Sul da Fronteira, Oeste do Sol

Haruki Murakami · Capítulo 12 de 17

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Sul da Fronteira, Oeste do Sol

Capítulo 12

Durante cerca de dois meses, até a chegada da primavera, encontrei Shimamoto praticamente toda semana. Ela aparecia nos meus bares de vez em quando. Às vezes no menor, mas geralmente no Robin’s Nest. Vinha sempre depois das nove. Sentava ao balcão, tomava dois ou três coquetéis e ia embora por volta das onze. Enquanto ela estava lá, eu ficava sentado ao seu lado, conversando. Não sei o que os funcionários achavam da nossa relação, mas também não me importava com isso. Do mesmo jeito que, na escola, não me importava com o que os colegas pensavam de nós.

De vez em quando ela telefonava para o clube e me convidava para encontrá-la em algum lugar no dia seguinte. Geralmente marcávamos em um café em Omotesando. Comíamos alguma coisa simples ou caminhávamos pelo bairro. Ela passava duas horas comigo, no máximo três. Quando dava sua hora, olhava o relógio e sorria pra mim, dizendo “bom, acho que já vou indo”. Um sorriso lindo, como sempre. Mas era impossível ler naquele sorriso o que ela sentia nesses momentos. Eu não saberia dizer se ela estava triste por ter que ir embora, se não se incomodava muito, ou se estava aliviada de me deixar. Na verdade, eu não tinha sequer como saber se ela precisava mesmo ir embora.

De qualquer forma, durante as duas ou três horas até sua partida, a conversa entre nós fluía muito animada. Mas eu nunca mais passei o braço sobre seu ombro, e ela nunca mais me deu a mão. Nossos corpos não voltaram a se tocar.

Em Tóquio, Shimamoto recuperou seu ar sorridente, carismático e tranquilo. Não vi mais aquela intensa agitação emocional que ela mostrara naquele dia frio de fevereiro, em Ishikawa. A intimidade natural e terna que se estabeleceu entre nós naquele dia também não retornou. Sem combinar, nós nunca mencionamos os eventos daquela estranha excursão.

Caminhando ao seu lado, eu me perguntava o que será que ela guardava no peito, e para onde essas coisas a levariam no futuro. Às vezes eu espiava seus olhos, mas encontrava neles apenas um silêncio sereno. As pequenas linhas em suas pálpebras continuavam a me lembrar da distante linha do horizonte. Tive a impressão de compreender um pouco melhor, finalmente, a solidão que Izumi devia sentir ao meu lado, quando éramos adolescentes. No interior de Shimamoto havia um pequeno mundo isolado, só dela. Que só ela conhecia, onde só ela poderia entrar. Eu ficava de fora. A porta deste mundo se abrira para mim uma única vez, mas agora já estava fechada novamente.

Quando eu começava a pensar sobre isso, ficava difícil saber o que era certo e o que era errado. Era como se eu tivesse voltado a ser um menino incapaz e perdido de doze anos. Diante dela, eu não conseguia avaliar o que devia fazer, o que falar. Eu me esforçava para pensar racionalmente. Para usar a cabeça. Mas não adiantava. Sempre acabava sentindo que tinha dito ou feito alguma coisa errada. No entanto, o que quer que eu fizesse ou falasse, ela sempre dava aquele seu sorriso encantador que engolia qualquer tipo de emoção. Como quem diz: “Não tem problema, tá tudo bem assim”.

Eu não sabia praticamente nada sobre as circunstâncias em que Shimamoto se encontrava. Não sabia onde ela morava. Se vivia sozinha ou com alguém. Não sabia de onde vinha seu dinheiro. Se ela era casada ou se já fora algum dia. Sabia apenas que ela tivera uma filha e que essa filha morrera no dia seguinte ao nascimento. Que isso tinha acontecido em fevereiro do ano anterior. Ela também disse que nunca havia trabalhado na vida, mas estava sempre com roupas de grife e acessórios caros. Ou seja, ela ganhava uma renda considerável, de algum lugar. Essas eram todas as informações que eu tinha sobre ela. Era provável que estivesse casada quando teve o bebê, mas não era uma certeza, claro. Apenas uma suposição. Há quem tenha filhos sem ser casado.

