Televisão e realidade

Itania Maria Mota Gomes · Capítulo 11 de 14 · parte 2/2

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Televisão e realidade

Audioesfera política e visibilidade pública: os atores políticos no Jornal Nacional

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

A soleira mínima da visibilidade exclui, portanto, de início, um grande número de tipos de atores políticos, notadamente aqueles que não pertencem à esfera de decisão política, aqueles que não possuem cargos federais ou mandatos e aqueles cujo âmbito de atuação política está fora da locação principal das narrativas políticas do jornalismo, a capital federal. Isso não significa, ademais, que quem supera este primeiro patamar tenha posse de quotas realmente importantes de presença na audioesfera política brasileira. A maior parte dos atores admitidos à audioesfera é localizada nas faixas mínimas de visibilidade política.

Usando critérios que explicarei em seguida, foi possível estabelecer quatro faixas de visibilidade política para cada uma das dimensões da audioesfera. Assim, há uma visibilidade excepcional, alta, média e baixa. No caso das sonoras, apenas sete atores políticos brasileiros ocupam a faixa de visibilidade alta ou superior. Outros 32 atores possuem uma visibilidade média, enquanto 68% deles possuem quotas baixas e muito baixas de voz própria na audioesfera. No caso das declarações narradas, a elite da voz política é ainda menor: continuam sendo sete os ocupantes das faixas de visibilidade alta ou superior, mas apenas quatro outros atores ocupariam a faixa de visibilidade média. 82% de um número já pequeno de atores (62) ocupam o espaço mais obscuro desta faixa. Por fim, no caso das menções, só quatro atores ocupam as faixas superiores e mais cinco a faixa média. O que significa que 92% dos mencionados ocupam a faixa pouco significante desta categoria. De fato, 54 dos atores mencionados o foram apenas uma ou duas vezes no conjunto das 100 edições. Em suma, a quase totalidade dos mencionados recebeu um volume praticamente insignificante de menções.

Cruzando-se as três dimensões da audioesfera, nota-se que a pequena elite da voz e da menção política, ou seja, os ocupantes das faixas alta ou superior de visibilidade, é um pequeno conjunto de não mais que 10 pessoas: o presidente, quatro ministros, quatro senadores e um presidente de empresa estatal. E apenas quatro delas ocupam esta posição considerando-se qualquer uma das três dimensões (o presidente e três dos seus ministros). Se considerarmos também componente da elite a faixa de intensidade média na audioesfera, a única diferença na tipologia é o fato de incluirmos nessa classe alguns deputados. Os 30 outros portadores de quotas de visibilidade média são mais 17 senadores, seis deputados, cinco ministros, o presidente do Banco Central e um governador de estado.

Em suma, não mais que quarenta atores têm quotas realmente relevantes de visibilidade no centro da audioesfera política brasileira e apenas 10 deles são realmente muito visíveis. Além disso, a tipologia dos atores que ocupam a audioesfera, não importa em que faixa, é basicamente composta por portadores de mandatos e por ocupantes de cargos importantes da administração pública brasileira.

A tabela 1 é bastante expressiva da composição dos ocupantes da audioesfera. Vê-se claramente que são poucas e precisas as categorias de atores políticos com direito a fala e menção na esfera de visibilidade pública brasileira. E que todas as luzes do teatro político brasileiro acompanham basicamente a Presidência da República e o Congresso Nacional. Além dis-so, considerando o centro da visibilidade pública brasileira, o Executivo (presidente e ministros) e o Senado açambarcam praticamente toda a visibilidade disponível. Resta, porém, o fato de que os valores percentuais podem gerar uma idéia imprecisa das coisas.

Tabela 1 – Distribuição de sonoras declarações e menções por

 

grandes categorias de atores.

Fonte: Pesquisa do autor

A tabela mostra, por exemplo, que a Presidência da República e o Senado oscilam na liderança da posse de quotas na audioesfera. A rigor, porém, a primeira categoria é composta por dois atores, enquanto na segunda categoria a visibilidade é dividida por cerca de 40 deles (uma parte do Senado, como veremos, é invisível). No caso dos ministros, da mesma forma, a quota pode não parecer tão alta, mas isso pode ser repensado se considerarmos que ela se reparte, no momento da sua expansão máxima, por apenas 18 atores. E a quota dos deputados federais fica ainda menor se pensarmos que ela chega a ser repartida por quarenta e cinco atores.

3.3 O visível e o invisível na esfera política

Estamos no centro da visibilidade política nacional. Mesmo neste âmbito, contudo, a distribuição da visibilidade se dá de forma desigual, havendo atores muito visíveis, medianamente visíveis, pouco visíveis e, até mesmo, invisíveis. No que se refere especificamente à audioesfera política, também aqui as quotas de visibilidade são possuídas desigualmente. Como elas são distribuídas, quem usufrui do maior quinhão de presença na audioesfera, quem não tem direito a fala e menção são as questões que orientam esta seção do artigo.

3.3.1 Faixas de visibilidade O resultado deste artigo não seria de grande utilidade fosse ele apenas produzir um quadro do loteamento da audioesfera. A ficarmos nisso, perderíamos a chance de aprender mais. Tanto sobre a cobertura da política no Jornal Nacional (quem tem direito a fala e porque) quanto sobre as relações entre o campo político e a comunicação (haja vista que a luta por quotas de visibilidade, proporcionada por cargos e funções, é parte integrante da luta política contemporânea). Entender a distribuição da visibilidade (que nos ajudará, posteriormente, a entender a competição por esse recurso) implica configurar escalas por meio das quais se possa estabelecer a qualidade das quotas possuídas pelos diversos atores.

A alternativa mais óbvia para o estabelecimento das faixas de visibilidade é dada pela distribuição proporcional dentro de uma determinada dimensão. Assim, por exemplo, é óbvio que um ator que teve 1 ou 5% das sonoras de um dado período é menos visível que outro com, digamos, 15 ou 20% de sound bites no mesmo período. Mas é claro que esses valores podem ser relativizados. Afinal, esses mesmo percentuais podem significar valores diferentes tratando-se do rateio de mil ou de sete mil segundos. Ademais, mesmo que essas quotas signifiquem números absolutos muito altos, resta a pergunta mais óbvia: qual o número considerado ótimo de sonoras, declarações relatadas ou menções nominais?

