Sul da Fronteira, Oeste do Sol

Haruki Murakami · Capítulo 10 de 17

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Sul da Fronteira, Oeste do Sol

Capítulo 10

A água passava rapidamente por entre as pedras, formando cachoeirinhas aqui e ali ou descansando, tranquila, em piscinas cujas superfícies refletiam a fraca luz do sol. Mais abaixo, na direção da correnteza, dava para ver uma velha ponte de ferro. Pequena e estreita, capaz de suportar, no máximo, um carro de cada vez. O silêncio gélido de fevereiro envolvia sua pesada estrutura de ferro negro. Só era utilizada pelos funcionários da pousada próxima, por quem ia aos banhos termais ou pelos encarregados da manutenção dos bosques. Quando a atravessamos, não encontramos ninguém, e todas as vezes que nos voltamos para olhá-la, estava vazia. Depois de fazer uma refeição rápida na pousada, tínhamos atravessado a ponte e subido ao longo do rio. Shimamoto usava um casaco de marinheiro grosso com a gola erguida e um cachecol enrolado até o nariz. Essas roupas casuais, próprias para andar nas montanhas, eram bem diferentes do que ela vestia nas outras vezes em que nos vimos. Tinha o cabelo preso em um rabo e calçava botas resistentes. Também levava uma bolsa verde de náilon cruzada no peito. Vestida assim ela parecia uma adolescente. Em alguns pontos das margens havia restos de neve branquíssima, congelados e duros. Dois corvos, pousados no alto da ponte, lançavam vez ou outra grasnados agudos, como se reclamassem de alguma coisa. Seus gritos ecoavam gelados por entre as árvores já desfolhadas e sobre as águas do rio, até chegarem aos nossos ouvidos.

Uma trilha estreita de terra acompanhava o curso do rio. Não sei aonde levava, mas era muito silenciosa, sem sinal de outras pessoas. Não aparentava haver nenhuma casa por perto, só se enxergava uma ou outra plantação, totalmente nua. A neve se acumulara nos sulcos da terra lavrada, desenhando várias linhas brancas que se destacavam. Havia corvos por toda parte. Ao nos ver chegando pelo caminho, soltavam grasnados curtos, como mensagens em código para seus companheiros. Não fugiam quando nos aproximávamos. Pude ver bem de perto seus bicos afiados como armas letais e suas patas de cores vivas.

— Ainda temos tempo? — perguntou Shimamoto. — Podemos andar mais um pouco?

Olhei o relógio.

— Ainda está tudo bem. Acho que podemos ficar mais uma hora por aqui.

— É muito quieto aqui, né — disse ela, olhando devagar ao redor.

Sempre que ela falava, seu hálito formava uma nuvem branca e densa diante de seu rosto.

— Esse rio está bom para você?

Ela sorriu, me olhando.

— Acho que você entendeu perfeitamente o que eu queria.

— Acertei na cor, no modelo e na numeração — falei. — Sempre tive muito bom gosto para rios.

Ela riu. Sua mão enluvada pegou a minha, que também estava coberta por uma luva.

— Bom, fico feliz. Se depois de chegar até aqui você não gostasse deste rio, eu não ia poder fazer nada — falei.

— Tudo bem. Pode ser um pouco mais confiante, você não cometeria um erro desses — disse Shimamoto. — Andando assim, lado a lado, você não se sente no passado? Quando íamos juntos para casa…

— Mas você já não manca como antes.

Shimamoto sorriu e me encarou.

— Desse jeito parece que você acha ruim minha perna estar curada.

— É, talvez eu ache — falei, e ri também.

— Mesmo?

— Brincadeira. Fico feliz que sua perna esteja melhor, de verdade. Mas é uma lembrança saudosa, aquele tempo em que você mancava.

— Hajime — disse ela —, quero que você saiba que sou muito grata a você por tudo isso.

— Não é nada de mais — respondi. — Eu só peguei um avião e vim fazer um piquenique.

Shimamoto caminhou por algum tempo olhando adiante.

— Mas você teve que mentir pra sua esposa, não teve?

— É, bom… — falei.

— Sei que isso foi difícil pra você. Você não queria mentir pra ela, não é?

