Sombras da Noite
O Bicho-Papão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Estávamos de volta. Carl e Bill Pelham levantaram-se num salto e começaram a fazer perguntas no mesmo instante.
Nenhum de nós dois respondia. Só nos viramos e ficamos esperando para ver se Henry ia aparecer, chegando em meio a neve. Eu já havia chegado à conclusão de que 32.768 vezes dois seria o fim da espécie humana e então ficamos sentados tentando fazer as pazes com toda aquela cerveja e esperando para ver
qual dos dois regressaria por fim, e aqui ainda estamos.
Espero que seja o Henry. Espero mesmo.
Campo de Batalha
— Sr. Renshaw?
Ele ouviu a voz do recepcionista quando estava a meio caminho em direção aos elevadores, e Renshaw se voltou com impaciência, transferindo a mala que trouxera a bordo do avião de uma das mãos para a outra. O envelope no bolso de seu casaco, recheado de notas de 20 e 50, estalou audivelmente. O trabalho tinha sido bem-sucedido, e o pagamento, excelente — mesmo após descontados os 15
por cento de comissão da Organização. Agora, tudo o que ele queria era um chuveiro quente e um gim-tônica e sono.
— O que foi?
— Um pacote, senhor. Pode assinar o recibo?
Renshaw assinou e olhou pensativamente para o pacote retangular. Seu nome e o endereço estavam escritos na etiqueta adesiva com uma caligrafia oblíqua e inclinada para a esquerda, que lhe parecia familiar. Balançou o pacote sobre a superfície de mármore falso do balcão, e alguma coisa retiniu bem de leve lá dentro.
— Devo mandar para o seu quarto, Sr. Renshaw?
— Não, eu levo comigo.
Tinha cerca de 45 centímetros de largura, e cabia desajeitadamente sob seu braço.
Colocou-o sobre o carpete alto que cobria o chão do elevador e girou sua chave na ranhura correspondente ao apartamento de cobertura, que ficava no alto do painel de botões dos outros andares. O elevador subiu devagar e em silêncio. Ele fechou os olhos e deixou que o trabalho fosse exibido como um filme na tela negra de sua mente.
Primeiro, como sempre, um telefonema de Cal Bates:
— Está disponível, Johnny?
Ele estava disponível duas vezes por ano, preço mínimo $10.000. Era muito bom, muito confiável, mas o que seus clientes realmente pagavam era seu talento infalível de predador. John Renshaw era um falcão humano, construído
tanto pela genética quanto pelo ambiente para fazer duas coisas de maneira soberba: matar e sobreviver.
Após o telefonema de Bates, um envelope amarelo-claro apareceu na caixa de correio de Renshaw. Um nome, um endereço, uma fotografia. Todos guardados de memória; depois tudo foi para a para a lata de lixo, com as cinzas do envelope e seu conteúdo.
Desta vez, o rosto era o de um pálido homem de negócios de Miami chamado Hans Morris, fundador e proprietário da Fábrica de Brinquedos Morris. Alguém queria Morris fora do caminho, e recorrera à Organização. A Organização, por intermédio de Calvin Bates, falara com John Renshaw. Pou. É
favor não enviar flores.
As portas se abriram, ele pegou o pacote e saiu. Destrancou a suíte e entrou. A
essa hora do dia, logo após as três da tarde, o sol de abril batia forte na espaçosa sala de estar. Ele se deteve por um momento, desfrutando da luz, depois colocou o embrulho sobre a mesinha junto à porta, afrouxando a gravata.
Largou o envelope sobre o pacote e foi para o terraço.
Abriu a porta corrediça de vidro e saiu. Fazia frio, e o vento o açoitava através do seu sobretudo leve. Mesmo assim, ele se deteve por um momento, olhando para a cidade lá embaixo do modo como um general talvez tivesse observado um país conquistado. O
tráfego rastejava como besouros nas ruas. Lá longe, quase enterrada na névoa dourada da tarde, a Bay Bridge reluzia como a miragem de um louco. Para leste, quase desaparecendo por trás dos prédios altos do centro da cidade, cortiços sujos se acotovelavam com sua floresta de
antenas de TV de aço inoxidável. Ali em cima era melhor, melhor do que nas sarjetas.
Voltou para dentro, fechou a porta corrediça e foi até o banheiro para uma chuveirada longa e quente.
Quando se sentou, quarenta minutos mais tarde, para estudar o pacote, um drinque na mão, as sombras já tinham alcançado a metade do carpete cor de vinho, e a melhor parte da tarde já tinha se passado.
Era uma bomba.
Claro que não, mas sempre devíamos proceder como se fosse. Era por isso que ainda estávamos de pé e comendo, enquanto tantos outros tinham ido parar naquele enorme escritório de desempregados no céu.
E se fosse uma bomba, não era ativada por relógio. Era completamente silenciosa; leve e enigmática. O explosivo plástico era mais usado hoje em dia, de qualquer modo.
Menos temperamental do que as molas de relógio manufaturadas pela Westclox e Big Ben.
Renshaw olhou para a marca da postagem. Miami, 15 de abril. Cinco dias atrás.
Então a bomba não era operada por um relógio. Teria explodido no cofre do hotel, nesse caso.
Miami. Sim. E aquela caligrafia oblíqua e inclinada para a esquerda. Havia uma fotografia emoldurada na mesa do pálido homem de negócios. Era o retrato de uma velha ainda mais pálida usando um lenço de cabeça amarrado no queixo. A dedicatória na parte inferior dizia: “Com carinho da sua garota de idéias brilhantes — Mamãe.”
Que tipo de idéia brilhante é esta, Mamãe? Um kit de exterminação faça-você-mesmo?
Ele observava o pacote com absoluta concentração, sem se mover, as mãos unidas. Perguntas insignificantes, tais como de que modo a garota de idéias brilhantes de Morris poderia ter descoberto o seu endereço, não lhe ocorreram. Eram para mais tarde, para Cal Bates. Não importavam agora.
Com um gesto súbito e quase desatento, tirou um pequeno calendário de celulóide da valise e o inseriu habilmente sob o cordão que amarrava o papel pardo.
Deslizou-o por baixo da fita adesiva que prendia a aba de uma das extremidades. A aba se soltou, ficando frouxa dentro do cordão.
Ele fez uma pausa durante algum tempo, observando, depois se aproximou e cheirou. Papelão, papel, corda. Nada além disso. Caminhou ao redor da caixa, agachou-se agilmente sobre as coxas, e repetiu o processo. O
crepúsculo invadia seu apartamento com dedos cinzentos e sombrios.
