Sul da Fronteira, Oeste do Sol
Capítulo 1
Capa
Folha de rosto
Sumário
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Posfácio
Créditos
1
Eu nasci no dia 4 de janeiro de 1951. Na primeira semana do primeiro mês do primeiro ano da segunda metade do século XX. Pode-se dizer que é uma data digna de comemoração. Por isso, recebi o nome Hajime, que significa começo. De resto, não há nada notável em relação ao meu nascimento. Meu pai trabalhava em uma grande empresa de corretagem e minha mãe era uma dona de casa comum. Meu pai foi recrutado para o serviço militar quando estudante e enviado para Singapura, e depois da guerra passou um tempo em um campo de prisioneiros. A casa da minha mãe foi atingida pelas bombas de um B-29 e destruída pelo fogo, em 1945. Ambos pertenciam à geração marcada pela longa guerra.
Mas, quando eu nasci, os ecos desse período já estavam muito fracos. Onde eu morava não havia ruínas de incêndios nem forças de ocupação. Vivíamos numa cidadezinha tranquila, em um imóvel fornecido pela empresa de meu pai. Uma casa construída antes da guerra, um pouco velha, mas bem espaçosa. O jardim tinha grandes pinheiros, lanternas de pedra e até um pequeno lago.
Morávamos em um subúrbio metropolitano de classe média incrivelmente comum. Todos os colegas de quem fui próximo nesse período viviam em casas relativamente bonitas. O tamanho podia variar um pouco, mas todas tinham halls de entrada e jardins, e nesses jardins cresciam árvores. A maior parte dos pais dos meus colegas trabalhavam em escritórios ou eram profissionais especializados. Famílias nas quais a mãe também trabalhava eram raríssimas. Quase todas as casas tinham um cão ou gato de estimação. Eu não conhecia ninguém que morasse em um apartamento, grande ou pequeno. Mais tarde, me mudei para outro lugar próximo dali, onde a vida era praticamente idêntica. Então, até entrar na faculdade e me mudar para Tóquio, eu achava que todas as pessoas normais iam para o escritório de terno todos os dias, viviam em casas com quintal e tinham ou um gato, ou um cachorro. Eu não conseguia imaginar, pelo menos não concretamente, outro tipo de vida.
As casas costumavam ter duas ou três crianças. No mundo em que eu vivia, esse era o número médio de filhos que um casal tinha. As famílias de todos amigos de quem consigo me lembrar, desde a infância até a adolescência, se encaixavam nesses padrões. Se não fossem dois filhos, eram três. Se não fossem três, eram dois. Famílias com seis ou sete filhos eram raras, mas famílias com um só filho eram ainda mais incomuns.
Entretanto, eu não tinha irmãos. Era filho único. E, ao longo de toda a juventude, isso me causou um tipo de complexo. Eu era uma criatura anômala naquele mundo, a quem faltava algo que todos consideravam natural.
Quando criança eu odiava essa expressão: “filho único”. Ela parecia reforçar aquilo que eu não tinha. Me apontavam o dedo. Você é incompleto, cara!
Naquele mundo, reinava inabalável a crença de que filhos únicos são crianças mimadas pelos pais, franzinas e terrivelmente egoístas. Isso era visto como um fato da natureza, da mesma forma que a pressão do ar é menor no alto das montanhas ou que as vacas dão leite. Por isso, eu odiava quando alguém me perguntava quantos irmãos eu tinha. Bastava eu responder que não tinha irmãos para meu interlocutor pensar: “Ah, então esse aí é mimado, franzino e egoísta”. Essa visão estereotipada me irritava e me feria. Mas o que me irritava e me feria mais profundamente naquela época é que essa era a mais pura verdade. Eu era mesmo um menino mimado, franzino e terrivelmente egoísta.
Na minha escola, filhos únicos eram criaturas raríssimas. Durante os seis anos do primário, só conheci uma criança além de mim que não tinha irmãos. Só uma. Eu me lembro muito bem dela (era uma menina). Ficamos amigos e conversávamos muito. Posso dizer que realmente nos conectamos. Penso que cheguei a amá-la.
