Sul da Fronteira, Oeste do Sol
Capítulo 7
Aos trinta anos, eu me casei. Conheci minha esposa quando estava viajando, sozinho, nas férias de verão. Ela era cinco anos mais nova que eu. Eu estava andando por uma rua no interior quando começou um temporal. Por acaso, me abriguei no mesmo lugar em que ela estava com uma amiga. O fato de estarmos os três encharcados ajudou a quebrar o gelo. Ficamos conversando até a chuva estiar, e acabamos ficando amigos. Se não tivesse chovido naquela hora, ou se eu tivesse um guarda-chuva (era uma possibilidade, pois ao sair do hotel eu fiquei pensando se deveria levar um), eu não a teria conhecido. E, se não a conhecesse, talvez continuasse até hoje trabalhando na editora de livros didáticos e passasse as noites bebendo e falando sozinho, recostado na parede do meu pequeno apartamento. Essa ideia sempre me faz reconhecer, novamente, como vivemos dentro de possibilidades muito limitadas.
Eu e Yukiko (esse é o nome dela) nos sentimos atraídos um pelo outro desde o primeiro momento. A amiga que estava com ela era muito mais bonita, mas foi Yukiko quem me atraiu, de forma intensa e irracional. Fazia tempo que eu não sentia esse magnetismo. Ela também morava em Tóquio, então saímos várias vezes depois de voltar de viagem. Quanto mais eu a encontrava, mais gostava dela. Eu diria que ela tinha um rosto comum. No mínimo, não era o tipo de mulher abordada pelos homens em todos os lugares. Mas eu via claramente, no seu rosto, algo feito só para mim. Eu gostava dele. Ficava muito tempo olhando para ele quando nos encontrávamos. Amava esse algo que conseguia ver ali.
— Por que você tá me olhando desse jeito? — perguntava ela.
— Porque você é bonita — eu respondia.
— Você é a primeira pessoa que me diz isso.
— É que só eu sei — eu dizia. — Mas eu sei.
No começo, ela não acreditava no que eu estava dizendo. Mas, com o tempo, começou a acreditar.
Costumávamos sair para lugares tranquilos e conversávamos sobre vários assuntos. Eu conseguia falar com ela sobre tudo, com sinceridade e sem afetação. Ao seu lado, eu sentia o peso enorme de tudo o que havia perdido durante mais de uma década. Eu desperdiçara todos aqueles anos. Mas não era tarde demais. Ainda dava tempo. Eu precisava recuperar o máximo que conseguisse, enquanto ainda podia. Quando eu a abraçava, sentia no peito um tremor saudoso. Quando nos separávamos, eu me sentia desamparado e sozinho. A solidão me doía e o silêncio me irritava. E então, depois de três meses de namoro, eu a pedi em casamento. Isso foi uma semana antes do meu aniversário de trinta anos.
O pai de Yukiko era presidente de uma empresa de construção de médio porte. Era uma pessoa interessante, com pouca educação formal, mas muito competente no seu trabalho e dono de uma filosofia própria. Às vezes ele se mostrava um pouco agressivo e tinha atitudes com as quais eu não concordava, mas eu não podia deixar de admirar sua perspicácia. Nunca havia conhecido alguém assim. E, apesar de andar em um Mercedes com motorista, ele não era arrogante. Quando fui à sua casa e declarei a intenção de me casar com sua filha, ele disse apenas: “Vocês são adultos. Se gostam um do outro, fiquem à vontade”. Aos olhos da sociedade, eu era apenas um assalariado medíocre que trabalhava em uma empresa medíocre, mas ele não pareceu nem um pouco incomodado com isso.
Yukiko tinha um irmão mais velho e uma irmã mais nova. Seu irmão iria herdar a empresa do pai e já trabalhava lá como vice-presidente. Não era má pessoa, mas, comparado com o pai, não tinha muito carisma. A irmã mais nova, universitária, era a mais extrovertida e chamativa dos três, acostumada a dar ordens a todos. Eu me perguntava se ela não seria uma escolha melhor como herdeira dos negócios da família.
