Teoria epidemiológica hoje

Naomar de Almeida Filho · Capítulo 1 de 13

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Teoria epidemiológica hoje

Apresentação

 

Fala-se, por toda parte, de uma crise da saúde pública. Na base deste rumor, constata-se uma crise das disciplinas científicas que dão sustentação às práticas coletivas em saúde, expressa pela incapacidade de tais disciplinas de explicarem satisfatoriamente os enigmas e os paradoxos do campo. Por exemplo: apesar das transformações, mais ou menos radicais, dos modelos de atenção à saúde em todo o mundo, as reais condições de saúde das populações não têm melhorado na mesma proporção. Em outras situações ocorre justamente o contrário: a despeito da falência dos sistemas assistenciais, a situação de saúde efetivamente melhorou. Será que as explicações para esses enigmas não seriam encontradas na inadequada base conceituai da planificação em saúde, que se vale quase que exclusivamente de uma perspectiva superficial e ingênua do ponto de vista epistemológico, incapaz de considerar a historicidade e a concretude dos problemas de saúde?

Nas matrizes da investigação populacional em saúde, a epidemiologia 'normal' tem-se mostrado pouco instigante e criativa no que se refere à capacidade de levantar problemas. A investigação epidemiológica parece voltada à produção de modelos explicativos óbvios, triviais e imediatistas. Observa-se então outro paradoxo: enquanto ocorre um explosivo crescimento de estudos epidemiológicos que fornecem subsídios para a prática clinica e para intervenções sobre indivíduos, cada vez mais diminui o impacto da disciplina como eixo estruturante da saúde pública, debilitando sua capacidade de apoiar tanto as intervenções sobre as populações quanto as decisões sobre políticas públicas no campo da saúde.

A hipótese diagnostica mais óbvia é que a epidemiologia hoje sofre de uma séria síndrome carencial: pobreza teórica. Nancy Krieger (1994) parece ter finalmente descoberto o que Ricardo Bruno Gonçalves já há muito tempo insistia: a epidemiologia precisa com urgência de mais teoria. Quase com indignação, Breilh (1995) observa que, neste momento, uma série de críticas sobre a epidemiologia, que já eram senso comum na cultura científica da saúde coletiva latino-americana, começa a ser apropriada e difundida na literatura internacional como se fossem originais. Talvez a principal dessas críticas seja a idéia da carência teórico-epistemológica da disciplina. Porém, para sermos justos, a síndrome da pobreza teórica não afeta somente a epidemiologia, mas grassa por todo o campo da pesquisa em saúde, conforme avaliação recente (e igualmente tardia) de Holmberg & Baum (1996).

De fato, até agora, o desenvolvimento teórico da epidemiologia tem se baseado em conceitos problemáticos e parciais, integradores de modelos explicativos tímidos e incompletos, deixando de debater criticamente a natureza e as propriedades de seu objeto de conhecimento. Pensar a saúde como mera configuração de riscos, como se faz com insistência cada vez maior na epidemiologia anglo-saxônica da qual somos tributários, restringe inevitavelmente a construção conceituai desse campo a modelos teóricos essencialmente reducionistas, regidos por uma lógica mecânica linearizada. Este modo de praticar a ciência epidemiológica tem como conseqüência a produção de conhecimentos distanciados dos objetos reais da saúde-enfermidade, aqueles que na verdade não habitam os sistemas fechados e controlados dos laboratórios, mas sim compõem os sistemas abertos e caóticos, característicos da realidade histórica e social das populações concretas. Nesse processo particular de produção de dados, observa-se um desprezo pelo que há de qualitativo, interativo, participativo, etnológico na definição dos problemas de saúde, o que, conforme defende Sperber (1985), inclui necessariamente os processos subjetivos na raiz das representações sociais desses fenômenos.

