Sul da Fronteira, Oeste do Sol
Capítulo 13
Depois de levar minhas filhas na escola, de manhã, fui para a piscina nadar meus dois mil metros, como sempre. Nadei imaginando que eu era um peixe. Eu era apenas um peixe e não precisava pensar em nada. Não precisava sequer pensar em nadar. Bastava estar ali e ser eu mesmo. Era isso o que significava ser um peixe. Saí da piscina, tomei uma ducha, vesti uma camiseta e uma bermuda e fiz musculação.
Depois fui para a quitinete que eu alugava perto de casa como escritório, organizei a contabilidade dos dois bares, calculei os pagamentos dos funcionários, mexi um pouco no projeto de reforma do Robin’s Nest, prevista para fevereiro do ano seguinte. Quando deu uma hora, voltei para casa para almoçar com minha esposa.
— Ah, é, meu pai ligou hoje de manhã — disse Yukiko. — Ele estava correndo, como sempre, mas queria falar sobre umas ações. Disse que com certeza dariam lucro e que era pra gente comprar. Que a informação vem da mesma fonte confidencial de costume, mas que essas eram especiais mesmo, fora da curva, diferentes das outras. Disse que não era só uma dica, era um fato.
— Se vão dar tanto lucro assim, ele não precisava contar pra gente, podia comprar ele mesmo. Por que não fez isso?
— Ele falou que é um agradecimento por uma coisa que você fez. Não sei o quê, mas ele disse que você ia entender. Por isso ele fez questão de passar pra gente a parte que seria dele. Disse que era pra gente juntar todo o dinheiro que conseguisse mexer e investir lá. Que podemos ficar tranquilos porque com certeza vai dar lucro. E, se por acaso não der, ele vai cobrir nossas perdas.
Pousei o garfo no prato de macarrão e ergui o rosto.
— E aí?
— Ele falou pra comprar o mais rápido possível, então eu já liguei para o banco, desfiz duas aplicações e enviei o dinheiro para o senhor Yamanaka da agência de apólices. Pedi para ele garantir os títulos que meu pai indicou. Só consegui juntar uns oito milhões de ienes. Você acha que eu devia ter comprado mais?
Tomei um gole de água e procurei as palavras certas para dizer aquilo.
— Por que você não me consultou antes de fazer tudo isso?
— Te consultar? Mas você sempre compra todas as ações que meu pai manda — respondeu ela, confusa. — Você inclusive já me pediu pra fazer isso várias vezes, disse que era só seguir as instruções dele. Então foi o que eu fiz. Meu pai falou pra gente comprar o mais rápido possível, e eu fiz isso. Além do mais, você estava nadando, eu não tinha como falar com você. Qual o problema?
— Bom, tudo bem. Mas você pode vender tudo o que comprou? — falei.
— Vender? — disse Yukiko, e me encarou com os olhos apertados, como se olhasse para uma luz forte.
— É, vende o que você comprou hoje e devolve o dinheiro pras aplicações.
— Mas se eu fizer isso, só com as taxas de compra e venda das ações e as taxas do banco, a gente vai perder um monte de dinheiro!
— Não tem problema — falei. — Não me importo com o prejuízo, nem com as taxas. Só vende tudo o que comprou hoje, por favor.
Yukiko respirou fundo.
— Querido, o que foi que aconteceu com meu pai, no outro dia? Ele te envolveu em algum esquema?
Eu não respondi.
— Aconteceu alguma coisa, não foi?
— Olha, Yukiko, a verdade é que eu tenho gostado cada vez menos desse tipo de coisa — falei. — É só isso. Eu não quero ganhar dinheiro com ações. Quero trabalhar e ganhar dinheiro com o meu próprio trabalho. Foi o que eu sempre fiz, e tem dado certo, não tem? Até hoje você não sofreu por falta de dinheiro, sofreu?
— Eu sei de tudo isso. Seus negócios vão muito bem, eu nunca reclamei de nada. Sou grata a você e te admiro, também. Mas uma coisa não tem a ver com a outra. Meu pai deu essa dica pra gente por boa vontade. Ele só quis ajudar.