Seis meses depois de nosso casamento, o pai dela me chamou e perguntou se eu não pretendia deixar meu emprego. Ele sabia, pela minha esposa, que eu não gostava muito de trabalhar com livros didáticos.
— Eu não teria problema nenhum em sair desse emprego — falei. — O problema seria o que fazer depois disso.
— Você não quer trabalhar com a gente? O ritmo é puxado, mas paga bem! — disse ele.
— Eu certamente não tenho talento para editar livros didáticos, mas acho que tenho ainda menos para o ramo da construção — respondi com sinceridade. — Agradeço muito o convite, mas, se eu tentar fazer algo em que não sou bom, vou acabar causando problemas a vocês.
— Isso é verdade. Não há por que se forçar a trabalhar com algo em que você não leva jeito — disse ele. Já devia esperar essa minha resposta. Nesse dia nós estávamos bebendo juntos. O filho dele quase não bebia, então às vezes ele me chamava para acompanhá-lo. — Falando nisso, nossa empresa tem um prédio em Aoyama. Estamos construindo agora, deve ficar pronto no mês que vem. É um imóvel bom, em uma localização ótima. Hoje em dia pode parecer uma região um pouco escondida, mas está crescendo. Você não quer abrir alguma coisa lá? Eu teria que cobrar o aluguel e depósito a preço de mercado, pois o prédio é propriedade da empresa, mas se você se animar posso te emprestar todo o capital de que precisar.
Pensei um pouco a respeito. Até que não era má ideia.
No fim, decidi abrir um elegante bar de jazz no subsolo do prédio. Eu havia trabalhado em lugares assim durante a graduação, então sabia, no geral, como funcionavam. Tinha uma imagem do que queria: que comidas e bebidas servir, que tipo de clientela queria atrair, qual música tocar, como decorar o lugar. Meu sogro cuidou de toda a reforma do espaço. Chamou os melhores designers e os melhores decoradores e eles fizeram um trabalho excelente, por um preço bastante em conta. O resultado ficou impressionante.
O bar teve muito mais sucesso do que eu esperava, e dois anos depois abri mais um, também em Aoyama. O segundo era maior, uma espécie de clube, e tinha espaço para um trio de jazz. A reforma deu bastante trabalho e custou muito caro, mas o bar ficou muito bonito e o movimento era bom. Então finalmente consegui respirar um pouco mais aliviado. Tinha aproveitado bem a oportunidade que me fora dada. Nessa época tivemos nosso primeiro filho, uma menina. No começo eu ficava no balcão do bar, preparando coquetéis, mas gerenciando dois estabelecimentos eu não tinha mais tempo para isso, então passei a cuidar só da administração. Negociava as compras de produtos, gerenciava os funcionários, organizava a contabilidade e garantia que tudo corresse sem percalços. Tinha várias ideias, que logo colocava em prática. Até experimentava preparar novos pratos para o cardápio. Eu nunca tinha me dado conta, mas até que eu levava jeito para esse tipo de trabalho. O processo de começar algo do zero e ir aprimorando cuidadosamente minha criação me dava muito prazer. Aquele era meu lugar, meu mundo. Isso me trazia uma felicidade que eu nunca experimentara ao revisar livros didáticos.
Durante o dia eu resolvia vários afazeres e, à noite, circulava entre os dois bares, provando os drinques no balcão, observando a reação dos clientes, supervisionando o serviço dos meus funcionários, ouvindo a música. Continuava pagando, todos os meses, o empréstimo que recebera de meu sogro, mas mesmo assim tinha uma boa renda. Compramos um apartamento de quatro dormitórios em Aoyama e uma BMW 320. E tivemos mais um filho, outra menina. Agora eu era um pai de família com duas filhas.
Aos trinta e seis anos, eu tinha uma pequena casa de campo em Hakone. Minha esposa comprara um Jeep Cherokee vermelho para fazer compras e levar as crianças aonde precisasse. Os dois bares davam bastante lucro, que eu poderia usar para abrir um terceiro, mas não estava nos meus planos abrir mais unidades. Seria impossível manter a atenção em todos os detalhes, e eu provavelmente ficaria exausto só com o trabalho administrativo. Conversei com meu sogro sobre o assunto e ele recomendou que eu investisse o excedente em ações e imóveis. Disse que assim eu não gastaria tempo nem teria mais trabalho. Mas respondi que não sabia absolutamente nada sobre ações, muito menos sobre imóveis.