Uma das abas se soltou do cordão que amarrava o pacote, revelando uma caixa verde e opaca por baixo. Metal. Com dobradiças. Ele pegou um canivete e cortou o cordão, que se soltou, e algumas estocadas a mais com a ponta do canivete revelaram a caixa.
Era verde com marcas pretas e, na frente, letras brancas em estêncil escreviam as palavras: baú de soldados americanos do vietnã. Embaixo disso: 20 soldados de infantaria, 10 helicópteros, 2 operadores de rifles automáticos Browning, 2 operadores de bazucas, 2 médicos,
4 jipes. Embaixo disso: o decalque de uma bandeira.
Embaixo disso, no canto: Fábrica de Brinquedos Morris, Miami, Florida.
Ele estendeu a mão para tocá-la, mas logo a retirou. Alguma coisa dentro do baú tinha se movido.
Renshaw ficou de pé, sem pressa, e recuou através da sala na direção da cozinha e do corredor. Acendeu as luzes.
O Baú do Vietnã balançava, fazendo o papel pardo farfalhar por baixo. Perdeu subitamente o equilíbrio e caiu sobre o carpete com um baque surdo, aterrissando numa das extremidades. Na tampa com dobradiças, abriu-se uma fenda de cerca de 5
centímetros.
Pequeninos soldados de infantaria, com uns 3 centímetros de altura, começaram a rastejar para fora. Renshaw os observava, sem piscar. Sua mente não fez qualquer esforço de absorver os aspectos reais ou irreais do que ele via —
apenas as possíveis conseqüências para sua sobrevivência.
Os soldados usavam minúsculos uniformes do exército, capacetes e mochilas.
Carregavam sobre os ombros pequenas carabinas. Dois deles olharam rapidamente para Renshaw, do outro lado da sala. Seus olhos, que não eram maiores do que pontas de lápis, brilharam.
Cinco, dez, 12, e então todos os vinte. Um deles gesticulava, ordenando aos outros. Eles se alinharam ao longo da fenda que a queda produzira e passaram a empurrar. A fenda começou a aumentar.
Renshaw pegou uma das grandes almofadas do sofá e começou a andar na direção deles. O oficial no comando se virou e gesticulou. Os outros se viraram e empunharam as carabinas. Ouviram-se sons de estouro, débeis, quase delicados, e Renshaw subitamente teve a sensação de que estava sendo picado por abelhas.
Atirou a almofada. Atingiu-os, derrubando-os e os deixando estatelados no chão, depois atingiu a caixa e abriu-a por completo. Como se fossem insetos, com um zumbido fraco e agudo, uma nuvem de helicópteros miniatura, pintados de verde-musgo, levantou vôo de dentro da caixa.
Sons fracos de put! put! chegaram aos ouvidos de Renshaw, e ele viu clarões de armas de fogo, do tamanho de pontas de alfinete, vindo das portas abertas dos helicópteros.
Agulhas espetaram sua barriga, seu braço direito, a parte lateral do seu pescoço. Ele deu uma patada e agarrou um deles — súbita dor nos dedos; sangue brotando. As hélices os haviam cortado até os ossos, em marcas diagonais e rubras que sangravam. Os outros voaram para fora de alcance, circundando-o como mutucas. O helicóptero abatido caiu sobre o tapete, imóvel.
Uma súbita e excruciante dor no pé fez com que ele gritasse. Um dos soldados de infantaria estava de pé em seu sapato, enterrando a baioneta em seu tornozelo. O
rosto minúsculo olhava para cima, ofegando e arreganhando os dentes.
Renshaw chutou-o para longe e o pequeno corpo atravessou a sala, indo se espatifar contra a parede. Não deixou marcas de sangue, mas uma mancha púrpura e viscosa.
Houve uma explosão discreta, como uma tossidela, e uma dor enlouquecedora transpassou sua coxa. Um dos homens
que operavam a bazuca tinha saído do baú. Um discreto fio de fumaça elevava-se preguiçosamente de sua arma.
Renshaw olhou para a própria perna e viu um buraco escuro e fumegante em sua calça, do tamanho de uma moeda de 25 centavos. A pele ali estava carbonizada.
O desgraçado atirou em mim!
Virou-se e disparou até o corredor, e depois para o seu quarto. Um dos helicópteros passou zumbindo ao lado do seu rosto, as hélices girando veloz e ruidosamente. O leve gaguejar de um Browning. Então voou para longe.
A arma embaixo de seu travesseiro era uma Magnum 44, grande o suficiente para fazer um buraco do tamanho de dois punhos em qualquer coisa que atingisse. Renshaw se virou, segurando a pistola com as duas mãos. Deu-se conta, friamente, de que devia atirar num alvo móvel não muito maior do que uma lâmpada voadora.
Dois dos helicópteros zumbiram em sua direção. Sentado na cama, Renshaw atirou uma vez. Um dos helicópteros explodiu, reduzindo-se a pó. Já são dois, ele pensou. Mirou no segundo... apertou o gatilho...
Ele saiu da mira! Maldito, ele saiu da mira!
O helicóptero se lançou sobre ele num súbito arco mortal, as hélices dianteiras e traseiras girando com velocidade alucinada. Renshaw viu de soslaio um dos homens que operavam o rifle Browning agachado junto à porta aberta, atirando disparos mortíferos, em intervalos curtos, e então se jogou no chão e saiu rolando.
Meus olhos, o desgraçado estava mirando nos meus olhos!
Ele se ergueu apoiado nas costas, na parede da outra extremidade do quarto, segurando a arma na altura do peito. Mas o helicóptero estava indo embora. Pareceu fazer uma pausa por um momento, e mergulhar, em reconhecimento ao poder de fogo superior de Renshaw.
Então se foi, voltando à sala de estar.
Renshaw se levantou, contraindo-se quando o peso recaiu sobre a perna ferida.
Sangrava em profusão. E por que não haveria de sangrar?, ele pensou, com ódio. Não é todo mundo que leva um tiro à queima-roupa de uma bazuca e vive para contar a história.
Então a Mamãe era sua garota de idéias brilhantes, não era? Pois ela era tudo isso e mais um pouco.
Sacudiu uma almofada até tirar a capa e rasgou uma tira, fazendo uma atadura para a perna, depois pegou o espelho que usava para se barbear na cômoda e foi até a porta do corredor. De joelhos, empurrou-o pelo carpete, fazendo um ângulo, e espiou.
Eles estavam fazendo um acampamento junto ao baú, por incrível que parecesse.
