueado, os braços jogados para trás.
Ela era quem sempre soube que o feno estaria lá.
1- Dwight Eisenhower (presidente dos EUA entre 1953 e 1961). (N. da T.)
O Homem que Adorava Flores No início de uma noite de maio de 1963, um jovem com a mão no bolso andava com passos rápidos pela Terceira Avenida, em Nova York. O ar estava leve e agradável, o céu escurecia aos poucos passando do azul ao suave e adorável violeta do crepúsculo. Há pessoas que amam a cidade, e essa era uma das noites que justificavam tal amor. Todos os que estavam nas portas das delicatessens e lavanderias e restaurantes pareciam sorrir.
Uma senhora empurrando dois sacos de compras de mercearia num velho carrinho de bebê sorriu para o jovem e o cumprimentou: “Oi, bonitão!” O jovem retribuiu com um meio-sorriso e acenou com a mão.
Ela seguiu seu caminho, pensando: Ele está apaixonado.
Ele tinha esse ar de apaixonado. Ele usava um terno cinza-claro, a gravata ligeiramente afrouxada, o botão do colarinho aberto. Seu cabelo era escuro e curto. Sua tez era clara, e seus olhos, de um azul suave. Não era um rosto extraordinário, mas naquela noite, naquela avenida, em maio de 1963, ele estava bonito, e a velha se descobriu pensando, com um momento de doce nostalgia, que na primavera todos podem ficar bonitos... se estão indo às pressas encontrar a pessoa dos seus sonhos para jantar e talvez dançar em seguida. A primavera é a única estação em que a nostalgia jamais parece se tornar amarga, e ela seguiu seu caminho satisfeita por ter falado com ele e satisfeita por ele ter retribuído seu cumprimento ao erguer a mão, num discreto aceno.
O jovem atravessou a rua 63, caminhando saltitante e com aquele mesmo meio-sorriso nos lábios. Na metade do quarteirão, um velho estava de pé junto a um surrado carrinho de mão verde com flores — a cor predominante era amarelo; uma febre amarela de junquilhos e crocos. O velho
também tinha cravos e algumas rosas-chá de estufa, em sua maioria amarelas e brancas. Comia um pretzel e ouvia um enorme rádio a transistor que se equilibrava no canto de seu carrinho de mão.
O rádio anunciava notícias ruins a que ninguém prestava atenção: um assassino que cometia os crimes com um martelo ainda estava solto; JFK declarara que a situação num pequenino país asiático chamado Vietnã (“Vaite-nam”, era como pronunciava o locutor que anunciava as notícias) merecia ser observada com atenção; uma mulher não identificada tinha sido empurrada para dentro do East River; um tribunal do júri não tinha conseguido indiciar um chefão do crime na luta contra a heroína perpetrada pela atual administração da cidade; os russos tinham explodido uma arma nuclear. Nada daquilo parecia real, nada parecia importar. O ar estava suave e agradável. Dois homens com barriga de cerveja estavam no lado de fora de uma confeitaria, jogando porrinha e trocando provocações. A primavera tremia na beira do verão, e na cidade o verão é a estação dos sonhos.
O jovem passou pelo estande de flores e o som dessas notícias ruins se dissipou.
Ele hesitou, olhou por cima do ombro, e pensou no assunto.
Colocou a mão no bolso do casaco e tocou outra vez no que havia lá dentro. Por um instante, seu rosto pareceu intrigado, solitário, quase assombrado, e então, quando sua mão saiu do bolso, recuperou sua anterior expressão de ansiosa expectativa.
Ele voltou até o estande de flores, sorrindo. Levaria para ela algumas flores, isso a deixaria contente. Adorava ver seus olhos brilharem de surpresa e alegria quando ele lhe comprava uma lembrança — coisas à toa, porque ele estava
longe de ser rico. Uma caixa de bombons. Uma pulseira.
Certa vez, uma sacola de laranjas de Valência, porque sabia que eram as favoritas de Norma.
