Sombras da Noite
As Crianças do Milharal
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Uma nevasca no Maine — você por acaso já esteve em alguma?
A neve cai tão densa e fina que mais parece areia, e o som também lembra areia quando a neve bate nas laterais do seu carro ou da sua picape. Não se pode usar farol alto, porque reflete na neve e você não consegue ver 3 metros à sua frente. Com o farol baixo, talvez dê para ver uns 5
metros. Mas a neve não me incomoda tanto assim. É do vento que eu não gosto, quando ele aumenta e começa a uivar, soprando a neve numa centena de formas voadoras estranhas, com aquele som que parece concentrar todo o ódio, a dor e o medo do mundo. Há morte na garganta do vento durante a nevasca, morte branca — e talvez alguma coisa além da morte. Não é um som bom de se ouvir quando você está no conforto da sua cama, dentro das cobertas, com os ferrolhos passados nas janelas e as portas trancadas. Mas é muito pior se está dirigindo. E nós íamos dirigir diretamente para ’Salem’s Lot.
— Será que vocês não podem ir um pouco mais depressa?
— Lumley perguntou.
Eu disse:
— Para um homem que chegou quase congelado, você está com uma pressa danada de acabar a pé outra vez.
Ele me lançou um olhar ressentido e confuso, e não disse mais nada. Seguíamos pela auto-estrada com uma velocidade constante de 40 quilômetros por hora. Era difícil acreditar que Billy Larribee acabara de limpar aquele trecho uma hora antes; outros 5
centímetros de neve já o cobriam, e mais se acumulava. As rajadas mais fortes de vento faziam o Scout oscilar sobre suas molas. Os faróis dianteiros mostravam um nada branco
e rodopiante à nossa frente. Não tínhamos cruzado com um só carro.
Cerca de dez minutos mais tarde, Lumpley disse, ofegando:
— Ei! O que é aquilo?
Ele apontava para o meu lado do carro; até então, eu estava olhando fixamente para a frente. Virei-me, mas era tarde demais. Acreditei ver um vulto curvado afastando-se do carro, lá atrás, no meio da neve, mas poderia ter sido minha imaginação.
— O que era aquilo? Um cervo? — perguntei.
— Acho que sim — ele respondeu, a voz trêmula. — Mas seus olhos... pareciam vermelhos — ele me fitou. — Os olhos dos cervos ficam assim, à noite? — ele parecia quase suplicante.
— Podem ficar de qualquer jeito — eu disse, pensando que isso talvez fosse verdade, mas já tinha visto um bocado de cervos à noite, de dentro de um bocado de carros, e jamais vira um par de olhos reluzindo vermelhos com o reflexo dos faróis.
Tookey não disse nada.
Cerca de 15 minutos mais tarde, chegamos ao lugar onde o monte de neve à direita da estrada não era tão alto, porque os tratores precisam erguer suas lâminas um pouco quando passam por um cruzamento.
— Parece ser este o lugar em que entramos — Lumley disse, mas seu tom de voz não estava muito seguro. — Não estou vendo a placa...
— É aqui mesmo — Tookey disse. A voz não parecia em absoluto a sua. — Só dá para ver o alto do poste.
— Oh. Claro — Lumley parecia aliviado. — Ouça, Sr.
Tooklander, peço desculpas por ter perdido a calma agora há pouco. Estava com frio e preocupado e xingando a mim de duzentas formas diferentes. E quero agradecer a vocês dois...
— Não agradeça a Booth e a mim enquanto as duas não estiverem aqui dentro do carro — Tookey disse.
Engrenou a tração nas quatro rodas e abriu caminho em meio a um monte de neve até a Jointner Avenue, que atravessa Lot e vai dar na 295. A neve jorrava dos pára-lamas. As rodas traseiras começaram a derrapar um pouco, mas Tookey dirigia pela neve desde o tempo do onça. Ele manobrou com perícia, falou com o carro, e lá fomos nós em frente. Os faróis dianteiros iluminavam as fracas marcas deixadas por outros pneus de tempos em tempos, as marcas feitas pelo carro de Lumley, que então desapareciam outra vez. Lumley estava inclinado para a frente, procurando seu carro. E de repente, Tookey disse:
— Sr. Lumley?
— O que foi? — ele voltou os olhos para Tookey.
— As pessoas por aqui são um pouco supersticiosas a respeito de ’Salem’s Lot
— Tookey disse, parecendo bastante calmo, mas eu podia ver os profundos sulcos de tensão em volta da sua boca, e a maneira como seus olhos não paravam de saltar de um lado para o outro. — Se sua família estiver no carro, será ótimo. Vamos pegá-las, voltar para minha casa, e amanhã,
quando a tempestade passar, Billy ficará feliz em rebocar o seu carro para fora da neve. Mas se elas não estiverem no carro...
— Se não estiverem no carro? — Lumley interrompeu, bruscamente. — Por que elas não estariam no carro?
— Se elas não estiverem no carro — Tookey prosseguiu, sem responder —, vamos fazer meia-volta e ir para o centro de Falmouth procurar o xerife. De qualquer modo, não faz sentido ficar perambulando por aí à noite, no meio de uma tempestade de neve, não é mesmo?
— Elas vão estar no carro. Onde mais poderiam estar?
Eu disse:
— Uma outra coisa, Sr. Lumley. Se virmos alguém, não vamos falar com essa pessoa. Nem mesmo que fale conosco. Entendeu?
Bem devagar, Lumley perguntou:
— O que são essas superstições exatamente?
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa — só Deus sabe o que teria dito —
Tookey interrompeu.
— Chegamos.
Fomos nos aproximando da traseira de uma grande Mercedes. Todo o capô estava enterrado na neve, e um outro monte cobria por completo a lateral esquerda do carro. Mas as luzes traseiras estavam acesas e podíamos ver a fumaça saindo do cano de descarga.
— Seja como for, não ficaram sem gasolina — Lumley disse.
Tookey parou e puxou o freio de mão do Scout.
— Lembre-se do que Booth disse, Lumley.
— Claro, claro — mas ele não pensava em outra coisa que não fosse sua mulher e sua filha. E não vejo como alguém possa culpá-lo.
— Pronto, Booth? — Tookey me perguntou. Seus olhos estavam fixos nos meus, sombrios e cinzentos sob a luz do painel.
— Acho que estou — eu disse.
Saímos todos do carro, e o vento nos agarrou, jogando neve em nossos rostos.
Lumley ia na frente, dobrado contra o vento, o sobretudo elegante esvoaçando atrás dele como a vela de um barco.
Projetava duas sombras, uma criada pelos faróis de Tookey, a outra pelas lanternas traseiras de seu próprio carro. Eu vinha em seguida, e Tookey estava a um passo atrás de mim. Quando cheguei ao porta-malas da Mercedes, Tookey me agarrou.
— Deixe ele ir — disse.
— Janey! Francie! — Lumley gritava. — Está tudo bem? —
ele abriu a porta do motorista e se inclinou para dentro do carro. — Está tudo...
