Sul da Fronteira, Oeste do Sol
Capítulo 5
Não tenho muito para contar sobre os quatro anos que passei na faculdade.
No meu primeiro ano como universitário participei de manifestações e cheguei a enfrentar a polícia. Apoiei greves universitárias e compareci a reuniões políticas, nas quais conheci algumas pessoas interessantes. Mas não conseguia, de jeito nenhum, me entusiasmar de verdade com a luta política. Ficava desconfortável ao dar as mãos para meus companheiros nas manifestações e, quando tinha que jogar pedras nos policiais, sentia que estava deixando de ser eu mesmo. “Será que é mesmo isso que eu quero?”, me perguntava. Eu não conseguia ter um sentimento de solidariedade em relação às pessoas que estavam ao meu redor. O cheiro de violência que preenchia as ruas da cidade e as palavras agressivas em todas as bocas logo começaram a perder o brilho. Pouco a pouco, comecei a sentir saudades do tempo que passara com Izumi. Mas eu já não podia mais voltar para lá. Eu tinha deixado aquele mundo para trás.
Por outro lado, as coisas que eu estudava na faculdade quase não me interessavam. A maior parte das aulas em que me inscrevi eram tediosas e sem sentido. Nada nelas despertava minha curiosidade. Tive muitos trabalhos de meio período e quase não aparecia no campus, então foi um milagre eu conseguir me formar. Também tive algumas namoradas. Até morei junto com uma delas por uns seis meses, no terceiro ano. Mas no fim não deu certo. Naquela época, nem eu mesmo sabia o que queria da vida.
Quando me dei conta, a fase política havia acabado. As ondas que, por um momento, pareceram um enorme prenúncio de uma nova era, perderam a força de repente, como uma bandeira quando cessa o vento, e foram engolidas pelo cotidiano cinzento e inevitável.
Depois de me formar, fui trabalhar, por intermédio de um conhecido, em uma editora de livros didáticos. Cortei o cabelo, calcei sapatos de couro e vesti um terno. A empresa não tinha grandes atrativos, mas naquele momento o mercado não estava muito receptivo para os formandos de letras e, considerando minhas notas e meus contatos, se eu tentasse algum lugar mais legal certamente daria com a cara na porta. Eu já devia me considerar sortudo por ter conseguido aquela vaga.
O trabalho era tão tedioso quanto eu havia imaginado. O ambiente em si não era ruim, mas, infelizmente, editar livros didáticos não me trazia nenhuma alegria. Apesar disso eu me dediquei com afinco por seis meses, tentando encontrar algo que me interessasse naquele trabalho. Eu acreditava que, se você se dedica por inteiro, qualquer atividade pode ter sua compensação. Mas, no fim, acabei desistindo de sentir algum entusiasmo. Minha conclusão final foi que aquele trabalho não era para mim, não importava como eu olhasse. Foi uma decepção. Senti que minha vida tinha acabado por ali. Que eu passaria os anos definhando naquele escritório, fazendo aqueles livros tediosos. Se tudo seguisse normalmente, faltavam trinta e três anos até que pudesse me aposentar, os quais eu passaria sentado, dia após dia, na frente daquela escrivaninha, encarando as provas dos livros, calculando números de exemplares, corrigindo a escrita dos caracteres. E então me casaria com uma mulher adequada, teria filhos e minhas únicas alegrias na vida seriam os dois bônus anuais da empresa. Lembrei-me das palavras de Izumi: “Tenho certeza de que você vai ser uma pessoa maravilhosa. Tem alguma coisa muito incrível em você”. Essa lembrança me trouxe um sentimento amargo. Não tem nada de incrível em mim, Izumi. Mas acho que agora você já descobriu isso. Fazer o quê? Todo mundo se engana.
Eu trabalhava como um autômato no que me davam na editora e passava o resto do tempo lendo os livros de que gostava e ouvindo música. Minha postura era que, se o trabalho era tedioso, feito por obrigação, o jeito era usar o resto do tempo de forma agradável para mim, assim eu conseguiria aproveitar a vida de alguma maneira. Então eu não costumava sair com os colegas de trabalho para beber ou confraternizar. Não é que eu me desse mal com as pessoas ou ficasse isolado. Eu apenas não me empenhava em criar relações pessoais com os colegas, em outros momentos ou lugares além do horário e local de trabalho. Preferia reservar meu tempo pessoal só para mim.
