Sombras da Noite
O Bicho-Papão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Que morram de fome.
Olhei para o rapaz e a garota.
— Acho que ele está certo — ele disse. — Essa é a única forma de detê-los. Se alguém fosse vir nos resgatar, já teria vindo. Sabe Deus o que está acontecendo em outros lugares
— e a garota, com Snodgrass nos olhos, balançou a cabeça e deu um passo mais para perto dele.
— Então é isso — eu disse.
Fui até a máquina de cigarros e peguei um maço sem olhar a marca. Eu parara de fumar havia um ano, mas aquela
parecia uma boa ocasião para voltar. A fumaça raspou asperamente o interior dos meus pulmões.
Vinte arrastados minutos se passaram. Os caminhões lá fora, na frente, aguardavam. Nos fundos, estavam fazendo fila junto às bombas.
— Acho que foi tudo um blefe — o caminhoneiro disse. —
Apenas...
Então ouviu-se um som mais alto, mais áspero, mais entrecortado, o som de um motor acelerando e diminuindo, depois acelerando outra vez. O trator.
Reluzia como uma vespa amarela, um Caterpillar com ruidosas esteiras de aço.
Vomitava fumaça negra pelo curto cano de descarga, enquanto dava a volta para se colocar de frente para nós.
— Vai atacar — disse o caminhoneiro. Havia uma expressão de absoluta surpresa estampada em seu rosto. — Vai atacar!
— Para trás — eu disse. — Para trás do balcão.
O trator ainda estava acelerando. As alavancas de controle moviam-se sozinhas. O
ar tremeluzia logo acima de seu cano de descarga fumegante. Subitamente, a lâmina do trator se ergueu, uma pesada curva de aço com terra ressecada presa em seus dentes.
Então, com um rugido tremendo de poder, avançou diretamente em nossa direção.
— O balcão! — dei um empurrão no caminhoneiro, e isso fez com que se mexessem.
Havia uma estreita calçada de concreto entre o estacionamento e a grama. O trator avançou por cima dela, erguendo por um momento a lâmina, depois bateu de frente na parede. A vidraça explodiu para dentro da lanchonete com um rugido estrondoso, e a esquadria de madeira espatifou-se em mil lascas. Um dos globos do teto caiu, arremessando mais vidro partido. A louça caiu das prateleiras. A garota gritava, mas quase não era possível ouvi-la sob o rugido constante e poderoso do motor do Caterpillar.
Deu marcha a ré, passando com um clangor sobre a grama castigada, e tornou a atacar, lançando os reservados remanescentes em pedaços pelo ar. A vitrine das tortas caiu do balcão, e pedaços delas foram arremessados deslizando pelo chão. O cozinheiro estava agachado de olhos fechados, e o rapaz abraçava sua namorada. O caminhoneiro tinha os olhos arregalados de medo.
— Temos que detê-lo — ele balbuciou. — Diga a eles que vamos obedecer, vamos fazer qualquer coisa...
— Um pouco tarde, não acha?
O Caterpillar deu ré e se preparou para atacar novamente.
Novos arranhões em sua lâmina reluziam como espelhos ao sol. Avançou com um rugido tremendo, e dessa vez derrubou a principal coluna à esquerda do que havia sido a janela. Aquela parte do teto caiu com um estrondo. Uma nuvem de pó de reboco formou-se.
O trator recuou, livrando-se dos escombros. Atrás dele, eu podia ver o grupo de caminhões, esperando.
Agarrei o cozinheiro.
— Onde estão os tambores de óleo? — os fogões funcionavam a gás de butano, mas eu tinha visto dutos de uma fornalha para aquecimento do ambiente.
— No depósito, nos fundos — ele disse.
Segurei o garoto.
— Vamos lá.
Levantamos e corremos para o depósito. O trator acertou outra vez o prédio, que estremeceu. Mais duas ou três investidas e já poderia ir diretamente ao balcão tomar uma xícara de café.
Havia dois grandes tambores de 200 litros de óleo, com saídas para a fornalha e torneiras de controle. Havia uma caixa com frascos vazios de ketchup próxima à porta dos fundos.
— Pegue aqueles frascos, Jerry.
Enquanto ele o fazia, tirei minha camisa e rasguei-a em tiras. O trator acertava o
prédio sem cessar, e cada golpe era acompanhado pelo barulho de mais destruição.
Enchi quatro frascos nas torneiras, e ele enfiou os trapos lá dentro.
— Você joga futebol americano? — perguntei-lhe.
— Joguei na escola.
— Muito bem. Finja que está indo para a linha do gol.
Voltamos para o restaurante. Toda a frente estava aberta ao ar livre. Estilhaços de vidro reluziam como diamantes. Uma viga pesada caíra na diagonal, através da abertura.
O trator recuava para retirá-la, e pensei que dessa vez continuaria vindo, abrindo caminho por entre os bancos e depois demolindo o próprio balcão.
Ajoelhamos, estendendo as garrafas.
— Acenda — eu disse ao caminhoneiro.
Ele pegou os fósforos, mas suas mãos tremiam demais, e ele os deixou cair. O
cozinheiro os apanhou, riscou um, e os oleosos trapos de camisa se incendiaram.
— Rápido — eu disse.
Corremos, o garoto ligeiramente à frente. Vidro quebrado estalava e rangia sob nossos pés. Havia um cheiro quente de óleo no ar. Tudo à volta era muito alto e muito claro.
O trator avançou.
O garoto passou por baixo da viga e ficou de pé, a silhueta recortada contra aquela pesada lâmina de aço temperado.
Saí pela direita. O primeiro lançamento do rapaz caiu no chão antes de atingir o alvo. O segundo acertou a lâmina, e a chama se espalhou inofensivamente.
Ele tentou dar meia-volta, mas então o trator estava sobre ele, um rolo compressor feito de quatro toneladas de aço.
Ele lançou os braços para cima e desapareceu, esmagado.
Corri em linha reta e girei de repente, lançando um dos frascos para dentro da cabine aberta, e o segundo bem dentro do motor. Explodiram juntos, numa língua de fogo.
Por um momento, o motor do trator soltou um grito quase humano de dor e de raiva. Ele girou num semicírculo desvairado, arrancando o canto esquerdo da lanchonete, e saiu rolando como bêbado na direção da vala de drenagem.
As lagartas de aço estavam sujas de sangue, e no lugar onde antes estava o garoto havia algo parecido com uma toalha amarrotada.