Parou, petrificado. O vento arrancou a pesada porta de suas mãos e a escancarou para trás.
— Meu Deus do céu, Booth — Tookey disse, um tom abaixo do grito do vento.
— Acho que aconteceu de novo.
Lumley se virou para nós. Seu rosto estava assustado e perplexo, seus olhos arregalados. Subitamente, atirou-se contra nós em meio à neve, escorregando e quase caindo.
Empurrou-me para o lado como se eu não existisse e agarrou Tookey.
— Como você sabia? — ele rugiu. — Onde elas estão? O que diabos está acontecendo aqui?
Tookey se livrou dele e o afastou para o lado, avançando.
Ele e eu olhamos juntos para o interior da Mercedes. Estava quente como pão fresco, mas não continuaria daquele jeito por muito tempo. A luz âmbar que indicava o tanque na reserva estava acesa. O carrão estava vazio. Havia uma boneca Barbie no tapete do assento do carona. E uma parca infantil de esqui jogada no assento traseiro.
Tookey cobriu o rosto com as mãos... e então desapareceu.
Lumley o agarrara e o jogara sobre o monte de neve. Seu rosto estava pálido e desvairado. Sua boca se contorcia como se ele tivesse mastigado alguma coisa muito amarga que ainda se agarrava aos seus dentes e ele não conseguia cuspir. Enfiou o braço no interior do carro e apanhou a parca.
— O casaco de Francie? — ele disse, numa espécie de sussurro. E depois repetiu, aos brados: — O casaco de Francie! — ele se virou, segurando-o na frente do corpo pelo pequenino capuz com borda de pele e olhou para mim, perplexo e incrédulo.
— Ela não pode ficar aqui fora sem o casaco, Sr. Booth.
Ela... ela... vai morrer congelada.
— Sr. Lumley...
Ele passou por mim, andando às cegas e ainda segurando a parca. Gritava:
— Francie! Janey! Onde estão vocês? Onde estão vocêêês?
Dei a mão a Tookey e o ajudei a se levantar.
— Você está...
— Não se importe comigo — ele disse. — Temos que pegá-lo, Booth.
Saímos atrás dele o mais rápido que conseguimos, o que não era muito rápido, com a neve chegando aos nossos quadris em alguns lugares. Mas então ele parou e conseguimos alcançá-lo.
— Sr. Lumley... — Tookey começou a dizer, colocando a mão em seu ombro.
— Por aqui — Lumley disse. — Elas vieram por aqui. Olhem!
Olhamos para o chão. Havia uma espécie de depressão ali, e a maior parte do vento passava por cima de nossas cabeças. E você podia ver dois pares de pegadas, um grande e o outro pequeno, que começavam a ser cobertos pela neve. Se tivéssemos chegado cinco minutos depois, teriam desaparecido.
Ele começou a avançar, a cabeça baixa, e Tookey o segurou.
— Não! Não, Lumley!
Lumley virou o rosto enlouquecido para Tookey e cerrou o punho. Ergueu o braço... mas alguma coisa no rosto de Tookey o fez hesitar. Olhou de Tookey para mim, e depois para ele outra vez.
— Ela vai congelar — ele disse, como se fôssemos dois garotinhos idiotas. —
Não estão entendendo? Está sem o casaco, e só tem 7 anos de idade...
— Elas podem estar em qualquer lugar — Tookey disse. —
Não há como seguir essas pegadas. Vão desaparecer assim que o vento soprar um pouco mais de neve.
— E o que você sugere? — Lumley berrou, a voz aguda e histérica. — Se voltarmos para chamar a polícia, ela vai morrer congelada! Francie e a minha mulher!
— Pode ser que já estejam congeladas — Tookey disse. Seus olhos encontraram os de Lumley. — Congeladas, ou algo pior do que isso.
— O que você quer dizer? — Lumley sussurrou. — Fale logo, diabo! Me diga!
— Sr. Lumley — Tookey disse —, há alguma coisa em Lot...
Mas fui eu quem finalmente concluiu a frase, dizendo a palavra que nunca achei que fosse dizer.
— Vampiros, Sr. Lumley. Jerusalem’s Lot está cheia de vampiros. Imagino que seja difícil engolir isso...
Ele me olhava como se eu tivesse ficado verde.
— Malucos — sussurrou. — Vocês são dois malucos.
Então se virou, colocou as mãos em concha em volta da boca e gritou:
— FRANCIE! JANEY!
Começou a avançar às cegas outra vez. A neve chegava à bainha do seu elegante sobretudo.
Olhei para Tookey.
— O que fazemos agora?
— Vamos atrás dele — Tookey disse. Seu cabelo estava empapado de neve, e ele parecia mesmo um tanto louco. —
Simplesmente não sou capaz de abandoná-lo aqui, Booth.
Você é?
— Não — eu disse. — Acho que não.
Então começamos a avançar em meio à neve atrás de Lumley da melhor forma possível. Mas ele ficava cada vez mais distante à nossa frente. Tinha a juventude ao seu lado, compreende? Estava apagando as pegadas, avançando por aquela neve como um touro. Minha artrite começou a me incomodar de maneira terrível, e comecei a olhar para minhas próprias pernas, dizendo a mim mesmo: Um pouquinho mais, só um pouquinho mais, continuem andando, diabos, continuem andando...
Esbarrei em Tookey, que estava de pé, com as pernas abertas, sobre um monte de neve. Sua cabeça estava baixa e as duas mãos comprimidas contra o peito.
— Tookey — perguntei —, você está bem?
— Estou bem — ele disse, afastando as mãos. — Vamos ficar junto dele, Booth, e quando se cansar ele vai ouvir a
voz da razão.
Chegamos ao alto de uma elevação e lá estava Lumley, na parte de baixo, procurando desesperadamente mais pegadas. Pobre homem, não havia a mínima chance de encontrá-las. O vento soprava diretamente na direção do lugar em que ele estava, e qualquer pegada teria sido apagada três minutos depois de ser feita, quanto mais em duas horas.
Ele ergueu a cabeça e gritou para a noite:
— FRANCIE! JANEY! PELO AMOR DE DEUS!
E você podia ouvir o desespero em sua voz, o terror, e sentia pena dele por isso.
A única resposta que teve foi o lamento do vento, semelhante a um trem de carga. Quase parecia estar rindo dele, dizendo: Eu as levei, Senhor Nova Jersey, junto com seu carro elegante e seu sobretudo de pêlo de camelo.
Levei as duas e apaguei suas pegadas e pela manhã elas estarão tão lindas e congeladas quanto dois morangos no freezer...
— Lumley! — Tookey gritou, mais alto do que o vento. —
Ouça, deixe para lá os vampiros, as assombrações ou coisas desse tipo, mas ouça o que eu estou dizendo!
Está tornando as coisas piores para elas! Temos que ir chamar...