No entanto, conforme convivíamos mais, Shimamoto começou a contar, pouco a pouco, algumas coisas sobre sua vida nos tempos de escola. Parecia que para ela não havia problema em falar sobre essas coisas, já que elas não tinham nenhuma relação direta com sua vida atual. Assim eu soube quão sozinha ela tinha sido durante esse período, entre os doze anos e o final do ensino médio. Ela se esforçava para ser o mais justa possível com todos ao seu redor. E, o que quer que acontecesse, tentava não se justificar. “Eu não gosto de dar desculpas”, dizia ela. “Quando as pessoas começam a inventar justificativas, não param mais, e eu não quero viver assim.” Mas naquela época essa postura não deu tão certo para ela. Gerou uma série de mal-entendidos desnecessários que acabaram magoando-a profundamente. Ela foi se fechando cada vez mais em si mesma. Odiava tanto ir à escola que chegava a vomitar ao acordar de manhã.

Certa vez ela me mostrou uma foto de quando havia acabado de entrar no ensino médio. Estava sentada em uma espreguiçadeira, em um jardim com girassóis floridos, no verão. Usava um short jeans e uma camiseta branca. E era linda. Estava sorrindo para a câmera, um sorriso um pouco mais desajeitado que o de agora, mas ainda assim encantador. De certa forma, era justamente sua timidez que fazia daquele um sorriso tão belo. Não parecia o sorriso de uma menina infeliz e solitária.

— Vendo por essa foto você parece um exemplo de felicidade… — falei.

Shimamoto balançou a cabeça devagar. Linhas charmosas se formaram nos cantos dos seus olhos, que pareciam relembrar algum sentimento do passado distante.

— As fotos não mostram nada, Hajime. São só uma sombra. Eu não estou aí. As fotos não retratam a pessoa de verdade — disse ela.

Aquela foto me causou uma pontada no peito. Ela me mostrava claramente quanto tempo eu havia perdido. Um tempo precioso que não voltaria mais, que só existiu em um lugar e um instante. Fiquei muito tempo olhando a fotografia.

— O que você tanto olha? — perguntou Shimamoto.

— Estou tentando ocupar o tempo — falei. — Eu passei mais de vinte anos sem te ver. Quero tentar preencher esse vazio, pelo menos um pouco.

Ela me olhou com um sorriso diferente, como se tivesse algo engraçado na minha cara.

— Que esquisito… Você quer preencher o vazio desses anos, enquanto a minha vontade era poder esvaziá-los — disse ela.

Shimamoto não teve nenhum namorado até terminar o ensino médio. Não que ninguém tivesse se interessado por ela — afinal, ela era muito bonita. Mas ela não costumava sair com esses meninos. Tentou algumas vezes, mas nada durou.

— Os meninos daquela idade não deviam gostar muito de mim. Sabe como é… Nessa idade são todos brutos, só pensam em si mesmos e em botar a mão embaixo da saia das meninas. Eu sempre me decepcionava quando acontecia algo assim. O que eu buscava era aquilo que existiu entre nós, antigamente.

— Olha, Shimamoto, aos dezesseis anos eu também só pensava em mim mesmo e só queria pôr a mão embaixo da saia das meninas. Não tenha dúvida.

— Bom, então talvez tenha sido uma sorte a gente não conviver nessa idade — disse ela, e riu. — Pode ter sido bom a gente se separar aos doze anos e se reencontrar aos trinta e sete.

— Pode ser…

— Hoje em dia você consegue pensar em mais coisas além de meter a mão embaixo da saia das meninas, não consegue?

— É, uma coisa ou outra — falei. — Mas, se você estiver preocupada com o que se passa na minha cabeça, talvez seja melhor vir de calça da próxima vez…

Shimamoto pôs as duas mãos sobre a mesa e riu, olhando para elas. Como sempre, ela não usava nenhum anel. Era comum estar de pulseira, e tinha sempre um relógio de pulso diferente. Também usava brincos. Mas nunca a vi de anel.

— Além disso, eu não queria ser um incômodo para os meninos — disse ela. — Tinha muitas coisas que eu não conseguia fazer, como você sabe. Eu não podia ir a piqueniques, nadar, esquiar ou patinar, ir em discotecas… Mesmo num passeio qualquer pela cidade, eu andava devagar. Tudo o que eu conseguia fazer era sentar com a pessoa, conversar e ouvir música. E os meninos daquela idade não aguentavam fazer isso por muito tempo. Eu sofria por isso. A última coisa que eu queria era me tornar um fardo.

Ela disse isso e tomou um gole da sua Perrier com gelo. Era uma tarde quente em meados de março. Já havia alguns jovens andando de mangas curtas em Omotesando.