— Meu jovem amigo — o vendedor de flores disse, quando o homem de terno cinza voltou, correndo os olhos pelo estoque no carrinho de mão. O vendedor tinha talvez 68 anos, e usava um suéter cinzento de tricô bem surrado, e um boné leve, apesar do calor da noite. Seu rosto era um mapa de rugas, seus olhos estavam afundados em bolsas e um cigarro passeava entre seus dedos. Mas ele também se lembrava de como era ser jovem na primavera — jovem e tão apaixonado que você praticamente corria de um lado a outro. A face do vendedor era normalmente azeda, mas agora ele sorria um pouquinho, assim como a velha empurrando as compras havia sorrido, porque aquele sujeito era um caso tão óbvio. Limpou os farelos de pretzel na parte da frente do seu suéter largo e pensou: Se este garoto estivesse doente, iam interná-lo no CTI imediatamente.
— Quanto custam as suas flores? — o jovem perguntou.
— Eu te faço um belo buquê por um dólar. Essas rosas-chá, elas são de estufa.
Custam um pouco mais, 70 centavos cada uma. Posso te vender meia dúzia por 3,50
dólares.
— Caro — o jovem disse.
— Nada do que é bom custa barato, meu jovem amigo. Sua mãe não te ensinou isso?
O jovem sorriu.
— Talvez ela tenha mencionado algo a esse respeito.
— Claro. Claro que mencionou. Eu te dou meia dúzia, duas vermelhas, duas amarelas, duas brancas. Não posso fazer mais do que isso, não é mesmo? Coloco um pouco de cravo-de-amor... elas adoram... e completo com um pouco de samambaia. Fica bonito. Ou você pode ficar com o buquê de um dólar.
— Elas? — o jovem perguntou, ainda sorrindo.
— Meu jovem amigo — o vendedor de flores disse, jogando a ponta do cigarro na sarjeta e retribuindo o sorriso —, ninguém compra flores para si mesmo em maio. É
de lei, entende o que eu quero dizer?
O jovem pensou em Norma, seus olhos alegres e surpresos, seu sorriso doce, e abaixou um pouco a cabeça.
— Acho que sim — ele disse.
— Claro que entende. O que me diz?
— Bem, o que você acha?
— Vou te dizer o que eu acho. Ora! Conselhos ainda são de graça, não são?
O jovem sorriu e disse:
— Acho que hoje em dia só os conselhos são de graça.
— Pode ter certeza disso — o vendedor de flores disse. —
Muito bem, meu
jovem amigo. Se as flores são para sua mãe, você leva o buquê. Alguns junquilhos, alguns crocos, alguns lírios-do-
vale. Ela não vai estragar o presente quando disser “Ó, Júnior, gostei tanto quanto custaram ah mas isso é muito caro você ainda não aprendeu a não ficar gastando seu dinheiro à toa?”.
O jovem jogou a cabeça para trás e riu.
O vendedor disse:
— Mas se é a sua namorada, isso é uma coisa diferente, meu filho, e você sabe.
Se levar para ela as rosas-chá, ela não se transforma num contador, entende que eu quero dizer? Ora! Ela vai jogar os braços em volta do seu pescoço...
— Vou levar as rosas-chá — o jovem disse, e agora foi a vez de o vendedor de flores rir. Os dois homens jogando porrinha olharam na direção deles, sorrindo.
— Ei, garoto! — um deles gritou. — Quer comprar uma aliança barata? Eu te vendo a minha... Não quero mais saber dela.
O jovem riu e corou até a raiz do cabelo escuro.
O vendedor de flores escolheu seis rosas-chá, cortou os talos um pouquinho, borrifou-os com água e os embrulhou num comprido papel em forma de cone.
— O tempo hoje está exatamente como se poderia desejar
— o rádio disse. —
Bom e agradável, temperatura média de 21 graus, perfeito para subir ao terraço e olhar as estrelas, se você é do tipo romântico. Aproveite, Grande Nova York, aproveite!
O vendedor de flores prendeu o papel com fita adesiva e recomendou que o jovem dissesse à sua namorada para colocar um pouco de açúcar na água das flores, para preservá-las por mais tempo.
— Vou dizer a ela — falou o jovem. E entregou-lhe uma nota de cinco dólares.
— Obrigado.