E então houve uma resposta, uma voz saindo da escuridão como sininhos de prata, e meu coração ficou tão frio quanto gelo numa cisterna.
— Jerry... Jerry, é você?
Lumley virou-se na direção do som. E então ela veio, flutuando para fora das sombras de um pequeno bosque como um fantasma. Era uma mulher da cidade, com certeza, e naquele momento me pareceu a mulher mais bonita que eu jamais tinha visto.
Senti vontade de chegar perto dela e lhe dizer como estava feliz por ela estar bem, afinal de contas. Ela usava um pesado pulôver verde, ou uma coisa desse tipo, um poncho, acho que é assim que se chama. Ele flutuava ao seu redor, e seu cabelo escuro esvoaçava no vento tempestuoso como as águas de um riacho em dezembro, logo antes de o frio do inverno o imobilizasse e trancasse dentro de seu curso.
Talvez tenha mesmo dado um passo em sua direção, porque senti a mão de Tookey em meu ombro, áspera e quente. E
ainda assim — como posso dizer? — eu ansiava por ela, tão escura e bonita com aquele poncho verde flutuando em volta de seu pescoço e de seus ombros, tão exótica e estranha a ponto de fazer você pensar em alguma beldade de um poema de Walter de la Mare.
— Janey! — Lumley gritou. — Janey! — ele começou a cambalear em meio à neve na direção dela, os braços estendidos.
— Não! — Tookey gritou. — Não, Lumley!
Ele sequer olhou... mas ela, sim. Olhou para cima, em nossa direção, e sorriu. E
quando fez isso, senti meu anseio e meu desejo se transformarem num horror tão frio quanto um túmulo, tão branco e silencioso quanto ossos numa mortalha. Mesmo no alto da elevação, podíamos ver o brilho vermelho sinistro daqueles olhos. Eram menos humanos do que os olhos de um lobo. E quando ela riu, você podia ver como seus dentes
tinham-se tornado longos. Ela não era mais humana. Era algo morto que de algum modo voltara à vida em meio àquela tempestade negra e uivante.
Tookey fez o sinal-da-cruz para ela. Ela se encolheu... e então riu para nós outra vez. Estávamos longe demais, e talvez amedrontados demais.
— Faça-o parar! — sussurrei. — Não podemos impedir?
— Tarde demais, Booth! — Tookey disse, sombrio.
Lumley a alcançou. Parecia ele próprio um fantasma, envolvido pela neve como estava. Estendeu os braços para ela... e então começou a gritar. Continuo ouvindo aquele som em meus sonhos, aquele homem gritando como uma criança no meio de um pesadelo. Tentou se afastar dela, mas seus braços, longos e nus e brancos como a neve, moveram-se como cobras e o puxaram para si. Pude vê-la erguer a cabeça e então lançá-la para a frente...
— Booth! — Tookey disse, a voz rouca. — Temos que sair daqui!
Então corremos. Acho que alguns diriam que corremos feito ratos, mas quem dissesse isso não estivera lá naquela noite.
Voltamos correndo sobre nossa própria trilha, caindo, levantando de novo, escorregando e deslizando. Eu não parava de olhar por cima do ombro, para ver se aquela mulher nos seguia, sorrindo aquele seu sorriso e olhando para nós com aqueles olhos vermelhos.
Voltamos para o Scout e Tookey se dobrou no meio, apertando o peito.
— Tookey — eu disse, completamente apavorado. — O
que...
— O coração — ele disse. — Tem estado ruim há cinco anos ou mais. Me coloque no assento do carona, Booth, e vamos dar o fora daqui.
Enfiei um braço por baixo de seu casaco, arrastei-o até o outro lado do carro, e dei um jeito de levantá-lo e colocá-lo sentado lá dentro. Ele inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. Sua pele parecia de cera, e estava amarelada.
Contornei o carro às pressas, e quase dei um encontrão na garotinha. Ela estava simplesmente ali, ao lado da porta do motorista, o cabelo preso em marias-chiquinhas, usando apenas um vestidinho amarelo.
— Tio — ela disse, numa voz aguda e clara e doce como a névoa da manhã —, será que não pode me ajudar a encontrar minha mãe? Ela sumiu e eu estou com tanto frio...
— Meu bem — eu disse —, meu bem, é melhor você entrar na picape. Sua mãe...
Parei de falar e, se em algum momento da minha vida estive perto de desmaiar, foi esse. Ela estava ali, entende, mas estava sobre a neve, não havia pegadas, em nenhuma direção.
Ela então levantou os olhos para mim, Francie, a filha de Lumley. Não tinha mais do que 7 anos de idade, e teria 7 anos por uma eternidade de noites. Seu rostinho tinha um branco medonho, cadavérico, e seus olhos, um vermelho e um prata capazes de tragá-lo para dentro. E logo abaixo do seu queixo pude ver dois furinhos como picadas de agulha, as bordas horrivelmente laceradas.
Ela estendeu os braços para mim e sorriu.
— Me pega no colo, tio — disse, delicadamente. — Quero te dar um beijo.
Então pode me levar para junto da minha mamãe.
Eu não queria, mas não havia nada que pudesse fazer.
Inclinei-me para a frente, os braços estendidos. Pude ver sua boca se abrindo, pude ver as pequenas presas dentro do anel rosado de seus lábios. Alguma coisa escorreu pelo seu queixo, brilhante e prateada, e com um horror vago, muito distante, me dei conta de que ela estava babando.
Suas mãozinhas se fecharam em torno do meu pescoço e eu pensava: Bem, talvez não seja tão ruim, talvez não seja tão terrível depois de algum tempo — quando alguma coisa preta voou para fora do Scout e a atingiu no peito. Houve um sopro de fumaça com um cheiro estranho, um clarão luminoso que se extinguiu um instante depois, então ela recuava, sibilando. Seu rosto estava deformado, transformado numa máscara astuta de raiva, ódio e dor. Ela se virou de lado e então... e então desapareceu. Num momento estava ali, e no momento seguinte havia um redemoinho de neve que lembrava um vulto humano. E o vento o soprou para longe por sobre os campos.
— Booth! — Tookey sussurrou. — Depressa, agora!
E fui depressa. Mas não tão depressa a ponto de não ter tempo de ver o que ele jogara naquela garotinha do inferno.
A Bíblia Douay de sua mãe.
Isso aconteceu faz algum tempo. Já estou mais velho agora, e não era nenhum frangote naquela ocasião. Herb Tooklander faleceu há dois anos. Morreu tranqüilamente, durante a noite. O bar ainda funciona, um homem e sua mulher de Waterville compraram o lugar, boa gente, e mantiveram tudo praticamente inalterado. Mas não vou
muito ali. De algum modo é diferente, agora que Tookey se foi.
As coisas em Lot continuam do jeito que sempre estiveram.
O xerife encontrou o carro daquele tal de Lumley no dia seguinte, sem gasolina, a bateria arriada. Nem Tookey nem eu dissemos qualquer coisa a respeito. De que adiantaria?