O trator chegou quase até a vala, com as chamas brotando por baixo do capô do motor e da cabine, e então explodiu numa erupção de fogo.
Recuei aos tropeços e quase caí sobre uma pilha de escombros. Havia um cheiro quente que não era somente óleo. Era cabelo queimando. Eu estava em chamas.
Agarrei uma toalha de mesa, apertei-a contra a cabeça, corri para trás do balcão e mergulhei a cabeça na pia com força suficiente para rachar o fundo. A garota gritava incessantemente o nome de Jerry numa litania esganiçada e enlouquecida.
Virei-me e vi a imensa jamanta aproximando-se devagar da frente exposta da lanchonete.
O caminhoneiro deu um berro e saiu em disparada em direção à porta lateral.
— Não! — o cozinheiro gritou. — Não faça isso...
Mas ele já tinha saído e corria na direção da vala de drenagem e do campo aberto que ficava para além dela.
O caminhão devia estar de sentinela fora do campo de visão daquela porta lateral
— um pequeno furgão com as palavras “Lavanderia Wong”
inscritas do lado.
Atropelou-o antes que nos déssemos conta do que estava acontecendo. E então ele se foi e apenas o caminhoneiro ficou, todo retorcido no cascalho. O golpe atirara para longe seus sapatos.
A jamanta avançou devagar sobre a faixa de concreto, sobre a grama, sobre os restos mortais do garoto, e parou com o enorme focinho dentro da lanchonete.
A buzina de ar comprimido emitiu um súbito e ensurdecedor toque, seguido por outro, e mais outro.
— Pare! — a garota choramingou. — Pare, oh, por favor, pare...
Mas a buzina continuou por um bom tempo. Levei apenas um minuto para identificar o padrão. Era o mesmo de antes.
Queria que alguém a abastecesse, e aos outros.
— Eu vou — disse eu. — As bombas estão liberadas?
O cozinheiro fez que sim com a cabeça. Tinha envelhecido cinqüenta anos.
— Não! — a garota gritou. Atirou-se sobre mim. — Você tem que detê-los!
Tem que acertá-los, queimá-los, quebrá-los... — sua voz vacilou e morreu num soluço sufocado de dor e tristeza.
O cozinheiro segurou-a. Dei a volta pela extremidade do balcão, abrindo caminho por entre os escombros, e saí pela porta do depósito. Meu coração batia com força quando saí para o sol quente. Queria um outro cigarro, mas você não deve fumar perto de bombas de combustível.
Os caminhões ainda estavam enfileirados. Um pouco afetado no piso de cascalho, o furgão da lavanderia parecia pronto para o bote, como um cão de caça, rosnando e grunhindo. Um movimento em falso e ele me esmagaria. O
sol reluzia em seu pára-brisa vazio e eu estremeci. Era como olhar para o rosto de um idiota.
Puxei a alavanca da bomba para a posição “ligado” e peguei a mangueira; desatarraxei a tampa do primeiro tanque e comecei a enchê-lo de combustível.
Levei meia hora para esvaziar o primeiro tanque subterrâneo, e então passei para a segunda ilha de bombas.
Eu alternava entre gasolina e diesel. Os caminhões passavam numa fila interminável. Agora começava a compreender. As pessoas estavam fazendo a mesma coisa em todo o país, ou então jaziam mortas como o caminhoneiro, com os sapatos atirados para longe e grandes marcas de pneu impressas em suas barrigas esmagadas.
O segundo tanque subterrâneo esvaziou-se, e passei para o terceiro. O sol me castigava como um martelo e minha cabeça começava a doer devido aos vapores do combustível. Eu tinha bolhas na pele macia entre o polegar e o indicador. Mas os caminhões não tinham como sabê-lo.
Só entendiam de tubulações com vazamento e juntas
queimadas e eixos grimpados, mas nada sabiam a respeito de bolhas ou insolação ou vontade de gritar. Só precisavam saber de uma coisa acerca de seus antigos senhores, e sabiam. Nós sangrávamos.
O último tanque ficou vazio, e joguei a mangueira no chão.
Ainda havia mais caminhões, alinhados numa fila que dobrava a esquina do prédio. Virei a cabeça para aliviar uma cãibra no pescoço e arregalei os olhos. A fila se estendia até o estacionamento da frente, seguia pela estrada até se perder de vista, com duas e três colunas. Era como um pesadelo com a auto-estrada de Los Angeles na hora do rush. O horizonte tremeluzia
e dançava com os gases do escapamento; o ar fedia a carburação.
— Não — eu disse. — A gasolina acabou. Acabou de todo, pessoal.
Ouviu-se então um ronco mais forte, um ruído grave de fazer os dentes chacoalhar. Um imenso caminhão prateado se aproximava, um caminhão-tanque. Estava escrito em sua lateral: “Encha o tanque com Phillips 66 — o Combustível dos Aeroportos!”.
Uma mangueira pesada caiu da traseira.
Fui até lá, apanhei-a, abri a tampa do primeiro tanque subterrâneo e atarraxei a mangueira. O caminhão começou a bombear. O fedor do petróleo se infiltrou em mim
— o mesmo cheiro que os dinossauros deviam morrer sentindo, quando caíam nos poços de alcatrão. Enchi os outros dois tanques e voltei ao trabalho.
Minha consciência começou a se esvair a um ponto em que perdi a noção do tempo e da quantidade de caminhões. Eu desatarraxava a tampa, enfiava a mangueira no buraco, abastecia até que o líquido quente e espesso derramasse, então recolocava a tampa. Minhas bolhas estouraram, e o pus escorria até meus pulsos. Minha cabeça latejava como um dente podre e meu estômago se revolvia desamparadamente com o fedor dos hidrocarbonetos.
Eu ia desmaiar. Ia desmaiar e isso seria o meu fim. Eu abasteceria combustível até cair.
Senti então mãos em meus ombros, as mãos escuras do cozinheiro.
— Vá para dentro — ele disse. — Descanse. Vou cuidar disso até o anoitecer.
Tente dormir.
Entreguei-lhe a bomba.
Mas não consigo dormir.
A garota dorme. Está esparramada no canto com a cabeça sobre uma toalha de mesa, e seu rosto não se descontrai nem mesmo durante o sono. É o rosto inalterável, eterno de uma bruxa guerreira. Vou acordá-la daqui a pouco. Já está escurecendo e o cozinheiro está lá fora há cinco horas.