Seu sobrenome era Shimamoto. E mancava da perna esquerda, pois tivera poliomielite ainda bebê. Para completar, ela tinha sido transferida para a nossa escola no meio do curso (no final do quinto ano). Então, eu diria que ela carregava um fardo emocional muito mais pesado do que o meu. Mas esse fardo fizera dela uma filha única muito mais resiliente do que eu, com muito mais autocontrole. Ela nunca se lamentava. Não apenas não manifestava seu desagrado em palavras, como também não o deixava transparecer em suas expressões. Sorria sempre, mesmo quando acontecia algo ruim. Chego a pensar que, quanto mais desagradável fosse a situação em que se encontrava, mais ela sorria. Era um sorriso incrível, que muitas vezes me serviu de consolo e incentivo. “Tudo bem”, parecia dizer. “Tá tudo bem. É só você aguentar um pouquinho mais, e isto também vai passar.” Por isso, sempre que me lembro do rosto de Shimamoto, é esse sorriso que me vem à mente.
Shimamoto tirava boas notas e era, de maneira geral, justa e gentil com todos. Ela era uma figura bastante respeitada dentro da sala. Nesse sentido, ela era bem diferente de mim, apesar de também ser filha única. No entanto, eu não diria que os colegas tinham um apreço incondicional por ela. Ninguém a maltratava ou zombava dela, mas ela não tinha nenhum amigo de verdade, além de mim.
Acho que ela devia ser tranquila demais, controlada demais para eles, o que poderia ser visto como frieza e arrogância. Mas eu conseguia sentir que, por trás daquela fachada, se escondia algo terno e sensível. Estava escondido bem no fundo dela mas, como uma criancinha brincando de esconde-esconde, esperava ser descoberto algum dia. Essa sombra despontava, volta e meia, nas suas palavras e no seu rosto.
Shimamoto já havia mudado de escola muitas vezes, por causa do trabalho do pai. Não lembro direito o que ele fazia. Ela me explicou em detalhes uma vez mas, assim como a maioria das crianças, eu não ligava muito para a profissão dos pais dos meus amigos. Sei que era um trabalho especializado, algo a ver com bancos, ou a receita federal, algo assim. A casa para a qual ela se mudou também pertencia à empresa do pai, mas era bem grande, em estilo ocidental, cercada por um belo muro de pedra que batia na altura do quadril. Acima desse muro crescia uma cerca viva de vegetação perene, por cujas frestas dava para espiar o gramado no interior.
Shimamoto era uma menina de feições marcantes e constituição grande. Tinha praticamente a minha altura. Mais tarde, provavelmente, se tornaria o tipo de beldade que atrai olhares aonde for. Mas, quando eu a conheci, ela ainda não tinha uma aparência que fizesse jus à sua personalidade. Havia nela certa desarmonia que fazia com que a maioria das pessoas não a considerasse bonita. Acho que talvez fosse porque coexistiam dentro dela partes que já eram apropriadas para uma mulher adulta e partes que queriam continuar sendo criança, e ambas não se conectavam muito bem. Às vezes, esse tipo de desarmonia deixa as pessoas aflitas.
Morávamos muito perto um do outro (a casa dela ficava literalmente em frente à minha), e talvez por isso, durante seu primeiro mês na nova escola, os professores a fizeram sentar ao meu lado. Expliquei a ela todos os detalhes necessários para o dia a dia na escola. Falei sobre os livros didáticos, as provas semanais, o material usado em cada aula, onde estávamos em cada matéria, como funcionava o revezamento para limpar a sala e servir as refeições, esse tipo de coisa. Era costume na minha escola que os alunos novos fossem orientados por alguém que morasse próximo deles. No caso de Shimamoto, o professor me chamou e pediu que eu a tratasse com atenção especial, por causa de sua perna ruim.