E, de vez em quando, alguém que viaja de carona ou acampando desaparece em algum lugar por ali, em Schoolyard Hill ou perto do cemitério de Harmony Hill.
Encontram a mochila do sujeito, ou um livro de bolso todo inchado e ensopado de chuva ou neve, coisas desse tipo. Mas nunca as pessoas.
Ainda tenho sonhos ruins sobre aquela noite de tempestade em que fomos até lá.
Não tanto com a mulher quanto com a garotinha, e o modo como ela sorria quando estendeu os braços para que eu pudesse pegá-la. Para que ela pudesse me dar um beijo.
Mas estou velho, e logo chegará o momento em que os pesadelos acabam.
Você talvez tenha a oportunidade de viajar pelo sul do Maine um dia desses. Uma região muito bonita. Talvez queira até parar no Tookey’s Bar para tomar um drinque.
Um lugar agradável. Mantiveram o nome. Então, tome seu drinque, e em seguida meu conselho é que continue em frente, em direção ao norte. O que quer que faça, não tome aquela estrada para Jerusalem’s Lot.
Sobretudo depois que escurecer.
Há uma garotinha em algum lugar por lá. E acho que ela ainda está esperando pelo seu beijo de boa-noite.
A Mulher no Quarto
A questão é: Será que ele consegue fazer aquilo?
Não sabe. Sabe que ela as mastiga de vez em quando, fazendo careta por causa do horrível gosto de laranja, e de dentro da sua boca vem um som como o de palitos de picolé se quebrando. Mas estas são pílulas diferentes...
cápsulas gelatinosas. 1 O rótulo da caixa diz complexo darvon. Ele as encontrou no armário de remédios dela, e revirou a caixa entre as mãos, pensando. Algo que o médico lhe deu antes que ela tivesse que voltar ao hospital. Algo para as noites de palpitação. O armário está cheio de remédios, cuidadosamente dispostos em fileiras como drogas de um curandeiro.
Encantamentos do mundo ocidental. supositórios fleet. Ele nunca usou um supositório em toda sua vida e a idéia de colocar no reto uma coisa gordurosa, que o calor do corpo vai amolecer, o deixa enojado. Não há dignidade em enfiar coisas na bunda. leite de magnésia phillips. fórmula analgésica para artrite anacin.
pepto-bismol. Mais. Ele pode reconstituir o curso da enfermidade dela através dos remédios.
Mas essas pílulas são diferentes. Parecem o Darvon normal, a não ser pelo fato de que vêm em cápsulas gelatinosas cinzentas. Mas são maiores, aquilo que o seu falecido pai costumava chamar pílulas pica-de-cavalo. A caixa diz Asp.
350g, Darvon 100g, e será que ela conseguiria mastigá-las, mesmo se ele as desse? Será que iria mastigá-las? A casa ainda está funcionando; o motor da geladeira liga e desliga, a fornalha é acionada e desativada, volta e meia o cuco põe
a cabeça para fora do relógio, mal-humorado, anunciando as horas cheias e as meias-horas. Ele imagina que depois que ela morrer caberá a Kevin e a ele desmontar a casa. Ela se foi, com certeza. A casa inteira afirma isso.
Ela
está no Central Maine Hospital, em Lewinston. Quarto 312.
Foi para lá quando a dor ficou tão forte a ponto de ela não conseguir mais ir até a cozinha fazer seu próprio café.
Às vezes, quando ele ia visitá-la, ela chorava sem saber.
O elevador range ao subir, e ele se vê examinando o certificado azul do elevador.
O certificado deixa claro que o elevador é seguro, com ou sem rangido. Ela está ali faz quase três semanas, e hoje fizeram nela uma operação chamada “cortotomia”. Ele não tem certeza de que é assim que se escreve, mas o som é esse. O médico disse a ela que a
“cortotomia” consiste em enfiar uma agulha no pescoço e dali até o cérebro. O médico disse que é como enfiar um alfinete numa laranja e espetar uma semente. Quando a agulha tiver atingido o centro de dor, um sinal de rádio será enviado até a ponta, e o centro de dor será eliminado. É
como desligar a TV. Então, o câncer na sua barriga deixará de incomodar tanto.
Pensar nessa operação faz com que se sinta ainda mais desconfortável que pensar em supositórios derretendo calidamente no ânus. Faz com que pense no livro de Michael Crichton chamado O Homem Terminal, que trata da colocação de fios na cabeça das pessoas. De acordo com Crichton, isso pode ser uma cena muito ruim. Acredite.
A porta do elevador se abre no terceiro andar e ele sai. Esta é a antiga ala do hospital, e seu cheiro é como o cheiro adocicado da serragem que jogam por cima do vômito de alguém numa feira do interior. Ele deixou as pílulas no porta-luvas de seu carro. Não bebeu nada antes desta visita.
As paredes ali em cima são de dois tons: marrons embaixo e brancas no alto. Ele acha que a única combinação de dois tons no mundo inteiro capaz de ser mais depressiva do que marrom e branco é rosa e preto. Corredores de hospitais como gigantes balas Good’n’Plenty. O pensamento o faz sorrir e se sentir nauseado ao mesmo tempo.
Dois corredores se juntam num T diante do elevador, e há um bebedouro onde ele sempre pára a fim de adiar um pouco as coisas. Há peças de equipamento hospitalar aqui e ali, como estranhos brinquedos de playground. Uma maca de laterais cromadas e rodas de borracha, o tipo de coisa que eles usam para te levar lá para cima, até a sala de cirurgia onde estão prontos para fazer a sua “cortotomia”.
Há um grande objeto circular cuja função ele desconhece.
Parece aquelas rodas que você às vezes vê em gaiolas de esquilos. Há um suporte de soro tipo pedestal do qual pendem dois frascos, como um par de seios oníricos pintados por Salvador Dalí. Seguindo por um dos corredores, fica a sala das enfermeiras, e risadas abastecidas com café chegam até ele.
Bebe sua água e depois se encaminha ao quarto dela. Tem medo do que pode encontrar e espera que ela esteja dormindo. Se estiver, ele não vai acordá-la.
Acima da porta de cada um dos quartos, há uma pequenina luz quadrada.
Quando um paciente aciona sua campainha, essa luz se acende, com um brilho vermelho.
Nos dois sentidos do corredor pacientes caminham devagar, usando robes baratos de hospital sobre seus pijamas de hospital. Os robes têm finas listras brancas e azuis, e gola redonda. O pijama de hospital é chamado de “johnny”. Os
“johnnies” ficam bem nas mulheres, mas decididamente estranhos nos homens, porque são como vestidos ou combinações chegando à altura do joelho. Os homens sempre parecem usar chinelos marrons de couro falso nos pés. As mulheres preferem chinelos de tricô com bolas de lã na parte de cima. A mãe dele tem um par, e as chama de
“mulas”.
Os pacientes lhe recordam um filme de terror chamado A Noite dos Mortos-vivos.