Nesse aspecto particular, um breve exame da história da epidemiologia revela questões interessantes. Os fundadores da ciência epidemiológica flagrantemente valorizavam a discussão conceituai e filosófica como uma etapa crucial para a consolidação da identidade própria da disciplina perante campos científicos aproximados. Greenwood, Frost, Winslow e Gordon (entre outros nomes ilustres) produziram reflexões bastante consistentes de afirmação teórica da jovem ciência, buscando explicitar o que na época se designava como a matéria da epidemiologia.

Ao tempo em que ampliava seu objeto de intervenção para além das doenças infecciosas, a epidemiologia buscava, então, retomar a tradição da medicina social de privilegiar o âmbito coletivo, visto como mais do que um mero conjunto de indivíduos. Este esforço consciente de construção teórica e fundamentação filosófica da nascente epidemiologia provocou um profundo impasse, posto que, como sabemos, a nova ciência havia sido gestada de dentro do modelo flexneriano de uma medicina experimental. Felizmente para seus fundadores, já se produzia o desenvolvimento independente da estatística moderna, que apresentava a Velha novidade' da teoria das probabilidades, propiciando a formalização do objeto privilegiado 'risco'. Este aspecto específico, da maior importância para a consolidação da cientificidade da disciplina, não será aqui aprofundado, devendo o leitor consultar a decisiva contribuição de Ayres (1996) no sentido de uma 'arqueologia' do conceito de risco neste campo cientifico.

Entretanto, como se fosse concebível haver ciência sem teoria, as gerações que se seguiram não demonstravam maiores preocupações epistemológicas, o que se reflete na pobreza teórico-metodológica de grande parte dos textos fundamentais da disciplina a partir da década de 60. Durante quase 25 anos, até a publicação dos textos Theoretical Epidemiology de Miettinen (1985) e Modem Epidemiology de Rothman (1986), pouco se avançou no problema específico dos marcos teóricos da disciplina, reduzido a uma mera questão de definições (Lilienfeld, 1978). Ainda assim, a partir de então, o único problema conceituai que parecia monopolizar a atenção no cenário epidemiológico dos países do Norte era o da causalidade e seus correlates. Observa-se na literatura especializada uma 'sangrenta' disputa entre popperianos e indutivistas (Weed, 1986, 1997, 1998; Susser, 1987, 1991; Pearce & Crawford-Brown, 1989), aparentemente sem maiores repercussões sobre a prática teórica e metodológica da disciplina. Ayres (1996:294) interpreta este movimento quase que proposital de empobrecimento epistemológico como o preço da legitimação fácil: em uma fase de intensa expansão institucional experimentada pela epidemiologia nas décadas de 60 e 70, "o progresso conceituai da disciplina restringe-se quase que exclusivamente aos aspectos tecno-metodológicos que, no entanto, alcançam marcante versatilidade e penetração".

A situação atual da teoria epidemiológica define-se justamente pela constatação da mencionada crise. Finalmente, a malaise epistemológica da nossa disciplina conseguiu atingir um certo grau de explicitação, certamente determinada pela incômoda posição de principal suspeito responsável pelas vicissitudes da saúde pública neste fim de milênio. Nesse contexto, o debate teórico-filosófi co ressurge altamente valorizado, convocando os estudiosos e praticantes da ciência epidemiológica a questionar seus fundamentos, explorar suas interfaces e formular discursos competentes indicadores das suas tendências.

A presente coletânea reúne textos apresentados como conferências ou palestras no evento conjunto do III Congresso Brasileiro de Epidemiologia, II Congresso Ibero-Americano de Epidemiologia e I Congresso Latino-Americano de Epidemiologia. Pelo seu caráter de congregação transnacional, esse evento, realizado em abril de 1995, foi sem dúvida uma oportunidade ímpar de efetiva interação entre tradições científicas tão distintas. Por um lado, os mais insignes representantes das vertentes críticas da epidemiologia européia e norte-americana puderam apresentar as diferentes respostas que estão produzindo frente à crise teórica do campo. Por outro, os epidemiólogos da América Latina puderam, pela primeira vez, mostrar de forma sistemática (e expor à avaliação crítica dos seus pares do Norte) o importante conjunto de reflexões acumuladas nas últimas décadas no continente, que de certa forma configura uma vertente epistemológica da epidemiologia social latino-americana.