— Pode deixar os detalhes por minha conta. É só fazer o que eu disser, que não tem erro. Nessas coisas, tem que saber o jeito certo — respondeu meu sogro.
Eu investi como ele mandou. E, em pouco tempo, tive um lucro considerável.
— Viu só? — disse meu sogro. — O importante é fazer as coisas do jeito certo. Você pode trabalhar numa empresa e ganhar um salário por cem anos, que não vai chegar a lugar algum. Para ter sucesso é preciso ter sorte e a cabeça boa. Óbvio. Mas só isso não basta. Primeiro, é preciso ter capital. Sem capital suficiente, não dá pra fazer nada. Mas o mais importante é saber o jeito certo. Se você não souber, pode ter todo o resto, e mesmo assim não vai dar em nada.
— É verdade — falei.
Eu sabia bem o que ele estava tentando me dizer. Esse tal “jeito” se referia ao sistema que tinha construído ao longo da vida. Um sistema complexo e robusto que envolvia obter informações, fazer networking, investir e lucrar. Esse lucro ia se multiplicando, às vezes encontrando caminhos para escapar à malha de leis e impostos, às vezes mudando de nome ou de forma. Era sobre a existência desse sistema que ele queria me contar.
De fato, se eu nunca tivesse conhecido meu sogro, talvez estivesse até hoje editando livros didáticos. Estaria morando em um prédio sem graça em Nishi-Ogikubo e dirigiria um Toyota Corona usado, com o ar-condicionado meio ruim. Acho que, dentro das condições que me foram dadas, me saí muito bem. Coloquei dois estabelecimentos nos trilhos em pouco tempo, tinha mais de trinta funcionários sob meu comando e uma renda muito além da média. A organização com que eu administrava nossos livros contábeis era tanta que impressionava os fiscais da receita, e os bares tinham boa reputação. No entanto, eu não era a única pessoa no mundo capaz de fazer isso. Várias outras poderiam ter conseguido o mesmo. E sozinho, sem o capital e o conhecimento do meu sogro, eu não teria chegado a lugar nenhum. Pensar nisso me causava certo mal-estar. Tinha a impressão de ter usado um atalho desleal e recursos injustos para chegar onde estava. Sou da geração que atravessou as ferrenhas lutas estudantis do final da década de 1960 à primeira metade da década de 1970. Passamos por essa experiência, gostássemos ou não. Falando em linhas muito gerais, aquilo foi um grito de “não” à lógica do capitalismo mais desenvolvido, mais complexo e mais refinado, que estava começando a devorar o momentâneo idealismo do pós-guerra. Pelo menos foi a percepção que tive na época. Uma febre violenta que acompanhou um momento de transformação da sociedade. Mas, agora, eu vivia em um mundo criado segundo a lógica desse capitalismo desenvolvido. De repente, quando eu esperava o sinal abrir na avenida Aoyama, com as mãos no volante da BMW e escutando A viagem de inverno de Schubert, eu pensava: “Isso não parece a minha vida”. Era como se eu estivesse ocupando um lugar que pertencia a outra pessoa, vivendo de uma forma determinada por outra pessoa. Até onde este que está aqui sou eu mesmo, e quando deixa de ser? Essa mão que segura o volante é minha mesmo? Esta paisagem que me cerca é parte do mundo real? Quanto mais eu pensava sobre o assunto, menos sabia responder.
Mas posso dizer que, no geral, levava uma vida feliz. Não tinha nada do que me queixar. Eu amava minha esposa. Yukiko era uma mulher tranquila e ponderada. Depois de ter filhos ela tinha engordado um pouco e por isso agora cuidava da dieta e se dedicava aos exercícios físicos. Mas eu continuava achando-a bonita. Gostava de estar junto dela e de dormir com ela. Algo em Yukiko me acalmava. E, o que quer que acontecesse, eu não queria voltar para aquela vida desolada e solitária dos meus vinte anos. “Este é o meu lugar”, eu pensava. “Enquanto estiver aqui, sou amado e estou protegido. E, ao mesmo tempo, amo e protejo minha esposa e minhas filhas.” Era uma experiência totalmente inédita para mim, e o fato de eu ser capaz de cumprir aquele papel era uma descoberta inesperada.