Todos andando devagar, como se alguém tivesse aberto a tampa de seus órgãos como potes de maionese, e os líquidos estivessem quase se derramando lá dentro. Alguns usam bengalas. Seu ritmo vagaroso, enquanto passeiam de um lado para o outro dos corredores, é assustador, mas também é digno. É o andar de pessoas que estão indo lentamente para lugar algum, o andar de estudantes universitários com barretes e becas dirigindo-se ao salão de cerimônias.
Música ectoplasmática soa por toda parte, emitida por rádios a transistor. Vozes tagarelam. Ele pode ouvir Black Oak Arkansas cantando “Jim Dandy” (“Go Jim Dandy, go Jim Dandy!”, uma voz em falsete grita alegremente para os andarilhos vagarosos do corredor). Ele pode ouvir o mediador de um programa de debates discutir Nixon em tons que respingam ácido. Pode ouvir uma polca com letra
francesa — Lewiston ainda é uma cidade francófona, e as pessoas apreciam suas jigas e contradanças quase tanto quanto apreciam se apunhalar umas às outras nos bares da parte baixa de Lisbon Street.
Ele pára diante do quarto de sua mãe e
por algum tempo ficou ali, apavorado o suficiente para vir bêbado. Ficava envergonhado por estar bêbado na frente de sua mãe, embora ela estivesse por demais dopada e cheia de Elavil para perceber. Elavil é um tranqüilizante que dão aos pacientes de câncer, para que não se aborreçam muito com o fato de estarem morrendo.
Sua rotina era comprar duas embalagens de seis cervejas Black Label no Sonny’s Market, à tarde. Sentava-se com as crianças e assistia aos programas infantis na TV. Três cervejas com “Vila Sésamo”, duas cervejas durante “Mister Rogers”, uma cerveja durante
“Electric Company”. Depois mais uma no jantar.
Levava as outras cinco cervejas no carro. Eram 35
quilômetros de distância entre Raymond e Lewiston, via Rotas 302 e 202, e era possível estar num porre razoável ao chegar ao hospital, com uma ou duas cervejas sobrando. Ele trazia coisas para sua mãe e as deixava no carro, a fim de ter uma desculpa para voltar e apanhá-las e também beber mais meia cerveja e manter-se alto.
Também lhe dava uma desculpa para urinar lá fora, e de certo modo essa era a melhor parte de toda aquela miserável história. Ele sempre parava no estacionamento lateral, que era de terra batida e congelada pelo frio de novembro, e o ar frio da noite lhe garantia contração total da bexiga. Urinar num dos banheiros do hospital
assemelhava-se por demais a uma apoteose de toda a experiência hospitalar: o botão para chamar a enfermeira junto à descarga, o apoio cromado preso num ângulo de 45
graus, o frasco de desinfetante cor-de-rosa sobre a pia. Era muito ruim. Acredite.
Ele não sentia vontade de beber ao dirigir de volta para casa. Então, as cervejas que sobravam ficavam em casa, na geladeira, e quando houvesse seis delas, ele jamais teria vindo se soubesse que seria tão ruim assim. A primeira coisa que lhe passa pela mente é Ela já dobrou o cabo da boa esperança e a segunda é Ela agora está mesmo morrendo depressa, como se tivesse que pegar um trem cancelado. Ela se retorce na cama, sem se mover, exceto pelos olhos, mas se retorce dentro de seu corpo, alguma coisa se move lá dentro. Seu pescoço foi tingido de laranja por alguma coisa que parece Mercurocromo, e há um curativo abaixo de sua orelha esquerda onde algum médico enfiou cantarolando a agulha de rádio e destruiu 60 por cento de seu controle motor junto com o centro da dor. Os olhos dela o acompanham como os olhos de uma dessas gravuras populares de Jesus, reproduzidas aos montes.
— Acho melhor você não me ver esta noite, Johnny. Não estou lá muito bem.
Talvez esteja melhor amanhã.
— O que você está sentindo?
— Está coçando. Está coçando no corpo todo. Minhas pernas estão juntas?
Ele não consegue ver se suas pernas estão juntas. São apenas um V que se eleva debaixo do lençol amarrotado do hospital. Está muito quente no quarto. Não há ninguém na outra cama, naquele momento. Ele pensa: Colegas de
quarto vêm e colegas de quarto se vão, mas minha mãe está sempre aqui. Cristo!
— Estão juntas, mãe.
— Puxe-as para baixo, está bem, Johnny? Depois disso, é melhor ir embora.
Nunca estive antes numa situação como esta. Não consigo mexer nada. Meu nariz está
coçando. Não é uma coisa miserável, estar com seu nariz coçando e não conseguir coçar?
Ele coça o seu nariz, depois segura suas panturrilhas através de lençol e as puxa para baixo. Consegue colocar uma das mãos em torno das duas panturrilhas sem dificuldade, embora suas mãos não sejam particularmente grandes. Ela geme. As lágrimas escorrem por seu rosto na direção das orelhas.
— Mamãe?
— Pode puxar minhas pernas para baixo?
— Acabei de fazer isso.
— Oh. Está bem, então. Acho que estou chorando. Não queria chorar na sua frente. Queria ficar livre disto. Faria qualquer coisa para ficar livre disto.
— Quer um cigarro?
— Poderia me trazer um pouco d’água primeiro, Johnny?
Estou seca feito uma lasca de madeira velha.
— Claro.
Ele pega o copo dela, com um canudinho flexível, e leva lá para fora, até o bebedouro. Um homem gordo com uma atadura elástica numa das pernas passa lentamente pelo corredor. Não está usando um daqueles robes listrados e segura seu
“johnny” nas costas, para que fique fechado.
Ele encheu o copo e o levou de volta ao Quarto 312. Ela parara de chorar. Seus lábios apertam o canudinho de um modo que lembra camelos que viu em registros de viagens.
