Sombras da Noite
O Bicho-Papão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
“Não vá tão para longe! Não vá para aquele lado! Há uma corrente ali! Só faz uma hora que você comeu! Aí não dá pé!” Até mesmo para que tomasse cuidado com tubarões, meu Deus do céu. Sabe o que aconteceu? Agora não consigo nem chegar perto da água. É verdade. Sinto cólicas se me aproximar de uma praia. Rita me fez levar a ela e às crianças uma vez para Savin Rock, quando Denny ainda estava vivo. Passei muito mal. Sei disso, o senhor entende?
Nós não podemos superproteger as crianças. E você também não pode ficar mimando a si mesmo. A vida continua. Shirl foi dormir na mesma caminha de Denny. Mas mandamos o colchão antigo para o lixo. Não queria que minha garota pegasse germes.
“Então, um ano se passou. E certa noite, quando estava colocando Shirl no berço, ela começou a gritar e a chorar.
‘Bicho-papão, pai, bicho-papão, bicho-papão!’
“Isso me causou um sobressalto. Era igualzinho a Denny. E
comecei a me lembrar da porta do armário, com uma fresta aberta quando nós o encontramos. Quis levá-la para passar a noite no nosso quarto.”
— E levou?
— Não — Billings olhou para as próprias mãos, o rosto contraído. — Como eu podia admitir para Rita que estava errado? Tinha que ser forte. Ela era sempre tão covarde...
veja com que facilidade foi para a cama comigo quando não éramos casados.
Harper disse:
— Por outro lado, veja com que facilidade você foi para a cama com ela.
Billings, que mudava a posição das mãos, congelou o gesto no alto, e virou devagar a cabeça para fitar Harper.
— O senhor está querendo bancar o engraçadinho?
— Certamente que não — Harper disse.
— Então deixe-me contar as coisas do meu jeito — Billings respondeu, asperamente. — Vim aqui para tirar isso do peito, para contar minha história. Não vou falar sobre minha vida sexual, se é o que o senhor espera. Rita e eu tínhamos uma vida sexual bastante normal, sem nenhuma daquelas coisas sujas. Sei que algumas pessoas
gostam de falar disso, mas não sou uma delas.
— Tudo bem — Harper disse.
— Tudo bem — Billings repetiu, com uma arrogância nervosa. Parecia ter perdido o fio da meada, e seus olhos passeavam inquietos pela porta do armário, que estava firmemente fechada.
— Gostaria de abri-la?
— Não! — Billings disse, rapidamente. Deu um risinho nervoso. — Para que eu haveria de querer olhar para as suas galochas?
— O bicho-papão pegou a garota também — ele disse.
Coçou a testa, como se estivesse vasculhando a memória.
— Um mês depois. Mas algo aconteceu antes disso.
Ouvi um barulho lá certa noite. Então ela gritou. Abri a porta bem depressa, a luz do corredor estava acesa e... ela estava sentada no berço chorando e... algo se moveu. Nas sombras, junto ao armário. Algo deslizou.
— A porta do armário estava aberta?
— Um pouco. Só uma fresta — Billings passou a língua pelos lábios. — Shirl estava gritando sobre o bicho-papão. E
alguma outra coisa que parecia “garra”. Só que ela disse
“gala”, o senhor sabe. As crianças pequenas têm problemas com o som do “r”.
Rita correu lá para cima e perguntou o que estava acontecendo. Eu disse que ela havia ficado com medo das sombras dos galhos se movendo no teto.
— Gala? — Harper disse.
— É.
— Gala... “malo”. Talvez ela estivesse tentando dizer “armário”.
— Talvez — Billings disse. — Talvez fosse isso. Mas eu não acho. Acho que era
“garras” — seus olhos voltaram a buscar a porta do armário.
— Garras, garras compridas — sua voz tinha-se reduzido a
um sussurro.
— Você olhou dentro do armário?
— O-olhei — as mãos de Billings estavam unidas com força sobre o peito, com força suficiente para revelar uma lua branca nos nós dos dedos.
— Havia alguma coisa lá dentro? Você viu o...
— Eu não vi nada! — Billings gritou, de repente. Ele soltou as palavras como se uma rolha negra tivesse sido puxada do fundo da sua alma. — Quando ela morreu, eu a encontrei, entende? E ela estava preta. Toda preta. Tinha engolido a própria língua e estava tão preta quanto um ator pintado de negro em uma comédia e olhava fixamente para mim. Seus olhos se pareciam com os que a gente vê em animais empalhados, brilhantes e medonhos, como mármore, e me diziam ele me pegou, pai, você deixou ele me pegar, você me matou, você o ajudou a me matar... —
suas palavras foram morrendo.
Uma única lágrima, muito grande e silenciosa, correu pelo lado da sua face.
— Foi uma convulsão cerebral, entende? — ele prosseguiu.
— Isso acontece com as crianças, às vezes. Um sinal errado mandado pelo cérebro. Fizeram uma autópsia no Hartford Receiving e disseram que ela engoliu a própria língua devido à convulsão. E tive que ir para casa sozinho, porque mantiveram Rita sedada. Ela estava fora de si. Tive que voltar para aquela casa sozinho, e sei que uma criança não tem convulsões porque o seu cérebro simplesmente pifou. Você pode assustar uma criança até que ela tenha convulsões. E tive que voltar para a casa onde a coisa estava.
Ele sussurrou:
— Dormi no sofá. Com a luz acesa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Tive um sonho — Billings disse. — Estava num quarto escuro e havia algo que eu não... eu não conseguia ver direito, no armário. Fazia um barulho... um barulho úmido.
Lembrou-me uma revista em quadrinhos que eu havia lido quando era criança.
Contos da Cripta, o senhor se lembra disso? Jesus! Tinham um sujeito chamado Graham Ingles; ele conseguia desenhar as coisas mais horrorosas deste mundo... e algumas do outro. Seja como for, nessa história a mulher afogava o marido, entende? Prendia blocos de cimento nos pés dele e o jogava num poço. Só que ele voltava. Estava todo podre e verde-escuro, e os peixes haviam comido seus olhos, e havia algas em seus cabelos. Ele voltava e a matava. E
quando acordei no meio da noite, achei que aquela criatura estava debruçada sobre mim. Com garras... garras compridas...