Fundamentos

Por sua óbvia extração filosófica, os textos de Samaja, Weed e Czeresnia & Albuquerque foram agrupados na seção Fundamentos. Juan Samaja nos apresenta uma revisão epistemológica da epidemiologia a partir de uma abordagem historicista, mapeando com clareza e precisão a problemática teórico-metodológica da disciplina no momento atual. Identifica a necessidade de a disciplina reexaminar os conceitos básicos, as categorias de análise, os procedimentos metodológicos, as relações interdisciplinares, enfim, os critérios de cientificidade que a estruturam. Mas a sua principal contribuição ao oportuno debate é ter proposto incluir nesta agenda o Vasto campo da significação' dos processos patológicos coletivos, destacando o caráter semiótico-narrativo do objeto epidemiológico.

Douglas Weed prefere levantar questões, em uma estratégia dialética de valorizar o debate epistemológico no campo da investigação epidemiológica. Weed pergunta, por exemplo, como devemos delinear o desenvolvimento da filosofia na epidemiologia. Com este propósito, faz sentido examinar a utilidade e criticar as escolhas dos pesquisadores quanto a pontos de vista filosóficos? Em síntese, Weed considera que uma abordagem que tudo abarca não se encontra em uma única escola de pensamento ou temática, no mínimo devido ao fato de que tudo é passível de crítica e pode ser aprimorado. Apesar desta limitação, argumenta o autor, não devemos abandonar a busca apenas porque ela se mostra difícil ou forçada, nem devemos ser gananciosos ou apressados na necessária procura de fundamentação filosófica coerente para a epidemiologia.

Não obstante a sua assunção como questão básica da teoria epidemiológica, Czeresnia & Albuquerque mostram-nos que o tratamento do problema da causalidade tem se caracterizado, neste campo, por uma aproximação instrumental do processo de determinação que não faz justiça à riqueza e à complexidade da análise da situação de saúde. Como resultado, observa-se uma tendência à definição da determinação epidemiológica com base em atributos individuais, omitindo o caráter essencialmente grupai dos fenômenos da saúde nas coletividades. Com o objetivo de avaliar a consistência epistemológica das respostas do neocausalismo frente às severas críticas do pragmatismo e do historicismo, as autoras dissecam os modelos de inferência causal de Holland e Rubin. No seu texto, Czeresnia & Albuquerque demonstram com maestria que, por um lado, os pressupostos daqueles modelos requerem situações de aplicação extremamente restrita; por outro, o conceito básico de 'efeito médio causal' não cumpre a pretensão de tornar o risco um estimador universal eficaz tanto para inferências individuais quanto populacionais.

 

Interfaces

Na atualidade assistimos a profundos desenvolvimentos na maioria das ciências que tradicionalmente servem de base para a epidemiologia. Novos modelos teóricos da realidade, paradigmas científicos, avanços metodológicos e tecnológicos, vêm transformando significativamente nossa capacidade de entender e de operar sobre a natureza e os processos sociais. Tais desenvolvimentos têm modificado consideravelmente o campo geral das ciências, enriquecendo e ampliando, como nunca, a capacidade potencial de compreender e transformar as condições de vida e saúde das populações. Em face deste cenário, a busca de alternativas analíticas para uma renovação da epidemiologia será facilitada com uma abertura transdisciplinar para campos do conhecimento em que se tenham identificado avanços na construção prática de novos paradigmas.

Portanto, a epidemiologia deverá estar criticamente atenta às transformações disciplinares, em todos os campos de ciência que lhe fazem interface, a fim de equipar-se conceituai e metodologicamente para tratar seus objetos/sujeitos. Dessa maneira, será possível revelar a arquitetura da complexidade e a dinâmica dos processos reais, possibilitando intervenções efetivamente integradoras. As possibilidades de avanço da epidemiologia se relacionam a transformações nos campos científicos que subsidiam teoricamente a construção do seu objeto, como a clínica, a biologia, a estatística e as ciências sociais. Quais serão os efeitos da aplicação desses saberes à ciência dos processos coletivos da saúde-enfermidade-cuidado? Os textos de Menéndez, Jénicek, Porta, Marques, Castellanos e Schramm, agrupados na seção intitulada Interfaces, compartilham justamente o objetivo de responder a esta questão.