Eles continuam chegando. Olho lá para fora pela janela destruída e seus faróis se estendem por uns dois quilômetros e meio ou mais, reluzindo como safiras amarelas na escuridão crescente. A fila deve se estender até a auto-estrada, talvez para além dela.
A garota vai ter de fazer o seu turno. Posso ensinar-lhe como. Ela vai dizer que não é capaz, mas terá de fazê-lo.
Quer continuar viva.
Quer que sejamos escravos deles?, o cozinheiro dissera.
Isso é o que vai acabar acontecendo. Quer passar o resto da sua vida trocando filtros de óleo a cada vez que uma daquelas coisas buzinar?
Talvez pudéssemos fugir. Seria fácil chegar até a vala de drenagem agora, do jeito como estão enfileirados, bem juntos um do outro. Correr pelos campos, pelos pântanos onde os caminhões atolariam como mastodontes, e...
... voltar às cavernas.
Fazer desenhos com carvão. Este é o deus da lua. Esta é uma árvore. Este é um caminhão Mack matando um caçador.
Nem mesmo isso. Uma parte tão grande do mundo é agora pavimentada. Até mesmo os pátios são pavimentados. E
para todos os campos e pântanos e florestas cerradas há tanques,
semitratores, veículos militares equipados com laser, maser,1
radares guiados pelo calor. E pouco a pouco podem transformar este mundo no mundo que desejam.
Posso ver enormes comboios de caminhões enchendo o Pântano Okefenokee de areia, os tratores abrindo caminho pelos parques nacionais e pelas florestas, nivelando a terra, reduzindo-a a uma única e vasta planície. Então os caminhões-chefe chegando.
Mas eles são máquinas. Não importa o que lhes tenha acontecido, qual a consciência de massa que lhes tenhamos
dado, não são capazes de se reproduzir. Dentro de cinqüenta ou sessenta anos, serão carcaças enferrujadas destituídas de toda a possibilidade de nos ameaçar, carcaças imóveis em que os homens livres atirarão pedras e cuspirão.
E se eu fechar os olhos, posso ver as linhas de montagem em Detroit e Dearborn e Youngstown e Mackinac, novos caminhões sendo montados por operários que já não batem mais cartões de ponto, mas simplesmente caem mortos e são substituídos.
O cozinheiro já está cambaleando um pouco. Também é um cara velho. Tenho de acordar a garota.
Dois aviões deixam rastros prateados no horizonte que vai escurecendo, a leste.
Gostaria de poder acreditar que há pessoas a bordo.
1- Uma das maiores raças de cavalo do mundo. (N. da E.)
2- Precursor do laser, que funciona a partir de radiação de microondas. (N. da T.)
Às Vezes Eles Voltam
A mulher de Jim Norman ficara esperando por ele desde as duas horas, e quando viu o carro parar em frente ao prédio saiu para recebê-lo. Tinha ido até a loja comprar comida para comemorarem — dois bifes, uma garrafa de Lancer’s, um pé de alface e molho Thousand Island. Agora, observando-o sair do carro, viu que desejava desesperadamente (e não pela primeira vez naquele dia) que houvesse algo a comemorar.
Ele veio pela calçada, segurando a pasta nova numa das mãos e quatro livros didáticos na outra. Ela podia ver o título na capa do que estava por cima — Introdução à Gramática. Pôs as mãos em seu ombro e perguntou:
— Como foi?
E ele sorriu.
Mas naquela noite ele voltou a ter o velho sonho pela primeira vez em muito tempo, e acordou suando, com um grito preso na garganta.
Sua entrevista fora conduzida pelo diretor da Escola Harold Davis e pelo chefe do Departamento de Inglês. O assunto de seu colapso tinha surgido. Ele já esperava por isso.
O diretor, um homem careca e cadavérico chamado Fenton, recostara e ficara olhando para o teto. Simmons, o chefe do Departamento de Inglês, acendera o cachimbo.
— Eu estava sob um bocado de pressão naquela época —
Jim Norman disse.
Seus dedos queriam agitar-se em seu colo, mas ele não deixaria.
— Acho que compreendemos isso — Fenton disse, sorrindo.
— E embora não seja nosso desejo parecer intrometidos, com certeza todos concordamos que o ensino é uma ocupação que nos pressiona, sobretudo no nível médio.
Estamos no palco durante cinco dos sete períodos diários de aula, e atuamos diante da platéia mais difícil do mundo. É
por isso — ele concluiu, com certo orgulho — que os professores têm mais úlceras do que qualquer outro grupo profissional, à exceção dos controladores de tráfego aéreo.
Jim disse:
— As pressões envolvidas no meu colapso foram...
extremas.
Fenton e Simmons fizeram que sim num encorajamento neutro e Simmons abriu seu isqueiro com um clique, para reacender o cachimbo. Subitamente, o gabinete parecia muito pequeno e abafado. Jim tinha a estranha sensação de que alguém acabara de acender uma lâmpada de aquecimento atrás de seu pescoço. Seus dedos agitavam-se no colo, e ele os obrigou a parar.
— Eu estava no último ano da universidade e estagiava como professor. Minha mãe tinha morrido no verão anterior... câncer... e em nossa última conversa ela havia me pedido para ir em frente e terminar o curso. Meu irmão, meu irmão mais velho, morreu quando éramos ambos muito jovens. Ele planejava ser professor e ela pensou...
Notou pelo olhar deles que estava divagando, e pensou: Meu Deus, estou estragando tudo.
— Fiz o que ela me pediu — disse, deixando de lado o complicado relacionamento entre sua mãe e seu irmão Wayne, o pobre Wayne, que fora assassinado... e ele próprio. — Durante a segunda semana do meu estágio temporário, minha noiva foi envolvida num atropelamento.
Ela foi a vítima. Algum garoto num carrão envenenado...
Nunca o apanharam.
Simmons fez um leve ruído de encorajamento.
— Fui em frente. Não parecia haver outro caminho. Ela estava sentindo um bocado de dor... uma fratura grave na perna e quatro costelas quebradas... mas não corria perigo
de vida. Não creio que eu próprio realmente soubesse a pressão a que estava submetido.
Tome cuidado agora. Este é o terreno delicado.
— Estagiei na Escola de Ofícios Vocacionais de Center Street
— Jim disse.
— O jardim encantado da cidade — Fenton disse. —
Canivetes automáticos, botas de motocicleta, armas de fabricação caseira nos armários, extorsão do dinheiro do lanche e um entre cada três garotos vendendo drogas aos outros dois. Conheço bem a Escola de Ofícios.