De manhã, eu levava minha filha mais velha de carro para a pré-escola particular. Íamos ouvindo músicas infantis no som do carro e cantando juntos. Depois disso voltava para casa e, antes de ir para o pequeno escritório que eu alugava ali perto, brincava um pouco com minha filha mais nova. Nos fins de semana de verão, íamos os quatro para a casa em Hakone. Assistíamos aos fogos de artifício, passeávamos de barco no lago, fazíamos trilhas pelas montanhas.
Enquanto minha esposa estava grávida eu tive alguns casos. Mas não foram nada sério nem duraram muito. Não dormi com a mesma pessoa mais de uma ou duas vezes. No máximo, três. Sinceramente, eu não tinha nem sequer a consciência clara de estar sendo infiel. O que eu desejava era apenas a ação de “dormir com alguém” e acho que as minhas parceiras buscavam o mesmo. Eu evitava me envolver mais do que isso e, para tanto, escolhia as mulheres com cuidado. Acho que eu queria testar alguma coisa, dormindo com elas. Queria saber o que encontraria nelas e o que elas encontrariam em mim.
Pouco tempo depois que minha primeira filha nasceu, eu recebi um cartão-postal, reenviado da casa dos meus pais. Era uma nota de falecimento de uma mulher. Ela havia falecido aos trinta e seis anos. Porém, o nome não me soou familiar. O carimbo postal era de Nagoya. Mas eu não conhecia ninguém em Nagoya. Precisei pensar por algum tempo até me dar conta de que era a prima de Izumi, que vivia em Kyoto. Eu tinha me esquecido completamente do seu nome. E a família dela era de Nagoya.
Não tive que quebrar a cabeça para saber que o cartão havia sido enviado por Izumi. Ninguém mais me encaminharia aquele aviso. No primeiro momento, não consegui entender por que ela me enviaria uma correspondência dessas. Mas, enquanto olhava o cartão, fui conseguindo ler nele seu sentimento duro e gelado. Ela não se esquecera nem perdoara minhas ações. E queria que eu soubesse disso. Foi por isso que Izumi me enviou o postal. Imaginei que ela não devia ser muito feliz. Se fosse, não teria feito questão de me dar aquela notícia. Ou, se enviasse, acrescentaria algum tipo de mensagem ou explicação.
Depois, pensei sobre a prima. Lembrei de seu apartamento e do seu corpo. Lembrei do nosso sexo intenso. Tudo isso existira tão vividamente em dado momento, e hoje não restava mais nenhum resquício. Tudo desaparecera como a fumaça levada pelo vento. Eu não fazia ideia de como ela havia morrido. Trinta e seis anos não é uma idade em que as pessoas morrem de causas naturais. Ela tinha o mesmo sobrenome de antes. Ou era solteira, ou havia se casado e se divorciado.
Tive notícias de Izumi por um antigo colega de ensino médio. Ele descobriu que eu era dono daqueles bares em Aoyama ao ver minha foto em uma edição especial da revista Brutus, um guia dos bares de Tóquio. Eu estava sentado no balcão quando ele se aproximou, exclamando “Há quanto tempo! Como vão as coisas?”. Mas ele não tinha ido ao bar só para me encontrar. Aconteceu de estar bebendo com colegas de trabalho e me ver ali, então resolveu dar um oi.
— Venho nesse bar faz tempo! É perto do trabalho, sabe. E eu não fazia ideia de que você era o dono… Que mundo pequeno — disse ele.
Enquanto eu era uma espécie de ovelha negra na escola, ele tirava boas notas e era bom nos esportes, o tipo de aluno que vira presidente de turma. Era tranquilo e não se metia na vida dos outros. Um sujeito agradável, eu diria. Naquele tempo ele era do time de futebol e sempre fora meio grandalhão, mas agora tinha engordado um bocado. Estava começando a ter uma papada, e o colete do seu terno de três peças azul-marinho parecia um pouco justo.