E, assim, quatro ou cinco anos se passaram como em um instante. Durante esse tempo tive algumas namoradas, mas nenhum relacionamento durou muito. Eu saía com alguém por alguns meses, até que pensava: “Não, não é bem isso”. Não conseguia encontrar naquelas mulheres nada que existisse só para mim. Dormi com algumas delas, mas isso não me causava nenhuma emoção. Essa foi a terceira etapa da minha vida. Esses doze anos, desde quando entrei na faculdade até chegar aos trinta anos, os quais passei em meio a decepção, solidão e silêncio. Durante todo esse tempo, não me aproximei realmente de ninguém. Para mim, foram como anos congelados.
Mergulhei ainda mais no meu próprio mundo. Me acostumei a dormir sozinho, caminhar sozinho, ir sozinho nadar na piscina, assistir sozinho a filmes e shows. Não achava isso particularmente difícil ou solitário. Eu pensava muito em Shimamoto e em Izumi. O que elas estariam fazendo agora? Talvez já estivessem casadas. Podiam até ter filhos. Quaisquer que fossem suas circunstâncias, eu adoraria me encontrar com elas e conversar, pelo menos um pouco. Só uma hora já seria suficiente. Para elas, eu conseguiria expressar melhor meus sentimentos. Eu passava o tempo pensando de que maneira poderia fazer as pazes com Izumi, como poderia reencontrar Shimamoto. Pensava como seria bom se essas coisas acontecessem. Mas não cheguei a fazer nenhum esforço para realizá-las. No fim das contas, as duas já tinham desaparecido da minha vida. Não dá para fazer os ponteiros do relógio girarem no sentido contrário. Eu comecei a pensar em voz alta e a beber sozinho em casa, à noite. Foi nessa época que comecei a considerar que talvez nunca me casasse.
No meu segundo ano na editora, tive um encontro com uma moça que mancava de uma perna. Foi um encontro com outro casal, a convite de um colega de trabalho.
— Ela tem uma perna meio ruim — disse ele, um pouco constrangido. — Mas é uma menina bonita e boa gente. Acho que você vai gostar dela. E a gente mal nota o problema na perna. Ela só arrasta um pouco o pé.
— Isso não me incomoda em nada — falei.
Sinceramente, se ele não tivesse mencionado que ela mancava, acho que eu não teria aceitado sair com eles. Já estava cansado de encontros duplos, encontros às cegas e coisas do gênero. Mas, quando soube disso, não consegui recusar o convite.
E a gente mal nota o problema na perna. Ela só arrasta um pouco o pé.
A menina era amiga da namorada do meu colega. As duas tinham estudado juntas no ensino médio, se não me engano. Ela era miúda e tinha um rosto harmonioso. Não era uma beleza chamativa, mas contida e discreta. Lembrava um pequeno animal que se recusa a sair de um bosque. Numa manhã de domingo, nós vimos um filme e depois almoçamos todos juntos. Ela quase não falava. Mesmo quando tentávamos incluí-la na conversa, ela apenas sorria, sem dizer nada. Depois disso nos separamos para passear, cada casal para um lado. Eu e ela fomos caminhar e tomar café no parque Hibiya. Ela arrastava a perna oposta à de Shimamoto. A forma como mancava também era um pouco diferente. Shimamoto mancava arrastando a perna em um pequeno arco, enquanto ela arrastava numa linha reta, com o pé um pouco virado para o lado. Apesar disso, o caminhar das duas era bem parecido.
Ela estava com um suéter vermelho de gola alta e jeans e calçava botinas comuns, de camurça. Praticamente não usava maquiagem e tinha o cabelo preso num rabo de cavalo. Disse que estava no quarto ano da faculdade, mas parecia mais nova. Eu não sabia se ela era sempre tão calada, se estava nervosa por estar com um desconhecido ou se simplesmente não tinha muito a dizer. O fato é que, no começo, não se estabeleceu entre nós nada que pudesse ser chamado realmente de conversa. Tudo o que consegui descobrir foi que ela estudava farmácia na faculdade.
— É legal, farmácia? — perguntei.
Nós estávamos sentados no café dentro do parque.
A pergunta a fez enrubescer um pouco.
