Sul da Fronteira, Oeste do Sol

Haruki Murakami · Capítulo 9 de 17

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Sul da Fronteira, Oeste do Sol

Capítulo 9

Depois disso, Shimamoto não apareceu por muito tempo. Todas as noites eu passava horas sentado ao balcão do Robin’s Nest. Ficava lendo e, de quando em quando, olhava para a porta. Mas ela não vinha. Comecei a ficar preocupado se havia dito alguma coisa errada. Se tinha falado algo inadequado e a magoado. Relembrei cada uma das palavras que disse naquela noite e cada uma das palavras que ela falou. Mas não parecia ser o caso. Quem sabe ela tinha, mesmo, se decepcionado comigo. Era uma possibilidade muito plausível. Ela era tão linda e até sua perna ruim estava curada. Talvez não tivesse encontrado mais nada de valor em mim.

O ano foi chegando ao fim, passou o Natal, depois o Ano-Novo. E, em um instante, o mês de janeiro se foi. Resignado, decidi parar de esperar por ela. Passei a aparecer no Robin’s Nest só raramente, pois quando estava lá sempre acabava pensando nela e buscando-a com o olhar entre os clientes. Eu sentava no balcão do bar, abria um livro e me perdia em pensamentos. Não conseguia mais me concentrar direito.

Ela dissera que eu era o seu único amigo. O único amigo que tivera em toda a sua vida. Eu fiquei muito feliz em ouvir isso. Pensei que poderíamos ser amigos novamente. Queria falar com ela sobre tantas coisas. Saber sua opinião sobre tudo. Se ela não quisesse me contar nada sobre si mesma, não tinha problema. Eu ficaria feliz só de poder encontrá-la e conversar com ela.

Mas ela não apareceu mais. Quem sabe estava ocupada e não tinha tempo para ir me ver. Mas três meses eram um vazio grande demais. Se ela estivesse sem tempo, poderia pelo menos telefonar. No fim, pensei que ela devia ter esquecido de mim. Eu já não devia ser uma pessoa muito importante na sua vida. Essa ideia me doeu. Era como se um pequeno buraco tivesse se aberto no meu coração. Ela não devia ter me falado aquelas coisas. Há palavras que marcam para sempre o peito de quem as ouve.

Mas, no fim de fevereiro, ela veio. Novamente numa noite de chuva. Uma chuva silenciosa e fria. Naquele dia, por acaso, eu estava desde cedo no Robin’s Nest, resolvendo algumas pendências. Os guarda-chuvas nas mãos dos clientes que entravam traziam o cheiro gelado da chuva. Um saxofonista tenor se juntara ao trio de jazz, de improviso, para tocar algumas músicas. Era um músico bastante conhecido, então a casa ficou lotada. Eu estava sentado no meu lugar habitual, no fim do balcão, quando Shimamoto se sentou discretamente ao meu lado.

— Boa noite — disse ela.

Eu fechei o livro e a olhei. Não conseguia acreditar que ela estava ali de verdade.

— Achei que você não vinha mais.

— Desculpa — disse ela. — Você está bravo?

— Bravo? Eu não ficaria bravo por uma coisa dessas. Isto aqui é um estabelecimento comercial, Shimamoto. Os clientes vêm quando querem, partem quando querem. Eu só fico aqui, esperando.

— Bom, de qualquer jeito, desculpa. Não posso explicar em detalhes, mas não consegui vir antes.

— Estava ocupada?

— Ah, não — disse ela, em voz baixa. — Não estava ocupada. Só não deu para vir para cá.

O cabelo dela estava molhado pela chuva. Alguns fios de sua franja úmida grudavam na testa. Pedi ao garçom que trouxesse uma toalha limpa.

— Obrigada.

Ela agradeceu ao receber a toalha e secou o cabelo. Depois pegou um cigarro e o acendeu com seu isqueiro. Os dedos dela tremiam um pouco, talvez de frio por causa da chuva.

— Saí só de capa de chuva, porque quando saí a chuva estava fraca e eu vinha de táxi, mas acabei andando bastante…

— Quer beber alguma coisa quente? — perguntei.

Shimamoto abriu um sorriso, me olhando nos olhos.

— Obrigada, não precisa.

Vendo esse seu sorriso eu me esqueci, em um instante, do vazio de três meses.

— O que você tá lendo? — perguntou ela, apontando para o meu livro.

Eu o mostrei a ela. Era um livro de história, sobre o conflito entre a China e o Vietnã que se seguiu à guerra do Vietnã. Ela correu os olhos por alguns trechos e me devolveu.

— Você não lê mais ficção?