Eu não sabia como responder, então fiquei calado. Um corvo grasnou novamente em meio à mata, perto de nós.

— Sei que devo estar atrapalhando a sua vida. Tenho consciência disso — disse Shimamoto, baixinho.

— Deixa esse assunto pra lá — falei. — Já que estamos aqui, vamos falar sobre alguma coisa mais alegre.

— Como o quê?

— Você parece uma estudante, vestida desse jeito.

— Obrigada — falou. — Seria bom se eu fosse mesmo.

Seguimos devagar pela trilha, rio acima. Depois disso, passamos um tempo sem dizer nada, concentrados apenas em caminhar. Shimamoto ainda parecia incapaz de andar muito rápido, mas, se andasse devagar, não tinha nenhuma dificuldade. No entanto, ela continuava segurando firme a minha mão. O chão da trilha estava congelado, e as solas de borracha de nossos sapatos quase não faziam ruído.

Pensei que ela tinha razão: seria maravilhoso se nós tivéssemos caminhado lado a lado durante a adolescência, ou com vinte anos. Como eu teria sido feliz se tivesse passado as tardes de domingo assim, junto com ela, na margem completamente deserta de um rio, caminhando e caminhando sem parar. Mas não éramos mais estudantes. Eu tinha uma família e um trabalho. Para ir para lá, precisara mentir para minha esposa. Em breve eu precisaria pegar o carro, ir para o aeroporto, pegar o avião que chegaria a Tóquio às seis e meia e correr de volta para a casa, onde minha esposa me esperava.

Por fim, Shimamoto parou e correu os olhos devagar ao seu redor, esfregando as mãos enluvadas. Olhou rio acima e rio abaixo. Na margem oposta havia uma cadeia de montanhas e, à esquerda, uma fileira de árvores desfolhadas. Não havia ninguém por perto. A pousada com banhos termais onde nós havíamos descansado e a ponte de ferro já tinham desaparecido de vista por trás dos morros. De vez em quando o sol espiava por entre as nuvens, como se houvesse se lembrado de fazê-lo. Olhando essa cena, senti que certamente a veria de novo algum dia. Era o oposto de um déjà-vu. Não a sensação de que eu já vira aquilo antes, mas o pressentimento de que voltaria a encontrar uma paisagem como aquela. Esse pressentimento estendeu seu braço longo e se agarrou firmemente à raiz da minha consciência. Senti a pressão dessa mão. Esmagado entre seus dedos estava eu mesmo. Eu no futuro, com vários anos sobre as costas. Mas não consegui me ver com nitidez, é claro.

— Aqui está bom — disse ela.

— Bom para quê?

Shimamoto me olhou com o sorriso de sempre.

— Para fazer o que eu vim fazer — disse ela.

Então nós descemos o barranco até a beira do rio. Havia uma pequena piscina coberta por uma fina camada de gelo, no fundo da qual se viam folhas secas, imóveis, como peixes achatados e mortos. Peguei uma pedrinha redonda caída na areia e rolei-a sobre a palma da mão. Shimamoto guardou as luvas no bolso do casaco. Depois abriu o zíper da bolsa e tirou do seu interior uma sacola de tecido grosso e refinado. Dentro dela havia uma pequena urna. Shimamoto desfez o laço que continha a tampa da urna, abriu-a delicadamente e passou algum tempo fitando o seu interior.

Acompanhei seus movimentos com o olhar, sem dizer uma palavra.

A urna continha cinzas brancas. Shimamoto despejou-as devagar sobre a palma da mão esquerda, tomando muito cuidado para não derrubar nada no chão. No fim, era apenas uma porção diminuta, que coube toda em sua mão. “Devem ser os restos de algo, de alguém”, pensei. As cinzas ficaram ali, na sua mão, pois a tarde estava quieta e não ventava. Em seguida, ela retornou a urna vazia para a bolsa, encostou a ponta do dedo indicador nas cinzas, aproximou o dedo dos lábios e o lambeu de leve. Então voltou o rosto para mim e tentou sorrir. Mas não conseguiu. Seu dedo continuava pousado nos lábios.