— Só estou fazendo meu trabalho, meu jovem amigo — o vendedor disse, devolvendo-lhe um dólar e duas moedas de 25 centavos. Seu sorriso se tornou um pouco triste. — Dê um beijo nela por mim.
No rádio, os Four Seasons começaram a cantar “Sherry”. O
jovem colocou o troco no bolso e seguiu pela rua, os olhos bem abertos, alertas e ávidos, olhando menos ao seu redor para a vida que fluía para cima e para baixo pela Terceira Avenida e mais para dentro e para adiante, com expectativa. Mas algumas coisas certamente se impunham: uma mãe empurrando um bebê num carrinho, o rosto do bebê comicamente lambuzado de sorvete; uma garotinha pulando corda e cantando, no ritmo: “Betty e Harry em cima de uma árvore, dando um B-E-I-J-O! Primeiro vem o amor, depois aliança, depois lá vem Betty com um bebê na pança!” Duas mulheres estavam do lado de fora de uma lavanderia, fumando e comparando a gravidez de uma à da outra. Um grupo de homens olhava pela vitrine de uma loja de ferragens para uma gigantesca TV em cores, com preço na casa dos milhares — estava passando um jogo de beisebol, e o rosto de todos os jogadores parecia verde. O
campo tinha uma vaga cor de morango, e os New York Mets estavam ganhando dos Phillies por um placar de seis a um no último tempo.
Ele continuou caminhando, levando as flores, sem reparar que as duas mulheres do lado de fora da lavanderia tinham parado de conversar por um momento e ficado a observá-lo com um ar sonhador, enquanto ele passava com seu embrulho de rosas-chá; seus dias de receber flores haviam passado fazia muito tempo. Ele não reparou num jovem guarda de trânsito que parou os carros no cruzamento da Terceira Avenida com a rua 69, apitando para deixá-lo atravessar; o guarda estava noivo e reconheceu a expressão
sonhadora no rosto do jovem lembrando-se de seu espelho, ao fazer a barba, onde via com freqüência uma expressão igual ultimamente. Não reparou nas duas adolescentes que passaram por ele no sentido contrário e se cutucaram e deram risadinhas.
Na rua 73, ele parou e virou à direita. Aquela rua era um pouco mais escura do que as outras, com casas de fachadas de arenito pardo e restaurantes com nomes italianos nos porões. Dois quarteirões mais abaixo, um jogo de beisebol de rua continuava animado à luz do crepúsculo. O jovem não caminhou até tão longe; depois de cruzar mais meio quarteirão, fez a volta e entrou numa travessa estreita.
Agora as estrelas já tinham surgido, reluzindo levemente, e a travessa estava escura e tomada pelas sombras, com os vultos vagos das latas de lixo. O jovem estava sozinho agora — não, não totalmente sozinho. Um grito hesitante se ergueu na penumbra púrpura, e o jovem franziu o cenho.
Era a canção de amor de algum gato, e não havia nada de bonito naquilo.
Ele começou a caminhar mais devagar, e consultou o relógio. Eram 8h15, e Norma devia estar quase...
E então ele a viu, vindo do pátio em sua direção, usando calças azul-escuras e uma blusa de marinheiro que fizeram o coração dele doer. Era sempre uma surpresa vê-la pela primeira vez, era sempre um choque delicioso — ela parecia tão jovem.
Agora o sorriso dele brilhava — irradiava-se, e ele caminhava mais rápido.
— Norma! — ele disse.
Ela levantou os olhos e sorriu... mas, quando se aproximaram um do outro, o sorriso esmaeceu.
Seu próprio sorriso tremeu um pouco, e ele sentiu um momento de inquietude.
O rosto dela acima da blusa de marinheiro subitamente pareceu borrado. Estava escurecendo, agora... será que ele estava enganado? Claro que não. Era Norma.
— Trouxe flores para você — ele disse, feliz e aliviado, e lhe entregou o embrulho.
Ela olhou para as flores por um momento, sorriu — e as devolveu.
— Obrigada, mas você se enganou — ela disse. — Meu nome é...
— Norma — ele sussurrou, e tirou o martelo de cabo curto do bolso do paletó, onde ele estava o tempo todo.