— Leio, sim. Mas não tanto quanto antes. E quase não leio livros novos. Só antigos, a maioria do século dezenove. Muitas vezes releio os que já li.

— Por que você não lê coisas novas?

— Acho que não gosto de me decepcionar. Se leio um livro ruim fico muito chateado, sinto que joguei meu tempo fora. Antigamente não era assim. Eu tinha tempo de sobra e, mesmo quando lia alguma coisa ruim, sempre achava que havia algo a extrair dali. Guardadas as devidas proporções. Mas agora só acho que perdi meu tempo. Talvez eu esteja ficando velho.

— É, sem dúvida você está ficando velho… — disse ela, com um sorriso brincalhão.

— E você, ainda lê bastante?

— Sim, leio sempre. Coisas novas e velhas. Ficção e não ficção. Coisas chatas e coisas interessantes. Ao contrário de você, leio justamente para passar o tempo.

Em seguida, ela pediu um Robin’s Nest para o barman. Eu pedi o mesmo. Quando o coquetel chegou ela tomou um gole, assentiu de leve e o pousou no balcão.

— Por que será que os coquetéis que eu tomo aqui são mais gostosos do que os dos outros bares?

— Porque a gente se dedica — falei. — Sem esforço, as coisas não dão certo.

— Que tipo de esforço?

— Por exemplo, esse menino — disse eu, apontando o barman jovem e bonito que picava o gelo com uma expressão muito compenetrada. — Eu pago um salário altíssimo para ele. Uma soma que deixaria qualquer um espantado. Os outros funcionários não sabem, mas eu pago. Sabe por quê? Porque ele tem um dom para fazer coquetéis. As pessoas compreendem isso muito bem, mas fazer um bom coquetel requer talento. Quer dizer, treinando bastante qualquer um consegue melhorar. Se você passar alguns meses aprendendo as técnicas, vai conseguir servir coquetéis que não envergonham ninguém. Os coquetéis da maioria dos bares estão nesse nível. São passáveis. Mas, para ir além disso, é preciso talento. É a mesma coisa que tocar piano, pintar, correr cem metros rasos. Pessoalmente, eu diria que sei fazer coquetéis bem decentes. Estudei bastante e pratiquei por muito tempo. Mas, por mais que eu me esforce, não sou páreo para ele. Posso usar as mesmas bebidas, sacudir a coqueteleira do mesmo jeito, durante o mesmo tempo, que o resultado não será igual. Não adianta. Só pode ser uma questão de talento. É como na arte. Há uma linha, e tem gente que consegue ultrapassar essa linha e gente que não consegue. Então, quando descubro alguém talentoso, cuido para que a pessoa não vá embora. Pago um bom salário.

Esse menino era homossexual, e por isso às vezes outros gays se reuniam ao seu redor no balcão. Mas eu não me incomodava, eram pessoas tranquilas. Eu gostava dele, e ele também confiava em mim e trabalhava muito bem.

— Puxa, será que você tem mais talento para os negócios do que parece? — disse Shimamoto.

— Não, eu não tenho talento — falei. — Não sou um empreendedor. Tenho dois pequenos estabelecimentos, só isso. Não pretendo ter mais filiais nem apostar mais alto. Não dá para chamar isso de talento nem de competência. Só que, sempre que estou à toa, eu fico imaginando. Imagino como seria se eu fosse um cliente. Onde eu iria, com quem, o que gostaria de beber e comer. Se eu fosse um homem solteiro de uns vinte cinco anos, planejando um encontro com uma menina de quem gosto, em que tipo de bar eu iria? Imagino esses cenários nos mínimos detalhes. Quanto dinheiro ele tem para gastar? Onde mora, a que horas precisa voltar? Vou inventando situações assim, uma depois da outra. Conforme penso essas coisas, a imagem do bar que eu gostaria de ter vai ficando mais nítida.

Nessa noite, Shimamoto usava um suéter azul-claro de gola alta e uma saia azul-marinho. Dois brincos pequenos reluziam nas suas orelhas. O suéter justo e fino realçava a forma bonita de seus seios. Senti que me faltava o ar.

— Me conte mais — disse Shimamoto. E sorriu o seu sorriso alegre de sempre.

— Sobre o quê?

— Sobre suas estratégias de gerência — disse ela. — Adoro te ouvir falar assim.

Corei um pouco. Fazia muito tempo que eu não ficava vermelho na frente de alguém.

