Sul da Fronteira, Oeste do Sol
Capítulo 8
Nos dez dias depois de meu nome e minha foto terem saído na revista Brutus, vários antigos conhecidos apareceram no bar. Eram colegas de escola, dos últimos anos do fundamental e do ensino médio. Até então, quando eu entrava em uma livraria e via a infinidade de revistas expostas, me perguntava, incrédulo, quem se dava ao trabalho de ler tudo aquilo. Mas o que eu descobri, ao sair em uma, é que as pessoas têm muito mais entusiasmo pelas revistas do que eu imaginava. Olhando com atenção ao meu redor percebi que em salões de beleza, bancos, cafés, trens, em todo lugar, as pessoas tinham revistas abertas nas mãos, como se enfeitiçadas. Talvez a ideia de passar o tempo sem fazer nada fosse assustadora, e por isso liam o que quer que estivesse ao seu alcance.
No fim das contas, não posso dizer que encontrar antigos colegas fosse muito divertido. Eu não achava ruim revê-los. Tinha boas memórias com eles. Eles também pareciam alegres de me reencontrar. Mas, no fundo, eu não me importava com nada do que eles diziam. Não tinha o menor interesse em saber como estava minha cidade natal ou que rumo cada um dos meus antigos colegas havia tomado. Estava distante demais desse lugar onde vivera um dia. Além disso, tudo o que eles diziam me fazia pensar em Izumi, por mais que eu tentasse evitar. Todas as menções ao passado e àquela cidade me traziam à mente a imagem dela vivendo sozinha num pequeno apartamento em Toyohashi. “Ela já não é mais bonita”, dissera ele. “As crianças têm medo dela.” Essas duas frases ecoavam sem parar na minha mente. E ela não havia me perdoado até hoje.
Por algum tempo, depois que a revista saiu, me arrependi sinceramente de ter aceitado aparecer na reportagem, ainda que fosse bom para os negócios. Eu não queria que Izumi lesse a matéria. Como ela se sentiria se visse que não me restara nenhuma ferida e que hoje eu levava uma vida boa?
Mas, passado um mês, as pessoas pararam de aparecer. Esse é o lado bom das revistas. Você fica famoso num instante, mas também é esquecido com a mesma rapidez. Respirei aliviado. Pelo menos Izumi não dissera nada. Pensei que ela nem devia, mesmo, ler a Brutus.
Depois de um mês e meio, quando eu já tinha quase me esquecido do assunto, mais uma pessoa apareceu no bar. Era Shimamoto.
Numa noite de segunda-feira, no começo de novembro, ela estava sozinha no balcão do meu bar de jazz (cujo nome era Robin’s Nest, em homenagem a uma velha canção de que eu gosto), tomando um daiquiri. Eu estava sentado no mesmo balcão, a três bancos de distância, mas nem me ocorreu que aquela fosse Shimamoto. Só pensei, admirado, que era uma cliente muito bonita e que eu nunca a vira antes. Se tivesse visto, certamente lembraria. Ela chamava a atenção. Achei que logo chegaria alguém para encontrá-la. Não era raro mulheres irem beber sozinhas no bar, é claro. Algumas iam sabendo que seriam abordadas por homens, às vezes até esperando por isso. Dava para ver pelo jeito delas. Mas, pela minha experiência, mulheres realmente bonitas não costumavam ir sozinhas. Pois, para elas, a atenção dos homens não era agradável, era um incômodo.
Por isso, evitei olhar demais aquela mulher. Examinei-a rapidamente na primeira vez em que a vi, e depois algumas vezes de relance. Ela usava uma maquiagem leve e estava vestida com bom gosto e luxo. Um vestido de seda azul sob um cardigã bege muito fino, leve como uma casca de cebola. Sobre o balcão estava uma bolsa que combinava perfeitamente com o vestido. Não dava para estimar quantos anos tinha. Eu diria apenas que era a idade ideal.