Soldados em miniatura corriam de um lado para o outro, montando barracas. Jipes com 5 centímetros de altura transitavam com um ar imponente. Um médico assistia o soldado que Renshaw havia chutado. Os oito helicópteros restantes voavam num enxame protetor por cima, à altura da mesinha de centro.
Subitamente, deram-se conta do espelho, e três dos soldados de infantaria agacharam-se, apoiados num joelho, e começaram a disparar. Segundos mais tarde, o espelho se estilhaçou em quatro lugares. Muito bem, muito bem, então.
Renshaw voltou à cômoda e pegou a pesada caixa de mogno para bugigangas que Linda lhe dera no Natal.
Avaliou seu peso erguendo-a uma vez, fez que sim, foi até a porta e saiu para o corredor. Contraiu-se e arremessou feito um lançador de beisebol atirando uma bola rápida. A caixa descreveu uma trajetória veloz e certeira, esmagando homenzinhos como num jogo de boliche. Um dos jipes capotou duas vezes. Renshaw avançou até a porta da sala de estar, mirou num dos soldados estatelados e atirou.
Vários dos outros tinham se recobrado. Alguns estavam se ajoelhando e atirando sob ordens. Outros haviam se abrigado. E outros mais haviam se refugiado dentro do baú.
As picadas de abelha começaram a atingi-lo nas pernas e no tronco, mas nenhuma passou da altura de suas costelas.
Talvez o alvo fosse muito extenso. Não importava; ele não tinha qualquer intenção de ser mandado embora. E ponto final.
Ele errou o tiro seguinte — eram tão pequenos, aqueles malditos soldadinhos
—, mas o próximo derrubou mais um, estatelado.
Os helicópteros vinham zumbindo ferozmente na sua direção. Agora as pequeninas balas começaram a atingi-lo no rosto, acima e abaixo dos olhos. Ele apanhou o helicóptero líder, e depois o segundo. Raios pontiagudos de dor ofuscaram sua visão.
Os seis helicópteros restantes se dividiram em duas esquadrilhas, retrocedendo.
Seu rosto estava molhado de sangue, e ele o enxugou com o antebraço. Estava pronto para começar a atirar novamente, quando fez uma pausa. Os soldados que tinham
se retirado para dentro do baú estavam trazendo para fora alguma coisa sobre rodas. Algo que parecia...
Houve um clarão amarelo cegante, e uma súbita explosão de madeira e reboco ocorreu na parede à sua esquerda.
...um lança-mísseis!
Ele apertou o gatilho, errou o alvo, virou-se e correu para o banheiro na extremidade do corredor. Bateu a porta e trancou-a por dentro. No espelho do banheiro, um índio fitava-o com olhos vidrados e assombrados, um índio enlouquecido pela guerra e com pequenos traços de pintura vermelha saindo de buracos não muito maiores do que grãos de pimenta. Uma aba esfarrapada de pele pendia de uma de suas faces.
Havia um sulco aberto em seu pescoço.
Estou perdendo!
Ele passou a mão trêmula pelo cabelo. Eles haviam cortado seu acesso à porta da frente. Assim como o telefone e a extensão na cozinha. Eles tinham um maldito lança-mísseis e se um daqueles o acertasse era capaz de arrancar sua cabeça.
Droga, isso não estava nem mesmo listado na caixa!
Ele havia começado a inspirar bem lentamente, mas deixou o ar sair num súbito grunhido, quando um pedaço da porta do tamanho de um punho explodiu, lançando destroços de madeira carbonizada. Chamas diminutas reluziram brevemente em volta das beiradas irregulares do buraco, e ele viu o clarão brilhante quando dispararam outro míssil.
Mais pedaços de madeira explodiram para dentro do banheiro, lançando lascas em chamas no tapete. Ele as
apagou com o pé e dois dos helicópteros entraram pelo buraco, zumbindo raivosos. Minúsculas balas do Browning entraram em seu peito, com pontadas de dor.
Com um rugido de raiva, ele derrubou um deles usando as próprias mãos, o que resultou numa série de talhos profundos em sua palma. Com uma criatividade súbita e desesperada, lançou uma pesada toalha de banho sobre o outro. O helicóptero caiu no chão, retorcendo-se, e ele acabou de destruí-lo com uma pisada. Sua respiração estava ruidosa. O sangue escorreu sobre um de seus olhos, quente, ardendo, e ele enxugou-o.
Aí está, diabos. Aí está. Isso vai fazê-los pensar.
De fato, parecia que os estava fazendo pensar. Não houve qualquer movimento por 15 minutos. Renshaw ficou sentado na beirada da banheira, pensando febrilmente.
Tinha de haver uma forma de sair daquele beco. Tinha de haver. Se apenas houvesse uma maneira de atacá-los pelo flanco...
Subitamente ele se virou e olhou para a pequena janela sobre a banheira. Havia uma maneira. Claro que havia.
Seus olhos viram o recipiente de fluido para isqueiro no alto do armário de remédios. Ia apanhá-lo quando ouviu o farfalhar.
Girou, empunhando a Magnum... mas era só um pequeno pedaço de papel que deslizava por baixo da porta. A abertura, Renshaw notou, com ódio, era muito estreita para que mesmo um deles passasse.
Havia uma palavra pequenina escrita no papel:
Renda-se
Renshaw sorriu, ferozmente, e colocou o fluido de isqueiro no bolso da camisa.
Havia um toco mastigado de lápis ao lado. Ele rabiscou duas palavras no papel e deslizou-o de volta sob a porta. As palavras eram:
NEM PENSAR1
Houve um súbito bombardeio ofuscante de mísseis, e Renshaw recuou. Eles se curvaram pelo buraco da porta e detonaram os azulejos azul-claros acima do toalheiro, transformando a parede elegante numa miniatura de paisagem lunar. Renshaw colocou a mão sobre os olhos, enquanto o reboco voava numa chuva quente de estilhaços.
Buracos fumegantes se espalhavam por sua camisa e suas costas foram bombardeadas.
Quando o bombardeio parou, Renshaw se mexeu. Subiu na beirada da banheira e abriu a janela de correr. Estrelas frias fitavam-no. Era uma janela estreita com o peitoril estreito do lado de fora. Mas não havia tempo para pensar nisso.
Ele se lançou por ela, e o ar frio agrediu seu rosto e seu pescoço dilacerados como uma mão aberta. Ele estava apoiado no ponto de equilíbrio de suas mãos, olhando diretamente para baixo. Quarenta andares para baixo.