Fiquei de pé ao seu lado enquanto ela se agachou à beira do rio e despejou as cinzas sobre a correnteza. Em um instante a pequena porção foi levada pelas águas e desapareceu. Shimamoto ficou olhando para a própria mão durante um tempo, depois a espanou sobre a água para soltar as cinzas que restavam e recolocou a luva.

— Você acha que vão mesmo chegar até o mar? — perguntou ela.

— Pode ser que cheguem — respondi.

Mas eu não tinha certeza de que elas seguiriam pela correnteza até o mar. Talvez fossem parar no fundo de alguma piscina ao longo do rio, pois ainda havia uma distância considerável até o mar. Mas pelo menos uma parte delas provavelmente chegaria.

Em seguida, Shimamoto pegou um pedaço de tábua caído por ali e começou a cavar num pedaço macio do chão. Eu a ajudei. Abrimos um pequeno buraco, no qual ela enterrou a urna, dentro da sacola de tecido. Os corvos gritaram ali por perto. Deviam estar observando todas as nossas ações. “Tudo bem”, pensei. “Podem olhar à vontade. Não estamos fazendo nada de errado. Apenas lançamos na correnteza do rio os restos de algo.”

— Será que vai virar chuva? — perguntou Shimamoto, alisando a terra com a ponta do sapato.

Ergui os olhos para o céu.

— Acho que ainda vai demorar um pouco a chover.

— Não, não é isso. Será que as cinzas dela vão chegar ao mar, se misturar à água, evaporar, virar uma nuvem e então cair sobre a terra em forma de chuva?

Olhei novamente para o céu, depois para o curso do rio.

— É possível — falei.

Voltamos com o carro alugado para o aeroporto. O tempo estava virando subitamente. Nuvens pesadas cobriam tudo sobre nossa cabeça e já não se via mais nada do céu que pouco antes ainda aparecia aqui e ali. Parecia que ia nevar a qualquer momento.

— Aquilo eram as cinzas do meu bebê. As cinzas do único bebê que eu tive — disse Shimamoto, como se falasse consigo mesma.

Olhei para ela, depois novamente para a frente. Às vezes precisava ligar o limpador de para-brisa, pois as rodas dos caminhões espirravam a água lamacenta do degelo no vidro.

— Ela morreu logo depois de nascer, no dia seguinte — disse ela. — Viveu apenas um dia. Eu só a segurei no colo uma ou duas vezes. Era um bebê tão lindo. Tão macio… Não descobriram ao certo o que aconteceu, mas ela não conseguia respirar direito. Quando morreu, já estava de outra cor.

Eu não consegui dizer nada. Estendi a mão esquerda e toquei a dela.

— Era uma menina. Ainda não tinha nome…

— Quando isso aconteceu?

— No ano passado, nesta mesma época — disse Shimamoto. — Em fevereiro.

— Coitadinha… — falei.

— Eu não quis enterrá-la. Não suportava a ideia de deixá-la sozinha num lugar escuro… Quis que ela ficasse um tempo perto de mim e depois fosse levada por um rio até o mar, para virar chuva…

Depois disso, Shimamoto se calou. E assim continuou por muito tempo. Segui dirigindo em silêncio. Pensei que ela não devia querer falar mais, e não quis incomodá-la. Mas em algum momento percebi que tinha algo errado com ela. Sua respiração fazia um som estranho, quase mecânico. No começo, pensei que havia algum problema com o motor do carro. Mas aquele ruído vinha, sem dúvida, do banco ao meu lado. E não eram soluços de choro. Era como se ela tivesse um buraco na traqueia e o ar escapasse por ali a cada respiração.

Aproveitei o momento em que paramos em um sinal vermelho para olhá-la. Shimamoto estava branca como papel. Todo o seu rosto estava retesado, como se estivesse recoberto por algo. Com a cabeça encostada no apoio do banco, ela olhava para a frente. Não movia nenhum músculo, só piscava às vezes, como por obrigação. Dirigi mais um pouco até encontrar um lugar apropriado para encostar o carro. Era o estacionamento de um boliche desativado. Uma construção enorme como um hangar de avião, em cujo telhado se erguia um gigantesco outdoor com pinos de boliche. Uma paisagem desolada como o fim do mundo. Nosso carro era o único no vasto estacionamento.