Ela era de uma beleza estonteante, mas não parecia ser atriz ou modelo. Mulheres dessas profissões apareciam bastante no meu bar, mas elas tinham o ar de quem sabe estar sempre sendo observada, uma atitude de quem diz “sim, sou eu”. Aquela mulher era diferente. Estava relaxada e se misturava bem ao ambiente. Com o cotovelo no balcão e o queixo apoiado na mão, escutava a música do trio de jazz e tomava seu coquetel devagar, como quem lê atentamente um texto bem escrito. Vez ou outra, dava uma olhada em minha direção. Senti isso algumas vezes. Mas não achei que ela estivesse, de fato, olhando para mim.
Eu estava de terno e gravata, como sempre. A gravata era Armani, o terno Soprani Uomo, a camisa também Armani. Os sapatos eram Rossetti. Eu não ligo muito para roupas. Acho idiota gastar mais do que o necessário com isso, a princípio. Para mim, qualquer calça jeans e um suéter são suficientes para o dia a dia. No entanto, tenho uma modesta filosofia. Acho que o dono de um bar deve usar o tipo de roupa que ele gostaria que seus clientes vestissem. Isso gera uma leve tensão tanto entre os clientes quanto entre os funcionários. Então, quando vou para os meus bares, faço questão de vestir um terno elegante e sempre uso gravata.
Fiquei lá provando os coquetéis, observando a clientela e assistindo à apresentação do trio de músicos. No começo o bar estava bem cheio, mas depois das nove uma chuva forte começou a cair e as pessoas pararam de chegar. Às dez, já dava para contar as mesas ocupadas. Mas a mulher continuava lá, bebendo seu daiquiri em silêncio. Fui ficando cada vez mais intrigado. Pelo jeito, ela não estava esperando ninguém. Não verificava as horas nem olhava para a porta.
Finalmente, ela se levantou com a bolsa na mão. Já eram quase onze horas. Quem quisesse voltar de metrô precisava sair logo. Mas ela não foi embora. Se aproximou devagar, sem alarde, e se sentou no banco ao meu lado. Senti seu perfume suave. Depois de ajeitar o corpo no banco, ela tirou um maço de Salem da bolsa e colocou um cigarro na boca.
— Belo bar — disse ela.
Tirei os olhos do livro que estava lendo e a olhei, sem entender direito. Nesse momento, fui atingido por alguma coisa. O ar no meu peito ficou subitamente pesado. Pensei na força magnética. Seria isso?
— Obrigado — falei. Ela devia saber que eu era o dono do lugar. — Fico feliz que você tenha gostado.
— Sim, gostei muito — disse ela, e deu um sorriso espiando meu rosto. Era um lindo sorriso. Seus lábios se alongaram e linhas charmosas apareceram nos cantos dos olhos. Ele me lembrou alguma coisa.
— A música também é ótima — disse ela, apontando para o trio de instrumentistas. — Por acaso você teria fogo?
Eu não tinha fósforo nem isqueiro. Chamei o barman, pedi que ele trouxesse uma caixa de fósforos da casa e acendi o cigarro que ela segurava entre os lábios.
— Obrigada — disse ela.
Então eu vi o seu rosto de frente. E, finalmente, percebi. Era Shimamoto.
— Shimamoto — falei, a voz seca.
— Mas que demora! — disse ela, depois de um instante, contendo o riso. — Achei que você não ia perceber nunca.
Examinei seu rosto por muito tempo, sem dizer nada, como quem tem diante de si uma máquina elaborada e rara, da qual só tinha ouvido falar. Sem dúvida, era Shimamoto quem estava na minha frente. Mas eu não conseguia acreditar. Eu tinha pensado tanto sobre ela. E não esperava voltar a vê-la nunca mais.
— Esse terno é muito elegante — disse ela. — Fica bem em você.
Eu concordei em silêncio. Não conseguia falar nada.
— Você está bem mais bonito, hein, Hajime? E mais forte também.
— É que eu nado — consegui finalmente dizer alguma coisa. — Comecei quando era adolescente e nunca mais parei.
— Deve ser muito legal nadar. Sempre pensei isso. Como deve ser legal nadar.