Daquela altura, a rua não parecia mais estreita do que uma ferrovia de brinquedo. As luzes da cidade, brilhantes e intermitentes, reluziam loucamente lá embaixo, como jóias lançadas ao chão.
Com a facilidade ilusória de um ginasta treinado, Renshaw elevou os joelhos, repousando-os na parte inferior da janela.
Se um daqueles helicópteros do tamanho de vespas
entrasse voando pelo buraco na porta agora, um tiro no traseiro haveria de mandá-lo diretamente lá para baixo, gritando durante todo o trajeto.
Nenhum entrou.
Ele se virou, colocou uma perna do lado de fora e, tateando com uma das mãos,
agarrou a cornija acima de sua cabeça, segurando-a. Um momento mais tarde estava de pé no peitoril do lado de fora da janela.
Deliberadamente sem pensar no terrível abismo abaixo de seus calcanhares, sem pensar no que aconteceria se um dos helicópteros viesse zumbindo atrás dele, Renshaw foi se esgueirando até a lateral do prédio.
Quatro metros... três... ali estava. Ele fez uma pausa, o peito pressionado contra a parede, as mãos chapadas sobre a superfície áspera. Podia sentir o fluido do isqueiro no bolso da camisa e o peso reconfortante da Magnum enfiada na cintura da calça.
Agora faltava passar pela maldita quina.
Devagar, ele passou um pé pelo ângulo e transferiu o peso do corpo para ele. O
ângulo reto estava agora pressionado como uma lâmina contra seu peito e ventre. Havia uma mancha de excremento de pássaro diante de seus olhos, na pedra áspera. Meu Deus, ele pensou, despropositadamente. Não sabia que eles conseguiam voar tão alto. Seu pé esquerdo escorregou.
Durante um instante estranho, fora do tempo, ele cambaleou sobre a beirada, o braço direito girando alucinadamente para manter o equilíbrio, e em seguida estava agarrado aos dois lados do prédio num abraço de amante, o rosto pressionado contra a quina dura, o ar de seus pulmões entrando e saindo em sobressaltos.
Um pouco de cada vez, deslizou o outro pé ao redor do ângulo.
A cerca de 9 metros dali, o terraço de sua própria sala de estar projetava-se.
Esgueirou-se até lá, o ar deslizando sem forças para dentro e para fora de seus pulmões. Por duas vezes ele foi obrigado a parar, quando rajadas violentas de vento tentaram arrancá-lo do peitoril.
E então lá estava ele, agarrando-se à grade ornamentada de ferro.
Ergueu-se, passando por cima da grade sem fazer barulho.
Tinha deixado as cortinas parcialmente fechadas sobre a divisória corrediça de vidro, e agora espiava cuidadosamente lá para dentro. Estavam exatamente como ele queria que estivessem — de costas para ele.
Quatro soldados e um helicóptero tinham sido deixados para guardar o baú. O
resto devia estar do lado de fora da porta do banheiro com o lança-mísseis.
Muito bem. Entrar pela abertura como policiais atrás de uma gangue. Apagar os que estão junto ao baú, e sair pela porta. Então, um táxi rápido até o aeroporto. Voar até Miami e encontrar a garota de idéias brilhantes de Morris. Ele
pensou que podia apenas destruir o rosto dela com um lança-chamas. Isso seria justiça poética.
Tirou a camisa e rasgou uma tira comprida de uma das mangas. Largou o restante, que ficou esvoaçando preguiçosamente aos seus pés, e arrancou com os dentes o bico do frasco de fluido de isqueiro. Enfiou uma ponta do trapo lá dentro, tirou-a, depois enfiou a outra ponta de modo a ficar com apenas 15 centímetros de algodão embebido em fluido para fora.
Pegou seu isqueiro, respirou fundo e girou a roda com o polegar. Encostou-o no trapo e, quando este se incendiou, abriu de sopetão a divisória de vidro e arremessou-se para dentro da sala.
O helicóptero reagiu instantaneamente, lançando-se num mergulho suicida, enquanto ele avançava pelo tapete, derramando diminutos pingos de fogo líquido.
Renshaw golpeou-o com o braço, mal notando a onda de dor que subiu por ali quando as hélices, girando, cortaram sulcos na sua pele.
Os soldadinhos de infantaria debandaram para dentro do baú.
Depois disso, tudo aconteceu muito rápido.
Renshaw jogou o fluido de isqueiro. A lata entrou em chamas, transformando-se numa bola de fogo. No instante seguinte, ele estava de costas, correndo na direção da porta.
Nunca soube o que o atingiu.
Foi como o baque de um cofre de aço caindo de uma altura considerável. Só que esse baque correu por todo o alto prédio de apartamentos, vibrando por sua estrutura de aço como um diapasão.
A porta da cobertura explodiu, soltando-se das dobradiças e indo se espatifar na parede, do outro lado.
Um casal que andava de mãos dadas lá embaixo olhou para cima a tempo de ver um intenso clarão branco, como se uma centena de flashes fotográficos tivessem sido disparados simultaneamente.
— Alguém causou um curto-circuito — o homem disse. —
Acho que...
— O que é aquilo? — sua garota perguntou.
Alguma coisa vinha flutuando preguiçosamente na direção deles; ele esticou a mão e a apanhou.
— Jesus, é a camisa de algum cara. Toda cheia de buraquinhos. E de sangue também.
— Não estou gostando disso — ela disse, nervosamente. —
Chame um táxi, está bem, Ralph? Vamos ter que falar com os guardas se alguma coisa tiver acontecido lá em cima, e eu não deveria estar com você.
— Claro, tudo bem.
Ele olhou ao redor, viu um táxi e assobiou. A luz de freio acendeu e eles correram em sua direção.
Atrás deles, um pequeno pedaço de papel veio flutuando sem ser visto e aterrissou perto dos restos da camisa de
John Renshaw. Lia-se ali, numa caligrafia oblíqua e inclinada para a esquerda:
Ei, crianças! Especial neste Baú do Vietnã!
(Promoção por tempo limitado)
1 Lança-mísseis
20 Mísseis terra-ar “Twister”
1 Arma Termonuclear (Modelo em Escala)
1- Nuts (no original): a única palavra dada como resposta pelo general americano Anthony McAuliffe ao ultimato de rendição por parte dos alemães na II Guerra Mundial. (N. da T.)