O Dr. Harper olhou para o relógio digital sobre a escrivaninha. Lester Billings estava falando já fazia quase meia hora. Ele disse:
— Quando sua mulher voltou para casa, qual foi a atitude dela para com você?
— Ela ainda me amava — Billings disse, com orgulho. —
Ainda queria fazer o que eu mandasse. Esse é o lugar da mulher, certo? Esse movimento feminista só produz gente doente. A coisa mais importante da vida de uma pessoa é que ela conheça seu lugar... Seu... seu... ã...
— Seu devido lugar?
— É isso! — Billing estalou os dedos. — É exatamente isso. E
uma mulher deve seguir o marido. Ah, ela ficou meio abatida, por assim dizer, durante os primeiros quatro ou cinco meses depois do que houve... se arrastava pela casa, não cantava, não via tevê, não ria. Eu sabia que ela ia superar isso. Quando eles são assim tão pequenos, você não se sente tão apegado. Depois de algum tempo, tem que abrir uma gaveta da cômoda e ver um retrato para conseguir se lembrar de como exatamente eles eram.
— Ela queria outro bebê — ele acrescentou, sombrio. —
Disse-lhe que era uma má idéia. Ah, não para sempre, mas por algum tempo. Disse-lhe que era um período para que nós superássemos as coisas e começássemos a desfrutar da companhia um do outro. Nunca tínhamos tido chance de fazer isso antes. Se a gente queria ir ao cinema, tinha que sair à cata de uma baby-sitter. Não dava para ir à cidade ver os Mets a menos que a família dela ficasse com as crianças, porque a minha mãe não queria saber de nós.
Denny nasceu cedo demais após o nosso casamento, entende? Ela dizia que Rita não passava de uma vagabunda, uma rameirazinha qualquer. Rameira é como a minha mãe sempre as chamou. Não é uma figura? Uma vez me fez sentar e ouvir as doenças que a gente pode contrair se estiver com uma r... com uma prostituta. Como o seu pa... o seu pênis fica com uma feridinha de nada certo dia e no dia seguinte está caindo de podre.
Ela sequer foi ao casamento.
Billings tamborilou com os dedos no peito.
— O ginecologista de Rita convenceu-a a usar esse tal de DIU... dispositivo intra-uterino. Infalível, o médico disse. É só
enfiar lá na... lá no lugar da mulher e pronto. Se houver alguma coisa lá dentro, o ovo não consegue ser fertilizado.
A pessoa nem sabe que a coisa está lá — ele sorriu para o teto com uma doçura sombria. — A pessoa nem sabe se a coisa está lá ou não. E no ano seguinte, ela está grávida de novo.
Infalível, sim senhor.
— Nenhum método anticoncepcional é perfeito — Harper disse. — A pílula só é 98 por cento. O DIU pode ser eliminado pelas cólicas, fluxo menstrual forte e, em casos excepcionais, pela evacuação.
— É. Ou você pode tirá-lo.
— É possível.
— Então o que acontece em seguida? Lá está ela tricotando roupinhas, cantando no chuveiro e comendo picles feito louca. Sentando-se no meu colo e dizendo coisas sobre como devia ter sido a vontade de Deus. O cacete!
— O bebê nasceu no final do ano após a morte de Shirl?
— Correto. Um menino. Ela o chamou de Andrew Lester Billings. Eu não queria nada com o bebê, pelo menos no começo. Meu lema era: ela ferrou com tudo, então agora que cuide. Sei como isso soa, mas o senhor precisa se lembrar de que eu havia passado por um bocado de coisa.
“Mas acabei me apegando a ele, sabe? Era o único entre as crianças que se parecia comigo, para começo de conversa.
Denny se parecia com a mãe, e Shirl não se parecia com ninguém, exceto talvez com minha avó Ann. Mas Andy era a minha cara, cuspida e escarrada.
“Comecei a ficar brincando com ele no cercadinho quando chegava em casa do trabalho. Ele só agarrava meu dedo e sorria e fazia gugu. Nove semanas de vida e o garoto estava sorrindo para o pai. Acredita nisso?
“Então, certa noite, lá estou eu voltando de uma farmácia com um móbile para pendurar no berço do garoto. Eu! As crianças não ligam para presentes até que tenham idade suficiente para dizer obrigado, é o que eu sempre digo. Mas lá estava eu, comprando essas bobagens para ele e de repente me dando conta de que o amava mais do que tudo.
Nessa época tinha um outro emprego, bastante bom, vendendo brocas de perfuração para Cluett and Sons.
Estava me saindo muito bem, e quando Andy estava com um ano nós nos mudamos para Waterbury. Aquele lugar tinha muitas lembranças ruins.
“E armários demais.
“O ano seguinte foi o melhor para nós. Eu daria todos os dedos da minha mão direita para tê-lo de volta. Ah, a guerra do Vietnã ainda não havia acabado, e os hippies ainda estavam por aí, sem roupa, e os negros estavam fazendo um bocado de barulho, mas nada disso nos dizia respeito.
Estávamos numa rua tranqüila com vizinhos agradáveis.
Éramos felizes — ele resumiu, simplesmente. — Perguntei uma vez a Rita se ela não estava preocupada. O senhor sabe, o azar sempre vem em número de três e tudo isso. Ela disse que não para nós. Disse que Andy era especial. Disse que Deus havia desenhado um círculo ao redor dele.”
Billings fitou o teto com um olhar mórbido.
— O ano passado não foi tão bom. Alguma coisa na casa mudou. Comecei a deixar minhas botas no corredor, porque não gostava mais de abrir a porta do armário.
Eu ficava pensando: Muito bem, e se aquela coisa estiver lá dentro? Toda encolhida e pronta para saltar no momento em que eu abrir a porta? E comecei a achar que ouvia barulhos úmidos, como se algo preto e verde e molhado estivesse se mexendo lá dentro, discretamente.
“Rita me perguntou se eu estava trabalhando demais, e comecei a responder com grosseria, como nos velhos tempos. Odiava ter que deixá-los sozinhos para ir trabalhar, mas era bom sair. Que Deus me perdoe, era bom sair.