— É ótimo. Qualquer um pode aprender — falei. E, assim que acabei de dizer essas palavras, lembrei da perna dela. O que eu estou dizendo?! Fiquei confuso e tentei acrescentar alguma coisa mais inteligente, mas não saiu nada. Procurei no bolso da calça por um maço de cigarros, depois lembrei que eu tinha parado de fumar havia mais de cinco anos.
Shimamoto ficou observando meus movimentos, sem dizer nada. Depois ergueu a mão para chamar o barman e pediu mais um daiquiri. Ela pedia as coisas sempre com um grande sorriso. Era um sorriso maravilhoso. Dava vontade de pegar tudo o que estivesse por perto e entregar a ela em uma bandeja. Se outras mulheres fizessem a mesma coisa, talvez fosse irritante, mas, quando ela sorria, o mundo inteiro parecia sorrir junto.
— Você continua usando azul, né? — falei.
— É, sempre gostei de roupas azuis. Que boa memória.
— Eu me lembro de quase tudo sobre você. Desde o jeito como você aponta o lápis até quantos cubos de açúcar coloca no chá.
— Quantos?
— Dois.
Ela me olhou, estreitando um pouco os olhos.
— Escuta, Hajime — disse Shimamoto. — Por que você me seguiu, naquele dia? Acho que foi há uns oito anos.
Eu soltei um suspiro.
— Eu não tinha certeza se era você. O jeito de andar era igualzinho, mas ao mesmo tempo não parecia ser você… Eu não tinha certeza. Por isso eu te segui. Estava esperando uma oportunidade de falar com você.
— Então, por que você não falou nada? Por que não me abordou para ver se era mesmo eu? Teria sido muito mais fácil.
— Eu mesmo não sei por quê — respondi com sinceridade. — Só sei que eu não consegui. Minha voz não saía.
Ela mordeu o lábio por um instante.
— Na hora, eu não percebi que era você. Só vi que tinha alguém me seguindo, por muito tempo, e tudo o que senti foi medo. De verdade! Fiquei apavorada. Mas depois de pegar o táxi, quando consegui me acalmar, de repente eu me dei conta. Não era o Hajime?
— Olha, Shimamoto — falei. — Naquele dia me deram uma coisa. Eu não sei qual a relação entre aquele homem e você, mas ele…
Ela ergueu o indicador e o encostou nos lábios. Balançou a cabeça discretamente. Como quem diz, “deixe essa história pra lá, não me pergunte mais sobre isso”.
— Você é casado, não é? — perguntou ela, mudando de assunto.
— Sim, tenho duas filhas — falei. — Duas meninas. Ainda são pequenas.
— Que lindo. Acho que combina com você, ser pai de meninas. Eu não saberia explicar por quê, mas tenho essa impressão. Que filhas combinam mais com você do que filhos.
— Será?
— Acho que sim — disse ela, sorrindo. — Então quer dizer que você não quis ter só um filho?
— Não foi de propósito. Foi como as coisas aconteceram.
— E como é ter duas filhas?
— É meio estranho. Na pré-escola, onde a mais velha estuda, mais da metade dos alunos são filhos únicos. As coisas mudaram completamente desde que a gente era criança. Na cidade, ser filho único já está virando a norma.
— A gente nasceu antes da hora.
— Pode ser — falei. — Talvez o mundo esteja se aproximando da gente. Mas, às vezes, quando vejo as meninas brincando juntas em casa, acho tão estranho… Fico admirado, pensando que também existe esse jeito de crescer. Quando eu era pequeno, só brincava sozinho. Achava que as coisas eram assim, que crianças brincavam sozinhas.
O trio terminou de tocar “Corcovado” e alguns clientes aplaudiram. Conforme a noite avançava, a banda ia se soltando e a performance ficava mais íntima. É sempre assim. No intervalo entre as músicas, o pianista pegou uma taça de vinho tinto e o baixista acendeu um cigarro.
Shimamoto tomou um gole do seu coquetel.