Como não tínhamos uma medida extensiva dessas dimensões no telejornalismo brasileiro, tampouco era possível traçar hipóteses razoáveis a respeito. Valores como esses só são razoavelmente estabelecidos se sobre uma base empírica. Foi preciso descobrir, concretamente, qual é o montante de visibilidade e como se distribuem as quotas de sonoras, declarações e menções que a materializam na audioesfera. Por outro lado, a empiria não nos oferece, automática e espontaneamente, classes e pontos de corte. Era preciso recortar em algum ponto e oferecer justificativas para tanto.

Tomemos o caso das sonoras. A quota máxima atribuída a uma persona política, na amostra, é de 154,3 segundos de sonoras a cada 10 edições do Jornal Nacional. No caso das declarações narradas, a quota máxima de um ator político é de 89,2 segundos a cada 10 edições. Enfim, no atinente às menções nominais, o máximo que um ator político obteve no período foram 23,1 delas a cada 10 edições. São quotas altíssimas, mas excepcionais. De fato, a diferença entre o ator mais visível e o segundo colocado da lista estabelece um intervalo larguíssimo. Com efeito, os números são 31, 2 segundos/10 edições no que se refere a sonoras, 20,1 no tocante a declarações e 2,2 no que se refere a menções. E é ainda mais largo com relação, por exemplo, ao 10º mais visível em qualquer uma das categorias: 12,8 em sonoras, 3,7 em declarações e 0,9 menções.

Em que ponto da faixa recortar? É claro, em primeiro lugar, que a quota de visibilidade do primeiro ator é absolutamente inalcançável pelos outros con-correntes. É uma faixa especial que deve ser considerada como de visibilidade excepcional. O que constituiria, então, uma faixa de alta visibilidade? Usamos como critério as quotas de visibilidade alcançadas pelos atores que consistentemente se mantêm ao topo de todas as categorias. No caso das sonoras, estes atores, que são os ministros da Fazenda e da Defesa e mais as lideranças e a presidência do Senado, situam-se numa faixa cuja soleira inferior é 15,8 segundos/10 edições. Assim, tem alta visibilidade quem ocupa até 15,8s., em média, a cada 10 edições com sonoras na audioesfera política. Abaixo disso se estende a faixa de visibilidade média. Deste modo, o intervalo da faixa de alta visibilidade foi concretamente estabelecido entre 15,8 e 31,2 segundos a cada 10 edições. Esta faixa tem o intervalo de 11,2 audiossegundos. Usando-se o mesmo intervalo para baixo, a faixa de média visibilidade estender-se-ia até 4,6 audiossegundos/10 edições e incluiria, na amostra, sete ministros, 21 senadores, seis deputados, o presidente do Banco Central e o governador de São Paulo. Abaixo disso, temos uma faixa de visibilidade baixa.

Note-se que não se emprega aqui um critério empírico bruto e os pontos de cortes se justificam para além de meras medições. Dada a dimensão média de uma sonora política no Jornal Nacional, um ator muito visível terá entre duas e três sonoras a cada 10 edições, enquanto um ator medianamente visível deverá ter no mínimo uma sonora a cada 20 edições. Naturalmente, o fato de a faixa ter intervalos razoavelmente largos faz com que haja considerável disparidade em seu interior e que os pontos de cortes, sobretudo comparando-se a soleira inferior da alta visibilidade e a soleira superior da visibilidade média, não são entidades absolutas, mas apenas orientadores conceituais.

 

Quadro 1 - Faixas de intensidade da visibilidade na audioesfera

política

Fonte: Pesquisa do autor

No que se refere a declarações políticas reportadas por jornalistas, a faixa de visibilidade alta estende-se no intervalo entre 20,1 e 7 audiossegundos/ 10 edições. Abaixo disso e até 3,5 audiossegundos/10 edições estende-se a faixa de visibilidade média. Considerando-se a dimensão média das declarações, isso quer dizer que foi considerado detentor de uma quota alta nesse quesito quem teve entre 2 e 0,5 declarações reportadas a cada dez edições. Um valor pouco menor que uma declaração a cada vinte edições foi considerado médio. Um valor menor que isso, foi considerado baixo. Por fim, no atinente a menções, valores excessivamente discrepantes entre os atores mais destacados não permitiram um ponto de corte perfeitamente justificado estatisticamente. De fato, o segundo ator mais mencionado, com 151 menções nominais, está consideravelmente acima dos outros mais destacados, que se situam num intervalo entre 22 e 10 menções nas 100 edições. Na verdade, o primeiro e o segundo da lista, juntos, receberam 51% das menções feitas no Jornal Nacional. Assim, há apenas um ator muito mencionado, com 15,1 menções a cada 10 edições e alguns poucos (sete, na verdade) com visibilidade média, mergulhando-se todos os demais num domínio de baixa visibilidade.

3.3.2 O presidente da audioesfera

No início do estudo tínhamos como hipótese que, no centro da visibilidade pública, o presidente da República seria o ator político com a maior quota de visibilidade dentre os atores políticos brasileiros. Também nesse caso, a hipótese se confirmou quanto ao conteúdo, mas nos surpreendeu no que se refere ao grau de resposta. O Presidente Lula não apenas se confirmou como o ocupante fundamental do centro da visibilidade pública, mas o fez na mais absoluta desproporção com respeito aos demais componentes do campo político.

A rigor, não existe a Presidência da República, existe o Presidente Lula. No período da amostra, o vice-presidente teve apenas duas sonoras, uma delas na condição de presidente em exercício, contra 76 de Lula. Não houve qualquer declaração sua narrada pelos jornalistas e, onde obteve algum destaque, nas menções nominais, com 11 referências, foi inteiramente contrastado pelas 231 de Lula. De todo modo, o mais surpreende, contudo, não foi o contraste da visibilidade do Presidente Lula com respeito ao vice-presiden-te, mas o contraste entre a dimensão e a intensidade de visibilidade de Lula com relação a todas as outras classes de atores políticos.