— Havia um garoto chamado Mack Zimmerman — disse Jim.
— Um garoto sensível. Tocava violão. Fui seu professor numa turma de redação, ele tinha talento.
Cheguei certa manhã e dois garotos o seguravam, enquanto um terceiro destroçava seu violão Yamaha de encontro ao radiador. Zimmerman gritava. Dei um berro, mandando que parassem com aquilo e me dessem o violão. Avancei na direção deles e alguém me agrediu — Jim deu de ombros. —
Foi isso. Tive um colapso. Não do tipo que me levasse a ficar gritando ou me encolher num canto. Simplesmente não conseguia voltar lá.
Quando me aproximava da Escola de Ofícios, sentia um aperto no peito. Não conseguia respirar direito, começava a suar frio...
— Isso também acontece comigo — disse Fenton, amigavelmente.
— Comecei a fazer análise. Terapia de grupo. Não tinha condições de pagar um psiquiatra. O tratamento me fez bem. Sally e eu estamos casados. Ela manca um pouco e
tem uma cicatriz, mas fora isso está nova em folha —
encarou-os abertamente. — Acho que podem dizer o mesmo a meu respeito.
Fenton disse:
— Você finalmente completou seu estágio na Escola Cortez, correto?
— Aquilo lá também não é nenhum mar de rosas —
Simmons disse.
— Eu queria uma escola dura — disse Jim. — Fiz uma troca com um outro sujeito para conseguir ir para a Cortez.
— Recebeu A nas avaliações do seu supervisor e do professor parecerista —
comentou Fenton.
— Sim.
— E uma média, ao longo de quatro anos, de 3,88. Isso está bem perto de um A.
— Eu gostava do meu trabalho acadêmico.
Fenton e Simmons se entreolharam rapidamente, depois levantaram. Jim ficou de pé.
— Manteremos contato, Sr. Norman — disse Fenton. —
Temos mais alguns candidatos a entrevistar...
— Sim, é claro.
— ...mas eu pessoalmente estou impressionado com seu currículo acadêmico e com sua franqueza.
— Bondade sua dizer isso.
— Simmons, talvez o Sr. Norman queira tomar um café antes de sair.
Apertaram as mãos.
No corredor, Simmons disse:
— Acho que o emprego é seu, se quiser. Digo isso em caráter sigiloso, é claro.
Jim fez que sim. Ele próprio também tinha mantido sob sigilo um bocado de coisas.
A Escola Davis era uma severa construção de pedra que abrigava instalações notavelmente modernas — só a ala das ciências recebera fundos de 1,5 milhão no orçamento do ano anterior. As salas de aula, ainda ocupadas pelos fantasmas dos operários da
Works Progress Administration1
que as haviam construído e pelos alunos do período pós-guerra que haviam sido os primeiros a ocupá-las, eram mobiliadas com carteiras modernas e quadros-negros anti-reflexo. Os alunos eram limpos, bem vestidos, vivazes, ricos.
Seis de cada dez estudantes do último ano possuíam seus próprios carros.
Resumindo, uma boa escola. Uma escola excelente na qual dar aula durante os loucos anos 70. Fazia com que a Escola de Ofícios Vocacionais de Center Street parecesse o coração da África Selvagem.
Mas depois que os garotos iam embora, alguma coisa velha e sorumbática parecia se instalar nos corredores e sussurrar nas salas vazias. Uma besta negra e nefasta, que jamais se mostrava abertamente. Às vezes, enquanto caminhava pelo corredor da Ala 4 na direção do estacionamento com sua
nova pasta numa das mãos, Jim Norman tinha a impressão de quase poder ouvi-la respirar.
Voltou a ter o sonho por volta do final de outubro, e dessa vez gritou de fato. Arrastou-se com unhas e dentes de volta à realidade e encontrou Sally sentada ao seu lado na cama, segurando-o pelo ombro. Seu coração batia com força.
— Meu Deus — ele disse, esfregando o rosto com a mão.
— Tudo bem com você?
— Está. Eu gritei, não foi?
— Nossa, se gritou. Pesadelo?
— Foi.
— Alguma coisa a ver com a ocasião em que aqueles garotos quebraram o violão do outro?
— Não — ele disse. — Algo muito mais antigo do que isso.
Às vezes volta, é tudo. Nada de grave.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Quer um copo de leite? — os olhos dela estavam sombrios de preocupação.
Ele beijou-a no ombro.
— Não. Volte a dormir.
Ela apagou a luz e ele ficou ali deitado, fitando a escuridão.
Tinha um bom horário, levando-se em conta que era o novo membro do corpo docente.
O primeiro tempo estava livre. O segundo e o terceiro eram redação para o segundo ano; uma das turmas era meio apática, a outra divertida. O quarto tempo era a sua melhor aula: literatura americana para alunos do último ano que rumavam para a universidade e gostavam de criticar os grandes autores durante uma aula por dia. O quinto tempo era destinado a “reuniões”, nas quais ele supostamente receberia alunos que apresentassem problemas pessoais ou acadêmicos. Muito poucos pareciam ter qualquer um dos dois (ou estar dispostos a discuti-los com ele), e Jim passava a maior parte desse horário lendo um bom romance. O
sexto tempo era uma aula de gramática, insossa como pó de giz.
O sétimo tempo era sua única cruz. A matéria se chamava Vivendo com a Literatura, e era ministrada num cubículo no terceiro andar. A sala de aula ficava quente no início do outono e fria conforme o inverno se aproximava. A matéria em si era eletiva para aqueles que os catálogos escolares pudicamente chamam de “alunos lentos”.
Havia 27 “alunos lentos” na turma de Jim, a maior parte deles atletas que jogavam nos times da escola. A acusação mais gentil que poderiam receber seria de desinteresse, e alguns deles tinham um traço nítido de malevolência. Certa vez, ele entrou na sala e se deparou com uma caricatura sua, obscena e cruelmente fiel, no quadro-negro, com o nome “Sr. Norman” desnecessariamente inscrito com giz abaixo. Apagou-a sem fazer comentários e começou a aula apesar das risadinhas.
Elaborou interessantes planos de aula, incluindo material audiovisual, e encomendou vários textos de grande
interesse e bem compreensíveis — mas de nada adiantou. O
humor da turma variava entre a hilaridade desordeira e o silêncio mal-humorado. No começo de novembro, irrompeu uma briga entre dois garotos durante uma discussão do livro Ratos e Homens. Jim apartou a briga e mandou os dois para o gabinete do diretor. Quando abriu seu livro na página em que interrompera a aula, as palavras “Vá se foder”
saltaram aos seus olhos.