— Sabe, Hajime… Para falar a verdade, eu fiquei muito em dúvida se devia vir aqui. Passei quase um mês indecisa, sem saber o que fazer. Eu estava folheando uma revista e descobri que você era dono desse bar. No começo, achei que era algum engano. Você não tinha a menor cara de quem um dia seria dono de bares. Mas era o seu nome escrito e o seu rosto na foto. Meu antigo vizinho, Hajime. Fiquei muito feliz de te rever, mesmo que por uma foto. Mas eu não sabia se te encontrar de verdade seria uma boa ideia. Tinha a impressão de que seria melhor, para nós dois, se a gente não se visse. Que talvez eu devesse me contentar em saber que você estava bem.
Eu a escutei, em silêncio.
— Mas, no fim, resolvi vir só para te ver um instante, já que eu sabia onde você estava. Sentei e fiquei te vendo, bem perto de mim. Se você não percebesse quem eu era, eu pretendia voltar para casa sem falar com você. Mas não aguentei. Ver você me trouxe tantas memórias que não consegui ir embora sem dizer nada.
— Por quê? — perguntei. — Quer dizer, por que você achou que seria melhor não vir?
Ela pensou por um tempo, correndo o dedo pela borda do copo.
— Pensei que, se a gente se encontrasse, você ia querer saber várias coisas sobre mim. Se eu sou casada, onde moro, o que fiz durante todos esses anos. Não é?
— Seria o rumo normal da conversa.
— Claro, eu também acho que seria o normal.
— Mas você não quer falar sobre essas coisas.
Ela sorriu, sem jeito, e assentiu. Pelo visto, Shimamoto dispunha de vários tipos de sorriso.
— É, eu não quero falar muito sobre essas coisas. Não me pergunte o motivo, o fato é que eu não quero falar sobre a minha vida. Mas isso não é muito natural, é esquisito. Parece que estou querendo ser misteriosa ou me fazer de importante. Então pensei que talvez fosse melhor não te ver. Não queria que você me achasse esquisita, metida. Esse era um dos motivos pelos quais eu não queria vir.
— E os outros?
— Eu não queria me decepcionar.
Fiquei olhando o copo nas mãos dela. Depois olhei para o seu cabelo liso que caía até os ombros, seus lábios finos e bonitos. Seus olhos negros e profundos. Havia uma linha na sua pálpebra que lhe dava um ar muito pensativo. Parecia a linha do horizonte, ao longe.
— Antigamente eu gostava muito de você, então não queria me desapontar com você no presente.
— E eu te desapontei?
Ela balançou a cabeça discretamente.
— Eu fiquei o tempo todo te olhando, dali. No começo parecia outra pessoa. Você cresceu tanto, e está com esse terno… Mas, prestando atenção, vi que era o Hajime de sempre. Seus gestos não mudaram desde os doze anos, sabia?
— Não sabia — falei. Pensei em sorrir, mas não consegui.
— O jeito como você usa as mãos, como move os olhos, a mania de tamborilar com as unhas, a cara séria de cenho franzido, continua tudo igualzinho. Acho que, mesmo de terno Armani, o conteúdo não mudou.
— Não é Armani — falei. — A camisa e a gravata são, mas o terno não é.
Ela sorriu.
— Sabe, Shimamoto — continuei. — Eu sempre quis te encontrar. Conversar com você. Tinha tanta coisa pra te dizer.
— Eu também queria te ver — disse ela. — Mas você não veio. Você sabe disso, né? Depois que mudamos de escola e você mudou de cidade, eu te esperei por muito tempo. E você não veio. Fiquei muito triste. Achei que você tinha feito novos amigos num lugar novo, e que nem se lembrava mais de mim.
Shimamoto esmagou o cigarro no cinzeiro. Suas unhas estavam feitas, com esmalte transparente. Pareciam objetos cuidadosamente manufaturados. Lisas e sem nenhum excesso.
— Eu fiquei com medo — falei.
— Medo? — repetiu Shimamoto. — Medo de quê? De mim?