No que respeita aos sound bites, a média de duração das sonoras do presidente na amostra é de 19,6s, maior, portanto, que a sonora média (12,9s) do conjunto dos atores políticos. Na verdade, as sonoras médias de Lula duram quase 60% mais do que a dos outros atores políticos. É dele, também, a sonora consecutiva mais longa da amostra, de 44 segundos.

Em todas as medições, a parte leonina do centro da visibilidade pública nacional é do Presidente Lula. Sozinho, ocupou 22% dos audiossegundos atribuídos a todos os atores políticos no Jornal Nacional, batendo praticamente todas as categorias (ministros, deputados federais e governadores), com exceção apenas de um conjunto de 41 senadores da República (41,3%). O quadro lhe é ainda mais favorável quando se trata das declarações narradas, pois Lula açambarca 40% de tudo e ganha de qualquer classe de agentes políticos. E mesmo no que tange às menções, que se distribuem por uma miríade de atores, ainda assim Lula assegura o maior quinhão, com 31% das referências nominais.

Também como persona política Lula ocupa o topo da lista da distribuição percentual de sonoras, declarações e menções, com grande destaque do conjunto de atores com alta visibilidade. No caso das sonoras, o segundo colocado, o Ministro da Fazenda Guido Mantega, com 24 falas e 312 audiossegundos, não ocupou mais do que 4,4% do espaço dedicado pelo Jornal Nacional a sonoras. O mesmo contraste entre Lula e Mantega se mantém no que tange a declarações e é ainda maior no que se refere a menções nominais. Embora, neste último caso, o segundo lugar em menções, Renan Calheiros, atinja índices mais próximos de Lula (vantagem de Lula de "apenas" 50%) do que qualquer outro ator nas outras categorias.

No caso das sonoras, seria preciso juntar sete atores institucionalmente muito importantes e aqueles com a mais alta visibilidade política para igualar a sua importância na esfera de visibilidade, a saber, o presidente do Senado, os ministros da Fazenda e da Defesa, os líderes do governo, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), do Democratas (DEM) e do bloco da minoria. No caso das declarações, Lula bate por 40 a 34% o conjunto composto por todos os atores políticos com alta e média visibilidade. Por fim, no caso das menções, mesmo com a excepcionalidade de Renan Calheiros, só juntando todos os altamente e medianamente mencionados para superar, em pouco (em 3,4%), o índice de Lula.

 

Tabela 2 - Os atores políticos com maior percentual de visibilidade

na audioesfera.

Fonte: Pesquisa do autor

A visibilidade não vive só de intensidade. Vive também de duração. Perduração. Em certos casos, pode ser mais vantajoso ser medianamente visível por muito tempo do que fortemente visível por um período muito curto. Pode ser melhor, pois, manter sempre uma quota significativa de visibilidade do que ser esquecido logo depois da glória de uma sonora de 40 segundos. No caso da audioesfera, é preciso considerar, portanto, não apenas a quantidade de tempo da fala do ator ou o número de vezes em que o seu nome é mencionado no Jornal Nacional, mas também a perduração das suas oportunidades de fala e a constância da referência ao seu nome.

E também sob este aspecto não há uma proporção sutil. Lula teve, no período, 73 sonoras distribuídas por 42 edições do Jornal Nacional, o que significa ao menos uma fala a cada 2,3 dias. No período da amostra (quase 17 semanas), apenas em duas semanas (8 a 13/10 e 19 a 24/11) não se ouviu a voz do presidente no horário nobre da TV Globo. De resto, a cada sete dias o presidente se faz ouvir em ao menos três ocasiões, com quase duas (1,7) sonoras por vez. Dito de outro modo, em cada intervalo de sete edições, Lula fala durante 1 minuto e 43,5 segundos no prime time da televisão brasileira, para uma audiência média de 33% segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE). Nenhum outro ator político se compara a ele na freqüência da sua fala no horário nobre.

Guido Mantega, o vice-campeão dos audiossegundos, também tem a sua voz sempre presente na audioesfera central da política. No período da amostra, houve apenas dois intervalos grandes (24 e 10 edições) em que a voz de Mantega não se fez ouvir. Mantega falou em 21 edições, tendo a sua locução distribuída por 21% da amostra, o que dá em torno de ao menos uma intervenção a cada 5 dias. A mesma distribuição de frequência de Romero Jucá, que, por outro lado, teve menores períodos de silêncio (apenas uma semana de "afonia", incluída no período de 14-28/11). Também Renan Calheiros teve uma presença intensa e constante na videotribuna nacional, durante as 40 edições em que ocupou a Presidência do Senado e o centro de um sistema de narrativas sobre seus comportamentos impróprios - foram 18 sonoras em 40 edições, o que dá quase uma sonora a cada dois dias, mais ainda que o Presidente Lula, porém por um período mais curto. Naturalmente, não estou considerando aqui a diferença entre visibilidade negativa e positiva, que se aplicaria ao caso, mas apenas o fato da perduração das ocasiões de fala.

O importante é que se um ator político tem a sua voz ouvida, dia sim, dia não, no centro da visibilidade política nacional, acresce quotas enormes ao seu patrimônio de visibilidade. Caso esta visibilidade seja positiva, deve-se contabilizar a inclusão de outros ativos ao seu patrimônio, como credibilidade, empatia, possibilidade de ser lembrado e reconhecido, vantagens na luta pela imposição das interpretações predominantes dos fatos políticos, vantagens na produção de imagem etc. Qual seria o índice ideal de perduração de um ator na audioesfera política? Já vimos que o padrão máximo constante é do presidente da República, com três sonoras a cada sete dias, e que o padrão mais intenso foi ocupado, num período mais "especial", por Renan Calheiros, com praticamente uma sonora a cada dois dias. Os outros oito atores políticos mais audíveis no telejornal que mais concentra a atenção pública brasileira se situam entre uma fala a cada cinco edições (Guido Mantega e Romero Jucá) e uma fala a cada nove edições (Aloizio Mercadante).