— Essas coisas não chegam a ser estratégias. Mas acho que já faz tempo que eu faço isso, Shimamoto. Pensar sozinho sobre várias coisas. Usar a imaginação. É o que eu sempre fiz, desde pequeno. Invento um lugar fictício e vou construindo, pedacinho por pedacinho. Isto vai ficar bom assim, aquilo ali é melhor trocar por tal coisa… Um tipo de simulação. Depois da faculdade eu passei muito tempo trabalhando numa editora de livros didáticos, como te falei no outro dia. O meu trabalho lá era chatíssimo, justamente porque eu não podia usar a imaginação. Pelo contrário, lá meu trabalho era aniquilar qualquer imaginação. Era muito tedioso. Eu me sentia sufocado, detestava ir para o escritório. Quando eu estava lá sentia que estava encolhendo, ficando cada vez menor, e que uma hora ia desaparecer de vez.

Tomei um gole do meu coquetel e passei os olhos, devagar, pelas mesas do bar. Apesar da chuva, havia bastante gente. O saxofonista que participara de algumas músicas estava guardando seu instrumento. Eu chamei o garçom e pedi que lhe entregasse uma garrafa de uísque e perguntasse se ele queria comer alguma coisa.

— Mas aqui é diferente. Aqui, se você não usar a imaginação, não sobrevive. Se tenho uma ideia, consigo colocá-la em prática muito rápido. Aqui não tem reuniões nem chefia. Não tem precedentes nem diretrizes do Ministério da Educação. Isso é uma maravilha, Shimamoto. Você já trabalhou em alguma empresa?

Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Não.

— Que bom. Eu não sirvo para isso. Acho que você também não deve servir. Trabalhar em uma por oito anos me fez ter certeza absoluta disso. Foram oito anos jogados fora. Os melhores anos! Me admira que eu tenha aguentado tanto. Mas, se não fosse por esses anos todos, acho que meus negócios não estariam indo tão bem. É o que eu penso. Eu gosto deste trabalho. Hoje tenho dois bares, mas às vezes me pergunto se não são só lugares imaginários que eu criei na minha mente. Jardins de fantasia. Onde eu planto flores, construo chafarizes… Tudo muito elaborado, muito real. Aí as pessoas vêm, bebem, ouvem música, conversam e voltam para casa. Por que você acha que, noite após noite, tanta gente vem até aqui e paga um bom dinheiro para beber? É porque todo mundo busca, em maior ou menor grau, um lugar imaginário. Todos querem ver os jardins suspensos, cuidadosamente desenhados por mãos humanas, querem fazer parte desse cenário. É por isso que eles vêm.

Shimamoto tirou o maço de Salem da pequena bolsa. Antes que ela pegasse o isqueiro risquei um fósforo e acendi seu cigarro. Eu gostava de fazer isso. De vê-la estreitar os olhos, e assistir ao reflexo da chama dançando no seu rosto.

— Vou confessar uma coisa. Eu nunca trabalhei na vida — disse ela.

— Nunca?

— Nem um só dia. Nunca fiz nenhum bico nem trabalho de meio período, nunca fui contratada em lugar nenhum. O trabalho é uma experiência totalmente desconhecida para mim. Então fico com muita inveja quando te ouço falar assim. Eu nunca pensei desse jeito. Passei toda a vida sozinha, lendo, só isso. E eu só penso em como gastar dinheiro, não ganhar — disse ela, estendendo os braços à minha frente. Ela tinha duas finas pulseiras de ouro no pulso direito, e no esquerdo um relógio de ouro que parecia caríssimo. Manteve as duas mãos estendidas à minha frente, como um display de mercadorias. Eu peguei sua mão direita e examinei por um tempo as pulseiras. E então me lembrei de quando, aos doze anos, ela me deu a mão. Eu ainda conseguia recordar, com clareza, o que senti naquele momento. O quanto aquilo havia agitado meu coração.

— Talvez seja mais razoável pensar sobre como gastar dinheiro — falei. E soltei sua mão. Ao fazer isso, senti que seria levado embora, carregado pelos ares. — Ficar pensando sobre como ganhar dinheiro corrói a pessoa. As coisas vão se desgastando pouco a pouco, sem que você perceba.

— Mas você não entende. Não sabe como é oco viver sem criar absolutamente nada.

— Eu não acho que seja o caso. Acho que você cria muitas coisas.

— O quê, por exemplo?

— Coisas sem forma física — falei. Olhei para minhas próprias mãos, pousadas sobre os joelhos.

Shimamoto me fitou longamente, com o copo na mão.

— Como sentimentos, você quer dizer?