A contribuição de Eduardo Menéndez constitui um esforço de sistematização das complementaridades e divergências entre a epidemiologia e a antropologia médica, nesse caso definidas de uma maneira bastante convencional. O principal e mais valioso argumento deste autor é a crítica, a partir de uma cuidadosa revisão de vários casos de 'apropriação indébita' de conceitos, ao modo como os epidemiologistas têm se instrumentalizado teoricamente, às expensas de conceitos antropológicos mal digeridos. Em contrapartida, Menéndez identifica, e igualmente critica, a tendência à medicalização da antropologia no campo da saúde, produzindo o que denomina de 'erosão metodológica' da abordagem etnográfica profunda, substituída por instrumentos padronizados e por 'etnografias rápidas'.

Milos Jénicek e Miquel Porta detêm-se em aspectos específicos da principal interface disciplinar da epidemiologia, aquela com a clínica. Apesar de uma história recente de conflitos e disputas territoriais, ambos os autores assinalam um novo espírito de integração entre os dois campos disciplinares, e, nesse aspecto, Porta vai mais adiante, propondo uma articulação 'multinível' incluindo o mundo molecular. Entretanto, apesar da humildade intelectual com que Jénicek e Porta se posicionam perante o debate da vocação interdisciplinar da epidemiologia atual, é Marília Marques quem avalia mais detalhadamente os efeitos sobre a racionalidade epidemiológica do intercâmbio com a moderna biotecnologia. Considerando que a epidemiologia vive uma crise de crescimento, ampliando suas interfaces disciplinares e seus objetos de intervenção, a autora expõe os novos desenvolvimentos das teorias dos sistemas complexos no campo biotecnológico. Marques termina por sugerir que, ao contrário do retrocesso que muitos temem, as trocas disciplinares com a 'nova biologia' fomentarão o avanço de novos paradigmas na própria ciência epidemiológica.

De um ponto de partida bastante diferente, porém com resultados intrigantemente convergentes, Pedro Luis Castellanos também desenvolve um marco de análise da epidemiologia baseado em noções de sistemas complexos dinâmicos, no seu caso por referência à obra do economista Herbert Simon. Abordando o problema da análise ecológica em epidemiologia, Castellanos detém-se mais nas relações complexas entre subsistemas e nos níveis hierárquicos componentes das situações reais de saúde. Termina sistematizando algumas das contribuições latino-americanas para a construção de uma 'epidemiologia de populações', quase como uma alternativa à tendência dominante na epidemiologia convencional de fundar-se prioritariamente sobre o individual como unidade de análise e nível de modelagem teórica.

Finalmente, contribuindo para o debate sobre os inter-efeitos entre a epidemiologia e os biopoderes, Fermin Schramm propõe um eixo dialético estruturador das relações entre os campos disciplinares em pauta: o conflito entre autonomia e eqüidade. Tal como a maioria dos autores desta coletânea, Schramm não pode evitar tomar como linha de base o tema da complexidade na tecnociência contemporânea, balizando-o sucessivamente em relação ao seu impacto sobre as questões teóricas da pesquisa epidemiológica e as pragmáticas da bioética contemporânea. Para uma permanente e adequada integração dos três objetos teóricos, é fundamental uma postura crítica e reflexiva capaz de explicitar as conexões e redes de saber e poder, ou seja, as implicações e determinações éticas, políticas e econômicas da produção de conhecimento científico em saúde.