No que se refere às declarações, Lula teve 91 delas distribuídas por 44 edições. O que quer simplesmente dizer que a cada 2,27 dias alguém reproduziu cerca de duas declarações dele no Jornal Nacional. Não é pouco. No período em amostra, em apenas uma semana cheia (segunda a sábado), de 8 a 13 de outubro de 2007, não se ouviu o famoso "o Presidente Lula disse que..." seguido de uma declaração. Guido Mantega teve 20 das suas declarações reproduzidas em 13 edições do Jornal Nacional. Em contraste com Lula, Mantega teve um espaço a cada 7,7 edições com suas declarações. O que deixa janelas de silêncio muito maiores. Com efeito, houve seis semanas cheias em que não se ouviu declaração de Mantega e intervalos de 23, 18 e 11 dias sem que qualquer declaração sua fosse reproduzida.

Por fim, no que se refere propriamente ao "recall", Lula foi mencionado em 69 edições, numa média de 3,3 referências por edição. A cada 1,44 edições Lula foi mencionado no Jornal Nacional. E fora a já mencionada semana de 8 a 13 de outubro, não houve qualquer hiato relevante no con-junto sistemático e consistente de menções a Lula. Já o Senador Renan Calheiros, que esteve na berlinda durante grande parte da amostra, foi mencionado em 42 edições. Em suma, a cada 2,4 edições se ouviu o nome de Renan Calheiros, para o bem ou para o mal, numa média de 3,6 vezes a cada edição. Com um intervalo de silêncio constantemente menor que uma semana, o nome de Renan Calheiros esteve fortemente presente na audioesfera política.

De qualquer modo, o Presidente Lula é hors concours na audioesfera. Em qualquer das suas dimensões e tanto no que tange à intensidade quanto no concernente à perduração da presença. Dado o limite da amostra, só podemos supor que a maior parte dessa visibilidade não pertença ao sujeito empírico Luiz Inácio da Silva, mas à Presidência da República. Por enquanto, temos apenas uma evidência favorável a esta tese: a baixíssima visibilidade atribuída ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Sem mencionar a invisibilidade de Itamar Franco e de Collor de Mello. Mesmo José Sarney, que continua operando politicamente nos quadros institucionais, na condi-ção de senador, oscila entre a invisibilidade (nenhuma sonora registrada no período) e a baixa visibilidade (uma declaração de 3 segundos lhe foi atribuída e o seu nome foi pronunciado 5 vezes em 100 edições). Seja por que razão for, o fato é que a Presidência da República acresce, ao já enorme sistema de vantagens políticas tradicionais de um ator, um excepcional patrimônio de presença na esfera de visibilidade pública, incomparável àquele ao alcance de qualquer outro ator da política nacional.

3.3.3 A elite política da audioesfera

Disse acima que um número muito reduzido de atores políticos brasileiros são realmente muito visíveis. Deixando-se fora a excepcional quota de presença na audioesfera do presidente da República, sobram nove atores com forte presença no prime time da televisão brasileira. São esses os atores políticos cujos nomes são lembrados em base quotidiana, cujas falas são reproduzidas pelos jornalistas e cujas sonoras escutamos quase sempre. São os verdadeiros protagonistas dos dramas políticos de que desfrutamos quotidianamente no horário nobre, acomodados no sofá das nossas casas.

Hierarquicamente, a distribuição das sonoras deve ser empregada como o critério preponderante para a caracterização da elite política brasileira. As declarações narradas vêm em segundo lugar, seguidas pelas menções nominais. Usando a distribuição de sonoras como critério fundamental, a elite da audioesfera é composta, na amostra, em ordem decrescente, pelo Presidente Lula, pelo Ministro da Fazenda, Guido Mantega, pelo então Presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pelo líder do governo no Senado, Senador Romero Jucá PMDB-RR), pelo Ministro da Defesa Nelson Jobim, pelo líder do PSDB, Senador Arthur Virgílio (AM), pelo líder do DEM e pelo Senador José Agripino Maia (RN). Este contingente é seguido, de perto, pelos Senadores Álvaro Dias (PSDB-PR), Almeida Lima (PSDB-SE) e Aloízio Mercadante (PT-SP) e pelos Ministros da Saúde, José Gomes Temporão, das relações institucionais, José Múcio Monteiro, e da Justiça, Tarso Genro. As declarações colocariam na elite da audioesfera também o Presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, e o Ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.

Na verdade, apenas Lula, Guido Mantega, Renan Calheiros e Nelson Jobim possuem uma "carteira" de visibilidade dotada de todos os recursos disponíveis, numa proporção equilibrada e num volume alto. Desse conjunto, claro, Lula é o ator incomparável. Os outros três se defendem muito bem em qualquer uma das dimensões, em função da variedade do seu portfólio, tendo uma proporção destacada de sonoras e de declarações reproduzidas e tendo o seu nome mencionado consistente e constantemente. Note-se, contudo, que apenas dois desses atores parecem ser estruturalmente muito visíveis, a saber, Lula e o ministro da Fazenda. Os outros dois atores podem ter tido a sua visibilidade elevada pelas circunstâncias jornalísticas e sociais. O ministro da Defesa, em virtude da crise do setor aéreo brasileiro e o presidente do Senado, em virtude de uma sucessão de escândalos políticos em que se viu envolvido.

Os ministros mais visíveis são, em geral, aqueles associados a setores sociais tradicionalmente delicados na circunstância política brasileira. Não surpreende que a Saúde esteja entre as pastas que mais gerem visibilidade e, portanto, cobiça dentre os atores do campo político brasileiro. Deve ter sido assim com José Serra, no governo Fernando Henrique Cardoso, e tem sido assim com Temporão nesta fase do governo Lula. Também a Justiça é uma pasta que solicita atenção social, em função de questões sociais importantes, a começar pelo problema da violência urbana. Quanto ao destaque da pasta do Planejamento, dá-se o mesmo que com a Defesa: dada a amostra, não se pode determinar com precisão quanto da curiosidade pública e jornalística que ela atrai é estrutural (característica da pasta) ou circunstancial (duas das big stories do segundo semestre, a questão do orçamento do Governo e a novela da CPMF, envolviam o ministério do Planejamento). É estranha, por outro lado, a ausência, no conjunto, do Ministro da Educação, Fernando Haddad. Ele obteve pouquíssimas sonoras (27 segundos, atrás de outros nove ministros dos 18 que tiveram sonoras), teve apenas uma declaração reproduzida e não foi mencionado acima da linha de relevância.