— Isso — falei. — Todas as coisas vão desaparecer, cedo ou tarde. Esse bar aqui, inclusive, não vai existir para sempre. Basta só o gosto das pessoas mudar um pouco, a economia oscilar, e tudo o que está aqui desaparece num instante. Eu já vi muitos exemplos disso. Acontece num piscar de olhos. Tudo o que tem forma física cedo ou tarde desaparece. Mas há um tipo de sentimento que dura para sempre.

— É, mas também há sentimentos que são amargos justamente porque não se apagam, Hajime. Você não acha?

O saxofonista se aproximou e me agradeceu pela bebida. Eu agradeci pela música.

— Os músicos de jazz de hoje em dia são muito educados — expliquei a Shimamoto. — Quando eu estava na faculdade, eles não eram assim. Quando você pensava em músicos de jazz, eram todos drogados, boa parte não batia bem da cabeça. Mas de vez em quando faziam uns shows inacreditáveis, que te faziam cair de costas. Eu ia muito aos clubes de jazz em Shinjuku, em busca dessa experiência de ser arrebatado.

— Você gosta desse tipo de gente, né, Hajime?

— É, acho que sim — falei. — Não é a busca por experiências medianas que faz as pessoas se entregarem. É a busca por uma experiência sublime. Mesmo que nove de cada dez tentativas não deem em nada, as pessoas continuam indo atrás da décima. E é isso que move o mundo. Me pergunto se a arte não é justamente isso.

Encarei novamente minhas mãos sobre os joelhos. Depois ergui o rosto e olhei para Shimamoto. Ela estava esperando que eu continuasse.

— Mas hoje as coisas são um pouco diferentes. Agora eu sou um administrador. Invisto capital, recolho os lucros. Não sou artista nem estou criando nada. E isto aqui não existe pra apoiar a arte. Querendo ou não, o propósito deste lugar é outro. Para quem administra um estabelecimento, é muito mais fácil lidar com essa turma de músicos certinhos e educados. É a vida… O mundo não precisa ser cheio de Charlies Parker.

Ela pediu mais um coquetel, depois acendeu outro cigarro. Houve um silêncio muito longo. Shimamoto parecia estar pensando sobre alguma coisa. Fiquei escutando o longo solo de “Embraceable You” que o baixista tocava. O pianista acompanhava com um ou outro acorde, o baterista enxugou o suor e tomou um gole de sua bebida. Um cliente regular veio me cumprimentar e trocamos algumas palavras.

— Hajime — disse Shimamoto, depois de bastante tempo. — Você conhece algum rio? Um rio de vale, não muito grande, que tenha um pouco de praia nas margens e corra direto para o mar, sem parar. De preferência, com correnteza rápida.

Eu a olhei, surpreso.

— Um rio? — perguntei. Não entendi o que ela queria dizer. Seu rosto não me contava nada, estava totalmente inexpressivo. Ela apenas me olhava como quem olha para uma paisagem longínqua. Senti que, talvez, eu realmente estivesse muito distante dela. Quem sabe uma distância incalculável nos separava. Essa ideia me deu certa tristeza. Algo em seus olhos me deixava triste.

— De onde saiu esse assunto do rio?

— Me ocorreu de repente, só isso — disse ela. — Você não conhece nenhum rio assim?

Quando estava na universidade eu viajei bastante sozinho, levando só um saco de dormir. Então vi muitos rios, por todo o Japão. Mas demorei para lembrar de algum do jeito que ela queria.

— Acho que tem um assim na costa do mar do Japão — falei, depois de pensar um pouco. — Não lembro o nome… Mas acho que era na província de Ishikawa. Se eu fosse até lá, conseguiria achar. Acho que esse é o mais próximo do que você quer.

Eu lembrava bem daquele rio. Fui para lá nas férias de outono, quando estava no segundo ou terceiro ano da faculdade. As folhagens de outono estavam lindas, as encostas ao redor pareciam tingidas de sangue. As montanhas iam até a costa, o rio era muito bonito, às vezes se ouvia o chamado de um cervo vindo do meio do bosque. Lembro de comer um peixe de água doce muito saboroso.

— Você pode me levar lá? — perguntou Shimamoto.

— É em Ishikawa! — respondi com a voz seca. — Não é como ir ali, em Enoshima. Tem que pegar um avião e depois andar por mais de uma hora de carro. A gente teria que passar a noite lá. E você deve saber que, no momento, eu não posso fazer isso.

Shimamoto girou o corpo devagar sobre o banco e me olhou de frente.

— Olha, Hajime. Eu sei muito bem que não devia te pedir uma coisa dessas. Sei como seria complicado para você. Mas você é a única pessoa com quem posso contar. Eu preciso de qualquer jeito ir para lá, e não quero ir sozinha. Não tenho mais ninguém a quem pedir.