Nos primeiros dias, ficamos desconfortáveis e acanhados, como qualquer criança de onze ou doze anos diante de um desconhecido do sexo oposto. Mas, quando descobrimos que éramos ambos filhos únicos, nossas conversas se tornaram muito mais animadas e íntimas. Era a primeira vez que conhecíamos outro filho único. Passamos a discutir, com grande fervor, como era não ter irmãos. Tínhamos muito a dizer sobre o assunto. Também voltávamos juntos da escola — não todo dia, mas quando calhava de nos encontrarmos na saída. Nesses dias falávamos sobre muitos assuntos, caminhando devagar (tinha de ser devagar, por causa da perna dela) por cerca de um quilômetro. Descobrimos que havia muito em comum entre nós. Gostávamos de ler. Gostávamos de ouvir música. De gatos. Éramos ruins em explicar nossos sentimentos para as pessoas. A lista de alimentos que não comíamos era bastante longa. Estudar assuntos que nos interessavam não era nenhum sofrimento, mas estudar para as matérias de que não gostávamos era terrível. A grande diferença entre nós era que ela fazia um esforço consciente para proteger a si mesma. Dedicava-se inclusive às matérias de que não gostava e tirava notas muito boas. Eu, não. Quando serviam no almoço da escola alguma comida que não era do seu agrado, ela comia mesmo assim. Eu, não. Em outras palavras, a muralha que ela construíra como autodefesa era muito mais alta e resistente do que a minha. Mas o que havia no interior dessa muralha era surpreendentemente parecido comigo.
Eu logo me habituei a estar sozinho com Shimamoto. Essa era uma experiência nova para mim. Quando estava com ela eu não sentia a mesma inquietação nervosa de quando estava com outras meninas. Gostava de acompanhá-la até em casa. Shimamoto caminhava arrastando um pouco a perna esquerda. Às vezes, se sentava no banco de um parque para descansar. Mas isso nunca me incomodou. Pelo contrário, eu até me alegrava em demorar um pouco mais.
Assim, nós dois estávamos sempre juntos, mas não tenho memória dos colegas zombarem de nós por causa disso. Na época isso nem passou pela minha cabeça, mas hoje acho um pouco surpreendente que não tenha acontecido. Afinal, crianças dessa idade costumam reparar e fazer alarde quando um menino e uma menina ficam mais próximos. Acredito que, se não faziam isso, era devido à personalidade de Shimamoto. Havia algo nela que deixava as pessoas ao redor um pouco tensas. Tinha uma aura que avisava: “Melhor não falar bobagem pra essa menina”. Até os professores às vezes pareciam um pouco nervosos ao falar com ela. Talvez isso tivesse a ver com sua perna ruim. Seja como for, todos pareciam achar que não seria apropriado zombar dela, o que, indiretamente, foi uma sorte para mim.
Por causa de sua perna, Shimamoto não participava das aulas de educação física. Também faltava nas excursões ou trilhas nas montanhas, ou em coisas como o acampamento de natação durante o verão. Nos dias de gincana, parecia deslocada. Mas, de resto, ela levava uma vida normal de estudante de escola primária. Raramente mencionava a perna. Eu não me lembro de nenhuma vez em que tenha falado dela. Quando voltávamos juntos da escola ela não pedia desculpas por andar devagar nem dava a entender que se sentia mal por isso. Mas eu sabia que a perna a incomodava e que era justamente por isso que ela não tocava no assunto. Não gostava de ir à casa de outras pessoas, pois tinha que descalçar os sapatos na entrada. Seus sapatos tinham formato e altura um pouco diferentes entre si e ela não queria que as pessoas reparassem. Deviam ser feitos sob medida. Percebi isso porque, ao chegar em casa, a primeira coisa que ela fazia era guardar os sapatos na sapateira que ficava na entrada.