Já a pasta das Relações Institucionais funcionou como um posto avançado do governo no Congresso, mormente no Senado. Como está no centro da operação política na interface com o Legislativo (portanto, no centro do jogo político que o Jornal Nacional adora empregar como enquadramento básico da política) tem concedido aos seus ocupantes uma enorme quota de visibilidade, catapultando os dois atores que nela se revezaram, Walfrido dos Mares Guia e José Múcio Monteiro, para o centro da visibilidade pública nacional. Por outro lado, o centro da operação política interna ao governo e na sua interface com a sociedade, a Casa Civil, não conseguiu, no período da amostra, ir além da outorga de uma visibilidade mediana à sua titular, Dilma Roussef (87 audiossegundos de sonoras, 35 segundos de declarações e 5 menções).

É notável, ademais, a quase completa ausência de atores fora do triângulo presidente-ministros-senadores no centro da audioesfera política brasileira. O ator de maior destaque, neste âmbito, o Presidente da Petrobras, é retirado do padrão de visibilidade baixa apenas nas declarações (4º lugar, com 79 segundos). E é claro que há muito de circunstancial nisso: estamos, no período da amostra, num momento em que a "questão Petrobras" é parte importante da agenda da política internacional (o episódio da Bolívia) e nacional (o pacote de "boas notícias" do governo Federal relacionado à descoberta de novos poços). E curiosamente, para o padrão comum no Brasil nos últimos anos, não teve particular destaque o Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles (54 audiossegundos em sonoras, 12 segundos em declarações e uma menção nominal).

O que mais chama a atenção, contudo, é o fato de os integrantes do quarto componente do quadrado do poder político institucional no Brasil, a Câmara dos Deputados, ocuparem em geral apenas as faixas de média e baixa visibilidade em todas as dimensões. No caso das sonoras, por exemplo, apenas cinco deputados ocupam a faixa média na distribuição de audiossegundos: o presidente do Congresso e as lideranças básicas do governo, da oposição, do PT. O mais destacado deles, Arlindo Chinaglia (que foi presidente em exercício), com apenas 5 sonoras em 100 edições.

Por fim, a elite da visibilidade deve ser contrastada com aqueles atores políticos que foram absolutamente desprovidos de visibilidade na audioesfera política no período. Para cinco ministros que pertencem à elite da audioesfera e um conjunto total de 19 ministros que alcançaram quotas em alguma das categorias de que esta se compõe, 14 ministros ficaram totalmente invisíveis no período. Os sem-sonoras foram 15, dentre eles algumas figurinhas carimbadas da política brasileira, como Hélio Costa, Luiz Dulci, Marta Supliciy e Reinhold Sthepanes. Os sem-declaração foram 21, incluindo-se, além do conjunto citado dos ministros calados, também Marina Silva, Celso Amorim e Gilberto Gil. O conjunto dos sem-menção foram 18. Quinze dos ministros do governo, portanto, estiveram todo o tempo quietos, sem narrativa e sem menção. Invisíveis, em suma.

O conjunto dos senadores da República é composto por 81 titulares, 80 deles em exercício no segundo semestre de 2007. Apenas seis senadores compõem o núcleo da visibilidade política brasileira, 41 deles tiveram o privilégio de ao menos uma sonora no período e 39 não tiveram direito a voz. 21 deles tiveram o privilégio, ainda que diminuto, de ter ao menos uma declaração reproduzida, contra 59 sem-declaração. Por fim, 38 tiveram os seus nomes mencionados, contra 42 sem-menções. O contraste é, naturalmente, menor no caso dos deputados federais, que são em número de 513. Apenas 8,7% obtiveram uma sonora, 3,7% tiveram ao menos uma declaração narrada e 4,4% tiveram os seus nomes mencionados.

3. 4 A clivagem da audioesfera

A este ponto, a pergunta inevitável diz respeito às razões em virtude das quais alguns têm uma quota tão grande de voz e podem perdurar tanto na audioesfera enquanto outros ou são silenciosos ou simplesmente aparecem e desaparecem da audioesfera como relâmpagos no verão. A tentação mais comum, sobretudo tratando-se do Jornal Nacional, que arrasta consigo um passado que ainda justifica suspeitas, é imaginar alguma seleção ideológica a orientar a escolha dos atores políticos com direito a vídeo e/ou a áudio. Não encontramos qualquer evidência, por menor que fosse, que apontasse nessa direção. E muitos fatos se tornariam inexplicáveis (como o baixo percentual de presença na audioesfera dos democratas e o altíssimo destaque dado a Lula e aos seus ministros) se tal hipótese fosse adotada.

Em minha opinião, a hipótese mais promissora diz respeito ao modelo institucionalista de clivagem adotada pelo Jornal Nacional. Reitero dois aspectos já anotados: a) atores e problemas políticos estaduais ou locais raramente são representados no noticiário político do Jornal Nacional. Brasília, isto é, Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Esplanada dos Ministérios, é a locação quase absoluta da política brasileira narrada no Jornal Nacional. Quando há outras locações, é porque o presidente, um dos seus ministros ou um membro do Congresso se deslocou para outra praça; b) o Jornal Nacional adota a hierarquia interna e institucional do campo político brasilei-ro na sua seleção dos locutores e dos lugares de fala políticos. Assim, o ator político que tem mandato ou cargo existe, os que não os têm, não aparecem. E os que os têm, despencam em audiovisibilidade quando deixam os mandatos ou cargos.