— São para você, Norma... sempre foi para você... tudo para você.
Ela recuou, o rosto uma mancha redonda e pálida, a boca um crescente O de terror, e ela não era Norma, Norma estava morta, estava morta fazia dez anos, e isso não importava porque ela ia gritar, e ele golpeou com o martelo para parar o grito, para matar o grito, e quando golpeou com o martelo, o embrulho de flores caiu de suas mãos, o embrulho se desembrulhou e abriu, derramando rosas-chá vermelhas, brancas e amarelas junto às latas de lixo amassadas onde os gatos faziam um amor estranho no escuro, gritando em meio ao amor, gritando, gritando.
Ele golpeou com o martelo e ela não gritou, mas podia ter gritado porque não era Norma, nenhuma delas era Norma, e ele golpeou com o martelo, golpeou com o martelo, golpeou com o martelo. Ela não era Norma, e então ele golpeou com o martelo, como tinha feito cinco vezes antes.
Sem saber quanto tempo depois, ele deslizou o martelo de volta para dentro do bolso interno do paletó e se afastou da sombra escura estendida sobre as pedras do pavimento, se afastou das rosas amontoadas junto às latas de lixo. Virou-se e saiu da
travessa estreita. Agora era noite fechada. Os jogadores de beisebol haviam entrado. Se houvesse manchas de sangue em seu paletó, não apareceriam, não no escuro, não no escuro daquela suave noite de fim de primavera, e o nome delas não era Norma, mas ele sabia qual era o seu próprio nome. Era... era...
Amor.
Seu próprio nome era amor, e ele caminhava por aquelas ruas escuras porque Norma esperava por ele. E ele a encontraria. Algum dia, em breve.
Começou a sorrir. Seu andar voltou a ser saltitante, enquanto ele descia pela rua 73. Um casal de meia-idade, sentado nos degraus de seu prédio, observou-o passar, a cabeça empinada, os olhos muito distantes, um meio-sorriso nos lábios. Depois que ele passou, a mulher disse:
— Por que é que você nunca mais ficou desse jeito?
— Hã?
— Nada — ela disse, mas ficou observando o jovem de terno cinza desaparecer na escuridão da noite que avançava e pensou que se havia alguma coisa mais bonita do que a primavera, era o amor dos jovens.
A Saideira
Eram 10h15 e Herb Tooklander estava pensando em fechar, quando o homem usando o sobretudo elegante, de rosto pálido e olhos arregalados, irrompeu no Tookey’s Bar, que fica na parte norte de Falmouth. Era dia 10 de janeiro, bem na época em que a maioria das pessoas está aprendendo a viver confortavelmente com todas as promessas de Ano-Novo que não cumpriram, e havia uma tempestade miserável caindo lá fora. Quinze centímetros de neve já tinham se acumulado antes de escurecer, e a tempestade continuava a cair com grande intensidade desde então. Por duas vezes, ele vira Billy Larribee passar lá no alto, na cabine do trator de limpar neve da prefeitura, e da segunda vez Tookey levara para ele uma cerveja — um gesto de pura caridade, minha mãe teria dito, e Deus sabe que ela bebera um bocado da cerveja de Tookey na sua época. Billy lhe disse que estavam conseguindo manter a estrada principal desimpedida, mas as secundárias estavam fechadas e provavelmente continuariam assim até a manhã seguinte. O
rádio em Portland previa mais 30 centímetros de neve e um vento de 65 quilômetros por hora para empilhá-la.
Só havia Tookey e eu no bar, escutando o vento uivar ao redor das calhas e vendo como fazia o fogo dançar na lareira.
— Tome a saideira, Booth — Tookey disse. — Vou fechar o bar.
Serviu uma para mim e uma para si mesmo, e foi então que a porta se abriu de repente, e aquele desconhecido entrou cambaleando, neve até os ombros e no cabelo, como se ele tivesse rolado sobre açúcar de confeiteiro. O vento soprava uma cortina de neve fina como areia atrás dele.
— Feche a porta! — rugiu Tookey. — Você por acaso nasceu num celeiro?