— Se estivéssemos juntos naquela época, acho que eu teria me tornado um peso para você. Tenho certeza de que você ia se cansar de mim. Ia querer se jogar num mundo mais vasto, mais ativo. E teria sido muito difícil pra mim quando as coisas acabassem assim.

— Escuta, Shimamoto — falei. — Isso nunca aconteceria. Eu não me cansaria de você, porque tem alguma coisa especial entre a gente. Eu sei disso. Não consigo explicar, mas sei que existe e que é algo muito precioso, muito importante. E acho que você também sabe.

Shimamoto ficou me olhando, sem mudar de expressão.

— Eu não sou nenhum grande homem. Não tenho nenhuma razão específica pra me orgulhar. E no passado eu era ainda mais bruto, mais insensível, mais arrogante. Então talvez não fosse a pessoa certa pra você. Mas de uma coisa eu tenho certeza: eu não ia me cansar de você. Nesse aspecto, sou diferente das outras pessoas. Em relação a você, eu sou uma pessoa especial. Posso sentir.

Shimamoto voltou a olhar para as próprias mãos sobre a mesa. Afastou os dedos, como se examinasse seu contorno.

— Mas infelizmente, Hajime — disse ela —, certas coisas não andam pra trás. Depois que seguem adiante, não importa o que a gente faça, não dá mais para voltar. Se algo sai dos trilhos, mesmo que só um pouco, endurece e fica assim para sempre.

Uma vez, fomos juntos assistir a um concerto. Eram obras de Liszt para piano. Shimamoto me ligou e perguntou se eu estava livre e queria ir com ela. O intérprete era um famoso pianista da América Latina. Desmarquei compromissos e fui com ela para a sala de concertos em Ueno. Foi uma apresentação formidável. A técnica era impecável, as composições, elaboradas e complexas, o intérprete tocava com muito sentimento. No entanto, por mais que eu fechasse os olhos e tentasse me concentrar na música, não conseguia entrar de corpo e alma naquele mundo. Era como se houvesse uma barreira entre mim e a performance, uma cortina nos separando. Era muito fina, quase imperceptível, mas me impedia de atravessar para o lado de lá. Quando falei sobre isso, depois do concerto, descobri que Shimamoto tinha sentido mais ou menos a mesma coisa.

— Mas qual será que foi o problema com essa apresentação? — perguntou ela. — Me pareceu tão boa…

— Você lembra que no disco que a gente escutava tinha dois chiados, mais para o fim do segundo movimento? Fazia tik, tik — falei. — Não consigo ouvir essa música sem aqueles chiados.

Shimamoto deu risada.

— Não dá pra dizer que seja um critério muito artístico.

— A arte que se dane. Deixa um urubu careca comer a arte, não ligo. Não importa o que digam, eu gostava daquele barulhinho.

— É, talvez você tenha razão — admitiu ela. — Mas o que tem esse urubu careca? É diferente dos outros?

No trem de volta, fui explicando as diferenças entre os urubus comuns e os urubus carecas. Falei sobre seus habitat, sobre as diferenças nos seus cantos, nos seus períodos de acasalamento.

— Os urubus carecas se alimentam de arte, e os comuns, dos cadáveres de desconhecidos. É completamente diferente.

— Você é esquisito! — Ela riu. E, sentada ao meu lado no banco do trem, encostou bem de leve o ombro no meu. Esse foi o único momento, nesses dois meses, em que nossos corpos se tocaram.

E assim o mês de março passou e começou abril. A minha filha mais nova passou a frequentar a mesma pré-escola da mais velha. Agora que não precisava mais ficar com as meninas, Yukiko entrou para um grupo de voluntários do bairro e começou a ajudar em uma instituição para crianças deficientes. Quase sempre era eu quem levava e buscava as duas na escola. Quando eu estava sem tempo, minha esposa fazia isso. Ver minhas filhas crescendo me fazia perceber que eu também estava envelhecendo. Sozinhas, indiferentes às nossas intenções, as crianças vão ficando cada vez maiores. Eu amava minhas filhas. Para mim, era uma grande alegria assistir ao seu desenvolvimento. Mas às vezes, vendo-as crescer dia a dia, hora a hora, eu me sentia sufocado. Como se uma árvore estivesse crescendo dentro de mim, as raízes cada vez mais fundas e os galhos se espalhando, pressionando meus órgãos, músculos e minha pele em sua ânsia de expansão. Em alguns momentos essa sensação era tão sufocante que eu não conseguia dormir à noite.