— Não. Não de você. Eu tinha medo de ser rejeitado. Eu era criança, ainda. Não conseguia imaginar que você estivesse esperando por mim. Tinha muito medo de você me rejeitar. Medo de ir te visitar e você me achar um estorvo. Então acabei me afastando, sem querer. Achei que era melhor viver tendo só as lembranças daquele tempo em que fomos muito próximos do que passar por algo tão doloroso.
Ela inclinou levemente a cabeça de lado. Brincou com uma castanha de caju na palma da mão.
— As coisas não são fáceis, né?
— Não são.
— Nós podíamos ter sido amigos por bem mais tempo… Sinceramente, nunca fiz amigos de verdade, nem na escola nova, nem no ensino médio, nem mais tarde na faculdade. Fiquei sempre sozinha, aonde quer que eu tenha ido. Sempre pensei como seria bom ter você ao meu lado. Ou, mesmo que você não estivesse ao meu lado, a gente poderia pelo menos ter trocado cartas. Acho que assim muitas coisas teriam sido diferentes. Muitas coisas teriam sido mais fáceis de suportar — Shimamoto se calou por um tempo. — Não sei por quê, mas quando entrei na outra escola as coisas pararam de dar certo. E aí, como elas não davam certo, eu fui me fechando cada vez mais em mim mesma. Um círculo vicioso.
Eu concordei.
— Na escola em que a gente estudou as coisas até que estavam caminhando bem, mas depois deu tudo errado. Eu me sentia vivendo no fundo de um poço.
Isso foi o que eu senti durante mais de uma década, desde que entrei na faculdade até me casar com Yukiko. Em algum momento, alguma coisa dá errado. E aquilo que deu errado faz com que outra coisa dê errado também. E tudo segue assim, cada vez pior. Por mais que você se debata, não consegue sair de lá de dentro. Até que apareça alguém e puxe você para fora.
— Para começar, eu tinha essa perna ruim. Então não conseguia fazer, normalmente, as coisas que as pessoas fazem. Além disso, ficava só lendo, não conseguia me abrir com ninguém. E, para completar, como posso dizer… minha aparência chamava a atenção. Então todo mundo achava que eu devia ser arrogante e complicada. Vai ver tinham razão.
— Realmente, acho que você é bonita demais.
Ela pegou outro cigarro e o colocou entre os lábios. Risquei um fósforo para acendê-lo.
— Você acha mesmo que eu sou bonita? — disse Shimamoto.
— Acho. Mas todo mundo deve te dizer isso, não?
Shimamoto riu.
— Não, não dizem. E, sinceramente, não gosto muito da minha cara. Então fico muito feliz de ouvir isso — disse ela. — Enfim, por isso as meninas não gostavam muito de mim. Infelizmente. Eu pensei muitas vezes que não me importava em ser bonita ou não, eu só queria ser uma menina normal e fazer amigos normalmente.
Shimamoto estendeu a mão e tocou bem de leve a minha, sobre o balcão.
— Mas que bom que você é feliz!
Fiquei calado.
— Você é feliz, não é?
— Não sei bem se sou feliz. Mas pelo menos acho que não sou infeliz nem solitário — falei. E acrescentei depois de um momento: — Mas de vez em quando, por um motivo qualquer, eu me pergunto se aquelas horas que passamos ouvindo música juntos na sala da sua casa não foram as mais felizes da minha vida.
— Tenho aqueles discos até hoje, sabia? Nat King Cole, Bing Crosby, Rossini, Peer Gynt, todos eles, não falta nenhum. Quando meu pai morreu, fiquei com os discos como recordação. A gente escutava com tanto cuidado que eles não têm risco nenhum. Você lembra o jeito que eu mexia neles?
— Então seu pai faleceu?
— Há cinco anos, de câncer no reto. Um jeito terrível de morrer. Era um homem tão saudável…
— E sua mãe está bem? — perguntei.
— Sim, deve estar.
Alguma coisa no seu tom de voz me intrigou.
— Você não se dá muito bem com ela?
Shimamoto terminou o daiquiri, pousou o copo no balcão e chamou o barman.
Então me perguntou:
— Tem algum coquetel que você recomenda?