Na sala de sua casa havia um aparelho de som estéreo de último modelo, e eu ia lá bastante para ouvir música. Era um aparelho excelente. A coleção de discos do pai de Shimamoto, no entanto, não era tão boa assim, devia ter no máximo uns cinquenta volumes. A maior parte era música clássica light, para iniciantes. Escutamos esses cinquenta LPs incontáveis vezes. Até hoje, me recordo exatamente de cada nota deles.
Era Shimamoto quem mexia nos discos. Ela tirava o LP da capa, usava as duas mãos para colocá-lo sobre o prato da vitrola, atenta para não encostar os dedos nas ranhuras, depois limpava a poeira do cartucho com um pequeno pincel e baixava, devagar, a agulha. Quando o vinil chegava ao fim, ela passava um spray antipoeira no disco e o secava com um feltro. Então o guardava de volta na capa e devolvia para o lugar original na estante. Fazia todos esses passos, que devia ter aprendido com o pai, com uma expressão tremendamente séria. Estreitava os olhos e chegava até a conter a respiração. Sentado no sofá, eu assistia a seus movimentos. Só depois de recolocar o disco em seu lugar, ela me olhava e dava seu pequeno sorriso de sempre. E todas as vezes eu pensava que o que ela estava manuseando não devia ser apenas um disco, mas um vidro contendo a alma delicada de alguém.
Na minha casa não havia vitrola nem discos. Meus pais não ligavam muito para música. Então eu vivia no meu quarto grudado a um radiozinho AM de plástico, ouvindo música. Costumava ouvir rock ou coisas do gênero. Mas logo aprendi a gostar da música clássica que ouvia na casa de Shimamoto. Aquela música pertencia a outro mundo, e talvez o que mais me atraísse nesse mundo era o fato de Shimamoto fazer parte dele. Uma ou duas vezes por semana eu sentava no seu sofá e, tomando o chá preto que a mãe dela nos servia, passava a tarde escutando aberturas de Rossini, a Pastoral de Beethoven, Peer Gynt. Sua mãe gostava quando eu a visitava. Ela parecia contente por ver que a filha tinha feito um amigo na nova escola em tão pouco tempo, e também devia ficar satisfeita por eu ser um menino comportado e estar sempre arrumadinho. No entanto, para falar a verdade, eu não conseguia simpatizar com ela. Ela nunca fez nada concreto que me desagradasse, sempre me tratou com gentileza. Mas sua voz tinha algo de irritadiço que às vezes me deixava desconfortável.
O disco que eu mais gostava na coleção do pai de Shimamoto era de concertos para piano de Liszt. O lado A tinha o Concerto no 1 e o lado B, o Concerto no 2. Eu gostava dele por duas razões. Primeiro porque a capa do disco era muito bonita, e segundo porque eu não conhecia ninguém — fora Shimamoto, é claro — que conhecesse os concertos para piano de Liszt. Essa ideia me causava certa empolgação. Era um mundo que ninguém ao meu redor conhecia, só eu. Como um jardim secreto no qual só eu podia entrar. Para mim, ouvir esses concertos de Liszt significava nada menos do que me alçar a um novo patamar da vida.
E, além disso, eram músicas muito bonitas. No começo, me pareceram composições exageradas, técnicas demais, meio erráticas. Mas, depois de escutá-las várias vezes, elas foram tomando forma na minha mente, como uma imagem turva que vai, pouco a pouco, ganhando foco. Quando escutava concentrado, de olhos fechados, enxergava vários redemoinhos girando naquelas composições. Um redemoinho surgia e, a partir dele, brotava mais um, que depois se conectava a mais outro. Hoje em dia, percebo que esses redemoinhos eram algo conceitual, abstrato. Eu queria contar a Shimamoto sobre eles, mas não era o tipo de coisa que eu poderia explicar usando as palavras comuns do dia a dia. E eu também não sabia se valia a pena tentar explicar para outra pessoa essas coisas que eu sentia.
Infelizmente, não me lembro do nome do pianista que tocava essas composições de Liszt. Só me lembro da capa colorida e bonita e do peso do disco. Era tão espesso e pesado que chegava a ter um ar de mistério.