Nunca vi um homem que parecesse tão apavorado. Era como um cavalo que tivesse passado uma tarde comendo urtigas. Seus olhos rolaram na direção de Tookey e ele disse, “Minha mulher... minha filha...” e desabou no chão, desmaiado.
— Minha nossa — disse Tookey. — Quer fechar a porta, Booth, por favor?
Fui até a porta e a fechei, e empurrá-la contra a força do vento deu bastante trabalho. Tookey estava agachado sobre um dos joelhos, segurando a cabeça do sujeito no alto e dando-lhe uns tapas nas bochechas. Fui até lá e vi na mesma hora que a coisa era séria. Seu rosto estava muito vermelho, mas havia manchas cinzentas aqui e ali, e quando você já atravessou os invernos do Maine desde que Woodrow Wilson era presidente, como eu, sabe que essas manchas cinzentas significam enregelamento.
— Desmaiou — Tookey disse. — Quer pegar o conhaque no bar, por favor?
Peguei a bebida e voltei. Tookey tinha aberto o casaco do sujeito. Ele recobrara ligeiramente os sentidos; os olhos estavam semi-abertos e ele murmurava alguma coisa baixa demais para que conseguíssemos entender.
— Encha uma tampa.
— Só uma tampa? — perguntei.
— Esse troço é dinamite — disse Tookey. — Não dá para sobrecarregar o carburador dele.
Enchi a tampa e olhei para Tookey. Ele fez que sim.
— Bem na goela.
Derramei a bebida. Foi uma coisa notável de se assistir. O
homem tremeu da cabeça aos pés e começou a tossir. Seu rosto ficou mais vermelho. Suas pálpebras, que estavam a meio mastro, saltaram para o alto como persianas de uma janela. Ele estava um pouco alarmado, mas Tookey apenas fez com que sentasse como se fosse um bebezão e deu-lhe um tapinha nas costas.
O homem começou a ter ânsias de vômito, e Tookey lhe deu outro tapa.
— Agüente firme — ele disse —, esse conhaque é caro.
O homem tossiu mais um pouco, mas agora já estava diminuindo. Dei a primeira boa olhada nele. Um cara da cidade, com certeza, e de algum lugar no sul de Boston, pelo meu palpite. Usava luvas de pelica, caras mas finas.
Havia provavelmente outras daquelas manchas de um branco acinzentado em suas mãos, e ele teria sorte se não perdesse um ou dois dedos. Seu casaco era bem elegante; um casaco de 300 dólares, se eu já vira um na minha frente.
Ele usava botinhas curtas que mal chegavam aos seus tornozelos, e comecei a imaginar em que estado se achariam os dedos dos seus pés.
— Melhor — ele disse.
— Muito bem — Tookey disse. — Você consegue vir até a lareira?
— Minha mulher e minha filha — ele disse. — Elas estão lá fora... na tempestade.
— Pelo jeito como você entrou, não imaginei que elas estivessem em casa vendo TV — Tookey disse. — Você pode contar tudo junto da lareira tão bem quanto aqui no chão.
Ajude aqui, Booth.
Ele ficou de pé, mas um pequeno gemido escapou de sua boca, que se contorceu de dor. Mais uma vez me perguntei sobre como estariam seus pés, e me perguntei por que Deus achava certo criar idiotas de Nova York que tentavam dirigir pelo sul do Maine no meio de uma nevasca forte. E
me perguntei se sua mulher e sua filhinha estariam vestidas com roupas mais quentes do que as dele.
Levamos o sujeito até a lareira e fizemos com que se sentasse numa cadeira de balanço que era a favorita da Sra. Tookey, até ela falecer, em 74. Sra. Tookey era a responsável pela maior parte dos negócios naquele lugar que fora citado no Down East e no Sunday Telegram e até mesmo uma vez no suplemento de domingo do Globe de Boston. Era na verdade mais uma taberna do que um bar, com seu amplo piso de tábuas corridas, presas com cavilhas em vez de pregos, o bar de madeira de bordo, o antigo teto de vigas aparentes, e a monstruosa lareira de pedra. Sra.