— Temos alguns coquetéis originais da casa. O mais popular tem o nome do bar, Robin’s Nest. Fui eu que inventei. A base é rum e vodca. É fácil de tomar, mas é forte.
— Deve ser bom pra seduzir mulheres.
— Talvez você não saiba, Shimamoto, mas é só pra isso que existem os coquetéis.
Ela riu.
— Bom, então vou querer um desses.
Quando o coquetel chegou, ela observou sua cor por um tempo, depois sorveu um gole, fechou os olhos e deixou que o sabor se espalhasse pelo seu corpo.
— É muito delicado — disse ela. — Não é doce, mas também não queima. Um sabor simples e leve, mas bem encorpado. Não sabia que você tinha esse talento.
— Não sou capaz de construir nem uma prateleira. Não sei trocar o filtro de óleo do carro. Não consigo nem colar um selo sem ficar torto. Volta e meia disco os números errados no telefone. Mas criei alguns coquetéis que são bem elogiados!
Ela apoiou o coquetel sobre o porta-copos e passou um tempo espiando seu interior. Inclinou o copo, agitando o reflexo da iluminação indireta do teto.
— Eu não vejo minha mãe há muito tempo. Há uns dez anos aconteceram umas coisas meio complicadas e desde então a gente quase não se fala. Nos vimos no funeral do meu pai, mas só isso.
O trio terminou um blues original e o pianista começou a introdução de “Star-crossed Lovers”. Era comum ele tocar essa balada quando eu estava no bar, pois sabia que eu gostava. Não é das composições mais famosas de Duke Ellington e não tenho nenhuma memória pessoal que me ligue a ela. Simplesmente a ouvi certa vez, por acaso, e fiquei encantado. Desde quando estava na faculdade e até depois, quando trabalhava na editora, passei muitas noites ouvindo essa faixa do LP Such Sweet Thunder, uma vez atrás da outra. Nessa gravação tem um solo muito sensível e refinado de Johnny Hodges. Ouvir essa melodia lânguida e bela me faz pensar naquela época. Não foi um período muito feliz. Eu vivia repleto de desejos insatisfeitos. Era mais jovem, mais faminto, mais sozinho. No entanto, eu era eu mesmo, de forma pura, simples, intensa. Sentia penetrar no meu corpo cada nota das músicas que eu ouvia e cada linha dos livros que lia. Meus nervos eram afiados como lâminas, meus olhos tinham um brilho duro que perfurava quem estivesse à minha frente. Foi uma época assim. Ouvir “Star-crossed Lovers” me fazia lembrar daquele tempo e rever meu olhar refletido no espelho.
— Para falar a verdade, uma vez fui te ver, três anos depois de mudar de escola. Me sentia sozinho demais, não aguentei — falei. — Eu tentei telefonar, mas a ligação não completava. Então peguei o trem e fui até a sua casa. Mas já tinha outras pessoas morando lá.
— Dois anos depois que você foi embora, nós também mudamos por causa do trabalho do meu pai, para Fujisawa. Bem perto de Enoshima. Depois disso morei lá até entrar na faculdade. Quando mudamos eu te mandei um postal com o novo endereço… Não chegou?
Eu balancei a cabeça.
— Se tivesse chegado eu teria respondido, claro. Que estranho… Deve ter havido algum engano.
— Ou vai ver a gente só tem muito azar — disse Shimamoto. — São tantos enganos e nós sempre nos desencontramos… Mas deixa isso pra lá, me fala de você. Me conta da sua vida até hoje.
— Não é um assunto muito interessante — falei.
— Tudo bem, eu quero saber mesmo assim.