Eu encontrava Shimamoto uma vez por semana e conversava com ela. Levava e buscava minhas filhas na escola e fazia amor com minha esposa várias vezes por semana. Acho que, depois que passei a me encontrar com Shimamoto, comecei a procurá-la mais vezes. Não o fazia por culpa. O que eu buscava, ao abraçá-la e ser abraçado por ela, era me prender a alguma coisa.

— O que você tem, hein? Você anda meio estranho — disse Yukiko certa tarde, depois do sexo. — Nunca ouvi falar que a libido dos homens aumenta assim, de repente, aos trinta e sete anos.

— Não tenho nada, sou o mesmo de sempre — falei.

Yukiko me olhou por um tempo, depois balançou um pouco a cabeça.

— Ai, ai. Eu queria saber o que é que acontece dentro da sua cabeça — disse ela.

Quando estava à toa, eu ouvia música clássica e fitava distraído o cemitério de Aoyama pela janela. Não lia tanto quanto antes. Achava cada vez mais difícil me concentrar nas palavras na página.

Também encontrava bastante a jovem mulher da Mercedes 260E. Enquanto esperávamos nossas filhas aparecerem no portão da pré-escola, conversávamos sobre amenidades. “O estacionamento de tal supermercado é mais vazio em tal horário”, “tal restaurante italiano mudou de chef e a qualidade caiu muito”, “mês que vem vai ter uma promoção de vinhos importados na Meijiya”, esse tipo de coisa. “Ai, ai, isso parece conversa de comadres no portão”, eu pensava. Mas aqueles eram os únicos assuntos que tínhamos em comum.

 

No meio de abril, Shimamoto desapareceu novamente. Da última vez que nos vimos, estávamos sentados lado a lado no balcão do Robin’s Nest, conversando. Mas pouco antes das dez recebi uma ligação do outro bar e tive que ir para lá.

— Devo voltar em meia hora ou quarenta minutos — falei para Shimamoto.

— Tudo bem, vai lá. Eu fico lendo e te espero aqui — respondeu ela, sorrindo.

Quando resolvi a questão e voltei correndo, ela não estava mais no balcão. Passava um pouco das onze horas. Ela deixara um recado para mim, no verso dos fósforos do clube. “Talvez eu não consiga mais vir por algum tempo. Agora preciso ir. Adeus. Fique bem”, dizia.

Depois disso, passei um período desnorteado. Não sabia o que fazer. Andava à toa pela casa, perambulava pela cidade, ia bem cedo esperar minhas filhas na escola. Lá, conversava com a moça da Mercedes. Cheguei a ir com ela tomar café ali perto. Como sempre, falamos sobre as verduras do Kinokuniya, os ovos fertilizados da Natural House, as promoções da Miki House. Ela adorava as roupas de Inaba Yoshie e disse que reservava pelo catálogo as peças que queria, antes de cada estação. Também falamos sobre um restaurante de enguias muito bom que ficava perto do posto policial de Omotesando e havia fechado. Com essas conversas, fomos ficando bem próximos. Ela era muito mais simpática e boa pessoa do que aparentava. Mas eu não tinha qualquer interesse sexual por ela. Eu só queria conversar com alguém, sobre qualquer coisa. De preferência qualquer coisa inofensiva e insignificante. Eu buscava o tipo de conversa que, por mais longe que fosse, jamais me levasse a Shimamoto.

Quando não tinha mais o que fazer, eu ia para um shopping e fazia compras. Um dia, comprei seis camisas de uma vez. Comprava brinquedos e bonecas para minhas filhas, acessórios para Yukiko. Fui várias vezes a um showroom da BMW, onde olhava os M5 e fazia várias perguntas aos vendedores, apesar de não ter nenhuma intenção de comprar um automóvel.