 

Tendências

As discussões da seção anterior trouxeram à tona o problema das fronteiras disciplinares e, em conseqüência, levam-nos diretamente a problematizar o papel da transdisciplinaridade na epidemiologia do futuro, como ciência responsável pela formulação de um discurso científico sobre a saúdeenfermidade-cuidado no âmbito coletivo. Qualquer análise ancorada nas políticas de transformação da situação de vida e saúde das populações requer conceitos e métodos caracterizados pela diversidade de sua extração, para que possibilitem a compreensão da complexidade dos sistemas dinâmicos biológicos e históricos, bem como a formulação de práticas discursivas capazes de interferir no espaço social da saúde coletiva.

Dados alguns balizamentos da esperada mudança de paradigmas, a reconstrução da ciência epidemiológica nos níveis epistemológico e teórico é a temática obrigatória nesta etapa de discussão das tendências do campo. Em face da urgência deste debate, outro não é o objetivo comum dos textos de Susser & Susser, Philippe e Castiel, selecionados para compor esta seção.

Com o objetivo de subsidiar escolhas sobre o futuro da epidemiologia, Susser & Susser propõem-se a examinar a condição atual da epidemiologia em termos de sua evolução ao longo de três eras, cada uma demarcada por um paradigma: a era das estatísticas sanitárias, com o paradigma dos miasmas; a era da epidemiologia das doenças infecciosas, com o da teoria do germe; e a era da epidemiologia das doenças crônicas, com o da caixa preta. Em torno desse desenvolvimento intelectual, os autores argumentam que o atual paradigma dominante na epidemiologia, o da caixa preta, tem hoje utilidade decrescente e logo será substituído. Assim, prevêem uma nova era, por eles chamada de era da eco-epidemiologia, na qual será crucial o delineamento de um novo modelo capaz de abarcar vários níveis organizacionais, tanto moleculares e sociais quanto individuais. Objetivando integrar vários níveis em termos de desenho, análise e interpretação, propõem um paradigma, denominado de caixas chinesas, que poderá sustentar uma epidemiologia orientada para a saúde pública. Advertem ainda Susser & Susser que, para prevenir um declínio da epidemiologia criativa nesta nova era, será necessário não somente um paradigma científico plausível, mas também redobrada atenção aos processos sociais que favoreçam uma disciplina coesa e humana.

Em vez de prescrever como deverá ser o novo paradigma epidemiológico, a contribuição de Pierre Philippe busca descrever alguns resultados concretos já obtidos na investigação epidemiológica que parecem indicar novas aberturas paradigmáticas para o campo. Em primeiro lugar, o autor descreve o paradigma linear corporificado na regressão múltipla, no qual todos os fatores de risco têm efeitos diretos sobre o resultado, e na 'análise linear expandida', em que efeitos diretos e indiretos estão embutidos em modelos hierárquicos. Além desses, há a modelagem dinâmica não-linear, que possibilita a compreensão de processos dinâmicos não-lineares em redes de interações. Finalmente, Philippe descreve tentativas de modelagem com situações de dimensionalidade muito elevada, irredutíveis à modelagem dinâmica não-linear. Esse procedimento é utilizado quando o número de equações diferenciais a serem elaboradas e resolvidas é proibitivamente grande, recomendando-se a modelagem estatística fractal para tratar de sistemas complexos. Abordagens fractals permitem a sintonia fina dos processos complexos, que podem ser mais freqüentes na área da saúde do que habitualmente se supõe. Segundo o autor, são características dos sistemas complexos: alças de retroalimentação, transições de fase, atratores, reações em cadeia, auto-organização, dinâmica 'longe-do-equilíbrio', adaptação e propriedades emergentes. Tipicamente, a dinâmica não-linear é constituída por estruturas complexas em desenvolvimento, cuja 'planta' compõe-se de uma hierarquia das escalas de organização. Embora seja impulsionada pela entrada de energia proveniente do ambiente, esta estrutura complexa 'viva' está limitada a um repertório reduzido de efeitos emergentes, a despeito de sua plasticidade. Tais sistemas não encerram fatores causais, somente eventos 'contribuintes' dentro de uma infinidade de escalas.