Além da música clássica, havia na coleção da casa de Shimamoto um disco de Nat King Cole e um de Bing Crosby. Ouvimos esses dois discos inúmeras vezes. O de Crosby era uma coletânea de músicas natalinas, mas nós a escutávamos em qualquer estação. Hoje, acho incrível a gente não ter enjoado deles.
Certo dia, perto do Natal, eu e Shimamoto estávamos na sala da casa dela. Sentados no sofá, como sempre, ouvindo música. A mãe tinha saído para fazer alguma coisa e estávamos sozinhos em casa. Era uma tarde escura e nublada de inverno. Depois de ultrapassar, com esforço, a camada de nuvens pesadas e baixas, a luz do sol parecia ter sido reduzida a pó. Todas as coisas tinham uma aparência embotada e sem vida. O pôr do sol já se aproximava e o interior da sala estava escuro como se fosse noite. Acho que a luz não estava acesa. Só o brilho avermelhado do aquecedor a gás reluzia nas paredes. Nat King Cole cantava “Pretend”. Não entendíamos nada da letra em inglês, é claro. As palavras soavam como um encantamento. Mas gostávamos daquela música e, de tanto escutá-la, conseguíamos imitar a pronúncia das primeiras frases:
Pretend you’re happy when you’re blue
It isn’t very hard to do…
Hoje em dia eu entendo o que elas querem dizer, é claro: “Finja estar feliz quando estiver triste. Não é tão difícil assim”. Uma canção como o sorriso charmoso que Shimamoto mantinha todo o tempo. É uma forma de pensar, sem dúvida. Mas, às vezes, pode ser dificílimo.
Shimamoto vestia um suéter azul de gola redonda. Ela tinha vários suéteres azuis, acho que devia gostar dessa cor. Ou, quem sabe, era porque combinavam com o casaco azul-marinho que ela sempre usava na escola. A gola de sua camisa branca aparecia sob o suéter. Usava também uma saia xadrez e meias de algodão brancas. O suéter era justo e o tecido macio me permitia vislumbrar o volume discreto em seu peito. Ela estava sentada no sofá com as duas pernas dobradas sob o corpo. Ouvia a música e tinha um dos cotovelos apoiado sobre o encosto e o olhar de quem contempla uma paisagem distante.
— Ei — disse ela. — Você acha que é verdade que os pais que só têm um filho não se dão muito bem?
Pensei um pouco a respeito, mas não entendi muito bem a relação entre as duas coisas.
— Onde você ouviu isso?
— Alguém me falou, já faz tempo. Que quando um casal só tem um filho, é porque eles não se gostam muito. Achei triste…
— Hum…
— Seu pai e sua mãe se dão bem?
Não consegui responder na hora. Nunca tinha pensado no assunto.
— No meu caso, foi porque a saúde da minha mãe não é muito boa — falei. — Não entendo muito bem, mas parece que ter um bebê exige muito do corpo.
— Às vezes você pensa como seria se tivesse irmãos?
— Não.
— Não? Por que não?
Peguei a capa do disco que estava sobre a mesa e a examinei. Estava escuro demais para ler as letras impressas. Devolvi-a para a mesa e cocei os olhos com os punhos. Minha mãe já tinha me feito a mesma pergunta. E a resposta que dei não a deixou nem feliz, nem triste. Ao ouvi-la, ela só olhou para mim um pouco confusa. Mas era a resposta mais verdadeira e sincera que eu poderia ter dado.
Foi uma resposta bem longa, pois eu não consegui expressar meus pensamentos concisamente. Mas o que eu queria dizer, no fim das contas, era o seguinte: “Eu, do jeito que existo hoje, cresci sem irmãos. Se eu tivesse irmãos, teria me tornado alguém diferente de quem sou hoje. Então, não faz sentido tentar pensar como seria se eu, como existo hoje, tivesse tido irmãos”. Por isso, a pergunta feita pela minha mãe era incoerente.