Levou o problema a Simmons, que deu de ombros e acendeu o cachimbo.
— Não tenho nenhuma solução real, Jim. O último tempo é sempre uma droga.
E para alguns deles levar um D na sua matéria significa não jogar mais futebol ou basquete. E como já fizeram os outros cursos fáceis de inglês, estão presos a essa eletiva.
— E eu também — disse Jim, com desânimo.
Simmons fez que sim.
— Mostre a eles que está falando sério, e eles vão colocar o rabo entre as pernas, nem que seja apenas para poderem continuar inscritos nos esportes.
Mas o sétimo tempo continuava sendo uma pedra no seu sapato.
Um dos maiores problemas no curso Vivendo com a Literatura era um rapaz grandalhão e moroso chamado Chip Osway. No começo de dezembro, durante o breve hiato entre o futebol e o basquete (Osway jogava ambos), Jim o apanhou com uma folha de cola e o expulsou da sala.
— Se você me reprovar a gente te pega, seu filho-da-puta!
— Osway gritou pelo
corredor mal-iluminado do terceiro andar. — Está me ouvindo?
— Vá embora — Jim disse. — Poupe seu fôlego.
— A gente te pega, seu babaca!
Jim voltou para a sala de aula. Os alunos olhavam para ele inexpressivamente, os rostos sem revelar qualquer emoção.
Ele foi invadido por uma sensação de irrealidade, como a que se apossara dele antes... antes...
A gente te pega, seu babaca.
Tirou da gaveta o diário de classe, abriu-o na página intitulada “Vivendo com a Literatura”, e cuidadosamente escreveu a letra F no local correspondente ao nome de Chip Osway.
Naquela noite, voltou a ter o sonho.
Era sempre cruelmente vagaroso. Havia tempo de ver e sentir tudo. E havia mais ainda o horror de reviver acontecimentos que levavam a uma conclusão conhecida, tão impotente quanto um homem preso num carro que caísse de um penhasco.
No sonho, ele tinha 9 anos e seu irmão Wayne, 12. Desciam pela Broad Street em Stratford, Connecticut, dirigindo-se à Biblioteca de Stratford. Jim estava com seus livros dois dias atrasados, e tinha surrupiado 4 centavos da jarra sobre o armário para pagar a multa. Eram as férias de verão. Dava para sentir o cheiro da grama recém-cortada. Dava para ouvir o som de um jogo de beisebol vindo da janela de
algum apartamento no segundo andar, os Yankees vencendo os Red Sox por seis a zero no penúltimo período, Ted Williams rebatendo, e dava para ver a sombra do Burrets Building Company alongando-se devagar pela rua, conforme a tarde cedia lentamente lugar ao crepúsculo.
Atrás do Teddy’s Market e da Burrets havia uma passarela sobre a estrada de ferro, e do outro lado um bando dos desocupados locais reunia-se num posto de gasolina fechado — cinco ou seis garotos com jaquetas de couro e calças jeans de barra virada. Jim detestava passar por eles.
Gritavam ei quatro-olhos, e ei seu merdinha, e ei me dá um trocado aí, e uma vez perseguiram-nos por meio quarteirão.
Mas Wayne se recusava a fazer um contorno pelo caminho mais longo. Isso seria covardia.
No sonho, a passarela aproximava-se cada vez mais, e você começava a sentir o pânico se debatendo dentro da garganta como um enorme pássaro preto. Via tudo: o letreiro fluorescente da Burrets, que começara a piscar havia pouco; os pontos de ferrugem na passarela verde; o reluzir do vidro quebrado entre os trilhos da ferrovia; um aro quebrado de bicicleta na sarjeta.
Você tenta dizer a Wayne que já passou por isso, uma centena de vezes. Os desocupados locais não estão no posto de gasolina desta vez; estão escondidos nas sombras debaixo do viaduto. Mas você não consegue pronunciar as palavras. Está impotente.
Então, lá estão vocês, ali embaixo, e algumas das sombras se destacam dos muros, e um garoto alto com cabelos louros com corte militar e nariz quebrado empurra Wayne de encontro aos blocos de cimento sujos de fuligem e diz: Passa o dinheiro.
Me deixa em paz.
Você tenta fugir, mas um garoto gordo de cabelo preto e oleoso o agarra e o joga contra a parede, junto ao seu irmão. A pálpebra esquerda do garoto treme, com um tique nervoso, e ele diz: Vamos lá, moleque, quanto é que você tem aí?
Qua-quatro centavos.
Seu mentiroso de merda.
Wayne tenta escapar e um garoto de cabelo esquisito, cor de laranja, ajuda o louro a segurá-lo. O cara com o tique na pálpebra subitamente te dá um soco na boca.
Você sente um peso repentino na virilha, e uma mancha escura aparece no seu jeans.
Olha só, Vinnie, ele se mijou!
Wayne se debate freneticamente e quase consegue se livrar — quase. Um outro garoto, de calças pretas de algodão e blusa de malha branca, empurra-o de volta. Há uma pequena marca avermelhada de nascença no seu queixo. As pedras da passarela começam a tremer. As vigas metálicas vibram com um zumbido. Um trem se aproximando.
Alguém arranca os livros da sua mão, e o garoto com a marca de nascença no queixo chuta-os para a sarjeta. De repente, Wayne dá um chute com o pé direito, acertando o garoto do tique nervoso no meio das pernas. Ele grita.
Vinnie, ele vai fugir!
O garoto do tique nervoso grita por causa da dor no saco, mas mesmo esses berros se perdem no rugido crescente do
trem que se aproxima, sacudindo tudo. E então está sobre eles, enchendo o mundo inteiro com o barulho.
A luz se reflete nos canivetes automáticos. O garoto com cabelo louro militar segura um, e o Marca-de-Nascença, o outro. Você não consegue ouvir Wayne, mas lê as palavras em seus lábios:
Dê o fora, Jimmy.
Você cai de joelhos e as mãos que te seguram desapareceram e você passa em meio a um par de pernas como uma rã. Alguém te dá um tapa nas costas, tentando agarrá-lo, mas não consegue. Então você está correndo de volta pelo caminho de onde veio, com toda aquela lentidão horrível e viscosa dos sonhos. Vira-se, olhando por cima do ombro, e vê...