— Isso aqui é por ter que ficar entretendo os clientes! — disse ele. — Eu não devia ter ido trabalhar com vendas! É só hora extra, clientes para bajular, ficam te mudando de departamento toda hora… Se os resultados são ruins, você leva na bunda, mas se são bons viram a nova meta. Ninguém merece!
A empresa em que ele trabalhava ficava em Aoyama Ichome, então ele vinha até o bar a pé depois do trabalho.
Tivemos o tipo de conversa que colegas de ensino médio têm quando se encontram depois de dezoito anos. Como anda o trabalho, se são casados, quantos filhos, onde encontraram fulano ou beltrano. Foi aí que ele mencionou Izumi.
— Você tinha uma namorada, com quem estava sempre junto, não tinha? Era Ohara o nome dela?
— Izumi Ohara — respondi.
— Isso! — disse ele. — Izumi Ohara. Encontrei com ela, outro dia.
— Aqui em Tóquio? — perguntei, surpreso.
— Não, não foi em Tóquio. Em Toyohashi!
— Toyohashi? — perguntei, ainda mais surpreso. — Na cidade de Toyohashi, em Aichi?
— Isso! Essa Toyohashi.
— Não estou entendendo. Por que você encontrou com Izumi em Toyohashi? O que ela estava fazendo lá?
Ele deve ter sentido alguma rispidez na minha voz.
— Eu sei lá! Só sei que a vi em Toyohashi — disse ele. — Mas não foi nada de mais. Nem tenho certeza se era mesmo ela.
Ele pediu mais um Wild Turkey com gelo. Eu estava bebendo um gimlet de vodca.
— Mesmo que não seja nada de mais, me conta o que aconteceu.
— Quer dizer, não é bem isso — disse ele, um pouco sem jeito. — Digo que não foi nada de mais porque, na verdade, às vezes eu tenho a impressão de que não aconteceu de verdade. É uma sensação muito esquisita. Como se eu tivesse tido um sonho muito realista, sabe? Aconteceu mesmo, mas por algum motivo não parece uma coisa do mundo real. Não sei explicar direito.
— Mas aconteceu de verdade? — perguntei.
— Sim — disse ele.
— Então eu quero saber.
Ele concordou, resignado, e tomou um gole do uísque trazido pelo barman.
— Fui pra Toyohashi porque minha irmã está morando lá. Eu tinha um compromisso de trabalho em Nagoya que acabou numa sexta, então resolvi aproveitar e passar uma noite na casa da minha irmã. E foi aí que me encontrei com a Izumi. No elevador do prédio onde minha irmã mora. Na hora eu só pensei “nossa, parece muito!”. Mas nem me ocorreu que fosse mesmo Izumi Ohara. Afinal, eu nunca imaginaria que fosse encontrar com ela dentro do elevador do prédio da minha irmã, em Toyohashi. E o rosto dela estava tão diferente, nem eu sei como reconheci tão rápido. Deve ter sido tipo uma intuição.
— Mas então era mesmo a Izumi?
Ele concordou.
— Por coincidência, ela morava no mesmo andar que a minha irmã. Saímos juntos do elevador e fomos na mesma direção. Aí ela entrou num apartamento duas portas antes do da minha irmã. Eu fiquei curioso e chequei o nome na placa do apartamento, era Ohara.
— Ela não te reconheceu?
Ele balançou a cabeça.
— Éramos da mesma sala, mas nunca fomos muito próximos. Além do mais, já estou uns vinte quilos mais gordo do que naquela época. Nem tinha como ela me reconhecer.
— Mas era mesmo a Izumi? Ohara é um nome comum, e tem muita gente parecida no mundo.
— Aí é que tá. Fiquei curioso e perguntei pra minha irmã sobre essa Ohara, então ela me mostrou a lista de moradores do prédio. Sabe, aquelas listas que usam para coletar dinheiro para manutenção, coisa assim. Nessa lista tinha o nome completo de todos os residentes. E lá estava: “Izumi Ohara”. Izumi escrito em katakana. Não deve ter tanta gente assim com sobrenome Ohara e primeiro nome Izumi em katakana.