— Eu sei. Mas de onde você acha que vêm essas informações confidenciais que ele consegue? O que acha que significa essa história de que as ações com certeza vão dar lucro?
— Sei lá.
— Isso é manipulação de ações — falei. — Sabe? As pessoas manipulam as ações dentro das empresas para garantir que vão ter um lucro artificialmente alto, e aí dividem o lucro com os amigos. Depois esse dinheiro acaba indo parar nas mãos de políticos, em esquemas de caixa dois… É diferente das ações que seu pai recomendou outras vezes. As outras eram títulos que provavelmente dariam lucro. Eram apenas dicas que ele tinha ficado sabendo. A maioria delas deu lucro, mas também teve uma ou outra que não deu. Este caso é diferente, e não me cheira bem. Prefiro não me envolver com isso.
Yukiko ficou pensativa por um momento, com o garfo na mão.
— Mas será que é mesmo um caso de manipulação de ações?
— Se você quiser mesmo saber, o único jeito é perguntar direto para o seu pai — falei. — Mas uma coisa eu posso dizer com certeza: não existem ações com zero risco de prejuízo. Se alguém garante que uma ação certamente vai dar lucro é porque ela vem de alguma negociação ilegal. O meu pai trabalhou em uma empresa de corretagem por quase quarenta anos, até se aposentar. Trabalhava duro, de manhã até a noite. E tudo o que ele deixou foi sua pequena casa própria. Ele não devia levar muito jeito pros negócios. Todas as noites eu via minha mãe de cenho franzido diante do caderno de contas da casa, quebrando a cabeça, dizendo que as contas não fechavam por cem, duzentos ienes. Entende? Foi nesse ambiente em que cresci. Aí você me diz que só conseguiu juntar oito milhões de ienes… Isso é muito dinheiro, Yukiko. Não são notas de Banco Imobiliário. A maioria das pessoas não ganha oito milhões de ienes nem trabalhando um ano inteiro, sacudindo em trens lotados todos os dias, fazendo todas as horas extras que conseguem. Eu vivi assim por oito anos. E nunca ganhei oito milhões por ano, imagina. Mesmo depois de oito anos na empresa, uma quantia dessas era um sonho muito distante. Acho que você não compreende como é viver assim, compreende?
Yukiko não disse nada. Ficou olhando o prato na mesa, com os lábios apertados. Eu percebi que estava falando mais alto do que de costume e baixei a voz.
— Você diz que em quinze dias o dinheiro que investiu vai ter dobrado, os oito milhões vão virar dezesseis. Fala como se não fosse nada de mais. Mas tem alguma coisa errada com essa percepção das coisas. E, pouco a pouco, sem perceber, eu estou sendo engolido por ela. Acho que sou cúmplice dela, também. E isso me faz sentir cada vez mais vazio.
Yukiko me encarou do outro lado da mesa. Eu me calei e voltei a comer. Sentia algo vibrar dentro de mim. Eu não sabia bem o que era, se era irritação ou raiva. O que quer que fosse, era um tremor que eu não conseguia conter.
— Desculpa. Eu não devia ter me metido nesse assunto — disse Yukiko, em voz baixa, depois de muito tempo.
— Tudo bem. Não estou te recriminando. Não estou culpando ninguém — falei.
— Vou ligar agora mesmo e vender tudo o que comprei, todas elas. Então não precisa ficar tão bravo.
— Eu não estou bravo.
Continuamos comendo em silêncio.
— Escuta, tem alguma coisa que você queira me falar? — disse Yukiko. E me olhou nos olhos. — Se você anda com algo na cabeça, não quer me contar, sinceramente? Não tem problema se for uma coisa difícil de dizer. Eu faço o que puder pra ajudar, é só você falar. Sei que não sou ninguém muito especial e não entendo muito das coisas do mundo, ou de administração, mas eu não quero que você fique infeliz. Não quero te ver assim, sofrendo sozinho. Tem alguma coisa te incomodando na nossa vida hoje em dia?