Dei a mesma resposta para Shimamoto. Ela ficou me olhando. Sua expressão tinha algo que atraía as pessoas. Era uma sensação sensual — foi o que pensei tempos depois —, como se ela fosse retirando delicadamente, uma a uma, as camadas que envolviam o coração de seu interlocutor. Ainda hoje me lembro bem de como seus lábios finos se moviam sutilmente com cada expressão, e do brilho vago que se escondia no fundo de seus olhos. Como a chama de uma pequena vela, no fundo de um quarto estreito e comprido.
— Acho que entendo o que você quer dizer — disse ela, num tom contido e adulto.
— Entende?
— Sim — disse Shimamoto. — Acho que nesse mundo tem coisas que se pode remediar e coisas que não se pode remediar. E a passagem do tempo é irreparável. Agora que você já chegou até aqui, não dá mais pra voltar atrás. Não acha?
Eu concordei.
— As coisas vão endurecendo conforme o tempo passa, como cimento dentro de um balde. E, quando isso acontece, não tem como voltar. O que você quer dizer, resumindo, é que o cimento que te formou já está totalmente seco, e agora não existe mais nenhum você que não seja este. Não é isso?
— É, acho que sim — respondi, um pouco em dúvida.
Shimamoto encarou as próprias mãos.
— Sabe, às vezes fico pensando sobre quando eu crescer e me casar… Como vai ser minha casa, o que vou fazer. E penso também em quantos filhos vou ter.
— Puxa — falei.
— Você não pensa nisso?
Eu balancei a cabeça. Um menino de doze anos não pensaria nesse tipo de coisa.
— E quantos filhos você quer ter?
Ela tirou a mão do encosto do sofá e a pousou sobre os joelhos. Fiquei acompanhando o movimento de seu dedo, que traçava devagar as linhas do xadrez da saia. Havia algo de místico naquela ação. Como se um fio delicado saísse de seu dedo e fiasse um novo tempo. Fechei os olhos e vi os redemoinhos se formando na escuridão. Muitos deles surgiam e desapareciam sem ruído. A voz de Nat King Cole me alcançou de longe, cantando “South of the Border”. Ele se referia ao México, é claro, mas naquela época eu não sabia disso. Só achava que as palavras tinham uma sonoridade curiosa. Sempre que ouvia essa música, ficava pensando o que poderia haver ao sul da fronteira. Abri os olhos e Shimamoto continuava movendo o dedo sobre o tecido da saia. Senti uma pontada doce no interior do meu corpo.
— É estranho — disse ela. — Mas eu só consigo me imaginar tendo um filho. Eu até consigo imaginar como seria ter filhos. Imaginar que sou mãe, com um bebê nos braços. Mas não consigo imaginar irmãos para essa criança. Ela não tem nenhum. É filha única.
Sem dúvida Shimamoto era uma menina precoce, e sem dúvida gostava de mim como indivíduo do sexo oposto. E eu sentia o mesmo. Mas eu não sabia como lidar com isso. Acho que nem ela sabia. Andamos de mãos dadas uma única vez. Ela estava me levando para algum lugar e pegou minha mão, como quem diz “vamos logo, é aqui”. Provavelmente nos tocamos só por uns dez segundos, mas para mim pareceram trinta minutos. E, quando ela soltou, eu gostaria de ter continuado de mãos dadas. Ela tinha pegado minha mão com muita naturalidade, mas eu sabia que na verdade fizera isso de propósito, para ver como era.
Até hoje eu me lembro perfeitamente do toque da sua mão nesse dia. Foi uma sensação diferente de tudo o que eu conhecia. E diferente de tudo o que vim a conhecer mais tarde. Era só a mão pequena e morna de uma menina de doze anos. Mas aqueles cinco dedos e aquela palma continham, como uma amostra, tudo o que eu queria saber e tudo o que precisava saber aos doze anos. Ao me dar a mão, ela me ensinou: um lugar assim existe de verdade, no mundo real. Durante aqueles dez segundos eu me senti um pequeno pássaro, perfeito. Voando pelos ares, em meio ao vento. Enxerguei, do alto, uma paisagem distante. Era longe demais para ver exatamente o que havia lá, mas vi que ela existia. E que um dia eu chegaria lá. Essa descoberta me deixou sem fôlego e me agitou o peito.