Comecei a pensar, compreende, que a coisa havia perdido nosso rastro por algum tempo quando nos mudamos. Teve que nos caçar, movendo-se furtivamente pelas ruas de noite e talvez se arrastando pela rede de esgoto. Buscando o nosso cheiro. Custou-lhe um ano, mas nos encontrou.
Estava de volta. Queria Andy e a mim também. Comecei a achar que talvez se você pensar numa determinada coisa por tempo suficiente e acreditar nela, ela se torna real.
Talvez todos os monstros de que tínhamos medo quando éramos crianças, Frankenstein e o lobisomem e a múmia, talvez eles fossem reais. Reais o suficiente para matar crianças que teoricamente caíram em poços, ou se afogaram em lagos, ou simplesmente nunca foram encontradas. Talvez...
— Você está evitando alguma coisa, Sr. Billings?
Billings ficou em silêncio por um longo tempo — o relógio digital marcou dois minutos. Então disse, abruptamente:
— Andy morreu em fevereiro. Rita não estava lá. Tinha recebido um telefonema de seu pai. Sua mãe tinha sofrido um acidente de carro depois do Ano-Novo e não tinham esperanças de que sobrevivesse. Ela tomou um ônibus naquela noite.
“Sua mãe não morreu, mas ficou em estado crítico por um longo tempo — dois meses. Eu contratei uma mulher muito boa que cuidava de Andy durante o dia. À noite, ficávamos em casa. E as portas dos armários ficavam se abrindo.”
Billings passou a língua pelos lábios.
— O garoto estava dormindo no quarto comigo. Isso também é engraçado. Rita uma vez me perguntou, quando ele estava com 2
anos, se eu queria passá-lo para o outro quarto. Spock1 ou um
outro desses charlatães dizem que é ruim para as crianças dormir com os pais, entende?
Teoricamente, isso lhes causa traumas com relação ao sexo e tudo mais. Mas nós nunca fazíamos a menos que o garoto estivesse dormindo. E eu não queria passá-lo para o outro quarto. Estava com medo, depois de Denny e Shirl.
— Mas acabou passando, não foi? — perguntou o Dr. Harper.
— Foi — Billings disse. Ele sorriu um sorriso amarelo, doentio. — Acabei passando.
Silêncio novamente. Billings lutava contra ele.
— Tive que fazer isso! — ele exclamou, por fim. — Tive que fazer! Estava tudo bem quando Rita estava lá, mas depois que ela se foi, a coisa começou a ficar mais audaciosa.
Começou... — ele rolou os olhos na direção de Harper e mostrou os dentes num sorriso desatinado. — Ah, o senhor não vai acreditar. Sei o que está pensando, mais um maluco para o seu arquivo, sei disso, mas o senhor não estava lá, seu bisbilhoteiro metido a besta. “Certa noite, todas as portas da casa se escancararam de repente. Certa manhã, eu me levantei e encontrei um rastro de lama e sujeira pelo corredor entre o armário dos casacos e a porta da frente. Será que ele estava saindo? Entrando?
Não sei! Jesus Cristo, simplesmente não sei! Discos todos arranhados e cobertos de limo, espelhos quebrados... e os barulhos... os barulhos...”
Ele passou a mão pelo cabelo.
— Você acordava às três da manhã e olhava para a escuridão e a princípio pensava “É só o relógio”. Mas podia ouvir alguma coisa se movendo lá embaixo, discretamente.
Mas não discretamente demais, porque queria que você ouvisse. Um som escorregadio e úmido, como alguma coisa no ralo da cozinha. Ou um estalo, como garras arrastando-se de leve sobre o corrimão da escada. E você fechava os olhos, sabendo que ouvir aquilo era ruim, mas que se visse...
“E o tempo todo você ficava com medo de que os sons se interrompessem durante algum tempo, e que em seguida fosse ouvir uma risada bem diante do seu rosto e sentir um bafo de repolho podre no seu rosto, e depois mãos na sua garganta.
Billings estava pálido e tremendo.
“Então eu o transferi para o quarto. Sabia que a coisa ia atrás dele, entende?
Porque ele era mais fraco. E foi o que aconteceu. Naquela mesma primeira noite, ele gritou no meio da madrugada e finalmente, quando eu me sentia com colhões o suficiente para entrar, ele estava de pé na cama, gritando. ‘O bicho-papão, pai... bicho-papão... quero ir com o papai, ir com o papai.’”
A voz de Billings assumiu um timbre agudo alto, como o de uma criança. Seus olhos pareciam ocupar seu rosto todo; era quase como se ele afundasse no divã.
— Mas eu não consegui — o timbre irregular e infantil continuou —, eu não consegui. E uma hora mais tarde, houve um grito. Um grito medonho, como um gorgolejar. Eu soube o quanto o amava porque corri lá para dentro, nem mesmo cheguei a acender a luz, corri, corri, corri, ah, meu Jesus Cristo, a coisa o havia apanhado; sacudia o garoto, como um cachorro sacode um pedaço de pano, e eu pude ver algo com ombros horrivelmente caídos e uma cabeça de espantalho, e pude sentir o cheiro semelhante ao de um rato morto numa garrafa de refrigerante, e ouvi... — ele se interrompeu, então sua voz retomou o timbre de adulto. —
Ouvi quando o pescoço de Andy se partiu — a voz de Billings era fria e inexpressiva. — Fez um som como gelo quebrando quando você está patinando num lago no interior, no inverno.
— E então, o que aconteceu?
— Ah, eu corri — Billings disse, com a mesma voz fria e inexpressiva. — Fui para uma dessas lanchonetes que ficam abertas 24 horas. Um bom exemplo de total covardia, não é mesmo? Corri para uma lanchonete 24 horas e tomei seis xícaras de café.
Depois fui para casa. Já amanhecia. Chamei a polícia antes mesmo de subir ao andar de cima. Ele estava deitado no chão, olhando para mim. Me acusando. Uma quantidade bem pequena de sangue havia escorrido de um ouvido. Na verdade, apenas uma gota. E a porta do armário estava aberta... mas só uma fresta.
A voz parou. Harper olhou para o relógio digital. Cinqüenta minutos haviam se passado.