A distribuição de vídeo e audiossegundos obedece estritamente à hierarquia institucional, tendo à cabeça o presidente da República (o vice-presidente é praticamente um sem-voz e sem-imagem) e, pela ordem, o Senado Federal, a Administração Pública (ministros principalmente) e, por fim, os deputados federais. Fora os atores de Brasília, temos basicamente apenas a categoria dos governadores, mas numa proporção muito pouco significativa. Todos os outros (vice-presidente, ex-presidentes, ex-governadores, presidentes de estatais, cargos de segundo escalão do Executivo) ocupam quase nada da audioesfera. O resto está mergulhado na obscuridade ou semi-obscuridade, da qual são guindados apenas em escândalos ou em condições excepcionais. A distribuição interna de quotas de fala e imagem e de perduração na esfera de visibilidade pública no interior dessas poucas classes, por sua vez, obedece a critérios de importância internos à institucionalidade da política.

No caso dos ministros, a regra é outra, e tem-se a impressão de que, em geral, a demanda por sonoras depende da avaliação sobre a importância social circunstancial da pasta que representam: assim, neste período, foram destacados Guido Mantega (a questão crônica da economia e a circunstância da CPMF), Nelson Jobim (o chamado "caos aéreo"), José Temporão (questão crônica da Saúde, endemias e epidemias), Paulo Bernardo (também CPMF) e Tarso Genro (episódio da garota presa com homens no Pará, violência urbana). Registre-se que os três primeiros ocuparam 54,3% do tempo total de sonoras dos ministros, comprovando que as histórias mais quentes do semestre (a novela da CPMF, por exemplo) orientou a seleção dos locutores.

No caso do Senado e da Câmara, também a seleção depende menos do ator do que do papel que ele exerce. Assim como as sonoras de Lula e de Nelson Jobim não estão ali em função de Lula ou Jobim – mas, nas narrativas jornalísticas, são ilustrações das posições do presidente e do ministro da Defesa –, dá-se o mesmo caso com, digamos, José Agripino. Não é a pessoa física quem fala, mas a oposição. Não se pode negar que os fatores pessoais do ator (desenvoltura, clareza, capacidade de gerar frases lapidares e, por que não?, até charme, devem contar alguma coisa), mas isso explica apenas porque, por exemplo, o Jornal Nacional dá 180 segundos de sonoras a Arthur Virgílio e 30 segundos a menos a José Agripino e não porque, outro exemplo, José Agripino tem 16 sonoras em 100 edições enquanto outros cinco senadores da sua bancada de 14, não têm direito a voz. Os Senadores Arthur Virgílio e José Agripino são "a oposição" porque são líderes de suas bancadas, assim como o Senador Romero Jucá é "o governo", porque ocupa a liderança do governo do Senado. Não estão falando por virtudes próprias, mas em decorrência da função que ocupam na hierarquia do Senado Federal.

Outro par de exemplos pode bem ilustrar o argumento. O Senador Tasso Jereissati, era senhor de uma quota promissora de sonoras no início do semestre passado. Concederam-lhe 70 segundos que foram despendidos em seis ocasiões. A sua última sonora, contudo, aconteceu na edição de 6 de novembro. Desde então, não falou mais nada. Já o Senador Sérgio Guerra era um homem sem voz até o dia 22 de novembro, mas desde então desandou a falar (foram 8 sonoras e 76 segundos gastos em 3 semanas). Que mistério provocou afonia em um enquanto desasnou o outro? A presidência do PSDB é a resposta. Sérgio Guerra substituiu Tasso Jereissati na presidência do PSDB em 23 de novembro. As sonoras, insisto, não são dos atores, mas dos papéis que desempenham; o presidente do PSDB tem direito a falas, Tasso Jereissati e Sérgio Guerra, pessoas físicas, não têm.

Renan Calheiros é outro caso. A última sonora de Renan aconteceu, justamente, em 4 de dezembro de 2007, dia da sua renúncia à Presidência do Senado. Deixado o papel, Renan Calheiros teve a sua fala retirada do horário nobre onde permanece apenas, se muito, como imagem ou menção. Já Garibaldi Alves emerge do silêncio mais absoluto no dia da sua posse e, em três edições apenas, até o fechamento do período da amostra, já havia consumido 73 audiossegundos em 5 sonoras.

O que concluir disso? Simples: Quer ter uma quota na audioesfera? Quer nela permanecer por muito tempo? Ocupe e mantenha uma função importante no Senado ou na Câmara. Na nossa amostra, apenas 30% dos senadores que tiveram quotas de fala própria não tiveram acesso à audioesfera em virtude de uma função de representação. Os demais o fizeram enquanto líderes de partido ou de blocos parlamentares, do exercício da presidência do Senado ou de comissões que estiveram em tela (Comissão de Constituição e Justiça, Comissão de Ética da Casa, CPIs), do exercício de relatorias de processos (o de Renan Calheiros) ou procedimentos legislativos (da CPMF, do Orçamento) em destaque. Dentre os dez senadores com maior quota de sonoras, apenas Aloizio Mercadante podia ser simplesmente identificado como "senador". E os verdadeiros protagonistas da audioesfera brasileira no Senado (Jucá, Calheiros, Arthur Virgílio e Agripino), que representam, juntos, 1/3 da voz do senado na esfera de visibilidade central, ou foram o objeto de uma hot story - que se soma à visibilidade típica da presidência do Senado (Renan Calheiros) - ou ocupam os papéis de líderes do enredo principal na novela oposição vs. governo. Não são pessoas, são lugares narrativos.

 

4 Discussão: limites e perspectivas A pesquisa resultou num conjunto de descobertas e de confirmações que podem ser promissores para uma teoria da visibilidade pública empiricamente sustentada. Se a esfera de visibilidade pública, mo venho afirmando (GOMES, 2004), funciona como a mediação básica entre os cidadãos e o sistema político e, até mesmo, na relação dos cidadãos entre si, é relevante compreender o modo como nela se distribuem as quotas e posições de fala e como nela se reparte a reconhecibilidade (isto é, a possibilidade de alguém ser publicamente reconhecido) dos atores sociais. O caso da arena estudada demonstrou sobejamente que pelo menos essa dimensão da esfera de visibilidade pública que é a audioesfera da política é restrita aos atores do sistema político formal. De que forma poderiam, então, agendas e questões de interesse da cidadania, não mediados ou representados pela política institucional, alcançarem a esfera de visibilidade pública se os próprios atores sociais não possuem quotas relevantes de presença na audioesfera, portanto, não possuem fala nem reconhecibilidade? Como, por outro lado, sabemos que agendas e questões sociais chegam à esfera de visibilidade pública, precisamos de novas investigações que nos permitam compreender, concretamente, como se estabelece este circuito que vai da sociedade a uma esfera de visibilidade habitada pela política institucional.