Caminhões
O nome do sujeito era Snodgrass e eu podia ver que se preparava para tomar alguma atitude insensata. Seus olhos estavam arregalados, mostrando boa parte do branco, como um cachorro se preparando para lutar. O jovem casal que tinha vindo derrapando pelo estacionamento no velho Fury tentava falar com ele, mas sua cabeça estava erguida como se ouvisse outras vozes. Tinha uma pancinha metida num terno de boa qualidade que estava ficando um pouco brilhante nos fundilhos. Era um vendedor e mantinha sua maleta de amostras junto de si, como um cachorrinho de estimação que tivesse adormecido.
— Tente o rádio outra vez — disse o motorista do caminhão junto ao balcão.
O cozinheiro de lanchonete deu de ombros e ligou-o. Tentou sintonizá-lo ao longo de toda a faixa de ondas, mas só o que
obteve foi estática.
— Você foi rápido demais — o caminhoneiro protestou. —
Deve ter passado por cima de alguma estação.
— Diabo — o cozinheiro disse. Era um homem idoso, negro, com um sorriso de dentes de ouro, e não estava olhando para o caminhoneiro. Fitava o estacionamento, pela janela panorâmica que corria de ponta a ponta da lanchonete.
Lá fora estavam sete ou oito caminhões, os motores em baixa rotação, roncando preguiçosos como enormes gatos ronronando. Havia dois Macks, um Hemingway e quatro ou cinco Reos. Carretas de transporte interestadual, com um bocado de placas de licença e antenas flexíveis de rádio amador na traseira.
O Fury dos garotos encontrava-se de rodas para o ar no fim de marcas compridas e sinuosas de derrapagem sobre o cascalho do estacionamento. Reduzira-se a um monte de sucata. Junto à entrada do desvio para o estacionamento dos caminhões estava um Cadillac amassado. Seu proprietário olhava fixamente pelo pára-brisas estilhaçado como se fosse um peixe estripado. De uma de suas orelhas pendia um par de óculos com armação de tartaruga.
A meio caminho entre o Cadillac e o estacionamento, jazia o corpo de uma garota de vestido cor-de-rosa. Ela saltara do carro ao ver que ia bater. Conseguira sair correndo, mas não tivera a mínima chance. Ela era a que se encontrava em pior estado, mesmo de bruços. Havia nuvens de moscas ao seu redor.
Do outro lado da estrada, uma velha caminhonete Ford fora arremessada através da mureta que separa as pistas. Isso acontecera havia uma hora. Ninguém passara desde então.
Não se conseguia ver a estrada da janela, e o telefone estava mudo.
— Você foi rápido demais — protestava o caminhoneiro. —
Devia...
Foi então que Snodgrass perdeu o controle. Derrubou a mesa ao se levantar, quebrando xícaras e fazendo com que o açúcar voasse pelos ares numa chuva. Seus olhos estavam mais alucinados do que nunca, a boca frouxamente aberta, e ele balbuciava:
—
Temos
que
dar
o
fora
daqui
temos
que
daroforadaqui
temosquedaroforadaqui...
O garoto gritou, e sua namorada deu um berro.
Eu estava no banco mais próximo à porta e segurei-o pela camisa, mas ele se soltou com um puxão. Parecia enlouquecido. Teria sido capaz de atravessar a porta da caixa-forte de um banco.
Fechou a porta com um estrondo e saiu correndo pelo cascalho na direção da vala de drenagem, à esquerda. Dois dos caminhões saíram em seu encalço, os canos de descarga verticais exalando a fumaça marrom-escura de óleo diesel no céu, as imensas rodas traseiras levantando uma chuva de cascalho.
Snodgrass não devia estar a mais do que cinco ou seis passos da extremidade do estacionamento, quando se virou para olhar, o medo estampado no rosto. Seus pés se embaraçaram, ele tropeçou e quase caiu. Recuperou o equilíbrio, mas era tarde demais.
Um dos caminhões abriu passagem e o outro atacou, a grade da frente reluzindo ferozmente sob o sol. Snodgrass gritou, um grito agudo e estridente, quase totalmente abafado pelo ronco intenso do motor a diesel do Reo.
Não o arrastou para baixo das rodas. Na verdade, isso teria sido melhor. Ao contrário, arremessou-o para cima e para a frente, do modo como um jogador de futebol chuta a bola.
Por um momento, sua silhueta se recortou contra o céu da tarde quente como um espantalho mutilado, e então ele desapareceu na vala de drenagem.
Os freios do enorme caminhão assobiaram como o sopro de um dragão e as rodas dianteiras travaram, cavando sulcos no piso de cascalho do estacionamento. Ele parou antes de se desgovernar. Desgraçado.
A garota no reservado gritou. As duas mãos estavam enterradas na face, puxando a pele para baixo e
transformando-a na máscara de uma bruxa.
Barulho de vidro se partindo. Virei a cabeça e vi que o caminhoneiro tinha apertado seu copo com tanta força a ponto de quebrá-lo. Acho que ainda não tinha se dado conta disso. Leite e algumas gotas de sangue caíam sobre o balcão.
O cozinheiro negro estava imobilizado junto ao rádio, um pano de prato na mão, a expressão de total perplexidade.
Seus dentes reluziam. Por um momento, não se ouviu ruído algum além do zumbido do relógio de parede elétrico Westclox e o ronco do motor do Reo, que voltava para junto de seus companheiros. Então, a garota começou a chorar, e tudo ficou bem — ou pelo menos ficou melhor.
O meu carro estava ao lado da lanchonete, também ele reduzido a sucata. Era um Camaro 1971 que eu ainda estava pagando, mas acho que àquela altura isso não importava.
Não havia ninguém nos caminhões.
O sol reluzia e se refletia nas cabines vazias. Os volantes giravam por conta própria. Você não conseguia ficar muito tempo pensando nisso. Se o fizesse, ia acabar maluco.
Como Snodgrass.
Duas horas se passaram. O sol começou a descer no horizonte. Lá fora, os caminhões faziam patrulha em círculos lentos, ou desenhando números oito. As luzes de estacionamento e as lanternas tinham sido acesas.
Andei até a outra ponta do balcão e voltei para mexer um pouco as pernas, então sentei-me a um dos reservados junto à grande janela da frente. Era uma típica parada de
caminhões, perto de uma grande rodovia, com instalações de serviços completas nos fundos, bombas de gasolina e diesel. Os caminhoneiros entravam para tomar um café e comer um pedaço de torta.
— Moço? — a voz era hesitante.
Virei o rosto. Era o jovem casal do Fury. O rapaz parecia ter mais ou menos 19
anos. Tinha cabelos compridos e uma barba rala, começando a ficar mais espessa. Sua namorada parecia mais nova.
— Sim?
— O que foi que aconteceu com o senhor?