— Marque uma sessão com a enfermeira — ele disse. — Na verdade, marque várias. Terças e quintas?
— Só vim para contar minha história — Billings disse. —
Para desabafar. Menti para a polícia, entende? Disse a eles que o garoto devia ter tentado sair do berço durante a noite e... eles engoliram. Claro que sim. Porque era isso que parecia. Acidental, como os outros. Mas Rita sabia. Rita...
finalmente... sabia...
Ele cobriu os olhos com o braço direito e começou a chorar.
— Sr. Billings, há muita coisa a conversar. — O Dr. Harper disse, após uma pausa. — Acredito que podemos remover parte da culpa que você está carregando, mas em primeiro lugar precisa querer se livrar dela.
— Não acredita que é o que eu quero? — Billings exclamou, tirando o braço da frente dos olhos. Estavam vermelhos, inchados, machucados.
— Ainda não — Harper disse, a voz baixa. — Terças e quintas?
Depois de um longo silêncio, Billings balbuciou:
— Maldito analista. Está certo. Está certo.
— Marque um horário com a enfermeira, Sr. Billings. E tenha um bom dia.
Billings deu um riso sem graça e saiu rapidamente do consultório, sem olhar para trás.
O balcão da enfermeira estava vazio. Um bilhete sobre a mesa dizia: “Volto em um minuto.”
Billings se virou e voltou ao consultório.
— Doutor, sua enfermeira...
A sala estava vazia.
Mas a porta do armário estava aberta. Só uma fresta.
— Tão bom — a voz do armário disse. — Tão bom.
As palavras pareciam saídas de uma boca cheia de algas podres.
Billings ficou imobilizado no lugar enquanto a porta do armário se abriu. Ele sentiu um ligeiro calor na virilha ao urinar nas calças.
— Tão bom — disse o bicho-papão ao sair, arrastando os pés.
Ainda segurava a máscara do Dr. Harper numa das mãos apodrecidas, com enormes garras.
1- Dr. Spock, famoso pediatra americano e autor de best-sellers sobre educação infantil.
(N. da T.)
Massa Cinzenta
Durante toda a semana, previram uma tempestade vinda do norte, e por volta de quinta-feira ela chegou, uma nevasca violenta de ventos uivantes que já amontoara 20
centímetros de neve às quatro da tarde e não dava sinais de que fosse diminuir. Os cinco ou seis de sempre estavam reunidos ao redor do forno-fogão Reliable no Henry’s Nite-Owl, o único estabelecimento desta parte de Bangor que fica aberto noite e dia.
O bar do Henry não fatura muito — basicamente, vende cerveja e vinho para os garotos da faculdade —, mas ele se
vira, e é um lugar em que nós, os velhos aposentados, podemos nos encontrar para comentar quem morreu recentemente e como é que este mundo está indo para o inferno.
Nessa tarde, Henry estava no balcão; Bill Pelham, Bertie Connors, Carl Littlefield e eu estávamos perto do fogão. Lá fora, nem um único carro passava pela Ohio Street, e os tratores davam duro para remover a neve. O vento soprava forte e formava montes que pareciam a espinha dorsal de um dinossauro.
Henry só tinha tido três fregueses durante toda a tarde —
isso se você contar o cego Eddie. Eddie tem cerca de 70
anos, e não é totalmente cego. Na maioria das vezes, esbarra nas coisas. Aparece uma ou duas vezes por semana e coloca uma fatia de pão debaixo do casaco e sai com uma expressão no rosto que parece dizer: Aí está, seus idiotas de uma figa, enganei vocês de novo.
Bertie uma vez perguntou a Henry por que ele nunca punha um fim àquilo.
— Vou lhe dizer — Henry falou. — Alguns anos atrás, a Força Aérea queria 20
milhões de dólares para fabricar o protótipo de um avião que tinham planejado. Bem, custou 75 milhões e o desgraçado não voava. Isso aconteceu faz dez anos, quando o cego Eddie e eu éramos consideravelmente mais jovens, e eu votei na mulher que patrocinou o projeto. O cego Eddie votou contra. E, desde então, eu pago o pão dele.
Bertie não pareceu compreender muito bem a história, mas se recostou na cadeira para refletir.
A porta então se abriu de novo, deixando passar uma rajada do frio ar cinzento lá de fora, e um jovem entrou, batendo os pés para sacudir a neve. Reconheci-o depois de um segundo. Era o filho de Richie Grenadine, e parecia ter chupado limão. Seu pomo-de-adão subia e descia, e seu rosto estava da cor de um oleado velho.
— Sr. Parmalee — ele disse a Henry, os olhos rolando nas órbitas como se fossem rolamentos de esferas —, o senhor precisa vir. Precisa levar a cerveja para ele e vir. Não posso voltar lá. Estou com medo.
— Vamos com calma — Henry disse, tirando o avental branco de açougueiro e saindo de trás do balcão. — Qual é o problema? Seu pai está bêbado?
Quando ele disse isso, me dei conta de que Richie não aparecia fazia um bom
tempo. Normalmente, passava uma vez por dia para levar uma caixa da cerveja que estivesse mais barata no momento, um homem grandalhão e gordo com uma papada igual ao traseiro de um porco e braços iguais a uma peça de presunto. Richie sempre havia exagerado na cerveja, mas lidava bem com isso, enquanto trabalhava na serraria em Clifton. Então, algo aconteceu... uma máquina de polpação funcionou mal, ou talvez Richie apenas tenha inventado isso... e Richie estava dispensado do trabalho, livre para voar, com a companhia da serraria pagando-lhe indenização. Algo nas suas costas. Seja como for, ficou absurdamente gordo. Não andava aparecendo ultimamente, embora de vez em quando eu visse seu garoto buscar a caixa noturna de Richie. Um garoto muito bonzinho. Henry vendia-lhe a cerveja, pois sabia que o garoto estava apenas obedecendo ao pai.
— Ele está bêbado — o garoto dizia, agora — mas esse não é o problema. É
que... que... ah, meu Deus, é horrível!
Henry viu que ele ia chorar, então disse, bem depressa:
— Carl, você pode dar uma olhada nas coisas por um instante?
— Claro.