— Shimamoto — chamei. — Ei, Shimamoto! Você tá bem?

Ela não respondeu. Continuou recostada no assento, respirando com aquele som esquisito. Toquei sua bochecha. Estava gelada e branca como se tivesse se tornado parte da paisagem que nos cercava. Sua testa também não tinha calor algum. Fiquei sem ar. Pensei que daquele jeito ela ia acabar morrendo. Seu rosto estava absolutamente inexpressivo. Olhei bem fundo nos seus olhos, mas não havia nada lá. Seu interior estava negro e gelado como a própria morte.

— Shimamoto! — gritei novamente. Ela não esboçou nenhuma reação, nem a mais leve. Seus olhos não enxergavam nada. Eu não sabia dizer se ela estava consciente. Pensei que precisava levá-la a um pronto-socorro. Se eu fizesse isso certamente perderíamos o avião, mas não era hora de me preocupar com isso. Daquele jeito ela poderia morrer. Eu não podia deixar isso acontecer.

Mas, quando dei partida no carro, percebi que ela estava tentando me dizer alguma coisa. Desliguei o carro e aproximei o ouvido da sua boca. Mesmo assim não consegui ouvir direito o que ela dizia. Soava mais como o vento passando por uma fresta do que como uma palavra. Ela repetiu a mesma coisa várias vezes, com muito esforço. Eu me concentrei para tentar identificar naquilo algo que lembrasse uma palavra. Parecia ser “remédio”.

— Você quer tomar um remédio? — perguntei.

Shimamoto fez um pequeno movimento de cabeça, concordando. Um movimento quase imperceptível. Parecia ser o máximo que ela conseguia fazer. Revirei os bolsos do seu casaco. Encontrei sua carteira, um lenço, um chaveiro com algumas chaves, mas nenhum remédio. Em seguida, abri sua bolsa. Em um bolso interno encontrei um saquinho de papel contendo quatro cápsulas. Mostrei uma para ela:

— É este?

Ela assentiu, sem mover os olhos.

Inclinei o banco do carro, abri sua boca e coloquei a cápsula lá dentro. Mas sua boca estava totalmente seca, era impossível fazer o remédio chegar à sua garganta. Olhei ao redor em busca de uma máquina de venda de bebidas. Não havia nenhuma por perto e eu não tinha tempo de ir mais longe procurar. A única fonte de líquido que havia por ali era a neve. Por sorte, isso havia de sobra. Desci do carro, escolhi a parte mais limpa da neve acumulada sob o beiral do telhado e levei um pouco dela para o carro, dentro do gorro de lã que Shimamoto estivera usando. Coloquei um pouco dela na minha boca para derretê-la. A neve demorava a derreter, minha língua foi ficando inerte, mas não me ocorreu nenhuma outra solução. Em seguida, abri a boca de Shimamoto e transferi a água da minha boca para a dela. Quando terminei, tampei o nariz dela para forçá-la a engolir. Ela engasgou, mas conseguiu engolir um pouco. Repeti essa operação algumas vezes, até que ela finalmente pareceu ter conseguido engolir a cápsula.

Examinei o saquinho do remédio. Não havia nada escrito nele. Nem o nome do medicamento, nem o nome de Shimamoto ou instruções de uso. Achei estranho. As embalagens de medicamentos costumam ter essas informações, para que não sejam usados por engano e para que as pessoas saibam o que fazer caso precisem administrá-los a alguém. De todo modo, devolvi o saquinho ao bolso interno e fiquei observando o estado de Shimamoto. Não sabia que remédio era aquele, nem de qual condição ela sofria, mas se o carregava consigo daquela maneira, devia ser eficaz. No mínimo, aquela não era uma situação inesperada, mas alguma condição para a qual Shimamoto já estava razoavelmente preparada.

Depois de uns dez minutos, a cor começou a finalmente voltar ao seu rosto. Vendo isso, toquei-o de leve e notei que sua temperatura estava aumentando, lentamente. Respirei aliviado e recostei o corpo no banco. Ela não tinha morrido. Passei o braço sobre seus ombros e fiquei ali, encostando vez ou outra meu rosto contra o seu. Queria me certificar de que ela estava, de fato, retornando a este mundo.