Dei de ombros.
— Eu vinha pela rodovia interestadual para Pelson — eu disse. — Havia um caminhão atrás de mim. Eu podia vê-lo pelo retrovisor, bem distante... a toda. Dava para ouvi-lo a um quilômetro e meio de distância na rodovia. Ultrapassou um Fusca e jogou-o para fora da estrada com uma chicotada da carreta, como você atiraria uma bolinha de papel para fora da mesa dando um peteleco. Pensei que o caminhão também fosse sair da estrada. Nenhum motorista conseguiria manter o controle sobre ele com a carreta rabeando daquele jeito. Mas não saiu. O Fusca capotou umas seis ou sete vezes e explodiu. E o caminhão se livrou do carro seguinte do mesmo modo. Aproximava-se de mim, e rapidamente tomei uma rampa de saída. — Ri, mas não foi um riso sincero. —
Cheguei a uma parada de caminhões, entre todos os lugares possíveis. Saltei da frigideira para o fogo.
A garota engoliu em seco.
— Vimos um ônibus Greyhound indo pela contramão na rodovia que vai para o sul. Ele abria caminho... passando...
por cima dos carros. Explodiu e pegou fogo, mas antes fez uma verdadeira... carnificina.
Um ônibus Greyhound. Isso era novidade. E uma péssima novidade.
Lá fora, todos os faróis subitamente se acenderam ao mesmo tempo, banhando o estacionamento num brilho raso e fantasmagórico. Rosnando, os caminhões andavam de um lado a outro. Os faróis pareciam dotá-los de olhos, e na crescente penumbra as escuras carrocerias pareciam os ombros quadrados e arqueados de gigantes pré-históricos.
O cozinheiro perguntou:
— É seguro acender as luzes?
— Acenda — eu disse —, e saberemos.
Ele acionou os interruptores e uma série de globos cheios de insetos mortos se acendeu no teto. Ao mesmo tempo, um letreiro fluorescente lá fora piscou, titubeante, ostentando em seguida as palavras: “Parada de caminhões e Lanchonete Conant’s — Boa Comida”. Nada aconteceu. Os caminhões continuaram sua patrulha.
— Não consigo entender — o caminhoneiro disse. Ele descera do seu banco e andava de um lado para outro, a mão enrolada num lenço vermelho. — Nunca tive problemas com meu caminhão. É um velho camarada. Parei aqui um pouco depois de uma hora para comer um espaguete, e
acontece isso — fez um gesto com o braço, e o lenço esvoaçou. — Meu caminhão está lá fora neste exato instante, é aquele com a luz traseira esquerda meio fraca.
Estou com ele há seis anos. Mas se eu pusesse o pé para fora dessa porta...
— Isso é apenas o começo — disse o cozinheiro, os olhos perturbados,
semicerrados. — A coisa deve estar feia, se o rádio parou de funcionar. Isso é apenas o começo.
A garota agora estava branca feito leite.
— Deixa isso para lá — eu disse ao cozinheiro. — Pelo menos por ora.
— Qual deve ser o motivo disso? — o caminhoneiro se perguntava, inquieto. —
Tempestades elétricas na atmosfera? Testes nucleares? O
quê?
— Talvez eles tenham enlouquecido — eu disse.
Por volta das sete horas, aproximei-me do cozinheiro.
— Como é que estão as provisões por aqui? Quero dizer, se tivermos que ficar por algum tempo?
Ele franziu a testa.
— Não estamos tão mal assim. Ontem foi dia de entrega.
Recebemos uns duzentos ou trezentos hambúrgueres, frutas e legumes em conserva, cereais, ovos...
quanto ao leite, só temos o que está na geladeira, mas a água é do poço. Se for preciso, nós cinco conseguimos
sobreviver durante um mês ou mais.
O caminhoneiro se aproximou e piscou os olhos.
— Meus cigarros acabaram. Mas aquela máquina de cigarros...
— Não é minha — o cozinheiro disse. — Não, senhor.
O caminhoneiro tinha uma barra de aço que arranjara no depósito dos fundos.
Começou a usá-la na máquina de cigarros.
O garoto foi até a reluzente e iluminada jukebox e depositou uma moeda de 25
centavos. John Fogarty começou a cantar qualquer coisa sobre ter nascido num igarapé.
Sentei-me e fiquei olhando pela janela. Vi logo de saída algo de que não gostei.
Uma pequena picape Chevrolet tinha-se juntado à patrulha, como
um pônei Shetland em meio a Percherões. 1 Observei-a, até que ela rolou imparcialmente sobre o corpo da garota do Cadillac, e desviei os olhos.
— Nós os fabricamos! — gritou a garota, num súbito ataque de desespero. —
Eles não podem fazer isso!
Seu namorado disse-lhe que ficasse quieta. O caminhoneiro conseguiu abrir a máquina de cigarros e pegou seis ou oito maços de Viceroy. Guardou-os em bolsos diferentes, depois abriu um maço. Pela expressão intensa em seu rosto, eu não conseguia saber se iria fumá-los ou comê-los.
Um outro disco começou a tocar na jukebox. Eram oito horas.
Às oito e meia, a energia elétrica acabou.
Quando as luzes se apagaram, a garota gritou, um grito que se interrompeu subitamente, como se o namorado tivesse posto a mão sobre sua boca. A jukebox parou de funcionar num lamento grave e arrastado.
— Mas que diabo! — o caminhoneiro disse.
— Cozinheiro! — chamei. — Você por acaso tem velas?
— Acho que sim. Espere... tenho. Tome aqui algumas.
Levantei-me e as apanhei. Nós as acendemos e começamos a espalhá-las pelo local.
— Tomem cuidado — eu disse. — Se incendiarmos isto aqui, vai ser o diabo.
Ele deu uma risadinha rabugenta:
— Você manda.
Quando terminamos de distribuir as velas, o garoto e sua namorada estavam encolhidos, um junto do outro, e o caminhoneiro estava perto da porta dos fundos, observando mais seis caminhões pesados rondando por entre as ilhas de concreto onde ficavam as bombas de combustível.
— Isso muda as coisas, não muda? — perguntei.
— Com certeza, se a energia acabou de vez.
— E o que vai piorar?
— O hambúrguer estraga em três dias. O resto da carne e dos ovos, mais ou menos no mesmo prazo. Quanto às latas, tudo bem, e os cereais. Mas isso não é o pior.
Não teremos água sem a bomba.
— Quanto tempo?
— Sem água? Uma semana.
— Encha todas as jarras que tiver. Encha-as até não conseguir mais nada além de ar. Onde ficam os banheiros?