— Muito bem, Timmy, você vem comigo até o depósito e me explica o que está acontecendo.
Levou o garoto consigo, e Carl passou para trás do balcão e sentou-se no banco de Henry. Ninguém disse uma palavra durante um bom tempo. Podíamos ouvi-los lá atrás, a voz grave e lenta de Henry, e depois o agudo de Timmy Grenadine falando muito rápido. Então o garoto começou a chorar, e Bill Pelham pigarreou e começou a colocar fumo no cachimbo.
— Faz uns dois meses que não vejo Richie — disse eu.
Bill resmungou:
— Não faz falta.
— Ele esteve aqui... ah, quase no fim de outubro — Carl disse. — Perto do Halloween. Comprou uma caixa de cerveja Schlitz. Estava ficando horrivelmente gordo.
Não havia mais muito o que dizer. O garoto ainda estava chorando, mas falava ao mesmo tempo. Lá fora o vento continuava uivando e urrando, e o rádio disse que teríamos mais uns 15 centímetros de neve pela manhã. Estávamos
no meio de janeiro e eu me perguntava se alguém teria visto Richie desde outubro — exceto seu garoto, é claro.
A conversa prosseguiu por um bom tempo, mas finalmente Henry e o garoto saíram. O garoto havia tirado o casaco, mas Henry colocara o seu. O garoto estava respirando fundo, como você faz quando o pior já passou, mas seus olhos estavam vermelhos, e, quando cruzavam os seus, ele os virava para o chão.
Henry parecia preocupado.
— Pensei em mandar Timmy lá para cima e pedir para a minha mulher preparar um queijo-quente para ele, ou algo assim. Talvez alguns de vocês pudessem dar um pulo na casa de Richie comigo. Timothy está dizendo que ele quer umas cervejas. Já me deu o dinheiro — tentou sorrir, mas a situação era difícil, e ele logo desistiu.
— Claro — Bertie disse. — Que marca de cerveja? Vou lá pegar.
— Traga umas Harrow’s Supreme — Henry disse. — Temos umas caixas em promoção lá atrás.
Também me levantei. Teríamos de ser Bertie e eu. A artrite de Carl fica terrível
em dias assim, e Billy Pelham já não consegue mais usar muito bem o braço direito.
Bertie trouxe quatro caixas de seis Harrow’s, e embalei enquanto Henry levava o garoto para o apartamento, no andar de cima.
Bem, ele acertou as coisas com sua patroa e voltou para baixo, dando uma olhada por cima do ombro para se
certificar de que a porta de cima estava fechada. Billy perguntou, mal reprimindo a curiosidade:
— O que houve? Richie andou batendo no garoto?
— Não — Henry disse. — Prefiro não dizer nada por enquanto. Pareceria loucura. Mas vou mostrar uma coisa a vocês. O dinheiro com que Timmy deveria pagar a bebida.
Tirou quatro notas de um dólar do bolso, segurando-as pelas beiradas, e não o culpo. Estavam todas cobertas por uma substância cinzenta e viscosa que parecia essa espuma que se forma sobre um enlatado estragado. Colocou-as sobre o balcão com um sorriso gozado e disse a Carl:
— Não deixe ninguém tocar nisto. Nem se a metade do que o garoto contou for verdade!
E ele deu a volta, indo até a pia ao lado do balcão de carnes, e lavou as mãos.
Levantei-me, vesti meu casaco de marinheiro e meu cachecol e fechei os botões.
Não adiantava ir de carro; Richie morava num prédio em Curve Street, que é tão íngreme quanto a lei permite, e é o último lugar em que os tratores de remover a neve costumam passar.
Quando saíamos, Bill Pelham nos chamou:
— Tomem cuidado, viu?
Henry apenas fez que sim e colocou o pacote com as Harrow’s no carrinho de mão que está sempre junto à sua porta, e lá fomos nós rolando-o pela rua.
O vento nos atingiu como um serrote, e no mesmo instante levantei meu cachecol, cobrindo as orelhas. Fizemos uma pausa na porta por apenas um segundo, enquanto Bertie colocava as luvas. Seu rosto estava como que encolhido de dor, e eu sabia como ele se sentia. Para os jovens, é ótimo sair para esquiar o dia todo, ou dirigir aqueles malditos carrinhos velozes de neve durante metade da noite, mas quando você passa dos 70 sem uma troca de óleo, sente aquele vento nordeste soprar no seu coração.
— Não quero amedrontar vocês, garotos — Harry disse, com aquele sorriso esquisito, como que cheio de repugnância. —
Mas vou mostrar-lhes isto assim mesmo.
E vou lhes contar o que o garoto me contou enquanto caminhamos... porque quero que saibam, entendem!
E sacou um revólver calibre .45 de cano longo do bolso do casaco — a arma que tinha sempre carregada debaixo do balcão, desde que começara a funcionar 24 horas por dia, em 1958. Não sei onde ele a arrumou, mas sei que da única vez que a exibiu a um assaltante, o sujeito simplesmente se virou e saiu correndo pela porta. Henry era um cara durão, sem dúvida. E já o vi enxotando um sujeito da faculdade que apareceu uma vez e lhe deu um bocado de trabalho para descontar um cheque. O garoto foi embora como se sua bunda fosse do avesso e ele tivesse que cagar.
Bem, só estou dizendo isso porque Henry queria que Bertie e eu soubéssemos que ele falava sério, e nós também.
Então, lá fomos nós, curvados sob o vento como lavadeiras, Henry empurrando aquele carrinho e nos contando o que o garoto havia dito. O vento tentava levar suas palavras para longe antes que pudéssemos ouvi-las, mas entendemos a maior parte —
mais do que gostaríamos. Eu estava bastante contente por Henry estar levando seu trabuco escondido no bolso do casaco.
O garoto disse que devia ter sido a cerveja — você sabe como, de vez em quando, aparece uma lata estragada.
Choca ou cheirando mal, ou verde como as manchas de urina nas cuecas de um irlandês. Um sujeito uma vez me disse que só é preciso um buraquinho de nada para deixar entrar bactérias que fazem coisas bastante estranhas. O
buraco pode ser tão pequeno que a cerveja mal se derrama, mas as bactérias conseguem entrar. E cerveja é um bom alimento para alguns desses bichos.