— Então quer dizer que ela ainda é solteira.
— Minha irmã não sabia — disse ele. — Disse que Izumi Ohara é um mistério naquele prédio. Ninguém nunca falou com ela. Não responde quando a cumprimentam. Não abre a porta se alguém tem um assunto a tratar e toca a campainha. Mesmo se ela estiver em casa, não abre! Quer dizer, não é muito popular entre os vizinhos.
— Ah, então é outra pessoa! — falei. E balancei a cabeça, rindo. — Izumi não é assim. Ela é dessas pessoas que cumprimentam todo mundo que veem pela frente, mesmo quando não precisa.
— Verdade. Não devia ser ela — disse ele. — Devia ser outra pessoa com o mesmo nome. Enfim, vamos deixar esse assunto de lado. Não é muito legal.
— Mas essa Izumi Ohara mora lá sozinha?
— Acho que sim. Parece que nunca viram nenhum homem entrando ou saindo da casa dela. Também não sabem o que ela faz da vida. É tudo um mistério.
— E você, o que achou?
— O que achei sobre o quê?
— Sobre ela. Sobre essa Izumi Ohara que não sabemos se era uma homônima ou o quê. O que você achou quando a viu no elevador? Ela parecia bem, ou não muito bem? Esse tipo de coisa.
Ele pensou por algum tempo.
— Não estava mal — disse ele.
— Como assim, não estava mal?
Ele agitou o copo de uísque fazendo os cubos de gelo tilintarem uns contra os outros.
— Ela estava mais velha, claro. Não tem jeito, já estamos com trinta e seis anos. Todos nós, eu e você também. O metabolismo vai diminuindo, a gente vai perdendo músculo. Ninguém é adolescente pra sempre.
— Claro — falei.
— Vamos mudar de assunto, vai. Devia ser outra pessoa mesmo.
Soltei um suspiro. Então apoiei as duas mãos no balcão e o encarei.
— Escuta, eu quero saber. Eu preciso saber. Pra falar a verdade, eu e Izumi terminamos de um jeito péssimo, logo antes de a gente se formar no ensino médio. Eu fiz uma besteira e a magoei. E, desde então, nunca tive notícias dela. Não tinha como saber onde ela estava nem o que estava fazendo. Isso está entalado no meu peito há muito tempo. Então queria que você me contasse, o que quer que seja. Não me importa se é bom ou ruim. Você sabe que era mesmo a Izumi, não sabe?
Ele assentiu com a cabeça.
— Já que é assim, eu te digo. Era ela mesmo, sem dúvida. Mas me sinto mal por você…
— Então, como é que ela estava, de verdade?
Ele ficou calado por um momento.
— Olha, antes quero que você saiba de uma coisa. Eu era da mesma classe que a Izumi e gostava dela. Era uma menina legal. Ela era boa gente e bonitinha. Não era particularmente linda, mas tinha alguma coisa, um charme. Alguma coisa que movia o coração das pessoas. Não tinha?
Eu concordei.
— Posso mesmo falar a verdade? — perguntou ele.
— Pode — respondi.
— Vai ser um pouco pesado…
— Tudo bem. Eu quero saber.
Ele tomou mais um gole de uísque.
— Eu ficava com inveja, vendo vocês sempre juntos. Também queria ter uma namorada daquele jeito. Agora, tendo passado tanto tempo, posso ser sincero com você. Por isso eu lembrava bem da cara dela. Ficou bem gravada na minha mente. Tanto que, mesmo depois de dezoito anos, assim que entrei no elevador com ela eu me lembrei, na hora. O que estou tentando dizer é que eu não tenho nenhum motivo pra falar mal dessa mulher. Pra mim também foi um choque. Eu não queria ter que reconhecer isso, mas posso dizer com certeza absoluta. Ela já não é mais bonita.
Eu mordi o lábio.
— Não é mais bonita, como?
— Dizem que as crianças do prédio têm medo dela.