Seu rosto está esquelético. A lembrança mais nítida que tem dela, da vida que levou como seu filho, é de uma época em que estava com 12 anos. Ele e seu irmão Kevin e essa mulher se mudaram para o Maine, para que ela pudesse tomar conta dos pais. A mãe dela estava velha e inválida. A pressão alta fizera de sua avó uma mulher senil, e, para piorar, deixara-a cega. Feliz aniversário de 86 anos. Eis aqui algo com que vai ter de se acostumar. E ela ficava deitada na cama o dia todo, cega e senil, usando fraldas grandes e calças plásticas grandes, sem conseguir se lembrar qual havia sido o café-da-manhã, mas capaz de recitar os nomes de todos os presidentes até Ike. E assim as três gerações tinham vivido juntas naquela casa onde ele tão recentemente encontrara as pílulas (embora os dois avós estejam agora mortos há muito tempo) e aos 12 anos ele estava reclamando de alguma coisa na mesa do café-da-manhã, não se lembra do que, mas de alguma coisa, e sua mãe estava lavando as fraldas sujas de urina da avó e depois passando-as pelo torcedor da antiga máquina de lavar, e ela se virara para ele e batera nele com uma das fraldas, e o primeiro tapa da fralda molhada e pesada virara sua tigela de sucrilhos e a arremessara rodopiando por cima da mesa como num jogo de disco, e o segundo o atingira nas costas, sem machucar, mas fazendo com que ele, de susto, parasse de falar, e a mulher que agora se deitava
toda encolhida nessa cama nesse quarto bateu nele repetidas vezes, dizendo: fique com essa sua boca grande fechada, a única coisa que é grande em você é a sua boca e trate de ficar com ela fechada até que o resto do seu corpo esteja do mesmo tamanho, e cada palavra em itálico era acompanhada por um golpe da fralda molhada de sua avó
— PLAFT! — e as outras coisas que ele talvez tivesse para dizer simplesmente evaporaram. Não havia lugar no mundo para gracinhas. Ele descobriu naquele dia e para sempre que não há nada no mundo tão perfeito para mostrar a um garoto de 12 anos o seu lugar no esquema das coisas quanto apanhar nas costas com a fralda molhada de sua avó. Ele levou quatro anos depois daquele dia para reaprender a arte da bancar o esperto.
Ela se engasga um pouquinho com a água e isso o assusta, muito embora ele estivesse pensando em lhe dar as pílulas.
Pergunta-lhe outra vez se quer um cigarro e ela responde:
— Se não te der trabalho. E depois é melhor você ir embora.
Talvez eu esteja melhor amanhã.
Ele pega um Kool de um dos maços espalhados na mesa junto à sua cama e o acende. Ele segura o cigarro entre os dedos indicador e médio da mão direita, e ela traga, os lábios esticando-se para alcançar o filtro. Sua inalação é fraca. A fumaça escapa de seus lábios.
— Vivi 60 anos para que no fim meu filho segurasse meus cigarros para mim.
— Não me importo.
Ela traga mais uma vez e mantém o filtro preso aos lábios por tanto tempo que ele ergue o olhar em direção aos olhos dela, e vê que estão fechados.
— Mãe?
Os olhos se abrem um pouco, vagamente.
— Johnny?
— Isso.
— Há quanto tempo você está aqui?
— Não faz muito tempo. Acho que é melhor ir embora.
Deixar você dormir.
— Hnnnnn.
Ele apaga o cigarro no cinzeiro e sai do quarto furtivamente, pensando: Quero falar com aquele médico. Diabo, quero falar com o médico que fez aquilo.
Ao entrar no elevador, ele pensa que a palavra “médico” se torna sinônimo de
“homem” depois que um certo grau de proficiência na atividade é alcançado, como se fosse previsível e esperado que os médicos devessem ser cruéis e assim atingir um grau especial de humanidade. Mas
— Não acho que ela vá durar mais muito tempo — ele diz ao irmão mais tarde, naquela noite.
Seu irmão mora em Andover, 110 quilômetros a oeste. Só vai ao hospital uma ou duas vezes por semana.
— Mas a dor melhorou? — pergunta Kev.
— Ela diz que está coçando.
Está com as pílulas no bolso do suéter. Sua mulher dorme tranqüila. Ele as apanha, o punhado de pílulas roubadas da casa vazia de sua mãe, onde outrora viveram todos, junto com os avós. Revira a caixa na mão enquanto fala, como um pé de coelho.
— Bem, então ela está melhor.
Para Kev, tudo está sempre melhor, como se a vida caminhasse na direção de um ápice sublime. Uma visão de que o irmão mais novo não compartilha.
— Ela está paralisada.
— E isso faz diferença, a esta altura?
— É claro que faz diferença! — ele explode, pensando nas pernas dela sob o lençol branco amarrotado.
— John, ela está morrendo.
— Ela ainda não morreu.
Isso, na verdade, é o que o horroriza. A conversa andará em círculos a partir daqui, os lucros pertencendo à companhia telefônica, mas este é o ponto crucial. Ainda não está morta. Está simplesmente deitada naquele quarto com uma etiqueta de hospital presa ao punho, escutando rádios-fantasmas de um lado para o outro do corredor. E
ela vai ter de lutar contra o tempo, o médico diz. É um homem grandalhão com uma barba ruiva alourada. Tem talvez 1m90 de altura, e ombros heróicos. Conduziu-o atenciosamente lá para fora, para o corredor, quando ela começou a cochilar.
O médico prossegue:
— Veja, algum dano motor é quase inevitável numa operação como a
“cortotomia”. Sua mãe tem agora algum movimento na mão esquerda. É razoável esperar que recupere a mão direita dentro de duas a quatro semanas.
— Ela vai voltar a andar?
O médico olha para o teto de cortiça furada do corredor com atenção. Sua barba alcança a gola de sua camisa quadriculada, e
por alguma razão ridícula Johnny pensa em Algernon Swinburne; 2 por que, não sabe dizer. Este homem é o oposto do pobre Swinburne em todos os aspectos.
— Eu diria que não. O tumor avançou demais.
— Vai ficar confinada à cama pelo resto da vida?
— Acho que pode se presumir que sim.
Ele começa a sentir uma certa admiração por este homem que esperava que fosse seguramente detestável. A aversão segue-se ao sentimento; será que deve ter admiração pela mera verdade?
— Por quanto tempo ela pode viver desse jeito?
— É difícil dizer. (Agora está melhor.) O tumor está bloqueando um de seus rins agora. O outro está funcionando bem. Quando o tumor bloqueá-lo, ela vai dormir.
— Coma urêmico?
— Sim — o médico diz, mas com um pouco mais de cautela.
“Uremia” é um termo técnico-patológico, normalmente propriedade exclusiva de médicos e de patologistas. Mas Johnny o conhece porque sua avó morreu da mesma coisa, embora não houvesse um câncer envolvido. Seus rins simplesmente deixaram de funcionar, e ela morreu flutuando em urina interna até as costelas. Morreu na cama, em casa, na hora do jantar. Johnny foi quem primeiro suspeitou que ela estava morta de verdade dessa vez, e não apenas dormindo daquele jeito comatoso, de boca aberta, como os velhos normalmente dormem. Duas pequenas lágrimas tinham escorrido de seus olhos. Sua velha boca desdentada estava repuxada para dentro, lembrando um tomate cujas sementes tivessem sido retiradas, talvez para que o enchessem com salada de ovo, e então esquecido na prateleira da cozinha por vários dias. Segurou um espelho redondo de maquiagem junto aos seus lábios por um minuto, e quando o espelho não embaçou escondendo a imagem de sua boca de tomate, ele chamou a mãe. Tudo aquilo parecera correto, assim como isso parecia errado.
— Ela disse que ainda sente dor. E coceiras.
O médico deu um tapinha solene na cabeça, como Victor DeGroot nos antigos desenhos animados de psiquiatras.