Eu balancei a cabeça.
— Não tem nada me incomodando. Gosto do meu trabalho e sinto que ele vale a pena. Também gosto de você, é claro. É só que às vezes eu não consigo acompanhar a forma como seu pai faz as coisas. Não tenho nada contra ele. Reconheço a gentileza que ele fez hoje e sou grato por isso. Não estou bravo nem nada assim. É só que, às vezes, não sei bem quem eu sou. Não consigo ter certeza de que estou agindo certo. Então fico confuso. Mas não estou bravo.
— Bom, você parece zangado…
Soltei um suspiro.
— E suspira desse jeito toda hora — disse Yukiko. — Enfim, eu sinto que você anda irritado. E fica toda hora parado, pensando sozinho sobre alguma coisa.
— Não sei bem.
Yukiko não desviou os olhos do meu rosto.
— Você tem quebrado a cabeça com algum assunto — disse ela. — E eu não sei o que é. Queria poder ajudar de algum jeito.
Eu fui tomado por um impulso feroz de contar tudo para Yukiko. Como seria bom abrir o peito com ela e confessar tudo o que sentia… Aí não precisaria esconder mais nada. Não precisaria fingir nem mentir. “Olha, Yukiko, a verdade é que estou apaixonado por outra mulher e não consigo parar de pensar nela. Eu me segurei muitas vezes. Me segurei para proteger este mundo, onde vivem você e as meninas. Mas não consigo mais. Não vou mais conseguir me conter. Se ela reaparecer, pretendo dormir com ela de qualquer maneira. Não aguento mais. Às vezes penso nela quando transo com você. Até me masturbo pensando nela.”
Mas eu não disse nada. Confessar tudo isso para Yukiko naquele momento não ajudaria em nada. Só deixaria todos nós infelizes.
Depois de comer, voltei para o escritório e tentei retomar o trabalho. Mas já não conseguia me concentrar. Sentia-me muito mal por ter dado um sermão como aquele em Yukiko sem necessidade. Não achava que tinha falado algo errado, mas aquilo deveria ser dito por uma pessoa melhor do que eu. Eu estava mentindo para Yukiko, me encontrando com Shimamoto às escondidas. Não tinha o menor direito de falar essas coisas com ar de superioridade. Yukiko estava preocupada comigo, pensando em mim. Isso era claro e coerente com quem ela era. E eu, será que havia na minha vida algum tipo de coerência ou convicção? Pensando sobre essas questões, fui perdendo a vontade de fazer qualquer coisa.
Apoiei os pés na mesa e passei muito tempo olhando, distraído, a paisagem da janela, com um lápis na mão. Da janela do escritório dava para ver um parque. O dia estava bonito, então havia algumas mães com os filhos. As crianças brincavam na caixa de areia ou no escorregador e as mães conversavam, de olho nos filhos. Aquelas crianças me fizeram pensar em minhas filhas. Fiquei com saudade delas. Queria andar na rua carregando uma em cada braço, como costumava fazer. Sentir o calor dos seus corpos. Mas, enquanto pensava sobre minhas filhas, lembrei também de Shimamoto. De seus lábios entreabertos. Sua imagem era muito mais forte do que a das meninas. Quando eu começava a pensar nela, não conseguia pensar em mais nada.
Saí do escritório, caminhei pela avenida Aoyama, depois fui até o café onde costumava me encontrar com Shimamoto e pedi um café. Fiquei lá lendo e, quando cansava de ler, pensando sobre Shimamoto. Lembrei de trechos das nossas conversas naquele café. Lembrei dela tirando um Salem da bolsa e o acendendo com o isqueiro. Lembrei da maneira como ela afastava distraída a franja da testa ou inclinava um pouco a cabeça para o lado ao sorrir. Uma hora cansei de ficar ali sentado sozinho e decidi dar uma volta até Shibuya. Eu gostava de andar pela cidade, observar os prédios, as lojas, as várias atividades humanas. Gostava da simples sensação de me mover pelas ruas com meus pés. Naquele dia, no entanto, tudo ao redor parecia deprimente e vazio. Os prédios pareciam prestes a ruir, as ruas não tinham cor, as pessoas aparentavam ter perdido toda a sensibilidade e abandonado seus sonhos.