Acordou no escuro, Sally dormindo placidamente ao seu lado. Reprimiu o grito mordendo o lábio, e, quando conseguiu sufocá-lo, caiu outra vez na cama.
Ao olhar para trás, para a escuridão que engolia a passarela, tinha visto o garoto louro e o outro com a marca de nascença enfiarem seus canivetes em seu irmão — o Louro abaixo do esterno, e o Marca-de-Nascença diretamente na virilha.
Ficou deitado no escuro, respirando com dificuldade, esperando que aquele fantasma de 9 anos de idade fosse embora, esperando que o sono dos justos apagasse tudo aquilo.
Muito tempo depois, de fato apagou.
As férias de Natal e o intervalo entre os dois semestres coincidiam no distrito em que ficava a escola, e o recesso
durava quase um mês inteiro. O sonho retornou duas vezes, logo no início, depois não mais. Ele e Sally foram visitar a irmã dela em Vermont, e esquiaram um bocado. Estavam felizes.
O problema de Jim relativo à matéria Vivendo com a Literatura parecia irrelevante e um pouco tolo ao ar livre e cristalino. Voltou para a escola com um bronzeado de inverno, sentindo-se tranqüilo e equilibrado.
Simmons o interceptou quando se dirigia à sua aula do segundo tempo, entregando-lhe uma pasta.
— Aluno novo, sétimo tempo. Chama-se Robert Lawson.
Transferência.
— Ei, estou com 27 alunos nessa turma no momento, Sim.
Estou sobrecarregado.
— Continua com 27. Bill Stearns morreu na terça-feira após o Natal. Acidente de carro. Atropelamento.
— Billy?
O quadro se formou em sua mente, em preto-e-branco, como uma
fotografia dos alunos do último ano. William Stearns, Key Club2 1, Futebol 1, 2, Pen & Lance, 2.
Era um dos poucos bons alunos em Vivendo com a Literatura. Quieto, consistentes graus A e B em suas provas.
Não participava voluntariamente com freqüência, mas normalmente dava as respostas corretas (temperadas com um humor agradável e discreto) quando solicitado. Morto?
Quinze anos de idade. Sua própria mortalidade subitamente passou pelos seus ossos como uma corrente de ar frio por baixo da porta.
— Meu Deus, isso é horrível. Já sabem o que aconteceu?
— A polícia está investigando. Ele estava no centro da cidade, trocando um presente de Natal. Começou a atravessar a Rampart Street e um velho Ford sedã o acertou. Ninguém anotou a placa, mas as palavras “Olhos de Cobra” estavam escritas na porta... coisa típica de um garoto.
— Jesus Cristo — Jim disse, outra vez.
— O sinal está tocando — disse Simmons.
Ele se apressou, fazendo uma pausa para dispersar um grupo de garotos em volta de um bebedouro. Foi para sua sala de aula, sentindo-se vazio.
Durante o horário livre, abriu a pasta de Robert Lawson. A primeira página era uma folha verde da Escola Milford, de que Jim nunca ouvira falar. A segunda, um perfil da personalidade do aluno. Q.I. médio de 78. Algumas habilidades manuais, não muitas.
Respostas anti-sociais ao teste de personalidade Barnett-Hudson. Notas baixas quanto às aptidões. Jim pensou com certo azedume que ele era perfeito para a turma Vivendo com a Literatura.
A página seguinte era um histórico disciplinar, o formulário amarelo. A folha da Escola Milford era branca com uma faixa lateral preta, e cheia de anotações. Lawson tinha se metido em uma centena de tipos de encrencas.
Virou a outra página, baixou os olhos rapidamente sobre um retrato escolar de Robert Lawson, depois olhou de novo. O
terror subitamente se esgueirou para dentro do seu estômago e se aninhou ali, perigoso e sibilante.
Lawson encarava a câmera com antagonismo, como se posasse para uma foto de ficha criminal, e não para um fotógrafo da escola. Havia uma pequena mancha avermelhada de nascença em seu queixo.
À altura do sétimo tempo, ele já tinha chegando civilizadamente a uma conclusão lógica. Disse a si mesmo que devia haver milhares de garotos com marcas de nascença no queixo. Disse a si mesmo que o marginal que apunhalara seu irmão naquele dia, 16
longos anos atrás, devia ter agora pelo menos 32.
Mas ao subir para o terceiro andar, a apreensão permanecia. Acompanhada de um outro temor: Era assim que você se sentia quando teve o colapso. Sentia o metal reluzente do pânico na boca.
O grupo habitual de garotos andava para lá e para cá perto da porta da Sala 33, e alguns entraram quando viram Jim se aproximando. Uns poucos permaneceram, falando aos cochichos e sorrindo. Ele viu o garoto novo de pé ao lado de Chip Osway. Robert Lawson usava jeans e pesados coturnos amarelos — que estavam no auge da moda naquele ano.
— Entre, Chip.
— Isso é uma ordem? — ele sorriu indolentemente, levantando o queixo sobre a cabeça de Jim.
— Claro.
— Você me deu zero naquela prova?
— Claro.
— É, isso... — o resto era um murmúrio inaudível.
Jim se virou para Robert Lawson.
— Você é novo — disse. — Gostaria de explicar como as coisas funcionam por aqui.
— Claro, Sr. Norman.
Sua sobrancelha direita era dividida por uma pequena cicatriz, uma cicatriz que Jim conhecia. Não podia haver engano. Era uma loucura, era impossível, mas também era um fato. Dezesseis anos antes, aquele garoto havia enfiado um canivete no seu irmão.
Atordoado, como se assistisse àquela cena de uma grande distância, ele se ouviu começar a expor as regras e os regulamentos do curso. Robert Lawson prendeu os polegares no cinto de lona estilo militar, ouviu, sorriu, e começou a dizer sim com a cabeça, como se fossem velhos amigos.
— Jim?
— Hmmm?
— Há algo errado?
— Não.
— Aqueles garotos do Vivendo com a Literatura ainda estão lhe dando trabalho?
Nenhuma resposta.
— Jim?
— Não.
— Por que você não vai se deitar mais cedo hoje?
Mas ele não foi.
Naquela noite, o sonho foi terrível. Quando o garoto com a marca avermelhada de nascença esfaqueou seu irmão, gritou para Jim:
— Você é o próximo, garoto. Bem no saco.
Ele acordou aos berros.