Contei a ela, em linhas gerais, como tinha sido minha vida até então. Que no ensino médio eu tive uma namorada, mas acabei magoando-a profundamente. Não contei todos os detalhes, só disse que aconteceu certa coisa que a magoou muito e que, ao mesmo tempo, machucou a mim mesmo. Que entrei em uma faculdade em Tóquio e depois de me formar fui trabalhar em uma editora de livros didáticos. Que nessa década dos meus vinte anos levei uma vida muito solitária. Não tinha ninguém a quem pudesse chamar de amigo. Saía com algumas mulheres, mas nunca consegui ser feliz. Que, desde o final do ensino médio até conhecer Yukiko, aos trinta anos, eu nunca tinha me apaixonado realmente por ninguém. Falei sobre como eu pensava muito nela, em Shimamoto. Pensava como seria bom poder conversar com ela, nem que fosse só por uma hora. Quando falei isso, ela sorriu.
— Você pensava muito em mim?
— Pensava.
— Eu também pensava muito em você — disse Shimamoto. — Sempre que as coisas estavam difíceis. Acho que você foi o único amigo que eu tive na vida.
Então ela apoiou um cotovelo no balcão, descansou o queixo sobre a mão e fechou os olhos, relaxando todo o corpo. Não usava anéis. Às vezes seus cílios estremeciam de leve. Por fim, ela abriu os olhos e viu a hora no relógio. Eu também olhei o meu. Já era quase meia-noite.
Ela pegou a bolsa e desceu da banqueta com um movimento rápido.
— Boa noite. Foi bom te rever.
Eu a acompanhei até a porta.
— Quer que eu chame um táxi para você? Pode ser difícil conseguir um táxi nessa chuva.
Shimamoto balançou a cabeça.
— Tudo bem, não se preocupe. Eu me viro.
— Você não ficou decepcionada, mesmo?
— Com você?
— É.
— Não fiquei, não — zombou ela. — Pode ficar tranquilo. Mas tem certeza de que esse terno não é Armani?
Só então percebi que Shimamoto não arrastava mais a perna como antes. Ela não caminhava muito rápido e, observando com atenção, dava para ver algo de forçado nos seus passos. Mas parecia bastante natural.
— Eu corrigi com uma cirurgia há uns quatro anos — disse ela, quase como quem se desculpa. — Não ficou perfeito, mas não está tão ruim quanto antes. Foi uma cirurgia bem grande, mas no fim até que deu certo. Tiveram que raspar uns ossos, aumentar outros…
— Que bom. Nem parece que você tinha algum problema.
— É — disse ela. — Talvez tenha sido bom. Mas um pouco tarde demais.
Peguei o casaco dela na chapelaria e a ajudei a vesti-lo. Parado ao seu lado, percebi que ela já não era mais tão alta. Achei estranho lembrar que aos doze anos nós tínhamos a mesma altura.
— Shimamoto, vou poder te ver de novo?
— Talvez… — disse ela. Um sorriso discreto se formou nos seus lábios. Um sorriso como uma leve fumaça subindo pelo ar, num dia sem vento. — Talvez.
Então ela abriu a porta e saiu. Depois de uns cinco minutos, eu também subi as escadas e saí para a rua. Fiquei preocupado e queria saber se ela tinha conseguido pegar um táxi. Continuava chovendo. Shimamoto não estava mais lá. A rua estava deserta. Só as luzes dos faróis dos carros se alongavam, borradas, sobre o asfalto molhado.
Quem sabe foi tudo uma ilusão, pensei. Passei muito tempo parado ali, olhando a chuva que caía na rua. Me sentia novamente um menino de doze anos. Quando era criança, nos dias chuvosos, era comum eu ficar parado sem fazer nada, só olhando as gotas caírem. Assistindo à chuva assim, sem pensar em nada, tinha a impressão de que meu corpo estava se desfazendo aos poucos e deixando de fazer parte do mundo real. A chuva deve ter um tipo de efeito hipnótico. Pelo menos era o que eu sentia naquele tempo.
Mas não tinha sido uma ilusão. Quando voltei para o bar, o copo e o cinzeiro ainda estavam diante do banco onde Shimamoto estivera sentada. Dentro do cinzeiro havia alguns tocos de cigarro, amassados, com marcas leves de batom. Sentei ao lado dele e fechei os olhos. Aos poucos, o som da música foi se afastando, e eu fiquei sozinho. Nessa escuridão macia, a chuva continuava a cair.