Tookey começou a meter algumas idéias na cabeça depois que foi publicado o artigo do Down East, quis chamar o local de Estalagem do Tookey ou Pousada do Tookey, e admito que há um toque colonial aqui, mas prefiro simplesmente Tookey’s Bar. Uma coisa é ser pedante no verão, quando o estado está cheio de turistas, e outra coisa totalmente diferente no inverno, quando você e seus vizinhos têm que conviver entre si. E muitas haviam sido as noites de inverno, como aquela, que Tookey e eu passamos juntos, completamente sozinhos, bebendo scotch com água ou apenas umas cervejas. A minha Victoria faleceu em 1973, e o Tookey’s era um lugar onde havia vozes suficientes para não ouvir os passos da aproximação da morte — mesmo se só houvesse Tookey e eu, era suficiente.
Eu não teria a mesma sensação se o nome fosse Pousada do Tookey. Parece maluquice, mas é verdade.
Colocamos esse sujeito em frente à lareira, e ele começou a tremer mais do que nunca. Abraçava os joelhos e seus dentes chacoalhavam e algumas gotas de muco transparente escorriam de seu nariz. Acho que começava a se dar conta de que mais 15
minutos lá fora teriam sido suficientes para matá-lo. Não é pela neve, é pelo vento gelado.
Ele rouba o calor de seu corpo.
— Em que lugar você saiu da estrada? — Tookey lhe perguntou.
— D-dez quilômetros ao s-sul d-daqui — ele disse.
Tookey e eu nos entreolhamos, e de repente senti frio. Frio pelo corpo todo.
— Tem certeza? — Tookey perguntou. — Você veio andando por 10 quilômetros na neve?
Ele fez que sim.
— Verifiquei o odômetro quando atravessamos a cidade.
Estava seguindo instruções... indo visitar a irmã da minha mulher... em Cumberland... nunca estive lá antes... somos de Nova Jersey...
Nova Jersey. Se existe alguma coisa mais completamente idiota do que um cara de Nova York é um cara de Nova Jersey.
— Dez quilômetros, tem certeza? — Tookey perguntou.
— Certeza absoluta. Encontrei a rampa de saída, mas ela estava obstruída...
estava...
Tookey o agarrou. Sob a luz trêmula do fogo, seu rosto parecia pálido e tenso, uns dez anos mais velho do que os 66 que ele realmente tinha.
— Você virou à direita?
— Isso mesmo, à direita. Minha mulher...
— Viu uma placa?
— Placa? — ele olhou desconcertado para Tookey e enxugou o nariz. — Claro que vi. Estava nas minhas instruções. Siga
pela Jointner Avenue, passando por Jerusalem’s Lot até a rampa de acesso 295 — ele olhou de Tookey para mim e outra vez para Tookey. Lá fora, o vento assobiava, e uivava e gemia nas calhas. — Não era isso, senhor?
— Lot — Tookey disse, quase baixo demais para se ouvir. —
Oh, meu Deus.
— Qual o problema? — o homem disse. Sua voz se elevava.
— Não era isso?
Quer dizer, a estrada parecia obstruída pela neve, mas eu pensei... se há uma cidade por lá, os tratores estarão trabalhando e... e então eu...
Ele simplesmente deixou a frase morrer no ar.
— Booth — Tookey me disse, em voz baixa. — Vá até o telefone. Ligue para o xerife.
— Claro — disse o idiota de Nova Jersey — isso mesmo. O
que há de errado com vocês, afinal? Parece que viram um fantasma.
Tookey disse:
— Não há fantasmas em Lot, meu senhor. Disse a elas que ficassem no carro?
— Claro que sim — ele disse, parecendo ofendido. — Não sou maluco.
Bem, isso não se podia provar, na minha opinião.
— Qual seu nome? — perguntei. — Para o xerife.
— Lumley — ele disse. — Gerard Lumley.
Ele voltou a conversar com Tookey, e cruzei o bar até o telefone. Tirei-o do gancho e tudo o que ouvi foi um silêncio mortal. Bati algumas vezes no gancho. Nada.
Voltei. Tookey tinha servido mais um trago de conhaque a Gerard Lumley, e essa dose já descia bem mais suavemente pela sua garganta.
— Ele não estava? — Tookey perguntou.
— O telefone está mudo.