— Ela imagina a dor. Que não é menos real por isso. É real para ela. É por isso que o tempo é tão importante. Sua mãe não pode mais contar o tempo em termos de segundos e minutos e horas. Precisa reestruturar essas unidades e transformá-las em dias e semanas e meses.
Ele entende o que este homem corpulento de barba está dizendo, e isso o deixa perplexo. Uma campainha soa baixinho. Ele não pode falar mais com este homem. Trata-se de um técnico. Fala suavemente a respeito do tempo, como
se tivesse compreendido o conceito com a mesma facilidade com que pega um vara de pescar. E talvez tenha.
— Pode fazer mais alguma coisa por ela?
— Muito pouco.
Mas ele fala de forma serena, como se tudo aquilo estivesse certo. Ele não está, afinal de contas, “alimentando falsas esperanças”.
— Pode ser pior do que um coma?
— Claro que pode. Não temos como prever essas coisas com um grau real de precisão. É como ter um tubarão solto dentro de seu corpo. Ela pode inchar.
— Inchar?
— Seu abdome pode aumentar, depois diminuir, depois aumentar de novo. Mas por que falar sobre essas coisas agora? Acredito que podemos, com certa segurança, dizer que elas fariam o serviço, mas suponhamos que não façam?
Suponhamos que me peguem? Não quero ir para os tribunais com uma acusação de eutanásia. Nem mesmo se puder vencer. Não tenho causas a defender. Ele pensa em manchetes de jornal gritando matricídio e faz uma careta.
Sentado no estacionamento, revira a caixa de um lado para o outro nos mãos.
complexo darvon. A questão ainda é: Será que consegue fazer aquilo? Será que deve fazê-lo? Ela disse: Queria ficar livre disto. Faria qualquer coisa para ficar livre disto.
Kevin tem falado em preparar para ela um quarto em sua casa, para que ela não morra no hospital. O hospital quer que ela saia. Deram-lhe umas novas pílulas e ela começou a delirar. Isso foi quatro dias depois da “cortotomia.”
Gostariam de vê-la em outro lugar, porque até hoje ninguém aperfeiçoou uma “cancerotomia” a toda prova. A essa altura, se tirassem todo o câncer, não sobraria a ela nada além das pernas e da cabeça.
Ele tem pensado em como o tempo deve ser para ela, como algo que saiu de seu controle, como uma caixa de costura cheia de novelos espalhados pelo chão, à disposição de um gato grande e malvado. Os dias no Quarto 312. A noite no Quarto 312. Tiveram de puxar uma corda do botão da campainha e amarrá-la em seu indicador esquerdo, porque ela já não consegue mover a mão o suficiente para apertar o botão quando acha que vai precisar da comadre.
De qualquer modo, já não importa muito, porque ela não consegue sentir a pressão lá embaixo; seu ventre poderia muito bem ser uma pilha de serragem. Seu intestino funciona em cima da cama, e ela urina na cama, e só sabe quando sente o cheiro.
Baixou dos 68 quilos que pesava para 42, e os músculos do seu corpo estão tão flácidos que não passam de uma bolsa frouxa atada ao seu cérebro, como a boneca que uma criança leva numa sacola. Seria diferente na casa de Kev?
Será que ele consegue cometer assassinato? Sabe que é assassinato. Do pior tipo, matricídio, como se ele fosse um feto consciente numa das primeiras histórias de terror de Ray Bradbury, determinado a virar a mesa e abortar o animal que lhe deu a vida. Talvez seja de todo modo sua culpa. Ele é o único filho nutrido dentro dela, um bebê quase da época da menopausa. Seu irmão foi adotado
quando um outro médico sorridente disse-lhe que ela jamais conseguiria ter um
filho. E é claro, o câncer que agora cresce dentro dela começou no útero como um segundo filho, seu próprio e sombrio irmão gêmeo. A vida dele e a morte dela começaram no mesmo lugar. Será que ele não deveria fazer o que o outro já está fazendo, tão lenta e desajeitadamente?
Ele vem lhe dando aspirina às escondidas para a dor que ela imagina ter. Ela as guarda numa caixa de balas Sucrets na gaveta da mesa do hospital, junto com seus cartões estimando melhoras e os óculos que já não servem mais.
Tiraram dela a dentadura, porque têm medo de que ela a engula e sufoque, então agora ela simplesmente chupa a aspirina até a sua língua ficar ligeiramente branca.
É claro que ele poderia lhe dar as pílulas; três ou quatro seriam suficientes. Cem gramas de aspirina e 30 gramas de Darvon administrados a uma mulher cujo peso corporal baixou 33 por cento ao longo de cinco meses.
Ninguém sabe que ele está com as pílulas, nem Kevin, nem sua mulher. Ele acha que talvez tenham colocado outra pessoa na cama vaga do Quarto 312, e ele não terá motivos para se preocupar. Pode escapar com segurança. Imagina-se se na verdade isso não seria mesmo o melhor. Se houver uma outra mulher no quarto, ele não terá mais opções e poderá considerar o fato um sinal da Providência. Acha que
— Você está com a cara boa, esta noite.
— Estou mesmo?
— Claro. Como está se sentindo?
— Oh, não estou muito bem. Não estou muito bem esta noite.
— Vamos ver se consegue mexer a mão direita.
Ela a levanta de cima do lençol. A mão flutua com os dedos abertos diante de seus olhos por um momento, depois cai.
Um baque. Ele sorri e ela lhe sorri de volta.
Ele pergunta:
— Você viu o médico hoje?
— Sim, ele esteve aqui. É bondade dele vir todos os dias.
Pode me dar um pouco d’água, John?
Ele lhe dá um pouco d’água pelo canudinho flexível.
— É bondade sua vir com tanta freqüência, John. Você é um bom filho.
Ela está chorando de novo. A outra cama está vazia, de um jeito acusador. De vez em quando, um dos roupões listrados de azul e branco passa esvoaçando pelo corredor.
A porta está entreaberta. Ele pega delicadamente o copo d’água de volta, pensando, como um idiota: Este copo está meio cheio ou meio vazio?
— Como está a sua mão esquerda?
— Oh, está ótima.
— Vamos ver.
Ela levanta a mão. Sempre foi canhota, e talvez por isso aquela mão tenha-se recuperado tão bem dos efeitos devastadores da “cortotomia”. Ela fecha o punho.
Flexiona-o. Estala sem muita força os dedos. Depois a mão volta para cima do lençol.
Um baque. Ela reclama:
— Mas eu não sinto a mão.
— Deixe-me ver uma coisa.