Além disso, mesmo numa perspectiva mais institucional, há questões interessantes que merecem novas pesquisas. Uma delas diz respeito à efetividade (eleitoral, social, demográfica) da visibilidade pública. Quotas muito altas de visibilidade asseguram realmente benefícios políticos, materializados em votos, em capacidade de obter consenso social para agendas e medidas políticas, em índices de popularidade? Suspeito que sim, mas isso impõe ônus da busca por evidências. Um campo de provas interessante vai se estabelecer no período que nos separa das eleições presidenciais de 2010. Os candidatos com chance de sucesso vão partir com um patrimônio elevado de visibilidade ou a visibilidade lhes será dada em virtude da sua condição de candidato? De fato, descartada a reeleição do presidente da República, no atual cenário, nenhum dos presidenciáveis tem alta quota de presença na audioesfera. Alguns são até mesmo inteiramente desprovidos de quota. Vão ter que emergir para a visibilidade. Em que momento exatamente isso vai acontecer? E quando isso acontecer, será nesta arena ou haverá outras arenas sociais (por exemplo, o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral) de onde partirão para chegar ao horário nobre da televisão?

De todo modo, não resta dúvida de que sustentar empiricamente uma teoria da visibilidade pública é importante para os estudos de política e de comunicação e política. No campo político, a visibilidade pública é quase sempre uma questão, para o bem ou para o mal. Luta-se pela visibilidade conveniente com voracidade, como se viu em episódios das lutas recentes pela presidência do Senado (a começar pelo "épico" combate entre Jáder Barbalho e Antonio Carlos Magalhães) e como se vê quotidianamente na luta política por ministérios. No caso dos ministérios, verbas e caneta são privilégios já estabelecidos e institucionalizados, por assim dizer. A esses dois, some-se a quota de visibilidade pública que cada pasta pode oferecer. Por isso, por exemplo, Educação e Saúde são ministérios apetitosos politicamente enquanto Ciência e Tecnologia será sempre secundário. A presidência do Senado não tem dentre os seus atrativos nem verbas nem caneta; tem influência política. Que é um poder bastante relativo, quando um sujeito precisa de votos para se reeleger e de intenções de votos para pleitear cargos superiores. Por isso, à influência política se deve acrescer o alto patrimônio de visibilidade da função política, que será desfrutada por aquele que a ocupa, pelo menos enquanto a ocupar.

Há também o caso da visibilidade inconveniente, claro. Mas também ela é parte fundamental do jogo político. O ator ao qual não interessa a visibili-dade em um dado momento ou ao qual não interessa o modo como se vê representado na esfera de visibilidade pública, não resta alternativa do que dela fugir ou esperar que cesse. Mas os seus adversários se aproveitam e empurram-no para o centro da esfera de visibilidade ou trabalham para que a visibilidade a ele inconveniente perdure o máximo possível. Em política, não há visibilidade absolutamente conveniente ou inconveniente. O que não convém a alguns, por isso mesmo, é sempre muito conveniente a outros. A visibilidade, assim, é sempre um valor político. Com valência negativa ou positiva para um ator ou para um coletivo, pouco importa. Luta-se por ela (para si, quando convém, para os outros, quando se julga que não lhe convenha) com grande dispêndio de energia e com grande voracidade.

A pesquisa tem os limites da amostra, o que só se supera com mais estudos sobre o tema. Por mais que se tenha esforçado para capturar a distribuição "normal" das quotas de presença na audioesfera, não há como determinar se e até que ponto a eventualidade política, de um lado, e as hot stories jornalísticas do segundo semestre, de outro, contaminaram a amostra. Atribuo à eventualidade política ainda uma boa parte do escândalo envolvendo Renan Calheiros, por exemplo, que jogou o foco político no Senado (questão da votação secreta ou não, as várias etapas do processo legislativo sobre a quebra de decoro). Na mesma linha, a novela da CPMF teve, no período em questão, o seu palco central no Senado. Por outro lado, narrativas de grande apelo como o "caos aéreo" ou o caso da menina colocada num cela com homens no Pará projetaram certos ministérios. No fundo, não há outro modo de descobrir um padrão confiável de distribuição da visibilidade na audioesfera se não fazendo mais pesquisa, examinando outros períodos, com segmentos temporais de longo termo.

Por outro lado, é claro que precisamos descobrir como funcionam os desvios, os tempos fortes da política e o modo como nesses momentos se distribui a visibilidade. Uma agenda de pesquisa, neste caso, precisa ao mesmo tempo identificar o padrão e os momentos especiais, calibrando um pelo outro. Precisamos de mais pesquisas para saber como o padrão se altera no caso de escândalos políticos (ou, se existe outro padrão para os escândalos), de CPIs e de momentos eleitorais. Só desse conjunto de informações, proveniente de novos estudos, pode emergir um mapeamento confiável da audioesfera política brasileira.

Por fim, esta pesquisa deve prosseguir com o estudo do corpus de imagem do telejornalismo e com o estudo do encaixe entre a fala dos atores políticos e a fala dos jornalistas. No primeiro caso, há já alguma literatura internacional, que integra à pesquisa sobre os sound bites a questão dos image bites. Por fim, a pesquisa sobre a complicada interação entre a fala política e a fala jornalística, sobre a qual já há um corpo consistente de literatura. Em ambos os casos, há lacunas seja do ponto de vista teórico, seja no mapeamento da visibilidade política brasileira. Não sabemos ainda se esses dois estudos confirmarão o desenho da visibilidade política que este estudo sobre a audioesfera foi capaz de produzir. De qualquer forma, o fato de se estar praticamente inaugurando uma agenda de pesquisa sobre a caracterização empírica das arenas da visibilidade pública política impõe um conjunto de limitações. E só o tempo e mais pesquisas dirão se, afinal, trata-se realmente de defeitos de método ou pressupostos ou apenas de percalços de um caminho que, isso não obstante, é fecundo.