Estava dando aulas sobre O Senhor das Moscas naquela semana, e falando sobre simbolismo, quando Lawson levantou a mão.
— Robert? — ele disse, com tranqüilidade.
— Por que você não pára de me encarar?
Jim pestanejou e sentiu a boca ficar seca.
— Estou ficando verde? Ou meu zíper está aberto?
Um risinho nervoso no restante da turma.
Jim respondeu com tranqüilidade:
— Eu não estava encarando você, Sr. Lawson. Pode nos dizer por que Ralph e Jack discordaram com relação a...
— Você estava me encarando.
— Quer conversar sobre isso com o Sr. Fenton?
Lawson pareceu pensar no assunto.
— Não.
— Ótimo. Pode então nos dizer por que Ralph e Jack...
— Eu não cheguei a ler o livro. Acho que é idiota.
Jim sorriu um sorriso tenso.
— Acha mesmo, é? É bom se lembrar de que enquanto está julgando o livro, o livro também está julgando-o. Será que alguém pode me dizer por que os dois discordavam com relação à existência do animal?
Kathy Slavin ergueu a mão, tímida, e Lawson olhou-a cinicamente dos pés à cabeça, dizendo alguma coisa a Chip Osway. As palavras que saíam de seus lábios pareciam ser
“belos peitos”. Chip fez que sim.
— Kathy?
— Não era porque Jack queria caçar o animal?
— Muito bem.
Ele se virou e começou a escrever no quadro-negro. No instante em que virou as costas, uma laranja atingiu o quadro ao lado de sua cabeça.
Voltou-se e olhou para trás. Alguns alunos riam, mas Osway e Lawson apenas olhavam inocentemente para Jim.
Jim se interrompeu e pegou a laranja.
— Alguém — ele disse, olhando para o fundo da sala —
devia engolir à força esta porcaria.
Kathy Slavin arquejou.
Ele atirou a laranja na lata de lixo e voltou ao quadro-negro.
Abriu o jornal matutino, bebericando seu café, e viu a manchete, mais ou menos no meio da página.
— Meu Deus! — ele disse, interrompendo a torrente matinal de tagarelice da mulher. Sua barriga lhe pareceu encher-se de farpas...
“Adolescente morta ao cair do telhado: Katherine Slavin, 17
anos, aluna do Colégio Harold Davis, caiu ou foi empurrada do telhado do prédio onde residia, no início da tarde de ontem. A garota, que tinha um pombal no telhado, subira com um saco de comida para os pássaros, de acordo com sua mãe.
“A polícia disse que uma mulher não-identificada, residente num conjunto habitacional na vizinhança, afirmou ter visto três garotos correndo sobre o telhado às 6h45, poucos minutos após o corpo da jovem (continua na página 3)...”
— Jim, ela era sua aluna?
Mas ele só foi capaz de olhá-la, emudecido.
Duas semanas mais tarde, Simmons o encontrou no corredor após o sinal do almoço com outra pasta nas mãos, e Jim sentiu um frio na barriga.
— Aluno novo — ele disse a Simmons, sem rodeios. —
Vivendo com a Literatura.
Sim alteou as sobrancelhas.
— Como sabia?
Jim deu de ombros e estendeu a mão para pegar a pasta.
— Tenho que correr — Simmons disse. — Os chefes de departamento têm uma reunião para a avaliação dos cursos. Você está com uma cara de enterro. Tudo bem?
Exatamente, com uma cara de enterro. Assim como Billy Stearns.
— Claro — ele disse.
— É isso aí — Simmons disse, dando-lhe um tapinha nas costas.
Depois que ele se foi, Jim abriu a pasta em busca do retrato, recuando antecipadamente o rosto, como um homem prestes a ser agredido.
Mas o retrato não lhe pareceu de imediato familiar. Era só o rosto de um garoto.
Talvez o tivesse visto antes, talvez não. O garoto, David Garcia, era corpulento, tinha cabelos escuros, lábios com traços negróides e olhos pretos e sonolentos. A folha amarela dizia que também era do Colégio Milford e que passara dois anos no Reformatório Granville. Furto de automóveis.
Jim fechou a pasta com as mãos ligeiramente trêmulas.
— Sally?
Ela levantou os olhos da tábua de passar roupa. Ele estava assistindo a um jogo de basquete na TV sem prestar a mínima atenção.
— Nada — ele disse. — Esqueci o que ia dizer.
— Então era mentira.
Ele sorriu mecanicamente e olhou outra vez para a TV. Por muito pouco não contara tudo. Mas como poderia contar?
Era mais do que insanidade. Por onde você começaria? Pelo
sonho? Pelo colapso nervoso? Pelo aparecimento de Robert Lawson?
Não. Por Wayne — seu irmão.
Mas ele jamais falara a ninguém sobre aquilo, nem mesmo na análise. Seu pensamento voltou a David Garcia, e o terror etéreo que se apossara dele quando seus olhares se cruzaram, no corredor. É claro, no retrato ele lhe parecera apenas vagamente familiar. Retratos não se mexem... nem têm tiques nas pálpebras.
Garcia estava em pé ao lado de Lawson e Chip Osway, e quando levantou os olhos e viu Jim Norman, sorriu, e suas pálpebras começaram a tremer, e vozes falaram na mente de Jim com uma clareza sobrenatural:
Vamos lá, moleque, quanto é que você tem aí?
Qua-quatro centavos.
Seu mentiroso de merda... olha só, Vinnie, ele se mijou!
— Jim? Você disse alguma coisa?
— Não — mas ele não estava bem certo se dissera ou não.
Começava a se sentir bastante assustado.
Certo dia após a escola, no começo de fevereiro, alguém bateu à porta da sala dos professores, e quando Jim abriu-a lá estava Chip Oswen. Parecia assustado. Jim estava sozinho; eram 16h10 e o último professor havia ido embora uma hora antes. Ele corrigia uma pilha de redações dos alunos de Vivendo com a Literatura.
— Chip? — ele disse, com calma.
Chip esfregou os pés no chão.
— Posso falar um minuto com o senhor, Sr. Norman?
— Claro. Mas se for a respeito do teste, está perdendo seu...
— Não é sobre isso. Hm... posso fumar aqui?
— À vontade.
Acendeu o cigarro com a mão levemente trêmula. Não falou durante talvez um minuto completo. Parecia não ser capaz.
Seus lábios tremiam, ele esfregava as mãos, e seus olhos estavam semicerrados, como se internamente ele travasse uma luta para conseguir se expressar.