Seja como for, o garoto contou que Richie levou para casa uma caixa de Golden Light, como de hábito, naquela noite de outubro, e sentou-se para entorná-la enquanto Timmy fazia o dever de casa.
Timmy estava quase pronto para ir para a cama quando ouviu Richie dizer:
— Jesus Cristo, isto aqui está esquisito.
E Timmy disse:
— O que houve, pai?
— Essa cerveja — Richie disse. — Meu Deus, é o pior gosto que já senti na minha boca.
A maioria das pessoas se perguntaria por que, em nome de Deus, ele bebeu, se o gosto era tão ruim, mas isso porque a maioria das pessoas nunca viu Richie Grenadine bebendo.
Certa tarde, estive em Wally’s Spa e o vi ganhar uma aposta das mais bizarras.
Ele apostou com um sujeito que conseguia beber vinte copos pequenos de cerveja em um minuto. Ninguém dos arredores estava disposto a aceitar a aposta, mas esse comerciante de Montpelier tirou do bolso uma nota de 20
dólares, que Richie cobriu. Já tinha bebido os vinte copos sete segundos antes de completar um minuto — embora, ao sair de lá, estivesse para lá de Bagdá. Então, acho que Richie já havia bebido quase toda aquela lata estragada, antes que seu cérebro pudesse avisá-lo.
— Vou vomitar — Richie disse. — Cuidado!
Mas quando chegou ao banheiro a vontade passou, e tudo terminou ali. O
garoto disse que cheirou a lata, e o cheiro era como se alguma coisa tivesse se arrastado lá para dentro e morrido.
Havia também uma baba cinzenta na parte de cima.
Dois dias depois, o garoto chega em casa da escola e lá está Richie sentado em frente da TV, assistindo àquelas novelas vespertinas com todas as cortinas fechadas.
— O que houve? — Timmy pergunta, pois Richie raramente chega em casa antes das nove, após suas bebedeiras.
— Estou vendo TV — diz Richie. — Não estava a fim de sair hoje.
Timmy acendeu a luz que ficava sobre a pia, e Richie gritou:
— E apague essa maldita luz!
Timmy obedeceu, sem perguntar como haveria de fazer o dever de casa no escuro. Quando o humor de Richie está desse jeito, você não pergunta a ele coisa alguma.
— E vê se me traz umas latinhas — diz Richie. — O dinheiro está em cima da mesa.
Quando o garoto volta, seu pai ainda está sentado no escuro, só que agora também está escuro lá fora. E a TV
está desligada. O garoto começa a ficar apavorado —
bem, quem não ficaria? Nada além de um apartamento na escuridão e o seu pai sentado
num canto como uma massa disforme.
Então ele coloca a cerveja em cima da mesa, sabendo que Richie não gosta da bebida tão gelada a ponto de lhe dar pontadas na testa, e, quando chega perto do seu velho, começa a notar uma espécie de cheiro podre, como um queijo velho que alguém deixou sobre o balcão durante o fim de semana. Mas ele não se preocupa tanto assim, já que o seu velho nunca foi o que você chamaria de pessoa asseada. Em vez disso, vai para o seu quarto e fecha a porta e faz o dever de casa, e depois de algum tempo ouve a TV ser ligada e Richie abrir a primeira latinha da noite.
E por cerca de duas semanas as coisas prosseguiram desse jeito. O garoto se levantava pela manhã e ia para a escola e, quando voltava para casa, Richie estava na frente da televisão, e o dinheiro da cerveja em cima da mesa.
O apartamento também cheirava cada vez pior. Richie não deixava abrir as cortinas de jeito algum, e mais ou menos em meados de novembro fez com que Timmy parasse de estudar no quarto. Disse que não conseguia suportar a luz que vinha por baixo da porta. Então Timmy começou a ir para a casa de um amigo no quarteirão, depois de comprar a cerveja do pai.
Um dia, quando Timmy chegava da escola — eram quatro da tarde e já bastante escuro —, eis que Richie diz:
— Acenda a luz.
O garoto acende a luz de cima da pia, e caramba, Richie está todo embrulhado num cobertor.
— Olhe — Richie diz, e uma de suas mãos se esgueira para fora do cobertor. Só que não é uma de suas mãos de jeito maneira. Alguma coisa cinza, é tudo o que o garoto conseguiu dizer a Henry. Não se parecia com a mão dele nem um pouco. Era só uma massa disforme e cinzenta.
Bem, Timmy Grenadine ficou bastante assustado. Ele pergunta:
— Pai, o que está acontecendo com você?
E Richie diz:
— Sei lá. Mas não dói. Até que eu me sinto... bem.
Então, Timmy diz:
— Vou ligar para o Dr. Westphail.
E o cobertor começa a tremer por inteiro, como se alguma coisa medonha estivesse tremendo — por inteiro — lá embaixo. E Richie diz:
— Não se atreva a fazer isso. Se ligar, eu encosto em você, e você vai acabar deste jeito — e ele descobre o rosto por um minuto apenas.
A essa altura, já estávamos na esquina de Harlow com Curve Street, e eu estava mais frio por dentro do que a temperatura que o termômetro do Crush marcava, na loja
de Henry, quando saímos. Normalmente as pessoas não querem acreditar nesse tipo de coisa, mas ainda assim acontecem fatos estranhos neste mundo.
Certa vez, conheci um sujeito chamado George Kelso, que trabalhava para o Departamento de Obras Públicas de Bangor. Passou 15 anos consertando canos d’água, cabos elétricos, e coisas desse tipo, e de repente, um dia, ele simplesmente largou tudo, a menos de dois anos da aposentadoria. Frankie Haldeman, que o conhecia, disse que George desceu num cano de esgoto em Essex rindo e contando piadas como sempre, e subiu 15 minutos mais tarde com o cabelo branco feito neve e os olhos vidrados, como se acabasse de espiar por uma janela que dava para o inferno. Foi caminhando
diretamente para a garagem do DOP, bateu seu ponto, dali seguiu direto para Wally’s Spa e começou a beber. Foi o que o matou, dois anos mais tarde. Frankie disse que tentou conversar com ele a respeito, e que George disse uma coisa certa vez, isso quando estava completamente bêbado. Ele se virou no banco em que estava sentado e perguntou a Frankie Haldeman se ele alguma vez tinha visto uma aranha do tamanho de um cachorro bem grande, tecendo uma teia cheia de gatinhos e outros bichos todos embrulhados em fios de seda. Bem, o que ele poderia responder? Não estou dizendo que haja alguma verdade nisso, mas estou dizendo que há coisas nos recantos deste mundo capazes de enlouquecer um homem, se ele olhar para elas cara a cara.