Ele vai até o armário, abre a porta e estica a mão por trás do casaco com o qual ela veio para o hospital, a fim de pegar sua bolsa. Ela guarda a bolsa ali porque é paranóica com relação a ladrões; ouviu dizer que alguns dos atendentes são mestres do furto, e somem com qualquer coisa em que conseguem colocar as mãos. Ela ouviu de uma de suas antigas colegas de quarto, já em casa há um bom tempo, que uma mulher na ala nova perdeu 500 dólares que guardava dentro do sapato. Sua mãe está paranóica acerca de muitas coisas ultimamente, e uma vez disse a ele que um homem às vezes se esconde debaixo da sua cama tarde da noite. Parte disso é a combinação de drogas que estão experimentando nela. Fazem com que a benzedrina que ele ocasionalmente tomava na faculdade pareça Excedrin. Você pode fazer a sua escolha no armário de remédios trancado que fica no final do corredor, logo depois da sala das enfermeiras: estimulantes, sedativos, analgésicos e soníferos. A morte, talvez, a morte misericordiosa como um suave cobertor preto. As maravilhas da ciência moderna.
Ele leva a bolsa até a cama e a abre.
— Você consegue pegar alguma coisa aqui de dentro?
— Oh, Johnny, não sei...
Ele diz, persuasivo:
— Tente. Por mim.
A mão esquerda se ergue de cima do lençol como um helicóptero aleijado. Voa.
Mergulha. Sai da bolsa com um único lenço Kleenex amarrotado. Ele aplaude:
— Ótimo! Ótimo!
Mas ela vira o rosto.
— No ano passado, eu conseguia puxar com estas mãos dois carrinhos cheios de pratos-feitos.
Se tem de haver um momento certo, é agora. Está muito quente no quarto, mas o suor na testa dele é frio. Ele pensa: se ela não pedir a aspirina, não vou fazer nada. Não esta noite. E sabe que, se não for esta noite, não será nunca.
Muito bem.
— Pode roubar umas duas pílulas para mim, Johnny?
É assim que ela sempre pede. Não deve tomar nenhuma pílula além de seus medicamentos habituais, porque perdeu muito peso corporal e desenvolveu o que os amigos drogados que ele tinha na faculdade chamariam de “um lance sério”. A imunidade do corpo fica a uma distância mínima da dose letal. Uma pílula a mais e você cruzou a fronteira. Dizem que foi isso que aconteceu com Marilyn Monroe.
— Eu trouxe umas pílulas de casa.
— É mesmo?
— São boas para a dor.
Ele estende-lhe a caixa. Ela só consegue ler de muito perto.
Franze a testa diante das letras grandes e depois diz:
— Já tomei esse Darvon antes. Não adiantou.
— Este é mais forte.
Os olhos dela se desviam da caixa para os dele.
Distraidamente, pergunta:
— É mesmo?
Tudo o que ele consegue é sorrir como um tolo. Não consegue falar. É como na primeira vez em que transou: estavam no banco de trás do carro de algum amigo, e, quando ele voltou para casa, sua mãe lhe perguntou se ele tinha se divertido, e ele só conseguiu sorrir aquele mesmo sorriso tolo.
— Posso mastigá-las?
— Não sei. Você pode experimentar.
— Tudo bem. Não deixe que eles vejam.
Ele abre a caixa e tira a tampa de plástico do frasco. Puxa o algodão que está no gargalo. Será que ela poderia fazer tudo aquilo com o helicóptero aleijado da sua mão esquerda? Será que acreditariam? Ele não sabe. Talvez eles também não. Talvez nem viessem a se importar.
Sacode o frasco e deixa cair seis pílulas em sua mão.
Observa sua mãe a observá-
lo. São pílulas demais, até mesmo ela deve saber disso. Se disser alguma coisa a respeito, ele vai guardá-las todas
outra vez e oferecer-lhe uma única pílula da Fórmula Analgésica para Artrite.
Uma enfermeira passa lá fora e a mão dele treme, sacudindo as pílulas cinzentas, mas a enfermeira não olha para dentro do quarto, a fim de ver como sua “garota da cortotomia” está passando.
Sua mãe não diz nada, apenas olha para as pílulas como se fossem pílulas absolutamente comuns (se é que existe uma coisa dessas). Mas, por outro lado, ela nunca apreciou cerimônias; não haveria de quebrar uma garrafa de champanhe em seu próprio barco.
— Aqui está,
ele diz, com voz perfeitamente natural, e coloca a primeira pílula dentro de sua boca.
Ela a mastiga pensativamente até que a gelatina se dissolva, e depois faz uma careta.
— O gosto é ruim? Eu não...
— Não, não é tão ruim.
Ele lhe dá mais uma. E mais uma. Ela as mastiga com a mesma expressão pensativa. Ele lhe dá uma quarta pílula.
Ela sorri para ele, que vê com horror que sua língua está amarela. Talvez se bater na sua barriga ela vomite tudo.
Mas não pode. Jamais poderia bater na própria mãe.
— Pode ver se as minhas pernas estão juntas?
— Só tome estas aqui primeiro.
Ele lhe dá uma quinta pílula. E uma sexta. Então verifica se suas pernas estão juntas. Estão. Ela diz:
— Acho que vou dormir um pouco agora.
— Tudo bem. Vou beber um pouco d’água.
— Você sempre foi um bom filho, Johnny.
Ele coloca o frasco dentro da caixa e enfia a caixa dentro da bolsa, deixando a tampa de plástico no lençol ao lado dela.
Deixa a bolsa aberta junto a ela e pensa: Ela pediu a bolsa.
Eu a apanhei e a abri logo antes de sair. Ela disse que conseguiria pegar lá dentro o que queria. Disse que chamaria a enfermeira para colocá-la de volta no armário.
Ele sai e vai beber sua água. Há um espelho acima do bebedouro, ele coloca a língua para fora e a examina.
Quando volta para o quarto, ela está dormindo, com as mãos juntas. As veias ali são grossas, saltadas. Ele lhe dá um beijo e os olhos dela se mexem sob as pálpebras, que, no entanto, não se abrem.
Sim.
Ele não se sente diferente, nem bem nem mal.
Dirige-se para fora do quarto e pensa numa outra coisa.
Volta para junto dela,
tira o frasco da caixa e o esfrega com a camisa. Depois aperta as pontas dos dedos inertes de sua mão esquerda adormecida no frasco. Então o coloca de volta e sai do quarto rapidamente, sem olhar para trás.
Vai para casa e espera o telefone tocar e deseja que tivesse dado um outro beijo nela. Enquanto espera, assiste à TV e bebe bastante água.
1- Termo da faculdade de Farmácia da USP. (N. da E.)
2- Delicado poeta vitoriano. (N. da E.)
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Créditos
Introdução
Prefácio
Jerusalem’s Lot
Último Turno
Ondas Noturnas
Eu Sou o Portal
A Máquina de Passar Roupa
O Bicho-Papão
Massa Cinzenta
Campo de Batalha
Caminhões
Às Vezes Eles Voltam
Primavera Vermelha
O Ressalto
O Homem do Cortador de Grama
Ex-Fumantes Ltda.
Eu Sei do que Você Precisa
As Crianças do Milharal
O Último Degrau da Escada
O Homem que Adorava Flores
A Saideira
A Mulher no Quarto
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A Saideira
A Mulher no Quarto
Você terminou Sombras da Noite
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