Há água potável nas caixas.
— O banheiro dos empregados é nos fundos. Mas você tem que ir lá fora para chegar ao das senhoras e dos cavalheiros.
— Ir até o posto? — eu não estava pronto para aquilo. Ainda não.
— Não. Saindo pela porta lateral, um pouco mais abaixo neste mesmo prédio.
— Me arranje dois baldes.
Ele encontrou dois baldes galvanizados. O rapaz se aproximou.
— O que vocês vão fazer?
— Temos que conseguir água. Toda a água que for possível.
— Então me dê um balde.
Entreguei-lhe um dos meus.
— Jerry! — a garota gritou. — Você...
Ele ergueu os olhos e ela não disse mais nada, mas apanhou um guardanapo e começou a rasgar as pontas. O
caminhoneiro fumava outro cigarro e sorria um sorriso amargo para o chão. Não disse nada.
Fomos até a porta lateral por onde eu entrara naquela tarde e ficamos ali parados por um segundo, observando as sombras inchar e minguar, conforme os caminhões andavam de um lado a outro.
— Agora? — disse o garoto.
Seu braço roçou no meu, e os músculos estavam saltando e vibrando como fios de arame. Se alguém esbarrasse nele, ele iria direto para o céu.
— Relaxe — eu disse.
Ele sorriu de leve. Era um sorriso amarelo, mas melhor do que nenhum.
— Tudo bem.
Saímos de mansinho.
O ar da noite estava mais fresco. Grilos cricrilavam na grama, e rãs coaxavam e faziam aquele ruído de batidas ritmadas na vala de drenagem. Lá fora, o ronco dos caminhões era mais alto, mais ameaçador, o ronco de feras.
De dentro, parecia um filme.
Aqui fora era real, você podia ser morto.
Caminhamos rente à parede lateral de azulejos. Uma pequena marquise nos ocultava um pouco. Meu Camaro estava imprensado contra a cerca à nossa frente, e o brilho
fraco do letreiro à beira da estrada reluzia no metal quebrado e nas poças de gasolina e óleo.
— Você vai até o banheiro das mulheres — sussurrei. —
Encha o balde com a água da caixa do vaso e espere.
Constante ronco dos motores a diesel. Era traiçoeiro; você pensava que eles estavam vindo, mas eram apenas ecos que nos chegavam das paredes do prédio. Não eram mais do que 6 metros de distância, mas parecia muito mais longe.
Ele abriu a porta do banheiro feminino e entrou. Passei dali e entrei no masculino. Pude sentir meus músculos relaxarem e soltei o ar dos pulmões com um assobio. Vi de soslaio meu reflexo no espelho, um rosto tenso e pálido com olhos soturnos.
Removi a tampa de louça da caixa e enchi o balde.
Derramei de volta um pouquinho, para evitar que entornasse, e fui até a porta.
— Ei!
— Ahn — ele sussurrou.
— Está pronto?
— Estou.
Saímos de novo. Tínhamos dado talvez uns seis passos, quando os faróis acenderam na nossa cara. O caminhão se aproximara sorrateiro, os pneus enormes mal rodando sobre o cascalho. Ficara lá fora esperando e agora saltava sobre nós, as lâmpadas elétricas dos faróis brilhando em círculos selvagens, a imensa grade cromada parecendo rosnar.
O garoto ficou petrificado, o rosto tomado pelo terror, os olhos vidrados, as pupilas do tamanho de cabeças de alfinete. Dei-lhe um empurrão, derramando metade da sua água.
— Corra!
O ronco forte daquele motor a diesel elevou-se até se transformar num guincho.
Passei a mão sobre o ombro do garoto para abrir a porta, mas, antes que pudesse fazê-lo, ela foi aberta por dentro. Olhei para trás a tempo de ver o caminhão — um imenso Peterbilt — raspar na parede externa, arrancando nacos pontudos de azulejos. Houve um ruído agudo, de doer os ouvidos, como dedos gigantescos arranhando um quadro-negro. Então o pára-lamas direito e as laterais da grade esmagaram-se de encontro à porta, que ainda estava aberta, lançando uma chuva de estilhaços de vidro e arrancando as dobradiças de aço como se fossem de papel fino. A porta foi atirada no meio da noite como algo saído de um quadro de Dalí, e o caminhão acelerou rumo ao estacionamento da frente, seu escapamento pipocando como uma rajada de metralhadora. Fazia um ruído desapontado e raivoso.
O garoto colocou o balde no chão e desabou entre os braços da namorada, tremendo.
Meu coração batia com força dentro do peito e as batatas das minhas pernas pareciam feitas de água. E por falar em água, tínhamos trazido conosco cerca de um balde inteiro mais um quarto, somando tudo. Mal parecia ter valido a pena.
— Quero obstruir aquela porta — eu disse ao cozinheiro. —
O que poderia ser usado?
— Bem...
O caminhoneiro interrompeu:
— Por quê? Um daqueles caminhões enormes não conseguiria fazer passar uma roda por ali.
— Não é com os caminhões enormes que estou preocupado.
O caminhoneiro começou a procurar um cigarro no bolso.
— Temos algumas folhas de zinco lá no depósito — o cozinheiro disse. — O
patrão ia construir um galpão para guardar o gás de butano.
— Vamos cobrir a porta com elas e escorá-las com uns dois bancos dos reservados.
— Vai ajudar — disse o caminhoneiro.
Levou cerca de uma hora e no fim todos tínhamos nos envolvido na tarefa, até a garota. Estava razoavelmente sólido. É claro que razoavelmente sólido não seria o bastante, não se algo batesse ali a toda velocidade. Acho que todos sabíamos disso.
Ainda havia três reservados alinhados ao longo do janelão da frente, e eu me sentei num deles. O relógio atrás do balcão parara às 8h32, mas eu tinha a sensação de que deviam ser dez horas. Lá fora, os caminhões rondavam e rosnavam. Alguns partiam, indo apressados cumprir missões desconhecidas, e outros chegavam. Havia três
picapes agora, rodando em círculos, com ar importante, entre seus irmãos mais velhos.
Eu começava a cochilar, e em vez de contar carneirinhos contava caminhões.
Quantos havia no estado, quantos havia na América?
Carretas, picapes, pranchões, basculantes, caminhões comuns e militares às dezenas de milhares e ônibus. A visão de pesadelo de um ônibus urbano, duas rodas na valeta e duas na calçada, rugindo e ceifando pedestres, que gritavam apavorados, como se estes fossem pinos de boliche.