Finalmente, o texto de Luis David Castiel aborda aspectos teóricos e conceituais do método epidemiológico, com ênfase nas dimensões metafóricas vinculadas à produção científica, de um modo geral, e à pesquisa em epidemiologia, em particular. Nesta perspectiva, discute as relações da disciplina com a lógica identitária e as metáforas empregadas, tanto em termos de causalidade como referentes à idéia de 'risco'. Para tal, o autor procede a uma breve revisão da noção de metáfora, suas relações com o chamado senso comum e com a produção de conhecimento. Avançando propostas/questões em torno de uma 'epidemiologia das metáforas', Castiel discute problemas ligados à percepção pública de construtos produzidos pela epidemiologia, descrevendo algumas tentativas de desenvolver métodos que avancem no conhecimento da situação de saúde-doença das populações, como por exemplo a incorporação de aspectos qualitativos à pesquisa populacional em saúde, conforme discutido por Menéndez neste volume. Finalmente, Castiel avalia as potencialidades de uma 'epidemiologia contextual' com base em inovações metodológicas (como, por exemplo, as redes sociohistóricas nos estudos de AIDS), ou em uma aparente reabilitação dos estudos ecológicos (Cf. texto de Castellanos nesta coletânea). Para a implementação e utilidade pragmática desta última proposta, o autor considera relevantes as tentativas de avanços conceituais com base nas noções de evento ou população-sentinela, no contexto de uma redefinição da estratégia da vigilância epidemiológica.

Os textos que compõem este volume sem dúvida constituem excelente material para um balanço necessário e oportuno das tendências da teoria epidemiológica na atualidade. Praticamente todos os autores revelam-se comprometidos com a fascinante tarefa de pensar os caminhos que se abrem para a ciência epidemiológica neste final de século.

Nesse sentido, apesar de uma adesão implícita às aberturas paradigmáticas possíveis no campo epidemiológico, Weed, Czeresnia & Albuquerque, Menéndez, Jénicek e Porta ocupam uma posição que poderíamos denominar de 'sóbria expectativa'. Em contraste, os outros colaboradores desta coletânea defendem propostas, complementares entre si, de novos paradigmas na epidemiologia. Castellanos, Marques, Schramm e Philippe não escondem o entusiasmo pelo chamado paradigma da complexidade, dando ressonância a um debate próprio da ciência contemporânea. Susser & Susser apresentam uma versão mais contida de mudança paradidmática, preconizando uma espécie de neo-sistemismo aplicado à Epidemiologia, que eles designam por 'eco-epidemiologia'. Finalmente, sintonizados com o hermeneutical turn característico da nova epistemologia pragmatista, Samaja e Castiel compartilham um forte interesse de valorização do potencial semiológico da epidemiologia, propondo uma busca do sentido na construção práxica da disciplina. Esta proposta é aliás bastante convergente com uma 'semanálise epidemiológica', no sentido indicado por Mario Testa (1997).

Consenso há em três pontos. Primeiro, observa-se em todos os autores uma saudável atitude compreensiva, postulando primordialmente sínteses integradoras (e. g., 'a epidemiologia mestiça' de Castiel) em lugar das estéreis disputas em torno do espólio da epidemiologia do risco. Segundo, conforme sistematizado nas contribuições de Samaja, Weed e Schramm, a epidemiologia deve tornar-se mais humana e reflexiva, preocupando-se cada vez mais com os aspectos éticos e políticos da saúde. Em terceiro lugar, como melhor assinalam Porta, Castellanos e Castiel, é necessário redefinir o caráter utilitarista da disciplina, superando o 'pragmatismo vulgar' dos defensores de uma epidemiologia aplicada, na linha de MacMahon e Terris. Nessa direção, Susser & Susser, dignos representantes do otimismo acadêmico columbiano, ousam anunciar o fim dos velhos paradigmas na epidemiologia. Parodiando a filosofia aplicada de Manoel Francisco dos Santos, resta esperar que os adversários estejam de acordo com as jogadas ensaiadas e facilitem a vida do time dos defensores do novo na ciência epidemiológica.

Os Organizadores

 

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