Depois de passar algumas semanas inquieto, entretanto, voltei a focar no trabalho. Decidi que não podia continuar daquele jeito para sempre. Chamei um designer e um decorador e conversei sobre mudar o interior dos bares. Estava chegando a hora de dar um trato no interior deles e repensar a forma como os administrava. Nesse tipo de estabelecimento, há momentos em que você deve manter tudo como está e outros em que deve mudar as coisas. Assim como com as pessoas. Tudo no mundo vai perdendo a energia se fica sempre do mesmo jeito. Já fazia um tempo que eu sentia que tinha chegado a hora de mudar. Os jardins de fantasia nunca podem entediar as pessoas. Decidi começar por uma reforma parcial do bar menor. Eu precisava deixar o espaço mais funcional — mudar coisas que, pelo uso cotidiano, percebi que não davam certo, arrumar lugares em que havíamos priorizado o design em detrimento da funcionalidade. Também estava na hora de fazer uma revisão em todo o equipamento de som e de ar-condicionado. E mudei muitos itens no cardápio. Sempre conversei com os funcionários, pedindo suas opiniões sobre o espaço de trabalho, perguntando o que gostariam de mudar e como, e anotava tudo isso em uma lista detalhada. O resultado foi uma lista bem longa. Descrevi para os arquitetos, minuciosamente, a imagem que eu tinha em mente para o bar reformado. Eles desenhavam um projeto, eu fazia correções, eles modificavam os desenhos. Repetimos esse processo muitas e muitas vezes. Verifiquei cada um dos materiais usados, pedi orçamentos, ajustei os valores considerando a qualidade de cada produto. Demorei três semanas só para escolher uma saboneteira para o toalete. Passei três semanas rodando todas as lojas de Tóquio em busca da saboneteira perfeita. Essas atividades me deixavam completamente exausto, mas era justo isso que eu queria.

Maio se foi e entramos em junho. Mesmo assim, Shimamoto não apareceu. “Ela não vai mais voltar”, pensei. “Talvez eu não consiga mais vir por algum tempo”, escrevera ela. Essas duas expressões vagas, “talvez” e “algum tempo”, me torturavam com sua ambiguidade. Ela poderia voltar algum dia. Mas eu não podia ficar sentado em um canto, esperando por aquele “talvez” e aquele “algum”. Se continuasse vivendo daquele jeito eu ficaria maluco, então dediquei todos os meus esforços a me manter ocupado. Comecei a nadar mais. Nadava dois mil metros por dia, sem parar. Depois me exercitava na academia no andar de cima. Na primeira semana, meus músculos protestaram bastante. Um dia, enquanto eu esperava o sinal abrir, tive uma câimbra tão forte no pé esquerdo que por um momento não consegui pisar na embreagem. Mas, depois de algum tempo, meu corpo começou a aceitar aquele nível de exercício como o normal. Esse tipo de atividade exaustiva não me deixava espaço para pensar em bobagens, e graças ao exercício diário eu tinha mais concentração no dia a dia. Eu evitava ficar à toa, sem pensar em nada. Fazia um esforço para me concentrar no que estava fazendo, o que quer que fosse. Se ia lavar o rosto, lavava com dedicação, se ouvia música, ouvia com dedicação. Se eu não fizesse isso, não conseguiria levar a vida direito. No verão, eu e Yukiko íamos com as meninas passar os fins de semana na nossa casa de veraneio em Hakone. As três pareciam relaxadas e felizes por sair da cidade e estar perto da natureza. Colhiam flores, olhavam os passarinhos com binóculos, brincavam de pega-pega, nadavam no rio. Ou só ficavam estiradas no jardim, descansando. “Mas elas não sabem da verdade”, eu pensava. Naquele dia de neve, se o avião para Tóquio não tivesse decolado, eu poderia ter largado tudo e ido embora com Shimamoto. Naquele dia, eu teria sido capaz de abandonar tudo. O trabalho, a família, o dinheiro, tudo, sem pestanejar. E, mesmo agora, eu continuava pensando em Shimamoto, o tempo todo. Ainda me lembrava com clareza da sensação de abraçar seu ombro, de beijar seu rosto. E, quando transava com minha esposa, não conseguia impedir que a imagem de Shimamoto surgisse na minha mente. Ninguém sabia o que eu estava pensando. Assim como eu não sabia o que Shimamoto estava pensando.

Decidi usar as férias de verão para fazer a reforma no bar. Enquanto Yukiko e as meninas foram para Hakone, eu fiquei sozinho em Tóquio, dando instruções detalhadas durante as obras. Quando dava tempo, nadava e fazia musculação. Nos fins de semana ia para Hakone, levava minhas filhas para nadar na piscina do Hotel Fujiya e para comer fora. E, quando chegava a noite, me deitava com minha mulher.

Eu já estava chegando na meia-idade, mas não ganhara nenhum peso e não via sinais de calvície. Também não tinha nem um fio branco. Graças à atividade física, não me sentia menos disposto. Eu levava uma vida regrada, evitava excessos, cuidava da alimentação. Nunca ficava doente. Pela aparência, poderia ter acabado de entrar nos trinta.