— Tudo bem — falei. — Fazer livros didáticos também não é lá muito legal. Tem muita coisa sem graça no mundo, não precisa se incomodar com isso.
Ela pensou um pouco, depois finalmente abriu a boca.
— Não é particularmente legal. Mas é que minha família tem uma farmácia.
— Me conta alguma coisa sobre o assunto? Não sei nada sobre isso. Desculpa, já faz uns seis anos que não tomo remédio nenhum.
— Então você é bem saudável.
— Graças a deus, não tenho nem ressaca — falei. — Mas quando eu era criança eu era bem fraco. Ficava doente toda hora e tomava um monte de remédios. Eu sou filho único, quem sabe foi superproteção dos meus pais.
Ela assentiu e ficou olhando para a xícara de café. Muito tempo se passou antes de ela voltar a falar.
— Acho que farmácia não é mesmo um curso tão interessante — disse ela. — Deve ter coisas mais legais para fazer no mundo do que ficar decorando todos os componentes dos remédios. Mesmo dentro das ciências, não é uma área tão romântica quanto a astronomia ou tão dramática quanto a medicina. Mas a farmácia é mais próxima, mais íntima. Acho que é uma coisa em escala humana, sabe?
— Entendi — falei.
Quer dizer que, quando queria, a menina falava direitinho. Ela só precisava de mais tempo do que o normal para escolher as palavras.
— Você tem irmãos? — perguntei.
— Tenho dois irmãos mais velhos. Um deles já é casado.
— Se você está fazendo essa faculdade, é porque vai virar farmacêutica e herdar a farmácia da sua família?
Ela enrubesceu novamente. E passou mais um tempo calada.
— Não sei. Meus irmãos já têm outros empregos, então talvez a farmácia fique comigo. Mas não é certeza. Meu pai disse que, se eu não quiser trabalhar lá, tudo bem, ele continua até onde der e depois vende a loja.
Concordei e esperei ela continuar.
— Mas acho que eu devo ficar, sim. Como eu tenho essa perna ruim, vai ser difícil achar outro trabalho…
Passamos a tarde conversando assim. A conversa tomava tempo, com muitos silêncios. Toda vez que eu fazia uma pergunta, ela ficava vermelha. Mas falar com ela não era chato nem constrangedor. Eu diria que me diverti, o que era raro para mim, na época. Depois de conversar um pouco na mesa daquele café, cheguei a sentir que já a conhecia há muito tempo. Era um sentimento próximo da nostalgia.
Mas será que isso significava que eu estava atraído por ela? A verdade é que não. Gostei dela, é claro, e achei agradável a tarde que passamos juntos. Era uma menina bonita e, como meu colega dissera, parecia ser boa pessoa. Mas, afora essa lista de fatos, encontrei nela alguma coisa que realmente balançasse meu coração? Infelizmente, a resposta era não.
E, dentro de Shimamoto, essa coisa existia. Durante todo o tempo que passei com aquela menina, fiquei pensando em Shimamoto. Me senti mal por isso, mas não conseguia evitar. Mesmo tanto tempo depois, pensar nela fazia meu coração se agitar. Era uma excitação um pouco febril, como se eu abrisse discretamente uma porta no fundo do peito. Caminhar pelo parque Hibiya com aquela menina bonita e manca não me causava a mesma excitação ou o mesmo tremor. O que eu sentia em relação a ela era um tipo de simpatia e um carinho tranquilo, só isso.
A casa dela, ou seja, a farmácia da família, ficava em Kobinata, no distrito Bunkyo. Eu a acompanhei de ônibus até lá. Ela praticamente não falou durante todo o percurso que passamos sentados juntos.
Alguns dias depois, meu colega veio até minha mesa, disse que a menina parecia ter gostado bastante de mim e perguntou se eu não queria sair de novo, nós quatro, na próxima folga. Mas dei uma desculpa qualquer e recusei o convite. Eu não via nenhum problema em me encontrar com ela e conversar novamente. Na verdade, até gostaria de conversar com mais calma. Se nós tivéssemos nos conhecido em outra situação, talvez nos tornássemos bons amigos. Mas o que ele estava propondo era um encontro romântico, para arranjar uma namorada. Se eu saísse com ela duas vezes, passaria a ter certa responsabilidade. Eu não queria magoá-la, de maneira nenhuma. Então só me restava recusar. Nunca mais a encontrei depois disso.