De repente, explodiu:
— Se eles fizerem mesmo isso, quero que o senhor saiba que eu não estou envolvido! Não gosto desses caras! Eles são sinistros!
— Que caras, Chip?
— Lawson e aquele maluco do Garcia.
— Eles estão planejando me dar uma lição? — o velho terror do sonho regressara, e ele sabia qual era a resposta.
— Gostei deles no começo — Chip disse. — Saímos e tomamos umas cervejas.
Comecei a reclamar do senhor e daquele teste. A falar que o senhor ia ver só. Mas era só conversa fiada! Juro que era!
— O que aconteceu?
— Eles me levaram a sério logo de cara. Perguntaram a que horas o senhor saía da escola, como era o seu carro, todas essas coisas. Perguntei o que vocês têm contra ele e Garcia disse que conheciam o senhor fazia muito tempo... ei, está tudo bem?
— O cigarro — ele disse, articulando as palavras com dificuldade. — Nunca consegui me habituar à fumaça.
Chip jogou-o no chão e o apagou.
— Perguntei a eles quando haviam conhecido o senhor, e Bob Lawson disse que nessa época eu ainda mijava nas fraldas. Mas eles têm 17, a minha idade.
— E depois?
— Bem, Garcia se debruça sobre a mesa e diz que não é possível dar uma lição no cara se você nem mesmo sabe a que horas ele vai embora da porra da escola. O que eu pretendia fazer? Então eu disse que ia esvaziar seus quatro pneus — ele fitou Jim com olhos suplicantes. — Eu nem ia fazer isso. Disse porque...
— Estava com medo?
— É, e ainda estou.
— O que eles acharam da sua idéia?
Chip deu de ombros.
— Bob Lawson disse, é isso que você ia fazer, seu merdinha? E eu disse, tentando dar uma de durão, o que você faria, ia matar o sujeito? E Garcia — as pálpebras dele começaram a tremer — tirou uma coisa do bolso e abriu
com um estalo e vi que era um canivete automático. Foi quando eu me mandei.
— Quando foi isso, Chip?
— Ontem. Agora estou com medo de me sentar perto daqueles caras, Sr.
Norman.
— Tudo bem — Jim disse. — Tudo bem.
Baixou os olhos para os papéis que antes corrigia, sem chegar a vê-los de fato.
— O que o senhor vai fazer?
— Não sei — Jim respondeu. — Realmente não sei.
Na manhã de segunda-feira, ele ainda não sabia. Seu primeiro pensamento havia sido contar tudo a Sally, começando pelo assassinato de seu irmão, 16 anos antes.
Mas era impossível. Ela se mostraria solidária, mas amedrontada e incrédula.
Simmons? Também era impossível. Simmons pensaria que ele estava louco. E
talvez estivesse. Um homem numa sessão da terapia de grupo que ele freqüentara disse que ter um colapso era como quebrar um vaso e depois colá-lo de volta. Você nunca mais se sentia seguro para pegar aquele vaso. Não podia colocar uma flor dentro dele, porque flores precisam de água, e a água poderia dissolver a cola.
Será que então estou louco?
Se estivesse, Chip Osway também estava. Isso lhe ocorreu quando entrava no carro, e um choque de animação percorreu seu corpo todo.
É claro! Lawson e Garcia o haviam ameaçado na presença de Chip Osway. Isso não se sustentaria num tribunal, mas resultaria numa suspensão para os dois, se ele conseguisse fazer com que Chip repetisse a história no gabinete de Fenton. E tinha quase certeza de que conseguia convencer o garoto a fazê-lo. Chip tinha suas próprias razões para que querer os dois bem longe.
Chegava ao estacionamento, quando pensou no que acontecera a Billy Stearns e Kathy Slavin.
Durante o seu horário livre, foi até a secretaria e se debruçou sobre a mesa da encarregada dos registros. Ela estava elaborando a lista de faltas.
— Chip Osway veio hoje? — ele perguntou, com naturalidade.
— Chip...? — ela olhou em sua direção, hesitante.
— Charles Osway — corrigiu Jim. — Chip é apelido.
Ela examinou uma pilha de papéis, deteve-se num deles e tirou-o da pilha.
— Está ausente, Sr. Norman.
— Pode me conseguir o telefone dele?
Ela enfiou o lápis no cabelo e disse:
— Claro.
Tirou o número do arquivo da letra O e o entregou a Jim. Ele discou o número no telefone da secretaria.
O telefone tocou uma dúzia de vezes, e ele estava prestes a desligar quando uma voz áspera e sonolenta disse:
— Alô.
— Sr. Osway?
— Barry Osway morreu faz seis anos. Sou Gary Denkinger.
— O senhor é o padrasto de Chip Osway?
— O que foi que ele fez?
— Perdão?
— Ele fugiu de casa. Quero saber o que foi que fez.
— Até onde eu saiba, nada. Só queria falar com ele. Tem alguma idéia de onde ele possa estar?
— Não, trabalho de noite. Não conheço nenhum dos amigos dele.
— Alguma idéia de...
— Não. Ele pegou a velha mala e 50 paus que economizou roubando carros ou vendendo drogas ou o que quer que seja que esses garotos fazem para ganhar dinheiro.
Pode ter ido para São Francisco virar hippie, pelo que sei.
— Se tiver notícias dele, pode ligar para mim, na escola? Jim Norman, Departamento de Inglês.
— Ligo sim.
Jim desligou o telefone. A funcionária que trabalhava com os registros levantou os olhos e lançou-lhe um sorrisinho sem maiores significados. Jim não retribuiu.
Dois dias mais tarde, as palavras “Abandono da escola”
apareceram acompanhando o nome de Chip Osway na lista matinal de faltas. Jim começou a esperar que Simmons aparecesse com uma nova pasta. Foi o que aconteceu uma semana depois.
Ele fitou atordoado o retrato. Quanto àquele ali, não havia dúvidas. O corte militar havia sido substituído pelo cabelo comprido, mas ainda era louro. E o rosto era o mesmo, Vincent Corey. Vinnie, para seus amigos íntimos. Ele encarava Jim da fotografia, um sorriso insolente nos lábios.
Quando ele se aproximou da sala de aula do sétimo tempo, seu coração começou a bater com força no peito. Lawson e Garcia e Vinnie Corey estavam de pé junto ao quadros de avisos ao lado da porta — os três se impertigaram quando ele veio em sua direção.