Eu a olhei nos olhos. Eram como a água de uma nascente silenciosa, à sombra de uma rocha, fora do alcance do vento. Tudo estático, sem nenhum movimento. Tive a impressão de que, se ficasse olhando, conseguiria ver os reflexos na superfície da água.

— Desculpa — disse ela subitamente, relaxando o corpo. — Eu não vim para cá pra te pedir isso. Eu só queria te encontrar e conversar com você. Não pretendia falar sobre esse assunto.

Eu fiz as contas de cabeça, rapidamente.

— Se a gente sair de manhã bem cedo, de avião, talvez dê para voltar no começo da noite. Mas depende de quanto tempo você vai demorar lá.

— Não devo demorar muito — disse ela. — Você conseguiria mesmo arranjar tempo para ir e voltar de avião?

— Talvez… — respondi, depois de pensar um pouco. — Ainda não posso te dar certeza. Mas acho que eu consigo. Você pode me ligar amanhã? Estarei por aqui neste mesmo horário. Até lá eu me organizo. E a sua agenda?

— Posso ir a qualquer hora. Minha agenda está vazia. Posso ir qualquer dia que seja bom para você.

Eu assenti.

— Desculpa por tudo isso — disse ela. — Talvez eu não devesse, mesmo, ter vindo te encontrar. Talvez eu esteja estragando tudo.

Ela foi embora antes das onze. Eu a acompanhei com um guarda-chuva e chamei um táxi para ela. Ainda estava chovendo.

— Adeus. Obrigada por tudo — disse Shimamoto.

— Adeus — respondi.

Voltei para dentro do bar e me sentei no mesmo banco de antes. O copo dela continuava lá. No cinzeiro havia várias bitucas de Salem. Eu não pedi ao garçom que os recolhesse. Fiquei lá, olhando as leves marcas de batom nos cigarros.

 

Quando voltei para casa, minha esposa ainda estava acordada, me esperando. Ela usava um cardigã por cima do pijama e estava assistindo Lawrence da Arábia em vídeo. Era a cena em que Lawrence finalmente chega ao canal de Suez, depois de superar mil obstáculos e atravessar o deserto. Ela já tinha visto aquele filme três vezes, só contando as que eu sabia. Sentei ao seu lado e assisti também, tomando vinho.

— Domingo vai ter um encontro do clube de natação — falei para ela.

Um dos membros do clube tinha um iate bem grande e às vezes nos convidava para passear em alto-mar. Ficávamos bebendo e pescando. Fevereiro era um mês um pouco frio demais para esse tipo de passeio, mas minha esposa não entendia quase nada de iates e não pareceu estranhar. Era raro eu sair sozinho aos domingos e eu tinha a impressão de que ela achava bom, às vezes, eu me encontrar com pessoas de outros mundos e respirar outros ares.

— Vamos sair de manhã cedinho e acho que devo estar de volta antes das oito. Janto em casa — falei.

— Tudo bem! Inclusive, minha irmã falou que vem me visitar no domingo — disse ela. — Então, se o tempo estiver bom, podemos preparar um lanche e fazer um piquenique no parque Shinjuku Gyoen. Só as meninas!

— Não é má ideia — falei.

No dia seguinte, fui a uma agência de viagens e reservei as passagens de avião e o aluguel de um carro. O voo de volta chegaria em Tóquio às seis e meia da tarde. Se eu corresse, chegaria em casa a tempo do jantar. Depois disso fui para o bar e esperei Shimamoto ligar. O telefone tocou às dez horas.

— Vai ser meio corrido, mas consegui me organizar. Pode ser no domingo? — falei.

Falei o horário do voo e combinei um ponto de encontro no aeroporto de Haneda.

— Desculpa, mesmo, por tudo isso — disse Shimamoto.

Depois de desligar, sentei no balcão e fiquei lendo. Mas a balbúrdia do bar me incomodava e eu não conseguia me concentrar no livro. Fui ao banheiro, lavei o rosto e as mãos com água gelada e fiquei me olhando no espelho. Menti para Yukiko, pensei. Eu já havia mentido para ela algumas vezes. Quando dormi com outras mulheres, contei algumas pequenas mentiras. Mas, nesses casos, eu não sentia que a estava enganando. Eram apenas passatempos inofensivos. “Dessa vez, não é certo”, pensei. Eu não pretendia dormir com Shimamoto. Mas mesmo assim não era certo. Encarei longamente meus olhos no espelho, como não fazia há muito. Mas eles não refletiam nada de quem eu era. Apoiei as mãos na pia e respirei fundo.