Então, ficamos ali parados na esquina por um instante, apesar do vento que uivava na rua.
— O que foi que ele viu? — Bertie perguntou.
— Disse que ainda conseguia ver o pai — Henry respondeu
—, mas disse que era como se ele estivesse enterrado em geléia cinzenta... e estava tudo meio misturado. Ele disse que suas roupas entravam e brotavam da pele, como se tivessem se fundido ao seu corpo.
— Jesus Cristo — Bertie disse.
— Então ele se cobriu todo outra vez e começou a gritar para que o garoto apagasse a luz.
— Como se fosse um fungo — eu disse.
— É — disse Henry. — Mais ou menos isso.
— Vê se fica com a pistola bem à mão — Bertie disse.
— É, acho que vou ficar mesmo — e com isso começamos a subir Curve Street.
O prédio em que ficava o apartamento de Richie Grenadine era quase no alto da ladeira, um daqueles enormes monstros vitorianos construídos pelos barões da madeira na virada do século. Todos eles acabavam de ser transformados em prédios residenciais.
Quando Bertie recuperou o fôlego, disse-nos que Richie morava no terceiro andar, abaixo daquele frontão que ressaltava como se fosse uma sobrancelha. Aproveitei para perguntar a Henry o que havia acontecido com o garoto depois daquilo.
Por volta da terceira semana de novembro, o garoto voltou para casa certa tarde e descobriu que Richie tinha ido além do hábito de baixar as cortinas. Tinha apanhado cobertores e pregado sobre todas as janelas do apartamento. E o cheiro também estava pior — uma espécie de cheiro de mofo, como ficam as frutas quando fermentam com levedura.
Uma semana mais tarde, mais ou menos, Richie mandou o garoto começar a esquentar a cerveja no fogão. Dá para imaginar uma coisa dessas? O garoto sozinho naquele apartamento, com seu pai se transformando num... bem, em alguma coisa... e esquentando sua cerveja e depois tendo que ouvir o sujeito — ouvir o que quer que ele fosse
— engolindo a bebida fazendo barulhos horríveis, como um velho tomando sopa.
Dá para imaginar?
E foi assim que as coisas caminharam até hoje, quando a escola do garoto liberou as crianças mais cedo por causa da tempestade.
— O garoto disse que foi direto para casa — Henry nos contou. — Não havia luz no corredor do andar de cima. O
garoto alega que seu pai devia ter se esgueirado para fora certa noite e quebrado a luz, de modo que ele tinha que ir quase se arrastando até sua porta.
“Bem, ele ouve alguma coisa se mexendo lá dentro, e de repente lhe ocorre que não tem idéia do que Richie faz durante o dia, a semana inteira. Não chegou a ver seu pai sair daquela cadeira durante quase um mês, e em algum momento um homem precisa dormir e ir ao banheiro.
“Há um postigo no meio da porta, e supostamente um trinco do lado de dentro, para mantê-lo fechado, mas está quebrado desde que se mudaram para lá. Então o garoto chega facilmente à porta e empurra um pouquinho o trinco do olho mágico com o polegar, espiando lá dentro.”
A essa altura, estávamos ao pé da escada, e a casa agiganta-se sobre nós como um rosto alto e feio, com aquelas janelas do terceiro andar em lugar dos olhos. Olhei lá para cima, e com certeza aquelas duas janelas estavam pretas como breu. Como se alguém tivesse colocado cobertores sobre elas, ou as pintado de preto.
— Os olhos dele levaram um minuto para se ajustar ao escuro. Então ele viu uma enorme massa cinza, nem um pouco parecida com um homem, deslizando pelo chão, e deixando atrás de si um rastro viscoso e cinzento. E então a coisa meio que esticou um braço... ou algo parecido com um braço... e arrancou uma tábua da parede.
De lá, tirou um gato.
Henry calou-se por um segundo. Bertie batia as mãos uma contra a outra e estava terrivelmente frio lá fora na rua, mas nenhum de nós estava pronto para subir naquele instante.
— Um gato morto — Henry recomeçou — que estava putrefato. O garoto disse que ele parecia todo inchado e duro... e que havia coisinhas brancas se arrastando por todo o seu corpo...
— Pare — Bertie disse. — Pelo amor de Deus.
— E então seu pai comeu o gato.
Tentei engolir e senti um gosto oleoso na garganta.
— Foi quando Timmy fechou o postigo — Henry concluiu, a voz bem baixa. —
E correu.
— Acho que não consigo ir lá em cima — Bertie disse.
Henry ficou em silêncio, apenas olhando para Bertie e para mim, sucessivamente.
— Acho que é melhor irmos — eu disse. — Estamos com a cerveja de Richie.
Bertie não fez nenhum comentário diante disso, então subimos os degraus e passamos pela porta principal. Senti imediatamente o cheiro.
Sabe qual é o cheiro de uma fábrica de cidra no verão? Você nunca consegue tirar o cheiro das maçãs, mas no outono tudo bem, porque é penetrante e forte o suficiente para entupir seu nariz. Mas no verão não passa de um cheiro ruim, e esse cheiro era parecido, só que um pouco pior.
Havia uma luz acesa no corredor do primeiro andar, uma coisinha amarelada e insignificante que projetava um brilho fraco feito soro de leite. E aquela escada subia para o interior das sombras.
Henry parou o carrinho, e enquanto tirava a caixa de cerveja, apertei com o polegar o botão que controlava a lâmpada do segundo andar. Mas estava quebrada, exatamente como o garoto dissera.
Bertie disse, com a voz trêmula:
— Eu levo a cerveja. E você cuide dessa pistola.