Quando voltei para casa, sentei diante da escrivaninha no meu quarto e fiquei encarando, por muito tempo, a mão que Shimamoto havia apertado. Eu estava muito feliz por ela ter feito isso. Essa sensação agradável aqueceu meu coração por vários dias. Mas, ao mesmo tempo, me deixou confuso, perdido, triste. Pois eu não sabia o que fazer com esse calor, para onde direcioná-lo.
Ao final do primário, eu e Shimamoto fomos para escolas diferentes. Várias coisas aconteceram e eu mudei da casa onde vivera até então para uma em outra cidade. Digo outra cidade, mas ficava a apenas duas estações de trem de distância, então ainda fui visitá-la algumas vezes. Devo ter ido três ou quatro vezes nos primeiros três meses depois de me mudar. Mas foi só isso. Acabei parando de ir. Nós dois estávamos tentando sobreviver a uma idade muito delicada. Para mim, o fato de estudarmos em escolas diferentes e morarmos a duas estações de distância já tornava nossos mundos completamente distintos. Tínhamos amigos diferentes, uniformes diferentes, livros diferentes. Até o meu corpo, minha voz e a forma como eu sentia as coisas estavam se transformando muito rápido e, conforme isso acontecia, a intimidade que antes existia entre nós foi ficando desajeitada. Quer dizer, ela parecia estar passando por transformações, físicas e psicológicas, ainda mais intensas do que as minhas. E isso me deixava um pouco desconfortável. Também senti que sua mãe me lançava olhares mais críticos. Pareciam dizer: “Por que esse menino continua vindo aqui em casa? Ele já não mora mais aqui, nem estuda na mesma escola…”. Talvez fosse só impressão minha, mas o fato é que, naquela época, seu olhar me incomodava.
Assim, fui me afastando cada vez mais de Shimamoto, até que parei de visitá-la. Mas isso, provavelmente (acho que só posso dizer “provavelmente”, pois não é meu papel, afinal, analisar a vastidão de memórias que chamamos de passado e julgar o que é certo ou não), foi um erro. Eu devia ter continuado bem próximo de Shimamoto. Eu precisava dela, e acho que ela também precisava de mim. Mas era inseguro demais, tinha muito medo de me machucar. Depois disso só voltei a vê-la muito mais tarde.
Mesmo depois que parei de encontrar Shimamoto, sempre pensei nela com muito carinho. Essa memória terna serviu de incentivo e conforto durante o período confuso e doloroso da adolescência. E acho que mantive, por muito tempo, um pedaço do meu coração vazio, destinado especialmente para ela. Como uma mesa tranquila, no fundo de um restaurante, com uma discreta placa de “reservado”. Mesmo acreditando que eu jamais a veria novamente.
Na época em que convivi com ela eu tinha apenas doze anos, ainda não sentia desejo sexual de verdade. Sentia um interesse indefinido pelo volume em seu peito e pelo que havia debaixo de sua saia. Mas eu não sabia, concretamente, qual era o sentido disso, nem para onde isso me levaria. Só escutava com atenção, de olhos fechados, e imaginava o que deveria haver lá. Era uma paisagem incompleta, claro. Tudo era vago, encoberto pela névoa, com contornos difusos e indistintos. Mas eu podia sentir que algo importantíssimo para mim se escondia naquela paisagem. E eu sabia: Shimamoto via a mesma cena.
Acho que nós dois éramos criaturas incompletas e pressentíamos que algo estava prestes a surgir à nossa frente, algo que ainda teríamos que alcançar e que preencheria nossa incompletude. Estávamos diante de uma nova porta. Só nós dois, parados sob a luz difusa e tênue, de mãos dadas por apenas dez segundos.