Afastei a imagem da cabeça e mergulhei num sono superficial e agitado.
Devia ser cedo pela manhã quando Snodgrass começou a gritar. A nesga de uma lua nova se erguera no céu e projetava seu brilho gélido através de uma camada alta de nuvens. Uma nova nota, aguda, se ouvia agora, em contraponto ao rugido gutural e arrastado dos grandes caminhões. Tentei descobrir de onde vinha e vi uma enfardadeira de feno circulando perto do letreiro apagado. A luz da lua se refletia nos cones pontiagudos do rolo giratório.
Ouvi outra vez o grito, que vinha sem dúvida da vala de drenagem:
— So... corro...
— O que foi isso? — era a garota. Em meio às sombras, seus olhos estavam arregalados e ela parecia terrivelmente assustada.
— Nada — eu disse.
— So... corro...
— Ele está vivo — ela sussurrou. — Oh, meu Deus. Vivo.
Eu não precisava vê-lo. Podia imaginar a situação muito bem. Snodgrass deitado com a metade do corpo dentro da vala de drenagem e a outra metade fora, a coluna e as pernas quebradas, o terno cuidadosamente passado sujo de lama, o rosto pálido e ofegante voltado na direção da lua indiferente...
— Não estou ouvindo nada — eu disse. — Você está?
Ela olhou para mim.
— Como você pode ser capaz disso? Como?
— Bem, se você o acordasse — eu disse, apontando para o rapaz com o polegar
—, talvez ele ouvisse alguma coisa. Talvez fosse lá fora.
Você ia gostar disso?
Seu rosto começou a se contorcer e se deformar como se esticado por agulhas invisíveis.
— Nada — ela sussurrou. — Não há nada lá fora.
Voltou para junto do namorado e apoiou a cabeça em seu peito. Seus braços a envolveram, enquanto ele dormia.
Ninguém mais acordou. Snodgrass gritou e chorou e berrou durante um bom tempo, e depois parou.
Raiar do dia.
Outro caminhão havia chegado, desta vez uma enorme jamanta para transporte de automóveis. A ele se juntou um
trator tipo Buldôzer. Isso me assustou.
O caminhoneiro se aproximou e me puxou pelo braço.
— Venha até os fundos — ele sussurrou, animado. Os outros ainda dormiam.
— Venha dar uma olhada nisso.
Acompanhei-o até o depósito de suprimentos. Cerca de dez caminhões faziam a patrulha ali. A princípio, não vi nada de novo.
— Está vendo? — ele perguntou, e apontou. — Bem ali.
Então eu vi. Uma das picapes tinha parado por completo.
Estava imóvel ali como uma massa disforme, destituída de todo aspecto ameaçador.
— Acabou a gasolina?
— Isso mesmo, amigo. E eles não têm como se reabastecer sozinhos. Ganhamos a parada. Tudo o que temos a fazer é esperar — ele riu e tateou os bolsos em busca de um cigarro.
Era por volta de nove horas, e eu comia uma fatia da torta da véspera no café-da-manhã, quando começou a soar a buzina de ar comprimido — toques longos e ribombantes que faziam o seu crânio tremer. Fomos até as janelas e olhamos para fora.
Os caminhões estavam parados, os motores em ponto morto. Uma imensa carreta Reo com cabine vermelha chegara até a estreita faixa de grama entre o restaurante e o estacionamento. A essa distância, a grade quadrada do
radiador era imensa e parecia mortífera. Os pneus batiam na altura do tórax de um homem.
A buzina soou outra vez; toques profundos e ávidos que atravessavam o ar em linha reta e ecoavam de volta. Havia um padrão. Toques curtos e longos, numa espécie de ritmo.
— Isso é código Morse! — o garoto, Jerry, exclamou subitamente.
O caminhoneiro olhou para ele.
— E como é que você sabe?
O garoto corou de leve:
— Aprendi quando era escoteiro.
— Você? — perguntou o caminhoneiro. — Você? Uau — e balançou a cabeça.
— Deixem isso para lá — eu disse. — Você se lembra do suficiente para...
— Claro. Deixa eu escutar. Tem um lápis?
O cozinheiro lhe deu um, e o garoto começou a escrever letras num guardanapo.
Depois de um tempo, parou.
— Está apenas repetindo “atenção” várias vezes. Esperem.
Esperamos. A buzina de ar comprimido soava seus toques longos e curtos no ar tranqüilo da manhã. Então o padrão mudou e o garoto recomeçou a escrever. Olhamos sobre seus ombros e observamos a mensagem se formar. “Alguém
precisa bombear combustível. Alguém não será ferido. Todo o combustível será bombeado. Isso será feito agora. Agora alguém irá bombear combustível.”
Os toques de buzina continuaram, mas o garoto parou de escrever.
— Está só repetindo “atenção” outra vez — ele disse.
O caminhão repetia sua mensagem sem cessar. Eu não gostava do jeito das palavras, escritas sobre o guardanapo com letras de forma. Pareciam maquinais, desumanas. Não haveria qualquer meio-termo com aquelas palavras. Ou você obedecia, ou não obedecia.
— Bem — disse o garoto —, o que vamos fazer?
— Nada — o caminhoneiro disse. Seu rosto estava agitado, contorcendo-se. —
Tudo o que temos que fazer é esperar. Eles todos já devem estar com o combustível acabando. Um dos pequenininhos lá fora já parou. Tudo o que temos que fazer...
A buzina de ar comprimido cessou. O caminhão recuou e se juntou aos companheiros. Aguardaram num semicírculo, os faróis apontados na nossa direção.
— Há um trator lá fora — eu disse.
Jerry olhou para mim.
— Acha que vão derrubar isto aqui?
— Acho.
Ele olhou para o cozinheiro.
— Não conseguiriam fazer isso, não é mesmo?
O cozinheiro deu de ombros.
— Temos que votar — o caminhoneiro disse. — Nada de chantagem, diabos.
Tudo o que temos que fazer é esperar — ele repetira a frase três vezes agora, como um encantamento.
— Muito bem — eu disse. — Vote.
— Esperar — o caminhoneiro disse, imediatamente.
— Acho que deveríamos abastecê-los — eu disse. —
Podemos esperar por uma chance melhor para fugir.
Cozinheiro?
— Ficar aqui — ele disse. — Quer que sejamos escravos deles? Isso é o que vai acabar acontecendo. Quer passar o resto da sua vida trocando filtros de óleo a cada vez que uma daquelas... coisas buzinar? Eu não — ele olhou pela janela sombriamente. —