 

Referências

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1 A pesquisa que sustenta este artigo contou com o apoio do CNPq e da Capes, agências governamentais de fomento à pesquisa e à pós-graduação. A produção, codificação e decupagem dos dados em que a pesquisa é baseada contaram com a participação de Danilo Azevedo e Jônathas Araujo, bolsistas do grupo de pesquisa em Comunicação, Internet e Democracia, sob a minha coordenação. Seja aqui feito o devido agradecimento aos dois bolsistas.

2 Para um tratamento mais cuidadoso da ideia de visibilidade pública e do seu significado e alcance para a democracia, tomo a liberdade de recomendar os capítulos de 1 a 4 de Comunicação e Democracia. (GOMES; MAIA, 2008)

3 O universo da amostra é de 5.554.600 domicílios. São, portanto, 1.833.018 os domicílios sintonizados no Jornal Nacional. Empregando-se a estimativa comum (talvez exagerada) de 4 espectadores por domicílio, o universo é gigantesco. Todavia, o mais importante é que se essa proporção puder ser generalizada para o território nacional, um terço dos domicílios brasileiros teria o seu televisor ligado no Jornal Nacional. Fonte: Media Worstation/Almanaque Ibope/Top 5, com a lista semanal dos programas de maior audiência na Grande São Paulo e no Grande Rio durante todo o período da amostra.

4 Uso a expressão matéria, como a forma mais genérica para designar a peça discursiva jornalística, incluindo-se aí aquilo que o jargão do telejornalismo designa como notas (simples e cobertas), lapadas, boletins ou flashes e reportagens. Outros "componentes" do telejornalismo, como as escaladas e notas pé, não são propriamente peças discursivas, mas recursos que em geral integram reportagens, abrindo-as ou fechando-as, de modo a formar com elas uma unidade.

5 Mauro Porto (2007, p. 155), trabalhando com uma amostra de 1999, encontrou um valor superior. Na amostra estudada e com a metodologia por ele empregada, considerou que 21% das notícias no Jornal Nacional tinham como assunto a política. E que a política consumiu cerca de 20% do noticiário. A diferença se explica possivelmente em função de uma diferente codificação nos dois estudos sobre o que são matérias de política.

6 Na nossa medição nos restringimos à escala de segundos. Consideramos que uma escala de décimos e centésimos de segundos, além de tecnicamente complicada na sua operação, provavelmente iria produzir resultados que não compensavam o esforço despendido. Assim, os intervalos tiveram que ser aproximados, para cima ou para baixo, toda vez em que os segundos foram fracionados. Houve considerável atenção para que essa aproximação fosse a mais precisa possível.

7 Mauro Porto (2007), trabalhando com outra periodização, chegou a números diferentes. No seu livro mais recente analisou 44 edições do Jornal Nacional transmitidas entre 20 de setembro de 13 de novembro de 1999. Concluiu que as sonoras políticas demoraram em média 7,6 segundos. (PORTO, 2007, p. 162) Em estudo anterior, referido a amostras de 1995 e 1996, havia identificado a duração média de 9,5 segundos (PORTO, 2002) para a sonora de notícias políticas.

8 A expressão inglesa sound bite, neologismo que se aplica inicialmente à porção sonora de uma matéria de telejornal onde um ator político fala diretamente, foi tendo o seu sentido paulatinamente deslocado para uma das características adjetivas da sonora. Assim, em certos ambientes, passou a significar principalmente a frase lapidar, o mote verbal, a frase de efeito no interior de uma narrativa.

9 Adotamos restrições diferentes na contagem e no registro de sonoras e declarações de atores políticos e referências a eles. Como queríamos mapear a visibilidade política nacional, usamos um critério de relevância. Atores políticos locais e regionais foram contados, mas não os seus atos de fala não foram registrados, exceto quando ocuparam um espaço igual ou maior que 1,0% do total de sonoras, declarações ou menções. A mesma regra se aplicou para atores políticos institucionais, como vereadores, prefeitos, deputados estaduais e autoridades locais ou regionais, quanto para atores políticos sociais, como membros de movimentos sociais e sindicalistas. A regra de relevância não se aplicou a atores políticos considerados nacionais (quer dizer, não-locais, não-regionais) pelo lugar que ocupam na política institucional. Assim, deputados federais, senadores, governadores, ex-ocupantes de cargos públicos de alcance nacional e membros do segundo escalão do governo federal, por exemplo, foram contados e registrados mesmo quando não superaram a soleira de relevância aplicada aos outros atores políticos.

10 Também neste caso, a amostra do nosso estudo apresentou números diferentes da amostra estudada por Mauro Porto. Porto (2007, p. 163-165) anota e examina o fato de os "cidadãos comuns" serem atores de 32% de todas as sonoras de notícias políticas – mais do que o conjunto formado pelo presidente da República, ministros e outras autoridades governamentais (16%), mais que todos os congressistas (20%) e de que os políticos que não eram membros do governo ou do Congresso (10%). Porto, além, anota que sindicalistas, representantes de ONGs ou de movimentos sociais foram responsáveis por 4% das sonoras. Porto atribui o destaque à fala popular no Jornal Nacional a uma nova política editorial, confirmada em entrevistas do autor com William Bonner e com chefe do jornalismo da Globo em Brasília, voltada para "enfatizar menos a conversa dos políticos (o chamado 'fru-fru') e dar mais espaço aos cidadãos comuns". (PORTO, 2007, p. 164) Aparentemente, esta tendência não se manteve ou foi revertida.

11 Em geral, ex-presidente, ex-governadores, presidentes de empresas estatais, cargos do segundo escalão do executivo, ministros do Supremo.