— Hajime — disse ela em dado momento, a voz fraca e seca.

— Quer ir para o hospital? Se quiser, eu acho um pronto-socorro — falei.

— Não precisa — disse Shimamoto. — Já tá tudo bem. É só eu tomar o remédio que passa logo. Não se preocupe, daqui a pouco já estou boa. O problema agora é o horário. Se não formos logo para o aeroporto, vamos perder o avião.

— Tá tudo bem. Não precisa se preocupar com a hora. Podemos ficar assim mais um pouco, até você se recuperar — falei.

Usei meu lenço para secar sua boca. Shimamoto pegou o lenço e o fitou por um tempo.

— Você é gentil assim com todo mundo?

— Com todo mundo, não — falei. — Fiz isso porque era você, não sou gentil com qualquer pessoa. Minha vida é limitada demais para eu ser gentil com qualquer um. Até para ser gentil com você minha vida já é limitada demais. Se não fosse, acho que eu poderia te ajudar muito mais. Mas não posso.

Shimamoto virou o rosto em minha direção e me encarou.

— Hajime, eu não fiz isso pra te fazer perder o avião, tá? — disse ela, baixinho.

Eu a encarei, espantado.

— Claro que não. Eu sei disso, não precisa se explicar. Você passou mal. Não pôde evitar.

— Desculpa.

— Não tem por que se desculpar. Você não fez nada de errado.

— Mas eu estou te atrapalhando.

Acariciei seu cabelo, me curvei e beijei de leve sua bochecha. Se pudesse, eu gostaria de abraçá-la inteira para conferir, com meu corpo, o calor do seu. Mas eu não podia fazer isso. Então me limitei a encostar os lábios no seu rosto. Sua bochecha estava quente e macia.

— Não precisa se preocupar com nada. No fim, tudo vai dar certo.

 

Quando chegamos ao aeroporto e devolvemos o carro, já passava muito da hora de embarque, mas por sorte o voo estava atrasado. O avião estava na pista e os passageiros ainda não tinham embarcado. Respiramos aliviados ao saber disso. Por outro lado, tivemos que esperar mais de uma hora para embarcar. No balcão, nos disseram que era um problema de manutenção do motor. Que eles mesmos não tinham mais informações. Não sabiam quando terminaria. Não sabiam mais nada. A neve que, quando chegamos ao aeroporto, começava a cair devagar, agora já estava intensa. Desse jeito, era bem possível que o avião acabasse não decolando.

— O que você vai fazer se não conseguir voltar hoje para Tóquio, Hajime? — perguntou Shimamoto.

— Fica tranquila. O avião vai decolar — falei.

Mas eu não tinha nenhuma certeza disso, é claro. A possibilidade de não conseguir voltar pesava sobre mim. Eu precisaria pensar em alguma boa desculpa para justificar como tinha ido parar em Ishikawa. Mas cada coisa a seu tempo. Se isso acontecesse, eu pensaria com calma no que dizer. Agora eu precisava focar em Shimamoto.

— E você? E se a gente não conseguir voltar? — perguntei a ela.

Ela balançou a cabeça.

— Não se preocupe comigo — disse ela. — Eu me viro de qualquer jeito. Para você é que seria complicado, não é?

— É, um pouco. Mas você não precisa se preocupar com isso. Ainda não temos certeza de que não vamos decolar.

— Eu sabia que ia acontecer alguma coisa assim — disse Shimamoto, em voz baixa, como se falasse sozinha. — Aonde eu vou coisas ruins acontecem. É sempre assim. Tudo em que eu me envolvo dá errado. Coisas que estavam correndo bem e sem problemas de repente começam a ir mal.