Minha esposa gostava de tocar meu corpo nu. De sentir os músculos do meu peito, alisar minha barriga reta como uma tábua, brincar com meu pênis e meus testículos. Ela também frequentava a academia e se exercitava com afinco, mas tinha cada vez mais dificuldade em evitar que a gordura se acumulasse no corpo.

— Infelizmente, é a idade — disse ela, com um suspiro. — Posso até perder peso, mas essa gordura aqui do lado não vai embora!

— Mas eu gosto do seu corpo como ele é agora. Não precisa ficar se matando com exercícios e dieta, você tá bem desse jeito. E nem está gorda — eu dizia.

E não era mentira. Eu gostava do seu corpo macio, com um pouco mais de carne. Gostava de acariciar suas costas nuas.

— Você não entende nada! — disse Yukiko, balançando a cabeça. — Não fala que eu estou bem “desse jeito”. Eu já estou me matando pra me manter assim!

Para quem via de fora, devíamos parecer uma família perfeita. Às vezes, até eu pensava isso. Eu tinha um trabalho do qual gostava e que me dava uma renda considerável. Tinha um belo apartamento de quatro dormitórios em Aoyama, uma casinha de veraneio nas montanhas de Hakone, uma BMW e um Jeep Cherokee. E tinha uma família da qual não poderia me queixar. Eu amava minha esposa e minhas duas filhas. O que mais eu poderia querer da vida? Mesmo que, hipoteticamente, as três viessem até mim, dissessem que queriam ser uma esposa e filhas melhores e mais amadas e me perguntassem humildemente o que eu gostaria que elas mudassem, eu não saberia o que dizer. Eu realmente não tinha nenhuma insatisfação em relação a elas. Também não tinha nenhuma queixa a respeito da minha vida em casa. Eu não conseguia imaginar uma vida mais agradável do que aquela.

Mas, depois do sumiço de Shimamoto, às vezes eu me sentia na superfície da lua, sem oxigênio. Agora que ela não estava mais lá, não existia um lugar no mundo onde eu pudesse abrir meu coração. Nas noites em que não conseguia dormir, eu ficava deitado na cama, lembrando de novo e de novo e de novo daquele dia de neve no aeroporto de Komatsu. A minha vontade era que essa memória fosse se desgastando de tanto ser relembrada, mas isso não acontecia. Pelo contrário, quanto mais eu pensava nela, mais vívida ficava. O painel de avisos de embarque informando que o voo para Tóquio da ANA estava atrasado. Do lado de fora da janela, a neve cobrindo tudo. Não se enxergava nem cinquenta metros adiante. Shimamoto imóvel, sentada no banco e abraçada a si mesma, segurando com força os cotovelos. O grosso casaco azul-marinho, o cachecol no pescoço. O cheiro de tristeza e lágrimas que emanava do seu corpo. Eu ainda conseguia senti-lo perfeitamente. Ao meu lado, minha esposa ressonava discretamente. Ela não sabe de nada. Eu fechava os olhos e sacudia a cabeça. “Ela não sabe de nada.”

Eu pensava em como dera de beber a Shimamoto, da minha boca, a água da neve derretida. Lembrava da sensação de tê-la em meus braços, no avião. De seus olhos fechados e sua boca entreaberta, como a de quem suspira. Seu corpo macio pesava contra o meu. Naquele momento, ela me desejava. Seu coração estava aberto para mim. Mas eu me segurei. Eu me detive, e fazendo isso fiquei neste mundo deserto e sem vida como a superfície lunar. Até que ela foi embora novamente e minha vida desapareceu mais uma vez.

Essas memórias vívidas me davam noites em claro. Às vezes eu despertava às duas ou três horas da manhã e não conseguia voltar a dormir. Quando isso acontecia eu levantava da cama, ia até a cozinha e me servia de um uísque. Via o cemitério escuro e os faróis dos carros que passavam pela rua abaixo dele. Ficava lá olhando a paisagem, com o copo na mão. Essas horas, que conectam o meio da noite à alvorada, eram longas e escuras. Às vezes eu pensava que me sentiria melhor se conseguisse chorar, mas não sabia pelo que chorar. Por quem chorar. Eu era egoísta demais para chorar por outra pessoa, e velho demais para chorar por mim mesmo.

 

E então chegou o outono. Quando isso aconteceu, eu já havia tomado uma decisão. Eu não podia continuar vivendo daquele jeito. Essa foi minha conclusão final.