Henry não discutiu. Entregou a caixa e começamos a subir, Henry primeiro,
depois eu, e em seguida Bertie com as cervejas nos braços.
Quando chegamos ao corredor do segundo andar, o cheiro
estava muito pior. Maçãs podres, todas fermentadas, e sob esse fedor, um outro ainda pior.
Quando eu morava em Levant, tive um cachorro certa vez
— Rex era o nome dele —, era um bom animal, mas não muito esperto no que dizia respeito a carros. Foi atropelado certa tarde, quando eu estava no trabalho, e se arrastou para baixo da casa e morreu ali. Meu Deus, que fedor. Por fim tive de ir lá embaixo e tirá-lo com uma vara.
Aquele outro fedor era parecido com esse; estragado e pútrido e imundo.
Até aquele momento, eu estava pensando que talvez fosse alguma espécie de brincadeira, mas vi que não era.
— Meu Deus, por que os vizinhos não expulsam Richie? —
perguntei.
— Que vizinhos? — Henry perguntou, e estava sorrindo aquele sorriso esquisito outra vez.
Olhei ao redor e vi que todo o corredor tinha uma espécie de aspecto empoeirado, de desuso, e que as portas de todos os apartamentos do terceiro andar estavam trancadas.
— Só queria saber quem é o senhorio? — Bertie disse, colocando a caixa no balaústre da escada e recobrando o fôlego. — Gaiteau? Fico surpreso por ele não expulsá-lo.
— Quem vai subir e colocá-lo para fora? — Henry perguntou.
— Você?
Bertie não disse nada.
Em seguida, começamos a subir o último lance de escada, que era ainda mais íngreme e estreito do que o anterior.
Também estava mais quente. Pelo som, parecia que cada radiador daquele lugar estava retinindo e assobiando. O cheiro era medonho, e comecei a me sentir como se alguém estivesse mexendo com uma vareta nas minhas entranhas.
No alto, havia um corredor curto, e uma porta com um pequeno postigo no meio.
Bertie choramingou baixinho e sussurrou:
— Olhem só no que a gente está pisando!
Baixei os olhos e vi toda aquela substância viscosa no chão do corredor, em pequenas poças. Parecia ter havido antes um carpete ali, mas a substância cinzenta o havia corroído por completo.
Henry caminhou até a porta, e nós o seguimos. Não sei quanto a Bertie, mas eu estava tremendo feito uma vara verde. Henry, contudo, não hesitou por um único instante; ergueu aquela arma e bateu na porta com a coronha.
— Richie? — ele chamou, e sua voz não parecia nem um pouco amedrontada, embora seu rosto estivesse mortalmente pálido. — Aqui é Henry Parmalee lá da Nite-Owl. Trouxe a sua cerveja.
Não houve resposta por talvez um minuto, e em seguida uma voz disse:
— Onde está Timmy? Onde está o meu garoto?
Quase saí correndo naquele mesmo instante. Aquela voz não era humana de jeito maneira. Era esquisita e grave e
gorgolejante, como alguém falando com a boca cheia de sebo.
— Ele está na minha loja — Henry disse —, comendo uma refeição decente.
Está magro como um gato de rua, Richie.
Não se ouviu coisa alguma durante algum tempo, e depois vieram uns ruídos horríveis, úmidos, como um homem com botas de borracha andando na lama. Então, aquela voz putrefata falou bem do outro lado da porta.
— Abra a porta e empurre a cerveja para dentro — disse. —
Só que tem que abrir todas as latas para mim primeiro. Eu não consigo.
— Num minuto — Henry disse. — Como vai essa forma física, Richie?
— Deixe isso para lá — a voz disse, e estava horrivelmente ansiosa. — Apenas empurre a cerveja e vá embora!
— Já não são mais apenas os gatos mortos, não é? — Henry disse, e seu tom de voz parecia triste. Já não estava mais segurando a pistola com a coronha para cima; agora era a parte séria que vinha primeiro.
E de repente, num lampejo de luz, fiz o raciocínio que Henry já havia feito, talvez no instante mesmo em que Timmy contava sua história. O cheiro de podre e de decomposição pareceu redobrar em minhas narinas quando me lembrei.
Duas meninas e um velho pau-d’água do Exército da Salvação tinham desaparecido na cidade ao longo das últimas três semanas, mais ou menos — sempre depois do anoitecer.
— Empurre a bebida aqui para dentro ou vou sair para pegar — disse a voz.
Henry fez um gesto para que nos afastássemos, e obedecemos.
— Acho que assim é melhor, Richie — ele brandiu a arma.
Não se ouviu mais nada, mas não por muito tempo. Para dizer a verdade, comecei a ter a impressão de que tudo estava acabado. Então a porta se abriu de todo, tão subitamente e com tanta força que chegou a se arquear antes de bater com um estrondo na parede. E de lá saiu Richie.
Foi apenas um segundo, apenas um segundo antes que Bertie e eu estivéssemos descendo aquelas escadas correndo feito dois menininhos, quatro ou cinco degraus de cada vez, e saindo desabalados do prédio para a neve, caindo e escorregando.
Ao descer, ouvimos Henry disparar três vezes, o estrondo dos tiros alto como se fossem granadas nos corredores fechados daquela casa vazia e amaldiçoada.
O que vimos naquele instante de um ou dois segundos vai me acompanhar pela vida inteira — ou pelo que quer que reste dela. Foi como uma imensa onda cinzenta de geléia, geléia que se parecia com um homem e deixava um rastro de limo atrás de si.
Mas isso não foi o pior. Seus olhos eram achatados e amarelos e selvagens, sem uma alma humana por trás. Só que não eram dois. Eram quatro, e bem no meio do corpo da criatura, entre os dois pares de olhos, havia uma linha esbranquiçada e fibrosa, com uma espécie de pele rósea e
pulsante aparecendo, feito um talho na barriga de um porco de abate.
Estava se dividindo, entende? Dividindo-se em dois.
Bertie e eu não dissemos nada um ao outro no caminho de volta para o bar. Não sei o que se passava na mente dele, mas sei muito bem o que ocupava a minha: a tabuada de multiplicação. Dois vezes dois é igual a quatro, quatro vezes dois é igual a oito, oito vezes dois é igual a 16, 16 vezes dois é...