Sentado no banco do aeroporto pensei sobre o telefonema que teria que fazer para Yukiko caso o voo fosse cancelado. Considerei várias justificativas. Mas não tinha nada que eu pudesse dizer. Eu havia saído de casa num domingo de manhã dizendo que ia para um encontro do clube de natação, e agora estava num aeroporto na província de Ishikawa, preso por causa da neve. Não há explicação para isso. Poderia dizer “quando saí de casa senti uma vontade súbita de ver o mar do Japão, então fui direto para o aeroporto de Haneda e peguei um avião”. Mas era absurdo demais. Se fosse para dizer isso, era melhor não falar nada. Ou falar a verdade de uma vez. Enquanto pensava sobre tudo isso percebi, surpreso, que no fundo eu estava torcendo para o avião não decolar. Eu desejava continuar preso ali, sem poder voltar para casa. No fundo, eu queria que minha esposa descobrisse que eu estava lá com Shimamoto. Não queria inventar desculpa nenhuma. Não queria mais ter que mentir. Só queria ficar com Shimamoto e deixar que o resto da vida tomasse seu rumo, qualquer que fosse.

No fim, o avião decolou com uma hora e meia de atraso. Shimamoto passou o voo inteiro recostada em mim, dormindo. Ou então, imóvel, com os olhos fechados. Passei o braço sobre seus ombros e a abracei. Em alguns momentos ela parecia estar chorando enquanto dormia. Ficou em silêncio todo o tempo, e eu também não disse nada. Só nos falamos quando o avião já estava pousando.

— Shimamoto, você tem certeza de que está bem? — perguntei.

Ela moveu a cabeça dentro do meu abraço, concordando.

— Estou, sim. Tomando o remédio eu fico boa, não se preocupe. — Em seguida, ela apoiou de leve a cabeça no meu ombro. — Mas não me pergunte nada, tá? Por que eu fiquei daquele jeito, esse tipo de coisa.

— Tudo bem, não vou perguntar.

— Muito obrigada por hoje — disse ela.

— Pelo quê?

— Por me levar até lá. Por me dar água pra beber da sua boca. Por me aturar.

Eu olhei para o seu rosto. Sua boca estava bem na minha frente. Eram os lábios que, pouco antes, eu beijara tentando fazê-la beber água. E eles pareciam desejar novamente o meu toque. Estavam entreabertos, revelando seus belos dentes. Eu ainda lembrava da sensação macia da língua dela, na qual encostara bem de leve ao passar a água para sua boca. Enquanto eu olhava para seus lábios, foi ficando difícil respirar. Eu não conseguia pensar em mais nada. Senti o âmago do meu corpo se aquecer. “Ela me quer”, pensei. “E eu também a quero.” Mas consegui me deter. Eu precisava parar por ali. Se seguisse adiante, não conseguiria mais voltar. Precisei fazer um esforço tremendo para me deter.

 

Liguei do aeroporto para casa. Já eram oito e meia. Pedi desculpas, disse que as coisas tinham demorado demais e que eu não tinha conseguido ligar antes. Que chegaria em uma hora, mais ou menos.

— Fiquei te esperando um tempão! Aí acabei desistindo e comendo antes…

Levei Shimamoto até a minha BMW, que estava no estacionamento do aeroporto.

— Aonde você quer que eu te leve?

— Pode ser Aoyama, se não te atrapalhar. De lá eu volto sozinha — disse ela.

— Você consegue mesmo ir sozinha?

Ela assentiu, sorridente.

Não falamos quase nada até sair da via expressa em Gaien. Coloquei para tocar, baixinho, uma fita com um concerto para órgão de Handel. Com as mãos pousadas sobre os joelhos, Shimamoto olhava a paisagem pela janela. Era noite de domingo, então nos carros ao redor havia muitas famílias voltando de passeios. Eu mudava de marcha mais vezes do que de costume.

— Sabe, Hajime… — disse Shimamoto, pouco antes de chegarmos à avenida Aoyama. — Lá no aeroporto eu estava torcendo para o avião não conseguir decolar.

Eu queria dizer que tinha pensado a mesma coisa. Mas, no fim, não falei nada. Minha boca estava seca e as palavras não saíam. Apenas assenti, calado, e apertei de leve a sua mão. Parei o carro na esquina de Aoyama Nichome para deixá-la, como ela pediu.

— Posso te ver de novo? — perguntou ela, baixinho, antes de descer do carro. — Você ainda gosta de mim?

— Vou estar te esperando — respondi. — Venha logo.

Ela concordou com a cabeça.

Dirigindo pela avenida Aoyama, pensei que se não a visse novamente eu enlouqueceria. Quando ela saiu do carro, tive a impressão de que o mundo se esvaziara de súbito.