Entrei no cinema mais vazio que encontrei e fiquei encarando a tela. Quando o filme acabou, saí para a rua, onde já anoitecia, entrei no primeiro restaurante que vi e comi qualquer coisa rápida. As ruas diante da estação transbordavam de funcionários de empresas voltando para casa. Como num filme acelerado, os trens se aproximavam e engoliam as pessoas da plataforma, um após o outro. “Foi justamente nessas ruas que eu vi Shimamoto aquela vez”, pensei. Aquilo foi há quase dez anos. Eu tinha vinte e oito anos e ainda era solteiro. E Shimamoto ainda mancava. Ela vestia um sobretudo vermelho e usava grandes óculos escuros. Caminhamos daqui até Aoyama. Isso parecia parte de um passado muito distante.
Fui relembrando, na ordem, todas as imagens que vi naquele dia. A multidão do fim de ano, o seu jeito de andar, cada esquina que dobramos, o céu nublado, a sacola de uma loja que ela carregava, as xícaras de café intocadas, as canções natalinas. Me arrependi, novamente, por não ter tomado coragem e falado com ela naquele dia. Eu era uma pessoa desimpedida, não tinha nada para abandonar. Poderia tê-la abraçado com força ali mesmo, nós dois poderíamos ter até seguido juntos para algum lugar. Quaisquer que fossem as circunstâncias em que ela se encontrava, no mínimo eu poderia me esforçar para tentar resolvê-las. Mas deixei escapar definitivamente essa oportunidade. Aquele homem de meia-idade peculiar me agarrou, e Shimamoto entrou em um táxi e desapareceu.
Peguei o trem lotado do fim da tarde e voltei para Aoyama. Enquanto eu estava no cinema o clima havia mudado, e agora nuvens densas e carregadas encobriam o céu. Poderia chover a qualquer momento. Eu não tinha um guarda-chuva e ainda estava com a mesma roupa com que saíra para ir à piscina de manhã — um blusão impermeável, calça jeans e tênis. Normalmente, nesse horário eu voltaria para casa para vestir um terno. Mas eu não queria ir para casa. “Bom, tudo bem”, pensei. Não vai ser tão grave se, uma vez na vida, eu aparecer no bar sem gravata.
Às sete horas já estava começando a chover. Uma chuva discreta. Mas uma chuva de outono que parecia preparada para cair por muito tempo. Como sempre, passei primeiro no bar e observei o movimento por um tempo. Graças ao projeto minuciosamente elaborado e por eu ter acompanhado de perto toda a obra, o resultado da reforma havia ficado exatamente como eu queria, nos mínimos detalhes. O bar estava muito mais funcional e convidativo. A nova iluminação era mais suave e combinava com a música. Fiz uma pequena cozinha separada nos fundos, contratei um chef profissional e elaborei um cardápio simples porém refinado. Meu foco foram pratos simples, sem firulas, mas que um amador jamais conseguiria replicar. Também precisavam ser pratos fáceis de manusear e comer, pois sua função era apenas acompanhar as bebidas. E, todo mês, o cardápio inteiro mudava. Não foi fácil encontrar um chef que conseguisse cumprir todas essas exigências. Quando finalmente achei um, precisei pagar a ele um salário bastante alto. Muito mais alto do que eu esperava. Mas o trabalho dele valia cada centavo, e eu estava satisfeito com os resultados. Os clientes também pareciam contentes.
Depois das nove, peguei o guarda-chuva do bar e fui para o Robin’s Nest. E, às nove e meia, Shimamoto apareceu. Estranhamente, ela sempre aparecia em noites de chuva silenciosa.