— Diabo — Tookey disse, e nos entreolhamos. Lá fora, o vento soprava em rajadas, jogando neve contra as janelas.
Lumley olhou de Tookey para mim e para ele outra vez.
— Bem, nenhum de vocês dois têm um carro? — ele perguntou. A ansiedade voltara à sua voz. — Elas têm que ficar com o motor ligado para a calefação funcionar.
Eu só tinha mais ou menos um quarto de tanque, e levei uma hora e meia para... Ouçam, será que podem me responder? — ele se levantou e agarrou a camisa de Tookey.
— Meu senhor — Tookey disse —, acho que suas mãos não estão mais obedecendo ao seu cérebro.
Lumley olhou para a própria mão, para Tookey, depois largou-o.
— Maine — ele disse. Pelo tom, parecia estar xingando a mãe de alguém. —
Muito bem — ele disse. — Onde fica o posto de gasolina mais próximo? Eles devem ter um reboque...
— O posto de gasolina mais próximo fica no centro de Falmouth — eu disse. —
A 5 quilômetros daqui, descendo pela estrada.
— Obrigado — ele disse, com um certo sarcasmo, e dirigiu-se para a porta, abotoando o sobretudo.
— Mas não vai estar aberto — acrescentei.
Ele se virou devagar e nos fitou.
— Do que é que está falando, velhote?
— Ele está tentando dizer que o posto no centro pertence a Billy Larribee, e Billy está lá fora dirigindo o trator para retirar a neve, seu tolo — Tookey disse, pacientemente. —
Agora por que não volta para cá e se senta, antes que tenha um troço?
Ele voltou, parecendo aturdido e assustado.
— Estão me dizendo que não podem... que não existe...?
— Não estou lhe dizendo nada — Tookey falou. — O senhor é que está dizendo coisas sozinho. E se parar por um instante, talvez a gente consiga pensar no assunto.
— Que cidade é essa, Jerusalem’s Lot? — ele perguntou. —
Por que a estrada estava obstruída? E não havia luzes acesas em parte alguma?
Eu disse:
— Jerusalem’s Lot foi destruída por um incêndio há dois anos.
— E nunca a reconstruíram? — ele não dava a impressão de acreditar.
— Parece que não — eu disse, e olhei para Tookey. — O que vamos fazer?
— Não podemos deixá-las lá fora — ele disse.
Eu me aproximei dele. Lumley se afastara para olhar pela janela, para a noite tomada pela neve.
— E se elas foram apanhadas? — perguntei.
— Pode ser — ele disse. — Mas não sabemos com certeza.
Minha Bíblia está na prateleira. Você ainda está usando a medalha do papa?
Tirei o crucifixo de dentro da minha camisa e o mostrei a ele. Nasci e fui criado como evangélico, mas a maioria das pessoas que vivem perto de Lot usam alguma coisa
— crucifixo, medalha de São Cristóvão, rosário, alguma coisa. Porque há dois anos, no espaço de um sombrio mês de outubro, Lot se tornou má. Às vezes, tarde da noite, quando só havia uns poucos fregueses assíduos junto à lareira de Tookey, as pessoas conversavam sobre o assunto.
Conversavam acerca do assunto, parece mais certo dizer.
Veja, as pessoas em Lot começaram a desaparecer. Primeiro algumas, depois outras, e depois uma grande quantidade.
As escolas fecharam. A cidade ficou vazia durante quase um ano. Oh, algumas pessoas se mudaram para lá — em sua maioria, completos idiotas de fora do estado, como aquele belo espécime ali — atraídos pelos baixos preços das propriedades, suponho. Mas não duraram. Uma boa parte se mudou de lá passados um mês ou dois. As outras... bem, desapareceram. Então a cidade pegou fogo até não sobrar
nada. Foi no fim de um longo e seco outono. Imaginam que o incêndio tenha começado junto à Marsten House, na colina que se erguia ao lado da Jointner Avenue, mas ninguém sabe como começou, até o dia de hoje. A cidade queimou descontroladamente durante três dias. Depois disso, por algum tempo, as coisas melhoraram. E então recomeçaram.