— Medo? — Eu o encarei, sem entender direito. Ele devia estar escolhendo mal as palavras. — Do que você tá falando? Como assim, medo?
— Olha, vamos mudar de assunto. Eu nem devia ter comentado nada.
— Ela diz alguma coisa pras crianças?
— Não, ela não fala nada pra ninguém. Eu já te disse.
— Então é da cara dela que as crianças têm medo?
— É — disse ele.
— Ela tem alguma cicatriz, algo assim?
— Não, nada disso.
— Então o que tem de assustador nela?
Ele tomou mais um gole do uísque e apoiou devagar o copo no balcão. Depois me encarou por um tempo. Parecia hesitar, sem saber o que fazer. Mas, além disso, vi outra expressão surgir em seu rosto. Eu finalmente consegui reconhecer nele um resquício dos tempos de escola. Ele passou um tempo com o rosto erguido, olhando ao longe. Como se tentasse enxergar aonde ia dar um rio. Depois disso, falou:
— Eu não consigo explicar direito, e nem quero. Então, por favor, não me pergunte mais. Se você visse com os próprios olhos, entenderia. Sem ver, não tem como eu te explicar.
Eu não falei mais nada. Só concordei com a cabeça e tomei um gole do meu gimlet de vodca. O tom de voz dele era tranquilo, mas não dava espaço para qualquer insistência da minha parte.
Depois disso ele me contou que tinha morado dois anos no Brasil, a trabalho. “Você acredita que encontrei um colega da escola fundamental em São Paulo? Ele é engenheiro e trabalha na Toyota.”
Mas é claro que essa história mal entrou nos meus ouvidos. Quando nos despedimos, ele bateu no meu ombro.
— Escuta, os anos mudam as pessoas, de vários jeitos. Não sei o que aconteceu entre vocês naquela época, mas o que quer que tenha sido, a culpa não é sua. Todo mundo passa, em maior ou menor grau, por coisas assim. Eu também. Não estou mentindo, já passei por muita coisa. É a vida, não adianta. No fim das contas, a vida de cada um é a vida de cada um. Não tem como você tomar o lugar de outra pessoa e se responsabilizar pelo que aconteceu com ela. Isso aqui é um deserto e o jeito é se acostumar com ele. Quando era criança você não viu aquele filme do Walt Disney, O drama do deserto?
— Vi, sim.
— É a mesma coisa. O mundo é aquilo lá. Se chover, as flores brotam, se não chover, elas secam. Os insetos são devorados pelos lagartos, que são devorados pelos pássaros. E, cedo ou tarde, todo mundo vai morrer. Morrer e secar. Uma geração morre, outra toma seu lugar. É assim que as coisas são. Cada um vive do seu jeito, morre do seu jeito. Mas isso não importa muito. No fim, sobra apenas o deserto. A única coisa viva de verdade é o deserto.
Depois que ele foi embora continuei bebendo sozinho no balcão. O bar fechou, os clientes foram todos embora, os funcionários organizaram e limparam tudo e saíram, e eu continuei lá, sozinho. Não queria voltar tão cedo para casa. Telefonei para minha esposa, disse que tinha algumas coisas para resolver no bar e que chegaria mais tarde. Apaguei as luzes e fiquei bebendo uísque no escuro. Puro, por preguiça de pegar gelo.
“Tudo vai desaparecer”, pensei. Algumas coisas desaparecem de uma vez, numa ruptura clara. Outras levam tempo, vão ficando cada vez mais difusas até desaparecerem por completo. “E no fim sobra apenas o deserto.”
Quando saí do bar, já perto de amanhecer, caía uma chuva fina na avenida Aoyama. Eu estava exausto. A chuva molhava sem ruído a massa de prédios, mudos como lápides. Deixei o carro no estacionamento do bar e voltei para casa a pé. No meio do caminho, sentei na grade da calçada e fiquei observando um grande corvo que grasnava, pousado sobre um sinal de trânsito. Às quatro da manhã, a cidade era miserável e suja. Sombras da decomposição e da ruína espreitavam de todas as frestas. E minha própria existência era parte disso. Como uma sombra queimada contra a parede.