Só ouvi mencionarem uma vez a palavra “vampiro”. Richie Messina, um motorista doido de caminhão madeireiro, vindo de Freeport, estava no Tookey’s aquela noite, e bebera um bocado.
— Jesus Cristo — rugiu aquele brutamontes que de pé parecia ter quase três metros de altura, com suas calças de lã e sua camisa quadriculada e suas botas de couro.
— Vocês têm tanto medo assim de dizer? Vampiros! É no que todos estão pensando, não é? Credo em cruz, santo nome de Jesus! Exatamente como criancinhas assustadas no cinema! Sabem o que é que existe lá em ’Salem’s Lot?
Querem que eu lhes diga? Querem que eu lhes diga?
— Diga logo, Richie — Tookey falou. O bar estava agora no maior silêncio.
Você podia ouvir a lareira estalando, e lá fora a chuva suave de novembro que caía na escuridão. — O palco é seu.
— O que existe por lá é basicamente uma matilha de cães selvagens — Richie Messina disse. — É isso o que existe.
Isso e um monte de velhinhas que adoram uma história de terror. Ora bolas, por 80 pratas vou até lá e passo a noite no que restou daquela casa assombrada que mete tanto medo em vocês. O que me dizem? Alguém aposta?
Mas ninguém apostou. Richie era um fanfarrão, e ficava agressivo quando bebia, e ninguém ia derramar lágrimas quando ele se fosse, mas nenhum de nós desejava vê-lo ir para ’Salem’s Lot depois do escurecer.
— Que todos vocês se danem — Richie disse. — Tenho minha espingarda na mala do meu Chevy, e ela é capaz de deter qualquer coisa em Falmouth, Cumberland e Jerusalem’s Lot. E é para lá que eu vou.
Ele saiu batendo a porta do bar e ninguém disse uma única palavra por algum tempo. Então, Lamont Henry falou, em voz muito baixa:
— Essa é a última vez que Richie Messina foi visto. Meu Deus — e Lamont, educado para ser metodista desde o colo da mãe, fez o sinal-da-cruz.
— Ele vai ficar mais sóbrio e mudar de idéia — Tookey disse, mas parecia inquieto. — Vai voltar quando estivermos fechando e dizer que foi tudo uma brincadeira.
Mas Lamont estava certo daquela vez, porque ninguém jamais voltou a ver Richie.
Sua mulher disse à polícia estadual que pensava que ele tinha ido para a Flórida, fugindo dos credores, mas você podia ver a verdade em seus olhos — olhos doentes de medo.
Não muito tempo depois, ela se mudou para Rhode Island.
Talvez pensasse que Richie iria atrás dela, em alguma noite escura. E não sou eu que vou dizer que ele não iria.
Agora, Tookey olhava para mim e eu olhava para Tookey, enquanto enfiava o crucifixo outra vez dentro da camisa.
Nunca me senti tão velho ou tão apavorado em minha vida.
Tookey repetiu:
— Nós não podemos simplesmente deixá-las lá fora, Booth.
— É. Eu sei.
Nós nos entreolhamos por mais um momento, e então ele estendeu o braço e segurou o meu ombro.
— Você é um bom homem, Booth.
Isso foi o suficiente para me animar um pouco. Parece que depois que você passa dos 70 as pessoas começam a se esquecer de que é um homem, ou de que algum dia tenha sido.
Tookey foi até Lumley e disse:
— Eu tenho um Scout com tração nas quatro rodas. Vou buscá-lo.
— Pelo amor de Deus, homem, por que não disse antes? —
ele se voltou bruscamente da janela, e olhava para Tookey com raiva. — Por que teve de passar dez minutos fazendo rodeios?
Tookey disse, com muita calma:
— Meu senhor, por favor, feche essa boca. E se por acaso tiver muita vontade de abri-la, lembre-se de quem entrou naquela estrada obstruída no meio da maldita nevasca.
Ele começou a dizer alguma coisa, e depois se calou. Sua face agora estava rosada. Tookey saiu para tirar o Scout da garagem. Tateei embaixo do balcão, à procura de sua garrafa de bolso, e a enchi de conhaque. Achei que poderíamos precisar, antes do fim da noite.